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domingo, junho 06, 2010

Uma Maravilha Natural

Vale glaciar do Zêzere (imagem roubada daqui).

Em que sentido é que o vale glaciar do Zêzere é uma maravilha da natureza? Pergunto isto a propósito da candidatura ao concurso das 7 Maravilhas Naturais de Portugal. Antes de continuar, quero deixar bem claro que não pretendo pôr em causa o concurso nem a candidatura. Eu também acho que o vale é uma maravilha. Mas quero tentar perceber melhor e deixar explícitas as razões pelas quais acho o vale uma maravilha. Porque creio que essas razões são as de quase todos e porque acho que essas razões determinam uma atitude para com o vale (e para com toda a serra) que me parece francamente positiva.

Porque consideramos então o vale uma maravilha natural?

Será porque o vale se encontra num estado natural puro, onde não se notam os efeitos da acção humana? Não! Esses efeitos são evidentes: as encostas (as duas!) não estão quase integralmente cobertas de floresta, há as quintas cá em baixo, há diversos caminhos, uma mini-hídrica e uma estrada asfaltada... Não, os sinais da civilização estão por todo o lado, não é um lugar onde se aprecie um ambiente natural no seu estado puro, nem pouco mais ou menos.

Será então porque apesar de o ambiente natural do vale não se encontrar nas melhores condições (corrijo: não se encontrar nas condições pré-civilização), serem no vale evidentes as grandes forças naturais que moldam o território, que definem a orografia? Talvez, mas a verdade é que essas grandes forças são igualmente evidentes em qualquer lugar. Naturalmente, são forças diferentes as forças que actuam em diferentes lugares, mas isso é um detalhe: porque raio devemos considerar mais "maravilhosas" as forças glaciárias do que as da erosão da água em estado líquido, ou a do vento?

Creio que consideramos o vale uma maravilha natural porque são relativamente poucos os vestígios da civilização industrial, e menos ainda os exemplos desse desordenamento evidente e gritante que temos permitido nas povoações. Assim, quase podemos imaginar que nos encontramos num lugar que ainda não estragámos. Isso não verdade, como referi acima, mas quase podemos acreditar que sim. Apesar de tudo o que já fizemos, e como diz Elisabete Jacinto citada pelo Blogue de Manteigas, o vale "é um local paradisíaco onde nos podemos sentir longe da agitação do mundo moderno" e as suas vertentes grandiosas fazem-nos "sentir pequenos e conduzem-nos à introspecção".

Concordo inteiramente com a justeza das palavras de Elisabete Jacinto. Mais: creio que quase todos concordamos. Mas, aqui chegados, pergunto: se achamos que o carácter maravilhoso do vale reside nestas suas características, e se esperamos e desejamos que elas sejam reconhecidas nacionalmente através de uma vitória no dito concurso, poderemos coerentemente defender eventuais alargamentos e rectificações da sinuosa estrada nacional EN338 até à Nave de Santo António, a instalação de teleféricos ou funiculares para as Penhas Douradas, a instalação de iluminação nocturna no Covão d'Ametade (estava prevista num projecto recente), ou a apoiar a realização, nesse local, de encontros motociclistas (com tudo o que esses encontros têm implicado)? São estes elementos que nos ajudam a sentir "longe da agitação do mundo moderno"? Consideramos normal que, num local que pretendemos anunciar como uma maravilha da natureza (e, agora, não me refiro especificamente ao vale mas a toda a serra), seja difícil tirar uma fotografia onde não apareçam "decorações" como estradas, postes de alta tensão, de iluminação ou de telecomunicações, barragens, construções de gosto e qualidade duvidosa ou restos de lixo?

Se admiramos os nossos valores naturais e queremos que os outros os reconheçam, poderemos continuar tratá-los como os temos tratado até hoje?

domingo, agosto 16, 2009

Picos da Europa — 0

Acabo de chegar de uma semana nos Picos da Europa (Astúrias, Espanha), onde não ia há quase vinte anos. O que lá vi e o que lá fiz vai alimentar alguns posts aqui no "Cântaro".

