sexta-feira, março 31, 2006

Programa de Caminhadas

Chegou-me às mãos o programa de caminhadas da Secção de Montanha do Clube de Campismo e Caravanismo da Covilhã. Na altura, não me lembrei de pedir autorização para o divulgar publicamente e agora não sei como o fazer, por isso, vou fazê-lo mesmo sem autorização. Cá vai!
22 de Abril, Vila de Mouros
Hora e local de partida: 8:30 am, sede dos Amigos de Vila de Mouros
Organização: Amigos de Vila de Mouros
Percurso: Fonte Serra - Postigo - Anta - Lapa das Cachopas - Rego d'Água
Dificuldade: 3
Tempo médio: 5h
21 de Maio, Varanda dos Pastores
Hora e local de partida: 9:00 am, Pião
Percurso: Pião - Bouça - Varanda dos Pastores - Penhas da Saúde - Pião
Dificuldade: 4
Tempo médio: 9h
10 e 11 de Junho, Travessia
Hora e local de partida: dados não indicados
Percurso: Torre - Piódão
Dificuldade: 5
Tempo médio: 7h (por dia)
9 de Julho, Ribeira da Bouça
Hora e local de partida: 9:00 am, Pião
Percurso: Pião - Alto dos Livros - Bouça - Ribeira - Antenas - Pião
Dificuldade: 3
Tempo médio: 6h
17 de Setembro, Verdelhos
Hora e local de partida: 9:00 am, local não indicado
Percurso: Portela - Tiro da Barra - Verdelhos - Muros - Fonte Serra
Dificuldade: 5
Tempo médio: 10h
22 de Outubro
Hora e local de partida: 9h, local não indicado
Percurso: Vide - Piodão
Dificuldade: 4
Tempo médio: 8h
19 de Novembro, Poço do Inferno
Hora e local de partida: 9h, Penhas da Saúde
Percurso: Penhas da Saúde - Curral do Vento - Alto do Espinheiro - Alto da Portela - Poço do Inferno - Malhada Alta - Poios Brancos - Penhas da Saúde
Dificuldade: 4
Tempo médio: 9h
1 e 2 de Dezembro, Travessia
Hora e local de partida: 9h, local não indicado
Percurso: Manteigas - Videmonte
Dificuldade: 5
Tempo médio: 7h (por dia)
É melhor contactar-se o Clube de Campismo e Caravanismo da Covilhã (tel: 275 314 312; email: cccc.piao@portugalmail.com) para se confirmarem estas informações.
O passeio de 21 de Maio, Varanda dos Pastores, é particularmente interessante para o Cântaro, por causa da troca de ideias que aqui tivemos a propósito dos trilhos para a Varanda (ver aqui).
Boas caminhadas!
P.S. O programa indica que a Câmara Municipal da Covilhã apoia a organização das caminhadas, coisa que saúdo com satisfação.

quinta-feira, março 30, 2006

Palavras, palavras, palavras

Como disse ontem, o artigo sobre Jorge Patrão merecia uma dissecação muito mais cuidada e atenta do que a que fiz. Merecia, mas não a vai ter, porque não há pachorra! As declarações de Jorge Patrão deprimem-me, dão-me vontade de desistir de apreciar a Serra! Não é pelo que diz, porque a mesma coisa, tim-tim por tim-tim, também a diz Carlos Pinto (o Presidente da Câmara da Covilhã), facto que também me deprime. Mais uma vez, não é pela mensagem em si, porque ela é exactamente, sem tirar nem pôr, a que podemos ouvir dos responsáveis da Turistrela. O que deprime é que Jorge Patrão e Carlos Pinto foram eleitos (este pelo povo, aquele pelos organismos representados na RTSE), para desempenharem funções bem definidas, que não incluem a de porta vozes da Turistrela... O facto de aparentemente o fazerem é que me deixa mesmo aborrecido. Portanto, vou apenas comentar quatro afirmações do presidente da Região de Turismo da Serra da Estrela (RTSE), constantes no artigo em questão.

Comecemos pelo fim. Jorge Patrão refere as telecabines com pontos de saída "nas Penhas da Saúde e Alvoco". Aparentemente, o presidente da RTSE não prestou atenção ao artigo publicado no suplemento Local (Centro) do Público de 15 de Fevereiro, onde alguém, falando pela Turistrela, afirma que a a construção da telecabine de Alvoco ficará por enquanto suspensa, aguardando estudos mais aprofundados, e a das Penhas da Saúde só terá, afinal, viabilidade até ao Covão do Ferro... Como são, ao certo, os projectos das telecabines?

A páginas tantas, Jorge Patrão afirma que "nenhum dos empreendimentos defendidos pela RTSE, é nocivo para o ambiente". Bem, em primeiro lugar, o seu a seu dono. As telecabines, a construção de mais seiscentos apartamentos no "núcleo de recreio das Penhas da Saúde", a urbanização da Varanda dos Carqueijais, são projectos da Turistrela. A RTSE defende alguns empreendimentos, no interior do PNSE, que não sejam da autoria da Turistrela? É só para saber...
Posto este ponto prévio, tenho que dizer que me custa perceber aquela frase. Vejamos, temos dois lugares (o Covão do Ferro e o extremo oriental da Lagoa Comprida) sossegadíssimos, muitíssimo belos, locais (pelo menos a Lagoa Comprida) habitados por espécies vegetais que não encontramos em mais sítio nenhum na Serra (algumas não encontramos em mais sítio nenhum, ponto). Jorge Patrão quer asfaltá-los e transformá-los em parques de estacionamento, quer espetar postes por eles a fora e enchê-los do ruído das engrenagens das telecabines e dos motores dos automóveis. E diz que isso não é nocivo para o ambiente. Ou se refere ao ambiente climatizado de quem nunca visitou estes locais, ou então não percebo. Mas, a verdade seja dita, eu também nunca percebi aquela frase do Magritte, Ceci n'est pas une pipe...

