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segunda-feira, setembro 06, 2010

Estradas e incêndios

É costume defender-se a necessidade de ainda mais estradas asfaltadas pela serra a dentro invocando que elas facilitam o combate aos incêndios. E é lógico: quanto mais estradas de asfalto houver, mais facilmente os bombeiros chegarão onde tiverem que chegar. Por outro lado, os incendiários (que também os há) ficam também com os acessos facilitados. Por outro lado ainda, quando as estradas asfaltadas forem as consideradas suficientes para as sempre invocadas necessidades do combate às chamas (e alguma vez serão as consideradas suficientes?), haverá ainda alguma floresta, digna desse nome, que valha a pena proteger?

Mas falo disto hoje porque constato que o incêndio que este mês de Agosto varreu a encosta noroeste da serra da Estrela atravessou facilmente as várias estradas de asfalto que encontrou pela frente. Assim de repente, ocorrem-me a estrada Seia - Torre, a estrada de S. Bento (Portela do Arão - Lagoa Comprida) e a estrada S. Romão - Coxaril, algumas delas atravessadas mais do que uma vez, dada a sua sinuosidade. As fotografias que ilustram este post mostram exemplos disso nos dois primeiros casos que referi, e foram tiradas de perto do Coxaril.

Eu não digo que as estradas de asfalto não facilitem os movimentos dos bombeiros. Mas também facilitam o dos que provocam, voluntaria ou acidentalmente, as ignições. Além disso, parece-me que é capaz de haver formas mais baratas, mais amigas da paisagem e do ambiente e, sobretudo, mais produtivas para tornar mais eficiente o combate às chamas, do que asfaltar a serra toda.

domingo, agosto 15, 2010

O desenvolvimento do turismo

Durante as férias, ouvi referências a estudos de viabilidade para a construção de um teleférico entre Unhais da Serra e as Penhas da Saúde. Li também, no Máfia da Cova, que Carlos Pinto (presidente da Câmara da Covilhã) pretende que o estado desbloqueie quatro milhões de euros para conclusão do projecto da estrada entre Unhais da Serra e a Nave de Santo António.

Eu entendo que Unhais da Serra, como Loriga, Alvoco da Serra, Manteigas, Linhares, e mais um longo etc, são povoações com paisagens e ambientes maravilhosos, muito, mas muito mais atractivos turisticamente do que a Torre, para onde convergem as grandes enchentes de visitantes efémeros que nos atascam as estradas nalguns fins de semana de Inverno, enchentes (e atascanços) que continuamos a confundir com turismo. Estranho, quando chego a qualquer destas localidades (e das outras que englobei no "longo etc"), no Verão, não ver turistas como os que se vêm em qualquer localidade de montanha da Europa: caminheiros, montanhistas, escaladores, pessoas a cavalo ou de bicicleta, com mochilas às costas, ou em canoas. Pessoas constantemente a entrarem e a sairem destas terras, por estradas, por trilhos, por rios. A pernoitarem em pensões e em parques de campismo. A encherem os restaurantes às horas das refeições. A comerem gelados e a beber refrescos durantes as tardes. Nada disso se vê por aqui. O que vai valendo são os emigrantes que vêm de férias.

Porque considero que o que falta na serra da Estrela, em termos turísticos, é turismo de montanha como o que se pode encontrar nas outras montanhas da Europa, acho que o que faz falta para o desenvolver na serra da Estrela é tudo aquilo que o alimenta nas outras montanhas da Europa: trilhos pedestres; vias de escalada; alugueres de BTT, de canoas, de cavalos; guias pessoais para caminhada, escalada, interpretação da natureza; documentação (mapas, informação/divulgação sobre locais, trilhos e vias, contactos empresariais) acessível, disponível em supermercados, mercearias e cafés; parques de campismo; múltiplas empresas locais com liberdade de acção, não sujeitas a restrições decorrentes da concessão exclusiva.

Mais estradas (ainda mais, caramba?!), teleféricos, casinos, centros de estágio em altitude, funiculares, e isso tudo? Creio que, para o turismo, não fazem falta nenhuma. Creio até que só prejudicam, ainda mais, as potencialidades da mais alta montanha de Portugal continental para o turismo de montanha. E que outro turismo poderemos pensar em desenvolver na serra da Estrela?

Adenda posterior: sobre as vantagens de mais uma estrada de asfalto pela serra acima, talvez fosse bom perguntar-se às gentes de Loriga o que conseguiram com a sua estrada Portela do Arão - Lagoa Comprida (a terceira ligação asfaltada ao alto da serra do concelho de Seia, diga-se de passagem), quase quatro anos depois da sua inauguração...

quinta-feira, julho 30, 2009

Ainda as diferenças

Relativamente ao desdobrável que comentei ontem referindo os planos que os responsáveis ingleses têm para o ordenamento da visitação do sítio arqueológico de Stonehenge, houve algo que ficou por dizer e que me parece muito relevante num contraste como o que pretendi fazer entre as atitudes inglesa e beirã (para não dizer portuguesa) face ao ordenamento do turismo.

É que o projecto anunciado tem uma componente de gestão e beneficiação do sítio propriamente dito, tem uma componente envolvendo as estradas e uma terceira componente envolvendo a visitação. Logo nada mais natural que, na planificação, envolver o gestor do sítio (a English Heritage), a agência responsável pelas estradas (a Highways Agency) e uma organização não governamental para a preservação cutural (a National Trust).

E por cá, as coisas não funcionam assim? Talvez, quando realmente se pretende resolver um problema ou realizar uma verdadeira melhoria. Mas, quase sempre, o que se pretende é outra coisa(1). Por exemplo, o renascido projecto do teleférico Piornos-Torre tem sido insistentemente defendido com a necessidade de afastar os carros da Torre, com a vontade de convencer os visitantes a chegarem à Torre num meio mais limpo, com o que teremos a ganhar numa Torre sem a poluição e o ruído automóvel actuais (veja aqui o presidente do Turismo da Serra da Estrela, Sr. Jorge Patrão, fazer esta defesa). Posta assim a questão, eu concordo. Se, em vez dos carros, tivermos o teleférico, ficaremos melhor. Mas é difícil acreditar que seja mesmo essa a intenção quando, ao mesmo tempo que se fazem estes anúncios, decorrem grandes obras de beneficiação da Estrada Nacional 339 entre Seia e o edifício do antigo sanatório dos ferroviários, perto da Covilhã.

