Mostrar mensagens com a etiqueta Tiros no pé. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Tiros no pé. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, fevereiro 17, 2009

Taxas e subsídios

Cartoon de Andy Singer, roubada do blog Menos um carro.

O cartoon que ilustra este post pôs-me a pensar noutras actividades que subsidiamos quase sem o notar, simultaneamente taxando outras que, por comparação com as primeiras, talvez não devessem ser taxadas.

O Decreto Regulamentar nº 18/99 de 27 de Agosto veio definir e regular as as diversas modalidades de animação ambiental, complementando o Decreto Lei nº 47/99 de 16 de Fevereiro sobre o Programa Nacional de Turismo de Natureza aplicável na Rede nacional de Áreas Protegidas, que tinha sido criado na Resolução do Conselho de Ministros nº112/98 de 25 de Agosto.
Naquele Decreto Regulamentar definem-se as diferentes modalidades de animação ambiental, quais os seus objectivos, quais as condições que devem satisfazer, que requisitos se devem preencher para se ser autorizado a dinamizar uma dada modalidade de animação ambiental.
O seu Artigo 8º indica que os projectos ou iniciativas de dinamização ambiental carecem de licença, quando realizadas por um comerciante em nome individual, um estabelecimento individual de responsabilidade limitada, uma sociedade comercial, uma cooperativa ou uma associação de desenvolvimento local.
O Artigo 16º, por seu turno, refere que (1) são devidas taxas pela concessão de licenças de dinamização ambiental (subentende-se que em áreas protegidas), (2) que o valor dessas taxas é fixado por portaria dos Ministérios das Finanças e do Ambiente e (3) que delas beneficia o ICNB.
O valor actual dessas taxas é o apresentado neste documento (chamo a atenção para o facto de o endereço ser do site do ICNB).

Não pretendo aqui esmiuçar os vários detalhes absurdos ou injustos desta lei. Mas imagine que a sua associação de desenvolvimento local pretende fazer uma caminhada com piquenique pelo Parque Natural da Serra da Estrela, chamando a atenção para os detalhes que constituem a riqueza ambiental desta área protegida, prestando um serviço de educação ambiental, ensinando os participantes na actividade a apreciar a área protegida e a querer defendê-la. Pois bem, terá que pedir licença aos serviços do Instituto da Conservação da Natureza e Biodiversidade, e pagar pela sua concessão.
Em alternativa, se alugar um autocarro (ou se resolverem vir todos cada qual no seu carro), se subir com ele por uma das muitas estradas abertas pelo estado nesta área protegida, conservadas em bom estado de circulação pelo estado, continuamente melhoradas pelo estado, limpas de neve e de pedras que rolam encosta abaixo pelo estado, vigiadas e ordenadas por forças do estado, se estacionar o dito autocarro à porta do centro comercial da Torre, cuja instalação naqueles edifícios foi paga pelo estado, se deixar os seus associados escorregar na neve um bocadinho para, logo depois do piquenique, voltarem a casa, bem, como não se trata de uma actividade de animação ambiental, não tem que pedir qualquer autorização e só terá mesmo que pagar o aluguer do autocarro, que tudo o resto o estado paga, já pagou e vai continuar a pagar por si!

Que tipo de visitação é que o estado pretende para as áreas protegidas? Com leis como estas, que tipo de visitação é que o estado promove para as áreas protegidas?

domingo, dezembro 21, 2008

Porque somos como somos?

Tenho "gasto" vários posts dos mais recentes a explicar que o turismo que temos na serra da Estrela não é o típico turismo de montanha, que em toda a Europa se baseia no pedestrianismo, no montanhismo, na escalada, na canoagem, na BTT, na observação/interpretação da natureza (flores, birdwatching, ambientes de floresta, paisagem, geologia, etc.), passeios a cavalo e muitas outras coisas de que não me lembro. Que nas outras montanhas da Europa há turistas durante todo o ano, muito especialmente no Verão, mesmo naquelas que são os tradicionais centros do turismo da neve, do turismo do esqui.

Tenho afirmado que o nosso turismo, essencialmente constituido por visitantes que não passam mais do que algumas horas na região, que a visitam principalmente nos fins de semana com neve, e que nunca se afastam dos núcleos artificializados ou da estrada, é sui generis e não se vê, ou pelo menos não se nota com importância comparável à que aqui tem, nas restantes montanhas da Europa.

Já várias vezes afirmei, implícita ou explicitamente, que o turismo que temos é muito menos lucrativo do que o turismo de montanha, e que tem um impacto sobre o ambiente e a paisagem muito maior. Que os poucos lucros que gera ficam concentrados nas bolsas de muito poucas pessoas, e que distribui os seus prejuizos por todos.

