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sexta-feira, julho 29, 2011

Protecção da natureza

Há dias, li na revista desnível online uma entrevista com o escalador e equipador (alguém que equipa vias de escalada com pontos seguros permanentes) Juan Manuel Hernández 'Kroma', onde a páginas tantas se encontra o seguinte trecho:
Como equipador, también estás metido en la regulación de la escalada relacionada con la protección de las aves en Álava, ¿cómo es eso?
Sí, por iniciativa de Natxo Fernández, desde hace seis años tenemos reuniones periódicas sobre este tema. A raíz de esta iniciativa, la Diputación de Álava ha censado las aves que hay en las 22 zonas de escalada que tenemos en la provincia. Como zonas delicadas que no se puede escalar entre marzo y septiembre están Subijana y Berberana. Es importante que la gente respete estas acotaciones.
Ou seja, traduzido à pressão para português:
Como equipador, também estás envolvido com a regulamentação da escalada relacionada com a protecção das aves em Álava. Como é isso?
Sim, por iniciativa de Natxo Fernández, desde há seis anos temos reuniões periódicas sobre este tema. Na base desta iniciativa, a Diputación de Álava fez um levantamento das aves que há nas 22 zonas de escalada que temos na província. Como zonas delicadas onde não se pode escalar entre Março e Setembro estão Subijana e Berberaana. É importande que respeitemos estas restrições.

Deste bocadinho podemos concluir que, em Espanha

  1. Antes de se restringir a escalada em áreas protegidas, faz-se um estudo para saber que valores ambientais concretos são ameaçados pela prática da escalada.
  2. Explica-se à comunidade dos escaladores (mediada, suponho, pelas federações e clubes) de que valores ambientais concretos se trata.
  3. As restrições impostas para proteger esses valores concretos são adaptadas à ameaça concreta. Assim, no caso referido, a escalada é proibida apenas entre Março e Setembro (provavelmente por se tratar do período de nidificação das aves a proteger naquelas zonas), mas ela é permitida no resto do ano.
  4. Todo o processo de decisão e de implementação das restrições é acompanhado por representantes dos escaladores.
  5. As restrições são bem aceites e respeitadas pela generalidade dos escaladores.

Aqui em Portugal, a escalada é proibida nas zonas da serra da Estrela onde ela se pratica. Todo o ano. Não se sabe quais são os valores ambientais que se considera serem ameaçados pela escalada. A coisa não é explicada, é imposta. Tudo o resto (congestionamentos automóveis, esqui, sku, lixo, todo-o-terreno, caça, pesca, sal-gema nas estradas e mais um longo etc) é permitido ou, pelo menos, resignadamente aceite como se fosse uma fatalidade e não o resultado óbvio das opções que temos tomado nas últimas dezenas de anos.

Mas o que vale é que a escalada é proibida. Isto é que é proteger a natureza, hem?!

terça-feira, julho 26, 2011

Qual é o problema?!

O blogue Carpinteira referiu-se hoje às notícias (ainda não desmentidas, e já lá vão 15 dias) sobre a eventual entrega da vigilância do PNSE à empresa detentora da concessão exclusiva do turismo e dos desportos na área protegida (a Turistrela), notícias de que dei eco aqui. O primeiro comentário lá deixado dizia "Não estou a ver qual é o problema. Ainda bem.".

Transcrevo a seguir o comentário que lá deixei:

Qual é o problema:
1) A Turistrela é uma empresa turística que desenvolve a sua actividade na área protegida, ou seja, na area a vigiar. Logo, deve ser, ela mesma, vigiada.
2) A Turistrela detem a concessão *exclusiva* do turismo e dos desportos na área a vigiar. Logo, ela, mais do que qualquer outra no sector do turismo, deve ser vigiada.
3) A Turistrela tem demonstrado um enorme desrespeito pela área protegida. Ainda há tempos se revoltou publicamente contra técnicos do PNSE por a obrigarem a fazer estudos de impacto ambiental para obras na estância de esqui, ou seja, por a obrigarem a cumprir a lei (ver, por exemplo, aqui)
4) A Turistrela tem revelado ao longo dos anos o maior desrespeito pela paisagem e pelo ambiente da serra: vejam-se as redondezas dos seus empreendimentos, cheios de entulho das obras que vão fazendo, vejam-se os estradões que abrem a torto e a direito sem pedidos de autorização para as suas avalanches BTT, vejam-se as fitinhas de plástico que negligentemente deixam espalhadas na sequência dessas actividades, vejam-se os mamarracjos que se propõem construir por toda aa serra. É esta gente que vamos pôr a vigiar as suas próprias actividades?
5) Que contrapartidas serão dadas à Turistrela por esta responsabilidade da vigilância? Não haverá outras empresas interessadas? E que, se calhar, até poderão fazer o serviço com maior competência e com menor custo?
6) Quem é que na Turistrela tem competência (comprovada com habilitações) para avaliar a importância ambiental de uma dada zona ou habitat?
7) A concessão exclusiva do turismo e dos desportos da Turistrela foi criada em 1971 (Decreto-Lei 325/71) e foi reformulada em 1986 (Decreto-Lei 408/86, ainda em vigor). Uma das razões invocadas para a reformulação foi exactamente a de que à Turistrela tinham sido atribuídas responsabilidades incompatíveis com a sua natureza empresarial, nomeadamente a vigilância (veja o ponto 5 do preâmbulo deste decreto lei). Vamos agora dar o dito por não dito?
Entregar a vigilância do PNSE à turistrela é pôr os ladrões a guardar o banco. Não está ainda a ver qual é o problema?
José Amoreira

