quarta-feira, julho 26, 2006

Volto já

Vou aqui deixar uma cópia de uma cópia (que encontrei no Montanhas Ibéricas) do parágrafo final do livro Viagem a Portugal, de José Saramago.
O fim de uma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já.

PS: A imagem que ilustra este post mostra o Cântaro Magro. Quem apenas o viu da janela do carro não viu nada ainda...

terça-feira, julho 25, 2006

Mas não é tão óbvio?

Para desenvolver o turismo na Serra da Estrela, o que falta são mais e melhores ofertas de actividades de ar livre e menos infraestruturas no coração da Serra. Mais trilhos, mais guias, mais cavalos e burros, mais escalada e montanhismo, mais canoas, mais bicicletas, mais parapente. Menos, muito menos, mamarrachos, menos "núcleos de recreio", menos vontade de aumentar o número de residências de férias nas Penhas da Saúde e na Varanda dos Carqueijais, menos vontade de construir casinos, menos estradas de asfalto, que as que há já chegam para a confusão daqueles fins de semana.
O que falta, nesta maravilha da natureza que é a Serra da Estrela, é turismo de natureza!
E onde ficam hospedados os turistas? Obviamente, em pensões, hotéis e parques de campismo, situados nas localidades. Nas Penhas da Saúde e e nas Penhas Douradas podem aproveitar-se as infraestruturas que já existem, mas não construir mais, para não descaracterizar estes aldeamentos. Nos outros recém-inventados "núcleos de recreio", nada! Nem construção, nem reconstrução. Quando muito, demolição!

Nem mais um mamarracho no coração da Serra da Estrela!

Ele há fanáticos e fanáticos...

Comentário deixado pelo amigo Tiago ao artigo Olha que coisa
Parece que há mais fanáticos por aí!!Estamos é muito pouco faladores! É curiosa essa ideia que facilmente passa de que quem defende o ambiente é automaticamente fanático! No Brasil e vários países Africanos com extensos Espaços Verdadeiramente Naturais as reservas ecológicas são protegidas/vigiadas pelo exército ou patrulhas florestais armadas!! Não quero com isto dizer de modo algum que se deve praticar este tipo de fiscalização em Portugal, mas por favor não me falem em "ambientalistas" fanáticos!!Diria antes que existem sim, "Urbanistas" fanáticos ou quem sabe "Urbano-dependentes" que sofrem de crises de ansiedade sempre que ficam sem cobertura de telemovel ou quando a estrada mais próxima esta fora do alcance da vista! De facto, na minha opinião, Portugal tem falta de "fanatismo", seja por que causa fôr! Não somos "fanáticos" nos nossos principios, não somos "fanáticos" na nossa cultura e identidade, não somos "fanáticos" se quer nos nossos direitos!! De facto somos é pouco "fanáticos"...

segunda-feira, julho 24, 2006

Sim, mas isso foi há muito tempo...

Edição de 22 de Julho do Público, suplement Local—Centro. Notícia sobre a anunciada redução da área do Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE). Refere a notícia declarações do director do PNSE, Fernando Matos. A páginas tantas, escreve-se
... [Fernando Matos] adiantou que existem zonas cuja inclusão na área protegida já não se justifica, dada a sua "degradação e ausência de valores naturais assinaláveis".
Deixem-me realçar a parte que me interessa: existem zonas cuja inclusão na área protegida não se justifica.
Não sei se esta parte, a que realcei, terá mesmo saído da boca de Fernando Matos, se terá sido sugerida implicitamente, ou se, pura e simplesmente, foi invenção do jornalista que colheu as declarações. Seja como for, o que esta frase diz é que, no passado, se justificava a inclusão destas zonas na área protegida porque, então, tinham valores naturais assinaláveis. Ou não é isso?

Olha que coisa!

Veja-se só o que encontrei na web. Isto é uma notícia publicada há cinco anos pelo Ecoesfera do Público, por altura do 25º aniversário do Parque Natural da Serra da Estrela.
16-07-2001

Um quarto de século de Incêndios e Pressão Turística

Parque Natural da Serra da Estrela faz hoje 25 anos

O Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE), a maior área protegida do país, faz hoje 25 anos. Mas há pouco para comemorar. A pressão turística, sobretudo no Inverno por causa da neve, e o flagelo dos incêndios têm vindo a delapidar importantes valores naturais e a empobrecer os solos. "Um desastre!", sintetiza o botânico Jorge Paiva.

Helena Freitas, presidente da Liga para a Protecção da Natureza (LPN), acha que o PNSE tem sido "votado ao abandono" pelo Instituto de Conservação da Natureza. "Não sei porquê, mas o Parque da Serra da Estrela tem sido esquecido, como se não valesse a pena. Parece que só serve para manter a neve lá em cima. Não entendo, porque a Estrela é das melhores coisas que nós temos", sustenta. Na Serra da Estrela, o que mais impressiona Jorge Paiva é "a maneira como as populações serranas sempre souberam viver na montanha" e a diversidade biológica existente. "Há muitos elementos florísticos que só existem ali, não se encontram em mais nenhum lugar do mundo", diz. A importância natural do PNSE decorre da altitude e da sua localização central em relação ao país. Estes dois factores fazem com que receba influências "quer do Mediterrâneo, quer do Atlântico, quer do norte da Europa e da zona continental, o que não acontece com mais nenhuma área protegida nacional", salienta Fernando Matos, o director do parque. É este conjunto de influências que explica a existência na Estrela de uma diversidade de habitats sem paralelo no país. O botânico holandês Jan Janser é provavelmente a pessoa que melhor conhece a riqueza daquela área, onda passa temporadas em trabalhos de campo, e não tem dúvidas em afirmar que o PNSE "é a jóia da coroa" dos parques naturais portugueses.

Quero destacar "Um quarto de século de Incêndios e Pressão Turística", "jóia da coroa dos parques naturais portugueses", "a Estrela é das melhores coisas que nós temos", "Um desastre!"
Como se vê, o Cântaro Zangado não é propriamente original...

Talvez sim, talvez não...

No Público de quinta-feira 20 de Julho, aparece, no suplemento Local—Centro uma notícia (mais uma) a anunciar a abertura do bikepark. A parte que me interessa aqui é a última frase:
Ainda este Verão, a Turistrela disponibilizará outras atracções, como passeios pedestres, canoas e gaivotas nas lagoas, papagaios de manobras e geocaching.
Repito, para dar realce: este anúncio foi feito no dia vinte de Julho.

Nave de Santo António

Quem a viu da janela do carro apenas não viu nada ainda.

quinta-feira, julho 20, 2006

Oops...

Se calhar enganei-me sobre o o sanatório e a anunciada como provável parceria com o Sheraton. Se calhar aquilo vai mesmo para a frente. Veja esta notícia.
Mas, ainda assim, é melhor esperar para ver...

Oops2: o link para a notícia estava errado. Agora já está bem.

Nota posterior: sexta-feira, dia 21 de Julho, saiu no Público, suplemento Local-Centro, outra notícia com o anúncio da conclusão "para breve" das negociações com o grupo Sheraton... Pode ser que sim, que reparem o edifício e que não estraguem muito o espaço à volta.
Mesmo assim, anúncios destes, parece-me que podemos contar uns poucos por ano, desde meados da década de 90...

Está calor demais

E estou farto de tristezas. Deixo aqui esta imagem para desnuviar! Boa tarde...

Também será fundamentalista?

