sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Será sina nossa?

Acho que a zona da Torre estaria muito, mas muito melhor, se não se tivesse construído aquela estação de radar da Força Aérea (aliás, creio que o facto de ter funcionado durante pouco mais do que 15 anos dá uma ideia da suma importância que teve), ou se não a tivessemos rasgado com a estrada Seia-Covilhã. Acho que a zona teria agora valores e potenciais muito superiores, turistica e ambientalmente falando.
Admitindo que a estação de radar era, há quarenta anos, mesmo imprescindível, os acessos que se abriram para a sua construção e para a sua servidão deviam ter-se limitado ao mínimo indispensável, ou seja, a uma estrada militar, pelo lado de Seia, de Manteigas ou da Covilhã, nunca uma via de atravessamento como a que acabou por ser construída.
Admitindo que era necessária uma estrada que atravessasse o cume da Serra da da Estrela, devia-se ter tido o cuidado de a integrar bem na paisagem. Que essa preocupação não existiu nota-se claramente, por exemplo, no Covão do Boi, junto da Senhora dos Pastorinhos, só para dar um de muitos exemplos. E a estrada devia ter sido classificada com a menor categoria possível, ou seja, como estrada intermunicipal ou menos ainda. Em vez disso, classificámo-la como estrada nacional! Será aos deuses que devemos agradecer não ter ainda sido requalificada como autoestrada(1)?
Tendo em mente o desenvolvimento de um turismo de montanha de qualidade, sustentável e ambientalmente orientado, por um lado e, por outro, as preocupações de conservação do ambiente e da paisagem que não podemos desprezar(2), o destino a dar às construções da Torre quando a sua função militar terminou devia ter sido a demolição e remoção do entulho. Mas não. Turistrela e Região de Turismo planeiam restaurantes, hotéis e (ele há sempre muita criatividade para inventar nomes catitas) "observatórios panorâmicos"! Como se a paisagem que se pode apreciar da Torre, situada como está no centro de um planalto extenso, fosse digna de nota!
Uma das poucas decisões louváveis tomadas na gestão da Serra da Estrela foi a da demolição e remoção dos vestígios do falhado projecto do teleférico Piornos-Torre. Pois mesmo essa decisão ficou a meio, como se vê pela resistente presença do mamarracho que é a ruína da estação inferior do dito teleférico, uma espécie de coroa da vergonha da Nave de Santo António (ilustrada na figura no cimo deste artigo). O projecto anunciado é o de transformar este mono numa piscina/spa, como a Caldeia, em Andorra-a-Velha, dizem responsáveis da Turistrela. Mas não se percebe esta comparação quando recordamos que Andorra-a-Velha é uma cidade, aliás, é a capital do principado, e a Caldeia está no interior, bem no interior, do seu tecido urbano (e nem assim deixa de ser um mono horrível, na minha opinião), ao contrário do que acontece com o nosso degradante mamarracho. Ainda por cima, apesar do seu monumental falhanço, o pesadelo do teleférico parece ter renascido das cinzas do fogo em que, pensávamos, se tinha consumido junto com certos voluntarismos das forças vivaças da região, já que um novo projecto (mas agora chama-se à coisa telecabine), entre os Piornos(3) e a Torre, foi contemplado pelo programa PITER.

Face a tudo isto, e face ainda a outras situações que é demasiado deprimente enumerar exaustivamente, as perguntas que mais frequentemente me faço são: porque raio é que escolhemos sempre fazer o pior possível, da pior maneira possível? Porque será que, mesmo quando decidimos fazer coisas boas, as deixamos a meio?
Será sina nossa não aprendermos nada de nada, e continuarmos a pensar o futuro à luz dos piores paradigmas do passado?

Notas:
(1) Mas já se têm ouvido vozes a exigir a duplicação do número de faixas de rodagem na N-339 (que atravessa a Torre), medida obviamente indispensável para o desenvolvimento do turismo na região! [Voltar ao texto.]