Já agora que falamos nisto, aproveito para informar que a ASE requereu aos serviços do PNSE uma confirmação ou desmentido destas notícias, e aguarda a resposta para tomar uma posição pública.

sexta-feira, julho 08, 2011

domingo, junho 05, 2011

A (verdadeira?) protecção da natureza

Capa da National Geographic Portugal de Maio 2011

A revista National Geographic de Maio traz um artigo sobre a escalada no Parque Nacional de Yosemite, na Califórnia. Pois, no Parque Nacional de Yosemite a escalada é permitida.

Em contrapartida, na Serra da Estrela, e de acordo com o entendimento que os burocratas do ICNB têm feito do Plano de Ordenamento do PNSE, é proibido escalar. Mesmo ao lado de muitos dos locais onde se proíbe a escalada, passa uma estrada nacional, onde todos os Invernos, em certos fins de semana, se congestionam centenas ou milhares de viaturas e onde os serviços de limpeza de neve deitam toneladas de sal-gema para evitar a formação de gelo. Todos os Verões, a passagem da Volta a Portugal em bicicleta cobre (literalmente) o solo à volta desta estrada com lixo publicitário e garrafas de plástico. A poucas centenas de metros dessas zonas, encontra-se a Torre, com o seu paradoxal centro comercial, cujos esgotos até há bem pouco tempo corriam a céu aberto. Igualmente próxima temos uma estância de esqui que não é obrigada a cumprir nenhum caderno de encargos ambiental (e, até há bem poucos anos, nem sequer fazia estudos de impacto ambiental dos seus empreendimentos, em gritante desrespeito pela lei). Turistas que vêm à neve deixam na zona da torre os seus lixos, que escorrem, levados pela chuva e pelo vento, para as zonas onde os burocratas proibiram a escalada.

Mas o que vale é que a escalada é proibida. Isto é que é proteger a natureza, hem?!

sábado, junho 12, 2010

Uma experiência simples

Encha um copo com água (pode ser da torneira) e adicione gelo; meça a temperatura da mistura. Em seguida, coloque uma ou duas colheres de sopa cheias de sal no copo e agite durante alguns minutos; volte a medir a temperatura.

Acabei agora de fazer esta experiência, que documento com a figura em cima. Antes de misturar o sal, a temperatura da mistura água-gelo era -2,2°C (fotografia da esquerda); depois de misturar o sal (passados quatro minutos, como se vê), a temperatura desceu para -11,8°C. Suspeito que se repetisse a experiência com neve (em vez de gelo), o arrefecimento seria mais pronunciado.

Porque é que isto acontece? Porque o sal dissolvido na água faz baixar a temperatura de solidificação da água. É exactamente por isso que é usado (nomeadamente na serra da Estrela) para evitar a acumulação de neve nas estradas. Ao baixar a temperatura de congelação, o gelo derrete e ao fazê-lo absorve do ambiente a energia (calor) de que necessita para a transição de fase, o chamado calor latente de fusão. É assim um processo semelhante (mas envolvendo outra transição de fase) ao do arrefecimento cutâneo por evaporação da transpiração.