Mais adiante, Jorge Patrão afirma que "Para a Região de Turismo não há preservação do ambiente enquanto houver ruínas na Serra". Ora bem! Concordo inteiramente! Finalmente, vão-se remover os mamarrachos! Não? Ai percebi mal? Pretende-se que sejam "recuperados"? Ah, Jorge Patrão acha que os mamarrachos das "torres das bolas" (sic) preservam o ambiente quando se lhes passar umas demãos de tinta. Interessante... Interessante é também a coincidência (mais uma vez) de opiniões com a Turistrela, que já anunciou que pretende requalificar aqueles mamarrachos, transformando-os em mamarrachos para venda de forfaits e aluguer de material de esqui.
A propósito, também é interessante que se tenham removido, há cerca de dez anos, todas as estruturas do antigo teleférico Piornos-Torre, à excepção do edifício do terminal dos Piornos, e que agora a Turistrela venha anunciar que pretende requalificar aquela ruína transformando-a num "spa". Porque é que essa ruína não foi também demolida e removida? Quem é que se terá oposto?

Para terminar, a famosa tirada, "todos os projectos previstos são equilibrados". Bem, falamos de equilíbrio quando duas forças ou tendências antagónicas se compensam, cancelando mutuamente os seus efeitos. Por exemplo, numa balança, como aquela com que a Justiça costuma ser representada, dá-se o equilíbrio quando força aplicada num prato iguala a aplicada no outro. Vejamos, num prato desta balança temos estradas, telecabines, urbanizações, ampliações da estância de esqui, parques de estacionamento, casino, "núcleos de recreio"; no outro, temos o quê? Reflorestação? Apoios ao PNSE para reintrodução de espécies extintas? Marcação e divulgação de novos trilhos pedestres ou arranjos nos existentes? Incentivos a empresas para passeios a cavalo? Apoios para o equipamento de novas vias de escalada? Apoios à modernização da produção e distribuição dos artigos genuinamente regionais? Diga lá, Sr. Jorge Patrão, o que é que, ao certo, tem no outro prato da balança, o que é que lá se tem posto, todos estes anos, para que se possa dizer que ela está equilibrada? Ou esta balança só tem um prato?

quarta-feira, março 29, 2006

Ceci n'est pas une pipe.

Jorge Patrão, o presidente da RTSE, foi noticia na edição de hoje do Diário XXI. Fiquei a saber disto pelo comentário que o meu amigo John Malkovitch (também me dou muito bem com o Robert de Niro e com a Signorey Weaver;) deixou no artigo de ontem. Bem, isto ainda não é a dissecação que o artigo exige, é só para abrir o apetite. Diz Jorge Patrão
"[...] nenhum dos empreendimentos defendidos pela RTSE, é nocivo para o ambiente[...]";
"[...] todos os projectos previstos são equilibrados."
Pois eu concordo com ele! Nessa linha, acho que o que está representado na imagem que ilustra este artigo n'est pas, effectivement, une pipe. Mas já que me estou a armar em erudito, não paremos por aqui. Galileu Galilei, no Séc. XVII, também disse coisas tão verdadeiras como as que Jorge Patrão afirma agora. Jurou, face à Santa Inquisição, que acreditava piamente ser verdade que o Sol se movia em torno da Terra e que esta se encontrava parada.
É sabido, no entanto, que Galileu mentia para salvar a pele e reza a lenda que terá resmungado entre dentes "Epur si muove!" E Jorge Patrão? Tentaria ele, com as suas afirmações, salvar alguma pele, também? Que sábia tirada, para edificação da posteridade, lhe terá aflorado aos lábios, off the record, so to speak?
[Já agora, a imagem que ilustra este artigo é um quadro do pintor surrealista René Magritte (1898-1967).]

"Revolução no esqui da Serra da Estrela"