Como não quero dar a entender que a serra da Estrela é como os Picos da Europa (ao contrário de outros que afirmam que ela pode concorrer com os Alpes ou os Pirinéus, num segmento — Neve e esqui — para que os Alpes e os Pirinéus têm condições absolutamente ímpares), com este post à laia de preâmbulo pretendo mostrar quais as diferenças físicas entre as duas cordilheiras. Nos posts que se seguirem abordarei as diferenças (bem maiores) na forma como elas são tratadas e aproveitadas.

Os Picos da Europa começam a cerca de cem metros de altitude e sobem até pouco mais que 2600 m. Ou seja, têm seiscentos metros a mais por cima e quinhentos metros a mais por baixo do que a Estrela, que começa a seiscentos metros (aqui do lado da Covilhã) e sobe até aos dois mil. São montanhas mais recentes, logo, mais escarpadas. São constituídas de rocha calcárea, em vez de granito. Apresentam precipícios impressionantes, paisagens de cortar a respiração. São um pequeno paraíso para montanhistas e escaladores. Os espanhóis marcam frequentemente o início da actividade montanheira no seu país com a primeira escalada do Picu Urrielo (também conhecido como Naranjo de Bulnes), um enorme promontório rochoso mais ou menos equivalente (em altura) a três Cântaros Magros, mas muito mais vertical.

Os Picos da Europa estão a vinte quilómetros do mar. É perfeitamente possível escalar ou caminhar em ambiente alpino de manhã e fazer praia à tarde. O clima é muito húmido e todas as zonas de altitude intermédia estão cobertas com bosques atlânticos (castanheiro, carvalho, faia, avelaneira, etc.), prados para o pastoreio ou campos cultivados. Por estar mais a norte e ter maior altitude que a Estrela, neva nos Picos muito mais frequentemente e com muito maior intensidade do que por cá.

Os Picos da Europa são muito, muito diferentes da serra da Estrela. Não faz sentido tentar copiar as realidades asturianas para a Estrela, tal como não faz sentido tentar copiar as alpinas ou as pirenaicas, como alguns afirmam que pretendem fazer. O que funciona lá, o que lá é viável, pode perfeitamente falhar na serra da Estrela. Mesmo assim, entendo que poderíamos aprender imenso com a forma como os asturianos entendem o turismo de montanha e com a forma como o desenvolveram. Tentarei demonstrá-lo nos próximos dias.

quinta-feira, julho 30, 2009

B.N. CISE nº26

Ao longo da E.N. 339, que liga Seia à Covilhã, ocorre um conjunto de valores naturais de grande relevância, que inclui um conjunto de espécies de flora como, entre outras, Drosera rotundifolia, Dactylorhiza caramulensis, Senecio pyrenaicus subsp. caespitosus, Thesium pyrenaicum e Allium scorzonerifolium, espécie que tem nas bermas desta estrada o principal núcleo conhecido na Estrela, e que contribuem para que este trajecto seja tão encantador. Reconhecendo a necessidade de beneficiação desta via, alertamos para a urgência de um acompanhamento rigoroso dos trabalhos e interrogamo-nos sobre a criação de algumas áreas de estacionamento cuja localização julgamos não ser compatível com a conservação dos valores presentes.
A este propósito, um autarca como Carlos Pinto diria (como já disse) que "antes das florinhas estão as pessoas". Mas, uma vez que as florinhas não votam, eu entendo afirmações destas como "antes das pessoas que gostam das florinhas estão as pessoas que gostam do asfalto". Ora, se autarcas como Carlos Pinto desvalorizam como têm desvalorizado, com "argumentos" como estes, os interesses das pessoas como eu, então que não se queixem de serem atirados para os últimos lugares nas minhas intenções de voto.

terça-feira, junho 30, 2009

Uma maravilha sem preço

Encosta sobre a Covilhã, fotografada numa tarde de chuva

Há poucas coisas como um passeio (ou uma corrida) por uma floresta variada num dia de chuva. Sobretudo se tivermos a sorte de apanhar um intervalo entre aguaceiros, é claro. Mas mesmo uma chuvinha é mais uma componente de um prazer que se sente na pele, se cheira, se ouve, se vê. Sente-se o fresco húmido do ar limpo pela chuva na cara, cheira-se o aroma do húmus e o das árvores que, como o pinheiro ou o eucalipto, têm um perfume mais forte, vislumbra-se por vezes o vale quando o nevoeiro levanta, ouvem-se os pássaros que festejam sempre que a chuva abranda um pouco...

