segunda-feira, julho 17, 2006

Contribuição para um balanço dos 30 anos.

Este ano o Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE) faz 30 anos. Desde que foi fundado, o parque viu a sua razão de existir ser reconhecida com a declaração de reserva biogenética, com a integração na rede Natura 2000 e, já este ano, com a aplicação da Convenção Ramsar às suas lagoas. Por aqui, óptimo! Por outro lado, tanto quanto sei, não se avançou nem um milímetro na reintrodução de grandes mamíferos extintos como lobos, corços ou cabras-montês. Suspeito que, devido aos incêndios, o parque terá perdido, nestes 30 anos, uma percentagem muito, muito razoável do seu coberto florestal.

Apesar de já não ser possível a venda ambulante na Torre, o que a substitui (o centro comercial "Espaço Diamante", ou lá como se chama) não é muito melhor, e não se impediu, com esta e outras mudanças e "requalificações", o continuar da vergonha da lixeira desta zona da Serra (o cume).

Foi possível, creio que no final dos anos setenta, remover da Nave de Santo António as construções ilegais que a cobriam, mas parece já não terem restado forças para repetir o feito nas Penhas da Saúde. Antes pelo contrário, suspeito que actualmente já todas as barracas de lata deste futuro "aldeamento de montanha" (as que existiam há trinta anos e as que entretanto foram sendo construídas) têm a sua situação legal regularizada, graças à benevolência dos diferentes executivos camarários da Covilhã...

O PNSE fez por ter este ano um pouco mais de visibilidade, não sei se apenas para efeitos das festividades do aniversário. Entre outras iniciativas, realizaram uma série de conferências, organizaram um conjunto de passeios pedestres guiados no dia 16 de Julho (foi antes de ontem, como terá corrido?, raios me partam, devia-lhe ter dado aqui alguma divulgação!), com origem nas várias capitais de concelho da Serra da Estrela, concentrando-se todas no Vale do Rossim para um convívio alargado. Nesta mesma zona, definiu-se e sinalizou-se um "percurso pedestre universal" com 600m de extensão, apropriado para visitantes portadores de deficiências. Há trinta anos, quando foi fundado, o PNSE iniciou um esforço para definir, documentar e sinalizar a rede de percursos de grande rota da Serra da Estrela. Este esforço ficou completado penso que por volta de 1983. Os onze trilhos (três principais, com diversas variantes cada um) que compõem esta rede têm uma extensão total de trezentos quilómetros. Têm extensões desde 11,4 km (a variante T31) a 76 km (o trilho T1). Desde a data da sua criação, porções desses trilhos foram asfaltados e são agora estradas municipais.

Face a tudo isto, mesmo reconhecendo que a função principal do PNSE não é o desenvolvimento do turismo de montanha e do pedestrianismo, mesmo admitindo que muito do trabalho realizado não seja imediatamente visível por não especialistas como eu, como evitar a sensação de que o PNSE perdeu ímpeto nestes trinta anos, de que não consegue convencer as "forças vivaças" de que o rumo tem que mudar, de que não tem força ou entusiasmo para mais do que a colocação de umas placas informativas (outras com proibições difíceis de entender, vista a desgraça permitida na Torre)? O que fazem este ano é melhor que nada, claro, mas não parece tão poucochinho, dada a sua actividade nos primeiros anos? PNSE, por favor, coloca-te à altura das funções de que te incumbiram, à altura da promessa que foram os teus anos de infância.

Seja como for, PARABÉNS ao PNSE! Que faça muitos.

6 comentários:

Rui Peixeiro disse...

Um post 5 Estrelas (já vamos estando habituados)... Pelo que sei, está aí retratado muito bem o PNSE.
A retirada das barracas da Nave de Santo António, já foi feita nos anos 80, que em 1979 nasci eu e ainda me lembro de lá ir ao tasco (pobre capela)...

Resta-nos desejar que os próximos 30 anos sejam ainda melhores que os primeiros!

Tiago P disse...

Resta-nos esperar, por um lado que daqui a 30 anos a existencia do PNSE ainda se justifique dado o rápido degradar da serra e por outro que não sejam necessários mais 30 anos para que os responsaveis do parque voltem a organisar alguns eventos com interesse!

Anónimo disse...

Instituições como o PNSE têm de conseguir visibilidade para a proteção da natureza (fauna e flora incluidos)e poder para combater/impedir os atentados ambientais totalmente interesseiros e oportunistas da turiestrela. Como muito bem disse eu adoraria era ver uma noticia sobre o regresso do lobo à serra,com condições para a manutenção de uma população estável e não saber que tenho mais mil e tal camas no "Condominio Residencial Planalto Central" ou vou ter uma rave na zona dos "tapetes de gelo".
Ricardo

Miguelito disse...

Fiz algumas caminhadas recentes (Vale do Rossim - Nave da Mestra, Covão da Ametade - Cântaro Gordo - Cume) e cruzei-me com algumas marcações dos percursos originais (TI, TII). Será que vão ser recuperados?

ljma disse...

Ontem, enquanto escrevia este artigo, pensei que, antes de o publicar deveria verificar os dados relativos aos trilhos de grande rota, mas deu-me o sono e esqueci-me. Hoje fiz a verificação e corrigi um pequeno erro sobre a estensão dos trilhos. Não que fosse muito significativo.
Obrigado, rui, faz-se o que se pode. Acho que tem razão quanto à Nave de Santo António. Gostava de referir algo sobre as demolições na Nave de Santo António: imagino que na altura tenha havido grande polémica e forte contestação (não sei, ou andava distraído ou estava fora da Covilhã). Passados estes anos, haverá alguém que ache que se tratou de uma decisão errada? Quem sabe como estariam as coisas hoje em dia, se se tivesse sido mais sério quanto às barracas das Penhas da Saúde?
Ricardo, não que parece que os lobos tenham a menor das hipóteses na Serra da Estrela, por enquanto! Não têm com que se alimentar, nem onde se esconder. Mas lá que era bom, era.
miguelito, no maciço central os trilhos mantêm-se sinalizados, mas penso (sem ter dados) que isso se deve à acção de clubes de montanhismo e escuteiros. É que não parece haver nenhuma ordem nas marcações, desde locais em que o trilho está praticamente pintado de vermelho, tantas e tão grandes são as marcas, até sítios onde quase não se vêm marcas, passando por outros em que o trilho se encontra marcado com montinhos de pedras. Portanto, acho que a sinalização dos trilhos se vai mantendo, mais ou menos ao deus-dará.
Tiago, oxalá, oxalá!

João disse...

a propósito do possível ou desejado regresso do Lobo Ibérico a território da Estrela, nesta data que se comemora do PNSE, vejam:

http://covilha.blogspot.com/2006/07/o-lobo-na-serra-da-estrela.html

Um abraço a todos.

Algarvear a Serra da Estrela? Não, obrigado!