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quarta-feira, maio 20, 2009

Indispensabilidades

No alto de S. Lourenço (concelho de Manteigas) há um pequeno aglomerado de antigos e solenes carvalhos-negral, alguns com perto de quinhentos anos de idade. Rodeada por esses carvalhos, uma pequena capela, igualmente solene, que parece igualmente antiga. Foi construída por pessoas que subiam de Manteigas ou do Sameiro a pé ou de mula, num trajecto em que não demoravam menos que uma hora, ainda por cima carregados com os materiais de construção, pelo menos aqueles que não conseguiam produzir no local.

O sítio merece bem uma visita, facilitada hoje em dia por um estradão de terra batida, rasgado imagino que para permitir a construção do posto de vigia existente algumas centenas de metros mais a sul, onde a vertente sobre o Vale do Zêzere se acentua.

É interessante (e um pouco deprimente) constatar que, pobres e sem meios, os antigos conseguiam construir sem estradas ao passo que nós, mais ricos, mais poderosos e (alegadamente) mais conscientes, não o conseguimos fazer.

Mas deprimente, mesmo, é constatar que os pobres e fracos antigos conseguiam realizar trabalho sem estradas e sem pópós, ao passo que nós consideramos indispensáveis as estradas e os pópós, até para gozar uma tarde de sábado soalheira, para desanuviarmos do stress diário, para (absurdo dos absurdos!) nos aproximarmos da natureza. Ou não é isso que se deduz das vozes que exigem ou exigiram estradas asfaltadas para as zonas altas da serra em Unhais, em Cortes do Meio, na Guarda, em Alvoco, em Loriga, sempre justificando essa exigência com o contributo que a estrada dará para o desenvolvimento do turismo?

Assim vamos... No rumo certo, no de sempre. Estamos de parabéns.

quinta-feira, outubro 23, 2008

Pois, pois...

(Imagem retirada do site do evento.)

O Instituto de Turismo e a SPEA promovem conjuntamente uma oficina internacional sobre Turismo de Natureza, subordinada ao tema "As potencialidades turísticas do Birdwatching — A observação de aves em Portugal".

Pois, cá está. Como se torna cada dia mais evidente, a gente aqui no Cântaro Zangado não percebe nada disto do turismo na serra da Estrela. Birdwatching?! Qual quê! É de continuar mas é no rumo que se tem seguido, o da neve, do esqui e do sku; o da concessão exclusiva, das minicidades, do casino; o da necessidade de teleféricos, de mais e melhores estradas, de mais e maiores parques de estacionamento; o dos centros comerciais na Torre, o do lixo e dos plásticos por todo o lado. É o rumo que autarcas, responsáveis da região de turismo, responsáveis da Turistrela e demais forças vivaças locais propagandeam. É o único rumo que propagandeam quando falam do futuro do turismo na serra.

É um rumo que tem dado boas, excelentes provas. E, como se torna cada dia mais evidente, é o rumo do futuro. Só mesmo nós, os radicais fundamentalistas do Cântaro Zangado e outros ambientalistas reaccionários, é que ainda não o percebemos.

domingo, fevereiro 17, 2008

Isto é normal?

(Fotografia do Máfia da Cova)

O Covão d'Ametade está bem no interior do Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE). Integra o Sítio Rede Natura 2000 e a Reserva Biogenética Serra da Estrela. É um local de grande beleza (dos poucos que ainda vão restando), com um bosque de bétulas adultas como não há mais nenhum na Serra da Estrela e como duvido que haja muitos no nosso país.

(Fotografia do Máfia da Cova)

Não sei se terá uma grande importância ecológica, ou se raros valores de biodiversidade tornam justificáveis regulamentos muito restritivos para a sua utilização recreativa. Suponho que não e nesse sentido compreendo que esteja classificado como um núcleo de recreio do PNSE.

(Fotografia do Máfia da Cova)

Por ser um local de rara beleza, por ser facilmente acessível e por ser um núcleo de recreio, poderia (e deveria) ser aproveitado para incentivar práticas ambientalmente correctas de recreação, para a educação ambiental, para a fruição ambiental. Também por isso é um local especial e mereceria portanto ser tratado com cuidado. Neste local, mais do que noutros do PNSE (ou por estarem mais degradados, como a Torre, ou por estarem mais afastados de acessos rodoviários), os impactos das actividades a realizar deveriam ser aferidos também de um ponto de vista da imagem que veiculam do Parque como estrutura do Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade e até da serra como destino turístico.

