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segunda-feira, fevereiro 28, 2011

E está tudo bem?

Pelo Público da semana passada (ver edições de 24/2/2011, pág. 29 e de 25/2/2001, pág. 30 [as ligações podem não ser permanentes]) ficámos a saber o seguinte:
  1. Em 1999 a Turistrela apresentou à Câmara Municipal da Covilhã um projecto de loteamento para o que se veio a tornar no bairro dos bungalows das Penhas da Saúde, que foi indeferido.
  2. Apesar do indeferimento, a empresa iniciou os trabalhos de construção do dito bairro, o que levou à instauração de de 10 processos de contra-ordenação, número que veio a aumentar até um total de 40.
  3. Por intervenção directa do presidente da Câmara (Carlos Pinto) e do vereador do urbanismo (João Esgalhado), esses processos foram todos arquivados, contrariando pareceres técnicos dos serviços da Câmara.
  4. Graças a esta intervenção dos autarcas, as obras puderam continuar, quando os projectos de arquitectura ainda nem sequer tinham sido entregues à Câmara Municipal.
  5. O bairro foi construído, alguns bungalows foram vendidos e os outros começaram a ser explorados pela Turistrela, tendo o plano de pormenor da área (que neste caso, foi claramente considerado um pormenor sem importância nenhuma) sido aprovado em 2008 (sobre isto falei neste post).
  6. Por considerar que a intervenção de João Esgalhado e de Carlos Pinto neste e noutros assuntos foi ilegal, o Ministério Público acusou-os dos crimes de prevaricação. A juíza responsável pela decisão instrutória considerou que os factos estavam provados mas que João Esgalhado e Carlos Pinto não pretendiam com as suas acções beneficiar ou prejudicar ninguém, condição necessária para a definição de crime de prevaricação.
Três perguntinhas:
  1. Teria sido necessária uma declaração notarialmente reconhecida, redigida e assinada pelos arguidos, para esta juíza dar como provada a intenção de beneficiar a empresa que obviamente foi beneficiada pelos arquivamentos ilegais?
  2. Será possível que uma empresa que inicia obras nestas condições (recordo: com um pedido de loteamento indeferido e sem projecto de arquitectura aprovado) não sofra consequências nenhumas? Eu já não digo perda de alvará, mas ao menos a perda da concessão exclusiva do turismo e dos desportos (que, de qualquer forma, não é mais do que um anacronismo remanescente do estado novo), em vigor desde 1971 e por várias dezenas de anos ainda?
  3. Independentemente das responsabilidades criminais que a juíza considerou não existirem, é em gente que usa desta forma o poder que lhe é conferido pelo estado (de direito) que continuaremos a votar?

quarta-feira, junho 10, 2009

"O estado paga e o povo pasma"

A propósito da nova estrada Cortes do Meio - Penhas da Saúde, lembrei-me de um post que aqui deixei em Março:

Dizia Vasco Pulido Valente no Público de ontem:

"... Claro que uma auto-estrada pouco ou nada contribui para o desenvolvimento e a produtividade ou diminui a dívida (externa ou interna) ou torna a sociedade portuguesa sustentável. Só ajuda a fingir que Portugal progride e isso basta."

E digo eu:

Claro que uma estrada de asfalto serra acima pouco ou nada contribui para o desenvolvimento do turismo na Estrela, não evita o envelhecimento nem o abandono populacional da região, não a torna mais atractiva ou dinâmica. Só ajuda a fingir que a freguesia ou o concelho progridem e isso basta.

Creio que a realidade apoia muito claramente estas opiniões.

quarta-feira, maio 27, 2009

Também para que conste

Pedro Amaro, do blog Loriga, o autor da fotografia que foi usada no cartaz da caminhada organizada pela Turistrela e pela Banda da Covilhã (que divulguei há dias), ficou admirado de a encontrar naquela função. É que os promotores da dita caminhada (que teve lugar no Domingo passado) não lhe pediram autorização para a utilização da imagem, nem lhe deram conhecimento, nem nada.

Tanto quanto sei, também não apresentaram ainda um pedido de desculpas pelo lapso que, assim, mais parece um abuso.

domingo, maio 03, 2009

As leis ambientais podem (ou devem) servir para alguma coisa?

O Governo decidiu no final da semana passada propôr à Assembleia da República a redução do valor das coimas ambientais. E justificou a sua decisão afirmando que a viabilidade das empresas não podia ser posta em causa pela legislação ambiental!

Porquê esta questão especificamente com a legislação ambiental? Porque é que a restante legislação (fiscal, laboral, comercial, civil, etc) pode pôr em causa a viabilidade das empresas e só a ambiental é que não pode? Será que a legislação ambiental, ao contrário das outras, não serve para proteger valores reais? E se as leis ambientais não servirem exactamente para atrapalhar a vida das empresas que estiverem dispostas a violá-las, servem para quê?