Esta notícia saiu no jornal "O Interior" de 23 de Março de 2006, e foi alvo de uma interessante troca de opiniões no blogue (O grande blogue da Covilhã) Máfia da Cova. Quero agora dissecar a notícia a meu belo prazer, com o meu bisturi, por assim dizer.
Vejamos, a Turistrela quer ampliar a estância de esqui. Já disse aqui que não acho isso muito grave, desde que se fiquem pela encosta onde a estância está actualmente situada. Mas que razões ao certo aponta para a necessidade da ampliação? Ficamos a saber com este excerto:
Nesse sentido, a Turistrela terá já adquirido seis novos teleskis, três dos quais com capacidade para transportar mil pessoas e os restantes para 800 pessoas. Investimentos necessários para eliminar as filas que já se verificavam no teleski e na telecadeira.
Ou seja, Artur Costa Pais, o administrador da Turistrela, pretende fazer-nos crer que aumentando a capacidade da estância (medida pelo número de esquiadores que por hora podem utilizar os meios mecânicos para a subida) se reduzem as bichas de espera nos teleskis e telecadeiras. Mmmm, não sei. A estância da Turistrela tem actualmente uma capacidade de 3700 esquiadores por hora. Juntando os novos teleskis (3x1000+3x800=5400), ficará com uma capacidade de 9100 esquiadores por hora. Será suficiente? Vejamos, vou buscar números aos sites das estâncias onde já estive:
  • La Covatilla, Béjar, Estremadura (Espanha)
    Capacidade: 3214 esq./hora
    Bichas: Sim
  • Formigal, Aragão (Espanha)
    Capacidade: 34000 esq./hora
    Bichas: Sim, grandes
  • Pas de La Casa/Grau Roig, Andorra
    Capacidade: 46000 esq./hora
    Bichas: Sim, enormes
  • Baqueira/Beret, Catalunha, (Espanha)
    Capacidade: 49300 esq./hora
    Bichas: é melhor nem falar, até para o xixi (o dos homens!)...
  • Serra da Estrela, Portugal
    Capacidade (actual): 3700 esq./hora
    Bichas: só aos fins de semana; durante a semana é esquiar sem parar.
Não são necessários comentários, pois não? Assim como a abertura de mais estradas não acabará com os engarrafamentos, também a abertura de mais meios mecânicos não acabará com as bichas. Antes pelo contrário, mais pessoas virão esquiar para a Torre e maiores serão as bichas. Além disso, onde é que estas pessoas deixarão os seus carros? Em maiores parques de estacionamento? Ah!, já me esquecia, vão-se construir as telecabines! Os esquiadores poderão deixar os carros no Covão do Ferro e no extremo oriental da Lagoa Comprida, locais ainda não conspurcados por esta demência poluente, que serão requalificados como parques de estacionamento! Como Costa Pais não acredita mais do que eu que esta ampliação resolva o "problema" das bichas nos teleskis (grande problema; comparado com a lixeira em que transformámos a zona da Torre...), refere imediatamente a seguir na mesma notícia, que
Com estes equipamentos, resolveremos os problemas durante os próximos dois ou três anos,
após os quais, está-se já a ver, serão necessários mais uns teleskis, umas telecabines, uns parques de estacionamento... E quem é que paga? A Turistrela? Não sei... Suspeito que serão os programas públicos PENT e PETIR. Ah, vivam as forças vivas regionais!
O que mais me entristece nesta notícia não é a intenção da Turistrela. Como já disse, a turistrela não é um organismo governamental de desenvolvimento, não é uma ONG, não é uma reunião de caridade; trata-se, antes, de uma empresa que, como todas, visa maximizar o seu lucro, coisa que passa (parece-me que indirectamente, apenas) pelo esqui. O que verdadeiramente me deprime, é ver que esta empresa converteu à defesa dos seus objectivos autarquias e agências de desenvolvimento públicas ou semi-públicas, que foram criadas para defender outros interesses.

segunda-feira, março 27, 2006

A posição do Cântaro

Vamos lá ver, antes que surja algum mal entendido. O Cântaro Zangado pretende apenas criticar comportamentos, atitudes e projectos, não personalidades ou instituições. Bem sei que não o tenho conseguido e que nunca o conseguirei; autarquias e Turistrela são o bombo da festa por aqui, tenho que reconhecer. Por um lado, porque me zango (ao fim e ao cabo, sou um Cântaro Zangado) o que perturba a minha noção do que realmente quero dizer; por outro, porque manter um tom sempre neutro, sempre estrictamente informativo, sempre construtivo, sempre politicamente correcto, e sempre, já se está a ver, completamente entediante, não é para mim... (Aliás, o que dessas linhas orientadoras resulta também não é próprio para leitura.) Desculpem. Não me levem muito a mal, e façam o favor de me avisar quando ultrapassar os limites.
Não desejo criticar quem governa a Serra, quero apenas comentar a forma como ela é governada. Claro que nessa crítica das acções tenho que apontar as responsabilidades a quem as tiver, o que configura uma crítica aos autores. Pode se achar que é chato, mas cada um faz a cama onde eu, depois, o deito...
Mesmo quando o parece, não pretendo que nenhum director ou coordenador seja substituído, não quero saber se se troca, nas próximas autárquicas, algum presidente de câmara por outro de outro partido (eu voto, claro, mas o blog não tem nada que ver com isso), não tenho opinião sobre a manutenção da posição de monopólio da Turistrela, nem tão pouco terei sobre alguma OPA que alguém, da região ou do exterior, nacional ou estrangeiro, lhe queira lançar.
Estou-me nas tintas (ou seja, é-me indiferente) para o futuro e continuidade de organismos como a Região de Turismo, a Acção Integrada de Base Territorial, a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional. A minha atitude mais vincada quanto a instituições é uma de alguma simpatia pelo Parque Natural (PNSE). Não gostava de o ver acabar, detesto vê-lo transformado em mera figura decorativa ou apresentado como força de bloqueio em vez de geradora de oportunidades. Imagino que se esta é a imagem que passa, alguma responsabilidade lhe cabe, também. Simpatizo com o PNSE, mesmo quando impõe limites à minha maneira de estar na Serra (já não posso legalmente acampar onde quiser, ao que parece). Desejo no futuro poder estender esta simpatia a outras instituições, autarquias, personalidades e empresas. Admito que posso ainda não o ter feito por estar mal informado.
Como a Turistrela não é apenas a concessionária exclusiva do esqui, mas antes a de toda a actividade turística na Serra, não vejo porque é que não há-de ela desempenhar um papel que a torne também merecedora da minha simpatia. Basta que tenha mais atenção (alguma atenção) a outros turismos e que, por isso, se esforce um bocadinho por preservar as paisagens e o ambiente da Serra que, esses sim, são a sua verdadeira estrela (e não o futuro casino, como disse uma vez, publicamente, o dono da Turistrela, Costa Pais). Já agora, porque não apoiar efectivamente o PNSE para, mais do que apenas preservar, reconstruir a paisagem degradada pelos incêndios, pelo lixo, pelas estradas, pelas urbanizações? Se isto não é promover e desenvolver o turismo na Serra, não sei o que seja.
(E agora que deixei este aviso escrito, já posso dizer o que me apetecer, como me apetecer. Viva!)

