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sexta-feira, agosto 20, 2010

Petição pela Rola Brava

Um grupo de pessoas que se identificam como caçadores lançou uma petição pública a dirigir aos órgãos que tutelam a caça (Autoridade Florestal Nacional, Ministério da Agricultura e Pescas, Ministério do Ambiente e Ministério da Administração Interna) sugerindo, entre outras medidas, que se interdite temporariamente a caça à Rola Brava por espaço de 4 a 5 anos, para que a população desta espécie cinegética, que aparentemente se encontra em forte regressão, possa recuperar.

Confesso que não sei nada sobre a rola brava, se está ou não em vias de extinção. Li há dias uma notícia sobre os protestos de ambientalistas relativamente ao que consideravam erros na definição da época da caça, que incluíam uma referência especial a esta espécie. Mas esta petição recorda-me uma passagem de um livro que li há algum tempo. É um exemplo de cuidados revelados pelos principais interessados numa dada actividade, para que ela se possa continuar a praticar pelas gerações vindouras. É o tipo de preocupações que considero falta a muita gente, infelizmente.

Eu, que me considero ambientalista e não sou caçador, tiro o chapéu a estes caçadores, que macacos me mordam se não são também, tanto ou mais do que eu, ambientalistas. Já assinei a petição.

quarta-feira, abril 15, 2009

Pensar, debater e planear com pés e cabeça

Leio no blog de José Sá Fernandes que está em preparação a Nova Carta Estratégica de Lisboa, um documento que "será um refrencial estratégico para o desenvolvimento da cidade e para a concretização de projectos estruturantes, até 2024". Diz José Sá Fernandes que "Lisboa precisa de ser pensada, debatida e planeada «com pés e cabeça». Não deve andar à deriva e ao sabor de sound bytes ou impulsos de ocasião".

E na serra da Estrela? Quando ultrapassaremos o andar à deriva, ao sabor de sound bytes e de impulsos de ocasião?

Exemplos de que andamos à deriva, ao sabor de sound bytes e de impulsos de ocasião, de que não planeamos "com pés e cabeça" e de que não debatemos (nem bem, nem mal: não há debate, pura e simplesmente)? Cá vão uns poucos:

  • A instalação de uma base da Força Aérea na Torre nos anos sessenta. Que profundidade tiveram os estudos que justificaram a indispensabilidade daquela estrutura? Note-se que ela funcionou apenas durante cerca de dez anos, tendo sido abandonada pelos militares no início dos anos setenta.
  • Um modelo de gestão do turismo baseado na figura da concessão exclusiva (a da Turistrela), decidido há mais de trinta anos (ainda no tempo de Marcello Caetano, entenda-se) e válida ainda por outros tantos, pelo menos. Quem o considera benéfico? Por que razões? Quais as suas vantagens e desvantagens? Alguma instituição faz avaliações do desempenho da concessionária?
  • A vergonhosamente malograda tentativa de construção de um teleférico, entre Piornos e Torre, nos anos setenta. Quem a decidiu, como base em que estudos, que reflexão ou debate houve para a justificar? Da qualidade desses estudos, reflexões e debates ficamos com uma ideia sabendo que a obra foi interrompida já quase no final (depois de todas as estruturas instaladas), ao que me disseram porque se verificou que a intensidade dos ventos sobre a Nave de Santo António tornava perigosa a exploração do teleférico. Durante trinta anos, os cabos, as estações e a torre de suporte central, no Espinhaço de Cão, "enfeitaram" a paisagem sobre a Nave de Santo António, até que no final dos anos noventa se removeu tudo, à excepção do grande mamarracho em ruínas que ainda domina a zona, nos Piornos.
  • Pois agora, poucos anos depois de se ter removido o entulho da anterior tentativa, o "sonho" do teleférico (agora dá-se-lhe o nome de telecabine) ressuscitou, tendo-se já "apalavrado" o indispensável financiamento público e tudo. Quem decidiu que o teleférico é benéfico? Que reflexões, estudos e debates é que, desta vez, foram feitos?
  • O projecto da "minicidade" das Penhas da Saúde com que a Câmara Municipal da Covilhã afirma que quer concorrer com os Pirinéus e os Alpes, baseia-se em quê? Que debate, que reflexão, que estudos, que projecções apoiam esse projecto?
  • Aquela espécie de "feira indoor" que é o centro comercial da Torre. Quem a decidiu, com base em que estudos, que papel tem numa visão estratégica do turismo da serra da Estrela? Que consenso a justifica e mantém?