Hoje vou sugerir algumas possibilidades para o porquê do nosso turismo ser como é. Já adiantei uma das razões no post "Nós aqui vivemos da neve". Sim, acredito que uma das causas do nosso turismo tão sui generis é o modelo de gestão tão sui generis que insistimos em manter: o da concessão exclusiva do turismo e dos desportos atribuída à Turistrela há mais de trinta anos e com validade ainda por outros tantos para o futuro.

Mas não é a única razão. A questão é que como pensamos que que os únicos turistas que a serra pode atrair são os visitantes que nos chegam de manhã de carro e que à tarde partem de carro (depois de passarem umas horas mais ou menos atascados no tráfego), achamos que desenvolver o turismo é facilitar este modelo. Vai daí a ideia, por cá generalizada, de que os acessos nunca são suficientes, que temos que alargar as estradas, que temos que construir ainda mais, que temos que instalar teleféricos, que temos que aumentar a capacidade de parqueamento. E que temos que inventar "animação" para estes visitantes, daí os centros comerciais na torre, os alugueres de trenós (e sacos para o sku? Já se alugam sacos também?). Ora, e isto deve ser cristalinamente evidente para todos, cada um destes "melhoramentos" torna a serra menos atractiva para aqueles que constituem, em toda a Europa, os clientes-alvo do turismo de montanha. Ou seja, se temos o turismo que temos, é porque é nesse turismo que temos apostado ao longo dos anos, ao longo das décadas. Se temos o turismo que temos, ao fim e ao cabo, é porque foi esse o turismo que escolhemos ter.

Alguma vez mudaremos de rumo? Duvido. Por exemplo, está para breve o início de obras na estrada Sabugueiro-Torre, dotando-a de um enorme parque de estacionamento na zona da lagoa Comprida. Para quê? Que tipo de turismo fica reforçado com esta obra? Que tipo de visitantes serve? Em que dias é que se sentia a "necessidade" deste "melhoramento" e em que dias é que se sentirão os seus benefícios? É razoável facilitar a visitação por ainda mais gente, nesses mesmos dias? Não seria melhor atrair antes outro tipo de visitantes, noutras alturas do ano?

É por "desenvolvimentos" como este que digo frequentemente que estamos no rumo certo, estamos de parabéns, como sempre, desde sempre.

Ontem afirmei que as pessoas sobem a pé o Ben Nevis porque "não há estradas, teleféricos ou funiculares para lá chegar acima e porque vale a pena o passeio". As mesmas duas razões justificam o porquê de tão pouca gente subir a pé a serra: é que aqui *há* estradas e o passeio, francamente, *não* vale a pena, dado o degradante e terceiromundista circo com que nos deparamos quando lá chegamos acima. Não sou só eu que digo. Veja aqui, por exemplo.

sexta-feira, dezembro 05, 2008

O esqui na serra da Estrela (II)

Quando ontem coloquei o post "O esqui na serra da Estrela", pensei que estava a arriscar muito, porque (1) na lista das pistas interpretei a falta de indicação de "aberta" como significando que se encontravam fechadas, (2) porque a razão para as pistas estarem fechadas podia não ter que ver com a falta de neve e (3) porque o site da estância podia não estar actualizado. Pois bem, as questões (1) e (3) estão agora afastadas: o site foi actualizado hoje de manhã, e agora aparece mesmo a indicação de "encerrada" na lista das pistas. Relativamente à informação que ontem difundi, há a acrescentar mais duas pistas e um teleski à lista dos encerramentos. Ou seja, a estância Vodafone está reduzida ao que mostro abaixo (pistas praticáveis a verde): Nos próximos dias (até onde chegam as previsões do snow forecast) não se prevêm melhorias.

Não pretendo tirar conclusões desta situação concreta. Repito que estou ciente de que este ano pode vir a ser um fabuloso ano de neve, e desejo que assim o seja. Mas a verdade é que esta situação (a estância Vodafone reduzida a dois teleskis de aprendizagem e a duas pistas com 400 m de extensão total, cobertas com uma camada fina de neve papa) é uma situação que tem sido muito frequente nos últimos Invernos, isto apesar dos investimentos, dos canhões de neve e de tudo o que dizem autarcas, responsáveis pela Turistrela e pela Região de Turismo.