Os suiços não percebem pevas

Pelo ondas, recebi esta interessante notícia sobre os problemas com o aquecimento global de uma estância de esqui na Suiça. Obviamente, os suiços não percebem nada disto. Por cá, temos a Turistrela a resolver o problema. Vejam bem, Suiços, como se faz. Basta contratar uma equipa de técnicos espanhóis (cuja realização mais apregoada é a de terem colaborado na construção de uma pista de esqui indoor em Madrid), arranjar subsídios estatais ou europeus (ah! mas a Suiça não pertence ainda à União Europeia) para uma carrada de canhões de neve e pronto! Claro que a Suiça não terá as soberbas condições naturais para a prática de desportos de neve com que tantas vezes vemos caracterizar a Serra da Estrela, mas alguma coisa se há-de poder arranjar com o que por lá têm. Que os suiços são uns toscos, vê-se nas declarações do vice director do departamento turístico do governo, neste excerto do artigo:
Michel Ferla, vice director of the government's Switzerland Tourism body, said the country needed to start catering for those who visit the Alps to walk and hike, rather than just thinking of those who ski.
Os Alpes para quem gosta de caminhadas?! Que horror! E se a moda pega por cá?!
Aquecimento global? Onde? Só se for na Suiça...

Monopólio — Sim ou não?

(Este artigo é uma cópia do que publiquei em Fevereiro na morada antiga do Cântaro Zangado. Volto a ele, porque me pareceu, modéstia à parte, especialmente interessante.)
A Turistrela detém a concessão da exploração turística da Serra da Estrela na região de altitude superior a 800 m, ou seja, numa área total de cerca de 30 000 hectares. Isso é bom ou mau?
Por um lado é mau. Quem é que, hoje em dia, tolera monopólios do estado ou privados? Não são os monopólios contrários ao interesse dos consumidores? Não levam à estagnação, à diminuição da qualidade do produto, à escalada dos preços? Não é a concorrência (com mais ou menos regulação) o santo graal da economia moderna? Ou estas noções aplicam-se a todas as áreas de actividade económica, excepto à do turismo na Serra da Estrela?
Por outro lado é bom. Havendo apenas uma empresa a mexer com a Serra deve ser fácil fazer a fiscalização das suas actividades...
Por outro lado é mau. Uma única empresa, com o controle exclusivo de uma área tão extensa, é concerteza dirigida por pessoas muito importantes, que conseguem pôr na ordem (se fôr necessário, mas quase nunca é) outras importâncias menos importantes, como presidentes de junta de freguesia, presidentes de câmara, fiscais autárquicos e governamentais, directores de parques naturais, coordenadores de estudos de planeamento e de programas de financiamento, Cântaros Zangados... A pessoas assim, tão de bem, concerteza que se perdoam uns pecadilhos, se fecham os olhos a alguns deslizes, coisas sem importância que podem acontecer a qualquer um... Claro que quando acontecem a qualquer um (um que seja um qualquer mas que não seja este um particular, chamemos-lhe um qualquer outro), esse um qualquer outro vê-se obrigado a pagar multas e/ou indeminizações, mas enfim, pormenores, pormenores...
Por outro lado é bom. É que temos os responsáveis bem identificados. Como dizia um taxista em S. Sebastian/Donostia em mil novecentos e oitenta e pouco, "Sabe, quando o Franco era vivo, éramos todos nacionalistas bascos, todos unidos, todos contra o Franco. Agora, ainda somos todos nacionalistas bascos, mas uns são socialistas, outros comunistas, outros populares... Já ninguém se entende!"
Por outro lado é mau. Uma empresa com o monopólio da exploração turística numa área tão grande não se contentará nunca com amendoins, ou seja, com passeios a pé ou a cavalo, guias de escalada ou de interpretação da natureza, da paisagem. Empresas assim querem ganhar muito, mas mesmo muito dinheiro. Como é que isso se faz? Não é com o turismo, nem com o ambiente, nem com a descoberta da vida selvagem, nem com a paisagem de montanha, nem com um real ordenamento da oferta turística, nem sequer com o esqui. Não, nada disso. A resposta correcta é: Construcção Civil. Vai daí, toca de urbanizar: venham mais 600 apartamentos nas Penhas da Saúde, saia um hotel e mais apartamentos entre a Varanda dos Carqueijais e o Sanatório, um Sanatório propriamente dito, e mais outra urbanização ou aparthotel em Manteigas, dois hotéis na Torre, mais apartamentos no Sabugueiro... E tudo isto acompanhado dos inevitáveis e indispensáveis apoios estatais e europeus, inevitável e indispensavelmente vultuosos...
Por outro lado é bom. Cantemos todos juntos: Se uma empresa estraga muitos montes, duas empresas estragam muito mais. Se duas empresas estragam muitos montes, três empresas estragam muito mais [continuar até já não haver montes por estragar].
Por ainda outro lado é mau. Se houvesse muitas empresas a investir no turismo da Serra, seria evidente para todos o que elas estavam a fazer: a tratar (com toda a legitimidade) da sua vidinha, ou seja, a fazer dinheiro com a Serra. Estaria tudo certo, desde que se cumprissem regras previamente definidas. Se uma empresa as não cumprisse, as restantes logo a denunciariam, acusando-a de concorrência desleal e, mesmo que tal não acontecesse, os responsáveis pelos orgãos fiscalizadores não teriam pruridos em fazê-la acatar a lei geral. Como só há a Turistrela, crê-se frequentemente (ou melhor, quer-se frequentemente fazer crer) que ela existe para desenvolver a Serra, para ordenar a oferta turística, para requalificar os espaços, enfim, uma empresa que desintressadamente trabalha para o bem da Serra e das suas populações. Neste imaginário, fabricado por vários responsáveis e órgãos de comunicação regionais e nacionais, a Turistrela é não uma empresa que, como as outras, visa o lucro, mas antes uma associação de benificiência para o desenvolvimento local, a quem deve ser reconhecida uma evidente utilidade pública... Ai, ai, coitadinhos, tão esforçados e caridosos que são os bons rapazes... E o Cântaro Zangado, tão mauzinho que é, só a criticar, a criticar...
Ainda há mais argumentos, a favor e contra o monopólio. O Cântaro não sabe por que lado há-de optar. Acha que o monopólio actual é péssimo, mas receia que, em alternativa, se opte por uma ainda pior liberalização do direito de saque. É que, na verdade, haja uma ou vinte turistrelas, por cá ninguém fiscaliza coisa nenhuma. Repito, o Cântaro não sabe por que lado há-de optar. Mas era bom que estas (e outras) questões se fossem discutindo porque, com ou sem monopólio, a Serra não é só deles...