Este fim de semana decorreu uma concentração de motociclistas no Covão d'Ametade. O evento foi autorizado pelo PNSE, que colaborou na preparação do local, e foi apoiado pela Câmara Municipal de Manteigas. Os organizadores montaram tendas gigantes aquecidas para servirem como refeitório e espaço de convívio, duches quentes, geradores eléctricos, barraquinhas de comes e bebes e de venda de souvenirs, várias fogueiras e até (!) uma banheira com água aquecida a fogo para "banhos turcos". Algumas motas, carros e carrinhas de apoio entraram pelo Covão adentro, rolando sobre o relvão. Ilustro este post com algumas fotografias, umas "roubadas" no Máfia da Cova, outras enviadas por um amigo.

Algumas perguntas:
De que modo é que este evento serve a função do PNSE? Uma vez que este arraial foi autorizado, passarão também a ser permitidos no Covão d'Ametade festivais de Verão, feiras de artesanato, festas-comício de partidos na rentré pós-estival, lançamentos comerciais de modelos de automóveis? Se não, porque não? Se sim, que sentido faz ainda falar de protecção ambiental? Que imagem é que este evento dá da protecção ambiental na Serra da Estrela? Que imagem dão de si os serviços do PNSE ao autorizarem e colaborarem com a sua organização? Que vantagens vê a autarquia manteiguense, a Junta de Frequesia e o Conselho de Baldios na realização de eventos deste tipo? Que imagem dão de si os responsáveis manteiguenses (concelho com gravíssimos problemas sociais e económicos) ao apoiarem no seu território um evento que quase parece ter sido organizado com a preocupação de minimizar eventuais mais-valias para Manteigas e a sua população?

Por fim, que imagem dão de si os motociclistas, que publicitaram este encontro com "o verdadeiro espírito Motocilista de confraternização aliado às condições mais adversas de viagem e acampamento" (ver o cartaz), tendo em mente, desde o princípio, este tão confortável arraial?

PS: A propósito desta concentração motard, recomendo uma passagem pelo Estrela no seu melhor.

terça-feira, agosto 14, 2007

A maxi-iluminação da mini-cidade

Tenho passado temporadas de férias nas Penhas da Saúde desde que me lembro. Desde que me lembro que acontece, em noites de Julho e Agosto particularmente amenas, ficar na conversa à noite, na rua. Nessas ocasiões, os olhares e, por vezes, as conversas iam parar às estrelas, cuja presença se impunha, ostensiva. Foi assim com os meus pais, quando era criança, foi assim mais tarde, com as namoradas, foi assim com os meus filhos, mais recentemente.
Até que a Câmara Municipal da Covilhã resolveu transformar as Penhas da Saúde numa magnífica mini-cidade (ver mais propaganda aqui), com iluminação pública à altura de uma magnífica mini-cidade. O ambiente nocturno das Penhas da Saúde agora é o que a fotografia acima ilustra. Parece a segunda circular, em Lisboa. A abóbada celeste já não se impõe como antes, já não é evidente, com um relance pela janela, se (feliz ou infelizmente) há ou não luar.
Pela iluminação pública, já não se notam diferenças entre as Penhas da Saúde e qualquer pólo turístico urbano. Pela iluminação pública, existem agora menos razões para preferir as Penhas da Saúde a Quarteira.
Talvez a Serra da Estrela ainda seja, um pouco, Onde a Natureza Vive (como propagandeia a Região de Turismo). Mas, nas Penhas da Saúde, ela vive um pouco menos desde que se levou a cabo esta "requalificação".
Passo a passo, vão-nos levando a natureza. Passo a passo, vão-nos deixando o quê?
E tudo isto, para quê?