Em face disto, que sentido é que faz continuar a planear ampliações da estância? Que sentido é que faz continuar a basear na neve o turismo da serra da Estrela? Pior, que sentido é que faz continuarmos, em nome da neve e dos vistantes da neve, a desfear, a artificializar, a construir, a asfaltar, em suma: a destruir a atractividade da serra da Estrela para os tipos de turismo verdadeiramente adequados à sua verdadeira realidade?

quarta-feira, dezembro 03, 2008

De novo o desperdício

Mas hoje não tão mal fotografado como na sexta-feira:

Imagine-se nas Penhas da Saúde hoje à noite. As ruas desertas, as casas fechadas... Mas, inundando todo o espaço, este brilho cor de laranja! Mesmo que o céu esteja limpo, terá que prestar uma atenção consciente e propositada, só para verificar se há ou não luar. Desista de mostrar a Via Láctea aos seus filhos, ela não é visível nas Penhas, como não o é em Quarteira ou no centro da Covilhã. Ah, isto é que é progresso, assim se desenvolve o turismo! Nas Penhas da Saúde, como no largo da portagem da A1 em Lisboa.

sexta-feira, novembro 28, 2008

Contos da loucura "normal"

A encosta da Covilhã à noite. As luzes à esquerda são das casas nas Portas dos Hermínios, perto do sanatório; as situadas mais abaixo, à direita, são as das casas da Rosa Negra; o clarão central recortado pelo alto da colina é o reflexo da iluminação pública das Penhas da Saúde.

Este assunto da venda das torres das bolas da Torre justifica um olhar retrospectivo sobre um episódio paradigmático da maneira como olhamos a serra. O episódio a que me refiro é o da instalação da base militar da Força Aérea no alto da Serra. E o aspecto que mais me interpela neste assunto todo é a extrema brevidade da utilização da referida base militar. Pelo que pude apurar, ela foi utilizada militarmente durante uns efémeros quinze anos (estimativa por excesso), tendo ficado ao abandono desde os anos setenta! Face a esta realidade, é ou não liminarmente evidente que a decisão da instalação da base foi um erro e o investimento um monumental desperdício?

Outro episódio semelhante foi o da construção do teleférico Piornos-Torre. Estando a obra praticamente terminada, por volta de 1975, constatou-se que o teleférico não ofereceria condições de segurança dada a frequência de ventos intensos ali, no alinhamento dos vales do Zêzere e da Alforfa. Conclusão? As estruturas ficaram na serra ao abandono durante mais de vinte anos: os cabos suspensos sobre a Nave de Santo António (um deles caiu a páginas tantas), a enorme torre de suspensão intermédia "enfeitando" o Espinhaço de Cão, os edifícios dos dois terminais lentamente decaindo em ruínas... Assim chegámos ao final dos anos noventa, altura em que tudo foi removido (à excepção do terminal inferior, nos Piornos; terá sido com o objectivo de eternamente nos penitenciarmos pelos custos da nossa estupidez?). Por uma vez imperou o bom senso: fizemos asneira com isto do teleférico, vamos remover essa asneira. Porque será que não se pode aplicar o mesmo bom senso às torres das bolas?

Episódios deste tipo vão-se sucedendo, com maior ou menor espalhafato, maior ou menor desperdício. Apesar de a realidade ser o que menos conta nestas andanças, às vezes ainda acaba por se impor, vá lá, vá lá! Por exemplo, há alguns anos tentou ganhar força um movimento para se lançar uma candidatura à realização dos jogos olímpicos de Inverno na Serra da Estrela! O Jornal do Fundão (olha quem!) fez questão de dar a esse proto-movimento toda uma página, com entrevista, comentário, análise e foto a cores. A coisa ficou por ali, e ainda bem. Jogos Olímpicos de Inverno na Serra, jamais virão a acontecer, obviamente. Mas é possível estragar muita serra com esse objectivo em mente. Nunca publicamente viria a ser reconhecido que tudo não tinha passado de um disparate voluntarista (como os radares, como o teleférico). Mas, tivesse o projecto "avançado", teríamos agora as ruínas a demonstrá-lo.

Mas outras vezes não há realidade que nos valha. Um dos mais recentes episódios do que chamei loucura normal é a decisão da Câmara Municipal da Covilhã de tornar as Penhas da Saúde (aglomerado de casas de férias que, na sua esmagadoríssima maioria, permanecem fechadas durante quase todo o ano e onde não moram mais do que vinte pessoas) numa minicidade de montanha, uma "área de projecção nacional e internacional, com que Portugal possa concorrer em termos de turismo de montanha com outras da Europa, nas cidades dos maciços mais conhecidos, como os Alpes ou os Pirinéus." (transcrição literal do site da Câmara Municipal). Não só a realidade parece estar a milhas deste projecto (quem o propõe ou não conhece os Alpes e os Pirinéus, ou não conhece a Serra, ou não conhece nem uns nem a outra), como podemos questionar-nos se, antes de fazer das Penhas da Saúde uma cidade viva, não seria obrigação da Câmara Municipal dar vida ao centro histórico da Covilhã, coisa que se está a revelar mesmo muito difícil... O primeiro passo para tão esclarecido e viável empreendimento foi o asfaltar dos arruamentos do aldeamento e a instalação de nova iluminação pública, há auns três ou quatro anos. Esta última tem uma intensidade tal que o céu nocturno das Penhas da Saúde perdeu todo o seu encanto: aquilo agora é à noite como a segunda circular em Lisboa. Tem uma intensidade tal que em certas condições, podemos na Covilhã notar o clarão das Penhas nas nuvens baixas, apesar de as duas localidades não estarem na linha de visão uma da outra. É isso mesmo que mostro na fotografia que ilustra este post. Como devemos classificar este dispêndio de megawatts-hora na iluminação pública dos arruamentos de um aglomerado de casas onde não mora praticamente ninguém?