E porque falo nisto? Porque, como já aqui referi várias vezes nos últimos meses, alguns responsáveis do ICNB (os suficientes para determinarem as opções dos serviços nesta matéria) consideram que a escalada e o montanhismo no Cântaro Magro devem ser proibidos, e por isso indeferem todos os pedidos para a realização dessas actividades nesse pico. As razões apresentadas prendem-se com a classificação atribuída à zona do Cântaro Magro (e, de facto, a todas as zonas onde tradicionalmente se pratica escalada e montanhismo na serra da Estrela), de acordo com a qual, nos termos do plano de ordenamento da área protegida, apenas as actividades de visitação, pastorícia e investigação científica podem ser autorizadas, desde que compatíveis com a conservação dos valores ambientais presentes. Uma vez que a escalada e o montanhismo podem ser classificados como actividades de visitação, importa saber que valores ambientais vêm a sua conservação posta posta em causa por estas práticas. De acordo com o que me foi dito por alguém que participou em reuniões com o ICNB, no caso do Cântaro Magro, esses valores são geológicos e são postos em causa pela erosão que a escalada e o montanhismo acarretam. (Quão grave será essa erosão? Quem é que a terá avaliado? Que estudos estão disponíveis sobre esse assunto? Mistério...)
Mas acontece que a poucos metros de distância de diversas vias de escalada na zona do Cântaro Magro, encontramos a estrada nacional EN339, onde todos os Invernos são despejadas várias toneladas de sal-gema, que escorrem para as mesmíssimas áreas que o ICNB quer proteger da erosão impedindo a prática da escalada e do montanhismo.

Bem, eu já ouvi dizer que o sal não faz nada bem à fertilidade dos solos, que não é nada bom para as plantas, e até já li (b.n. CISE nº 28 Outono 2009, pág. 14) que a sua utilização é um factor de ameaça para a conservação de alguns habitats de água doce da serra da Estrela. Mas não sei. Sei sim (porque o verifiquei agora mesmo) é que a dissolução de sal em água misturada com gelo faz baixar localmente a temperatura. Porque o sei, pergunto-me: não haverá também perigo de erosão associado a um eventual súbito arrefecimento superficial das rochas situadas nas linhas de escorrência sob a estrada, resultante da dissolução do sal usado pelo Centro de Limpeza de Neve? (Recordo que são gradientes de temperatura os responsáveis pela fractura de vidros normais em fornos de cozinha.) Não parece esta situação ter um impacto potencial, naquele mesmo local, muito mais grave do que o da erosão eventualmente causada pela borracha das sapatilhas de escalada? Não seria melhor estudar esta questão? E, já agora, não seria melhor estudar também o impacto real da escalada e do montanhismo?

A escalada e o montanhismo são proibidos pelo ICNB, sem que se conheçam estudos que o justifiquem. Outras actividades, aparentemente muito mais impactantes (raids tt, voltinhas de carro, piqueniques de beira de estrada, esqui, sku, caça, pesca, encontros de motoqueiros, snow-fashions, etc, etc, etc), algumas das quais com impactos nos mesmos locais que alegadamente se querem proteger com a proibição da escalada e do montanhismo, são permitidas! Pior, todas estas actividades são não só permitidas, elas são mesmo encorajadas, dados todos os investimentos públicos nos centros comerciais na Torre, na beneficiação das estradas existentes, na pavimentação de caminhos, no aumento da capacidade de estacionamento, etc.

Somos mesmo originais. Haverá na Europa outra área protegida de montanha como esta?

terça-feira, dezembro 16, 2008

O PNSE (des)Fez Bem!

Este post é uma daquelas situações em que dá vontade de felicitar o PNSE. O abrigo que vêm na fotografia em cima serviu durante muitos anos de alojamento aos guardas da lagoa Comprida, julgo que mesmo antes de se criar o PNSE. A verdade é que deixou de ter essa função há muitos anos e encontrava-se abandonado há pelo menos 15 anos tendo vindo a degradar-se estruturalmente e mais recentemente sofreu uma degração higiénico-sanitária. De facto, já nem como abrigo de emergência aquilo poderia servir, pois desde ratazanas mortas, lixo, garrafas até "caganitas" de ovelha e cabra, tudo poderia ser lá encontrado. Ainda mais recentemente, como se pode ver pela imagem, a estrutura entrou em risco de ruir com particular impacto no estradão onde passam frequentemente caminhantes. Na verdade, passo ali frequentemente e já me tinha interrogado porque é que aquilo ainda não tinha sido resolvido. É uma situação que em ultima análise talvez fosse da responsabilidade do ICNB mas não era claro (pelo menos para mim) que assim fosse e não sendo uma situação de grave prejuizo para o ambiente local compreendia que não fosse prioridade dos serviços do ICNB/PNSE proceder à sua demolição.
A verdade é que no passado dia 8 passei novamente pelo local e deparei-me com a completa ausência da barraca como ilustra a fotografia! Fiquei satisfeito e mais satisfeito quando soube que tinha sido levado a cabo pelos serviços do Parque! Tirando a ausência da estrutura nada diria que ali tinha sido realizada uma obra de "desmontagem". Nada de sulcos fora da estrada provacados por máquinas pesadas, nada de desmatagem do terreno circundante, simplesmente nada...e que boa surpresa foi! Parabens por isso ao PNSE pelo aquilo que considero ser uma atitude ligeiramente para lá das suas obrigações! Gostaria de ver o mesmo cuidado ser utilizado mais frequentemente e gostaria ver esta acção de desmontagem em muitas outras estruturas espalhadas pela área do PNSE!