Será que se quer, mesmo, afastar os carros da Torre? Ou ninguém disse nada à Estradas de Portugal?

(1) Gastar uns fundos caídos do governo ou da União Europeia (e a algum bolso vão parar as "inevitáveis" derrapagens), mostrar obra antes de eleições ou tentar afirmar a indispensabilidade de organismos semi-públicos claramente inúteis, por exemplo.

segunda-feira, julho 06, 2009

O interior abandonado

Desprezo, abandono, esquecimento, são expressões com que no interior frequentemente caracterizamos a atitude do poder central face à fatia do território nacional a mais de 70 km do mar. Quase sempre, estes termos são apropriados (mas não sei se devemos assacar ao governo, ao "poder de Lisboa", todas as responsabilidades pela assimetria litoral/interior que todos os anos se agrava).

Quase sempre são apropriados aqueles termos, mas há excepções. Por exemplo: haverá algum trecho de estrada nacional com cinquenta quilómetros de extensão que mais frequentemente seja objecto de reparações e beneficiações do que a estrada nacional 339 entre Seia e Covilhã? Duvido.

Nos últimos anos têm-se sucedido intervenções: instalação de painéis informativos do estado da estrada, sinalização com altitudes e com avisos de "Check your breaks now", repavimentações, alargamento de zonas de estacionamento... Nos últimos dois ou três anos, tem sido difícil dar um saltinho da Covilhã às Penhas da Saúde sem que nos cruzemos com uma ou mais carrinhas todo o terreno da Estradas de Portugal. Esquecem-se da Serra?! Esquecem-se muito mais de todas as outras estradas do país, parece-me a mim!

Vem isto a propósito de mais uma destas intervenções, agora a decorrer. Temos a EN 339, entre Seia e a zona do antigo sanatório dos ferroviários (cerca de 40 km no total, mais coisa, menos coisa) transformada num estaleiro. O novo tapete, espesso, de bom asfalto, é liso, lisinho, como a pele de uma gueixa japonesa. Um pavimento de auto-estrada. Um pavimento apropriado para corridas de fórmula um. Será, sem dúvida, dos melhores pavimentos de todas as estradas nacionais... Aplicado numa estrada relativamente pouco frequentada. Desprezo, abandono, esquecimento pelo interior? Não neste caso, nem pouco mais ou menos.

Será que serve o turismo esta opção? Não me parece. Em princípio, o turismo é servido com opções que reforcem a especificidade dos locais, que reforcem a imagem do produto que se pretende vender. Numa zona de montanha como esta, o turismo seria melhor servido por uma estrada lenta, panorâmica, com um traçado, um pavimento e uma sinalética que constantemente lembrasse os condutores do local em que se encontram, que obrigasse à circulação a velocidades reduzidas porque qualquer curva pode ser mais fechada do que aquelas a que as IPs nos habituaram e atrás de cada curva pode encontrar-se inesperadamente gelo, um rebanho, um turista pedestre. Pois bem, este novo pavimento e esta sinalética dão ao condutor as mensagens inversas.

Mas assim vamos, no rumo de sempre. Tomando quase sempre as decisões erradas, quase nunca as certas, e executando-as, umas e outras, sempre do pior modo possível. De quem é a culpa? Desta não podemos culpar o governo. O dinheiro pode vir de Lisboa, mas vem porque nós o pedimos. A culpa é nossa e só nossa.

domingo, junho 28, 2009

"Asfalte-se!", disse ele

Li no Mafia da Cova que Carlos Pinto, o jurássico(1) presidente da Câmara da Covilhã, voltou mais uma vez a prometer dois "grandes projectos" para Unhais da Serra, que considera "essenciais para o futuro" da vila. Quais são? A conclusão da asfaltação do caminho para a Nave de Santo António (a cerca de 1600 m de altitude) e a construção de um teleférico para a Torre.

A notícia merece-me os seguintes comentários:

  • Esta estrada vai percorrer um vale lindíssimo, que vai ser mais difícil aproveitar para o turismo de montanha quando os dois "grandes projectos" estiverem concluídos. Digo-o porque sei que os que, como eu, procuram os destinos de montanha, fazem-no em busca de espaços onde não sintam o ruído dos automóveis, onde possam fotografar paisagens grandiosas, de preferência sem que as imagens fiquem conspurcadas com postes, cabos ou carros, onde possam aprofundar uma relação exigente com um meio o mais natural possível.
  • No vale contíguo para o lado nascente, o da ribeira das Cortes, o mesmo jurássico presidente da Câmara tem apoiado outro "grande projecto", desta vez do presidente da junta de freguesia local, o da asfaltação de um caminho para as Penhas da Saúde, a que me tenho referido com frequência aqui. Carlos Pinto quer, pelos vistos, ficar recordado como o Grande Asfaltador da Estrela Sudeste. Está a fazer por isso, pelo menos.
  • Num vale próximo, mas para poente, em Alvoco (no concelho de Seia), a junta de freguesia tentou há alguns anos abrir uma estrada até à Torre, tendo parado já a grande altitude, suponho que por intervenção dos serviços do Parque Natural da Serra da Estrela. Mais para Norte, asfaltou-se há perto de dois anos outro caminho de terra entre a Portela do Arão e a Lagoa Comprida. Acrescentando estas a estrada S. Romão-Coxaril (acabada de asfaltar há dezena e meia de anos, parece-me), o projecto de estrada dita "verde" entre a Guarda e o maciço central, para além de todas as outras estradas mais antigas, será que exagero quando digo que "assim vamos, vale a vale, estrada a estrada, no rumo certo, no rumo mais fácil", no rumo da asfaltação da Estrela?
  • Pude ler na mesma notícia que Carlos Pinto considerou "mau" o "projecto que a autarquia tinha para a estrada de ligação à nave de Santo António, porque não incluía um canal rodoviário". Eu não sei o que é um canal rodoviário, mas noto que este tipo de "erros" cometem-se sistematicamente na serra da Estrela(2), desperdiçando-se deste modo fundos que muita falta fariam para um verdadeiro desenvolvimento do turismo. E tudo indica que os erros não se limitem aos aspectos da engenharia (até porque a eles se submetem os restantes): começam-se obras sem se saber como se vão pagar na totalidade, sem se terem as devidas autorizações, sem se estudarem os impactos ambientais devidamente, começam-se obras, até, sem se ter o projecto minimamente definido, como está a acontecer com a estrada dita "verde" que referi acima.
  • Os anúncios de Carlos Pinto não são novos. O tal projecto que considerou "mau" foi tentado há cerca de dez anos (e quase aposto que a ideia surgiu e foi tentada sendo ele o presidente da câmara). Asfaltou-se quase todo o trajecto (de forma tão deficiente que em mais que um ponto a estrada ficou praticamente interrompida por blocos graníticos que, desiquilibrados por taludes mal desenhados e mal construídos, vieram a cair sobre o pavimento). Somente um troço com perto de dois quilómetros ficou por asfaltar, pelos vistos porque faltou o tal "canal rodoviário". Mas sobre este troço não caiu nenhum bloco granítico de dimensões comparáveis aos que referi acima. Quanto ao teleférico Unhais-Torre, Carlos Pinto promete-o frequentemente quando se desloca à Vila de Unhais. Bem sei que as populações gostam de ouvir estas promessas, que sentem que trazem desenvolvimento à terra. Mas eu creio que esse desenvolvimento é muito, muito incerto, sendo muito certos os seus prejuízos em termos ambientais e paisagísticos. Por isso, por mim, o único aspecto positivo desta recorrente promessa é ser, por enquanto, isso mesmo apenas. Oxalá assim se mantenha.