Bem a propósito, li no Ondas que Obama revogou recentemente leis aprovadas por George W. Bush que fragilizavam a conservação da natureza. Como se pode ler neste artigo do Guardian, no final da sua legislatura Bush aprovou uma lei que dispensava os promotores de empreendimentos da necessária aprovação dos seus projectos por parte de responsáveis dos serviços de protecção da vida selvagem. Ou seja, Obama, no meio desta grave crise que nos afecta a todos (a mesma que o nosso governo invocou para justificar a redução das coimas ambientais), resolveu que a "simplexificação" de Bush não servia o interesse do povo que o tinha elegido. Ou seja ainda, Obama parece que não partilha a opinião segundo a qual a legislação ambiental não deve "atrapalhar" a vida das empresas. Neste ponto pelo menos, eu concordo mais com Obama do que com Sócrates.

domingo, fevereiro 15, 2009

Um cenário idílico à nossa medida

A Turistrela (empresa concessionária exclusiva do turismo e dos desportos na serra da Estrela desde 1971 e por várias dezenas de anos ainda por vir) organiza no dia 28 de Fevereiro o terceiro snowfashion, uma passagem de modelos na sua estância de esqui, perto da Torre.

Não me quero alongar sobre o evento propriamente dito mais do que para referir que, na minha opinião, este tipo de eventos não se adequa a um local que é o centro e o coração simultaneamente da maior (e uma das mais importantes) áreas protegidas do nosso país, de um sítio Rede Natura 2000, de uma Reserva Biogenética e de um sítio Ramsar.

Se falo hoje deste snowfashion, não é para me mostrar contra a sua realização ou para o aproveitar para criticar o seu promotor. Nada disso, trago-o aqui apenas porque no site promocional do evento se referem ao local onde decorrerá como um "cenário idílico e inigualável".

Inigualável até será, mas idílico? Idílico?! Com os plásticos do sku espalhados por todo o lado, com o solo escalavrado da estância de esqui, com os restos de lixo e de materiais das obras ao longo da estrada, com os carros e autocarros, uns estacionados por todo o lado, outros no pára-arranca pela estrada apesar dos primeiros, com as inscrições deixadas nas rochas pelos apoiantes dos ciclistas da Volta a Portugal, com todos os mamarrachos, velhos e novos, que se foram construindo na zona da Torre, o que é que aquilo tem de idílico?!

Cada região tem os cenários idílicos que merece, tem os que faz por ter. Nós, pelos vistos, temos a Torre.

domingo, dezembro 21, 2008

Porque somos como somos?

Tenho "gasto" vários posts dos mais recentes a explicar que o turismo que temos na serra da Estrela não é o típico turismo de montanha, que em toda a Europa se baseia no pedestrianismo, no montanhismo, na escalada, na canoagem, na BTT, na observação/interpretação da natureza (flores, birdwatching, ambientes de floresta, paisagem, geologia, etc.), passeios a cavalo e muitas outras coisas de que não me lembro. Que nas outras montanhas da Europa há turistas durante todo o ano, muito especialmente no Verão, mesmo naquelas que são os tradicionais centros do turismo da neve, do turismo do esqui.

Tenho afirmado que o nosso turismo, essencialmente constituido por visitantes que não passam mais do que algumas horas na região, que a visitam principalmente nos fins de semana com neve, e que nunca se afastam dos núcleos artificializados ou da estrada, é sui generis e não se vê, ou pelo menos não se nota com importância comparável à que aqui tem, nas restantes montanhas da Europa.

Já várias vezes afirmei, implícita ou explicitamente, que o turismo que temos é muito menos lucrativo do que o turismo de montanha, e que tem um impacto sobre o ambiente e a paisagem muito maior. Que os poucos lucros que gera ficam concentrados nas bolsas de muito poucas pessoas, e que distribui os seus prejuizos por todos.

Hoje vou sugerir algumas possibilidades para o porquê do nosso turismo ser como é. Já adiantei uma das razões no post "Nós aqui vivemos da neve". Sim, acredito que uma das causas do nosso turismo tão sui generis é o modelo de gestão tão sui generis que insistimos em manter: o da concessão exclusiva do turismo e dos desportos atribuída à Turistrela há mais de trinta anos e com validade ainda por outros tantos para o futuro.

Mas não é a única razão. A questão é que como pensamos que que os únicos turistas que a serra pode atrair são os visitantes que nos chegam de manhã de carro e que à tarde partem de carro (depois de passarem umas horas mais ou menos atascados no tráfego), achamos que desenvolver o turismo é facilitar este modelo. Vai daí a ideia, por cá generalizada, de que os acessos nunca são suficientes, que temos que alargar as estradas, que temos que construir ainda mais, que temos que instalar teleféricos, que temos que aumentar a capacidade de parqueamento. E que temos que inventar "animação" para estes visitantes, daí os centros comerciais na torre, os alugueres de trenós (e sacos para o sku? Já se alugam sacos também?). Ora, e isto deve ser cristalinamente evidente para todos, cada um destes "melhoramentos" torna a serra menos atractiva para aqueles que constituem, em toda a Europa, os clientes-alvo do turismo de montanha. Ou seja, se temos o turismo que temos, é porque é nesse turismo que temos apostado ao longo dos anos, ao longo das décadas. Se temos o turismo que temos, ao fim e ao cabo, é porque foi esse o turismo que escolhemos ter.

Alguma vez mudaremos de rumo? Duvido. Por exemplo, está para breve o início de obras na estrada Sabugueiro-Torre, dotando-a de um enorme parque de estacionamento na zona da lagoa Comprida. Para quê? Que tipo de turismo fica reforçado com esta obra? Que tipo de visitantes serve? Em que dias é que se sentia a "necessidade" deste "melhoramento" e em que dias é que se sentirão os seus benefícios? É razoável facilitar a visitação por ainda mais gente, nesses mesmos dias? Não seria melhor atrair antes outro tipo de visitantes, noutras alturas do ano?