Deixei aqui quatro exemplos, entre muitos que poderia ter referido (só o capítulo estradas dava vários posts). O discurso é sempre o mesmo: "isto que vamos fazer é indispensável para o progresso!" Mais tarde, quando se constata o que já era óbvio desde o início, ou seja, que o que se queria fazer está apenas a absorver verba sem gerar progresso nenhum, deixa-se a coisa ao abandono e começa-se uma nova loucura, com os mesmos argumentos! Às vezes nem sequer tem que ser uma loucura nova: por exemplo, volta-se agora a tentar relançar o projecto do teleférico Piornos-Torre!

Esta loucura "normal" não é uma doença exclusiva da zona da Serra da Estrela. Mas convenhamos que se faz aqui sentir de forma particularmente aguda. Algum dia teremos cura?

A fotografia é mesmo muito má. Mas foi tirada sem suporte e teve uma duração de perto de dois segundos. Enquanto fixava a câmara a um tripé para uma segunda tentativa, o nevoeiro adensou-se e o efeito perdeu-se completamente. Foi pena.

domingo, fevereiro 17, 2008

Isto é normal?

(Fotografia do Máfia da Cova)

O Covão d'Ametade está bem no interior do Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE). Integra o Sítio Rede Natura 2000 e a Reserva Biogenética Serra da Estrela. É um local de grande beleza (dos poucos que ainda vão restando), com um bosque de bétulas adultas como não há mais nenhum na Serra da Estrela e como duvido que haja muitos no nosso país.

(Fotografia do Máfia da Cova)

Não sei se terá uma grande importância ecológica, ou se raros valores de biodiversidade tornam justificáveis regulamentos muito restritivos para a sua utilização recreativa. Suponho que não e nesse sentido compreendo que esteja classificado como um núcleo de recreio do PNSE.

(Fotografia do Máfia da Cova)

Por ser um local de rara beleza, por ser facilmente acessível e por ser um núcleo de recreio, poderia (e deveria) ser aproveitado para incentivar práticas ambientalmente correctas de recreação, para a educação ambiental, para a fruição ambiental. Também por isso é um local especial e mereceria portanto ser tratado com cuidado. Neste local, mais do que noutros do PNSE (ou por estarem mais degradados, como a Torre, ou por estarem mais afastados de acessos rodoviários), os impactos das actividades a realizar deveriam ser aferidos também de um ponto de vista da imagem que veiculam do Parque como estrutura do Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade e até da serra como destino turístico.

Este fim de semana decorreu uma concentração de motociclistas no Covão d'Ametade. O evento foi autorizado pelo PNSE, que colaborou na preparação do local, e foi apoiado pela Câmara Municipal de Manteigas. Os organizadores montaram tendas gigantes aquecidas para servirem como refeitório e espaço de convívio, duches quentes, geradores eléctricos, barraquinhas de comes e bebes e de venda de souvenirs, várias fogueiras e até (!) uma banheira com água aquecida a fogo para "banhos turcos". Algumas motas, carros e carrinhas de apoio entraram pelo Covão adentro, rolando sobre o relvão. Ilustro este post com algumas fotografias, umas "roubadas" no Máfia da Cova, outras enviadas por um amigo.

Algumas perguntas:
De que modo é que este evento serve a função do PNSE? Uma vez que este arraial foi autorizado, passarão também a ser permitidos no Covão d'Ametade festivais de Verão, feiras de artesanato, festas-comício de partidos na rentré pós-estival, lançamentos comerciais de modelos de automóveis? Se não, porque não? Se sim, que sentido faz ainda falar de protecção ambiental? Que imagem é que este evento dá da protecção ambiental na Serra da Estrela? Que imagem dão de si os serviços do PNSE ao autorizarem e colaborarem com a sua organização? Que vantagens vê a autarquia manteiguense, a Junta de Frequesia e o Conselho de Baldios na realização de eventos deste tipo? Que imagem dão de si os responsáveis manteiguenses (concelho com gravíssimos problemas sociais e económicos) ao apoiarem no seu território um evento que quase parece ter sido organizado com a preocupação de minimizar eventuais mais-valias para Manteigas e a sua população?

Por fim, que imagem dão de si os motociclistas, que publicitaram este encontro com "o verdadeiro espírito Motocilista de confraternização aliado às condições mais adversas de viagem e acampamento" (ver o cartaz), tendo em mente, desde o princípio, este tão confortável arraial?