(1) Uso este termo porque é costume vê-lo aplicado aos autarcas que se eternizam (por reeleições sucessivas, bem entendido) nos cargos que ocupam.
(2) O mais emblemático destes "erros" é o do teleférico Piornos-Torre, que durante trinta anos se exibiu como demonstração da frivolidade voluntarista com que por cá se gastam fortunas do orçamento de estado ou de fundos europeus tentando travestir a serra da Estrela como uma montanha de neve e esqui.

segunda-feira, junho 15, 2009

Pensar como uma montanha

"Pensar como uma montanha", de Aldo Leopold, é um livro de que gostei muito. Escrito por um dos pioneiros do pensamento ecologista no final dos anos quarenta do século passado, só recentemente foi traduzido para português. Encontrei neste livro, mais do que outra coisa, um enorme gosto pela natureza, pelos seus detalhes, pelo seu funcionamento, que o autor tenta transmitir a quem o lê. No meu caso particular, foi muito bem sucedido.

Li o livrinho com enorme prazer, rindo-me para dentro (e às vezes para fora) em diversas passagens. Algumas impressionaram-me tanto que talvez as vá referindo aqui durante algum tempo(1). Logo se vê. Tinha seleccionado mentalmente uma passagem sobre o medo aos espaços selvagens (e que pobre que é a experiência desses espaços se dela eliminarmos o medo), mas enquanto a procurava os meus olhos chocaram com outra, que me parece hoje mais apropriada:

É como se, em resumo, os estádios rudimentares do lazer ao ar livre consumissem a sua base de recursos; os estádios mais elevados, pelo menos até certo ponto, criam as suas próprias satisfações sem desgaste ou com desgaste mínimo da terra ou da vida selvagem. É a expansão do transporte sem o correspondente crescimento da percepção que nos ameaçam com a bancarrota qualitativa do processo recreativo. O desenvolvimento do lazer não está em construir estradas para chegar a regiões que são já dignas de amor, mas em construir receptividade na mente humana ainda desprovida de amor.
(p. 168)

O que me parece que isto quer dizer, autarcas e demais responsáveis da nossa região, é que o desenvolvimento do turismo não vem com mais estradas pela serra, vem sim com mais conhecimento da serra e dos seus valores ambientais, paisagísticos, sociais, culturais, históricos, etc. Que mais gente a conheça, que mais gente a saiba mostrar, que mais gente a queira ver. Tudo ao contrário do que, nas últimas dezenas de anos e ainda hoje em dia, têm defendido, proposto, exigido ao governo e implementado.

(1) Não prometo nada. Este post era para ter sido a minha sugestão para o Dia Mundial do Livro que, se não estou enganado, foi no final de Março... Tem estado pendurado desde então.

sábado, junho 13, 2009

O mais fácil

(Fotografia de Pedro Ferrão Patrício.)

A fotografia em cima mostra o vale da Ribeira das Cortes, onde a Junta de Freguesia das Cortes do Meio pretende asfaltar uma estrada de ligação às Penhas da Saúde. Segundo o presidente da dita junta, este projecto será o "motor de arranque para o desenvolvimento económico, turístico e local da freguesia".

Esta colina e os caminhos de terra que nela existem são utilizados actualmente por muitas pessoas (principalmente da Covilhã, parece-me) para passeios a pé e de bicicleta. Se se quisesse realmente desenvolver o turismo na freguesia das Cortes do Meio, esta utilização deveria ser incrementada e potenciada, definindo e sinalizando percursos, oferecendo serviços de guia, animação e interpretação ambiental, transporte, restauração, alojamento (estes últimos, instalados nas povoações, é claro). Mas é mais fácil exigir e "desbloquear" verbas públicas para um asfaltamento (mais um!). Não é barato nem dá milhões, mas é muito mais fácil.

Tem também o inconveniente de tornar o vale menos atractivo para passeios a pé e de bicicleta, logo, dificulta o aproveitamento turístico do vale. Mas é o mais fácil.

E assim vamos, vale a vale, estrada a estrada, no rumo certo, no rumo de sempre, no rumo mais fácil. Continuamos de parabéns.

Na encosta em segundo plano, vê-se uma cicatriz em diagonal que foi aberta há alguns anos pela Junta de Freguesia das Cortes do Meio. Mantive uma longa discussão sobre esta obra no blogue do programa petur. Como notei e documentei aqui no Cântaro Zangado, a esta absurda obra (um novo caminho com quatro a cinco metros de largo, atapetado com brita e comprimido com passagem de cilindro) deram em tempos o absurdo nome de "trilho pedonal". Pelos vistos, a intenção agora é asfaltar aquilo. Já na altura essa intenção era evidente, mesmo que não tivesse sido declarada.

segunda-feira, junho 08, 2009

Que turismo é esse?

