quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Este post não é só sobre a Serra

Vi ontem em DVD o filme "Uma Verdade Inconveniente", um documentário baseado nas conferências que Al Gore, o vice-presidente dos Estados Unidos da América no tempo da administração Clinton, tem apresentado em todo o mundo sobre o aquecimento global. Já tinha lido o livro, há alguns meses. A sensação que tive, nessa altura, mantém-se: não aprendi nada de novo.
Mas, caramba, aprendi de uma nova maneira coisas que já sabia! Este livro e este filme (e estas conferências, imagino) são terrivelmente eficazes a passar a mensagem e por isso acho que são coisas boas.
É verdade que Al Gore é, ao mesmo tempo, muito irritante. Durante os dez anos em que realmente pode mudar alguma coisa, as emissões de CO2 americanas aumentaram muito; parece crer (pelo que aparece no final do vídeo numa série de sugestões sobre "what can you do to help?") que os biocombustíveis são uma coisa boa quando, de facto, apenas servirão para reduzir a produção de alimentos, fazendo aumentar o seu preço (para que os biocombustíveis possam desempenhar um papel relevante a área de terreno agrícola destinada à sua produção tem que se tornar comparável à que é usada na produção de alimentos); aceita dar conferências (como a de Lisboa) destinadas apenas a VIPs; organiza um mega evento (que produziria sempre mega-emissões de gases de efeito de estufa) tipo live-aid para o clima, com concertos em simultâneo na Europa, na América e (sente-se caro leitor) na Antártica (imagino que não se conseguisse lembrar de nada com maior impacto); podia acrescentar aqui uma longa lista de etc's, mas sugiro antes uma consulta ao excelente blog Ondas e às referências que lá se encontram.
Mas enfim, assim como não faz sentido diabolizar o mensageiro das notícias que não nos agradam, também não devemos divinizar os que trabalham (e, neste caso, muitíssimo bem) para divulgar as mensagens que achamos importantes. Uma Verdade Inconveniente é uma forte contribuição para o aparecimento de uma consciência global do problema das alterações climáticas, se bem que há várias verdades inconvenientes acerca de Al Gore, que diminuem a simpatia que, de outro modo, sentiria por ele num plano pessoal.

Já agora que vem a propósito, quero recomendar dois livros que, esses sim, me ensinaram (e muito) sobre o problema do aquecimento global: "Os Senhores do Tempo" por Tim Flanery (Editorial Presença, 2006) e "Heat - How to stop the planet burning", por George Monbiot (não editado em Portugal).

NeveEstrela 2007 - Agora em imagens

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Só mais uma coisinha...

Não quis entrar em pormenores no post anterior, mas não queria deixar a sugestão da criação dos parques de estacionamento assim, sem mais. Diz-se no artigo d'O Interior a que me referia, ainda antes de qualquer referência à regulamentação e condicionamento do acesso rodoviário ao maciço central da Serra da Estrela, que
A criação de dois «grandes parques de estacionamento» na Lagoa Comprida e nos Piornos seriam uma «boa solução que evitaria os congestionamentos»
Discordo. Os condicionamentos de tráfego é que evitam os congestionamentos. Os parques apenas tornam menos desconfortáveis para os visitantes esses condicionamentos. O condicionamento do trânsito, sem parques de estacionamento, quando muito transfere o problema da Torre para a Lagoa Comprida e para os Piornos, mas não cria um novo problema nem agrava o problema que temos. Além disso, em grande medida os engarrafamentos na Torre são causados pelas pessoas que param os caros para brincar na neve. Ora nos Piornos e na Lagoa Comprida é muito menos frequente haver neve, pelo que as pessoas sentirão menos vontade de parar e sair dos seus veículos. Além disso ainda, em vez de um grande problema na Torre, teríamos dois problemas menores (logo, mais facilmente resolúveis), um na Lagoa Comprida, o outro nos Piornos. Com tudo isto, quer-me parecer que, ao transferirmos os engarrafamentos da Torre para cotas menos elevadas, estaremos, também, a reduzir a sua gravidade, mesmo que não se criem dois grandes parques de estacionamento. Mas, caramba, se temos mesmo que construir parques de estacionamento, se forem apenas médios, já é melhor que nada, não? Se calhar, até, já será suficiente... É que os engarrafamentos na Torre só se notam nalguns fins de semana, mas os tais parque de estacionamento, bem como os seus impactos, far-se-ão sentir todo o ano...
Na minha opinião, devíamos fazer estudos e experiências (mas comecemos com pequenas experiências, em vez de grandes parques de estacionamento). Mas temos mesmo é que ter vontade de resolver o problema! O Cântaro Zangado fica genuinamente contente por ver o director do Parque Natural da Serra da Estrela dar clara mostra disso.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Condicionar o tráfego? Sim, sff!

Há dias, O Interior publicou declarações do director do Parque Natural da Serra da Estrela, Fernando Matos, sobre o problema dos congestionamentos de tráfego na zona da Torre em certos fins de semana e sobre como o resolver.

Há várias maneiras de abordar esta questão. Eu costumo afirmar que, se não houvesse a estrada nacional N339, que atravessa o maciço central, não haveria problema. Nem engarrafamentos, nem protestos por falta de acessibilidades, nem lixo na zona. Ou seja, o problema dos acessos, quanto a mim, é causado pela existência desses mesmos acessos. E, para apoiar o que digo, constato que não se ouvem vozes reclamantes pela falta de acessos asfaltados (ou de telecabines) ao cimo da Sierra de Gredos, da Serra da Gardunha, da Sierra Nevada, do Ben Nevis, do Mont Blanc, do Monte Perdido, etc, etc, etc. Acredito sinceramente que é a estrada nacional N339 a causadora dos problemas mais graves da Serra da Estrela. Mas não me parece que seja um grande radical por isso. Sou contra a estrada e acho que ficávamos melhor sem ela (em todos os aspectos, começando pelo turístico), mas compreendo que não se queira encerrá-la, agora que ela existe, e apoio medidas que atenuem o problema, mesmo que não o resolvam na totalidade a meu gosto.

Tentemos então abordar esta questão por outro ângulo, um em que a Torre se considera núcleo de lazer, com o significado que a essa expressão se costuma dar: um local onde as pessoas podem chegar confortavelmente e onde podem fazer aquilo que se costuma chamar turismo: e tal, umas voltinhas por lojas, e tal um retrato, e tal... Mmmm, que outras interessantíssimas, inesquecíveis experiências e actividades constituem aquilo que se costuma, por cá, chamar turismo de montanha? (Desculpem, estou a ser mauzinho. Continuemos.)