Que andamos à deriva e ao sabor de sound bytes nota-se até quando damos sinais de que tentamos não o fazer. Há alguns anos, vários municípios da região encomendaram à Universidade da Beira Interior um programa sobre o turismo na serra da Estrela, a que se deu o nome de Programa Estratégico de Turismo da Serra da Estrela (desse programa ainda está acessível o blog criado para receber opiniões externas). Esse estudo realizou-se, apresentaram-se as conclusões em 2006 e, pura e simplesmente, foi engavetado. Entretanto, foi encomendado um novo estudo, desta vez a uma equipa da Universidade do Porto liderada por Daniel Bessa. Andar à deriva.

Andamos na serra da Estrela à deriva, ao sabor de sound bytes e de impulsos de ocasião (os voluntarismos e "optimismos" do que chamo as forças vivaças). Até quando?

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

O 1º Cristal de Gelo

A Associação Cultural Amigos da Serra da Estrela (ASE) entendeu criar um galardão para distinguir empreendimentos, organizações ou iniciativas que (no entender da associação) se destaquem pela contribuição que dão para o desenvolvimento sustentável e/ou a causa da protecção ambiental e paisagística na Serra da Estrela.

O primeiro premiado com o "Cristal de Gelo" foi o Complexo Turístico H2otel – Congress & Medical SPA e Aquadome – The Mountain SPA, da empresa Natura IMB Hotels, em Unhais da Serra, e a cerimónia teve lugar ontem, nas instalações do hotel (ver artigo sobre o evento no Diário Digital).

As razões desta decisão estão enumeradas no site da ASE e sobre elas não me vou alongar muito aqui. Quero somente destacar que, por estar localizado numa povoação permanentemente habitada (ao contrário, por exemplo, de aldeamentos essencialmente turísticos como as Penhas da Saúde ou Penhas Douradas onde não residem mais do que vinte pessoas em cada um), resultam óbvios benefícios para as populações, muito maiores do que os que se verificariam se se tivesse construído a maiores altitudes.

Não é só a freguesia de Unhais, ou o concelho da Covilhã, que fica a ganhar com este empreendimento. Tratando-se de instalações termais, prestam-se a estadias de comparativamente longa duração, alguns dias, semanas até. Alguns hóspedes aproveitarão a estadia para, nas horas mortas, visitar as localidades das redondezas, desde Sortelha até Piódão, das Minas da Panasqueira até à Guarda.

E há um aspecto que deve ser enfatizado. Este empreendimento marca uma diferença abissal relativamente ao que se tem normalmente feito na nossa região. Pelo esforço em satisfazer os regulamentos muito exigentes das certificações mais ambiciosas, tanto durante a implementação como agora que se encontra em funcionamento, pela vontade que do projecto extravazem benefícios para a população (que acabam por se maniffestar também como uma mais valia para o empreendimento), pelo marketing apurado e sofistificado, e mais um longo, longo etc, que seria fastidioso especificar.

Só para dar dois exemplos dessa diferença, o destino dos restos dos materiais de construção foi objecto de uma cuidada fiscalização, necessária para uma das muitas certificações que este hotel pode, orgulhosamente, ostentar; contraste-se com a situação que revelei neste post. O marketing do H2Otel pretende afirmá-lo a um público internacional, sofisticado, de elevado nivel cultural; contraste-se essa promoção, por exemplo, com tristezas como esta, ou esta.

Por fim, falando agora na qualidade de membro da ASE que participou da decisão da atribuição deste galardão, gostava de deixar claro que a associção não pretende reservar a distinção para empreendimentos de luxo ou de grande escala como é o H2Otel. Pequenas instalações hoteleiras, pensões ou mesmo parques de campismo poderão igualmente vir a ser contempladas com futuros Cristal de Gelo. Oxalá!

Todo o processo de refundação das Termas de Unhais foi lançado pela Câmara Municipal da Covilhã, creio que já sob a liderança do actual edil, Carlos Pinto. Vem assim a propósito, agora que o projecto se tornou realidade, felicitar também a autarquia e o seu presidente, ainda mais por serem muito frequentes, aqui no Cântaro Zangado, as críticas a esta autarquia (infelizmente, suspeito que continuarão a sê-lo).

quarta-feira, dezembro 17, 2008

"Requalificar" a serra da Estrela?