Referi ontem que o presidente da Região de Turismo da Serra da Estrela (RTSE), Jorge Patrão, classificou como "fundamentalista" a oposição da Quercus e da LPN à diminuição da área do Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE). Tomei conhecimento dessa reacção num artigo do Público de 19 de Julho, suplemento Local - Centro. Não o encontrei no site do jornal, de forma que o digitalizei. Pode agora fazer o dowload daqui.
Aqui ficam alguns comentários.
  • A páginas tantas Jorge Patrão refere que a serra da Estrela "está cansada de posições de líderes urbanos, lobistas, mas desconhecedores do que é o interior de Portugal". Acho estranho. De que maneira é que as posições destes "líderes urbanos" têm condicionado o desenvolvimento da Serra? Que estradas é que eles impediram, que mamarrachos é que eles deitaram abaixo, que centros comerciais na Torre é que tiveram que fechar por causa deles? Deixemo-nos de coisas, parece-me evidente que a Serra da Estrela está muito mais marcada pelas posições de outros líderes, talvez não tão urbanos como aqueles (e que interessa isso?) mas que parecem muito, muito mais eficientes na actividade lobista. Bem sei que se trata apenas de aparências, mas como classificar o regozijo de Artur Costa Pais (principal proprietário da Turistrela) com a nomeação de Luís Patrão, irmão do próprio Jorge Patrão, para o Instituto de Turismo? Isto pode não ser o resultado de uma terrivelmente eficiente máquina de lobbying, mas lá que parece...
  • Jorge Patrão afirma que os ambientalistas se deviam preocupar mais com a degradação da Torre, com os incêndios e (!) com o edifício do Sanatório dos Ferroviários. Bom eu preocupo-me com a Torre. Acho que deviam demolir e remover o entulho daqueles mamarrachos. Jorge Patrão, que manda muito mais do que eu e do que os líderes urbanos lobistas das organizações de defesa do ambiente, acha que se lhes deve dar uma demão de pintura e ala, aqui temos um "observatório panorâmico", um restaurante de luxo e um ponto de venda de forfaits para a estância de esqui da Turistrela (ver aqui)! A Turistrela considera que o problema da limpeza na Torre "é uma preocupação, não uma obrigação" (veja aqui), e no entanto, não ouvi Jorge Patrão criticar esta empresa por ela não se ralar, verdadeiramente, com o ambiente da Serra, como agora acusa os ambientalistas.
    Sobre os incêndios, não sei o que Jorge Patrão quer dizer... Conhece algum ambientalista que não se preocupe com os incêndios, particularmente com os incêndios em áreas protegidas? Mais uma vez, nunca notei que Jorge Patrão fizesse críticas semelhantes à Turistrela. E a Turistrela podia, se quisesse saber disso, fazer algo. Por exemplo, veja-se o que a Sumol e a Água Serra da Estrela estão a fazer.
    Finalmente, essa do edifício do sanatório só pode ser brincadeira. O edifício pertence à Turistrela, que anda há que séculos à caça de parceiros. Primeiro era o grupo Pestana, depois era a cadeia Sheraton, ultimamente não se tem falado nisso... Não sei, mas começo a suspeitar que talvez a dificuldade em encontrar parceiros se prenda principalmente com os termos da parceria proposta e com a qualidade do parceiro que a propõe...
    Agora a sério. Quem manda mais na Serra, a Turistrela ou a Quercus? Qual o espaço de intervenção dos ambientalistas aqui na Serra? O que é que os tais líderes urbanos lobistas estão a fazer com estas manifestações, senão a mostrar preocupação, nos termos em que o podem fazer, com o futuro da Serra?
  • Sobre o epíteto "fundamentalista" escrevi há tempos um artigo que pode encontrar aqui. Resumindo, concluo nesse artigo que, se ser fundamentalista é querer preservar o ambiente da Serra da Estrela, então sou, assumidamente e com orgulho, fundamentalista. E, aqui para nós, espanta-me que Jorge Patrão, ocupando a posição que ocupa, não o seja também, e ainda mais do que eu. Porque o que de facto está em causa no rumo que o "desenvolvimento" da serra está a tomar, não é o sacrifício do interesse de todos à preservação do ambiente, é antes o sacrifício do interesse de todos e o sacrifício do ambiente, ao interesse de apenas alguns.
Esta redução da área do PNSE estava já, parece-me, incluída no plano director do parque que, em Março, foi objecto de fortes críticas (em bases que não lembram ao diabo, veja-se este artigo e mais este) por parte de Jorge Patrão. Ou seja, Jorge Patrão também não concorda (ou não concordava em Março) com esta alteração no PNSE, mas porque ela lhe parece insuficiente!
No quadro de degradação generalizada do ambiente no nosso país, defender a existência de "núcleos de recreio" (ainda mais do que os que já existem), projectados à imagem do pior que se fez no Algarve, em pleno coração do PNSE...
Quem é que aqui é fundamentalista?

O Parque Natural da Serra do Fogo

Ver no Estrago da Nação.

A diminuição das áreas protegidas

No mapa acima representa-se a fronteira actual do território do Parque Natura da Serra da Estrela (PNSE) (a linha preta). Para ter uma melhor ideia da localização do parque, compare com o mapa que apresentei neste artigo. A mancha a verde claro representa o Sítio Serra da Estrela da Rede Natura 2000 e, a verde mais carregado, aparece a reserva biogenética. (As zonas sombreadas a tracejado representam as áreas ardidas em 2005. Aparecem aqui porque retirei este mapa do Relatório sobre Incêndios Rurais na Rede Nacional de Áreas Protegidas na Rede Natura 2000).
Recentemente, surgiu nos meios de comunicação a notícia de que o ministério do ambiente pretendia reduzir a área de algumas zonas protegidas, começando pelo Parque Natural da Serra da Estrela, que verá o seu território reduzir-se ao do Sítio RN2000 (a mancha a verde claro na figura acima). Informe-se sobre este assunto, por exemplo, aqui.
Os ambientalistas, em particular as associações Quercus e Liga Para a Protecção da Natureza manifestaram-se contra esta decisão do governo (ver notícia aqui). No que respeita ao PNSE, os argumentos invocados pelos ambientalistas prendem-se com receios de que esta redução tenha sido decidida apenas para permitir investimentos com objectivos imediatos, nomeadamente ligados a interesses do sector imobiliário, que consideram poderão ter mais tarde efeitos desastrosos sobre o ambiente.
Eu não sei. Francamente, assim como peço aos promotores do "desenvolvimento" que costumo aqui criticar que expliquem, concreta e detalhadamente, de que maneira é que os seus projectos vão, de facto, traduzir-se em desenvolvimento, gostava também de ver os que sinto como meus aliados naturais explicarem melhor quais são os investimentos que referem, de que maneira se tornarão desastrosos e qual o valor ecológico das áreas em jogo. Não é que não acredite no que dizem, é que gostava de ficar a conhecer os detalhes. Não se pense, por isto que acabei de dizer, que concordo com a decisão do governo. Gostava apenas de saber mais sobre as razões que os ambientalistas invocam, neste caso concreto do PNSE.
O que me aborrece a sério nesta medida não é tanto a questão do PNSE. É que, desde que se iniciou a definição de áreas protegidas em Portugal (há cerca de trinta e cinco anos), a tendência geral tem sido a do aumento das áreas protegidas e do seu grau de protecção. Isso tem-se feito com a definição de novas reservas ou com a reclassificação das existentes em níveis mais exigentes de protecção (e como gostava de ver o PNSE ser promovido a Parque Nacional!). Quanto a mim, parece-me que esta tendência é positiva. Mas temos que reconhecer que se trata de evolução no papel, apenas, que nem sempre se traduz em protecção ambiental efectiva. Por exemplo, o Parque Natural da Arrábida pode ser, no papel, uma zona protegida, mas não se pode dizer que a sua situação ambiental (com a cimenteira e todas as pedreiras que lá operam) beneficie muito com isso (bom, podemos sempre argumentar que podia ser pior)... Aqui no Cântaro, tenho dito coisas semelhantes sobre o PNSE. O facto de esta ser a triste realidade, torna os ambientalistas particularmente susceptíveis quanto à protecção daquilo que alguns chamam as jóias da coroa, os nossos espaços "protegidos". Para mim, o que se passa é muito simples: o governo (os governos, que isto não é de agora) já verificou que não consegue (por ter pouca vontade, parece-me) proteger as zonas que classificou como protegidas e, por isso, resolveu começar a desclassificá-las. Evitam-se assim alguns dissabores como este.
Concordamos com isto? Eu não concordo, gaita!