É por "desenvolvimentos" como este que digo frequentemente que estamos no rumo certo, estamos de parabéns, como sempre, desde sempre.

Ontem afirmei que as pessoas sobem a pé o Ben Nevis porque "não há estradas, teleféricos ou funiculares para lá chegar acima e porque vale a pena o passeio". As mesmas duas razões justificam o porquê de tão pouca gente subir a pé a serra: é que aqui *há* estradas e o passeio, francamente, *não* vale a pena, dado o degradante e terceiromundista circo com que nos deparamos quando lá chegamos acima. Não sou só eu que digo. Veja aqui, por exemplo.

sábado, dezembro 20, 2008

Reforço do que disse ontem

Na minha opinião, os problemas da acessibilidade ao alto da serra da Estrela são causados por um único facto: a existência de acessos.

Ninguém se queixa por não haver estradas asfaltadas em número suficiente que permitam o acesso automobilizado aos cumes do Gerês, de Gredos, de Guadarrama, da Sierra Nevada dos Pirinéus, dos Alpes, das montes da Escócia, dos montes Tatra, dos Picos da Europa. Será porque o número de estradas para os cumes dessas montanhas é considerado o suficiente? Sim, e esse número é zero.

E, nesses cumes, o papel das estradas é substituído por telecabines ou funiculares? Nalguns sim mas, na esmagadora maioria, o acesso é feito a pé.

E nessas montanhas, não há turistas? Há, muitos, ao longo de todo o ano, com especial incidência no Verão, ao contrário do que acontece na Estrela (mas nada ao contrário do que acontece no Gerês).

Em Portugal, os carros não só conquistaram todo o espaço disponível nas cidades (coisa que no resto da Europa já se está a inverter), como conquistaram também a montanha-mãe! E ainda consideramos que há falta de acessos!

Estamos no rumo certo, estamos de parabéns! Como sempre, desde sempre!

sexta-feira, dezembro 12, 2008

Construir, construir, construir!

Pág. 5 do Diário XXI de 3 de Dezembro de 2008. Clique para aumentar.

O Presidente da Câmara de Manteigas tem um projecto para as Penhas Douradas. Num artigo publicado na semana passada pelo Diário XXI (clique na imagem para a tornar legível), são referidos alguns detalhes: centro de estágios desportivos em altitude incluindo piscina de 50 m, ginásio, laboratório de avaliação da condição física dos atletas, 24 quartos duplos, salas comuns, diversos gabinetes. A isto eu acrescento, porque me parece natural que seja considerado, um campo de futebol e uma pista de atletismo, que não cabem num ginásio. O autarca destaca a proximidade de cidades médias como Covilhã, Guarda, Fundão e Castelo Branco para justificar esta aposta (como ao certo não nos explicam no artigo) e afirma que "há uma população vasta que beneficiará do investimento que será transversal a várias modalidades" (o artigo também não explica quem ao certo compõe essa população vasta nem como ao certo é que ela beneficiará).

Mas há mais. O artigo continua dizendo que a aprovação do plano prévio é o primeiro passo, a que se segue um Plano de Pormenor que a Câmara de Manteigas está a elaborar. Trata-se de um plano para um projecto de requalificação que prevê a ligação por funicular ou telecabine entre Manteigas e as Penhas Douradas, uma zona de hotelaria e restauração definida como de "alta qualidade", o aproveitamento (ao certo como não está dito) da lagoa do Vale do Rossim, a criação de espaços museológicos e a adaptação do centro de meteorologia para equipamento multiusos que possa servir também como planetário.

Mas ainda não chega. O estudo sugere também a construção de uma casa do Pai Natal e de um espaço de sentidos (não se explica ao certo o que se entende por isso) que funcionará como "uma espécie de floresta encantada".

Não percebo.

Porque será que os autarcas da nossa região (falo no plural porque a câmara da Covilhã tem projectos similares para as Penhas da Saúde) parecem querer, acima de tudo, que os turistas fiquem hospedados no alto da montanha, onde praticamente não há habitantes permanentes, não há comércio (nem comerciantes), não há cinema, não há teatro, não há salas de exposição, não há cafés, não há museus, onde não há praticamente nada e por isso mesmo tudo tem que lá ser construído, praticamente de raiz? Onde não há praticamente nada e justamente dessa ausência nasce grande parte do encanto desses lugares? Porque é que não se tenta antes alojar os visitantes nas localidades, onde poderiam contribuir para dar vida ao comércio muitas vezes moribundo dos centros históricos que as opções urbanísticas que temos seguido, por um lado, e dinâmicas socio-económicas complexas, por outro, tantas vezes têm votado ao envelhecimento e ao abandono? Onde com um investimento muito menor se poderiam criar dinâmicas de complementaridade (eventos comerciais atraindo turistas, presença de turistas aproveitada por eventos culturais, etc.), que tornassem a localidade mais viva, mais viável, mais atractiva. Mas não. O projecto é encaminhr os (eventuais) turistas para as Penhas, e os habitantes de Manteigas que se mudem lá para cima com os seus negócios, ou que fiquem a vê-los definhar, junto com tudo o resto, na vila. Não, não percebo estas estratégias dos autarcas da nossa região.