Não o consigo explicar nem demonstrar. Mas está ao alcance de todos. É um tesouro de todos. Como todos os verdadeiros tesouros, não tem preço. E, como todos os verdadeiros tesouros, devia ser protegido.

domingo, dezembro 07, 2008

Insectos raros povoam a serra da Estrela

Imagem roubada do site do Expresso.

De acordo com um artigo no jornal Expresso desta semana, a "fauna de invertebrados do Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE) é das mais ricas do país, com exemplares únicos".

Pois, pois, um montão de bicharocos que não interessam a ninguém e que não podem, repito: não podem ser colocados antes das pessoas nem em nome desses bicharocos se pode obstruir a via do desenvolvimento da nossa região.

OK. Mas então, já que os bicharocos e as plantinhas nunca estiveram antes das pessoas, porque é que as pessoas (todas as pessoas, quero eu dizer) não estão em primeiro lugar (e, claramente, não estão; em primeiro lugar estão algumas pessoas apenas)? E como é que o desenvolvimento ainda não chegou (para todos, que para alguns as coisas vão-se arranjando), com tudo o que, ao longo dos anos, temos feito sacrificando o ambiente, a paisagem, os bicharocos, as plantinhas e até muitas pessoas da serra?

sábado, dezembro 06, 2008

avesdeportugal.info

"Descobri" por acaso um site que é um autêntico poço sem fundo de informação preciosa sobre aves: www.avesdeportugal.info, o Portal dos Observadores de Aves. Inclui descrições de 412 espécies, incluindo fotografias, quase todas espectaculares.
Ferreirinha-alpina (Prunella collaris), uma das especialidades da serra da Estrela descritas no avesdeportugal.info (imagem lá "roubada").
Um aspecto que torna este site particularmente prático é podermos pesquisar por áreas e (mais especificamente para nós aqui na região) estar definida a área serra da Estrela. Espectacular!

segunda-feira, outubro 20, 2008

"Já há 300 cabras selvagens no Gerês"

O Público trazia hoje a notícia de que a população de cabras-montês no Gerês tem vindo a aumentar, alimentada pela população existente a norte, no Xurês galego. Esta situação segue-se a cem anos de ausência desta espécie das serras nacionais.

Para mim e para muitos turistas como eu (que os há), uma notícia destas sobre a serra da Estrela aumentaria imenso a sua atractibilidade, muito mais do que qualquer campanha publicitária(1) promovendo a excelência do esqui ou dos hóteis de charme, muito mais do que as minicidades de montanha com que sonha o presidente da Câmara da Covilhã, muito mais do que as estradas ditas Verdes com que sonha o da da Guarda, muito mais do que as tristes pistas de esqui (a da Torre e a de neve de plástico do Sameiro) ou do que a rumoreada pista de neve indoor de que às vezes se fala para o concelho de Gouveia.

(1) Por excelentes que essas campanhas fossem! Não me estava a referir a tristezas pateticamente amadoras como a "Serra da Estrela — Onde a natureza vive", da RTSE.

quarta-feira, outubro 08, 2008

La Unión Europea descarta una ampliación de La Covatilla

Imagem roubada daqui.

A estância de esqui de La Covatilla é uma estância pequena (mas ainda assim bastante maior que a da serra da Estrela) situada na Sierra de Béjar, aqui perto, a uns oitenta quilómetros a Sul de Salamanca. A Comissão Europeia aprovou recentemente a sua declaração de impacto ambiental, depois de ela ter sido corrigida de falhas que tinham sido identificadas por ambientalistas. Se compreendi bem as notícias para que aponto aqui em baixo, resulta do documento agora aprovado a impossibilidade de futuras ampliações da estância.