A questão é que não é possível (e se o fosse, não seria desejável) resolver o problema dos congestionamentos na Torre mantendo a possibilidade de nela se ajuntarem as multidões que lá se concentram nas alturas críticas. Logo, o acesso à Torre deve ser, de algum modo, regulado, até para que o local possa continuar a ser um núcleo de lazer, coisa de que muitos já duvidam. Ou seja, fazem todo o sentido propostas de condicionamento do acesso ao maciço central como as agora sugeridas por Fernando Matos. Aliás, sugestões na mesma linha foram já avançadas por Lemos dos Santos (Coordenador da Acção Integrada de Base Territorial da Serra da Estrela, ver o blog do programa PETUR), por Jorge Patrão (presidente da Região de Turismo da Serra da Estrela, ver um artigo do Notícias da Covilhã, 2 de Dezembro de 2005, pág. 14, que comentei aqui) e por outras personalidades destacadas.

É relativamente simples condicionar o acesso à Torre. A GNR dispõe de uma força permanente no maciço central e as vias de entrada já estão dotadas de cancelas, ou seja, as estruturas e os meios já estão instalados. Decidindo-se as autoridades pelo condicionamento, só falta definir os detalhes: proibe-se o tráfego incondicionalmente, ou em função do número de viaturas já presentes no maciço central? Proibe-se o tráfego totalmente ou limita-se apenas o tempo de permanência na zona crítica? Disponibilizam-se meios alternativos de transporte (podendo aqui considerar-se também as telecabines) ou não? No caso de se permitir a entrada, condicionada ou não, cobram-se portagens? Criam-se mais lugares de estacionamento? Posso alinhavar rapidamente argumentos contra e a favor de qualquer das possibilidades que aqui levantei. As respostas que damos a estas perguntas são importantes, mas já estamos a tratar da regulamentação detalhada da iniciativa. De pormenores, portanto. Nada impede, até, que se comece com um dado formato e que se vá afinando, melhorando, ajustando às necessidades esse formato. O que não faz sentido é continuarmos, ano após ano após ano, a dizer que isto assim não pode ser, que temos que resolver o grave problema dos congestionamentos, que há que pôr cobro à degradação vergonhosa que se verifica naquele espaço de excelência, e ano após ano após ano a nada fazer...

Porque é assim que, ano após ano após ano, temos andado, coloca-se, de facto, outra questão: quereremos, mesmo, resolver este problema? Como já disse, muitas vozes têm sugerido o condicionamento do acesso rodoviário à Torre para evitar o circo degradante que lá se monta em certos dias. Infelizmente, muitas vezes (e os dois nomes - Lemos dos Santos e Jorge Patrão - que citei acima são bons exemplos), ao mesmo tempo que se defendem genericamente medidas de condicionamento do tráfego, apoiam-se medidas concretas de liberalização desse mesmo tráfego, como são as asfaltações de novas estradas (como a estrada de S. Bento entre a Portela do Arão e a Lagoa Comprida, recentemente inaugurada, o prometido e já começado acesso Unhais da Serra - Nave de Sto António ou a incrivelmente baptizada Estrada Verde [exemplo acabado de green-wash saloio] entre a Guarda e o planalto central, ainda em estudo). Ou então faz-se depender a resolução do problema do tráfego na Torre da abertura de novas acessibilidades ao litoral como a IP6 ou os túneis sob a Serra, coisa que não se afigura viável nas próximas dezenas de anos. Francamente, acho que estas posições são mistificações. Temos um problema que se arrasta há já alguns anos; vamos esperar vinte anos ou mais para o resolver? Vamos complicá-lo mais ainda com ainda mais estradas que será necessário condicionar?

Não é um pouco desta atitude que transparece no artigo do Interior que motivou esta minha longuíssima arenga? Ainda antes de se falar em quaisquer restrições ao tráfego, lá vem a condicionantezinha:

A criação de dois «grandes parques de estacionamento» na Lagoa Comprida e nos Piornos seriam uma «boa solução que evitaria os congestionamentos»

Neve Estrela 2007 - "Presente"

Depois de alguns anos a tentar ir ao NeveEstrela sem sucesso este ano lá consegui "dizer presente" neste importante evento de montanha! Quando chegámos havia alguma neve e nevava em altitude (>1500m) o que já dava para consolar o olhar! Mas, este ano o NeveEstrela era mais do que as habituais caminhadas e convivio entre os participantes. Por um lado a ASE celebrava os seus XXV anos de existência com um jantar para o qual tive o prazer de ser convidado e por outro a organisação do NeveEstrela decidiu, este ano, promover duas actividades de valorização directa da Serra da Estrela:

-Plantação de 8 centenas de carvalhos

-Construção de uma ponte sobre a ribeira da Candeeira para passagem de caminhantes, pastores e gado.

Este tipo de actividades atrai-me bastante pois além do contributo para a melhoria das condições locais promove o espirito de grupo e a comunicação entre desconhecidos (muito pouco praticada no dia a dia de cada um e com consequências graves, na minha opinião, nas relações humanas tanto a nivel laboral como social!).

Neste evento participam pessoas das mais variadas origens e das mais variadas idades. É provavelmente uma das caracteristicas que o tornam único em Portugal e com uma participação tão elevada. Mas voltando às actividades, existe oferta para todos os gostos desde uma grande caminhada com "pernoita" a actividades de um dia com dificuldades várias.
No meu caso, escolhi a actividade que incluía a montagem da ponte (em ferro e madeira), actividade esta que acabou por ser mais cansativa do que o esperado. Mais de 50 ou 60 participantes optaram por este passeio. Lá partimos em direcção à candeeira cada um com um pedaço (literalmente) da ponte!É que esta era constituida por 20 ou 30 secções que seriam depois encaixadas no futuro local de implantação. O dia estava excelente e após uma breve pausa nas "Candeeirinhas" cedo chegámos ao Vale da Candeeira. A ponte lá foi montada com alguns problemas técnicos pelo caminho (algumas peças não encaixavam!!) que foram resolvidos com engenho e arte.
Entretanto, como eramos muitos, alguns foram plantado carvalhos na encosta do vale. No fim deste trabalho atravessámos todos a ponte para a "testar" e seguimos em direcção ao Vale do Zêzere. Após ultrapassado um passo delicado (chamado por alguns "o altar") descemos ao Zêzere e regressámos ao covão da Ametade pelo trilho que sobe o vale - é realmente fantástico ver aquela moreia que separava antigos glaciares de tão perto e não de carro!

