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quarta-feira, agosto 03, 2011

Fatalidades e escolhas

Se há lixo na zona da Torre, isso não é uma fatalidade. Se o há é porque nós o quisemos no passado e continuamos a querer. Não fomos obrigados a aceitar os milhares de visitantes que pretendem escorregar em plásticos na neve, nalguns (felizmente poucos) fins de semana por ano. Não, nós incentivámos (e continuamos a incentivar) esse turismo construindo cada vez mais estradas, mais parques de estacionamento, abrindo centros comerciais, cafés, centros de interpretação, restaurantes, restaurando capelas e lançando concursos de ideias para todos os mamarrachos que se vão aguentando na Torre e que ainda não têm função.

Podíamos não ter construído nada na Torre, nem ter aberto a estrada N339 pelo maciço central. Alguém nos obrigou? Não, foi (e continua a ser) uma escolha nossa, e muitíssimo original, diga-se de passagem (que estradas asfaltadas passam pelos pontos mais altos da Gardunha, do Gerês, da Sierra de Gredos, dos Picos da Europa, da Sierra Nevada, dos Pirinéus, dos Alpes, das Scotish Highlands, do Monte Olimpo, etc, etc, etc, etc, etc?). As consequências dessa escolha são isso mesmo, não são uma fatalidade infeliz. São aquilo que nós escolhemos.

Agora que a coisa na Torre está como está, se quiséssemos, podíamos demolir os mamarrachos lá construídos (ou alguns deles, pelo menos), limpar o entulho todo e encerrar ao trânsito rodoviário os 800 m do acesso desde a N339 até à Torre (aqui não falo, portanto, de encerrar ao trânsito a estrada nacional, nem de impedir o acesso à estância de esqui, apenas de fechar aquele troçozito até à Torre). Ou então, podíamos limitar mais o número de viaturas que são autorizadas a subir, naqueles fins de semana caóticos. Mas não é isso que queremos, pois não? Pois bem, como não o é, temos aquilo que escolhemos: engarrafamentos, lixo e ruinas foleiras.

Podíamos ter um turismo com permanências mais longas, com mais bens e serviços a serem comprados pelos visitantes, melhor distribuído por todo o ano, como o que as outras montanhas da Europa oferecem. Mas não, temos nalgumas alturas do ano milhares de visitantes que chegam de manhã e partem à tarde, que não deixam na região senão lixo. Azar o nosso? Infortúnio? Fatalidade? Não. Temos o turismo que escolhemos. Em geral do que falamos quando falamos de turismo? Quase sempre, de novas estradas para as zonas altas da serra; outras vezes, de novos hotéis em altitude, de minicidades, de funiculares, de teleféricos de casinos, de piscinas-spa, de centros de estágio desportivos. Ou seja, quase sempre, quando falamos de turismo, falamos, na verdade, de construir, construir, construir. De encher a serra de entulho e de asfalto. E, quando chegamos a fazer alguma coisa, normalmente, é a dar expressão a esse discurso da construção. Muitas vezes, a coisa não chega a acabar-se, ou é imediatamente abandonada (veja-se o antigo teleférico Piornos-Torre ou a base da força aérea na Torre), restando apenas entulho. Degradamos assim a paisagem com estradas, com urbanizações, com teleféricos (ou com o que continua a restar das suas ruínas), com barragens, com parques eólicos... Mas que turismo é que esperamos desenvolver deste modo, senão o que temos tido? Dadas as escolhas que temos tomado, podemos mesmo espantar-nos por a serra da Estrela estar quase sempre ausente dos roteiros de turismo de natureza e turismo activo, desses que, por esta altura os jornais publicam nos seus suplementos de fim de semana?

Temos o que temos, não por fatalidade, não por azar, não por conjugação adversa de forças cósmicas. Temos o que temos, porque é o que temos que andámos a cultivar nas últimas dezenas de anos. Temos o que temos porque é o que quisemos, é o queremos. E, enquanto continuarmos a insistir no rumo que nos trouxe até aqui, continuaremos a braços com as suas consequências. Não, não se diga que é fatalidade, é antes opção. É, e tem sido nas últimas dezenas de anos, a nossa opção.

sexta-feira, outubro 09, 2009

"A bit of an anticlimax really"

Defini um alerta google para a expressão "serra da Estrela", que me avisa regularmente de páginas de internet onde consta aquela expressão. (Por qualquer razão, não aparecem as páginas que eu próprio escrevo aqui no blog, ou as de outros blogs que regularmente referem a serra, de forma que me parece que acaba por não ter grande utilidade, mas enfim.)

Ontem à hora de jantar, recebi um aviso relativo a um blog onde dois estrangeiros publicaram um artigo sobre um passeio de carro à serra da Estrela. Eis o que dizem sobre a Torre:

"Then we drove up through the Serra da Estrela, making a visit to the Torre, with its redundant observatories. The Torre was a bit of an anticlimax really, as there were no views to be had, and a few shops selling tat for tourists."

"No views to be had", "a few shops selling tat for tourists", e o resto que não viram ou não quiseram referir: os engarrafamentos quando há neve, o lixo espalhado, a musiquinha enlatada com que se acredita que se dá um aspecto jovem e dinâmico. Enfim, como cuidadosamente diz o presidente do ICNB, a "situação menos positiva de alguns edifícios e logradouros". Yes, a bit of an anticlimax, indeed.