A Junta de Freguesia das Cortes do Meio (Covilhã) aprovou (e lançou a concurso, parece-me) a obra de alcatroamento de um caminho de terra para as Penhas da Saúde, como se pode ler neste post do blog Cortes do Meio (ou num artigo que referi aqui). Segundo diz o presidente da Junta de Freguesia das Cortes do Meio, Paulo Rodrigues, este projecto será o "motor de arranque para o desenvolvimento económico, turístico e local da freguesia.

É interessante a insistência no desenvolvimento do turismo. Ao certo de que forma é que uma estrada que canalizará os eventuais visitantes das Cortes do Meio para a Torre contribui para o desenvolvimento do turismo nas Cortes do Meio? É que vai sendo altura de vermos esta fé no alcatrão explicada. Se as estradas de asfalto não desenvolveram o turismo na Sra do Desterro, nem em Loriga (onde tudo continua tão morto como antes do alcatroamento de caminhos para zonas altas com acesso à Torre), nem, a bem dizer, em Manteigas, Seia, Covilhã, ou Sabugueiro (insisto que não é turismo desenvolvido as enchentes e congestionamentos de tráfego que algumas - poucas - destas localidades sentem em sete ou oito fins de semanas por ano), porque raio é que o hão-de fazer nas Cortes do Meio?

A própria junta de freguesia que quer asfaltar mais um vale da serra em nome do turismo mantém uma lixeira a céu aberto à vista de todos, na vizinhança das Cortes do Meio. E o turismo, para aqui já não é chamado? Talvez não, se considerarmos turistas apenas aqueles que passam no seu carro a caminho da neve de manhã e a caminho de suas casas à tarde, naqueles sete ou oito fins de semana por ano. É essa a tese da Junta de Freguesia das Cortes? Não sei, mas sei que turismo de montanha, nas outras montanhas da Europa, é outra coisa.

Quando era miúdo, era tradição passar o mês de Julho nas Penhas da Saúde. Das coisas que mais me agradavam nessas férias eram as manhãs passadas na piscina, perto do sítio onde actualmente se encontra o café Estrela. Pelo que ouvi dizer, a gestão da dita piscina está atribuída à Junta de Freguesia das Cortes do Meio, essa mesma que quer asfaltar mais um vale da serra em nome do turismo. Estranhamente, e apesar dessa preocupação com o turismo, a junta de freguesia tem mantido a piscina encerrada nos últimos anos (nos últimos cinco ou seis anos, parece-me). Juro que seria muito mais fácil prolongar a semana que continuo a passar nas Penhas da Saúde em Agosto, se os meus filhos se pudessem divertir na piscina das Penhas como eu me diverti. Assim, e por muito que faça (e faço) para os entreter, é difícil. Por isso, acho que muito mais se desenvolveria o turismo na freguesia das Cortes do Meio abrindo a piscina das Penhas do que abrindo a estrada.
Pois pois, já sei, eu não sou dos que apenas querem passar de carrinho a caminho da neve. Ou seja, eu não sou turista. Não para a actual Junta de Freguesia das Cortes do Meio, pelo menos.

sábado, maio 23, 2009

Obviamente!

O suplemento Fugas do Público de hoje tem um longo artigo sobre pedestrianismo, da autoria do próprio director do diário(1). O título do artigo é "Só a pé descobrimos o melhor do mundo à nossa volta", coisa com a qual não podia concordar mais. Não só porque a pé se chega a locais sem acessos asfaltados(2), mas também porque se chega a eles com a sensibilidade de algum modo ativada, mais disponível para a fruição, mais atenta, mais aberta.

Mais à frente na mesma revista, aparece um «"Best of" dos caminhos do país». Desse "best of" constam montanhas como o Gerês, o Marvão ou a Gardunha, mas a Estrela não. Ainda num outro artigo sobre o mesmo tema, "Caminhar em família, com pés e cabeça", referem-se percursos no Gerês, na serra de Sintra ou na Arrábida, mas na Estrela não.

E porque será que a serra da Estrela está assim tão flagrantemente ausente desta pequena lista de destinos compilada pela revista Fugas? Vejamos, é que não estamos aqui a falar de turismo sol e mar, de turismo urbano, de turismo de golf, de turismo de alto luxo, de turismo de neve de Verão, de turismo exótico, ou de outros segmentos onde não esperamos ver a nossa serra elencada. Estamos a falar de pedestrianismo, uma componente maior do turismo de montanha, e nesta lista não aparece a maior montanha de Portugal (não é a maior em altura, mas diria que o é em extensão)?! Porquê?!

Obviamente, porque apesar de se ter asfaltado a estrada de terra que existia entre a Portela de Arão e a Lagoa Comprida, a estrada de terra entre a Sra. do Desterro e o Coxaril, a estrada entre Manteigas e o Poço do Inferno e muitas outras, ainda não se concluiu a asfaltação da estrada entre Unhais da Serra e a Nave de Santo António, não se concluiu a estrada de Alvoco da Serra para a Torre, ainda não se começou a estrada de Cortes do Meio para as Penhas da Saúde e falta ainda a estrada dita Verde, entre a Guarda e o Maciço Central. Como é que se há-de desenvolver o turismo de montanha, e o pedestrianismo em particular, sem todo este asfalto?

Temos que continuar o esforço asfaltante dos últimos quarenta anos, porque estamos no rumo certo, no rumo de sempre. Estamos de parabéns!

(1) Refiro que o autor deste artigo é o director do Público porque se trata de um exemplo de como o pedestrianismo já não é (se é que alguma vez foi) uma actividade reservada a montanhistas, maluquinhos do ambiente, neo-hippies, pobretanas ou, mais em geral, gente esquisita.
(2) Aqui na serra da Estrela, esses locais estão na linha da frente das "legítimas aspirações das populações", pelo que são o objecto de "sonhos antigos", de "promessas de longa data" e de "projectos com dezenas de anos". Discussões sobre acessos asfaltados para muitos desses locais vão, por isso, aparecendo na ordem do dia. Como sempre se afirma, é para desenvolver o turismo. Isto percebe-se?!

quinta-feira, março 12, 2009

Não é todos os dias...

... Que tenho o prazer de ver um pintassilgo.
Pintassilgo (Carduelis carduelis) morto, na berma da variante à Covilhã perto do acesso ao parque industrial do Canhoso.