PS: A propósito desta concentração motard, recomendo uma passagem pelo Estrela no seu melhor.

sexta-feira, novembro 16, 2007

Sobre o esgoto da Torre,

Deixei no Estrela no seu melhor o seguinte comentário (editei-o agora ligeiramente)
Se eu quiser abrir um centro comercial na Covilhã, alguma instituição pública se oferece para pagar as infraestruturas que a lei me exige?
O que acho mais lamentável nesta história (para além do facto em si, evidentemente) é ver o PNSE pagar a construção de infraestruturas que a lei exige aos promotores. Será que o PNSE é um promotor dos centros comerciais da Torre? Será que vê algum interesse ambiental na sua existência? Não vendo que interesse possa ser esse, acho que quem devia ter pago esta dita "ETAR", eram os comerciantes, a Turistrela, a RTSE, as Câmaras e/ou quem mais considerasse indispensável a existência do centro comercial na Torre. Assim, quem acaba com a batata quente na mão é o organismo que menos vantagens tem a colher com tudo isto, pior: o organismo cuja missão mais dificultada fica pela existência do dito centro comercial, com tudo o que essa existência acarreta (acessos, multidões, lixos, etc)!
Mais do que vontade de o criticar, sinto pena do PNSE, por se ter posto na posição em que está. E pena do ambiente da Serra por ver quem o devia defender, que é o PNSE, a apoiar quem mais o agride, que é o modelo de turismo rasca e massificado em que temos apostado.

quarta-feira, novembro 14, 2007

Requalificar, requalificar sempre!

Fotografia retirada de Estrela no seu melhor

Já dei alguns exemplos de como quando se faz alguma coisa na Serra se faz sempre, aparentemente, o pior possível. Agora é (outra vez) o Covão d'Ametade.

Alguém entendeu necessário "requalificar" o Covão d'Ametade. Apareceu dinheiro, construiram-se uns foleiros assadores que, por acaso, até nem podem ser usados no Verão, que é quando há quem esteja disposto a fazer assados ao ar livre naquele lugar. Sobre isso, já muita tinta correu.

Mas o projecto de requalificação é mais ambicioso e envolve também a substituição da antiga ponte sobre o Zêzere. Neste aspecto em particular concordo com os promotores deste projecto, pois a ponte antiga estava a cair de podre, literalmente. Mas as concordâncias acabam aí. O bom gosto dos que escolheram os altares dos grelhados está a manifestar-se também na ponte que estão a erguer. O Estrela no seu melhor mostra hoje todos os detalhes.

O exemplo (mais um) de como as coisas parecem fazer-se aqui sempre do pior modo possível é que a localização da nova ponte, não sendo a mesma que a da antiga (porquê?), obrigou ao abate de uma bétula. Inevitável? Pois sim!

Sobre este projecto de requalificação, sei que ele prevê (mesmo que nunca se consiga verba para tal — Oxalá!) a iluminação nocturna do espaço, a sua vedação, obras nos edifícios do bar e dos lavabos e a instalação de um painel publicitário. Talvez devessemos pensar nalguma forma de mostrar à Câmara Municipal de Manteigas, à Junta de Freguesia de S. Pedro e ao Parque Natural da Serra da Estrela a nossa discordância com o projecto.
O Covão d'Ametade transformado num camping da Caparica? Não, obrigado!

quinta-feira, agosto 16, 2007

Os "Bastidores" da Volta na Torre

A RTP passou hoje (16/08/07) uma reportagem no programa "Portugal em Directo" sobre os impactos da passagem da Volta a Portugal pelo PNSE. Devo dizer que a organização da prova, representada por Joaquim Gomes (JG), não ficou muito bem na fotografia!
Dois dias depois da "etapa da Torre" todo o lixo produzido no âmbito deste evento ainda lá continuava! Desde garrafas de champanhe a publicidade dos próprios patrocinadores, contentores de lixo a rebentar pelas costuras até multiplas pinturas pelas rochas!
Caro Joaquim Gomes, tem toda a razão!Os apelos feitos pela PDSSE há dias foram completamente despropositados e apenas procuravam protagonismo!
Fiquem então a saber que as queixas vieram até da Turistrela pela voz de Mónica Paixão!!Imaginem como é que aquilo não deve ter ficado! Pelo que vi na TV, e a bem da verdade, a intenção inicial deve ter sido boa, ou seja, o lixo que conseguiram apanhar foi todo reunido em sacos plásticos grandes e deixados na berma da estrada para eventual posterior recolha. O problema deve ter sido o feriado, e as férias e o "stress pós-traumático" de organizar uma prova destas (esta é do meu comparsa LJMA) ou outro. Mas a verdade é que o ambiente não se compadece com nenhum destes factores e o que aconteceu é que o vento, os animais e sei lá mais o quê trataram de abrir sacos, espalhar lixo e acabar com qualquer hipótese de manter a zona pelo menos tão limpa como havia sido encontrada quando a Volta lá chegou!
O que também fez com que JG não ficasse bem na fotografia foram as criticas tecidas à PDSSE até porque, segundo declarações do recentissimo director do PNSE à RTP, a organização da Volta não fez nenhum contacto prévio com os responsáveis desta Área protegida no sentido de delinear um código de conduta para reduzir os impactos deste evento! Mais uma vez se vê a falta de fundamentos nas preocupações da PDSSE.