Não, obrigado. O que se fez nos últimos quarenta anos já chega e já sobra.

Requalificar a serra, *a sério* (agora sem aspas)? Sim: removam-se todos os monos horríveis com que a "requalificámos" no passado. Renaturalizem-se as áreas que "requalificámos" no passado. Limite-se o tráfego rodoviário a níveis não absurdos, naqueles fins de semana absurdos. Preservemos as paisagens, os habitats. E desenvolvamos um verdadeiro turismo de montanha que, como qualquer pessoa pode constatar visitando qualquer montanha do mundo ocidental (mesmo aquelas onde se esquia a sério), é algo muito, muito diferente do que por aqui temos promovido.

quinta-feira, novembro 20, 2008

Zonas de exploração micológica

Foi recentemente notícia uma proposta que o Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE) apresentou aos Ministérios do Ambiente e da Agricultura para a criação de Zonas de Exploração Micológica. Foram definidas três destas zonas, em Fernão Joanes, Penhas Douradas e Cortes do Meio, com o objectivo de rentabilizar a produção de cogumelos. Podemos ler sobre esta iniciativa, por exemplo, neste artigo do jornal A Guarda (a link pode não ser permanente).

O negócio da comercialização e transformação de cogumelos parece ser bastante rentável, e ouvem-se frequentemente rumores de que estrangeiros (espanhóis e franceses) nos ficam com tudo o que conseguem apanhar. Assim, mesmo sabendo muito pouco do assunto, parece-me que esta ideia do parque é uma boa ideia, a partir da qual se pode começar a desenvolver um sector de actividade, que por enquanto, entre nós, se limita quase só à colheita.

Há ainda outro aspecto positivo nesta iniciativa, que é o de dar valor a um ambiente protegido. Os cogumelos são parte integrante de florestas adultas e saudáveis, de florestas sustentáveis. Explorá-los dá valor económico à floresta, contribuindo assim para um interesse colectivo em preservá-la e em fazê-la crescer.

Claro que não basta ter a ideia, é preciso trabalhá-la, dar-lhe corpo, arriscar. E não se pode esperar que seja o PNSE (cujas atribuições não incluem, decerto, a de substituir a iniciativa privada), por si só, a pô-la em pé. No artigo que referi pode ler-se, a páginas tantas

O processo mais avançado e melhor encaminhado, é o que está relacionado com a criação da Zona de Exploração Micológica (ZEM) de Fernão Joanes, devido ao interesse demonstrado pela Junta de Freguesia, desde a primeira hora. “Foi feita a identificação dos cogumelos existentes e foi dada formação a uma dúzia de habitantes, para possíveis colectores, para acompanharem os possíveis turistas/apanhadores de cogumelos [...]

Ou seja, uma entidade que não o PNSE (foi a junta de freguesia, mas imagino que poderia igualmente ter sido uma associação, empresa, cooperativa, etc) pegou na ideia e ajudou no seu desenvolvimento. E a coisa não se fica na recolha para comercialização propriamente dita. Prevê-se a possibilidade de recolha "turística", para o que foi dada formação a algumas pessoas.

Não sou habilitado para fazer uma avaliação muito profunda, nem tenho informações para tal. Mas, pelo que li na notícia que citei, parece-me uma iniciativa muito interessante e espero que dê bons frutos.

Como se vê com mais este exemplo, o PNSE é mesmo uma terrível força do bloqueio do desenvolvimento regional!

Considera que os cogumelos não têm qualquer interesse para turistas? Leia este post do blog Café Mondego.

sábado, novembro 15, 2008

Uma ideia a imitar?

Pelo Ondas soube que seis cidades de Trás os Montes (Bragança, Chaves, Macedo de Cavaleiros, Miranda do Douro, Mirandela e Valpaços) se uniram na definição da Rede de Cidades Ecológicas e Inovadoras de Trás-os-Montes (esta link pode não ser permanente).

O projecto, que aproveita um instrumento comunitário específico, pretende "atrair investimentos e pessoas que necessitem de um campo de ensaio para a aplicação de novos conceitos e tecnologias", com um enfoque particular na "sustentabilidade ambiental" e no tema "eco", "nas vertentes da agro-indústria, da energia, do turismo e da construção".

