Mostrar mensagens com a etiqueta Desenvolvimento. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Desenvolvimento. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, março 27, 2009

Pés na terra

O centro comercial da estação é dos mais antigos da Covilhã. Não é grande coisa pelos padrões mais actuais, é antes uma espécie de "shopping de bairro", usuais há uns vinte anos. Como é vulgar nos shoppings, as lojas vão abrindo e fechando, vão-se renovando, vão sendo substituidas por novas lojas, etc. Lojas de moda, de telemóveis, de computadores, de desporto, de "bugiganguinhas para o lar", essas coisas que é normal encontrar num shopping.

Creio que não estarei a errar por muito se disser que a loja mais sólida naquele centro comercial é uma pequena frutaria (uns 10 m2) onde um agricultor vende a fruta e as hortaliças que produz na sua quinta (funciona também como revendedor de produtos de outras empresas agrícolas). Não se trata de uma destas lojas muito fashion de produtos biológicos, vegan, "salvemos o planeta" ou coisa que o valha, não. É mesmo uma frutaria, simples.

Perdoem-me o eventual reaccionarismo, mas eu acho simplesmente espectacular a existência e a aparente solidez desta frutaria tradicional naquele espaço. Acho óptimo poder comprar maçãs frescas e saborosas, mesmo que não cumpram critérios de tamanho, cor e regularidade de forma definidos por sabe-se lá quem e que por isso não são vendidas nas grandes superfícies. Acho que é um sinal de esperança, de uma "realidade verdadeira" que se impõe a uma outra, diria que mais virtual, que é decidida e regulada em centros de poder distantes e inacessíveis, e que o faz, não numa aldeia remota e "atrasada", mas logo num centro comercial urbano! Vingando onde o fashion sofisticado e modernaço frequentemente tem falhado! E que se mantém, não pela mão de um comerciante deprimido que se agarra ao seu condenado modo de subsistência, mas pela iniciativa de um jovem agricultor se afirma comercialmente, fornecendo um produto natural e de qualidade que claramente, naquele local, tem muita procura e pouca oferta!

Pois é... Misteriosos podem ser os caminhos do desenvolvimento...

segunda-feira, janeiro 05, 2009

E que tal parar para pensar? (II)

O Público traz hoje, na pág. 31, uma notícia com o título "Excedente de casas mantém-se até 2050" (a ligação pode não ser permanente). Este excedente de habitações tem reflexo na forma como as nossas cidades cresceram e se tornaram feias, com centros históricos desertificados e periferias atulhadas de prédios e recortadas por vias rápidas e viadutos.

Não é reforçar esta triste situação a construção de mais quinhentas habitações nas Penhas da Saúde, como pretende um plano da Câmara Municipal da Covilhã para transformar o aldeamento numa uma área "com que Portugal possa concorrer em termos de turismo de montanha com outras da Europa, nas cidades dos maciços mais conhecidos, como os Alpes ou os Pirinéus"?

quinta-feira, novembro 20, 2008

Zonas de exploração micológica

Foi recentemente notícia uma proposta que o Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE) apresentou aos Ministérios do Ambiente e da Agricultura para a criação de Zonas de Exploração Micológica. Foram definidas três destas zonas, em Fernão Joanes, Penhas Douradas e Cortes do Meio, com o objectivo de rentabilizar a produção de cogumelos. Podemos ler sobre esta iniciativa, por exemplo, neste artigo do jornal A Guarda (a link pode não ser permanente).

O negócio da comercialização e transformação de cogumelos parece ser bastante rentável, e ouvem-se frequentemente rumores de que estrangeiros (espanhóis e franceses) nos ficam com tudo o que conseguem apanhar. Assim, mesmo sabendo muito pouco do assunto, parece-me que esta ideia do parque é uma boa ideia, a partir da qual se pode começar a desenvolver um sector de actividade, que por enquanto, entre nós, se limita quase só à colheita.

Há ainda outro aspecto positivo nesta iniciativa, que é o de dar valor a um ambiente protegido. Os cogumelos são parte integrante de florestas adultas e saudáveis, de florestas sustentáveis. Explorá-los dá valor económico à floresta, contribuindo assim para um interesse colectivo em preservá-la e em fazê-la crescer.