sábado, março 25, 2006

A falta de sinalização

Oiço por vezes pessoas queixando-se de que não conhecem a Serra e que, por isso, têm receio de se aventurarem por ela adentro. Eu até acho que um grãozinho de incerteza apimenta um dia passado no monte. Seja como for, para muitos passeios não são necessários guias nem mapas, basta vontade de sair da cidade (coisa que a mim nunca me faltou). Faço as minhas corridas por estradas florestais que fui descobrindo pouco a pouco. Assim como eu, muitos covilhanenses aproveitam estes caminhos, para correr e passear. Não é necessário ser-se um montanhista bem batido, ou estar-se muito bem informado, para se passar uma tarde bem passada. Metemo-nos ao caminho e vamos vendo onde ele nos leva...
Se se fizer mesmo questão de planear e documentar a actividade com antecedência, podemos recorrer ao mapa 1:50000 do Parque Natural da Serra da Estrela, que assinala os trilhos de grande rota. Este mapa está disponível no Parque de Campismo do Pião. Os mapas do IGEOE (a série M888 a 1:25000) são os melhores, mesmo se desactualizados: mostram mato ou trilhos de pé posto onde em muitos locais há estradas alcatroadas e as cidades com uma fracção do tamanho que hoje em dia apresentam. Outra possibilidade, mais recente, é a do google earth. As fotos de satélite do google earth da encosta sudeste da Serra têm, como se pode ver na imagem, uma resolução mais do que suficiente. Infelizmente, não há google earth para linux...

sexta-feira, março 24, 2006

Saudades de dias de sol

Aqui há duas ou três semanas, fui correr na minha pista de atletismo favorita, a colina da Covilhã. Comecei de manhã, cerca das 8:15, no circuito de manutenção da Covilhã, e fui subindo, subindo. O ar estava límpido, mas uma neblina matinal brilhava no fundo do vale. Quando cheguei ao alto do circuito de manutenção, a paisagem era parecida com a que mostro na foto que ilustra este artigo, mas o céu era mais azul (não, não costumo correr carregado com uma máquina fotográfica; esta fotografia foi tirada noutro dia, noutro local). Continuei a subir, devagarinho. Quando cheguei ao Alto dos Livros, abriu-se para mim o magnífico panorama para oeste. Vi a zona da Varanda dos Pastores, ainda com muita neve. Voltei a reconhecer com a vista o trajecto de um passeio que quero fazer há muitos anos, das Pedras Lavradas para a Torre, que é cada vez mais urgente porque a cumeada que percorre (a Alvoaça) será ocupada por um parque eólico a partir já do próximo Outono. Do Alto Livros, segui pela linha de cumeada para a Pedra da Mesa e para o Alto de Piçarrinhas, o ponto mais elevado da colina da Covilhã. Aqui, parei alguns minutos para descansar um pouco e beber água. Para leste despontava ao longe, sobre a neblina do vale, a Sierra da Gata e, ainda lá mais ao fundo, a Sierra de Gredos, a neve brilhando ao sol. Recuperado o fôlego, iniciei a descida. Foi uma boa corrida (fiquei o resto do dia a meio-gás), um total de 16km, durante quase duas horas. Desnível acumulado: 460m. Ou seja, um jogging matinal equivalente a uma travessia da Serra da Arrábida...
E o que é que os leitores do Cântaro Zangado têm que ver com o meu jogging? Nada, desculpem. Mas é que já há tantos dias que não pára de chover... Bem sei que a água faz falta mas podia cair como neve... Ou só durante a noite.

segunda-feira, março 20, 2006

Símbolo

A plataforma Vall Fosca Activa, da Catalunha, propõe este símbolo para representar os vários movimentos de protecção das montanhas espanholas. Espero que eles não se importem que o Cântaro o use. Ao fim e ao cabo, a nossa Serra começa a nordeste de Madrid e acaba em Sintra, o que é lá uma fronteirazeca de nada? E o símbolo é bem apanhado (apesar de ter sido desenhado por um espanhol)!