A fotografia foi tirada sem flash, sem tripé, sem apoio especial. O tempo de exposição (regulado pelo modo automático da câmara) foi suficiente curto para a imagem não ter ficado tremida. Daqui se pode fazer uma ideia mais clara da claridade das noites nas Penhas da Saúde.

sábado, março 31, 2007

As maravilhas da Serra

Não se descobrem num "pronto a usufruir". É preciso respeito e responsabilidade. É preciso sentir o chão nos pés, o coração no peito, o vento na cara. É precisa atenção.
Não é com câmaras nem com gravadores que se registam essas maravilhas. Nem é em quinze minutos que se "ganham".
São de graça. Mas não têm preço.

terça-feira, janeiro 16, 2007

Desabafo!

Pego na pergunta implicíta na exclamação do meu amigo de cordada (que referi há dias): Como é possível que haja tótós que paguem para usar a estância de esqui nestas condições?, e vêm-me à mente outras questões:
  • Como é possível que em 2007 esteja em vigor uma concessão exclusiva do turismo e dos desportos sobre uma área natural absolutamente enorme, que se mantém há já 30 anos e que se prevê que continue por mais algumas dezenas de anos?
  • Como é possível que a empresa que detém essa concessão seja responsável por situações como as que temos referido aqui no Cântaro Zangado ou as que outros denunciam publicamente por outros meios (destaca-se o blog amigo Estrela no Seu Melhor), sem que seja posto em causa o alvará para a sua actividade, sem que sequer seja posta em causa a tal concessão?
  • Como é possível que o estado deste país pobre e financeiramente esgotado invista milhões de euros numa actividade (o esqui) que visivelmente não tem futuro na Serra da Estrela?
  • Como é possível que nenhum dos organismos que deviam fiscalizar as actividades da Turistrela (na medida em que elas decorrem no interior de uma área protegida) efectivamente o façam, sem que haja processos internos de averiguações e de apuramento de responsabilidades por tal condescendência?
  • Como é possível que, face a uma enorme lista de atentados ao ambiente, à paisagem, até às regras mais elementares do mais elementar bom-gosto perpetrados por esta empresa, a Região de Turismo (RTSE) continue a entendê-la como uma peça fundamental para o desenvolvimento e ordenação do turismo na Serra da Estrela?
  • Como é possível que, mantendo a Região de Turismo esta incrível atitude, os municípios que a constituem mantenham em funções a sua sua direcção?
  • Como é possível compreender que um município (Fundão) que se cansou de ver o turismo na região confundido (pela RTSE) com esta peculiar versão do turismo da neve e que, por isso, se decidiu separar da Região de Turismo tenha, desde então, visto a sua actividade turística desenvolver-se de um modo diversificado, ligado à cultura, à arqueologia (incluindo a industrial) e à etnografia?
  • Como é possível compreender que todos os responsáveis (locais, autarquicos, regionais, dirigentes de organismos públicos e privados) defendam estradas, estradinhas, estradões e telecabines que permitam aos turistas menos exigentes despachar rápida e confortavelmente uma visita à Serra, não permanecendo na região mais do que um fim de semana (com sorte!) e que afastam para longe os que sabem apreciá-la, que estariam dispostos a permanecer por cá muito mais tempo, caso a protecção do ambiente e da paisagem fossem efectivas realidades e caso houvesse oferta efectiva para as actividades de ar livre que os atraem?
  • Como é possível compreender que o Clube Nacional de Montanhismo — Covilhã apregoe como as maiores realizações do seu historial a organização das sucessivas edições de uma vetusta (e patusca) festa popular e comercial chamada "Carnaval da Neve" (não se tem realizado nos últimos anos) ou que, em vez de divulgar o seu programa de actividades montanheiras, anuncie a intenção de promover empreendimentos turístico/imobiliários em plena Serra da Estrela?
  • Como é possível que a Câmara Municipal da Covilhã tenha coragem para publicitar esta espantosa alucinação como um projecto para as Penhas da Saúde, sem sequer corar de vergonha?
  • Podia continuar assim por muito, muito tempo, mas acabo já: como é possível que, em pleno século XXI, continue esta santa terrinha (Covilhã, Beira Interior, Região Centro, Portugal) tão, mas tão, umpf!, que raiva que às vezes me mete isto tudo!
Como dizia o meu amigo da Montanha, "MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!"
Algarvear a Serra da Estrela? Não, obrigado!