Claro que não basta ter a ideia, é preciso trabalhá-la, dar-lhe corpo, arriscar. E não se pode esperar que seja o PNSE (cujas atribuições não incluem, decerto, a de substituir a iniciativa privada), por si só, a pô-la em pé. No artigo que referi pode ler-se, a páginas tantas

O processo mais avançado e melhor encaminhado, é o que está relacionado com a criação da Zona de Exploração Micológica (ZEM) de Fernão Joanes, devido ao interesse demonstrado pela Junta de Freguesia, desde a primeira hora. “Foi feita a identificação dos cogumelos existentes e foi dada formação a uma dúzia de habitantes, para possíveis colectores, para acompanharem os possíveis turistas/apanhadores de cogumelos [...]

Ou seja, uma entidade que não o PNSE (foi a junta de freguesia, mas imagino que poderia igualmente ter sido uma associação, empresa, cooperativa, etc) pegou na ideia e ajudou no seu desenvolvimento. E a coisa não se fica na recolha para comercialização propriamente dita. Prevê-se a possibilidade de recolha "turística", para o que foi dada formação a algumas pessoas.

Não sou habilitado para fazer uma avaliação muito profunda, nem tenho informações para tal. Mas, pelo que li na notícia que citei, parece-me uma iniciativa muito interessante e espero que dê bons frutos.

Como se vê com mais este exemplo, o PNSE é mesmo uma terrível força do bloqueio do desenvolvimento regional!

Considera que os cogumelos não têm qualquer interesse para turistas? Leia este post do blog Café Mondego.

quinta-feira, janeiro 03, 2008

Minhoquices

Seia está a cerca de uma hora de passeio rodoviário, panorâmico e descontraído, da Covilhã; Gouveia está a quarenta minutos de Manteigas; Manteigas está a vinte e cinco minutos da Covilhã e pouco mais do que isso da Guarda; de Seia para Manteigas serão outros quarenta minutos; de Manteigas para Belmonte vão vinte minutos de agradável viagem, ao longo do Zêzere. Demora-se frequentemente mais do que isso para chegar, de carro, do Parque das Nações ao Mosteiro dos Jerónimos.

Para um turista que venha do litoral ou de Espanha, é perfeitamente razoável (e aposto que muitos o farão) almoçar em Seia e lanchar em Manteigas, na Guarda, em Belmonte ou na Covilhã. Fosse eu de fora, e imagino que planearia um visita à nossa região que incluisse uma passagem pela Covilhã (Museu dos Lanifícios, Bouça, Unhais da Serra), Fundão (Museu Arqueológico, Castelo Novo, Alpedrinha), Belmonte (Museu Judaico), Seia (Museu do Pão, Loriga, CISE), Gouveia (parque zoológico, Linhares), Manteigas (Covão d'Ametade e da Ponte, Vale do Zêzere, Poço do Inferno). Tentaria ainda aproveitar algum espectáculo no Teatro Municipal da Guarda (que os há frequentemente imperdíveis — Mesmo se frequentemente os perco).

Onde quero chegar é que me parece cristalinamente óbvio que todos os concelhos têm tudo a ganhar com o desenvolvimento de ofertas turísticas e culturais de qualidade em todos os concelhos. Por isso estranho quando oiço pessoas numa terra lamentarem-se pelos empreendimentos que surgem noutra, quase como se cada milhão ali investido fosse um milhão aqui roubado.
Ao contrário, todos os concelhos têm a perder com a falta de qualidade massificada em que certas forças vivaças (principalmente da Covilhã) têm apostado para o turismo especificamente de montanha. A massificação a que se tem assistido permite (até ver) umas enchentes nalguns fins de semana, mas conduzem a Serra a uma degradação (paisagística, ambiental, social) tal que a torna repelente para todos os visitantes que procuram algo mais do que um pouquinho de esqui triste ou de triste sku.

Queiramos ou não, estamos todos juntos. Uma certa dose de bairrismo tem o seu charme. Mas quando, ultrapassando essa dose, se confunde com parolice, com atavismo, com pequenez de vistas, torna-se um enorme empecilho ao desenvolvimento. Ao desenvolvimento de todos.

sexta-feira, dezembro 21, 2007

O Zêzere da foz à nascente

O Diário XX1, o Pedestrianismo e Percursos Pedestres e outros noticiaram a proposta da Associação Cultural Amigos da Serra da Estrela para a definição, documentação e dinamização de um trilho pedestre de grande rota acompanhando o Zêzere desde a foz até à nascente, com uma extensão total de perto de 250 km.

Escusado será dizer que o Cântaro Zangado considera esta uma excelente ideia, da qual pode beneficiar muita gente de muitos concelhos. Oxalá se consiga pôr em prática.