Para terminar gostaria de referir as declarações de José Maria Saraiva (ASE) quando diz que da mesma forma que os dirigentes dos clubes são responsabilizados pelo que se passa durante um evento no seu estádio também os dirigentes da volta deveriam ser responsabilizados pelos impactos negativos originados pela realização do evento!Para mim isto é de uma coerência brutal!

terça-feira, agosto 14, 2007

A maxi-iluminação da mini-cidade

Tenho passado temporadas de férias nas Penhas da Saúde desde que me lembro. Desde que me lembro que acontece, em noites de Julho e Agosto particularmente amenas, ficar na conversa à noite, na rua. Nessas ocasiões, os olhares e, por vezes, as conversas iam parar às estrelas, cuja presença se impunha, ostensiva. Foi assim com os meus pais, quando era criança, foi assim mais tarde, com as namoradas, foi assim com os meus filhos, mais recentemente.
Até que a Câmara Municipal da Covilhã resolveu transformar as Penhas da Saúde numa magnífica mini-cidade (ver mais propaganda aqui), com iluminação pública à altura de uma magnífica mini-cidade. O ambiente nocturno das Penhas da Saúde agora é o que a fotografia acima ilustra. Parece a segunda circular, em Lisboa. A abóbada celeste já não se impõe como antes, já não é evidente, com um relance pela janela, se (feliz ou infelizmente) há ou não luar.
Pela iluminação pública, já não se notam diferenças entre as Penhas da Saúde e qualquer pólo turístico urbano. Pela iluminação pública, existem agora menos razões para preferir as Penhas da Saúde a Quarteira.
Talvez a Serra da Estrela ainda seja, um pouco, Onde a Natureza Vive (como propagandeia a Região de Turismo). Mas, nas Penhas da Saúde, ela vive um pouco menos desde que se levou a cabo esta "requalificação".
Passo a passo, vão-nos levando a natureza. Passo a passo, vão-nos deixando o quê?
E tudo isto, para quê?

A fotografia foi tirada sem flash, sem tripé, sem apoio especial. O tempo de exposição (regulado pelo modo automático da câmara) foi suficiente curto para a imagem não ter ficado tremida. Daqui se pode fazer uma ideia mais clara da claridade das noites nas Penhas da Saúde.

quarta-feira, julho 18, 2007

And now, to someplace completely different!

Face tibetana do Monte Everest (imagem da Wikimedia).

Como há um leitor do Cântaro Zangado que não me deixa falar sobre Manteigas por entender que eu nada sei desse concelho(1) , resolvi agora falar de outra região: o Tibete!
Acho absolutamente lamentável que o governo da China tenha decidido fazer uma estrada pavimentada até ao acampamento-base do lado norte do Monte Everest, alegadamente para permitir a passagem da chama olímpica nessa região (e das equipas de reportagem que lá cairão como moscas, olha quem!).
Diga-se que a autoridade chinesa sobre o Tibete é altamente questionável e que o Dalai Lama, chefe espiritual dos Tibetanos, exilado na India desde que a China impôs o seu domínio nos anos cinquenta, se manifestou contra a recente inauguração de uma linha férrea entre a China e Lhasa, a capital do Tibete.

(1) A bem dizer, acho que o que chateia este leitor é que eu tenha criticado alguns anúncios de projectos do presidente da Câmara de Manteigas para as Penhas Douradas; se os tivesse defendido, quer-me parecer que esse leitor nada teria a dizer sobre o meu desconhecimento da realidade da sua terra...

sexta-feira, maio 04, 2007

O avanço da foleirice (2)