quinta-feira, outubro 09, 2008

Parecer da ASE ao novo Plano de Ordenamento

(Zonamento do PO em vigor)

Para os interessados, a ASE - Associação Amigos da Serra da Estrela disponibilizou na sua página de internet o parecer sobre a proposta do novo Plano de Ordenamento do PNSE no âmbito do processo de consulta pública que terminou no passado dia 3 de Outubro.

Enquanto cidadão e enquanto apaixonado pela região desejo que o processo de consulta pública tenha tido uma participação elevada por parte de todos. Só assim este instrumento legal pode mostrar toda a sua utilidade e só com uma atitude participativa pode a democracia evoluir.
Bom fim de semana a todos em especial para os Serranos que tem o privilégio de viver nessa região!

domingo, setembro 07, 2008

Novo blog

O Centro de Interpretação da Torre criou um blogue para divulgação dos seus programas. Óptimo!

domingo, agosto 24, 2008

Plano de Ordenamento do PNSE

Imagem roubada no site do ICNB
Encontra-se em fase de discussão pública (até dia 3 de Outubro) o Plano de Ordenamento do Parque Natural da Serra da Estrela. Os documentos podem ser consultados e obtidos no site do Instituto da Conservação da Natureza e Biodiversidade.

domingo, agosto 10, 2008

A nova Porta de Entrada (II)

Fui hoje de manhã visitar o novo Centro de Interpretação, que o Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE) inaugurou na semana passada num dos edifícios da Torre. Fomos recebidos (eu e a minha família) por uma funcionária muito simpática e aberta, demonstrando uma grande vontade de responder a todas as nossas dúvidas mas que (e ainda bem!) não tentou impor a sua presença ou o seu tempo à nossa visita. Gostei da exposição, achei-a bastante interessante. Achei-a, principalmente, simpática e digna. E um pouco de simpatia e dignidade, naquele local, é algo que chama a atenção.

É que, a seguir, fui ao centro comercial comprar um pão centeio para o almoço, tendo sido bombardeado com insistentes apelos "oh amigo, ande venha cá provar o meu queijo", "então e um presunto pra ir co pão, não marchava?" etc. No troco, o vendedor enganou-se (de uma forma que não me pareceu, pelas desculpas que balbuciou, nada acidental), a seu favor, claro. Já cá fora, uma barraquinha de gelados debitava a altos berros uma musiquinha techno (ou lá o que era), mesmo apropriada para o local mais alto de Portugal Continental... Por todo o lado, vestígios de lixo. Ah, sim! Simpatia e dignidade, é algo que salta à vista, naquele local.

Disse há dias que havia coisas que não compreendia na decisão de instalar na Torre o Centro de Interpretação do PNSE. Não sei se as compreendo agora, mas de uma coisa fiquei convencido: que, enquanto a Torre for um local de visita massificada, é importante que se mantenha a presença de algo que ultrapasse o mercantilismo rasca dos vendedores de fancaria e das voltinhas na telecadeira. Uma presença aberta, simpática e digna. Uma presença com verdadeira qualidade. Uma presença como a do PNSE.

quinta-feira, agosto 07, 2008

A nova Porta de Entrada

Há dias, o Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE) inaugurou um Centro de Interpretação da Natureza num edifício da Torre. A RTP1 fez a seguinte reportagem do evento (tirei o link do blog Estrela no seu melhor. Obrigado, Cova Juliana!):

Fico contente por este edifício ter escapado à transformação num hotel, restaurante, observatório panorâmico, ponto de apoio para a venda de forfaits ou de aluguer de material da estância de esqui e por, em vez disso, estar a ser utilizado para dar visibilidade ao PNSE e para a divulgação da verdadeira mais valia da serra da Estrela, os seus valores naturais.

Por outro lado, noto que a Região de Turismo da Serra da Estrela (RTSE) inaugurou há alguns anos na mesma zona, num edifício do mesmo conjunto, um posto de atendimento a visitantes. Encontra-se fechado(1), há muito tempo, suponho que por falta de meios para o manter aberto. O PNSE terá capacidade para fazer viver esta aposta (e para tal é preciso algo mais do que as obras no edifício e a presença de um funcionário todos os dias do ano, das nove às dezassete)? Espero que sim.