Ver

E a nossa estância Turistrela/Vodafone? Terá declaração de impacto ambiental? Onde a poderemos consultar?

sábado, julho 12, 2008

Obras e (sub-)desenvolvimento

Diz José Manuel Fernandes, no editorial do Público de hoje:
Na verdade, pode contestar-se a ideia de que a simples existência de investimentos públicos na construção de infra-estruturas é importante para a economia. Para muitos isso era verdade há 30 ou 20 anos, mas já não é hoje.

Creio que é o mito de que tudo o que é investimento público em infra-estruturas é bom para a economia que justifica o entusiasmo revelado por muitos actores locais na abertura, asfaltação ou alargamento de estradas no interior da Serra. Como já expliquei muitas vezes aqui no Cântaro Zangado, quanto a mim esses investimentos não são bons para a economia local, e são até prejudiciais. Não me parece que seja bom para Manteigas que se chegue tão facilmente de carro ao Poço do Inferno, por exemplo. (Refiro este exemplo de Manteigas porque foi o primeiro que me veio à mente. Situações semelhantes ocorrem nos outros concelhos da região). Se os visitantes não tivessem essa possibilidade, mais facilmente pagariam para fazer essa visita a cavalo, de bicicleta ou a pé. Mais tempo permaneceriam no concelho. Mais frequentemente seriam levados a almoçar, jantar ou pernoitar em Manteigas. Poderá haver razões outras que justifiquem esse acesso e outros semelhantes noutros locais, noutros concelhos. Agora, quanto ao turismo, creio que eles só o prejudicam.

quarta-feira, junho 18, 2008

Triste mas encorajador

Encontrei no Domingo um esquilo morto por atropelamento na estrada nacional N338, na zona da mata perto da Nave de Santo António. É triste, mas é também sinal que há esquilos a 1600 m de altitude...

As florestas, mesmo as pequenas, são mesmo ilhas de biodiversidade!

quinta-feira, maio 22, 2008

Ainda por cá andamos!

Fotografia tirada hoje às 9:30, na colina sobre a Covilhã. Não via esquilos desde Abril de 2006.

segunda-feira, abril 21, 2008

O nosso impacto

O Público de Quinta Feira passada trazia um artigo sobre o mundo de biodiversidade na cratera do atol de Bikini, onde os EUA fizeram testes com bombas de fusão nuclear em 1954 e que por isso mesmo tem sido, desde então, uma zona de acesso interdito.
No mesmo sentido, a zona de Chernobyl, evacuada há 20 anos na sequência do mais grave acidente em centrais nucleares de sempre, é hoje, segundo diz Alan Weisman no seu livro "O mundo sem nós", uma zona de grande pujança natural. As florestas cresceram, os veados e lobos regressaram, por todo o lado a natureza retomou o seu domínio.

Será que a variável relevante nestes dois casos é a existência de elevados níveis de radiação? Não. A mortalidade dos animais de Chernobyl é maior do que no resto do mundo. Por outro lado, outro paraíso natural referido por Alan Weisman, e um onde os níveis de radiação são os normais, é a zona de exclusão entre as duas Coreias, uma estreita faixa com quatro quilómetros de largura por duzentos e cinquenta de extensão, ladeada por dois exércitos vigilantes e em estado de prevenção constante.

Não, não são os altos níveis de radiação que fazem bem à natureza; são os baixos níveis de exposição ao homem. Por isso, pergunto se teremos mesmo que ocupar intensamente todos os espaços, até os que resolvemos declara áreas protegidas? Mais em particular, teremos mesmo que continuar a "desenvolver" (entendendo-se com esta palavra o que ela tem significado cá em Portugal) a Serra da Estrela?

A foto acima mostra um cavalo de Przewalski, raça selvagem que prospera na região de Chernobyl. Retirei-a daqui.

quinta-feira, abril 10, 2008

Valores

Um dos argumentos invocados para travar o projecto da estância de esqui de S. Glório que referimos há dias foi o de que ele punha em causa um dos últimos habitats do urso pardo na Península Ibérica. Ou seja, foi invocado um valor ambiental real e concreto, em vez de argumentos genéricos, mais ou menos vagos, mais ou menos românticos, mais ou menos relevantes para o que em concreto ali se estava a decidir.