Não seria boa ideia aproveitar este mesmo "instrumento comunitário" para a criação de qualquer coisa como uma "Rede de Cidades Ecológicas e Inovadoras da Serra da Estrela"?

quarta-feira, maio 21, 2008

Outras terras, outros modos

Na revista Única do Expresso desta semana, um artigo de Luísa Schmidt conta-nos que, para garantir a continuidade do fornecimento de água de qualidade, a edilidade de Nova Iorque, em poucos anos
"comprou todos os terrenos que pôde no entorno das reservas hídricas a fim de preservar nelas as suas florestas e zonas húmidas - autênticos «tampões» contra a poluição. Simultaneamente, criou incentivos financeiros para os proprietários locais fazerem a gestão florestal e agrícola correctas, fornecendo-lhes apoio técnico."
A alternativa a esta linha de acção era a instalação de caras (na construção e no funcionamento) estações de tratamento de água. Os resultados dessa aposta, segundo Luísa Schmidt, estão agora a aprecer:
"a cidade de Nova Iorque poupou milhares de dólares; os seus citadinos têm hoje água muito melhor e a menores custos; a população rural foi ressarcida pelo serviço ambiental prestado a toda a comunidade e a área das reservas entretanto criada tornou-se uma zona protegida onde se pode passear e usufruir a paisagem. Qualquer dia a água de Nova Iorque pode ser vendida em garrafas."
Mais um exemplo de como nem sempre um desenvolvimento a sério vem nas pás das escavadoras, nas betoneiras, nas grandes obras de construção civil. Mas tente-se afirmar esta verdade óbvia e cristalina cá em Portugal...

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Coisas de ignorantes mal intencionados

[É] "um erro primário e grosseiro" a eventual construção de infraestruturas em betão, como o casino ou o Palácio de Congressos nas Penhas da Saúde, projectos que "além de desajustados do meio, estão também desligados das necessidades dos praticantes de desportos de Natureza e Inverno"
O "monopólio de exploração turística e a sobreposição dos interesses comerciais à noção de sustentabilidade" é um dos aspectos mais criticáveis no turismo da Serra da Estrela.

Estas opiniões (com as quais não posso concordar mais) pertencem a Mário Carvalho, antigo professor de esqui na estância de Sierra Nevada, antigo vice-campeão nacional de esqui, actual docente do Instituto Politécnico de Leiria, e são apoiadas no estudo que fez para a sua Dissertação de Mestrado, apresentada, defendida (e aprovada) no Instituto Superior Técnico.

Soube disto pelo Ondas3, que aponta para uma notícia no Expresso com mais detalhes. Em particular, com os detalhes da reacção dos responsáveis pelo turismo que temos. Artur Costa Pais, administrador da empresa concessionária exclusiva (o monopólio a que se referia Mário Carvalho) do turismo e dos desportos na Serra da Estrela, lamenta que haja "cada vez mais gente mal intencionada" no turismo na região; Jorge Patrão (presidente da Região de Turismo), considera que este trabalho "demonstra uma profunda ignorância em relação à realidade".

Penso que para terem alguma relevância neste contexto, as referências às más intenções deveriam ser materializadas com algo de palpável. Assim, são apenas paleio. Quanto à opinião de Jorge Patrão sobre a "profunda ignorância" demonstrada por esta tese de mestrado, ela vale o que vale. Podemos comparar as habilitações (inexistentes) e currículo de Jorge Patrão com as do mestrando, as do seu orientador e as dos elementos do jurí que avaliaram o trabalho. Cada um é livre de fazer a opção que entender mas por mim, no que toca a avaliar ignorâncias, fio-me mais no discernimento, experiência e currículo dos académicos...

Ah!, Estudos para quê? Teses para quê? Isso é para gente mal intencionada e ignorante. Gente (que horror!) com habilitações, que já viu mundo. Nós não, nós somos optimistas, temos "requalidade" e dinamismo! O que precisamos é de mais milhões, mais betão, mais ferragens, mais asfalto e, de vez em quando, só para não parecer muito mal, uma entrevistazita num jornal amigo, para também podermos afirmar que "a Serra não é só neve".

quarta-feira, janeiro 16, 2008

As "pré-existências" do vizinho...

... São menos sagradas que as minhas?