(2) Não porque eu assim o determino, mas porque o governo da república com elas se empenhou face à União Europeia, quando se decretou a Serra da Estrela reserva biogenética e Sítio Natura 2000 — aliás, por esta última classificação foi José Sócrates, como ministro do ambiente, o responsável — e, já em 2006, quando as lagoas do maciço central ficaram sob a alçada da Convenção Ramsar. [Voltar ao texto.]

(3) Ou o Covão do Ferro, ou as Penhas da Saúde; o local da estação inferior da coisa vai variando, ao sabor do tempo e das conveniências e cargo administrativo do anunciante. Bah, são detalhes sem importância, pelos vistos irrelevantes para a decisão de financiamento pelo PITER! [Voltar ao texto.]

4 comentários:

Anónimo disse...

Pior do que errar, é insistir no erro.
O mamarracho apresentado é uma vergonha. Já vi pombais na zona de Alcântara muito mais bonitos.
Curiosamente, nessa mesma zona, sobrevive um passadiço da CP que custou milhões, com escadas e tapetes rolantes gigantescos que, por inúteis, só funcionaram algum tempo após a inauguração.
Hoje, já nem conservação têm mas lá continuam a perpetuar a nossa pequenez, contrastante com a megalomania dos decisores públicos.
Quanto às torres do radar, também estou de acordo consigo. Quando passei pela FAP, na década de 60, era voz corrente que esses radares nunca funcionaram em pleno, contrariamente ao que acontecia com Montejunto e Paços de Ferreira, mas que eram um excelente pretexto para justificar a pousada de montanha dos senhores oficiais que, curiosamente,era muito visitada pelas altas figuras do regime.
Quanto ao traçado da estrada, receio não estar de acordo consigo.
Pessoas que trabalharam com o Sr. Engº. Urbano, responsável da JAE pelo estudo e traçado da mesma, diziam que era altamente escrupuloso na protecção da paisagem e que defendia com unhas e dentes pedras e afloramentos rochosos de particular interesse, por vezes com sacrifício da própria estrada. Conta-se até que ia aos arames quando os seus subalternos, da área de topografia, insistiam em contrariar tal princípio.
Para mim, o caso que apresenta como negativo funciona em sentido contrário uma vez que permite ao automobilista observar uma das zonas mais bonitas da Serra e ter a oportunidade de fazer umas excelentes fotos, tudo isto sem se ter prejudicado muito o Covão de Boi que continua praticamente intacto.
O estudo, no terreno, do traçado da dita estrada remonta à década de 40, quando não havia organismos oficiais pagos para se preocuparem com o ambiente em geral e muito menos com paisagens protegidas, nem jornais e blogues livres para denunciarem atentados ambientais.
Uma coisa me parece certa: se fosse hoje e a avaliar com os atropelos ao bom senso que tenho observado mesmo nas barbas dos governantes,receio que não tivessem feito melhor e já não restaria uma pedra das "queijeiras" para admirar, nem um palmo do cervunal do Covão porque tinha havido a preocupação de fazerem uma estrada de, pelo menos, 6 faixas de rodagem, a pensar no futuro...
Discordância à parte, permita-me que volte a felicitá-lo pelo seu excelente blogue e pela oportunidade que nos dá de "botarmos faladura".
Victor Santos

ljma disse...

Caro Vitor Santos, obrigado por corroborar as minhas suspeitas quanto à "suma importância" da estação da Força Aérea da Torre.

Finalmente, percebi que o Sr. Eng. Urbano (a quem já se tinha referido num comentário a outro artigo) é (ou era) uma personagem real, realmente com aquele nome. Por ignorância, pensei que se referia a um tipo socio-profissional, talvez o que costumamos chamar, ironizando, o "engenheiro de obras feitas", e confesso que não conseguia perceber o que o senhor pretendia dizer. Quem não sabe é como quem não vê e está-se a ver que eu sei muito pouco...