PS: Muitas das links que aqui incluí tirei-as do Ondas. Mais uma vez, agradeço ao Otávio o magnífico trabalho que vem desenvolvendo. Para dar, completamente, o seu a seu dono, quero também agradecer ao João do Montanha a link para o Relatório sobre os Incêndios, de onde retirei o mapa.
PPS: Completamente descabida é a reacção de Jorge Patrão (o presidente da Região de Turismo da Serra da Estrela) à oposição dos ambientalistas. Adivinhe lá que palavra usou para a classificar, vá, vá... Está-se mesmo a ver: fundamentalista! Ai, ai, ele há gente tão previsível... (Veja as declarações de Jorge Patrão no Público de 19 de Julho, secção Local-Centro)

quarta-feira, julho 19, 2006

Como ia dizendo

Vejo agora no Kaminhos que a Imobiliária Brancal quer entrar na corrida pela exploração do Casino da Serra da Estrela. Pessoalmente, acho uma tristeza que haja mais quem considere que o que falta na Serra para desenvolver o turismo são casinos e estradas para a Torre(1). Em abono da verdade, diga-se que Luís Veiga defende que o casino não deve ficar no alto da serra (mas, tanto quanto sei, ninguém defende essa opção), devendo antes situar-se "em áreas populacionais" com atractivos complementares e que permita clientes diários. Se isto significa que Luís Veiga pretende que o casino fique instalado no sopé da serra, por exemplo na Covilhã, em Seia ou em qualquer outra verdadeira localidade da região, nada tenho a objectar (nem a apoiar, acho que isto nada tem que ver com um verdadeiro turismo de montanha). Infelizmente, aquela expressão pode aplicar-se a localidades virtuais como as Penhas da Saúde, dado que o presidente da câmara da Covilhã insiste em transformá-las numa "aldeia de montanha".
É uma grande decepção o que sinto por ver uma empresa regional forte, que poderia ajudar a refazer o actual rumo suicida do desenvolvimento do turismo na serra, a tomar as bandeiras da Turistrela como suas. Por mim, se é para isso, já chega a Turistrela. E volto ao meu refrão:
Se uma empresa (destas) estraga muitos montes, duas empresas (destas) estragam muito mais. Se duas empresas (destas) estragam muitos montes,....

(1) Falo de estradas para a Torre porque suspeito que foi a Imobiliária Brancal, empenhada no projecto das termas de Unhais da Serra, que convenceu a Câmara da Covilhã da necessidade do alargamento e da pavimentação do caminho Unhais-Nave de Santo António, permitindo o acesso rodoviário directo desta vila ao maciço central (referi-me a isto há alguns dias, ver aqui). Uma empresa seriamente apostada em desenvolver o turismo na Serra da Estrela pensaria primeiro em dinamizar actividades de ar livre, como se faz, por exemplo, no Gerês, com um sucesso que salta à vista de todos. Como é evidente, essas actividades poderiam aproveitar o magnífico Vale da Alforfa, que desemboca em Unhais e que será atravessado pela futura estrada. Quando o vale estiver assim "desenvolvido", quero ver que turistas estarão dispostos a pagar por passeios a cavalo ou por passeios a pé guiados...
A ver se se entende: as estradas são más para a natureza, logo, são más para o turismo de natureza, logo, são más para o turismo na Serra da Estrela! As que já temos já chegam e sobram.

Uma polémicazita...

De acordo com o que li no Máfia da Cova e no Kaminhos, Luís Veiga, empresário da Imobiliária Brancal, afirmou recentemente que "a Turistrela perturba a qualidade da montanha". Ora bem, isso parece-me evidente.
Deixei este comentário no Máfia:
Também sou da opinião que a turistrela faz mais mal que bem à serra. Mas porque as autoridades e as populações deixam.
Devíamos começar a tomar como evidente que o objectivo destas empresas, de qualquer empresa, não é o desenvolvimento da região, nem evitar a desertificação, nem nada disso. Elas andam aí para ganhar dinheiro, e fazem muito bem. Mas, uma vez que não estão aqui especificamente para nos ajudar (não quer dizer que não possa ou não deva haver interesses comuns, claro), devemos (populações e autoridades) mantê-las sob vigilância. Como não conseguimos fazer isso nem com uma única empresa a actuar, duvido que o consigamos fazer com duas ou mais.
Assim, receio que sem a atitude correcta por parte do PNSE, da RTSE, dos autarcas (e os que temos são aquilo que Pedro Guedes de Carvalho diz) e populações em geral, se aplica a cançoneta: se uma empresa estraga muitos montes, duas empresas estragam muito mais; se duas empresas estragam muitos montes, três empresas estragam muito mais, etc, etc, etc.
Lendo o artigo todo no Kaminhos, ficamos a saber que a defesa da Turistrela face a este ataque foi assumida, não por um funcionário desta empresa, mas pelo presidente da Região de Turismo da Serra da Estrela... Tanto quanto sei, aliás, vinte e quatro horas depois das acusações de Luís Veiga, a Turistrela ainda não se pronunciou. Acho esta situação curiosa...

Quem me dera...

... Ter sido eu a ter esta ideia! Impagável! De rolar pelo chão! Cinco estrelas!

Incêndios II

O Montanha tem um bom artigo sobre os efeitos do fogo no Parque Natural da Serra da Estrela, que cita directamente (com links) um documento do Instituto da Conservação da Natureza.

terça-feira, julho 18, 2006

Incêndios

Referi no último artigo que me parecia que o PNSE tinha, devido aos incêndios, perdido uma "percentagem muito, muito razoável" do seu coberto florestal.
Hoje possso concretizar um pouco melhor. É que, por acaso, ando a ler o livro "Portugal: o vermelho e o negro" de Pedro Almeida Vieira, sobre a recorrente problemática dos incêndios. Aproveito para recomendar vivamente esta leitura. Pode também dar um salto ao blog do autor.
Citando dados do Instituto de Conservação da Natureza, Pedro Almeida Vieira informa na pág. 229 (cap. A ruína das jóias da coroa) que, desde 1992, arderam no PNSE 58000 ha. Só nos anos de 2003 e 2005, "foram-se" 20000 ha. A área total do PNSE é de cerca de 101000 ha. Ou seja, mais de metade do seu território ardeu nos últimos 14 anos. Foi a região protegida mais fustigada tanto em termos absolutos como em termos relativos.
Catastrófico para o ambiente, catastrófico para a paisagem, catastrófico para o turismo.

segunda-feira, julho 17, 2006

Contribuição para um balanço dos 30 anos.