Para os que consideram este projecto uma loucura, quero fazer notar que o investimento necessário para o concretizar é uma fracção infinitesimal dos necessários para concretizar os planos da Turistrela e da Região de Turismo; que os seus impactos negativos são (realmente) mínimos, se é que não serão mesmo positivos; que os proveitos resultantes são mais certos a longo prazo do que os que alegadamente se esperam de uma aposta na neve e ficarão muito melhor distribuidos temporalmente (e socialmente, também). Além disso, a ideia não é, propriamente, original. Veja-se isto, isto ou isto, só para dar três exemplos.

segunda-feira, maio 21, 2007

Capacidade de iniciativa

Hoje no público, no suplemento P2, uma notícia sobre uma iniciativa da (ou apoiada pela) Câmara Municipal de Borba: passeios de interpretação de flora, com incidência nas propriedades medicinais e gastronómicas das plantas observadas. Ontem, no suplemento Pública do mesmo jornal, um artigo sobre como os ex-guerrilheiros de um país da américa latina (El Salvador? Colômbia? Já não me lembro.) estão a usar as suas antigas bases e hospitais como locais de interesse turístico.

Porque é que falo nisto aqui? Porque são dois exemplos de como conhecimentos locais, meios locais, iniciativas locais, gentes locais são aproveitados em situações de crise, dando a volta a uma realidade que parece desesperada. Estes projectos têm a virtude de oferecer aos visitantes produtos que eles não podem encontrar em mais sítio nenhum do mundo.

O que fazemos nós, aqui na Serra da Estrela? Temos apostado no que é específico da Serra? Para além da neve, que cobre a zona mais alta da serra alguns dias por ano, que mais? Apostamos nas magníficas paisagens da Serra? No seu ambiente natural único? Nas possibilidades ímpares no nosso país para o turismo aventura?

Não. Temos paisagens magníficas, mas pretendemos apoios para "melhorar" as miseráveis pistas de esqui, que não satisfazem ninguém a não ser os principiantes. Achamos que essas mesmas paisagens ficam melhoradas "requalificando" pré-existências (é assim que autarcas e responsáveis do turismo se referem às várias ruinas vergonhosas que encontramos por todo o lado na Serra, quando querem evitar a sua demolição definitiva) e construindo mais algumas... Temos uma natureza única, rica em endemismos, mas nunca a referimos nos folhetos promocionais que produzimos. Temos vales com condições para serem, por si só, grandes cartazes turísticos, mas exigimos investimentos para os estragar com estradas de asfalto (parece que nunca são suficientes). Consideramos estas estradas necessárias para que que os turistas apressados que tentamos cativar cheguem mais rapida e confortavelmente à Torre, e mais rápida e confortavelmente regressem a suas casas. Não, nós por cá queremos é casinos, como os que há por aí em todo o lado. Telecabines como as que há no Parque das Nações. Subúrbios, como os que há (de luxo ou não) no Algarve, na Costa da Caparica, em Sintra. Começa agora a falar-se de outra "especificidade": o golfe. Nada nos projectos da Região de Turismo, da Turistrela, das autarquias ou das forças vivaças vai no sentido de desenvolver o que é específico da Serra da Estrela, os produtos que podemos aqui oferecer e que não se podem encontrar noutros locais. Queremos é esqui, apesar de o haver (e de muito melhor qualidade) noutros locais, muito próximos face às distâncias tipicamente percorridas pelos turistas hoje em dia...

Exigimos ao estado milhões para desenvolver projectos de imitação rasca (e inviável, dadas as nossas condições) de estâncias alpinas ou pirenaicas. Exigimos ao estado milhões para asfaltar caminhos e rasgar novas "acessibilidades". Exigimos ao estado milhões para fazer tunéis. Exigimos ao estado milhões para promover as aberrações que construimos com os milhões que o estado lá nos foi arranjando. Deixamos, entretanto, acumular toneladas de lixo e entulho, mas fazemos de conta que não vemos, ou condicionamos a resolução desse problema à educação das hordas de visitantes que ano após ano celebramos. Chamamos a este circo desclassificado "o grande banquete do turismo". Queixamo-nos, ressentidos, num dado concelho, de que todos os investimentos são canalizados para os restantes e continuamente inventamos protagonismoszinhos, conflitos e guerrinhas entre comarcas. Gritamos que "vamos acordar o gigante adormecido", nos anos em que o governo anuncia planos de investimento, e que a Serra da Estrela está votada ao esquecimento, nos anos em que esses anúncios não se fazem ouvir.

E a tudo isto chamamos desenvolvimento do turismo, em tudo isto vemos provas da capacidade da iniciativa local.

Caramba, nunca, nunca aprenderemos?

Algarvear a Serra da Estrela? Não, obrigado!