E como se democratiza a fruição?

A mais recente contribuição ao blog PETUR:: Tráfego na Serra da Estrela pôs-me a pensar numa questão que é a da "democratização" da experiência da montanha. É que as "forças vivaças" argumentam frequentemente que não há direito que as belas paisagens estejam reservadas para os montanhistas, que aos mais idosos ou aos pais de crianças pequenas também deve ser dada a possibilidade de usufruir das maravilhas da serra, e que por isso se justificam mais e melhores acessos (leia-se estradas alcatroadas e teleféricos). Este argumento é, quanto a mim, um perfeito disparate! Ainda não tenho isto bem pensado, mas ocorre-me o seguinte:
  • em poucos contextos, como neste, é tão apropriada aquela frase que diz que o caminho é mais importante que o destino. Os melhores acessos reduzem a viagem a uma mera deslocação, logo, destroem o principal;
  • as estradas alcatroadas não destroem somente a viagem, destroem também o destino (ou, pelo menos, a sua ambiência) porque o massificam. Por exemplo, uma visita ao Poço do Inferno, perto de Manteigas, nos fins de semana de Verão, não tem interesse nenhum, porque o sítio está pejado de turistas barulhentos, que por ali param durante cinco minutos (o que investiram na deslocação, de automóvel, também não chega para mais);
  • a nossa capacidade para apreciar um local depende muito do esforço e do tempo que investimos para lá chegar. De alguma maneira, a disponibilidade que temos para um sítio ou uma paisagem e para as sensações que eles fazem despertar em nós depende, de maneira determinante, de uma preparação, um "aquecimento" físico e psicológico, incompatíveis com o espírito de uma voltinha dos tristes de carro ou de teleférico;
  • a satisfação que obtemos de um passeio na Serra não resulta apenas das paisagens que ele permite admirar. Uma caminhada na Serra é também, em grande medida, uma caminhada no interior de nós mesmos. A deslocação de carro fica simplificada, mas impede a igualmente essencial caminhada interior. Sem esta última, o passeio não é mais satisfatório do que ver um documentário sobre montanhas na TV;
  • muitas actividades humanas são consideradas altamente excitantes e compensadoras (não me refiro apenas a compensações materiais), por exemplo, a investigação científica ou a alta competição desportiva. Que sentido faz dizer que não há direito que a satisfação que se obtém da prática dessas actividades seja reservada somente aos que as praticam? Nenhum, claro. E será que aqueles que não têm nem formação nem treino terão acesso a essa satisfação só por lhes ser admitida a entrada nos laboratórios ou a participação nos eventos desportivos internacionais? Não, a verdade é que na investigação científica, na alta competição ou na Serra, quem não se dedica, não petisca! Como disse num dos primeiros artigos do Cântaro, quem da Serra pouco quer, pouco leva.
Em resumo, não há verdadeira fruição da montanha sem nos libertarmos das teias com que o dia-a-dia urbano nos entorpece. Para operar essa libertação, não há nada como algum tempo a sentir vento na cara, coração no peito e chão nos pés.
Portanto, é profundamente errada a ideia de que "democratizando-se" os acessos às maravilhas da Serra, se democratiza, também, a sua fruição.
Encerro este artigo com a conclusão da contribuição a que me referi no início:
Passear pela Serra não é passar pela Serra.

Serra da estrelaizar o Algarve? Não, obrigado!

Um amigo algarvio deixou na morada antiga do Cântaro um comentário curioso. Como o Cântaro Antigo está já quase acabado, transcrevo o seu comentário aqui.
Escrevo aqui uma resposta não ao tema "Sou fundamentalista", mas à frase "algarvear a Serra da Estrela". Como algarvio que sou, só posso repudiar essa afirmação, pois o Algarve é a zona mais bonita de Portugal (tirando os principais destinos turisticos, porque existe muito mais algarve além de Vilamoura ou Albufeira). E já fui à Serra da Estrela, e o espectáculo é deprimente (Torre), por isso espero é que nunca se Serra da Estrelar o Algarve. Cumprimentos
É claro que o Algarve é uma zona muito bonita. O que importa é que foi (e continua a ser) o palco de um modelo de "desenvolvimento" turístico que infestou (e continua a infestar) o resto do litoral e que agora quer invadir a Serra da Estrela. É a isso que eu chamo "algarveação" e parece-me que ao autor do comentário também não lhe agrada nada. É verdade que o lixo e os plásticos da Torre (um espectáculo deprimente, de facto, estou cansado de o dizer) são mais antigos do que a nova "algarveação", mas também é verdade que as duas tristezas não só não são incompatíveis, como parecem viver muito bem uma com a outra, na Serra como no Algarve!
Ah, mas paleio para quê? Acho que o autor do comentário e eu nos entendemos perfeitamente e parece-me até que concordamos um com o outro! Por mim, estou entusiasticamente disposto a apoiá-lo quando diz que espera que nunca se "serra da estreleie" o Algarve! Já agora, desejo também que se possa inverter a "serra da estrelaização" da Serra da Estrela e a "algarveação" do Algarve! É que as zonas bonitas que temos em Portugal são cada vez menos (e menores) e não aguentarão muitos anos desta selvajaria!

sábado, março 18, 2006

Fashion!