Preferiria não ter encontrado este hoje.

É mais um exemplo (outros são este, este e muitos mais no blog De Olhos Nas Estradas) de como as estradas de asfalto não têm impactos ambientais e até ajudam a observação da vida selvagem. Ou, direi melhor, a observação da morte selvagem.

É com destas observações que queremos desenvolver o turismo em espaço natural? Se não é isso que pretendemos, deveríamos talvez evitar a asfaltação de ainda mais caminhos pela serra.

terça-feira, fevereiro 10, 2009

Não foi exactamente isto que encomendámos?

Por este post no Máfia da Cova cheguei ao blog de João Tilly, de Seia, e a um post sobre as dificuldades de trânsito que se verificaram há dias no Sabugueiro, causadas pela neve e pelo grande número de visitantes. Deixei lá este comentário
Esperamos que o que o estado gasta com os meios de limpeza seja ajustado às necessidades médias e ao que é razoável esperar em anos mais ou menos normais. Seria difícil de compreender que se gastassem fortunas todos os anos em equipamento e em pessoal, para manter em permanência um dispositivo que só fosse necessário usar em pleno de vinte em vinte anos.
Este ano tem sido claramente excepcional e não me parece razoável aferir por este ano as necessidades de pessoal e de equipamento do centro de limpeza de neve.
Não pretendo com isto afirmar que esta situação aqui retratada não pudesse ser evitada com os meios disponíveis (mas com um pouco mais de atenção, cuidado ou brio). E é claro que estas situações são más e era bom que se pudessem sempre evitar.
Mas será possível evitá-las continuando a apostar no turismo automobilizado, no turismo que vem ver a neve e escorregar um bocadinho (em plásticos ou em esquis, a diferença acaba por não ser assim tanta)? No turismo que exige sempre e cada vez mais e melhores estradas? No turismo que canalizamos quase só para a Torre, um dos pontos menos interessantes e mais degradados da serra? No turismo que temos tido nas últimas décadas e cuja imagem de marca são exactamente congestionamentos como estes?
No Gerês o turismo desenvolve-se com passeios a cavalo, de bicicleta, com caminhadas, escalada e canoagem, com turistas que permanecem vários dias e semanas, durante todo o ano e especialmente no Verão.
Por cá continuamos a querer atrair as hordas de automóveis e autocarros que chegam de manhã e se vão embora à tarde, a apostar nestas enchentes pontuais de fim de semana de Inverno.
Mas poderemos então realmente escandalizar-nos por continuarem a ocorrer, por mais estradas e limpa neves que tenhamos, engarrafamentos destes? Pois se é exactamente nisto que temos investido nos últimos 40 anos!

E não é exactamente nisto que continuamos a apostar quando decidimos criar um parque de estacionamento com um quilómetro de comprimento na Lagoa Comprida, quando pedimos a asfaltação da estrada de Unhais para a Nave de Santo António ou a de um caminho entre as Cortes do Meio e as Penhas da Saúde?

domingo, fevereiro 01, 2009

Não sabem limpar a estrada para as minhas pistas!

Este fim de semana, Artur Costa Pais(1) e a Câmara Municipal da Covilhã insurgiram-se contra a falta de eficiência do Centro de Limpeza de Neve, atribuindo-lhe a responsabilidade por os turistas não conseguirem chegar à estância de esqui.

Bem, pelo que vi na reportagem que a SIC passou no Jornal da Noite (a link pode não ser permanente), o próprio parque de estacionamento do Hotel das Penhas da Saúde também não estava nada em condições que permitissem a circulação em segurança. Ora, quer-me parecer que os acessos e os parques de estacionamento privados devem ser limpos pelos seus proprietários, não pelas ineficientes "estruturas obsoletas" do estado. Por isso, acho que vem a propósito o ditado sobre telhados de vidro e pedras atiradas ao ar.

De acordo com o que me contaram entendidos, é muito diferente limpar neve que cai com uma temperatura de -100C e se mantém no solo como um pó fino, leve e seco, e limpar neve que cai a uma temperatura de -30C, misturada com nevoeiro ou chuva miúdinha, que fica pesada de tão empapada em água, que depois solidifica durante a noite. E, ainda segundo me foi dito, é por essa diferença que é tão frequente, na serra da Estrela, ser necessário recorrer a tractores e retroescavadoras para abrir caminho (e até podemos ver uma destas máquinas na reportagem que referi acima).

Mas acontece que tenho contado o número de dias em que as estradas de acesso à Torre se encontram fechadas desde que, nesta época, abriu a estância, no dia 1 de Dezembro. Nos 64 dias que passaram desde então, as estradas estiveram cortadas em 14 dias. Nalguns desses dias não se pôde circular apenas durante a manhã, mas na minha contagem, contaram como os outros. Com tudo o que tem nevado, francamente não me parece nada mau.

E quero notar que, mesmo que haja responsabilidades humanas a apurar nesta situação, toda esta indignação da Turistrela e da Câmara Municipal da Covilhã tem um aspecto anedótico. É que, com tão boas condições que, segundo se anuncia, a serra da Estrela tem para a prática do esqui, e com tanta, tanta, neve que este ano tem trazido, mesmo assim as pistas da estância que não estão equipadas com canhões de neve ainda não estiveram abertas um único dia, segundo as informações difundidas pelo próprio site da Turistrela. Significa isto que a estância tem estado reduzida a um total de 3,6 km esquiáveis, e isto nos dias bons porque, por exemplo, ainda nos que antecederam este último nevão, na semana passada, a estância tinha abertas apenas as pistas Cântaro (155 m) e Covão (229 m), num fantástico total de 384 m esquiáveis! Peço desculpa, mas as coisas aqui na serra são o que são. E, como são o que são, armar um grande escândalo afirmando que a ineficiência da limpeza das estradas que dão acesso à estância de esqui prejudica gravemente a economia regional... Enfim.

Para terminar, a minha experiência de como as coisas se passam "lá fora" é esta: na Páscoa passada passei uma semana em Andorra. A meio da semana, veio um dia com condições parecidas com as que tivemos na Serra este fim de semana. A estância (Grand Valira) esteve encerrada. Em Dezembro, fui a La Covatilla com a ideia de esquiar dois dias; no segundo não o pude fazer porque estava a nevar e a Guardia Civil interditou a estrada de acesso à estância a meio da manhã. Noutros anos, noutras paragens, tenho por vezes sofrido situações semelhantes. É a vida.