Ao escrever estes apontamentos, tive repetidas vezes a sensação de dejá-vu. Já há tempos falei sobre a casinha do Pai Natal, o funicular e tudo o resto, a propósito de anúncios que foram notícia, por exemplo, aqui. No artigo que hoje comento, repetem-se as mesmas expressões, palavra por palavra. Será esta notícia uma notícia nova, ou antes foi construida com material reciclado? Fica a dúvida.

No blog Café Mondego, Américo Rodrigues aponta a autenticidade como uma grande mais valia da zona de Bejár (outras referidas são o encanto das estradas rurais, a ausência de casinos, de túneis. Aposto que ele concordaria em acrescentar também a ausência de centros de estágio em altitude e de casinhas do Pai Natal). Por falar em autenticidade, o que é que, na nossa tradição católica apostólica romana, é autêntico numa casinha do Pai Natal? Como é que se pode integrar uma tão evidente importação do norte europeu num turismo que, segundo se afirma, se pretende de alta qualidade, a implantar na nossa região? E o que virá a seguir? Uma Caverna do Halloween no Covão da Ponte? Já agora...

Não tenho nenhuma antipatia especial pela Câmara Municipal de Manteigas ou pelo seu presidente. Ainda há pouco tempo aplaudi um outro projecto da mesma autarquia.

domingo, março 02, 2008

Obrigações e água benta, cada um toma as que quer!

Na página de internet da estância de esqui de La Covatilla (na Sierra de Bejár, aqui perto da Estrela mas do lado de lá da fronteira) pode ler-se
De manera regular se llevan a cabo labores de limpieza y recogida de residuos y basura en el entorno de la estación de esquí. Sobre todo en las zonas de aparcamiento y acceso. En la foto podemos ver cómo los operarios de Gecobesa recogen latas, plásticos, envases y todo tipo de residuos que quedan desperdigados en toda la zona antes de que, a causa del efecto del viento y otros agentes atmosféricos, toda esta basura se desperdigue por toda la sierra. De estos trabajos, que nos suponen un elevado coste material y humano se habla muy poco, por esa razón, ya que otros no lo hacen, lo destacamos hoy como noticia en nuestra página.
Artur Costa Pais, administrador e dono da Turistrela, empresa gestora da "nossa" estância de esqui e concessionária exclusiva do turismo e dos desportos da Serra da Estrela, em declarações recolhidas pelo Notícias da Covilhã em Maio de 2006, sobre o problema do lixo disperso na zona da Torre, disse:
Isso é uma preocupação mas não é uma obrigação. Não podemos assumir essa responsabilidade, é uma responsabilidade de todos.
E, apesar destas e doutras (muitas outras) como estas, mantém-se a Turistrela como concessionária exclusiva há trinta e tal anos, concessão que se prevê continue por mais trinta e tal anos. A bem do que se vê. Estamos no rumo certo, estamos de parabéns! Como sempre.

PS: atenção que se trata aqui apenas de palavras, de imagens mediáticas. Não sei se este anunciado esforço de limpeza por parte da estância de La Covatilla é sério ou se se trata apenas de publicidade para contrariar argumentos de ambientalistas e outros amigos da serra. Virando o bico ao ditado de forma a melhor se aplicar neste contexto, à mulher de César não basta parecer séria, tem que o ser também. Mas nuestros hermanos de La Covatillha, ao menos, tentam parecer sérios. Os de cá, é o que se vê.

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

O triunfo dos cotos

Há tempos escrevi aqui sobre o valor ornamental das árvores em espaços urbanos e sobre como muitas vezes transformamos as árvores que se pretendem ornamentais em cotos informes, com as "tradicionais" rolagens camarárias. Apresentei nesse artigo um exemplo (fotografia acima) que considerei ilustrativo, porque mostrava, lado a lado, uma árvore verdadeiramente ornamental e um desses cotos informes.

A árvore ornamental foi cortada (ou podada) hoje. O que dela restava à hora de almoço é o que mostro na fotografia abaixo.

As razões para este trabalho podem ter sido as melhores. Mas o meu dia-a-dia ficou muito mais triste agora. O Bairro do Rodrigo (onde não moro, mas onde levo o meu filho mais novo à escola todos os dias) é agora, para mim, muito menos interessante. Por boas que tenham sido as razões, tratou-se de um sacrifício e, para mim, doloroso. Podemos ter evitados males maiores, estou disposto a admiti-lo, mas o preço que pagámos foi terrível.

Foi o assistirmos, no Bairro do Rodrigo, ao triunfo dos cotos informes.

domingo, janeiro 27, 2008

Estrela no seu melhor

A não perder mais um artigo do Cova Juliana sobre o Covão d'Ametade, onde uns entusiastas motorizados fizeram este fim de semana um ensaio geral da barbárie que se prepara para 15, 16 e 17 de Fevereiro: a autointitulada 1ª Concentração Invernal de motoqueiros "Eskimos 2008".

Estes simpáticos e civilizados convívios de sossegados amantes de piões, cavalinhos e derrapagens, sempre muito cuidadosos com a limpeza dos locais onde se reúnem, respeitadores dos demais, que podem não partilhar (ele há gente estranha!) dos seus delírios com os estouros dos escapes, são sempre de encorajar. E, no coração do Parque Natural da Serra da Estrela, que mais se pode pedir? Venham, venham! Com o apoio da Câmara Municipal de Manteigas!