Este ano o Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE) faz 30 anos. Desde que foi fundado, o parque viu a sua razão de existir ser reconhecida com a declaração de reserva biogenética, com a integração na rede Natura 2000 e, já este ano, com a aplicação da Convenção Ramsar às suas lagoas. Por aqui, óptimo! Por outro lado, tanto quanto sei, não se avançou nem um milímetro na reintrodução de grandes mamíferos extintos como lobos, corços ou cabras-montês. Suspeito que, devido aos incêndios, o parque terá perdido, nestes 30 anos, uma percentagem muito, muito razoável do seu coberto florestal.

Apesar de já não ser possível a venda ambulante na Torre, o que a substitui (o centro comercial "Espaço Diamante", ou lá como se chama) não é muito melhor, e não se impediu, com esta e outras mudanças e "requalificações", o continuar da vergonha da lixeira desta zona da Serra (o cume).

Foi possível, creio que no final dos anos setenta, remover da Nave de Santo António as construções ilegais que a cobriam, mas parece já não terem restado forças para repetir o feito nas Penhas da Saúde. Antes pelo contrário, suspeito que actualmente já todas as barracas de lata deste futuro "aldeamento de montanha" (as que existiam há trinta anos e as que entretanto foram sendo construídas) têm a sua situação legal regularizada, graças à benevolência dos diferentes executivos camarários da Covilhã...

O PNSE fez por ter este ano um pouco mais de visibilidade, não sei se apenas para efeitos das festividades do aniversário. Entre outras iniciativas, realizaram uma série de conferências, organizaram um conjunto de passeios pedestres guiados no dia 16 de Julho (foi antes de ontem, como terá corrido?, raios me partam, devia-lhe ter dado aqui alguma divulgação!), com origem nas várias capitais de concelho da Serra da Estrela, concentrando-se todas no Vale do Rossim para um convívio alargado. Nesta mesma zona, definiu-se e sinalizou-se um "percurso pedestre universal" com 600m de extensão, apropriado para visitantes portadores de deficiências. Há trinta anos, quando foi fundado, o PNSE iniciou um esforço para definir, documentar e sinalizar a rede de percursos de grande rota da Serra da Estrela. Este esforço ficou completado penso que por volta de 1983. Os onze trilhos (três principais, com diversas variantes cada um) que compõem esta rede têm uma extensão total de trezentos quilómetros. Têm extensões desde 11,4 km (a variante T31) a 76 km (o trilho T1). Desde a data da sua criação, porções desses trilhos foram asfaltados e são agora estradas municipais.

Face a tudo isto, mesmo reconhecendo que a função principal do PNSE não é o desenvolvimento do turismo de montanha e do pedestrianismo, mesmo admitindo que muito do trabalho realizado não seja imediatamente visível por não especialistas como eu, como evitar a sensação de que o PNSE perdeu ímpeto nestes trinta anos, de que não consegue convencer as "forças vivaças" de que o rumo tem que mudar, de que não tem força ou entusiasmo para mais do que a colocação de umas placas informativas (outras com proibições difíceis de entender, vista a desgraça permitida na Torre)? O que fazem este ano é melhor que nada, claro, mas não parece tão poucochinho, dada a sua actividade nos primeiros anos? PNSE, por favor, coloca-te à altura das funções de que te incumbiram, à altura da promessa que foram os teus anos de infância.

Seja como for, PARABÉNS ao PNSE! Que faça muitos.

sexta-feira, julho 14, 2006

Comentário no blogue Cortes do Meio

O blogue Cortes do Meio divulgou uma notícia que apareceu em diversos orgãos de informação regionais, sobre a construção do complexo de termas de Unhais da Serra.
Porque associado a este projecto parece estar o alargamento e pavimentação do caminho entre Unhais da Serra e a Nave se Santo António, de forma a permitir o trânsito de ligeiros, coisa com a qual não concordo, deixei lá o comentário que aqui transcrevo.
"O novo complexo turístico vai ser acompanhado de obras a cargo da Câmara da Covilhã em infra-estruturas diversas e vias de comunicação da vila, num valor aproximado de dois milhões de euros."
Entre estas infraestruturas conta-se, receio, o alargamento e pavimentação do caminho para a Nave de Santo António. A obra foi quase concluída há alguns anos, faltando apenas o segmento (com perto de dois quilómetros) entre a Vila do Belo Horizonte e o Covão do Ferro.
Parece-me que Unhais ficará mais pobre quando este acesso estiver concluído porque o vale da Alforfa terá muito menos interesse paisagístico. É que, mantendo-se o vale como ainda está, seria talvez viável vender passeios guiados a pé, de cavalo, de burro, em bicicleta, pelo vale dentro. Estes produtos poderiam complementar as ofertas integradas neste grande empreendimento turístico-termal, diversificando-as e aproveitando as fabulosas condições naturais de Unhais da Serra. Com a estrada concluída, receio que apenas será viável o costume: tristes voltinhas de carro e pouco mais. A continuar este rumo para o desenvolvimento, se quisermos que os turistas cá deixem verbas, temos que instalar bombas de gasolina pelas inúmeras estradas que estamos a rasgar na Serra da Estrela.
Mais de resto, devo dizer que me parece bem este investimento. É mais um que marca uma diferença importante, pela qualidade, ao que se costuma fazer na Serra (outro de que me estou a lembrar é o da Casa da Lapa Mourisca, na Lapa dos Dinheiros). Oxalá seja coroado de sucesso! Mas o meu entusiasmo seria muito maior se não tentassem, com esta estrada, satisfazer a procura da neve, à custa da degradação da paisagem, da poluição e do afunilamento das possibilidades de desenvolvimento do turismo na serra da estrela.

quinta-feira, julho 13, 2006

Sai um heliporto ali para a bancada do PS!

Srs. deputados eleitos pelo PS no círculo de Castelo Branco, uma vez que parecem preocupados com a falta de um heliporto no maciço central, deixo acima uma sugestão. Que tal? Sem ser especialista, até me parece que é capaz de permitir o estacionamento de dois helicópteros em simultâneo (é sabido que a redundância é um elemento vital de qualquer sistema de segurança). Só falta pintar o proverbial H!

PS: Chamonix, nos Alpes franceses, na região do Monte Branco, perto da Itália e da Suíça, é uma importante estância turística de montanha. Milhares de esquiadores e montanhistas passam férias, ao longo de todo o ano, nesta localidade. Saibam os senhores deputados que os helicópteros dos serviços de resgate de feridos passam o dia a tirar pessoas incapacitadas por quedas, avalanches, congelamentos, mal de montanha, etc, dos montes das redondezas. O número de voos diários, quando lá estive há 15 anos, ultrapassava a dezena. Senhores deputados, contem os heliportos com que os franceses equiparam o maciço do Monte Branco, se fazem o favor... E deixem-se de tretas!