Regressados ao covão foi aproveitar a luz do dia para fazer o jantar na companhia dos amigos recem criados durante a caminhada!E que jantar!!Quando me preparava para comer a minha massa chinesa, estes amigos (Bombeiros sapadores de Lisboa) presentearam-me com um belo arroz "de pedra", ou seja tinha tudo e mais alguma coisa lá dentro!Excelente!! Depois de uma boa noite de sono iniciámos o 2º dia com o plantio dos carvalhos que ainda faltavam até ao numero 800, desta feita nas encostas do covão da Ametade.
Infelizmente além de plantarmos tambem "colhemos" uma quantidade enorme de lixo!!Em zonas onde não lembra ao "careca" (perdoe-me os carecas mas é apenas uma expressão)!Por favor tenham cuidado com todo o lixo que fazem!! De preferência levem-no de volta para casa porque apesar de haverem alguns contentores no local, estes são frequentemente tombados e "assaltados" pelo vento e por animais! Além disso como devem imaginar a recolha destes contentores não é diária e pôr mais veiculos pesados a atravessar a serra só para recolher este lixo é um contrasenso, não?!

Neste dia, o tempo estava a piorar por isso já não havia condições para fazer uma caminhada com o que restava das horas de luz. O meu comparsa Luis e eu optamos então por fazer uma "missão de observação" à zona da Torre e estância em busca de situações que necessitassem de ser denunciadas. Foi nessa altura que filmei o pequeno video apresentado no Cântaro há alguns dias. Bom, mas por aqui não me vou alongar porque nada tem a ver com o espirito que vivi durante 3 dias no Neve Estrela.

Deste ano fica uma grande vontade de voltar para o próximo Neve Estrela que celebrará em 2008 a sua XXV edição com novidades e reformulações prometidas pela organisação. E por falar em organisação gostaria de realçar que este evento é promovido em conjunto pelo CMG e ASE desde o inicio sendo um excelente exemplo de cooperação entre associações que devia ser seguido por outros por forma a potenciar as modalidades de montanha. Deste ano ficou tambem uma grande esperança na comunidade de montanhistas enquanto membros participativos e interessados em ajudar a conservar a nossa Serra e promover um tipo de lazer adequado a esta região!
Ficaram então com o meu relato, escrito, das minhas impressões do Neve Estrela deste ano.
Em breve colocarei algumas fotografias que por libertas que estão dos condicionalismos linguisticos transmitirão, bem melhor do que eu, a beleza e o interesse das paisagens e deste evento. Espero, então ter despertado no leitor a vontade de descobrir este evento no próximo ano...

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

(triste)Carnaval na Torre


Este video foi realizado na passada segunda-feira (19-02-07) e mostra o triste espectáculo que se vive no ponto mais alto do Parque Natural da Serra da Estrela por alturas do Carnaval! A verdade é que espectáculos semelhantes se vivem em quase todos os fins de semana de Inverno onde exista neve "qb" para o "sku" e as estradas estejam abertas. Como podem vêr o ambiente é extremamente Natural e qualquer pessoa diria que estamos numa zona protegida ao abrigo de 4 estatutos!!Estou a ser irónico, obviamente! Na verdade, com o nevoeiro que estava era muito facil confundir aquele local com a zona da Expo em hora de ponta e dia de espectaculo. Infelizmente, todo este ambiente (até me custa usar esta palavra neste contexto) só atrai visitantes que não tem um real interesse em conhecer a Serra como ela é mas sim pelo "parque multi-diversões" que ela pode ser, acessivel a todos num estilo urbano de rápido consumo onde tudo se pode ver e comprar.
Na minha opinião, são este tipo de visitantes que não tem qualquer problema em abandonar o material que acabaram de utilizar para "skuar" ou a bandeirinha que o stand da "Milka" andava a distribuir às centenas. São estes os visitantes que que de facto não se importam de esperar 1hora na fila de transito para dar uma voltinha na rotunda da Torre e 20 minutos depois voltar para baixo e seguir para casa. E é o ambiente criado por todos estes visitantes e pelo comércio presente na Torre que afasta aqueles que querem conhecer a Serra como ela é e não pelo potencial "produto" turistico em que ela pode ser transformada.
E não é só a música pimba aos berros e a fancaria que me incomodam neste cenário. Incomoda-me também a quantidade de carros que passam pela Torre em dias como estes! Dei-me ao trabalho de ficar 10 minutos (cronometrados)na rotunda da Torre em frente ao stand da "Milka" e contei todos os carros que ali passaram nesse intervalo de tempo! 100, foram 100 os carros que ali passaram em 10 minutos. Ou seja, 600carros/hora ou 3000 carros/dia se considerarmos um dia útil de 5 horas!! Isto é o mesmo que estarmos a despejar 400 Kg de CO2 num dia, considerando apenas a pequena área da Torre!
Digam-me sinceramente, haverá alguém que considere este cenário benéfico para a Serra da Estrela?Ou mesmo para as suas gentes? Será este o cenário que queremos ver alargar para o resto da Serra com a possivel construção de Casinos em altitude ou outros polos de atracção de multidões...? Para mim NÃO! Este é o tipo de ambiente que eu gostaria de ter na Torre quando a visitasse:

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Prioridade ao que é importante

Há tempos, questionava-me (ver aqui) se teria sido o mau tempo ou obras de upgrade informativo a razão para a ruina do outdoor que mostro na figura acima, agora já reparado (fotografia tirada ontem, terça-feira dia 21 de Fevereiro). Pelos vistos, uma vez que o conteúdo não mudou, foi o mau tempo.
Temos que elogiar a capacidade de resposta da Câmara Municipal da Covilhã. Uma autarquia menos eficiente poderia deixar passar o tempo sem concertar o outdoor. Já viram? Tantos turistas que não seriam informados da importantíssima mensagem

CÂMARA MUNICIPAL DA COVILHÃ

ALDEIA DE MONTANHA

ESTÁ A NASCER AQUI

As más línguas podem resmungar que, com a profusão de postes de iluminação, de cabos suspensos, de arruamentos aslfaltados à la autoroute, de outdoors rascas e de caixotes do lixo desenquadrados, com tudo isso de que a imagem acima dá uma ideia, a aldeia de montanha que aqui está a nascer não interessará nem ao menino Jesus... Mas as más línguas, já se sabe, têm sempre que dizer mal de tudo, não é? Até do que, de facto, não presta!