Por outro lado ainda, custa-me a compreender a lógica subjacente a esta aposta. Maria da Paz Moura afirma, a 51 s do início da reportagem, o seguinte:

No fundo, é um local onde se faz uma primeira abordagem de sensibilização da natureza, mas que depois faz uma dispersão em termos territoriais e que permite encaminhar todos os visitantes (que são mais de dois milhões e meio por ano, que nos visitam) para depois outros locais da serra da Estrela com igual ou superior interesse àquele que é a Torre.

Esta lógica do novo Centro de Interpretação como local de primeira abordagem a uma visita ao PNSE fica ainda melhor ilustrada com o comentário final do jornalista:

[...] abriu agora, com este centro de interpretação, uma porta de entrada que mostra as maravilhas da montanha mais alta de Portugal Continental.

O que me custa a perceber é se faz sentido organizar a dispersão dos visitantes(2) a partir do próprio coração geográfico e rodoviário da área protegida. Recordo que (apesar de todas aparências) a zona da Torre é o centro do PNSE, integra a Reserva Biogenética, a Rede Natura e dela escorrem linhas de água que alimentam habitats muito próximos, protegidos (e bem!) pela convenção Ramsar. É ali que faz sentido receber os visitantes numa primeira abordagem, é a partir dali que faz sentido organizar as visitas?
Faz sentido abrir uma porta de entrada para a nossa casa, bem no centro da sala de jantar?

Outros assuntos que vieram a lume com esta notícia foram os do condicionamento do tráfego na Torre, a construção de um teleférico e a instalação de parquímetros para o estacionamento. Talvez mais tarde os comente mais detalhadamente. Para já, refiro apenas que me parece que estes três assuntos, ao contrário do que é sugerido pela notícia, não estão necessariamente relacionados. Não é preciso teleférico nem parquímetros para condicionar o tráfego e a existência de teleférico e parquímetros não se traduz, por si só, num condicionamento do tráfego. Para condicionar o tráfego o que é preciso é efectivamente condicioná-lo, ou seja, não permitir o acesso de viaturas para além de um nível de afluência considerado máximo. Com ou sem teleféricos, com ou sem parquímetros.
Mas, voltando agora à lógica da "porta de entrada", o que realmente considero muito difícil de entender é que se planeie a *primeira* abordagem aos visitantes num local onde, assim se afirma, se pretende o futuro condicionamento do estacionamento e a limitação do tráfego. Isso é que não percebo, mesmo.

Outro assunto ainda de que se falou a este propósito foi o dos esgotos a céu aberto na Torre. Mas, sobre isso, já nem sei o que diga...

(1) Correcção: estive hoje (10 de Agosto) na Torre, e notei que o posto de atendimento da RTSE se encontrava aberto. No entanto, já me aconteceu dar com ele fechado, pelo que pensei que fosse esse o estado permanente. Enganei-me. Mas acho que a dúvida que levantei (sobre se o PNSE conseguirá fazer viver este centro) se justifica.

(2) E serão mesmo dois milhões e meio de vistantes por ano? Gostava de conhecer os estudos que sustentam esta afirmação. Até lá, duvido de estimativas deste tipo, e não sou o único.

quarta-feira, abril 30, 2008

Boa, CERVAS! Boa, PNSE!

Alguém colocou no YouTube esta reportagem da RTP sobre a actividade do CERVAS/PNSE, que inlcui imagens da libertação de uma águia cobreira (a que, por sorte, pude assistir e que referi aqui).

Caramba, dá gosto ver o Parque Natural da Serra da Estrela ser assim noticiado!

Está também disponível a reportagem da libertação de uma fuinha, também pelo CERVAS, desta vez em Mangualde.

quinta-feira, abril 10, 2008

Valores

Um dos argumentos invocados para travar o projecto da estância de esqui de S. Glório que referimos há dias foi o de que ele punha em causa um dos últimos habitats do urso pardo na Península Ibérica. Ou seja, foi invocado um valor ambiental real e concreto, em vez de argumentos genéricos, mais ou menos vagos, mais ou menos românticos, mais ou menos relevantes para o que em concreto ali se estava a decidir.

E na Serra da Estrela? Aqui que a estância já existe, os projectos são para a sua ampliação. Tenho dito que não me parecem nada razoáveis, porque como a estância está no alto da montanha, só pode ser ampliada para baixo, para menores altitudes. Para locais onde neva menos, onde está mais quente, onde a neve se aguenta menos tempo. Mas este argumento é apenas económico. Se apenas o dinheiro da Turistrela fosse investido neste empreendimento, ele não nos diria respeito. (Mas é claro que há sempre o apoiozito do estado, da autarquia, da União Europeia...)