Já fiz vários posts como este que se segue, mostrando que, quando se faz alguma coisa na Serra, até parece que se tenta fazer o pior possível, causando o maior impacto possível. Cá vai, mais uma vez.
Imaginemos que considerávamos que os grelhadores que já existiam no Covão da Ametade não chegavam ou não eram suficientemente... Como dizer... Não eram suficientemente, assim, prontos, tipo, requalificados... Claro que para o considerarmos, deveríamos em princípio ter feito estudos, com sondagens a visitantes, que apontassem nessa direcção. Academicamente, aceitemos que esses estudos tivessem sido feitos.
Considerando então que eram necessários novos grelhadores, diga-me, caro leitor: tinham mesmo que ser estes mastodônticos altares ao Deus dos Grelhados? Era necessária esta foleirice incaracterística das placas de granito polido? Tinhamos mesmo que introduzir, no coração da Serra, pseudo-referências bacocas à obra de Siza Vieira?
A imagem em baixo mostra um desses antigos, rústicos e pequenos grelhadores, que aproveitavam sem agredir o que naturalmente existe no local, lado a lado com um magnífico exemplar deste importante esforço de "beneficiação". Continuo com as questões: aquela enorme sapata de brita, nivelada, seria mesmo necessária? E, para fazer chegar os materiais aos locais eleitos, não haveria outro meio que não a maquinaria pesada, atravessando à bruta o leito do Zêzere, desfazendo as margens e revolvendo o relvão no trajecto? Quem é que, gostando da Serra e de a visitar, fica agradado por esta foleirice de subúrbio? Um amigo deixou um desabafo num comentário ao post anterior que dá uma achega a esta questão:
Nem sequer fico irritado. Fico é triste por verificar que dentro de poucos anos deixarei de ir escalar para a Serra da Estrela por esta estar transformada numa aberração com a alcunha de parque natural.
Este desabafo diz tudo sobre como se está a "desenvolver" o turismo na Serra da Estrela. Diz também muito sobre como se está a proteger a natureza na Serra da Estrela.

quinta-feira, maio 03, 2007

O avanço da foleirice

Um amigo enviou-me fotografias recentes (tiradas a 30 de Abril) do Covão da Ametade. Incluo aqui algumas, o resto poderá apreciar aqui.

O que se passa? Aparentemente, alguém entende que o Covão da Ametade precisa de (mais) grelhadores. Aparentemente, esse alguém entende que os grelhadores mais ligeiros, mais rústicos, melhor integrados que já lá existiam não serviam, não chegavam, ou não eram suficientemente... Como dizer... Não eram suficientemente, assim, prontos, tipo, requalificados... Aparentemente, esse alguém comprou estas enormes placas de granito, transportou-as para o Covão da Ametade usando maquinaria pesada e atarefou-se com essa mesma maquinaria pesada para cá e para lá, naquele local emblemático da Serra da Estrela.

Ah, um homem com uma retro-escavadora, a alegria dos prazeres simples da vida! Volta-se à infância!

Vejam bem como o Covão da Ametade se está, finalmente, a requalificar! Agora sim! Com estas "pequenas" capelas erigidas ao Grande Deus dos Grelhados, vamos arrancar do marasmo! Agora sim! Com toda esta terra revolvida e sulcada pelo rasto das máquinas, vai inverter-se o processo de desertificação! Agora sim! Teremos um verdadeiro turismo de qualidade!

Não chegava já as Penhas da Saúde, não chegava já a Torre, não chegava já o Sabugueiro. Agora é a vez do Covão da Ametade se "requalificar", se "ordenar", se "desenvolver". E que bem desenvolvido, ordenado e requalificado que está a ficar! Estamos de parabéns, estamos no bom caminho!
Como sempre.

Já informei o PNSE sobre isto. Não desconheciam a existência de um projecto, mas fiquei com a ideia de que que não estão a ver bem a coisa. Imagino que a Plataforma pelo Desenvolvimento Sustentável da Serra da Estrela irá em breve tomar uma posição de repúdio por mais este avanço da foleirização, pelo que ele representa e pelo modo vergonhoso como está a ocorrer. O Covão da Ametade também é nosso!

terça-feira, maio 01, 2007

Desenvolvimentos?

(Urze, rosmaninho e pinheiros ao alto, giestas amarelas e brancas a meia encosta, folhagem nova de carvalho-negral em primeiro plano: Maio na Serra da Estrela.)

Veja-se esta notícia (em galego no original)

A pesar de ser Galicia o país do mundo con maior intensidade de instalación de enerxía eólica (88 kW/Km2), o desenvolvemento desta enerxía renovable pouco contribuiu á súa sustentabilidade ambiental, social e económica. Ademais, ten sido unha causa de deterioración dalgúns espazos naturais.

Ou seja, a instalação de parques eólicos parece não estar necessariamente associada ao desenvolvimento das condições económicas locais, à melhoria das condições de vida da população, à modernização.

Outro exemplo, com uma fonte de energia completamente diferente. Leia-se na National Geographic de Fevereiro de 2007 o artigo "Curse of the black gold — Hope and betrayal in the Niger Delta". Este artigo mostra como a descoberta e exploração de importantes jazidas de petróleo no delta do rio Níger se revelou dramática para as condições de vida das populações da região. Tanta "riqueza", tanto desenvolvimento, transformou num inferno a vida daquela gente.