Iniciação à escalada desportiva

Chegou-me a informação de que a Adriventura e a Loja do Mequito, duas empresas da Covilhã, oferecem (a quem o pagar, bem entendido) um curso de iniciação à escalada desportiva. Veja todas as informações aqui.
Já há alguns anos que não dava conta da realização de cursos de escalada em rocha na Covilhã (o que não quer dizer que não se tenham realizado). Também por isso, alegra-me este.

Já agora, a escalada desportiva é a que se pratica em paredes artificiais ou em rocha natural previamente dotada de equipamento de segurança. É um passo natural na aprendizagem da escalada em geral. Há na Serra da Estrela muitas paredes onde se pode praticar a escalada desportiva, com níveis de dificuldade muito variados.

Isto é publicidade, claro, mas não é paga.

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

O Sexo dos Anjos

26 de Maio de 1858, Forte de Whalla-Whalla, Estado de Washington
Jacques Lafitte, um caçador da região que frequentemente colabora com os militares, acaba de dar entrada no forte. Esgotado ele e o seu cavalo, ferido com alguma seriedade, a sua indumentária apresenta as marcas de combates corpo a corpo e de uma semana correndo a mata-cavalos por território hostil.
Os homens de serviço na guarnição do forte, bem como as famílias de colonos que ali estão estacionadas numa pausa do seu trânsito para leste, para o interior, perguntam-se, inquietos, o que se terá passado. Enfim, não custa muito perceber que terá ocorrido mais alguma escaramuça com os pele-vermelhas. Apesar dos ferimentos e do cansaço, Jaques Lafitte vai contando o que se passou, entrecortando o seu inglês com forte sotaque, aprendido nestas ermas paragens, com o francês em que foi criado ainda na longínqua Europa, encorajadas as suas confidências por uma audiência que se vai avolumando.
— Os selvagens mataram-nos a todos! Não escapou nenhum! Estava eu na minha ronda das armadilhas quando os encontrei. Os corpos dos cento e tal homens com que o coronel Edward J. Steptoe saiu há duas semanas para castigar os peles vermelhas pelos ataques às quintas isoladas. Todos chacinados. E tive muita sorte! Enquanto por ali procurava algum miraculosamente afortunado sobrevivente, um tomahawk lançado de perto atingiu-me de raspão na testa! Apenas tive tempo de desembainhar a minha machete enquanto rodava, abrindo no mesmo movimento a barriga do selvagem que se lançava sobre mim de punhal em riste. Nem vi se o tinha despachado, montei o Trovão e vim a galope para Walla-Walla. Cinco selvagens perseguiram-me a meio dia de distância, estava a ver que me apanhavam! A coisa está má, as tribos Yakama, Palouse, Spokane e Coeur d'Alene uniram-se e estamos todos tramados!
Passados alguns minutos, Jacques Lafitte foi levado à presença do comandante do Forte, o coronel George Wright. Enquanto ouvia o relato do caçador, o coronel não deixou passar nenhuma oportunidade de demonstrar a sua contrariedade, com movimentos sobre a sua cadeira, com pigarreares, com bufares e outros esgares, mas ouviu o caçador e guia até ao fim. Em seguida ergue-se e, tentando controlar a fúria sem contudo o conseguir completamente, dirigiu-se ao estafado mensageiro nestes termos:
— O senhor não tem vergonha de se apresentar perante um oficial nesse lamentável estado?! Ainda pior, quem é que o senhor pensa que é, a espalhar por aí, aos quatro ventos, informações duvidosas que devia ter-me fornecido, a mim em primeiro lugar?! Desapareça-me da frente, homem! Lave-se, vista-se apropriadadmente e apresente-me um relatório por escrito, perfeitamente circunstanciado. Só então aceitarei o seu relato oral e apenas se o pronunciar em inglês de gente, seu franciu de m***. Dismiss! Imediato, tire-me este monte de bosta da frente!
O que faz esta historieta (inventada) num blogue sobre a Serra da Estrela? O seguinte: o meu amigo Cova Juliana tem denunciado no seu blogue Estrela no seu melhor situações vergonhosas, lamentavelmente demonstrativas da falta de cuidado com que fingimos proteger o ambiente no território do Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE). Quando ele mostrou a vergonha do esgoto a céu aberto na Torre, Fernando Matos (director do parque) questionou a legitimidade da denúncia com a frase "Não houve tanto barulho quando a Torre não tinha ETAR". Mais recentemente, quando mostrou a vergonha do esgoto a céu aberto na estrada para a Rosa Negra, o director da Águas da Covilhã e um jornalista que cobriu a história estranharam que a denúncia não tenha sido feita pelos canais apropriados. Mais recentemente ainda, no próprio blog, um leitor questionou o bom-gosto formal das denúncias.
O que o Cova Juliana denuncia é tão grave que apontar a eventual falta de gosto com que o faz, ou a inadequação da forma ou dos canais escolhidos, é absurdo. Tão absurdo o é como a romanceada resposta do coronel Wright ao depoimento do romanceado Jacques Lafitte.
Desculpem lá, discutam essas minudências evidentemente secundárias quando já não houver tão gritantes razões de queixa, pode ser?

Reza uma lenda popular (que não posso assegurar corresponda à verdade histórica) que em 1543, na iminência da tomada da capital, Bizâncio, do Império Romano do Oriente pelos turcos (acontecimento de tamanha importância que se convencionou com ele marcar o fim da Idade Média), se terá reunido na Catedral de Santa Sofia (na própia Bizâncio, portanto) um concílio de sábios eclesiásticos com o objectivo de dar resposta a importantíssimas, relevantíssimas e actualíssimas questões como qual seria o sexo dos anjos e quantas destas celestiais entidades caberiam na ponta de um alfinete. Eu acho que o título que escolhi para este artigo não podia ser mais apropriado.

Nota: A historieta foi inventada, mas tem algum suporte na realidade. O forte Walla-Walla existe mesmo, no Estado de Washington (no noroeste dos Estados Unidos). A 17 e 18 de Maio de 1858, um destacamento de cento e sessenta homens chefiado pelo coronel Edward J. Steptoe foi, de facto, chacinado por índios de várias tribos, culminando uma série de escaramuças a que se chamou as guerras Yakama. Em resposta a esta ofensa, o coronel George Wright foi enviado com um grupo maior e melhor armado de soldados, que venceram os índios na Batalha dos Quatro Lagos. Esta batalha foi decisiva, tendo com ela terminado as guerras Yakama. Só tive que inventar o Jacques Lafitte.
As coisas que não se aprendem na Wikipédia! É tão fácil que qualquer aprendiz pode escrever um romance histórico. Aliás, o conteúdo das montras das livrarias hoje em dia sugere que, muito possivelmente, quase todos os aprendizes o fazem...