Segundo podemos ler no site da revista Desnível, a Comunidad de Madrid vai investir 375000 euros para reconstruir o perfil natural de uma secção do Rio Manzanares situada no Parque Regional de la Cuenca Alta del Manzanares, depois de ter desmantelado uma barragem que aí estava construída. A demolição da barragem fez-se com explosivos, tendo os restos sido retirados com recurso a helicópteros para evitar os impactos associados à abertura de acessos ao local para camiões pesados que, de outro modo, teriam sido necessários. A intervenção planeada inclui a plantação de mil árvores nas margens do rio e a estabilização dos terrenos.

Bem sei que nem só bons exemplos nos chegam de Espanha. Mas não resisto a contrastar este cuidado na renaturalização de um espaço anteriormente intervencionado, com os enlevos que muitos dos nossos autarcas e demais forças vivaças demonstram por qualquer espelho de água (mesmo vedados ao público, é ouvi-los falar da sua grande importância para o turismo); com o à-vontade com que rasgam acessos em sítios onde esses acessos têm impactos dramáticos; e com o horror que essas mesmas forças vivaças e esses mesmos autarcas sentem relativamente a demolições de barbaridades que nunca deveriam ter sido construídas (em espaços naturais, que nos centros históricos urbanos a história é outra).

Trata-se de um parque regional, apenas. Não é um parque nacional (como o do Gerês, por cá) nem sequer um parque natural (como a Estrela ou a Arrábida). Apesar desta posição relativamente humilde na hierarquia das áreas protegidas espanholas, houve vontade para tomar esta decisão e para levá-la adiante. Tenho a impressão que tal não seria possível cá em Portugal. Que logo apareceriam as vozes afirmando a importância de "requalificar" um "espaço de excelência que tem estado ao abandono"; exigindo ao estado investimentos para a rentabilização do aproveitamento turístico do espelho de água; reclamando com os enoooormes custos das medidas de protecção ambiental; acusando de eco-fundamentalismo todos os que defendessem uma tal intervenção...

Espanha... Tão perto e, ao mesmo tempo, tão longe...

terça-feira, janeiro 08, 2008

Eólicas, ambiente e isso tudo...

Parque eólico da Alvoaça, serra da Estrela.
(Imagem "roubada" no blogue Oceano das Palavras.)

Pedro Almeida Vieira, escritor e jornalista, colocou no seu blog Reportagens Ambientais uma entrevista com o Prof. Delgado Domingos, jubilado do Instituto Superior Técnico, da qual quero salientar o seguinte excerto (mas recomendo vivamente a leitura integral):

Pergunta – Em 2007 falou-se bastante em energia em Portugal. Ao longo de 2008 está prevista a aprovação do Plano Nacional de Barragens e será anunciado o resultado do concurso para a ampliação dos parques eólicos. Será 2008 o ano da energia?
Resposta – Talvez sim, mas espero que não seja pelas más razões. Em Portugal estamos a viver numa realidade virtual no campo da produção energética. E acho serem necessárias algumas advertências muito sérias. Por exemplo, penso que não se devem espalhar parques eólicos sem nexo. Eu sou defensor da energia eólica, mas não de qualquer maneira, sem disciplina. E aquilo a que estamos a assistir é um negócio puramente financeiro, só com vista para o lucro imediato. Em Portugal, os produtores de energia eólica beneficiam de uma situação económica altamente favorável, protegida e sem contrapartidas. E depois não existem estudos aprofundados do potencial eólico e das localizações mais adequadas, que salvaguardem algumas serras e apostem na hipótese dos parques off-shore.

P – O concurso está feito, de facto, de modo esquisito: os candidatos propõem locais e o que for vencedor quase automaticamente terá aprovadas todas as localizações, independentemente dos impactes…
R – Esse concurso foi feito para dar as regalias aos grandes monopólios. A energia eólica, que tem grandes méritos se for descentralizada e feita numa escala disseminada, acaba por ser concebida em concentrações, sem contrapartidas. A energia eólica é paga em Portugal de um forma exageradamente favorável às empresas, pois tem prioridade absoluta de entrada na rede e garantia de compra pela REN sem qualquer obrigatoriedade de previsibilidade do fornecimento dessa energia e sem penalizações previstas. Isto é chocante, porque afecta todo o sistema eléctrico nacional, obrigando a ter centrais em stand-by, com custos enormes. Nos países em que a eólica não é um puro negócio financeiro, o preço da electricidade eólica está ligado às previsões de produção e do respectivo cumprimento. Isto estimula o sistema de previsão e a gestão do sistema eléctrico. Faz-se assim na Espanha e nos países nórdicos, por exemplo.