No Blog Montanha fiquei a saber que a Turistrela vai organizar um desfile de moda (ou lá como se chamam estes eventos) na estância de esqui. Deixei no Montanha um comentário que agora reciclo aqui para o Cântaro.
Enfim, desde que no final limpem o lixo todo, não tenho nada a dizer desta patetice (chamem-me cota, mas não só acho a moda uma futilidade, como me parece que os seus protagonistas ou são patetas ou fazem gala de o parecer), até porque patetices, cada um escolhe as suas. Agora, gostaria, mesmo, era de poder comentar, aplaudindo, outras iniciativas da Turistrela, que traduzissem verdadeiras apostas no ambiente serrano. Estou a pensar em operações de limpeza do lixo deixado pelos turistas, ou em apoios ao PNSE para reintrodução de espécies desapareceidas na Serra... Não é vocação de uma empresa turística como a Turistrela a realização deste tipo de iniciativas? E será-o mais, porventura, a projectada urbanização desenfreada das Penhas e da Varanda dos Carqueijais?
Na Malcata estão-se a dar passos firmes para reintroduzir o lince. Ainda bem, assim poderemos caçá-los, esfolá-los e fazer com as peles casacos para mostrar nas passereles destas não-sei-quê fashion...

quarta-feira, março 15, 2006

Sou fundamentalista?

Os representantes das "forças vivaças" (Turistrela, autarquias, comerciantes, e outros) defendem-se frequentemente dos que se opõem a certas formas de alegado desenvolvimento, acusando-os de fundamentalismo e eco-terrorismo. Sobre este último é curioso notar que o aplicam a pessoas que nada fazem senão manifestar a sua opinião. Bem sei que há ecoterroristas, mas cá em Portugal? É verdade que se diz que a canção é uma arma, mas daí até ao terrorismo... Adiante. Lembrei-me disto porque Carlos Pinto, o Presidente da Câmara da Covilhã, classificou (de forma mais ou menos encoberta, para usar a sua expressão) como "fundamentalismos mais ou menos encobertos" as motivações para a alteração do Plano Director do Parque Natural da Serra da Esprela (PNSE) (pode ouvir as suas declarações aqui). Já disse que, tanto quanto pude saber, as alterações em causa referem-se apenas aos limites territoriais do parque e são mínimas, excepto para a freguesia do Sarzedo, mas enfim.
Hoje quero falar noutra coisa. É que, a propósito destas declarações de Carlos Pinto, tenho andado a pensar no significado da palavra "fundamentalismo". Um dicionário on-line diz o seguinte:
fundamentalismo: s. m., Relig., aceitação e defesa de um conjunto de princípios de natureza religiosa tradicionais e ortodoxos tidos por verdades fundamentais e indispensáveis a uma consciência religiosa (individual ou colectiva).
OK, parece-me óbvio que não é com este o significado que Carlos Pinto e outros usam este termo quando o aplicam ao movimento ambientalista. Qual poderá ser? Não sei. Mas quero dizer o seguinte:
  • se é fundamentalismo defender um espaço quase selvagem, sem estradas, edifícios ou postes (de teleféricos ou de alta tensão), só porque se apreciam esses espaços, sou fundamentalista;
  • se é fundamentalismo estranhar que, mais de trinta anos depois da criação da Turistrela (desde o início concessionária em regime de monopólio da exploração turística no espaço da Serra) quase não haja vestígios de aposta no turismo de natureza, para além da sinalização de trilhos pedestres (principalmente pelo PNSE), então sou fundamentalista;
  • se é fundamentalismo acusar as "forças vivaças" (começando pela Turistrela) de estarem a contribuir para a poluição, desclassificação e desordenamento do espaço de montanha e a projectar ainda mais atropelos, sou sim, sou fundamentalista;
  • se é fundamentalismo mostrar que não estamos condenados a gozar a serra em voltinhas dos tristes (de carro ou de teleférico), mas que é a isso que nos estão a condenar as "forças vivaças", então sou, sou pois, fundamentalista;
  • se é fundamentalismo criticar as autarquias por asfaltarem a torto e a direito, exigirem rédea solta para a construção, autorizações para casinos e apoios para centros comerciais na montanha, mas quase não se ouvirem a propósito da de reflorestação ou de protecção às espécies em perigo de extinção e reintrodução das já extintas, ou de apoios para outro tipo de turismo (que o há!) então, sim, sou fundamentalista;
  • se é fundamentalismo achar que não está correcto multiplicar por toda a Serra os espaços urbanos deprimentes onde tantos deixam escorrer sem verdadeiro gozo, aparentemente sem imaginação para melhor, as tardes dos fins de semana, então sou, claro que sou (e orgulhoso disso!), fundamentalista.
Voltemos a usar a linguagem com propriedade. Não me parece que, por apreciar espaços selvagens e, por isso, pretender que sejam preservados, se possa considerar que sou fundamentalista. Serei, quando muito, esquisito (no sentido de incomum). Ah, mas olhemos à nossa volta. Serei assim tão esquisito? Não o serão ainda mais os representantes das "forças vivaças"? E não serão também esquisitos os consumidores do produto que elas vendem?