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Bom fim de semana!

Nevestrela!)

Será sina nossa?

Acho que a zona da Torre estaria muito, mas muito melhor, se não se tivesse construído aquela estação de radar da Força Aérea (aliás, creio que o facto de ter funcionado durante pouco mais do que 15 anos dá uma ideia da suma importância que teve), ou se não a tivessemos rasgado com a estrada Seia-Covilhã. Acho que a zona teria agora valores e potenciais muito superiores, turistica e ambientalmente falando.
Admitindo que a estação de radar era, há quarenta anos, mesmo imprescindível, os acessos que se abriram para a sua construção e para a sua servidão deviam ter-se limitado ao mínimo indispensável, ou seja, a uma estrada militar, pelo lado de Seia, de Manteigas ou da Covilhã, nunca uma via de atravessamento como a que acabou por ser construída.
Admitindo que era necessária uma estrada que atravessasse o cume da Serra da da Estrela, devia-se ter tido o cuidado de a integrar bem na paisagem. Que essa preocupação não existiu nota-se claramente, por exemplo, no Covão do Boi, junto da Senhora dos Pastorinhos, só para dar um de muitos exemplos. E a estrada devia ter sido classificada com a menor categoria possível, ou seja, como estrada intermunicipal ou menos ainda. Em vez disso, classificámo-la como estrada nacional! Será aos deuses que devemos agradecer não ter ainda sido requalificada como autoestrada(1)?
Tendo em mente o desenvolvimento de um turismo de montanha de qualidade, sustentável e ambientalmente orientado, por um lado e, por outro, as preocupações de conservação do ambiente e da paisagem que não podemos desprezar(2), o destino a dar às construções da Torre quando a sua função militar terminou devia ter sido a demolição e remoção do entulho. Mas não. Turistrela e Região de Turismo planeiam restaurantes, hotéis e (ele há sempre muita criatividade para inventar nomes catitas) "observatórios panorâmicos"! Como se a paisagem que se pode apreciar da Torre, situada como está no centro de um planalto extenso, fosse digna de nota!
Uma das poucas decisões louváveis tomadas na gestão da Serra da Estrela foi a da demolição e remoção dos vestígios do falhado projecto do teleférico Piornos-Torre. Pois mesmo essa decisão ficou a meio, como se vê pela resistente presença do mamarracho que é a ruína da estação inferior do dito teleférico, uma espécie de coroa da vergonha da Nave de Santo António (ilustrada na figura no cimo deste artigo). O projecto anunciado é o de transformar este mono numa piscina/spa, como a Caldeia, em Andorra-a-Velha, dizem responsáveis da Turistrela. Mas não se percebe esta comparação quando recordamos que Andorra-a-Velha é uma cidade, aliás, é a capital do principado, e a Caldeia está no interior, bem no interior, do seu tecido urbano (e nem assim deixa de ser um mono horrível, na minha opinião), ao contrário do que acontece com o nosso degradante mamarracho. Ainda por cima, apesar do seu monumental falhanço, o pesadelo do teleférico parece ter renascido das cinzas do fogo em que, pensávamos, se tinha consumido junto com certos voluntarismos das forças vivaças da região, já que um novo projecto (mas agora chama-se à coisa telecabine), entre os Piornos(3) e a Torre, foi contemplado pelo programa PITER.

Face a tudo isto, e face ainda a outras situações que é demasiado deprimente enumerar exaustivamente, as perguntas que mais frequentemente me faço são: porque raio é que escolhemos sempre fazer o pior possível, da pior maneira possível? Porque será que, mesmo quando decidimos fazer coisas boas, as deixamos a meio?
Será sina nossa não aprendermos nada de nada, e continuarmos a pensar o futuro à luz dos piores paradigmas do passado?

Notas:
(1) Mas já se têm ouvido vozes a exigir a duplicação do número de faixas de rodagem na N-339 (que atravessa a Torre), medida obviamente indispensável para o desenvolvimento do turismo na região! [Voltar ao texto.]

(2) Não porque eu assim o determino, mas porque o governo da república com elas se empenhou face à União Europeia, quando se decretou a Serra da Estrela reserva biogenética e Sítio Natura 2000 — aliás, por esta última classificação foi José Sócrates, como ministro do ambiente, o responsável — e, já em 2006, quando as lagoas do maciço central ficaram sob a alçada da Convenção Ramsar. [Voltar ao texto.]

(3) Ou o Covão do Ferro, ou as Penhas da Saúde; o local da estação inferior da coisa vai variando, ao sabor do tempo e das conveniências e cargo administrativo do anunciante. Bah, são detalhes sem importância, pelos vistos irrelevantes para a decisão de financiamento pelo PITER! [Voltar ao texto.]

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

A não perder

O editorial de Fevereiro do web site da Associação Desnível. Escrito pelo comparsa TPais.

Pré-aviso da Primavera

acafrao

Açafrão (fotografado ontem, perto da Pedra do Urso)

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Geneto, Janeto, Gineta, ou lá o que diabo é

Genetta genetta

Foi um bicharoco mais ou menos como este (não é espectacular?) que foi posto em liberdade no passado dia 9 de Fevereiro, perto de Vinhó (concelho de Gouveia). Referi este acontecimento há dias, neste post. Podem ver-se fotografias do evento aqui. Gosto em particular daquela em que se vê uma onda acastanhada a saltar da gaiola para a liberdade.
Encontrei a imagem que ilustra este post numa página da Animal Diversity Web do Museu de Zoologia da Universidade do Michigan.