Reconhecendo que já não há ursos na serra (imagino que desde perto do final da Idade Média), nem lobos (há algumas dezenas de anos), nem cabra-montês, nem quaisquer outros mamíferos selvagens de grande porte (à excepção do javali), poderíamos pensar que não se aplicam, por cá, grandes preocupações ambientalistas. Ao fim e ao cabo, tudo o que havia para extinguir já se extinguiu, porquê tanta choraminguice?

Porque, pura e simplesmente, não é verdade que a Serra da Estrela esteja já esvaziada de valores ambientais. No "Guia geobotânico da Serra da Estrela"(1), do holandês Jan Jansen, podemos ler,

The flora of Estrela includes about a quarter of the preliminary Portuguese red list of vascular plant species, many of wich are confined to the Estrela within Portugal. In the Park's territory more then 400 bryophyte species could be detected. This is about two-third of the bryophyte flora of Portugal and some 40% of the Iberian. A considerable number occurs on the red list of bryophytes from the Iberian Peninsula.
(p. 36)
Se ainda não chegasse, o apêndice 3 deste mesmo guia enumera 45 espécies de mamíferos, 143 espécies de aves nidificantes, 9 de peixes, 33 de répteis e anfíbios.

Apesar de tudo isto, é verdade que não temos nada tão "espectacular" como o urso pardo. Mas vejamos. Na página 7 da ficha sobre o lobo ibérico do Plano Sectorial da Rede Natura 2000, informa-se que "deverão ser aplicadas todas as medidas que potenciem uma futura ocupação [pelo lobo] desta área [serra da Estrela], dada a proximidade com áreas onde a espécie ocorre." Entre outras medidas, propõe-se

  • Promover a conservação e o fomento das presas selvagens (nomeadamente corço e veado) do lobo através de:
    • manutenção/recuperação do coberto vegetal autóctone
    • assegurar uma correcta exploração cinegética destas espécies
    • acções de re-introdução/repovoamento de corço, quando necessárias
  • Condicionar a implementação de grandes infra-estruturas
  • Condicionar a abertura/utilização de novos acessos em áreas sensíveis, nomeadamente no âmbito de processos de Avaliação de Impacto Ambiental e no âmbito de Planos de Ordenamento do Território. Fiscalizar acessos e circulação de veículos motorizados. Nas áreas mais sensíveis, interditar circulação de viaturas fora dos caminhos estabelecidos.
Ou seja: quase não há mamíferos selvagens de grande porte na serra, mas um instituto do governo sugere a sua reintrodução. Para tal ser viável, há que ter alguns cuidados, ainda maiores do que aqueles a que a conservação das mesmas espécies obrigaria, caso elas fossem pré-existentes no território.

Em resumo, acho que mostrei que a ampliação da estância de esqui (e outras grandes iniciativas, como a abertura de novas estradas, etc) não só pode pôr em causa em causa um real, vasto e valioso património ambiental como parece contrariar flagrantemente as opções e orientações definidas pelo governo para a protecção ambiental no território do PNSE.

(E ainda por cima, como se não bastasse tudo isto, há cada vez menos neve na Serra da Estrela, e cada vez de pior qualidade! Valerá mesmo a pena a ampliação da estância?)

(1) Fernando Catarino, no quinto volume da série "Árvores e florestas de Portugal", publicada pelo jornal Público, diz deste guia o seguinte: "Em minha opinião, trata-se do melhor guia de Natureza alguma vez editado em Portugal. A riqueza e qualidade das ilustrações do guia têm paralelo no texto, claro e de grande rigor científico. O guia retrata correcta e exaustivamente os valores biológicos e as paisagens que o Parque encerra, num exemplar enquadramento climático, edáfico e biogeográfico" (p. 126). No ano passado, tentei comprá-lo na sede do Parque. A edição em língua portuguesa estava esgotada, tive que me contentar com a edição em inglês. Ter-se-á entretanto alterado este estado de coisas?

domingo, março 30, 2008

Eskimós 2008 — Correcção

Recebi informações de que o encontro de motociclistas que teve lugar no Covão d'Ametade no fim de semana de 15 de Fevereiro, a que nos referimos aqui e aqui, afinal, não terá tido a autorização nem a colaboração dos serviços do Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE), ao contrário do que apareceu noticiado no Diário XXI e num artigo no número 75 da revista MotoReport (embora aqui seja, de facto, referida a ocorrência de um desentendimento com um técnico do PNSE).