No site do Moto Clube do Barreiro pude apurar mais algumas informações. Por exemplo, que vão estar disponíveis no local "duches quentes", um refeitório e "toneladas de lenha para alimentar as fogueiras". Mas o convívio pretende exaltar "O verdadeiro espírito Motociclista de confraternização aliado às condições mais adversas de viagem e acampamento". As condições mais adversas, pois, pois. Na linha do já tradicional acampamento dos militares, que vêm para o Covão d'Ametade equipados com tendas com aquecimento central, não vão os bravos constipar-se...

Ai, ai... Serra da Estrela: uma montanha cada vez mais rasca está a nascer aqui.

No seu artigo, o Cova Juliana menciona uns turistas estrangeiros que estranharam com desagrado a invasão do espaço onde esperavam encontrar sossego e paz por esta turba barulhenta dos motoqueiros. Eles que se habituem. Na Serra da Estrela somos todos iguais, mas uns são mais iguais que outros.

sábado, dezembro 01, 2007

O rumo certo, o do costume

O Máfia da Cova, citando uma notícia publicada pel'O Interior desta semana, informa-nos da recente inauguração da nova sede da Federação Portuguesa de Esqui, um evento que contou com a presença de Laurentino Dias, secretário de Estado da Juventude e do Desporto e de Carlos Pinto, presidente da Câmara Municipal da Covilhã.

Pode ler-se na notícia que a "ocasião foi aproveitada por Carlos Pinto para voltar a falar do projecto da criação de uma zona de jogo na Serra da Estrela em complemento aos desportos de Inverno", pois o "edil defendeu que esta seria a «forma de oferecer lazer associado à neve, financiar todos estes projectos e torná-los realidade [...]»"

Mais uma vez, aparece reforçada e apoiada por todos a tese de que o futuro do turismo na Serra da Estrela passa pela neve, apenas pela neve.

No Gerês há várias empresas (competindo umas com as outras) oferecendo turismo de natureza, passeios a pé, a cavalo, BTT, canoagem, escalada. Há turistas todo o ano, com estadias de dias e semanas. Em certas alturas, é preciso organizar com antecedência certas actividades (passeios a cavalo, por exemplo), tamanha é a procura. Aqui, temos a Turistrela e a neve (esta cada vez menos), e os milhares de visitantes que, em certos Sábados e Domingos, passam metade do dia, atascados no trânsito, tentando chegar com os seus carros à Torre e a outra metade, no trânsito atascados, tentando de lá sair, no regresso a suas casas. Nas poucas horas que permanecem na serra, deixam toneladas de lixo que escorrem encosta abaixo, entopem linhas de água, enojam e envergonham quem visita a serra com olhos para a ver. E mantemos e ampliamos continuamente uma deprimente estânciazinha de esqui onde a neve (quando a há) não presta, porque derrete durante a tarde e congela durante a noite, sendo vidro grosso de manhãzinha e papa molhada ao meio dia.

E, no entanto, é nisto que continuamos. Há pelo menos quarenta anos que se afirma que devemos desenvolver o turismo de neve. Que podemos concorrer com as estâncias dos Pirinéus e dos Alpes. Que é preciso mais animação para a animação da neve.

Continuamos no rumo certo, continuamos de parabéns. Como sempre. Como se vê. Viva nós!

E as perspectivas para o futuro, neste actual panorama de alterações climáticas? Recordo que ainda no ano passado, Turistrela e Região de Turismo afirmaram, que não, que o aquecimento global não se faria sentir aqui, que de dez em dez anos vem um ano mau, e que há agora tecnologia para fabricar neve mesmo com altas temperaturas.
Noto que parece ter havido uma evolução. O Secretário de Estado afirmou que com as "condicionantes que Portugal apresenta para a prática desta modalidade, [...] será óptimo se conseguirmos criar condições para que possam ter aqui uma fase de adaptação e habituação de treino. Uma coisinha modesta, portanto, à medida das nossas condicionantes. Uma coisinha modesta mas que, decerto, "será um factor de ajuda ao desenvolvimento desta região". Será assim, depreendo, um factor modesto, mas adiante.
O presidente da Federação Portuguesa de Esqui vai mais longe: mesmo que a neve deixe de cair na serra, "há pistas artificiais e sintéticas que permitem sempre a prática do esqui". A prática de modalidades de neve, mas sem neve! Bravo! Ah, estamos no rumo certo, estamos de parabéns. Como sempre, desde sempre!

Adenda posterior: Note-se que nada tenho, a priori, contra pistas de esqui com piso sintético, com neve produzida artificialmente, indoor, etc. Aliás, elas apresentam uma grande vantagem relativamente às pistas de ar livre: são tão viáveis no alto da Serra como em qualquer outro lugar. (Falou-se até na construção de uma em Oeiras!) Assim, se a Federação Portuguesa de Esqui quiser conquistar apoios para a construção de uma pista artificial, ou com neve artificialmente produzida, na Covilhã, em Manteigas, Seia, Gouveia, Fundão, Castelo Branco ou Beja, cá por mim, óptimo! O que me incomoda é que se continue a apostar cada vez mais na artificialização desta maravilhosa área protegida que é a serra da Estrela e cada vez menos num aproveitamento a sério das suas verdadeiras potencialidades.

segunda-feira, novembro 26, 2007

"Eles estão doidos!"