Não basta desenvolver-se o aproveitamento de uma vantagem regional para se notarem generalizadamente nessa região os benefícios desse aproveitamento. Muitas vezes (como é particularmente notório no caso do delta do Níger), apenas ficam na região os inconvenientes do empreendimento. As vantagens fogem da região ou ficam concentradas em tão poucos que, para todos os efeitos, é como se tivessem fugido.

Os promotores dos grandes empreendimentos, dos chamdos "projectos âncora", andam nisto não para desenvolver, requalificar, modernizar ou evitar a desertificação, por muito que nos tentem convencer disso. Andam nisto para ganhar dinheiro, para ganharem muito dinheiro, todo o que puderem. Não é necessariamente uma motivação ignóbil, não é necessariamente uma coisa má. É o que faz andar o mundo. Mas é uma motivação egoísta e, porque assim é, devemos desconfiar dos discursos grandiloquentes. Apregoam sempre grandes esperanças, mas frequentemente escondem traições. "Hope and betrayal", como no título do artigo da National Geographic. Para que as grandes promessas efectivamente se cumpram, é necessário vigiar atentamente os que as fazem, vinculá-los com regulamentos que incluam obrigações justas, bem definidas e cujo cumprimento seja facilmente verificável. Se os deixamos livres de obrigações, que obrigações, ao certo, esperamos que cumpram? Que "desenvolvam o tecido económico"? Que "evitem a desertificação"? Que nos "arranquem do marasmo"? Que "melhorem as condições de vida"?

À nossa escala, já todos vimos este jogo da esperança e da traição ocorrer na Serra da Estrela. Continua a acontecer. São sempre os mesmos a traficar a esperança, são sempre os mesmos a ganhar com as traições. Durante quanto mais tempo ainda continuaremos a achar que este é o jogo que nos trará desenvolvimento, durante quanto mais tempo ainda nos deixaremos enganar?

Bom primeiro de Maio.

segunda-feira, dezembro 18, 2006

A rota do Cares

Porção inicial (do lado norte) da Ruta del Cares. Encontrei-a, com o Google, em www.argo.es/~jcea/pics/cares2005/index.htm.
A rota do Cares é um trilho que atravessa transversalmente os Picos da Europa entre as localidades de Poncebos (Astúrias) e Caín (Leon), com cerca de doze quilómetros de extensão. É uma das principais atracções turísticas da região dos Picos da Europa. Só pode ser percorrido a pé ou de bicicleta, tanto quanto sei.
Há quinze anos, quando lá estive, os que decidiam percorrer o trilho tinham que resolver o problema do regresso ao ponto de partida, onde eventualmente teriam montado o "estaminé". Muitos (eu, por exemplo) optavam pela solução mais simples de ir e vir no mesmo dia. Outros, com maior capacidade logística, contratavam pessoalmente serviços para o retorno por transporte rodoviário, circundando o maciço montanhoso.
Isto era assim há 15 anos. Como é agora? Actualmente, os visitantes dispõem de serviços de transporte turístico, oferecidos por várias empresas a que podem recorrer. Tudo o que há a fazer é combinar com uma destas empresas os detalhes do passeio que se pretende (essencialmente o horário e local da recolha, mas pode também acrescentar-se transporte do alojamento para o ponto de início da caminhada, por exemplo), pagar, e pronto. O serviço não se limita ao transporte, já que ao longo do percurso rodoviário podem ser visitados (em visitas guiadas) vários pontos de interesse histórico, natural ou paisagístico.
A isto eu chamo progresso e um modo razoável de desenvolver o turismo. Este tipo de desenvolvimento vive dos atractivos naturais da região e gera empregos para pessoas com diferentes habilitações, em diferentes localidades, em diferentes áreas de actividade.

E nós, por cá?
Na Serra da Estrela, maravilhas comparáveis são asfaltadas (veja-se a Estrada de São Bento entre a Portela do Arão e a Lagoa Comprida) ou planeia-se a sua asfaltação (veja-se o acesso Unhais da Serra - Nave de Sto António, ou a Estrada Verde, entre a Guarda e o maciço central, com que se pretende "beneficiar" o trilho de Grande Rota GRT1 na zona do Alto Mondego).
Aproveitar as maravilhas naturais para desenvolvimento de negócios? Não, credo! Asfaltemo-las (ou melhor: o estado que as asfalte) todas para permitir aos turistas, com toda a comodidade, passar por elas sem as notar, passar por elas rapidamente, passar por elas deixando na região pouco mais que nenhuma riqueza!
E nós por cá? Vamos vendendo uns queijos, artesanato de fancaria... E a isto vamos chamando desenvolvimento do turismo, progresso, ordenação, requalificação, importantes medidas contra a desertificação.
Até quando?

Algarvear a Serra da Estrela? Não, obrigado!