A dar crédito a estas informações (que me chegaram por canais privados, é certo, mas diversos e independentes), o PNSE não só não autorizou ou apoiou o evento, como ainda terá levantado um auto relativo a factos nele verificados.

Mesmo antes de poder categoricamente confirmar estas informações, fico pessoalmente muito contente por corrigir a ideia, que contribuí para difundir, de que o PNSE apoiara o evento. Fico também contente por ver o Parque tomar medidas no sentido de penalizar eventuais infractores, embora continue a achar que teria sido melhor ter desviado o evento para outro local ou, de algum modo, ter preventivamente actuado de forma a impedir os eventuais danos que terão levado ao levantamento do auto.
Mesmo que o dito auto tenha sido levantado contra "desconhecidos" (à semelhança do relativo aos movimentos das máquinas pesadas sobre a vegetação com que, no ano passado, a Turistrela transportou neve para a pista de esqui) e que o processo morra na gaveta sem nada de concreto chegar a apurar, o mais importante, para mim, é que se note que no território do PNSE nem tudo é oficialmente permitido.

Por isso mesmo, aqui fica a correcção, a que junto um agradecimento ao PNSE.

terça-feira, novembro 20, 2007

A propósito do esgoto da Torre

Temo-nos queixado da existência de esgotos a céu aberto perto da Torre. É claro que se trata de uma situação lamentável. Mas porque é que esta vergonha acontece? Porque se tentou fazer um aproveitamento (igualmente vergonhoso, vejam-se alguns posts do Estrela no seu melhor) de um edifício da inútil (e, por isso, efémera) base da Força Aérea na Torre, como centro comercial. Um centro comercial no ponto mais alto de Portugal Continental! Ah, suprema parolice!

Quando os militares ganharam, vai já para mais de trinta e tal anos, a lucidez para reconhecer que aquilo não lhes servia para nada e por isso encerraram as instalações, devia-se ter tentado desfazer o que, se tivesse havido pontinha de juízo, nunca teria sido feito. Ou seja, aqueles horrorosos edifícios deviam ter vindo abaixo. Em vez disso, não. "Requalifica-se" e reaproveita-se, insiste-se na estupidez. Como resultado, ganhamos um patético supermercado de fancaria, um montão de encargos com as necessárias infraestruturas e, está-se a ver há já um ano, um rio de m**** monte abaixo. Quem é que pagou aqueles encargos, quem é que, por isso mesmo, apanha agora as culpas? O Parque Natural da Serra da Estrela, logo o organismo que não se percebe o que tem a ganhar com a existência do shopping da Torre!

Qualquer reaproveitamento dos edifícios existentes na Torre implica impactos ambientais, logo, enormes encargos. Todas as infraestruturas têm que ser construídas de raiz. Quer seja o PNSE a assumir esses encargos quer não, a realidade que vivemos agora mostra que não há garantias de que os sistemas venham a funcionar correctamente no futuro. A eventual (mas já proposta) instalação de hotéis ou restaurantes naqueles edifícios vai aumentar em muito a pressão sobre os esgotos, obrigando a mais obras. A preocupação com a viabilidade destes eventuais empreendimentos vai tornar ainda mais difícil a necessária e urgente ordenação (ou seja, limitação) do trânsito rodoviário.

Caramba, que vantagens há para a região no aproveitamento daqueles mamarrachos?!

O Estrela no seu melhor apresenta hoje uma link para uma reportagem que a SIC fez sobre o assunto do esgoto a céu aberto, onde apareço a fazer um breve comentário à situação.

sexta-feira, novembro 16, 2007

Sobre o esgoto da Torre,

Deixei no Estrela no seu melhor o seguinte comentário (editei-o agora ligeiramente)
Se eu quiser abrir um centro comercial na Covilhã, alguma instituição pública se oferece para pagar as infraestruturas que a lei me exige?
O que acho mais lamentável nesta história (para além do facto em si, evidentemente) é ver o PNSE pagar a construção de infraestruturas que a lei exige aos promotores. Será que o PNSE é um promotor dos centros comerciais da Torre? Será que vê algum interesse ambiental na sua existência? Não vendo que interesse possa ser esse, acho que quem devia ter pago esta dita "ETAR", eram os comerciantes, a Turistrela, a RTSE, as Câmaras e/ou quem mais considerasse indispensável a existência do centro comercial na Torre. Assim, quem acaba com a batata quente na mão é o organismo que menos vantagens tem a colher com tudo isto, pior: o organismo cuja missão mais dificultada fica pela existência do dito centro comercial, com tudo o que essa existência acarreta (acessos, multidões, lixos, etc)!
Mais do que vontade de o criticar, sinto pena do PNSE, por se ter posto na posição em que está. E pena do ambiente da Serra por ver quem o devia defender, que é o PNSE, a apoiar quem mais o agride, que é o modelo de turismo rasca e massificado em que temos apostado.