Quanto à estrada, discordamos, mas até nisso menos do que pode pensar. Com efeito, enquanto escrevia o artigo tentava imaginar alternativas para chegar da Nave de Santo António à Torre sem atravessar o Covão do Boi e não consegui pensar em nenhuma. Depois de ler o seu comentário, pensei também que, caso a estrada se fizesse hoje em dia, com os recursos materiais que temos, e com a falta de recursos intelectuais (num sentido lato) que também temos, possivelmente faríamos o que diz, uma enorme e cara aberração, com toneladas de betão, viadutos e terraplanagens. Com seis faixas, como diz e, acrescento eu, com margem para uma enorme derrapagem financeira, daquelas tão costumeiras em obras financiadas pelo estado. Não concordo consigo é quando diz que é uma coisa boa que os automobilistas podem, graças à estrada, observar e fotografar as belas paisagens. Isso não é, quanto a mim, uma coisa boa, pelas seguintes razões:
1) A estrada é um eixo de poluição, porque muitos dos automobilistas que admiram e tiram retratos às belas paisagens, deixam ficar algum lixo. Aliás, muios daqueles que não tiram a bela fotografia deixam também ficar lixo. Se não houvesse estrada seriam muito menos a visitar o local (ou melhor, a passar pelo local) e por isso seriam muito menos a sujá-lo.
2) Mas um menor número de visitantes não significaria necessariamente uma menor desenvolvimento do turismo. Com efeito, que valor económico tem a esmagadora maioria dos turistas que, aproveitando estas acessibilidades "fáceis e directas", enchem a zona da Torre naqueles tristes fins de semana com neve? Nenhum: chegam nos seus carros ou autocarros, comem uma bucha que trazem no portabagagens e voltam às suas residências no mesmo dia. Está feita a visita à Serra. Um pedestrianista, em contrapartida, é obrigado a pernoitar uma noite, pelo menos, na nossa região.
3) A verdadeira magia da montanha não cabe numa fotografia, e é essencialmente inacessível a quem não se esforça para a atingir. Para se sentir verdadeiramente a beleza de uma montanha, é preciso algum tempo a sentir o chão nos pés, o coração no peito e o vento na cara. O máximo a que um visitante automobilizado pode aspirar, e falo pela minha própria experiência, é a recordar sensações prévias que tenha experimentado quando suou para chegar a um determinado sítio.
Em poucos contextos como neste da fruição da montanha é tão verdade o ditado que diz que viagem é mais importante do que o destino. É completamente diferente a percepção que temos de um local chegando a ele depois de uma caminhada esforçada ou simplesmente nele "aterrando" depois de uma voltinha de automóvel. E pretender que se democratiza a fruição das montanhas abrindo nelas estradas para que todos possam confortavelmente e sem esforço a elas aceder é tão absurdo como pretender que se democratiza a experiência da investigação científica permitindo a todos, independentemente dos seus estudos, o acesso aos laboratórios e centros de investigação mais avançados ou que se democratiza a experiência da alta competição desportiva abrindo a todos, independentemente da sua preparação física, a inscrição nos grandes eventos internacionais.
4) As estradas não facilitam o acesso às maravilhas da Serra, antes pelo contrário. Porque as maravilhas da Serra passam em grande medida por um certo ar selvagem, remoto, primordial. Os locais mais mágicos da Serra são aqueles onde essas características mais facilmente se notam. O que resta desses lugares depois de rasgados por estradas de asfalto? Apenas o que deles cabe numa fotografia. Ou seja, quase nada, acredite. Para obter as mesmas sensações que antes tinha num determinado local remoto, agora que o acesso a ele está facilitado com asfalto, tenho que ir mais longe. O efeito da abertura da estrada foi então exactamente o oposto ao que se pretendia...