Se o prof. Delgado Domingos tem razão, a instalação desenfreada de eólicas nas cristas das regiões centro e norte, mesmo em áreas protegidas, deve mais a operações financeiras e aproveitamento de apoios e subsídios (directos ou indirectos) estatais, do que a verdadeiras preocupações ambientais, ao protocolo de Quioto, ao interesse nacional ou mesmo à expectativa a longo prazo de lucros com a venda de energia. Será ou não verdade. Mas, se o for, não seria propriamente nada que nos espantasse por aí além. Seria até mais um daqueles casos tipicamente típicos, quer-me parecer...

sexta-feira, dezembro 21, 2007

O Zêzere da foz à nascente

O Diário XX1, o Pedestrianismo e Percursos Pedestres e outros noticiaram a proposta da Associação Cultural Amigos da Serra da Estrela para a definição, documentação e dinamização de um trilho pedestre de grande rota acompanhando o Zêzere desde a foz até à nascente, com uma extensão total de perto de 250 km.

Escusado será dizer que o Cântaro Zangado considera esta uma excelente ideia, da qual pode beneficiar muita gente de muitos concelhos. Oxalá se consiga pôr em prática.

Para os que consideram este projecto uma loucura, quero fazer notar que o investimento necessário para o concretizar é uma fracção infinitesimal dos necessários para concretizar os planos da Turistrela e da Região de Turismo; que os seus impactos negativos são (realmente) mínimos, se é que não serão mesmo positivos; que os proveitos resultantes são mais certos a longo prazo do que os que alegadamente se esperam de uma aposta na neve e ficarão muito melhor distribuidos temporalmente (e socialmente, também). Além disso, a ideia não é, propriamente, original. Veja-se isto, isto ou isto, só para dar três exemplos.

terça-feira, dezembro 11, 2007

Dia Internacional das Montanhas

É hoje, 11 de Dezembro.

Navegando por sites como o da Red Montanas, o da Mountain Wilderness e tantos outros, ficamos a saber o que vai por essa Europa fora de oposição e contestação à degradação artificializante dos ambientes de montanha, nomeadamente a perpetrada pela instalação de novas estâncias de esqui e pela ampliação de outras já existentes.

O que torna as coisas surrealistas, aqui em Portugal, é que nós não temos condições para a prática do esqui, mas mesmo assim pretende-se desenvolver o turismo baseado nesse produto! Ou seja, nunca teremos as vantagens da indústria do esqui, porque não temos neve, mas já temos (e teremos mais ainda se este rumo continuar) todos os seus prejuízos.

Entendamo-nos, admito que às vezes se pode esquiar na Serra da Estrela. Muito raramente, a qualidade da neve até é aceitável. Mas as pistas são curtas e não é razoável ampliá-las pois essa ampliação só se pode fazer para cotas inferiores, ocupando vales protegidos do vento, locais com temperaturas mais elevadas, com menos neve natural, alguns dos quais banhados pelo sol do meio dia, onde será impossível manter neve em estado esquiável, mesmo que se consiga fabricá-la. Digo isto independentemente de quaisquer considerações sobre o aquecimento global. A Serra não tem condições para a prática regular e satisfatória de esqui. E nunca as teve (embora já tenham sido menos más que agora).

Mas enquanto não for totalmente arruinada por esta política de ilusões provincianas e novo-ricas, que pretende "desenvolvê-la" tornando-a (assim se afirma, sem pingo de sentido do rídiculo, numa página da Câmara Municipal da Covilhã) uma alternativa aos Alpes e Pirinéus (como se isso fosse fazível, como se isso fosse razoável, como se isso fosse, até, desejável), a Serra tem óptimas condições para outras práticas, que atraem milhares de turistas a outras montanhas da Europa (e também de Portugal, como o Gerês), em todas as épocas do ano, com neve e sem neve.

Aproveitemos este Dia Internacional das Montanhas para pensar, realisticamente, no que queremos para a Serra e no que dela podemos aproveitar. Mais do que uma vez ouvi pessoas elogiarem uma obra (a construção de um parque eólico ou de uma barragem, por exemplo) porque, enquanto duram os trabalhos, há movimento, operários que animam o comércio, etc. Tomemos consciência de que esses balões de oxigénio são sol de pouca dura. Se é a isso apenas que podemos aspirar, valerá a pena?