"Um pouco dos Alpes"

O jornalista Pedro Garcias escreveu um artigo de promoção sobre a Serra da Estrela, que foi publicado no suplemento Fugas do Público de Sábado, dia 10 de Fevereiro. Já sabemos como são estes artigos: e tal, paisagens arrebatadoras, e tal, a simpatia das populações, e tal, a boa mesa, o aconchego da lareira, etc, etc, etc. Apesar de não fugir muito a esta regra, um pouco de realidade parece ter infectado este artigo. A páginas tantas, numa secção com o curioso título "Um pouco dos Alpes", pode ler-se:
A serra da Estrela está longe de poder competir com a generalidade das estâncias europeias. A área esquiável é de apenas 6200 metros, divididos por nove pistas de diferentes graus de dificuldade, mas as condições existentes são perfeitas para os iniciados e aos esquiadores mais exigentes permitem, pelo menos, matar o vício. A Estrela tem ainda a vantagem de ser acessível de carro. É o que se pode chamar uma estância popular.
O reverso é o caos automobilístico, o lixo e a sensação de que não se chega a estar verdadeiramente em comunhão com a natureza, tamanha é a algazarra, sobretudo ao fim de semana.
Vou passar por alto o exagero da variadade dos graus de dificuldade (variam entre o trivial e o mediano, mesmo que estejam classificadas com a gama completa do código de cores usual) e das condições existentes perfeitas para iniciados.
Quero é notar como o segundo parágrafo do excerto que cito é absolutamente devastador para uma imagem vendável da Serra da Estrela. E se nos recordarmos que aquela área está supostamente protegida por três estatutos de protecção ambiental nacionais e europeus (Parque Natural, Reserva Biogenética e Rede Natura 2000) e que as linhas de água e as lagoas da região foram em 2006 integradas na Convenção Ramsar de protecção de zonas húmidas, então...
Como já disse, o cume da Estrela podia ser um local mágico. Sem estradas, sem mamarrachos. Os turistas desejariam fazer na Serra da Estrela o que fazem nas outras serras: subir a pé, a cavalo ou de burro. Planear visitas com duração de uma semana ou mais.
Mas parece que continuamos a preferir o que temos: visitas toca e foge e "o caos automobilístico, o lixo e a sensação de que não se chega a estar verdadeiramente em comunhão com a natureza, tamanha é a algazarra."
Estamos no bom caminho, como sempre! Estamos de parabéns, como sempre!

E vai daí...

Pensando bem, nalgumas coisas podemos algarvear um bocadinho a Serra da Estrela...

Até já temos muito trabalho feito: a Inatel criou a Rota das Aldeias Históricas, também conhecida como GR22, que dá a volta toda à Serra da Estrela atravessando as localidades de Almeida, Castelo Mendo, Sortelha, Monsanto, Idanha-a-Velha, Castelo Novo, Piódão, Linhares, Marialva e Castelo Rodrigo. Vá a Carta do Lazer das Aldeias Históricas. E temos também a rede de grandes rotas do Parque Natural da Serra da Estrela. Para começar, não estamos nada mal servidos.
Naa... Turismo na Serra da Estrela é na Torre, claro! Deixem lá, estava a devanear...

domingo, fevereiro 11, 2007

A mística da foleirice

Não sei se ainda o fazem, mas há uns anos havia uma lojeca do degradante centro comercial da Torre que passava certificados de cume. "Por este se atesta que Fulano de Tal, a dias assim e assado pelas tantas horas, atingiu o ponto mais elevado de Portugal Continental", qualquer coisa como isto era o que se podia ler no papelucho.
Pouco importava que o senhor Fulano de Tal tivesse "atingido o cume" integrado numa excursão chegada de Alguidares de Baixo(*). Desde que pagasse, levava o "atestado".

Ainda melhor, no início dos anos noventa foi instalada no mesmo centro comercial uma cabine telefónica, daquelas de moedas, com uma cavidade de plástico (chamava-se àquilo, na altura, um "orelhão") para isolar os seus utilizadores do ruído circundante. Pois fez-se uma cerimónia de inauguração, com direito a presença de um elemento do governo e tudo, só já não me lembro se seria ministro ou apenas secretário de estado. E descerrou-se uma placa comemorativa, que dizia qualquer coisa como

Este importante meio de telecomunicações foi inaugurado a tantos do tal, na presença de Sua Excelência o senhor Secretário de Estado[?]/Ministro[?] Fulano de Tal(+)
Alguns anos mais tarde, num assomo de razoabilidade (ou de vergonha?) a placa foi retirada.

Só lamento nunca ter fotografado estas autênticas pérolas da foleirice.

A Região de Turismo e a Turistrela podem "requalificar" (ou lá como é que chamam àquilo que fazem) o que quiserem, mas enquanto houver na Torre aquele montão de poucas vergonhas arquitectónicas, enquanto a Torre puder ser tão facilmente visitada de automóvel ou por outro confortável meio qualquer, pérolas como estas continuarão a ser os verdadeiros símbolos da mística deste lugar que podia ser mágico.

(*) Espero sinceramente que não exista nenhuma terra com este nome...
(+) Terá o ministro/secretário de estado levado o seu certificado de cume?

P.S.: se algum leitor dispuser de fotografias daquela placa comemorativa, eu agradeceria imenso que mas fizesse chegar. Gostava muito de as poder publicar aqui no Cântaro Zangado.

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Bom fim de semana!

O janeto

Um amigo da Associação Distrital dos Agricultores da Guarda disse-me que hoje tinha sido libertado um janeto que ele tinha encontrado ferido e entregue ao cuidado do veterinário do Parque Natural da Serra da Estrela. A "cerimónia" teve lugar na Escola Primária de Vinhó (Gouveia).
O mais interessante é o local onde o bicho foi encontrado: a meio da ponte que separa as freguesias de Moimenta e Vinhó. Do lado de Vinhó, à saída da ponte, encontra-se uma placa indicando zona de caça associativa; do lado de Moimenta, outra placa indica zona de caça municipal. O desgraçado janeto foi atropelado no único local das redondezas onde estava a salvo dos caçadores (dos que cumprem a lei, pelo menos).
É quase caso para dizer que o que tem que ser tem muita força...

Sabia que...

...existe uma mini-hídrica a funcionar no Vale Glaciar do Zêzere?
Eu não gosto de pré-formatar as ideias de ninguém e muito menos que me acusem de tal, por isso, desta vez opto por expôr este artigo que saiu na revista "Ingenium" sobre a mini-hídrica existente no vale do Zêzere sem, para já, tecer qualquer comentário ao seu conteúdo. Gostaria apenas que o lêssem e se assim desejarem o comentássem aqui no Cântaro!