Reincidente irrelevância

Os deputados eleitos pelo PS pelo distrito de Castelo Branco voltam à carga! Segundo li no blogue Montanha, que por sua vez cita O Primeiro de Janeiro, os incansáveis deputados eleitos pelo círculo de Castelo Branco escreveram um novo requerimento, novamente preocupados com os graves problemas do maciço central da Serra da Estrela.
Não, não se trata das permanentes agressões ao ambiente que o Parque Natural (PNSE) parece incapaz de deter, nem da desflorestação acelerada de que a serra, como resultado dos incêndios, tem sido vítima, nem da incapacidade das populações locais para comercializarem eficazmente o produto das actividades tradicionais. Não tem nada que ver o errado desenvolvimento do turismo, cada vez mais mais afunilado em termos de oferta: desenvolvem-se as tretas urbanóides (turismo residencial, turismo urbano, estância de esqui ampliada, novas estradas nacionais, urbanizações, casino, shoppings, telecabines) que, decidida e inexoravelmente, estão a transformar a Serra num novo Algarve, e resta cada vez menos espaço e menos iniciativa para as diferentes facetas dos turismos rural e de natureza, mais promissores a médio e longo prazo e muito mais respeitadores do ambiente.
Nada disso. Os senhores deputados continuam muito preocupados com a questão da segurança no maciço central. Assim, requerem ao governo que faça um levantamento das condições de segurança na Serra da Estrela e notam, alarmados, que não existe nenhum heliporto que permita a rápida evacuação de feridos graves no maciço central! Credo!
Agora digo eu: notem os senhores deputados que, no maciço central, não há nenhum (nem um!) espaço de estacionamento reservado a ambulâncias! Nem a deficientes. Não há uma única passadeira para peões entre a Covilhã e o Sabugueiro! Não há um posto para prestações de primeiros socorros, nem uma oficina para reparações de automóveis com avarias. Sabiam que os montanheiros e caminheiros, na Serra da Estrela, têm que beber água não tratada das fontes e nascentes? Que muitos animais selvagens (quase todos, atrevo-me a dizer) nunca foram inspeccionados por veterinários? Que as víboras têm veneno (e, tanto quanto sei, não dispõem dos documentos que as autorizem ao transporte de substâncias químicas perigosas)? Sabiam que há pessoas (muitas) alérgicas ao polen das flores da Serra, e ninguém parece interessado em ocupar-se deste gravíssimo problema?
Enfim, já aqui têm, senhores deputados, uma pequena lista de ideias para futuros requerimentos, que tal?
Agora a sério, e que tal ralarem-se mas é com os verdadeiros problemas da Serra da Estrela e das suas populações?

PS: Digo que os srs. deputados do PS voltam à carga, porque, em Maio, fizeram outro requerimento ao governo, dessa vez sobre a falta de cobertura de rede de telemóvel no maciço central. Escrevi sobre isso aqui e aqui.
PPS: A propósito, terá o governo dado resposta ao anterior requerimento?

quarta-feira, julho 12, 2006

Há parvoíce maior que esta?

A figura acima (obtida na face sul do Cântaro Gordo, acima do Covão Cimeiro, na semana passada) mostra duas marcas sinalizadoras de trilho, uma encostada à outra. À esquerda, vemos o tradicional montinho de pedras; à direita, a uma mão travessa de distância, uma fitinha de plástico atada a uma pedra. Quem vê um, vê a outra.
Qual a necessidade de deixar este lixo das fitinhas de plástico na serra, que se vão rasgando e se espalham pela paisagem, sobretudo em locais como este, onde é tão fácil sinalizar o caminho de formas mais respeitadoras do ambiente?
Quem foi o responsável por isto? Vejamos mais de perto: Portanto, esta e outras fitinhas parecem ter sido colocadas pelo INATEL. Para quê? Porque não as retiram no final das suas actividades? É aceitável este procedimento?

Pelo Montanha, fiquei a saber que o C.C.D. Amigos Vila de Mouros vai organizar na noite de 15 para 16 de Julho (no próximo fim de semana, portanto) a 14ª Marcha Nocturna, suponho que entre a Vila do Carvalho e a Torre, numa extensão de cerca de 17km e um desnível de perto de 1500m. É uma experiência que recomendo vivamente.
Não quero de forma alguma criticar os Amigos Vila de Mouros, antes pelo contrário. Fico muito contente por saber desta iniciativa. Mas não pude deixar de notar que, como indicam no site, o trajecto estará assinalado com fitinhas de plástico e a INATEL apoiará a iniciativa. Espero que, ao contrário do exemplo dado por esta entidade apoiante, removam as fitinhas no final da actividade. Já há plásticos a mais na Serra, deixados por quem não deseja receber dela senão uma pequena parte do que ela pode oferecer. A ver se nós, os outros, não ajudamos à festa da porcaria...

A Serra Turistrela-Vodafone...

Esta fotografia mostra o bunker onde a Turistrela instalou os serviços de venda de forfaits e de aluguer do material de esqui. De acordo com anúncios desta empresa, pretende-se num futuro não muito longínquo construir um hotel sobre o que se vê, com todas as garantias de que ficará harmoniosamente integrado na paisagem.
Deixemos de lado as dúvidas suscitadas pelo facto de não terem elevado mais a construção (ter-se-á ficado a dever a falta de verbas, ou a falta de autorizações?). Queria era deixar no ar outra questão: pelo exemplo de discrição dado por este edifício tão baixo, quase enterrado, que valor podemos atribuir às promessas de harmonização paisagística dos dois andares que a Turistrela lhe pretende adicionar?
Vou acabar a frase que dá título a este artigo. A Serra Turistrela-Vodafone é isto?
QUE FOLEIRICE!!

Uma manhã na Serra

Há alguns dias, escapuli-me para a Serra. Saí de manhãzinha do Covão d'Ametade, subi pelo trilho (apanha-se este trilho no lado esquerdo do açude que há lá ao fundo, do lado oposto à estrada) até ao Covão Cimeiro (ao que ouvi dizer, este local é reserva integral. Por favor não saia do trilho), continuei a subir até ao topo do Cântaro Gordo. Aí chegado, passei a pequena (e aérea) portela para o corpo principal do maciço central e aproximei-me da estrada nacional na proximidade do cruzamento para a Torre. Atravessei a estrada e apanhei a Rua dos Mercadores, até perto da Santa, onde me reabasteci de água. Continuei o passeio pelo trilho que desce da Santa até à Nave de Santo António (esta canada foi recentemente limpa do mato que a invadia pela Associação de Produtores Florestais do Paúl) e daí regressei ao Covão d'Ametade. Vim almoçar a casa. Distância percorrida: cerca de 10km, não mais do que 300m em estrada. Duração: três horas e pico.
Enchi os olhos de flores e bichos, os pulmões de ar puro, a alma (ou lá o que raio é) de liberdade. As fotos que aqui incluo foram todas tiradas nesse dia. Além da Serra das flores (acho que esta à esquerda foi escolhida como logotipo da Câmara de Seia, e que feliz escolha!) e dos animais (só consegui desta vez apanhar o chasco cinzento que aparece na foto do cimo, à esquerda), pude "usufruir" (não é possível escapar-lhe, essa é que é a verdade!) da Serra do desenvolvimento, da Serra do turismo triste, da Serra dos projectos "sem impactos ambientais". Dou uma amostra à direita e em baixo (fotos tiradas na zona da estância de esqui). Prefiro poupar os leitores às fotografias que tirei aos bocados de trenós, aos plásticos, aos sacos com lixo de piqueniques, enfim, às "flores" que infestam a zona da Torre.

sábado, julho 08, 2006

Mamarrachos? Não, obrigado!