O blog Estrela no seu melhor refere-se também a este "escândalo".
(1) Administrador da Turistrela, a empresa concessionária exclusiva do turismo e dos desportos na Serra desde 1972 e por décadas ainda por vir para o futuro.

EN-338, Manteigas-Piornos

(Clique na imagem para a aumentar)

A Associação Cultural Amigos da Serra da Estrela convida todos os interessados a participar numa sessão pública a ter lugar no Auditório do Centro Cívico de Manteigas no dia 10 de Fevereiro, pelas quinze horas, onde será apresentada (e, deseja-se, discutida) uma proposta para a beneficiação do troço da Estrada Nacional 338 entre Manteigas e Piornos, no sentido de garantir e melhorar a segurança rodoviária do dito troço, no respeito pelos valores ambientais e paisagísticos do vale do Zêzere.

segunda-feira, janeiro 19, 2009

O problema está nos detalhes

Creio que ainda nunca encontrei alguém que se afirmasse anti-ambientalista. Isto é, toda a gente é amiga da serra, das suas paisagens e do seu ambiente... Em geral. Porque, em concreto, alguns (ou muitos, não sei) são a favor da instalação de hotéis na Torre, ou do incremento (está bem, chamemos-lhe "requalificação", mas todos sabemos que é de um incremento que se trata) da urbanização nas Penhas da Saúde ou nas Penhas Douradas, ou de ainda mais uma barragem lá por cima, ou da ampliação da estância de esqui, ou da instalação de teleféricos, ou do aumento da capacidade de parqueamento, ou da definição de novas reservas de caça, ou da criação de novos parques eólicos, ou da abertura de um casino... Enfim! Todos somos amigos da serra, das suas paisagens e do seu ambiente, em princípio, mas, quando vamos ao concreto, muitos defendemos (com bons argumentos muitas vezes, não é isso que está em causa) projectos ou empreendimentos que, em maior ou menor grau, alteram significativamente as paisagens e o ambiente da serra. Alguns chegam ao cúmulo de dizer que essas alterações no ambiente e na paisagem introduzidas por nós são para melhor!

Um exemplo acabado desta mesma dissociação entre os princípios abstractos perfilhados por todos e os emprendimentos concretos que muitos defendem é o das estradas na serra. Refiro-me concretamente às estradas para os turistas chegarem à Torre, não às necessárias para a comunicação das populações com o exterior e em particular com as suas sedes de concelho e distrito.

É que praticamente nunca ouvi ninguém dizer-se, em geral, favorável a mais estradas na serra. Todas as pessoas com quem falei (ou de quem li afirmações) sobre isso afirmam a necessidade de conter o avanço do asfalto, em princípio. Mas, no entanto, muitas destas pessoas defendem este ou aquele projecto de asfaltação concreto, normalmente consoante o lugar onde vivem. Assim, pessoas de Alvoco defenderam (e concretizaram parcialmente) o seu projecto de asfaltação de uma estrada até à Torre; pessoas de Loriga defenderam a sua estrada de S. Bento; pessoas de Unhais defendem agora a sua via asfaltada para altitude de 1600m; os das Cortes do Meio exigem o seu acesso rodoviário às Penhas da Saúde, e os da Guarda a sua estrada dita Verde. Os representantes mais moderados de cada um destes grupos defendem a sua estrada (ou projecto de estrada) em concreto, mantendo e defendendo simultaneamente que não se deve exagerar na asfaltação da serra, que não se devem recortar os ecossistemas nem as paisagens, etc, etc.

Ninguém parece ser sensível à objecção mais imediata: se esta estrada é necessária para a minha povoação, se a ela temos direito, então a dos vizinhos também lhes há-de ser igualmente necessária e eles terão a ela o mesmo direito que nós à nossa. Uma possibilidade para "descalçar a bota" colocada por esse argumento é concluir que *todas* estas estradas são necessárias e que é obrigação do estado português realizar cada uma delas. Quase ninguém vai por aí, porque é fácil ver onde esse caminho nos leva: a que se essas estradas ou projectos de estradas são uma necessidade, então também o serão outras ainda não defendidas tão sonoramente: Tortosendo, Vila do Carvalho, Sarzedo, Verdelhos, Sameiro, Linhares da Beira, Folgosinho, Sobral de S. Miguel, Teixeiras, e tantas outras freguesias da corda da serra deverão também ver abertas (e asfaltadas!) as suas respectivas vias de acesso rodoviário rápido e directo às zonas altas da serra da Estrela. Ou seja, se todos aqueles projectos são inalienáveis e legítimas aspirações das respectivas populações que o estado deve satisfazer, então devemos transformar toda a serra da Estrela num enorme nó rodoviário, com estradas de asfalto em todas as direcções entrecruzando-se a cada poucas centenas de metros.

Claro que não é isso que queremos. Mas, então, que argumentos temos para defender o nosso projectozinho particular? "Vá lá... Por favor... Só mais esta asfaltaçãozinha aqui e depois não façam mais nenhuma...", é isso? E isso é razoável?

Nos princípios gerais, nas abstracções, todos somos amigos da serra, ou seja (porque, ao nível das abstracções, vai dar ao mesmo), nenhum de nós o é. É nos detalhes concretos que se traça a linha, é nos detalhes concretos que cada um se revela. Mas tudo bem: não há nenhuma lei que obrigue todos os cidadãos a serem defensores das paisagens e do ambiente da serra.

sábado, janeiro 10, 2009

São precisas ainda mais estradas? (II)

No fim de ano, fui esquiar a La Covatilla, em Béjar. Fiquei alojado num hotel em El Barco de Ávila, como várias outras famílias de esquiadores, portuguesas e espanholas. O trajecto de El Barco de Ávila para La Covatilla é o que mostro na figura em baixo. Perto de trinta quilómetros, trinta e sete minutos. A longitude e a duração do trajecto estão dentro do que considero razoável em férias de neve. Encontrei coisas semelhantes em Andorra e em Baqueira.

Trajecto de El Barco de Ávila à estância de La Covatilla. Clique na imagem para a ampliar, ou vá ao maps.google para mais detalhes.