Se da serra pouco queremos, pouco levamos. Como sempre, desde sempre. Estaremos mesmo no rumo certo? Estaremos mesmo de parabéns?

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Respeito e responsabilidade

Escalando nas falésias selvagens do Douro Internacional. (Fotografia do rppd.)

Eis o cuidado que os amigos do Rocha Podre e Pedra Dura demonstram quando escalam em zonas selvagens, por exemplo, nas falésias do Douro Internacional

[...] um local também sensível, com uma ecologia única que convêm preservar. Mais uma vez, ali está a época de nidificação de aves que se deve respeitar (não escalando, de Janeiro a Agosto) [...]

Note-se que não há nenhuma lei ou organismo que proíba a escalada na altura referida. São os próprios que escolhem não o fazer, porque respeitam o ambiente onde praticam a sua modalidade favorita e porque assumem as suas responsabilidades na protecção desse ambiente.

Não pretendo generalizar, sei bem que há muitos escaladores que não se pautam por estes níveis de exigência. E também sei que há caçadores, praticantes de todo-o-terreno, piqueniqueiros, BTTistas, esquiadores, etc, igualmente conscienciosos. Os bons exemplos existem, em todas as modalidades (mas, tenho que dizer, numas mais do que noutras). E é porque existem bons exemplos, que os maus exemplos, que também os há em todas as modalidades, são tão desprezíveis. Em que categoria nos preferimos classificar?

Mas (deixem-me agora puxar a brasa à minha sardinha montanheira) há um aspecto das actividades do pessoal do rppd que quero realçar. É que se vê a montanha como um palco para a auto-superação. Em vez de se "ajeitar" a montanha, facilitando o acesso a ela com estradas, telecabines, restaurantes, bares e hotéis, diminuindo-a assim às nossas limitadas forças e aspirações, tenta-se crescer e ultrapassar essas limitações, até se estar à altura dos desafios que uma montanha a sério nos coloca.
Quem da Serra pouco quer, pouco leva; por isso, quem à Serra quer chegar rápida e comodamente, nada chega verdadeiramente a ver ou a gozar. Não viveu a serra mais do que se tivesse ficado em casa pasmado num documentário televisivo. Era disto, suponho, que Miguel Torga falava quando disse

"A Estrela, essa, guarda secretamente os ímpetos, reflectindo-se ensimesmada e discreta no espelho das suas lagoas. Somente a quem a passeia, a quem a namora duma paixão presente e esforçada, abre o coração e os tesouros. Então, numa generosidade milionária, mostra tudo".

segunda-feira, novembro 19, 2007

Porquê?

Vale do Rossim, fotografado dia 17 de Novembro. (Foto retirada do Lagoas da Estrela)
O Lagoas da Estrela refere num post recente uma situação que também tenho notado, a da falta de água nalgumas barragens da Serra, nomeadamente as sob a administração da EDP. Não sei se terão sido definidos limites mínimos para o volume de água armazenado em cada albufeira ou se esses limites, a terem sido definidos, estarão a ser respeitados. Diria que não parece. E já não é o primeiro ano que noto esta situação.
Mas lá que é uma tristeza, isso é.

quinta-feira, outubro 18, 2007

Protecção ambiental

Vi no Ondas que o governo espanhol rejeitou o projecto de construção do que seria o maior teleférico do mundo, entre a cidade de Granada e a estância de esqui da Sierra Nevada. Esta estrutura iria atravessar o Parque Natural e passaria nos limites do Parque Nacional da Sierra Nevada.

Quero realçar alguns excertos da notícia (traduzidos por mim, "à pressão", do castelhano):

  • A actuação projectada resulta incompatível com o sucesso dos objectivos do Parque Nacional. Trata-se de uma proposta de interesse privado, não responde a uma aspiração social, e não contribui para minorar as tensões ambientais da zona.
  • Existem suficientes incertezas e riscos económicos a médio prazo para pôr em dúvida a coerência de um empreendimento com estas características, com os riscos ambientais e o impacto territorial que acarreta
  • O Ministério do Ambiente adverte de que um Parque Natural "trascende os limites do espaço, projectando-se sobre o seu espaço imediato", tal como traduz o Plano Director da Red de Parques Nacionales, em referência à vizinhança do traçado previsto pelo teleférico.