O edificio em cima foi construido nos anos setenta para servir como estação de saída do ex-futuro teleférico Piornos-Torre. Este importantíssimo investimento (tão importante que a sua construção foi um dos objectivos da criação da Turistrela, ou pelo menos assim está referido no decreto lei que a criou) foi feito, mas o teleférico nunca chegou a funcionar por razões de segurança que, aparentemente, só se tornaram evidentes depois de estarem os trabalhos praticamente concluídos (como diz o outro, não há pior cego do que o que não quer ver). Durante mais de 20 anos, as estruturas do teleférico ficaram a apodrecer, os cabos suspensos sobre a Nave de Santo António, num autêntico monumento à estupidez. No final dos anos noventa, toda a instalação foi (e bem!) removida, numa operação que custou várias ordens de grandeza mais do que a construção inicial (diga-se de passagem, esta lição não serviu de nada, há já projectos para novos elefantes brancos deste tipo). Toda a instalação foi removida? Não, nem toda. Resiste ainda este enorme mamarracho, que ficou aqui esquecido. Terá sido mesmo por esquecimento? Não sei. Sei é que a Turistrela anunciou a intenção de aproveitar este indescritível horror arquitectónico, transformando-o numa espécie de piscina tipo Caldeia (em Andorra). Façam um favor à Nave de Santo António e a todos os amantes da Serra (turistas incluídos): removam mas é este lixo daqui!


Os monos que agora aqui apresento, tristemente célebres, são parte dos restos da estação de radar da Torre. Não sei se esta estação terá sido muito importante no balaço geral de forças nos anos sessenta, ou sequer se terá sido relevante para o papel português na NATO. Sei é que essa importância se esgotou, aparentemente, após cerca de 15 anos de utilização. Trinta anos depois de ter sido desactivada esta base, qual será o destino mais razoável a dar a todos estes mamarrachos? É deitá-los abaixo e limpar o entulho, o mais depressa possível! Infelizmente, como se pode ler aqui, a Turistrela (contando com o costumeiro apoio da Região de Turismo da Serra da Estrela) quer aproveitar estes horrores (mais apropriados para cenários de filmes rascas de ficção científica) para apoio no aluguer de material de esqui e na venda de forfaits da estância, para um restaurante com vista para as pistas de esqui e para um "observatório panorâmico" (expressão introduzida por Jorge Patrão, talvez por considerar o termo "miradouro" demasiado vulgar para tão sofistificados mamarrachos). Deixem-se disso! Tirem mas é este lixo daqui!

Referi apenas dois exemplos, mas há outros. E ainda temos que considerar os que a Turistrela planeia: estações para os novos teleféricos para a Torre (partindo um da Lagoa Comprida, do lado oposto à estrada nacional, o outro do Covão do Ferro); hotéis na Torre e nos Piornos; aparthotéis na Varanda dos Carqueijais; centro comercial nas Penhas da Saúde; não-sei-o-quê-mais no Vale do Rossim e na Lagoa Comprida...

Ou começamos a fazer as coisas bem, ou não sei onde isto vai parar... E fazer as coisas bem, para já, é demolir o que nunca, mas mesmo nunca, devia ter sido construído!

Não é só dizer mal

Tenho aqui frequentemente criticado o discurso e as atitudes de Jorge Patrão, o presidente da Região de Turismo da Serra da Estrela (RTSE). Hoje quero, nalguma medida, fazer o contrário.
Nos últimos tempos, tenho lido notícias de intervenções de Jorge Patrão em defesa da necessidade da reflorestação da Serra. Parece-me que esse investimento (o da reflorestação) é muito mais urgente e turisticamente muito mais produtivo a médio e longo prazo do que a ampliação da estância de esqui, do que a recuperação dos mamarrachos (que deviam era ser demolidos, a começar pelas que ele chamou "torres das bolas", na Torre), enfim, do que aqueles projectos que normalmente o vemos a defender. Essas notícias são, por exemplo, esta (já de há duas semanas) e mais esta (de antes de ontem).
Devo dizer, para ser franco, que a primeira notícia me parece pouco genuína. Ao fim e ao cabo, nela colam-se afirmações de Samuel Infante, elemento da Quercus-Castelo Branco, de António Covita Batista, presidente da Associação de Produtores Florestais do Paul, e de Jorge Patrão, mas sem que se perceba que tenha havido uma conferência, reunião ou palestra no âmbito da qual elas tenham sido proferidas. Tanto quanto podemos saber pelo artigo, as opiniões destas três personalidades podem até ter sido recolhidas em anos diferentes... Seja como fôr, aplaudo a preocupação e o empenho demonstrados por Jorge Patrão.
Devo dizer ainda mais. À procura das referências para os dois artigos que apontei acima, fiz no google uma pesquisa por "patrão reflorestação estrela". Pude encontrar vários artigos (por exemplo, este) sobre uma intervenção de Jorge Patrão por alturas do grande incêndio do Verão de 2005, onde ele afirmava que a RTSE tinha elaborado um plano estratégico para a reflorestação da Serra, que tinha ganho oportunidade e, até, urgência, como resultado da tragédia que foi o referido incêndio. Fantástico, não posso senão aplaudir!
O facto de só com um ano de atraso me ter apercebido desta intervenção de Jorge Patrão pode, evidentemente, significar apenas que estou mal informado. Ainda assim, esta questão talvez devesse merecer a sua atenção: porque será que pessoas comuns, mesmo que mal informadas, notam imediatamente quando ele defende a ampliação da estância de esqui, a abertura de restaurantes e hotéis na Torre, a abertura de estradas como a estrada verde (nome incrível!), o aliviar das regras de protecção ambiental nos "núcleos de recreio" (alguns que o são já, outros que, por enquanto, o são apenas nos projectos da Turistrela), quando ele defende o casino e os centros comerciais das Penhas da Saúde, e só com um ano de atraso, só por acaso, reparam nas suas intervenções em defesa da necessidade da reflorestação da Serra da Estrela?
Seja como fôr, o Cântaro Zangado só pode concordar com estas intervenções, claro. E agradecê-las sinceramente, esperando que elas se repitam muito mais vezes. Bem haja, Jorge Patrão!

quinta-feira, julho 06, 2006

Fluxos e refluxos

É só para informar que decidi voltar a autorizar os comentários no Cântaro Zangado. Desde já aviso, no entanto, que vou tentar conter-me nas respostas. Não vou ligar muito, tentarei manter um certo distanciamento. E, mais tarde, posso muito bem voltar a fechar os comentários, nunca digas "desta água (a dos comentários) sempre beberei"!
Porque tomo esta decisão? Penso frequentemente que escrever num blog (se calhar, escrever, simplesmente) é um pouco um exercício de vaidade, "Ó p'ra mim, tão interessante que eu sou, tão giras que são as minhas opiniões!". Só o diálogo que se vai mantendo com os leitores (por poucos que sejam) mitiga um pouco o incómodo de me ver nesta situação. Bem, sem comentários, não há diálogo, sinto-me a falar comigo. Não me agrada, já sei o que vou responder ainda antes de saber o que vou perguntar...

Portanto,
Sejam, de novo, todos benvindos ao Cântaro Zangado!

Tendências e contratendências

Li no Público de ontem (quarta-feira) que a Câmara Municipal da Guarda estava apostada no desenvolvimento do turismo de natureza no concelho, tendo completado a sinalização de um trajecto em torno da cidade e estando em curso a sinalização de outros.

Li no Kaminhos, ontem também, que a Naturtejo "espera ver o seu Geoparque distinguido pela Unesco, como um destino de excelência em termos de turismo de natureza".

Ontem ainda, li no Máfia da Cova (ver também no Diário XXI) que no concelho da Covilhã (e de Seia, também) há, na opinião de arqueólogos com estudos realizados na nossa região, "locais extremamente ricos e com muito ainda por explorar” em termos de arte rupestre.