E na Serra da Estrela? Aqui que a estância já existe, os projectos são para a sua ampliação. Tenho dito que não me parecem nada razoáveis, porque como a estância está no alto da montanha, só pode ser ampliada para baixo, para menores altitudes. Para locais onde neva menos, onde está mais quente, onde a neve se aguenta menos tempo. Mas este argumento é apenas económico. Se apenas o dinheiro da Turistrela fosse investido neste empreendimento, ele não nos diria respeito. (Mas é claro que há sempre o apoiozito do estado, da autarquia, da União Europeia...)

Reconhecendo que já não há ursos na serra (imagino que desde perto do final da Idade Média), nem lobos (há algumas dezenas de anos), nem cabra-montês, nem quaisquer outros mamíferos selvagens de grande porte (à excepção do javali), poderíamos pensar que não se aplicam, por cá, grandes preocupações ambientalistas. Ao fim e ao cabo, tudo o que havia para extinguir já se extinguiu, porquê tanta choraminguice?

Porque, pura e simplesmente, não é verdade que a Serra da Estrela esteja já esvaziada de valores ambientais. No "Guia geobotânico da Serra da Estrela"(1), do holandês Jan Jansen, podemos ler,

The flora of Estrela includes about a quarter of the preliminary Portuguese red list of vascular plant species, many of wich are confined to the Estrela within Portugal. In the Park's territory more then 400 bryophyte species could be detected. This is about two-third of the bryophyte flora of Portugal and some 40% of the Iberian. A considerable number occurs on the red list of bryophytes from the Iberian Peninsula.
(p. 36)
Se ainda não chegasse, o apêndice 3 deste mesmo guia enumera 45 espécies de mamíferos, 143 espécies de aves nidificantes, 9 de peixes, 33 de répteis e anfíbios.

Apesar de tudo isto, é verdade que não temos nada tão "espectacular" como o urso pardo. Mas vejamos. Na página 7 da ficha sobre o lobo ibérico do Plano Sectorial da Rede Natura 2000, informa-se que "deverão ser aplicadas todas as medidas que potenciem uma futura ocupação [pelo lobo] desta área [serra da Estrela], dada a proximidade com áreas onde a espécie ocorre." Entre outras medidas, propõe-se

  • Promover a conservação e o fomento das presas selvagens (nomeadamente corço e veado) do lobo através de:
    • manutenção/recuperação do coberto vegetal autóctone
    • assegurar uma correcta exploração cinegética destas espécies
    • acções de re-introdução/repovoamento de corço, quando necessárias
  • Condicionar a implementação de grandes infra-estruturas
  • Condicionar a abertura/utilização de novos acessos em áreas sensíveis, nomeadamente no âmbito de processos de Avaliação de Impacto Ambiental e no âmbito de Planos de Ordenamento do Território. Fiscalizar acessos e circulação de veículos motorizados. Nas áreas mais sensíveis, interditar circulação de viaturas fora dos caminhos estabelecidos.
Ou seja: quase não há mamíferos selvagens de grande porte na serra, mas um instituto do governo sugere a sua reintrodução. Para tal ser viável, há que ter alguns cuidados, ainda maiores do que aqueles a que a conservação das mesmas espécies obrigaria, caso elas fossem pré-existentes no território.

Em resumo, acho que mostrei que a ampliação da estância de esqui (e outras grandes iniciativas, como a abertura de novas estradas, etc) não só pode pôr em causa em causa um real, vasto e valioso património ambiental como parece contrariar flagrantemente as opções e orientações definidas pelo governo para a protecção ambiental no território do PNSE.

(E ainda por cima, como se não bastasse tudo isto, há cada vez menos neve na Serra da Estrela, e cada vez de pior qualidade! Valerá mesmo a pena a ampliação da estância?)

