terça-feira, fevereiro 27, 2007

Só mais uma coisinha...

Não quis entrar em pormenores no post anterior, mas não queria deixar a sugestão da criação dos parques de estacionamento assim, sem mais. Diz-se no artigo d'O Interior a que me referia, ainda antes de qualquer referência à regulamentação e condicionamento do acesso rodoviário ao maciço central da Serra da Estrela, que
A criação de dois «grandes parques de estacionamento» na Lagoa Comprida e nos Piornos seriam uma «boa solução que evitaria os congestionamentos»
Discordo. Os condicionamentos de tráfego é que evitam os congestionamentos. Os parques apenas tornam menos desconfortáveis para os visitantes esses condicionamentos. O condicionamento do trânsito, sem parques de estacionamento, quando muito transfere o problema da Torre para a Lagoa Comprida e para os Piornos, mas não cria um novo problema nem agrava o problema que temos. Além disso, em grande medida os engarrafamentos na Torre são causados pelas pessoas que param os caros para brincar na neve. Ora nos Piornos e na Lagoa Comprida é muito menos frequente haver neve, pelo que as pessoas sentirão menos vontade de parar e sair dos seus veículos. Além disso ainda, em vez de um grande problema na Torre, teríamos dois problemas menores (logo, mais facilmente resolúveis), um na Lagoa Comprida, o outro nos Piornos. Com tudo isto, quer-me parecer que, ao transferirmos os engarrafamentos da Torre para cotas menos elevadas, estaremos, também, a reduzir a sua gravidade, mesmo que não se criem dois grandes parques de estacionamento. Mas, caramba, se temos mesmo que construir parques de estacionamento, se forem apenas médios, já é melhor que nada, não? Se calhar, até, já será suficiente... É que os engarrafamentos na Torre só se notam nalguns fins de semana, mas os tais parque de estacionamento, bem como os seus impactos, far-se-ão sentir todo o ano...
Na minha opinião, devíamos fazer estudos e experiências (mas comecemos com pequenas experiências, em vez de grandes parques de estacionamento). Mas temos mesmo é que ter vontade de resolver o problema! O Cântaro Zangado fica genuinamente contente por ver o director do Parque Natural da Serra da Estrela dar clara mostra disso.

3 comentários:

al cardoso disse...

Sim creio que parques de estacionamento em areas de cota menor ajudariam o a congestao, mas teriam que ser complementados com as telecabines, que pagas gerariam fundos a ser usados para manter a "nossa Serra" linda, limpa e cuidada!

Anónimo disse...

Concordo plenamente com al cardoso.
Não está nas nossas mãos controlar a neve natural mas podemos, se quisermos, controlar a pureza do ar do maciço central para podermos oferecer ao visitante um bem cada vez mais escasso devido à ditadura da lata.
Penso que uma maneira de resolvermos o problema seria erradicar todo o transporte particular a partir de uma determinada cota e implementarmos um sistema de transportes colectivos explorados pelos concessionários turísticos e que podiam incluir meios mecânicos pouco ou nada poluentes com destaque para telecabines, funiculares e/ou teleféricos em perfeita articulação com mini-autocarros. Estes deviam ter paragens em locais estratégicos onde existissem trilhos, devidamente sinalizados, que conduzissem o turista a locais de reconhecido interesse paisagístico
e cujo acesso fosse exclusivamente feito a pé, com mais ou menos dificuldade.É neste contexto que defendo as telecabines e as estradas desde que bem projectadas com o máximo de respeito pela paisagem. As estradas, afinal, também servem para os transportes colectivos, preferencialmente amigos do ambiente, e para os veículos de emergência. Continuo a não perceber a embirração face às telecabines, nomeadamente, a partir de Alvoco. Poluição visual?
E a poluição actual, da lata, omnipresente, associada à atmosférica não será muito pior?
Urge recuperar aquele ar puro da Serra que serviu de terapia no alvor do século passado e o silêncio que inspirou Almada Negreiros quando escreveu o verso que ficou célebre:
"O meu alimento é o silêncio do mundo que fica no alto das montanhas..."
Que diria ele hoje se visitasse a Torre?
Victor Santos

ljma disse...

Al Cardoso, eu acho que parques de estacionamento e/ou telecabines não são condicionamentos de tráfego, ou seja, não condicionam nada. Duvido muito que, só por si, tenham um efeito sensível na intensidade do trânsito na Torre. Para isso temos que condicionar o trânsito rodoviário com restrições impostas pelas forças da ordem, com ou sem parques, com ou sem telecabines. Não quero com isto dizer que não se devam construir essas estruturas (eu não concordo, mas vá); apenas tento dizer que não me parece razoável esperar pela implementação de telecabines, parques de estacionamento, IP6 ou túneis para começar a condicionar o trânsito. Afastados os comparativamente simples condicionamentos burocráticos e legais, podíamos começar a fazê-lo já no próximo fim de semana, se verdadeiramente o quiséssemos. Por exemplo, no Gerês têm condicionado o trânsito na estrada (de terra) ao longo da albufeira de Vilarinho das Furnas. Mas não têm nem parques nem telecabines. No Verão, pelo menos, têm lá muitos, muitos mais turistas que nós. E ficam lá semanas inteiras!

Vitor Santos, não sei o que seja uma estrada de asfalto com respeito pela paisagem de montanha. Para mim, em si mesmas, as estradas são feias, horríveis. São um mal necessário se servirem as populações residentes. Mas são uma aberração se forem feitas pensando nos turistas, no lazer. Porque, de facto, o que servem é as voltinhas dos tristes, um acesso desordenado e desqualificado, e inviabilizam um turismo a sério, como o que se pratica nas outras montanhas da Europa. Ao fim ao cabo, quem é que paga por um passeio a cavalo para chegar a um sítio onde se vai bem de carro? De facto, até, quem é que mete os pés ao caminho, mesmo de graça, se é para chegar a um sítio massificado pela existência de um acesso rodoviário?

Não, para um amante dos espaços naturais e do ambiente de montanha, as estradas, principalmente as de asfalto, não facilitam o acesso a coisa nenhuma, antes pelo contrário: a sua multiplicação nestes espaços naturais obriga-nos a afastar-nos para sítios cada vez mais recônditos e longínquos, para podermos usufruir das coisas que nos atraem na Serra. Porque muito do que procuramos na Serra existe dentro de nós, mas é necessária a experiência da natureza, o esforço físico e psicológico, para o encontrarmos. Muitos que eu conheço já desistiram de vir à Serra por essa razão (e eu faria o mesmo, se não vivesse aqui tão perto). Com mais cento e vinte km de estrada chegam a Gredos, com pouco mais ao Gerês. Porque aquilo que de uma paisagem cabe numa fotografia (ou seja, aquilo que dela se pode "usufruir" numa voltinha dos tristes, de carro pela estrada - oh!, tão bela e tão respeitosa da paisagem!) é tão pouco que, sinceramente, não compensa a maçada.

Mas a verdade é que as estradas, sejam elas "bem projectadas com o máximo de respeito pela paisagem" ou não, servem apenas para o acesso da "lata", usando as expressivas palavras de Vitor Santos. Se não quer a "lata", Vitor Santos, para que quer as estradas, para que quer ainda mais estradas?

Al Cardoso, Vitor Santos, obrigado pelos vossos comentários. Até breve!

Algarvear a Serra da Estrela? Não, obrigado!