Li no Público de domingo (dia 2 de Julho) que, na discussão pública do documento final do PETUR, que teve lugar em Manteigas no dia 30 de Junho, João Esgalhado, na qualidade de Vice-Presidente da Câmara da Covilhã, tinha criticado o documento em discussão por nele não constar referência ao casino das Penhas da Saúde (proposto pela Turistrela há alguns anos e que chegou a ser autorizado pelo governo de Santana Lopes já na sua fase de governo de gestão corrente, tendo depois esbarrado na oposição do Presidente da República, Jorge Sampaio). Noutro artigo sobre o mesmo assunto (mas confesso que já não sei onde o encontrei), li que João Esgalhado considerava o dito casino como uma necessidade porque, na sua opinião, viria diversificar a oferta turística na Serra da Estrela.

Li antes de ontem no Blogue Cortes do Meio que Paulo Rodrigues, Presidente da Junta de Freguesia das Cortes do Meio, entende que é necessária uma estrada asfaltada entre as Cortes do Meio e as Penhas da Saúde, igualmente para desenvolver a actividade turística naquela freguesia.

Quem ler dois ou três artigos aqui do Cântaro Zangado já sabe que não concordo com a opinião destes dois autarcas. Já sabe que acho que o que eles propõem corresponde a uma filosofia errada e antiquada, que já está mais do que suficientemente desenvolvida aqui na Serra da Estrela. Já sabe que acho que propostas como estas vão no sentido contrário ao pretendido, urbanizam, artificializam e desfeiam a Serra, diminuindo as suas possibilidades num segmento turístico que regista um crescimento notável e continuado em todo o mundo desenvolvido (o turismo de natureza), apostando numa oferta turística inadequada e que duvido venha alguma vez a corresponder às expectativas nela depositadas, por razões que, sucintamente, expliquei no artigo Verdades Simples.
Quem ler este artigo fica agora a saber que me parece que aqui na Covilhã se continua a tentar seguir numa direcção que outros dão cada vez mais sinais de querer, e bem, abandonar.

Vou acabar este artigo com algumas sugestões para o desenvolvimento do turismo na Serra, em particular no concelho da Covilhã. Simultaneamente, como por cá ainda nada (mas mesmo nada) é feito na linha do que proponho, podem contribuir para diversificar efectivamente a oferta turística, enfrentando-se assim as preocupações de João Esgalhado.
A figura que ilustra este artigo é um mapa esquemático do Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE), que retirei do site do ICN. O ícone branco com uma folha de carvalho (em Manteigas) indica a sede do parque, os que têm um "i" em itálico minúsculo, postos de informação do PNSE. Não sei se todos notaram já o que me chamou mais a atenção: a Covilhã é o único concelho com parte importante do seu território dentro do PNSE que não dispõe de um posto de atendimento/informação do parque. Do PNSE, na Covilhã, nada. Nicles. Zero.
E se se resolvesse esta gritante carência? Já agora, e se a Câmara da Covilhã criasse um centro de interpretação da Serra da Estrela como o CISE de Seia? E se, ao menos, mandasse colocar em locais adequados, na cidade e nas vilas e aldeias do concelho, placards indicando os passeios pedestres (ou de BTT, ou a cavalo) que se podem fazer a partir desses locais? Note-se que relativamente à sinalização e documentação dos trajectos dispomos já de uma base inicial para arrancar o projecto, com o trilho de grande rota T14 do PNSE e os trilhos da Beira Serra que divulguei no artigo Trilho das Fragas

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quarta-feira, julho 05, 2006

Verdades simples

  • As montanhas atraem os turistas, não pelos edifícios que têm, mas pelos que não têm.
  • Os turistas vêm às montanhas, não por nelas haver estradas para passear de carro, mas porque nelas se podem perder, pelo seu pé, num meio natural que mantém ainda alguma autênticidade.
  • As fotografias que tiramos nas montanhas são belas, não pelos teleféricos, pelas urbanizações ou pelos jardinzinhos urbanos, mas pela força ancestral, revigoradora, que encontramos nas suas paisagens intocadas.

(Este artigo é só porque, às vezes, parece que não nos lembramos do óbvio...)

100 milhões de euros para a Serra até 2008

Apanhei esta notícia no Máfia da Cova. Deixei lá um comentário, que transcrevo aqui:

100 milhões é muito milhão. Até tenho medo de imaginar os elefantes brancos que se podem construir na serra com tanto dinheiro, que depois obrigarão a gastar dez vezes mais para se desmontarem (estou a pensar no ex-futuro teleférico Piornos-Torre). Entretanto, torna-se a Serra atractiva para velhinhas com os seus crochês, famílias que poderão fotografar todas as maravilhas da Serra, de todos os ângulos, sem sair do carro, e os montanhistas que vão para outras serras que por esta estará já tudo artificializado e arruinado (isto é, cheio de ruínas). E, daí, até pode ser que não, que desta vez se gaste o dinheiro onde deve ser gasto. Cem milhões de euros dá para muitas árvores. Para muito apoio à protecção das espécies. Para implementar um sistema racional de transportes. Para corrigir os erros que se têm cometido (leia-se construido) nos últimos 50 anos (mamarachos da Torre: fora!). Pode ser que sim...

A ver o que fazem com tanto milhão.
Na China dispõem de muitos mais milhões, claro, e aproveitaram para "levar o desenvolvimento" ao Tibete. Li no Público de ontem que foi inaugurada uma linha férrea entre Lhasa (capital do Tibete) e a China. Custou 3400 milhões de euros. A linha férrea atinge uma altitude máxima de 5072 m e está já a encher de lixo as portelas (as high passes) e vales que percorre através dos Himalaias mas, caramba, como não nos emocionarmos com esta conquista da alta montanha?! Para muitos, isto é que é que é progresso, hã?! Para muitos tibetanos, este combóio é uma forma de a potência invasora reforçar os laços da opressão... Para os montanhistas de todo o mundo (bem, não sei se posso falar por *todos*) transformaram-se desta maneira locais míticos, que constituiam um ideal de beleza e exigência montanheira, em trivialidades sujas sem interesse nenhum. Um insulto aos Himalaias. Enfim, como em toda a parte, o que é progresso para uns não o é para outros. Mas os "uns" podem acenar centenas ou milhares de milhões de euros, ao passo que os "outros"...
É por estes exemplos, e pelos que temos, à escala, cá na nossa Serra, que me assustam estas escaladas dos milhões. Não, a utilização do termo "escalada" não é apenas uma figura de estilo. Comece, caro leitor, a tomar nota do número de milhões anunciado em cada título de jornal sobre os projectos de investimento na Serra da Estrela. Vai notar que a crise pode estar generalizada mas, para a Serra da Estrela, o ciclo de crescimento parece nunca ter sido interrompido.

PS: sobre a linha China-Tibete e outros assuntos da opressão chinesa nos Himalaias, vá a www.studentsforafreetibet.org

segunda-feira, julho 03, 2006

Estudo do Impacto Ambiental da barragem da Ribeira das Cortes

O Estudo de Impacto Ambiental relativo ao projecto de construção da barragem da Ribeira das Cortes, um projecto antigo do presidente da Câmara da Covilhã, foi recentemente disponibilizado para consulta pública. O Resumo não Técnico (RTN) pode ser obtido aqui.