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Os túneis

Outro assunto de que se falou recentemente foi o apelo à construção dos túneis sob a Serra da Estrela, feito pelo presidente da Câmara de Manteigas, José Manuel Biscaia. Pode ler sobre isto, por exemplo, no Kaminhos. Neste texto (e nos que deram a mesma notícia noutros órgãos de comunicação social), podemos ler que José Manuel Biscaia entende os túneis como "fundamentais para o desenvolvimento da região serrana, já que evitariam a actual travessia do maciço central" e, logo a seguir,
O concelho de Manteigas situa-se em pleno coração da Serra da Estrela, mas o autarca apontou que "é aquele que menos capacidade tem para entrar na serra", referindo que as duas ligações rodoviárias para Piornos (ER 338) e Gouveia (EN 232) se encontram degradadas.
"A estrada para a Serra [Estrada Regional 338 que liga Manteigas a Piornos] não se pode alargar, porque estamos a estragar o vale [do Zêzere]. A única solução para todo este espaço é construir o túnel", defendeu.
Eu não percebo como é que um túnel sob a Estrela pode dar acesso ao maciço central e, se o der, como é que pode evitar a "actual travessia" do mesmo maciço central.

A Associação Cultural Amigos da Serra da Estrela (ASE) já fez saber que não concorda com a construção dos túneis, em grande medida por razões de qualidade ambiental e de vida no concelho de Manteigas (veja, por exemplo, aqui).

Lições de Alcochete

A TSF dá hoje notícia de queixas que os comerciantes do Freeport de Alcochete (o maior centro comercial "outlet" da Europa) fazem da administração do centro por esta não fazer o necessário na promoção. Segundo eles, essa alegada deficiência contribuiu para uma diminuição de 25% do número de visitantes no último ano e põe em causa a viabilidade económica do projecto.
O que é que isto tem que ver com a Serra da Estrela? Tem que, como se vê, não basta despejar milhões de euros num projecto voluntarioso, num projecto âncora (como se costuma dizer), para o votar ao sucesso. Mais concretamente, não acredito que haja milhões suficentes para fazer dos planeados centros comerciais das Penhas da Saúde um sucesso económico. Mas não são precisos muitos milhões para degradar ainda mais a zona. Ou seja, mais vale ficar quieto.
É melhor fazer bem do que não fazer nada, mas é melhor não fazer nada do que fazer mal. E fazer bem, na Serra, significa não construir, ou construir muito pouco. Pelo ambiente, é claro, mas também pelo turismo.

Venham mais trinta!

Isto já não é novidade mas paciência, mais vale tarde que nunca. A Turistrela anunciou a intenção de construir trinta chalés nos próximos dois anos, na zona do Skiparque do Sameiro, Manteigas. O projecto, em parceria com a empresa de construção Certar, está orçamentado em três milhões de contos. Pode ler tudo neste artigo do Diário XXI de 31 de Janeiro.
Sou só eu que quase consigo ler qualquer coisa nas entrelinhas desta notícia, qualquer coisa relacionada com esta outra, publicada pelo semanário O Interior alguns dias antes, apenas?

Ainda bem!

A Águas da Covilhã (AdC), confrontada com questões sobre a existência da "cloaca" que o blog Estrela no Seu melhor denunciou aqui (divulguei esta denúncia mesmo aqui em baixo), afirmou que iria imediatamente reparar a avaria. Isto mesmo foi noticiado pelo Diário XXI (mas a link para a versão online do artigo parece estar avariada, apenas se consegue o acesso à parte inicial do texto) de hoje.
Pois ainda bem! Resta-me agradecer à AdC a rapidez da decisão e fazer votos para que o entulho resultante da reparação não seja abandonado no local.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Mais uma cloaca

O Estrela no seu melhor faz hoje uma nova denúncia de mais uma (ainda mais uma) pouca vergonha na Serra, desta vez situada sobre o caminho para a Rosa Negra, nos arredores da Covilhã. Vá lá ver.

Só me ocorre dizer: apostem no turismo, senhores! Venham muitos, muitos milhões de euros! Façam-se minicidades, urbanizações, "observatórios panorâmicos", centros comerciais, telecabines e Estradas Verdes! Ordene-se isto, requalifique-se aquilo! Venham PITER, PENT e o que mais for!
Estamos no bom caminho, como sempre! Estamos de parabéns, como sempre!

sábado, fevereiro 03, 2007

O PNSE e as "críticas"

O post do Estrela no seu melhor sobre os esgotos a céu aberto da Torre gerou uma certa comoção na comunicação social. Eu acho o destaque dado a este assunto uma coisa positiva. Quando as coisas não vão bem (e, convenhamos, na Serra da Estrela não vão nada bem) é bom que apareça alguém que o diga. É preciso reconhecer que se está doente para se poder enfrentar a doença e iniciar o tratamento. O Estrela no seu melhor obriga-nos a ver os sintomas, que, durante décadas, temos preferido ignorar. Gosto de pensar que também o Cântaro Zangado está a dar uma ajuda neste aspecto.

A coisa mais surpreendente de toda esta história, para mim, tem sido a atitude do Director do Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE), Fernando Matos. Primeiro, porque as suas justificações mais parecem desculpas esfarrapadas(*); depois, porque parece ter mais vontade de "liquidar o mensageiro" do que de resolver os problemas. Não é esse o sentido da afirmação, recentemente publicada pel'O Interior, "Não houve tanto barulho quando a Torre não tinha ETAR"?