António Barreto deixou no Público de ontem, na sua habitual crónica de Domingo, um texto de revolta contra as leis e regulamentos que, permitindo a alimentação de plástico e a higiene de plástico da fast-food e dos hipermercados, cada vez mais condiciona ("para nosso bem, pois claro", ironiza) os produtos tradicionais e as formas tradicionais de os produzir e distribuir. Copiei-lhe o título.

Pelo que tenho ouvido a produtores artesanais aqui da Serra da Estrela, não podia estar mais de acordo com ele. Aliás, as coisas estão de tal maneira que duvido muito que um queijo de ovelha da Serra da Estrela, produzido no rigoroso cumprimento de todas as inúmeras regrazinhas que agora regulam a manufactura e distribuição dos produtos alimentares, saiba a queijo da serra. Isto, admitindo que haja alguém, em toda a volta da Serra, que tenha instalações que cumpram todos aqueles requisitos. Ou muito me engano, ou um queijo produzido como "manda a lei" não é um queijo produzido com métodos tradicionais, não é um queijo tradicional.

Para mal dos nossos pecados, não bastava o zelo com que, neste domínio, se inventam as leis mais insanas e aberrantes (insanas e aberrantes, sim; basta pensar na que proíbe os galheteiros de azeite nos restaurantes!), criou-se para as aplicar a polícia (a ASAE) que mais entusiasmo tem demonstrado no cumprimento da sua missão!

Os assinantes do Público podem ler o artigo aqui. Os restantes podem encontrar alguns excertos no Saúde Ambiental.

quarta-feira, novembro 14, 2007

Oh Lord, won't you buy me a BMW

Foto tirada na segunda feira, dia 12, na zona da Mina do Morgadinho, atrás da Pedra da Mesa, um mês depois de um evento publicitário da BMW promovido pelo Clube Escape Livre (da Guarda) que, por outras razões, comentei aqui.

Requalificar, requalificar sempre!

Fotografia retirada de Estrela no seu melhor

Já dei alguns exemplos de como quando se faz alguma coisa na Serra se faz sempre, aparentemente, o pior possível. Agora é (outra vez) o Covão d'Ametade.

Alguém entendeu necessário "requalificar" o Covão d'Ametade. Apareceu dinheiro, construiram-se uns foleiros assadores que, por acaso, até nem podem ser usados no Verão, que é quando há quem esteja disposto a fazer assados ao ar livre naquele lugar. Sobre isso, já muita tinta correu.

Mas o projecto de requalificação é mais ambicioso e envolve também a substituição da antiga ponte sobre o Zêzere. Neste aspecto em particular concordo com os promotores deste projecto, pois a ponte antiga estava a cair de podre, literalmente. Mas as concordâncias acabam aí. O bom gosto dos que escolheram os altares dos grelhados está a manifestar-se também na ponte que estão a erguer. O Estrela no seu melhor mostra hoje todos os detalhes.

O exemplo (mais um) de como as coisas parecem fazer-se aqui sempre do pior modo possível é que a localização da nova ponte, não sendo a mesma que a da antiga (porquê?), obrigou ao abate de uma bétula. Inevitável? Pois sim!

Sobre este projecto de requalificação, sei que ele prevê (mesmo que nunca se consiga verba para tal — Oxalá!) a iluminação nocturna do espaço, a sua vedação, obras nos edifícios do bar e dos lavabos e a instalação de um painel publicitário. Talvez devessemos pensar nalguma forma de mostrar à Câmara Municipal de Manteigas, à Junta de Freguesia de S. Pedro e ao Parque Natural da Serra da Estrela a nossa discordância com o projecto.
O Covão d'Ametade transformado num camping da Caparica? Não, obrigado!

sexta-feira, novembro 09, 2007

Os "constrangimentos ambientais"

1. De como os estatutos de protecção do Parque Natural da Serra da Estrela parecem não impedir muitos actividades ou empreendimentos

No interior do Parque Natural da Serra da Estrela pode-se caçar: há cerca de trinta zonas de caça municipal ou associativa, legais ou em processo de legalização, que penetram no território do parque. Mesmo assim, por não ser suficiente o policiamento (e alguma vez o será?) tem havido notícias de caça (completamente ilegal) fora dessas zonas, em áreas oficialmente mais "protegidas".

Quando há neve (coisa cada vez menos frequente), pode-se praticar esqui de pista, com tudo o que isso acarreta: parques de estacionamento, longas bichas de carros, cafés e restaurantes, musiquinha ambiente, etc, etc, etc. O governo até dá uma ajuda com programas de apoio ao investimento, apesar de ser muito duvidosa, a médio prazo, a viabilidade económica da exploração da estância esqui, dadas as alterações climáticas com que nos enfrentamos.

São permitidas concentrações de dezenas de milhares de visitantes (com os seus automóveis) no coração da área protegida, em certos fins de semana de neve. Como resultado destes ajuntamentos, ficam todos os Invernos espalhadas na zona da Torre toneladas de lixo. O que parece não ser possível é a limitação (por tímida que seja) do tráfego na estrada da Torre. Pelo menos (assim se diz) enquanto não se construirem túneis sob a serra, IPs com perfil de autoestrada em redor da serra e/ou telecabines que permitam aos turistas chegar à Torre (como se não se pudesse chegar à Torre a pé, que é como se chega ao cume de outras montanhas comparáveis).