(1) Fernando Catarino, no quinto volume da série "Árvores e florestas de Portugal", publicada pelo jornal Público, diz deste guia o seguinte: "Em minha opinião, trata-se do melhor guia de Natureza alguma vez editado em Portugal. A riqueza e qualidade das ilustrações do guia têm paralelo no texto, claro e de grande rigor científico. O guia retrata correcta e exaustivamente os valores biológicos e as paisagens que o Parque encerra, num exemplar enquadramento climático, edáfico e biogeográfico" (p. 126). No ano passado, tentei comprá-lo na sede do Parque. A edição em língua portuguesa estava esgotada, tive que me contentar com a edição em inglês. Ter-se-á entretanto alterado este estado de coisas?

sexta-feira, dezembro 21, 2007

O Zêzere da foz à nascente

O Diário XX1, o Pedestrianismo e Percursos Pedestres e outros noticiaram a proposta da Associação Cultural Amigos da Serra da Estrela para a definição, documentação e dinamização de um trilho pedestre de grande rota acompanhando o Zêzere desde a foz até à nascente, com uma extensão total de perto de 250 km.

Escusado será dizer que o Cântaro Zangado considera esta uma excelente ideia, da qual pode beneficiar muita gente de muitos concelhos. Oxalá se consiga pôr em prática.

Para os que consideram este projecto uma loucura, quero fazer notar que o investimento necessário para o concretizar é uma fracção infinitesimal dos necessários para concretizar os planos da Turistrela e da Região de Turismo; que os seus impactos negativos são (realmente) mínimos, se é que não serão mesmo positivos; que os proveitos resultantes são mais certos a longo prazo do que os que alegadamente se esperam de uma aposta na neve e ficarão muito melhor distribuidos temporalmente (e socialmente, também). Além disso, a ideia não é, propriamente, original. Veja-se isto, isto ou isto, só para dar três exemplos.

segunda-feira, novembro 19, 2007

Porquê?

Vale do Rossim, fotografado dia 17 de Novembro. (Foto retirada do Lagoas da Estrela)
O Lagoas da Estrela refere num post recente uma situação que também tenho notado, a da falta de água nalgumas barragens da Serra, nomeadamente as sob a administração da EDP. Não sei se terão sido definidos limites mínimos para o volume de água armazenado em cada albufeira ou se esses limites, a terem sido definidos, estarão a ser respeitados. Diria que não parece. E já não é o primeiro ano que noto esta situação.
Mas lá que é uma tristeza, isso é.

quarta-feira, outubro 10, 2007

Por falar em direitos adquiridos...

... E em protecção ambiental, vi no Ondas que
Na Inglaterra, uma enorme zona húmida costeira de Essex vai ser devolvida à natureza após quinhentos anos de utilização agrícola.
Imagem retirada do site da notícia, no Guardian-online.

Bem sei que esta é uma decisão muuuuuito mais simples do que, por exemplo, a de limitar o número de viaturas automóveis que tentam subir à Torre em certos fins de semana de Inverno, ou a de demolir horríveis monos em ruínas na Serra (que, aliás, nunca deveriam ter sido construídos). Ah, mas os ingleses têm sorte, ficaram com os problemas mais fáceis! (Ou isso, ou com a vontade de os resolver...)

segunda-feira, outubro 08, 2007

Biodiversidade-Encontro Micológico

Este cogumelo que infelizmente não faço a pequena ideia que tipo é, faz parte da rica Biodiversidade que ainda existe na Serra da Estrela. Montanhas como a Serra da Estrela propiciam a existência de biodiversidade devido aos múltiplos ambientes que nela se podem encontrar. Características como a altitude, a orientação solar, a humidade, exposição aos ventos, tipo de solo etc podem ser dramaticamente diferentes mesmo em pequenas distancias, daí que tambem diferentes ecossistemas subsistam em cada um destes microambientes.
Volto a dizer que pouco percebo da biodiversidade micológica da Serra da Estrela. Sei que é rica e se como eu quiserem saber um pouco mais atentem neste encontro promovido pela URZE a realizar nos próximos dias 19 e 20 de Outubro em Gouveia.
Vamos lá ver se alguém depois me saberá dizer algo mais sobre o espécimen que apresento na fotografia!

sexta-feira, setembro 28, 2007

"Segunda demolición por delito urbanístico"

Atente-se nesta notícia (soube dela pelo Ondas). Em resumo, o que se passa é que o construtor de um edifício ilegal construido em 1999 numa área protegida perto de Madrid foi agora condenado a multa, à demolição do edifício e à "inhabilitación especial para profesión y oficio ligada a las actividades de construcción durante un año, así como a condena de prisión de un año y medio".