A estância de Sierra Nevada é uma estância "a sério" (veja-se a lista das pistas ou a dos meios mecânicos instalados, só para se ter uma ideia), sem comparação possível com a nossa instalaçãozinha aqui da Torre. Está situada a uma altitude muito superior, e a sua viabilidade é muito menos incerta que a da nossa. O papel que desempenha na economia da região é significativo. Os interesses económicos instalados em Granada são infinitamente mais poderosos e influentes que as "forças vivaças" que se movem aqui pela nossa serrinha. Mesmo assim, foram contrariados.

Se verdadeiramente queremos proteger o ambiente, não basta criar no papel áreas protegidas. É preciso, depois, protegê-las. Os espanhóis dão sinais de já o ter percebido.

sexta-feira, outubro 12, 2007

O Nobel da Paz para o ambiente

Prémio pela luta contra as alterações climáticas
Nobel da Paz para Al Gore e Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas

Pode haver muito a dizer a favor e contra Al Gore mas fico muito contente pela enorme distinção (e destaque) que este prémio deu às preocupação com as alterações climáticas.

quarta-feira, outubro 10, 2007

Por falar em direitos adquiridos...

... E em protecção ambiental, vi no Ondas que
Na Inglaterra, uma enorme zona húmida costeira de Essex vai ser devolvida à natureza após quinhentos anos de utilização agrícola.
Imagem retirada do site da notícia, no Guardian-online.

Bem sei que esta é uma decisão muuuuuito mais simples do que, por exemplo, a de limitar o número de viaturas automóveis que tentam subir à Torre em certos fins de semana de Inverno, ou a de demolir horríveis monos em ruínas na Serra (que, aliás, nunca deveriam ter sido construídos). Ah, mas os ingleses têm sorte, ficaram com os problemas mais fáceis! (Ou isso, ou com a vontade de os resolver...)

quinta-feira, outubro 04, 2007

Nuances

Nos Açores, a preservação da paisagem é a chave para o sucesso.
É o que se afirma logo ao início de um longo artigo publicado hoje pela Visão sobre os Açores.

Aqui na Serra da Estrela, o que se tem feito e o que se planeia fazer, entre barragens, estradas nacionais (ditas Verdes ou com outros nomes), aldeias, aldeamentos ou minicidades (de montanha, claro), telecabines, ampliações da estância de esqui (chamemos assim aquilo), pistas de esqui artificial, reservas de caça, parques temáticos, funiculares, spas, centros de estágio desportivos, casino e mais um longo etc, tudo isto que se fez, se faz ou se planeia fazer é a chave para quê? Tem sido a chave de quê?

PS: Fiz uma espécie de comparação entre o turismo dos Açores e o da Serra da Estrela neste post.

sexta-feira, setembro 28, 2007

"Segunda demolición por delito urbanístico"

Atente-se nesta notícia (soube dela pelo Ondas). Em resumo, o que se passa é que o construtor de um edifício ilegal construido em 1999 numa área protegida perto de Madrid foi agora condenado a multa, à demolição do edifício e à "inhabilitación especial para profesión y oficio ligada a las actividades de construcción durante un año, así como a condena de prisión de un año y medio".

Comentários

  • Em Espanha, desta vez pelo menos, o crime não compensou
  • Não houve tibiezas na condenação nem lugar para a demagogia do costume com que, por cá, se tenta fazer passar por utilidade pública aquilo que, na verdade, não passa de privadíssimos interesses, como "antes das florinhas estão as pessoas" (afirmação do Presidente da Câmara da Covilhã, a propósito de um caso com algumas semelhanças com o que agora motiva este post — Veja no Urbi@Orbi) ou banalidades abstractas como Não podemos sacrificar o desenvolvimento ao ambiente
  • Não basta resmungar no café ou nos blogues (mas por algum lado se há-de começar). Para levar este caso a tribunal, foi necessário que a Asociación para la Defensa del Valle del Lozoya y la Sierra de Madrid apresentasse uma queixa formal. É que o respeito pela lei e pelo ambiente não são um mar de rosas. Às vezes é "chato" impô-los. Mas não são ainda mais "chatos" os resultados do aparente vale tudo com que nós fingimos que governamos as nossas áreas protegidas? Esses resultados são, aqui na Serra da Estrela, o lixo no maciço central, o caos urbanístico nas Penhas da Saúde (que os projectos da Câmara Municipal da Covilhã prometem agravar), a degradação do mercantilismo rasca da zona da Torre, só para dar três exemplos.

Algarvear a Serra da Estrela? Não, obrigado!