Podem construir-se hotéis, condomínios e urbanizações em "núcleos de recreio" e nalguns desses núcleos (nas Penhas da Saúde, mais concretamente) pode construir-se não importa o quê. Aparentemente, tratando-se oficialmente de um "núcleo urbano", os serviços do PNSE têm aí uma autoridade muito diminuída. São até publicitados projectos de construção fora desses núcleos de recreio, veja-se o plano de abertura de um spa nos Piornos ou o da construção de um aparthotel na Varanda dos Carqueijais.

Podem organizar-se passagens da volta a Portugal em bicicleta, rampas automobilísticas e raids todo-o-terreno (estes últimos incluindo até trechos fora de caminhos), sem contrapartidas ao parque, sem se darem reuniões preparatórias com o parque, sem sequer se contactar o parque (não que este incrível absurdo se verifique sempre, atenção).

Podem construir-se assadores para piqueniques mesmo sabendo-se que é proibido fazer fogo em zonas de floresta durante o Verão (que é quando apetece fazer piqueniques ao ar livre na serra da Estrela).

Têm-se construído barragens no interior do parque, e está uma nova obra na calha, já com a avaliação ambiental aprovada, na ribeira das Cortes, para alimentação da rede da cidade da Covilhã.

As muitas estradas asfaltadas já existentes, antigas e recentes, ainda não são consideradas suficientes. Decorrem estudos para a estrada Verde (entre a Guarda e o Maciço Central), continuam os planos para tentar terminar a pavimentação da estrada Unhais da Serra - Nave de Sto António.

2. De como os serviços do PNSE até têm colaborado com as "forças vivas"

Na Torre e na Lagoa Comprida havia mercados de ar livre para venda de recordações e fancaria, até ao início dos anos noventa (se não estou em erro). Foram necessárias obras em edifícios da antiga base da Força Aérea e perto da Lagoa Comprida, quando se resolveu "ordenar" a prática do comércio, instalando os comerciantes nesses edifícios beneficiados. Quem pagou não foi a Região de Turismo, não foram as câmaras municipais, não foi a Turistrela, não foram os comerciantes. Quem pagou foi o Parque Natural da Serra da Estrela. No entanto, os comerciantes que agora operam no centro comercial da Torre e nas lojas da Lagoa Comprida pagam renda, não a quem financiou a melhoria das instalações, mas sim à Turistrela!

As novas instalações, sendo utilizadas por muitos visitantes, precisam de infraestruturas, como esgotos. Quem pagou essas infraestruturas? O PNSE, mais uma vez. A coisa está a trabalhar mal, corre a porcaria pela serra abaixo. A quem se aponta o dedo? Ao PNSE. Acho paradoxal, de certa forma. Mas é assim que as coisas são.

O lixo depositado nos contentores situados no maciço central é (ou era, até há muito pouco tempo) recolhido por funcionários do PNSE, e não pelos serviços municipalizados (ou pelas empresas que os substituiram) dos concelhos relevantes. O PNSE tem até um camião (pelo menos um) apropriado para o efeito.

O esforço mais sério e consequente para o desenvolvimento de um verdadeiro turismo de montanha na serra da Estrela foi efectuado por quem? Não foi a Turistrela, nem a Região de Turismo, nem as Câmaras Municipais. Foi (mais uma vez) o PNSE, quando definiu, marcou e documentou a rede de trilhos pedestres da serra da Estrela.

3. Em conclusão

Em resumo, parece não haver muitos constrangimentos ambientais a vigorar na serra da Estrela. Mais ainda, o PNSE tem repetidas vezes colaborado com outras entidades com intervenção na serra da Estrela (Região de Turismo, Turistrela, câmaras municipais), assumindo encargos e obrigações que não decorrem directamente da missão para que foi criado, assumindo encargos e obrigações que pertencem claramente a essas outras entidades. Como se não chegasse, rendas de que o PNSE deveria ser credor por pagarem a utilização de instalações por ele beneficiadas ou serviços por ele prestados, são desviadas para terceiros sem que se entenda porquê. Quando alguma coisa corre mal nesses serviços que o PNSE presta (e alguns deles, quanto a mim, o PNSE não deveria prestar) cai o Carmo e a Trindade, que aqui del Rey, o PNSE não está à altura das suas "obrigações".

Face a tudo isto, queixinhas sobre os constrangimentos ambientais decorrentes dos estatutos de protecção da Serra da Estrela ou sobre os bloqueios ao desenvolvimento impostos pelos técnicos do PNSE, vindas (ainda por cima!) de quem costumam vir... Só podem estar a gozar, não?

quarta-feira, novembro 07, 2007

E dura, e dura, e dura...

A mais alta cloaca de Portugal. Fotografia tirada do Estrela no seu melhor.
A mais alta cloaca continua bem e parece que se recomenda. Ver tudo no Estrela no seu melhor.

terça-feira, outubro 16, 2007

Vrrum, vrumm, o respeito pelo ambiente em marcha!