Do centro de Unhais da Serra até à Torre, o trajecto normal é o que a figura em baixo mostra. Quarenta quilómetros, quarenta e um minutos. Está dentro do que considero razoável. Por mim, como vulgar turista de neve que também sou, não há necessidade *nenhuma* de "aproximar" a Torre de Unhais.

Trajecto de Unhais da Serra à estância Vodafone. Clique na imagem para a ampliar, ou vá ao maps.google para mais detalhes.

Pode haver outras razões para a estrada Unhais - Nave de Santo António mas, pelo lado do turismo, quanto a mim, é melhor deixar as coisas como estão. A menos que o objectivo seja, mais uma vez, apostar no turismo que temos, o das voltinhas automobilizadas serra acima, a ver a neve. É esse o objectivo?

sexta-feira, janeiro 09, 2009

São precisas ainda mais estradas?

Página 6 do Diário XXI de hoje (clique para tornar legível). Chamo a atenção para a caixa assinalada a azul no canto inferior direito.

O novo hotel termal em Unhais da Serra tem vários aspectos que me agradam e muito: foi construído numa localidade (das verdadeiras, onde mora gente, não incluo aqui as "minicidades" como as Penhas da Saúde); houve cuidados ambientais na construção e continuarão durante a sua exploração (as certificações que anunciam obrigam a tal); houve desde o início a preocupação de manter elevados padrões de qualidade; foi dada formação à população; tem havido desde o início um grande enfâse nas referências ao turismo de natureza (e Unhais da Serra tem uma localização soberba para esse segmento). Por estes aspectos, este empreendimento está a anos-luz daquilo a que nos têm habituado investimentos similares na serra da Estrela (felizmente há mais alguns, mas poucos, bons exemplos) e por isso espero que o empreendimento seja um grande sucesso.

E, no entanto, desde o início há um "pequeno" pormenor que me incomoda. É que tenho a impressão (que já foi várias vezes confirmada por terceiros) que a asfaltação do estradão de terra Unhais - Nave de Santo António pelo Vale da Alforfa está, de algum modo, ligada a este novo hotel. Esta impressão sofreu um novo reforço ao ler a notícia que reproduzo na figura.

Os "melhoramentos" no estradão foram feitos, há já alguns anos (já terão passado dez anos?), de forma completamente desastrada, em pendentes de grande inclinação, sem qualquer cuidado com a estabilização dos taludes, de tal modo que em muitas zonas da área intervencionada encontramos actualmente grandes blocos graníticos (alguns do tamanho de automóveis) na faixa de rodagem, que rolaram encosta abaixo. Assim, apesar de faltarem apenas não mais do que dois quilómetros para completar a asfaltação, aposto que serão necessárias obras profundas em quase todo o trajecto (com cerca de 12km de extensão total).

E tudo isto para quê? Para que mais um vale fabuloso seja facilmente atravessável de automóvel, tornando-o menos fabuloso, logo, menos atractivo para outras práticas que, segundo se afirma, se querem incentivar: passeios pedestres ou a cavalo, interpretação da natureza, admiração da paisagem. E para que também no novo hotel se possa, fácil e comodamente, fazer o tipo de turismo que, supostamente, se pretende ultrapassar: o das voltinhas automobilizadas serra acima, a ver a neve.

"As estradas são poucas"

A ideia de que há poucas estradas na serra da Estrela, e sobretudo a ideia de que são necesárias mais para desenvolver o turismo, continuam muito vivas e estão muito espalhadas na nossa região. [Diga-se de passagem, esta constatação foi das coisas que mais me espantou quando comecei a discutir mais aprofundadamente (ou assim o tentei, pelo menos) os problemas da serra da Estrela, no blog do programa PETUR.]

Há dias questionei em que sentido se podia afirmar que as estradas na serra da Estrela são poucas, pegando nas palavras de um editorial do Diário XXI. Disse que não achava que fossem poucas, antes pelo contrário, e que me parecia que na maioria das montanhas da Europa as estradas ficam principalmente pelos vales, fazendo da Estrela um caso especial. Penso que poucos discordam de que a estrada pelo cume é, de facto, uma originalidade particularíssima da nossa serra.

Hoje vou colocar uma hipótese adicional que ainda não verifiquei cuidadosamente: a de que há mais estradas de atravessamento na Estrela do que na maioria das montanhas europeias de dimensão comparável ou superior. Aviso desde já que duvido que me lance numa pesquisa muito exaustiva deste assunto. Fica só a hipótese, cada um que a considere como entender e que me faça chegar, por favor, as conclusões que tirar.

Um exemplo que apoia a minha hipótese? A Sierra de Béjar, para não ir mais longe. Comparem-se as duas imagens que ilustram este post. Clique nas imagens para abrir as páginas do maps.google das respectivas áreas, nas quais poderá fazer zoom para aumentar o detalhe como entender. É preciso dizer mais alguma coisa?

A Sierra de Bejár corresponde mais ou menos à área definida pelo triângulo Plasencia - Bejár - El Barco de Ávila. Clique no mapa para abrir o google.maps na área. (Atenção que a linha a tracejado é uma fronteira administrativa, não uma estrada.)

Serra da Estrela. Clique no mapa para abrir o google.maps na área.

quarta-feira, dezembro 31, 2008

Como?!

Imagem roubada no Blog Cortes do Meio

Decobri no Blog Cortes do Meio a notícia da figura (clique para ampliar) publicada não sei em que jornal, nem em que data (suponho que não seja muito recente). Pelos vistos, os elementos da Assembleia de Freguesia das Cortes do Meio entendem unanimemente que o que é preciso para terem mais desenvolvimento e mais turismo (turismo em espaço rural, ainda por cima!) é uma estrada de alcatrão para as Penhas da Saúde!

Não é uma atitude muito original, na nossa região. É por causa da filosofia onde se insere essa atitude que temos o turismo que temos, que temos o desenvolvimento que temos.

Estamos no rumo certo, estamos de parabéns?

terça-feira, dezembro 30, 2008

Ora bem!

Alguém me contou que, num destes dias de festa, tentou chegar ao alto da serra de carro mas foi forçado pela GNR a aguardar nos Piornos durante algum tempo, por haver demasiadas viaturas na zona da Torre.