sexta-feira, outubro 05, 2007

Bom fim de semana

Libertação de Fuinha (Martes foina)
Mangualde, 04 de Outubro de 2007

Na passada quinta-feira, dia 04 de Outubro de 2007, dia Mundial do Animal, foi libertada uma Fuinha (Martes foina) em Mangualde. A libertação foi precedida de uma palestra sobre generalidades dos mamíferos carnivoros de Portugal, que decorreu na Escola Secundária Felismina Alcântara (ESFA). A Fuinha ou Papalva, como é chamada em certas localidades, foi libertada no terreno das futuras instalações da Associação Grumapa. Este animal tinha sido recolhido muito debilitado pelos Bombeiros e encaminhado para o Centro de Ecologia, Recuperação e Vigilância de Animais Selvagens (CERVAS), pelos elementos do Serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente (SEPNA) da GNR. A tímida Fuinha foi baptizada de “Felismina” pelos alunos que assistiram à libertação e que desejaram dessa forma homenagear a sua escola. Esta libertação foi organizada em parceria com a Câmara Municipal de Mangualde e com a ESFA.
Qualquer animal selvagem que seja encontrado ferido ou debilitado deverá ser encaminhado para o CERVAS, estrutura pertencente ao Parque Natural da Serra da Estrela, situado em Gouveia, onde será imediatamente assistido e tratado por um veterinário da fauna selvagem.

sexta-feira, setembro 14, 2007

O reverso da medalha

O Cântaro Zangado já muitas vezes deixou expressa a sua simpatia pelo Parque Natural da Serra da Estrela. Já aqui demos graças ao PNSE por algumas medidas de protecção ambiental. Ficamos contentes com a existência do Parque e gostaríamos de o ver ainda mais no terreno, junto da natureza e também das populações. Fazemos frequentemente votos para que o Parque aprofunde a sua acção e que tenha grandes sucessos na sua actividade.

Mas também devemos dizer que já ouvimos histórias arrepiantes, de funcionamento burocrático, de comportamentos revelando tiques de funcionáriozinho por parte dos serviços do parque, o leitor sabe, aquelas desculpas esfarrapadas, repetidas dia após dia, semanas a fio: "esse assunto não é comigo, é com o meu colega", "o sr. engº/arqº/dr (títulos com que não pretendo especificar ninguém em concreto) não se encontra de momento e não sei quando estará", etc.

Trata-se de exageros, ou de histórias distorcidas por quem quer puxar a brasa à sua sardinha mesmo que à custa da sardinha dos demais (ou da sardinha do ambiente), isto é, de casos em que a oposição do parque corresponde ao real e justo cumprimento do seu dever? Quase de certeza, em muitos casos. Mas são histórias muito, muito, recorrentes.

A acção do Parque é muitas vezes (quase sempre?) sentida pelas populações como uma enorme complicação burocrática, desnecessária, antipática, sem outro objectivo aparente que não o de atrasar a vida ao pobre cidadão que depende de um parecer ou de uma autorização dos seus serviços.

É claro que deve haver normas arquitectónicas rígidas para a construção nas povoações e aldeamentos no interior ou na orla do Parque. É admissível que seja o Parque a impô-las. Mas como compreender (situações fictícias mas verosímeis, com personagens fictícias mas verosímeis) que o Ti Joaquim tenha problemas por pretender colocar um telheiro de madeira na fachada da casa onde já mora desde antes da criação do PNSE, ou que a Srª Dª Fernanda, tendo o parecer favorável dos serviços de urbanismo da câmara municipal do concelho onde vive, não possa ampliar a sua casa em mais duas divisões, sobretudo quando, ao mesmo tempo, são aparentemente autorizadas, aparentemente sem chatices, as construções ou "melhoramentos" que ilustram este post?

quarta-feira, setembro 12, 2007

Libertação de águia-cobreira

Hoje à tarde, na Nave de Santo António foi libertada uma águia-cobreira, após estadia e tratamento no CERVAS (Centro de Ecologia, Recuperação e Vigilância de Animais Selvagens, em Gouveia) por ter sido vítima de um disparo que lhe feriu gravemente uma asa. A libertação propriamente dita seguiu-se a uma pequena palestra na Torre sobre aves de rapina e o papel do CERVAS. Aqui ficam algumas fotos. Obrigado ao CERVAS e ao PNSE!
Algarvear a Serra da Estrela? Não, obrigado!