Não sei o suficiente para avaliar a necessidade da construção da barragem. É verdade que todos os anos aparece uma ou mais notícias nos jornais regionais sobre a urgência imperiosa de uma nova barragem que complemente a das Penhas, mas a verdade é que muitos destes jornais parecem prestar-se, muitas vezes, ao papel de meros mensageiros de certas vozes... O RTN refere insuficiências actuais do sistema de abastecimento de água no concelho mas, pessoalmente, nunca notei nenhuma carência. Nem no Verão passado, que foi terrível para muitas populações em diversos pontos do país, ouvi falar de problemas de abastecimento especiais no nosso concelho. Mas admito que duvide da necessidade da obra apenas por estar mal informado.
O que realmente me leva a escrever este post é o documento (o RTN) em si. Se este Resumo não Técnico é representativo da profundidade com que se fazem os estudos de impacto ambiental e se as autoridades competentes aceitam estudos assim, começo a compreender melhor algumas autorizações...
O documento é frequentemente vago. Por exemplo, refere espécies de flora com elevado valor de conservação, sem explicitar quais são nem, muito menos, indicar claramente quais serão especificamente os impactos sobre essas espécies. Noutros aspectos é muito discutível. Por exemplo, refere que a qualidade da água da Ribeira das Cortes é elevada mas, naquele sítio, tão perto das Penhas da Saúde, com as descargas dos seus esgotos (ou será que já há uma ETAR funcional nas Penhas?), duvido muito... Mas vejamos mais em pormenor. Vou apresentar as listas de impactos positivos negativos e comento no final de cada uma. (A ordenação é minha, para facilitar as referências nos meus comentários)

Impactos positivos

  1. incremento total dos níveis de fiabilidade no abastecimento público de água, ao concelho da Covilhã em qualidade e sem restrições que se prevê para um horizonte de 25 anos potenciando a melhoria significativa da qualidade de vida da população e a dinamização e diversificação da actividade económica do concelho da Covilhã;
  2. boa capacidade de aproveitamento dos recursos hídricos sendo possível obter um volume regularizado de afluências anuais de 6 hm3;
  3. desactivação de todos poços e captações ao longo do rio Zêzere e seus afluentes que se revelam de difícil e onerosa exploração;
  4. incremento na biodiversidade da região face à constituição de novo habitat aquático, na albufeira (habitat em que deixa de haver correntes), favorável ao desenvolvimento de uma comunidade composta por um conjunto de espécies distinta da anterior e, que simultaneamente, a irá complementar;
  5. diversificação da paisagem e dos usos do solo pela introdução de um espelho de água em zona de grande uniformização de formas e cores;
  6. valorização ecológica e sócio-cultural do concelho, em virtude do aumento da atractividade potencialmente associada a actividades de turismo de natureza (TN);
  7. diversificação da actividade produtiva (turismo e indústria) e incremento da sua funcionalidade;
  8. incremento directo e indirecto da actividade económica no concelho;
  9. criação de uma reserva do sistema de abastecimento para combate a incêndios;
  10. possibilidade de produção de energia hidroeléctrica contribuindo para a redução da queima de combustíveis fósseis e, consequentemente, contribuindo para a melhoria da qualidade do ar.
Sobre os pontos 1, 2, 3, 5 e 9 nada tenho a dizer, são factuais, imagino que as estimativas do volume da albufeira estejam correctas.
Quanto ao ponto 4, que espécies se instalarão no novo habitat? Que espécies serão afastadas pela alteração? O Resumo Técnico nada diz. Devemos pois acreditar, sem nos ser dada informação para tal, que se verificará um incremento na biodiversidade... Mas será este o papel de um estudo deste tipo, ou antes o de fornecer dados concretos para que se possa fazer uma avaliação informada sobre os impactos do projecto?
Nos pontos 6 e 7, refere-se a valorização sócio-cultural do concelho relacionada principalmente com aproveitamentos turísticos do embalse. Não compreendo que aproveitamentos se possam fazer na nova lagoa que não se possam fazer também na Lagoa do Viriato. Ora, esta lagoa encontra-se cercada e não é nada fácil (ou não era, da última vez que tentei, no Verão) aproximarmo-nos da beira de água. Será que a Câmara da Covilhã pretende gerir de forma diferente esta nova albufeira? Ainda por cima, li no blog Cortes do Meio um comentário a este mesmo assunto segundo o qual Paulo Rodrigues (presidente da Junta de Freguesia) pretende que, como contrapartida à construção da barragem, seja rasgada uma nova estrada, que permita o acesso directo desde as Cortes do Meio às Penhas da Saúde. Está-se a ver o tipo de turismo que virá a apoiar-se em desenvolvimentos como estes...
Finalmente, sobre o ponto 10 só me ocorre uma evidência: onde é que, nas vizinhanças do concelho da Covilhã, se queimam combustíveis fósseis para a produção de electricidade? Se este ponto não se refere especificamente à qualidade do ar no concelho, qual a importância desta barragem na produção de energia eléctrica no todo nacional? Qual será o impacto na qualidade do ar ao nível nacional (já que não falamos apenas da Covilhã) resultante da poupança na combustão de hidrocarbonetos fósseis permitida pela construção desta barragem? E não dizem atrás que a produção de energia eléctrica é apenas um objectivo secundário e eventual da barragem?

Impactos negativos

  • em resultado da redução de áreas de habitat, poder-se-á registar a afectação de comunidades faunísticas de interesse para a conservação da natureza;
  • a alteração de habitat aquático, no troço da ribeira das Cortes a montante e a jusante da obra, implicará igualmente a afectação de comunidades faunísticas;
  • aumento dos processos erosivos, em virtude da exposição aos agentes climatéricos do solo nu nas áreas intervencionadas;
  • alteração do uso do solo e da paisagem.
Se isto não parece um simples Copy & Paste de outros estudos, macacos me mordam! Se isto não é o cúmulo da generalidade, não sei o que seja! Vá lá que referem, no segundo ponto, o habitat aquático da ribeira das Cortes, senão esta listagem seria válida para qualquer projecto de obra, qualquer que fosse a sua natureza, qualquer que fosse a sua localização! Não se refere quais são as comunidades faunísticas, não se diz qual a sua importância em termos de conservação, não se diz de que maneira serão afectadas, nada se diz sobre a relação entre a conservação dessas comunidades e o desenvolvimento do turismo de natureza que, assim se afirmava na enumeração dos impactos positivos, sairá beneficiado com esta construção... Pior, diz-se que comunidades faunísticas serão afectadas e apresenta-se isto como um impacto negativo; mas tinha sido implicitamente considerado um impacto positivo (no ponto 4). Em quê é que ficamos?

Poderia criticar outros aspectos deste documento com 27 páginas mas acho que o que aqui mostrei já chega para explicar porque é que o avalio negativamente.
Não sei se a barragem é uma coisa boa ou uma coisa má. Não tenho dúvidas que, para muitos, será terrível, por exemplo para os que gostavam dos mergulhos na ribeira, perto da Bouça ou mais abaixo. Imagino que para muitos outros será uma coisa boa. Será talvez necessária. Mas, se pudermos aferir a qualidade geral do Estudo de Impacto Ambiental a partir da do Resumo não Técnico, receio que aquele, como este, não valha o papel em que foi redigido. Entre generalidades (nada explicitadas nem enquadradas localmente) e contradições, juntando ainda argumentos pouco mais do que infantis (para não os classificar como imposturas, pura e simplesmente), fica no ar a sensação que nos estão a tentar comer por parvos. Mas tudo bem, como dizem os autores, "não foi identificado nenhum impacte que possa inviabilizar a concretização da Barragem da Ribeira das Cortes, do ponto de vista ambiental". A confiar no resumo não técnico, podemos dormir sossegados, portanto. Porquê? Não sei. Depois de ler com atenção o resumo, tenho que dizer que não sei.

Algarvear a Serra da Estrela? Não, obrigado!