Concretamente, custa-me a entender o seguinte

Primeiro: que o PNSE se tenha que se justificar pela ETAR da Torre.
Porque é que o PNSE é responsável por uma ETAR servindo um centro comercial no coração da área protegida? Porque quando não havia ETAR os problemas ambientais seriam ainda maiores e parece não ter havido coragem política para impôr a solução mais lógica, isto é, para obrigar os benificiários da existência desse centro comercial a fazê-lo funcionar de acordo com a lei.
Porque é que há um centro comercial na Torre? Porque antes disso a Torre era palco de um degradante comércio ambulante, que constituia, só por si, um grave problema ambiental, e não houve coragem política para impôr a solução mais lógica, ou seja, pura e simplesmente, proibir essa aberração. Quem pagou as obras de reconstrução do edifício onde se instalou o comércio (que continuou tão degradantemente rasca como quando se fazia ao ar livre)? Contra toda a lógica, o PNSE!
Os comerciantes instalados no edifício reconstruído e infraestruturado pelo PNSE pagam renda pelos estabelecimentos que exploram. A quem são pagas as rendas? Ao PNSE, com o objectivo de se financiarem medidas de mitigação dos impactos ambientais que a mera existência daquele centro comercial naquele lugar acarreta, ou como forma de amortizar os investimentos feitos pelo parque na reconstrução? Não, caro leitor. Contra toda a lógica, essas rendas são pagas à Turistrela, a concessionária exclusiva do turismo e dos desportos na Serra da Estrela. Qual será a justificação para este pagamento? Não faço ideia. Alguém faz?
Ou seja: uma parte importante do orçamento do PNSE, esta instituição pública de conservação da natureza dotada com meios humanos e materiais tão reconhecidamente insuficientes, foi gasta, não na conservação da natureza, mas sim na construção e infraestruturação de um centro comercial com impactos naturais evidentes situado bem no cume da Serra da Estrela. Ou seja ainda, por outras palavras, o PNSE pagou (e paga) para ter (e manter) um cancro ambiental no coração da área protegida por que é responsável, ainda com a agravante de algum lucro que pudesse resultar desse investimento ter sido entregue à empresa que maiores danos causa aos valores naturais que supostamente se pretendem proteger!
Imagino que não seja Fernando Matos o principal responsável por esta trapalhada. Mas é nesta trapalhada que o PNSE está envolvido, por muito que nos custe a entender que tal seja possível.
Segundo: que Fernando Matos não aprecie estas manifestações públicas de preocupação pelo ambiente na Serra da Estrela.
Caramba, mau para o PNSE e para a sua função principal é que antes, "quando não havia ETAR na Torre", não tivesse havido "barulho"! Pela primeira vez na sua existência, o PNSE vê alguma expressão na comunicação social de preocupações ambientais por parte da sociedade civil. Se isso não é uma coisa boa, não sei o que seja.
Volto a dizer algo que tenho repetido aqui no Cântaro Zangado. Sinto pelo PNSE uma enorme simpatia. Espero que o PNSE cresça, se imponha, que possa festejar grandes sucessos na conservação do ambiente e das paisagens da Serra da Estrela. Apesar disso, ou melhor, por causa disso, acho importante que aberrações como a da "cloaca mais alta de Portugal" sejam do conhecimento público. Por estar a fazer um trabalho notável neste aspecto, sinto também uma enorme simpatia pelo Estrela no seu melhor.

Nota: Uma fonte de informação adicional sobre várias trapalhadas que ocorrem na Serra da Estrela é este artigo de opinião que Luís Veiga, empresário do grupo IMB HOTÉIS, publicou no jornal O Interior, a 10 de Fevereiro de 2005.
(*) Só para dar um exemplo, falar nas condições meteorológicas depois de um mês inteiro de tempo ameno... Lembrei-me das desculpas igualmente esfarrapadas de Artur Costa Pais para não retirar as fitinhas plástico usadas na marcação do percurso da mega-avalanche (veja aqui, aqui, aqui, aqui e, por fim, aqui).

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Bom fim de semana

Os eco-fundamentalistas estão em todo o lado!

Copiando o A-Sul, deixo aqui um excerto da Constituição da República Portuguesa.
Artigo 66.º
(Ambiente e qualidade de vida)
  1. Todos têm direito a um ambiente de vida humano, sadio e ecologicamente equilibrado e o dever de o defender.
  2. Para assegurar o direito ao ambiente, no quadro de um desenvolvimento sustentável, incumbe ao Estado, por meio de organismos próprios e com o envolvimento e a participação dos cidadãos:
    1. Prevenir e controlar a poluição e os seus efeitos e as formas prejudiciais de erosão;
    2. Ordenar e promover o ordenamento do território, tendo em vista uma correcta localização das actividades, um equilibrado desenvolvimento sócio-económico e a valorização da paisagem;
    3. Criar e desenvolver reservas e parques naturais e de recreio, bem como classificar e proteger paisagens e sítios, de modo a garantir a conservação da natureza e a preservação de valores culturais de interesse histórico ou artístico;
    4. Promover o aproveitamento racional dos recursos naturais, salvaguardando a sua capacidade de renovação e a estabilidade ecológica, com respeito pelo princípio da solidariedade entre gerações;
    5. Promover, em colaboração com as autarquias locais, a qualidade ambiental das povoações e da vida urbana, designadamente no plano arquitectónico e da protecção das zonas históricas;
    6. Promover a integração de objectivos ambientais nas várias políticas de âmbito sectorial;
    7. Promover a educação ambiental e o respeito pelos valores do ambiente;
    8. Assegurar que a política fiscal compatibilize desenvolvimento com protecção do ambiente e qualidade de vida.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Falemos de turismo, mas com seriedade (IV)

Telma Madaleno, ambientalista da Quercus, juntou-se ao coro de vozes destacadas que criticam as opções que se têm tomado para o desenvolvimento do turismo na Serra da Estrela, num artigo que publicou no Diário XXI, com o título "Um turismo genuíno". O Cântaro Zangado agradece, claro.
Começamos a notar que o pensamento do Cântaro Zangado, afinal, não é nada original. Começamos a notar que original, mesmo, é o que a RTSE/Turistrela planeia [esta utilização do singular não é um lapso] para a Serra da Estrela. Começamos a notar que cada vez mais gente duvida que esses planos conduzam a um real desenvolvimento do turismo.

Telma Madaleno integrou as listas do PS à Câmara Municpal da Covilhã nas Autárquicas de 2005. Foi vereadora na Câmara Municipal e deputada na Assembleia da República. Não é relevante aqui o partido a que se associou. Outras pessoas, de outros partidos, têm dito coisas parecidas, como se pode constatar pela já longa série de posts com este título.
Soube desta intervenção de Telma Madaleno pelo blog Cortes do Meio.

Este artigo também é sobre a Serra da Estrela

Hoje, em Paris, é apresentado o novo relatório do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas. Pelo que se sabe do seu conteúdo, as coisas não vão nada bem. Esperam-nos tempos difíceis. Mas até parece que não, se considerarmos situações como o desperdício de energia com as patetices comercialóides das mega-iluminações de natal (energia essa que teve que ser produzida, contribuindo para o aquecimento global), só para dar um exemplo.
Uma plataforma francesa (l'alliance pour la planète) teve a ideia de marcar o dia de hoje com um apagão à escala mundial, entre as 19:55 e as 20:00 (hora centro-europeia, ou seja, entre as 18:55 e as 19:00 em Portugal Continental e Madeira, 17:55 e 18:00 nos Açores). Não se trata de poupar cinco minutos de electricidade, mas de dar mais visibilidade ao problema das alterações climáticas e de mostrar aos responsáveis políticos que queremos que se passe à acção. E a acção passa por poupar energia.
Hoje às 18:55, vou ao quadro e desligo o geral.

Se precisar de acertar o relógio, pode fazê-lo aqui.

Algarvear a Serra da Estrela? Não, obrigado!