Agora imagine-se que na Torre não havia *nenhumas* construções, e que estes visitantes tinham deixado o carro na estrada nacional e subido a pé os oitocentos metros até à Torre. Anticlimax? Duvido muito de que fosse nesse sentido a sua avaliação.

sexta-feira, outubro 02, 2009

Ainda o concurso de ideias para a Torre

Depois de ter escrito o post sobre o concurso de ideias para a zona da Torre, saíram mais algumas notícias a esse respeito, a propósito de umas declarações proferidas pelo presidente do Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade (ICNB), Tito Rosa. Uma dessas notícias foi publicada pelo diário Público a 14 de Setembro e pode ser lida aqui.

Não acho má esta ideia de um concurso de ideias. Concordo que deve haver um processo de análise de propostas, que devem avaliadas por um conjunto alargado de entidades, e que a decisão deve ser transparente. Isto significa que devem ser previamente definidos (e publicitados) objectivos, linhas orientadoras, critérios de decisão, limites orçamentais e que junto com a decisão deve ser publicitada a sua justificação, feita à luz dos ditos objectivos, linhas orientadoras, critérios e limites orçamentais.

Mesmo concordando com esta ideia, tenho algumas reticências:

  • estranho as declarações do presidente do ICNB. Aquilo que ele diz, as razões que invoca para o dito concurso, reflectem uma preocupação com o ambiente na serra da Estrela e, em particular, na zona da Torre? Não será mais uma preocupação de índole turística? É que podemos ler coisas como "acolhimento de qualidade", alusões ao "estado de degradação de algumas estruturas" e diz-se que poderão ser criadas "algumas infraestruturas" (ufa, ainda mais?!). Mas, sobre ambiente, mesmo, apenas generalidades, e muito, muito poucas.
    Esta atenção que o ICNB/PNSE aparentemente dedica a questões menos estritamente ambientais vem, parece-me de longe. Foi o PNSE (ou seja, indirectamente, o ICNB) que pagou as obras que permitiram acolher a venda ambulante que se fazia na Torre no interior de alguns edifícios da antiga base militar, assim criando os centros comerciais que agora existem, foi o PNSE/ICNB que se sentiu obrigado a pagar uma ETAR para tratamento dos esgotos desses edifícios (não sei se esse tratamento já é eficaz, da última vez que soube desse assunto, continuava a correr m**** ao ar livre).
    Francamente, achava mais razoável que o Instituto de Conservação da Natureza concentrasse os recursos que dedica à serra da Estrela mais a conservar a natureza (se considerasse necessário, proibindo até algumas actividades) e menos a promover acolhimento de qualidade, comércio de qualidade, estacionamento em quantidade e mais outras coisas que, a meu ver, não lhe dizem respeito e até lhe complicam a vida.
  • esta declaração de intenção do lançamento de um concurso de ideias vem um ano depois da inauguração do Centro de Interpretação da Torre e de obras numa capela que integrava a base da força aérea. Não tinha sido mais lógico fazer o concurso de ideias antes de serem autorizadas aquelas iniciativas?
  • Diz o presidente do ICNB que "os edifícios actuais serão mantidos e requalificados e poderão ser criadas algumas infra-estrututuras". Das duas uma: ou se encontram utilizações rentáveis o suficiente para que seja vantajosa a ocupação de todos os edifícios, ou alguns deles acabarão por, mais tarde ou mais cedo, ficar ao abandono. Mas edifícios abandonados deterioram-se, degradam-se. Estamos dispostos a um novo concurso de ideias daqui a uns anos, pelas mesmas razões que agora se invocam? Estamos dispostos a um dispêndio periódico (e aposto que será sempre o PNSE a pagar, de acordo com a nossa estranha tradição) para manter edifícios que não são utilizados? Não será melhor, antes, demolir os edifícios que não se considerarem aproveitáveis?
    É a minha vez de utilizar uma palavra com que alguns leitores caracterizam o Cântaro Zangado: porquê este fundamentalismo conservacionista dos edifícios da Torre?

Continuo a achar que a melhor proposta seria a de demolir todos os edifícios da zona da Torre, transformar o acesso asfaltado até à estrada nacional num trilho (poderia até ser pavimentado, para permitir o acesso de pessoas em cadeiras de rodas, por exemplo) e colocar, no actual cruzamento com a estrada nacional, uma placa orientadora com os dizeres "Torre - 800m - 10 min". Isto sim, seria uma verdadeira requalificação, isto sim, seria um verdadeiro passo no desenvolvimento de um turismo de qualidade, isto sim, seria um verdadeiro sinal de real vontade de protecção da natureza.

Se não houvesse edifícios na Torre, não teríamos a "situação menos positiva de alguns edifícios e logradouros" a que se refere Tito Rosa. Se não houvesse edifícios na Torre, não teríamos que inventar o que fazer com eles, não teríamos encargos com a sua conservação, não teríamos lá esgotos polémicos, mas, sobretudo, não teríamos a degradante pouca vergonha que leva *todos* os apreciadores da serra da Estrela que eu conheço a dizer que evitam sempre que podem aquela zona. Que garantia é que estas declarações do presidente do ICNB dão que esta lamentável situação venha a melhorar com o que resultar deste concurso? Nenhuma.

Algarvear a Serra da Estrela? Não, obrigado!