De acordo com o Plano Sectorial da Rede Natura 2000 para o sítio Serra da Estrela, na parte relativa às Orientações de Gestão, mais especificamente na que refere "Outros usos e actividades", mais especificamente ainda na página 15, pode ler-se que uma dessas Orientações de Gestão é "Interditar a circulação de viaturas fora dos caminhos estabelecidos".
Parece razoável, ou seja, quase que nem é preciso ler isso num documento oficial para se perceber que andar com carros sobre a vegetação é coisa que não é ambientalmente muito correcta, ainda mais se se tratar da vegetação de uma área protegida.

Vejam-se agora as fotografias abaixo, tiradas num evento organizado na Serra da Estrela pelo Clube Escape Livre (da Guarda) este fim de semana (imagens retiradas do site do clube).

Depois do escalavrado que ficou o terreno, está-se mesmo a ver que a Turistrela terá que o regularizar (outra vez!) com tractores e buldozers, de forma a que nele se possa esquiar quando começar a época (se começar a época, deveria antes dizer). Achamos bem?
Imaginemos que aceitamos o argumento de que esta iniciativa não teve importância, porque as pistas de esqui já estão tão degradadas que pouco importa o que nelas fazemos. Agora imaginemos um vulgar dono de jipe, que goste de passeios todo o terreno (nada de mal até aqui). Entusiasmado com o que vê nestas apelativas imagens, como o poderemos convencer a não tentar fazer o mesmo na Nave de Santo António ou noutras paragens da Serra? Continuamos a achar bem?
Com tantas e tão entusiasmantes picadas e cortafogos por essa serra fora (como mostram outras fotos deste evento), que necessidade havia disto?

Continuamos a achar que não há, neste particular item do programa desta realização (que me parece mais publicitária que estrictamente recreativa, diga-se de passagem, mas cada um é livre de se prestar ao que entender), nada, nadinha a criticar? E o Parque Natural da Serra da Estrela, também acha?

segunda-feira, setembro 03, 2007

Extremismo ambientalista ou ordenação? Ordenação ou balda bem-intencionada?

Numa das entradas da Mata Nacional do Buçaco, encontrei esta tabuleta: Aqui se lê, por declaração papal datada de 22 de Março de 1643, que
"Proibimos sob pena de EXCOMUNHÃO ipso facto incorrenda, que daqui em diante nenhuma pessoa de qualquer autoridade que seja, se atreva sem licença expressa do Prior, que ao tempo for do dito Convento, a entrar na clausura dele para efeito de cortar árvores de qualquer casta que seja ou fazer outro dano."

A pena de excomunhão será (não sou nada entendido nesses assuntos) a mais grave que uma autoridade eclesiástica pode aplicar e, na altura (séc. XVII), seria porventura, para o comum dos mortais, tão dissuasora como a pena máxima secular, a pena de morte. Assim, este anúncio mostrava claramente que se pretendia proteger as árvores do mata do convento. O sinal, bem nítido, era: atenção, oh passante: aqui *não* se pode cortar árvores. É um sinal de extremismo ambientalista, ou um de ordenação séria e empenhada?

E a tabuleta ilustrada abaixo, que referi há dias? Dá algum sinal de restrições ambientais, tímidas que sejam, que até se poderiam quase sub-entender por se tratar de uma área (não urbanizada, nem contígua a espaços urbanizados) do Parque Natural da Serra da Estrela?

Em trezentos e cinquenta anos, fizemos progressos nos regulamentos para a desprotecção ambiental, diria eu. Boas intenções, em abstracto, não nos faltam, é certo. Mas nada que nos safasse das penas do inferno, no século dezassete...

sexta-feira, agosto 31, 2007

Protegida de quê?

A caminho das Penhas da Saúde pela estrada, dei ontem com o sinal em baixo, na curva perto do Covão do Teixo. Foi colocada na segunda quinzena do mês de Agosto, quase aposto, porque não me lembro de a ter visto antes (mas pode ter-me escapado, claro).

Não percebo nada disto, mas suponho que este sinal indica que a zona do Covão do Teixo é uma zona onde a caça é permitida, condicionada pelos termos da lei que rege as zonas de caça municipal e pelos do Processo nº 4315 DGRF. Não faço ideia de quais sejam esses termos.

O sinal está afixado mais ou menos no local sinalizado com o triângulo circundado a vermelho, no mapa em baixo. A localidade no canto inferior direito é a Covilhã, o casario no canto superior esquerdo é as Penhas da Saúde. A linha rosa é (mais ou menos) a fronteira do Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE).

Esta zona de caça municipal está, portanto, bem dentro do território do PNSE.

Outra zona de caça bem dentro do PNSE é uma perto do Alto de S. Lourenço, no Concelho de Manteigas. Decerto haverá outras de que não tenho conhecimento. Isto, já para não falar das zonas de caça nas fronteiras do parque. Ou do furtivismo.

Zonas de caça, urbanizações, aldeamentos, estâncias de esqui em permanente ampliação (mesmo sem neve), estradas mais ou menos verdes, Voltas a Portugal em bicicleta, acesso rodoviário desordenado e sem restrições, parques eólicos, barragens... O PNSE é, de acordo com algumas leis, a maior área protegida nacional. Mas, na realidade, é protegida de quê, ao certo?

A crítica que obviamente está implícita na questão com que acabei este post não a quero dirigir apenas à direcção do PNSE. É dirigida a todos nós.

Algarvear a Serra da Estrela? Não, obrigado!