Concordo consigo que graças à N339 se podem fácil e confortavelmente observar e fotografar alguns dos locais que *eram* dos mais bonitos da Serra. Até concordo consigo que, se o fotógrafo tiver cuidado e arte, o retrato pode ainda dar uma pálida imagem da antiga beleza do local. Mas concorde comigo que, se o fotógrafo tiver atento, vai sentir nas narinas o cheiro do asfalto, vai ouvir o ruido dos carros a passarem na estrada, vai ver no chão o lixo que é abandonado pelos automobilistas e, ocasionalmente, o cadáver de alguma ave, réptil ou mamífero atropelado. É nesse sentido que acho que o Covão do Boi foi arruinado pela estrada N339. Podia ser pior? Podia, é claro, mas não vejo como isso nos pode servir de consolo. E é uma coisa boa, a estrada? Cá para mim, a ténue vantagem que apresentou não chega, nem pouco mais ou menos, para compensar os enormes inconvenientes que não podemos ignorar.

Muito obrigado pelo seu comentário. Vá "apitando"! E desculpe lá este longuíssimo testamento...

Gaspar, Nuno disse...

Boa noite.
Tenho acompanhado o seu blog, e posso dizer-lhe que concordo com muitas das suas ideias. Sou também um defensor acérrimo do meio ambiente. De facto, e no que toca à estrada N339, defendo que toda aquela encosta estaria bem melhor sem ela, mas sou a favor de outro meio para que possamos subir rapidamente. Telecabines por exemplo (não no local falhado).
Por outro lado, quando diz “muitos dos automobilistas que admiram e tiram retratos às belas paisagens, deixam ficar algum lixo”. Isso, de facto verifica-se, mas não seria melhor reeducar a população para que o mesmo deixe de acontecer. É lamentável chegar à Torre e encontrar o chão cheio de beatas de cigarros, sacos de plástico usados como trenó, em suma, lixo a pairar por todo o lado, mas não vamos agora proibir a subida aquelas pessoas que, como eu e o senhor, se preocupam com o meio ambiente.
Melhores cumprimentos,
Nuno Gaspar

ljma disse...

Bom dia, caro Nuno Gaspar
Olhe, eu falo dos inconvenientes desta estrada (N339) principalmente tentar convencer as pessoas do grave erro que é a abertura de ainda mais estradas, como a planeada Estrada Verde (Guarda - Maciço Central) ou a asfaltação em curso do acesso Unhais da Serra - Nave de Sto António. É que não faltam, pelas aldeias e cidades em torno da Serra, "sonhos antigos" como o que foi realizado com a estrada de São Bento (Portela do Arão - Lagoa Comprida).
Eu nunca defendi a proibição da subida à Serra, dos que se preocupam com o ambiente ou dos outros! Ando é a tentar mostrar que essa subida não tem que estar ligada à estrada nacional. Acho que todos ganharíamos se essa estrada fosse fechada. E substituída por telecabines? Talvez, enquanto houver condições para a prática de ski na Serra (coisa que se afigura improvável dentro de alguns anos). Mas vamos é subir a serra a pé, de bicicleta, a cavalo ou de burro! Como se faz nas outras montanhas semelhantes (Gerês e Gredos, para não ir mais longe). A maior utilidade da estrada é a de permitir o circo degradante que se forma na Torre em certos fins de semana. Quem não concorda com esse circo não deve concordar com a estrada e, sobretudo, deve opor-se a ainda mais estradas.
Por fim, veja bem: diz que não se deve proibir o acesso aos que se preocupam com o ambiente. Mas acha que se pode permitir o acesso a estes sem o permitir também aos outros? É como se costuma ouvir acerca do lixo. De acordo com alguns, são os turistas das excursões, saco de plástico no rabo, garrafão de vinho e merenda bem sortida que enchem a serra de lixo; os clientes da estância de esqui, bonitos e sofisticados, não sujam nada! Duvido que isto seja mesmo assim, mas o principal é que onde chegam os turistas do BMW também chegam os da excursão, não é? Onde os que se preocupam com o ambiente (esses mais predispostos para passeios a pé) chegam com os seus carros, também os que se borrifam para o ambiente (e que nunca se afastam da beira da estrada) podem chegar, nos seus carros também. A estrada é então, volto a dizê-lo, um eixo de poluição.
Parabéns pelo seu milrotas.blogspot.com, visito-o ocasionalmente.

Algarvear a Serra da Estrela? Não, obrigado!