Comentários

  • Em Espanha, desta vez pelo menos, o crime não compensou
  • Não houve tibiezas na condenação nem lugar para a demagogia do costume com que, por cá, se tenta fazer passar por utilidade pública aquilo que, na verdade, não passa de privadíssimos interesses, como "antes das florinhas estão as pessoas" (afirmação do Presidente da Câmara da Covilhã, a propósito de um caso com algumas semelhanças com o que agora motiva este post — Veja no Urbi@Orbi) ou banalidades abstractas como Não podemos sacrificar o desenvolvimento ao ambiente
  • Não basta resmungar no café ou nos blogues (mas por algum lado se há-de começar). Para levar este caso a tribunal, foi necessário que a Asociación para la Defensa del Valle del Lozoya y la Sierra de Madrid apresentasse uma queixa formal. É que o respeito pela lei e pelo ambiente não são um mar de rosas. Às vezes é "chato" impô-los. Mas não são ainda mais "chatos" os resultados do aparente vale tudo com que nós fingimos que governamos as nossas áreas protegidas? Esses resultados são, aqui na Serra da Estrela, o lixo no maciço central, o caos urbanístico nas Penhas da Saúde (que os projectos da Câmara Municipal da Covilhã prometem agravar), a degradação do mercantilismo rasca da zona da Torre, só para dar três exemplos.

terça-feira, agosto 14, 2007

A maxi-iluminação da mini-cidade

Tenho passado temporadas de férias nas Penhas da Saúde desde que me lembro. Desde que me lembro que acontece, em noites de Julho e Agosto particularmente amenas, ficar na conversa à noite, na rua. Nessas ocasiões, os olhares e, por vezes, as conversas iam parar às estrelas, cuja presença se impunha, ostensiva. Foi assim com os meus pais, quando era criança, foi assim mais tarde, com as namoradas, foi assim com os meus filhos, mais recentemente.
Até que a Câmara Municipal da Covilhã resolveu transformar as Penhas da Saúde numa magnífica mini-cidade (ver mais propaganda aqui), com iluminação pública à altura de uma magnífica mini-cidade. O ambiente nocturno das Penhas da Saúde agora é o que a fotografia acima ilustra. Parece a segunda circular, em Lisboa. A abóbada celeste já não se impõe como antes, já não é evidente, com um relance pela janela, se (feliz ou infelizmente) há ou não luar.
Pela iluminação pública, já não se notam diferenças entre as Penhas da Saúde e qualquer pólo turístico urbano. Pela iluminação pública, existem agora menos razões para preferir as Penhas da Saúde a Quarteira.
Talvez a Serra da Estrela ainda seja, um pouco, Onde a Natureza Vive (como propagandeia a Região de Turismo). Mas, nas Penhas da Saúde, ela vive um pouco menos desde que se levou a cabo esta "requalificação".
Passo a passo, vão-nos levando a natureza. Passo a passo, vão-nos deixando o quê?
E tudo isto, para quê?

A fotografia foi tirada sem flash, sem tripé, sem apoio especial. O tempo de exposição (regulado pelo modo automático da câmara) foi suficiente curto para a imagem não ter ficado tremida. Daqui se pode fazer uma ideia mais clara da claridade das noites nas Penhas da Saúde.

domingo, agosto 12, 2007

Miguel Torga - Centenário

imagem retirade de http://drcn.do.sapo.pt/
De seu nome Adolfo Correia da Rocha, adoptou o pseudónimo de Miguel Torga por reflectir quem era: um duro com raizes em rocha dura em terras Ibéricas. Era um amante dos montes e serranias selvagens e agrestes. Percorreu-as desde tras os montes às beiras. Dizia da Estrela que era "alta, imensa e enigmática" e que "tudo se cria nela".
Que diria Miguel Torga se visitasse hoje a Serra da Estrela? E que diria do homem beirão?Continuará "Teimoso como um Sísifo voluntário"?

Presto aqui a minha homenagem a um homem que sabia as virtudes de uma serrania selvagem e dos seus maus trilhos impróprios para comodistas!
Algarvear a Serra da Estrela? Não, obrigado!