Não havendo lugares para estacionar ou parar o carro, sendo o trânsito intenso e difícil, entendo que o melhor é mesmo não permitir que mais viaturas vão agravar este estado de coisas. E entendo que para o fazer, não são necessários grandes parques de estacionamento nos Piornos e na Lagoa Comprida, nem teleféricos, nem nada a não ser autoridades com vontade e capacidade de actuar.

A ser verdade o que me disseram (e espero que sim porque me parece uma medida do mais elementar bom-senso), provou-se que tenho razão.

Quase me parece ouvir o argumento "E as pessoas, que vieram de tão longe e não conseguem chegar à Torre, não vão ficar decepcionadas?", ao que eu respondo com uma pergunta: é melhor ser autorizado a passar, subir lentamente em pára-arranca até à Torre, não ter espaço para estacionar ou sequer para parar o carro, e gastar nesta tristeza toda a tarde? Eu acho que não.

sexta-feira, dezembro 19, 2008

Editorial do Diário XXI de hoje

Em primeiro lugar, quero dizer que me agrada bastante o Diário XXI, que costumo ler todos os dias (na internet, confesso). Não me enche as medidas, mas é um jornal decente e arejado, que raramente resvala para o paroquialismo característico de muitos outros exemplos da imprensa regional, e alguns com muito mais pergaminhos que o Diário XXI. (Já agora, também tenho que dizer que, felizmente, há mais alguns jornais regionais que consigo ler.)

O editorial "Bloco de Notas" do Diário XXI de hoje pode ler-se clicando na imagem que ilustra este post. A parte que me interessa é o segundo e terceiro parágrafos, que fizeram surgir em mim algumas questões:

  • Em que sentido afirma o autor que "a mobilidade dentro da Serra da Estrela, à medida que se sobem alguns metros" não é boa? Em 90% dos dias viaja-se perfeitamente pelas estradas da serra, não há quaisquer problemas de circulação ou de estacionamento, excepto os causados pelo mau tempo, que, de qualquer modo, dificultam ou impossibilitam a visitação da serra. É verdade que, nalguns fins de semana e dias de festa, a afluência à serra é tamanha que se torna impossível circular ou estacionar, "à medida que se sobem alguns metros". É preciso fazer alguma coisa para resolver esse problema? Sim, mas devemos ter em mente que para resolver um problema que se faz sentir, digamos, trinta dias por ano (que exagero!) talvez não valha a pena causar estragos na paisagem e no ambiente que se notem não só nesses dias mas também nos restantes trezentos e trinta e cinco.
  • Em que sentido se afirma que "as estradas são poucas"? Que estradas existem para subir ao cume da serra da Gardunha, do Gerês? Ou da sierra de Béjar, Gredos, Penha de Francia? Como se pode subir de carro ao topo da sierra Nevada (havia um estradão para jipes, mas o trânsito foi proibido com cancelas, estando agora reservado apenas veículos da protecção civil)? E nos Pirinéus? E nos Alpes? Em todas as montanhas da Europa, as estradas ficam principalmente pelos vales. Se as estradas são "poucas" na serra da Estrela, o que dizer das restantes montanhas da Europa, caramba?!
  • O que significa dizer que "também não se deve limitar o acesso a zonas interessantes para quem vem a esta zona"? Que devemos asfaltar uma estrada até ao vale da Candieira? Montar um teleférico para a Nave da Mestra? Um funicular pela garganta de Loriga? Será que o autor considera uma limitação ao acesso as portagens que o Parque Nacional da Peneda Gerês impôs ao tráfego automóvel pelo estradão da Mata Nacional de Albergaria? E nos Picos da Europa, onde o acesso com automóvel ligeiro à zona dos Lagos de Covadonga está limitado à capacidade de parqueamento nessa zona, definida oficialmente, devendo os que já não "têm lugar" usar transportes públicos, é esta uma limitação das que não devemos definir aqui?

As acessibilidades numa região de montanha, em particular aquelas com que se pretende servir o turismo, devem no meu entender ser analisadas com um prisma muito especial, que não é aquele com que se estudam os casos gerais. É que as que consideramos indispensáveis para rápida e confortavelmente se chegar ao topo ou, mais geralmente, ao "local de interesse", são as mesmas que os turistas usam para rapidamente se pirarem para fora daqui. Álem disso, reforçam o ênfase no "local de interesse", ao mesmo tempo que retiram interesse na viagem até lá, que pode ser até mais interessante e compensadora. Pior ainda: as estruturas desse acesso sujam e danificam os lugares que atravessam, o que reforça imenso o que acabo de dizer. Isto tudo junto serve apenas para os turistas fazerem o que têm feito na serra. Chegar ao "local de interesse"; brincar um pouco na neve ou fazer um piquenique, alguns deixando lixo que depois se dispersa por todo o lado; e depois, regressar rápida e confortavelmente a casa. A isto, principalmente a isto elevado ao absurdo naqueles absurdos fins de semana da neve, chamamos turismo na serra da Estrela.

No Ben Nevis (Escócia) uma montanha com semelhanças com a nossa (cume achatado, altitude moderada, monte mais alto das ilhas britânicas), onde não há estradas no topo, nem telecabines, nem funiculares, nem nada, estará lá o acesso demasiado limitado? Parece-me difícil defender esta tese, uma vez que todos os anos 150 000 turistas ascendem ao seu cume... Turistas esses que dada a duração da caminhada, têm que permanecer na região alguns dias, pernoitar, restaurar, abastecer-se, contratar guias, etc, etc, etc. Lá não se ouvem as vozes chorando os eternos problemas com os acessos. Sabem porquê? Porque não têm, nem querem, esses acessos que nós por cá consideramos indispensáveis e sempre insuficientes.

Numa coisa estou em total acordo com o autor: é preciso diversificar. Mas para mim isso significa limitar o trânsito rodoviário (eventualmente até encerrar algumas estradas) e criar condições que permitam aos visitantes rápida e confortavelmente contratar trasporte para regressarem ao local de pernoita após uma caminhada longa, alugar bicicletas, cavalos, canoas, instrutores de escalada. Como se faz nas outras montanhas, do Gerês aos Urais. Isso sim, seria diversificar.

Algarvear a Serra da Estrela? Não, obrigado!