sexta-feira, março 10, 2006

A lógica das avalanches

Um dos argumentos da Turistrela para a ampliação da estância da Torre é que os espanhóis de La Covatilla (outra estação pequena e triste, num sítio onde não há condições adequadas para um ski realmente satisfatório, aqui perto da fronteira) estão a proceder a ampliações e investimentos (com muito mais cuidado do que nós, os hotéis e urbanizações projectados ficam-se todos pelo sopé do monte, na cidade de Bejár) que supostamente tornarão a estância portuguesa menos competitiva. Paralelamente, os projectos da Turistrela parecem também preocupar os espanhóis, como se pode constatar na notícia de abertura de um blog espanhol sobre a estância da Torre, de onde seleccionei o seguinte fragmento:

Si realmente saliera un proyecto así [estância da Turistrela], mucho me parece que no solo Sierra de Bejar la Covatilla tendría una dura competencia a la que se le podría escapar esquiadores españoles, sinó aquellas estaciones de esqui que acogen esquiadores portugueses como San Isidro o Pajares que verían mermadas sus visitas en algun porcentaje, por no hablar del casi seguro cierre de Manzaneda.
Onde irá acabar esta autêntica corrida de ratos?

Outro exemplo desta lógica das avalanches é a posição de João Tilly sobre a urbanização selvagem das Penhas da Saúde, que ficamos a conhecer neste artigo do seu blog. João Tilly (que penso ser deputado na Assembleia Municipal de Seia) acha que, como a

"Turistrela vai construir mais 1000 (MIL!) casas nas Penhas da Saúde", "rebenta com Seia de vez, se nenhum esforço continuar a ser feito para alterar este catastrófico estado de coisas para o Turismo que (ainda) teima em subir a Serra pela nossa encosta - a mais bela da Estrela. Enquanto os Costa Pais investem milhões no lado de lá da Serra, conferindo-lhe cada vez maior visibilidade e ofuscando a cada dia que passa a nossa encosta,[...]"
Parece-me que o número indicado é um exagero (todas as declarações que apresentam valores falam "apenas" de mais seiscentos apartamentos), mas não há nada como um forte safanãozito para iniciar uma boa avalanche. Note-se também o cuidado com que explicita "o Turismo que (ainda) teima em subir a Serra pela nossa encosta". Quando se fala de turismo na Serra da Estrela fala-se de quê? De turistas a subir para a Torre, pois claro. Aqui temos Seia (mas é o mesmo nos outros concelhos) vista apenas como via de passagem para o el Dorado da Torre, e não como lugar com interesse próprio.

Porque as avalanches existem e são coisas más (principalmente as deste tipo), sugiro que se tente travar esta antes que tome proporções incontroláveis.

Lá que as há...

Ainda a rejeição do Plano de Ordenamento (PO) do Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE). O Jornal do Fundão dá hoje conta do acontecimento, e recolhe uma série de "sound bytes" dos presidentes das Juntas de Freguesia mais integradas no território do PNSE, que são presididas (como quase todas as freguesias do Concelho da Covilhã) pelo PSD, o partido que preside também à Câmara e à Assembleia Municipal (com maioria absoluta). A propósito de uma dessas declarações, segundo a qual "Os novos limites [do PNSE] para as Cortes não trazem nada de novo mas não queremos um PNSE sem pessoas. A freguesia está limitada no seu desenvolvimento", deixei este comentário no Blogue Cortes do Meio (corrigi-o agora ligeiramente):
Volta o chato do costume. É que estou cansado de um discurso de generalidades e abstracções. Bem sei que é só o que cabe na caixa alta dos jornais ou nas caixinhas como a que seleccionaram do JF mas, mesmo assim... Gostava de ver explicado, no caso concreto das Cortes (e nos outros também) de que maneira, ao certo, é que o plano de ordenamento (PO) agora rejeitado despovoaria a região do PNSE e limitaria o desenvolvimento da(s) freguesia(s). Não estudei este PO (esteve ou está disponível para consulta pública?) mas, pelo que pude perceber da leitura dos vários jornais que deram esta notícia, as alterações introduzidas no novo plano de ordenamento referem-se apenas aos limites geográficos do parque e são mínimas, excepto no caso da freguesia do Sarzedo. Ou seja, se fiquei bem informado, o PO agora em discussão não colocará nem mais, nem menos entraves ao desenvolvimento (seja lá o que for que se entenda por isso) nem levará a um maior despovoamento das freguesias do que o que tem vigorado. Ainda a crer no que li, portanto, não se justificará o alarme do Vereador João Esgalhado sobre a continuidade da rampa automobilística (ora aqui temos uma intervenção bem esgalhada! Nota-se que o Sr. Vereador compreende bem a importância do que está em jogo!) Portanto... Parece-me que nos estão a atirar fumo para os olhos, que se está mas é a aproveitar esta questão de gestão do parque para tentar acabar com ele ou, pelo menos, para reforçar (ainda mais, e mais uma vez) a sua imagem negativa. Eu não acredito em bruxas, mas lá que as há...
E depois venham lá falar dos anseios das populações rurais e das legítimas pretensões de desenvolvimento... Como já disse noutro artigo, estranho que todas as oposições se tenham abstido nesta questão.

Ponto da situação

Covão Cimeiro Para servir de referência mais próxima aos atentados que se preparam e se perpetram na Serra, pretendo passar a publicar este artigo no início de cada mês, com os acrescentos e correcções que a situação e a minha percepção dela forem ditando. Pretendia inicialmente fazer aqui uma enumeração neutra dos projectos, mas nem sempre resisto a meter uma colherada de opiniões ou comentários.

Estradas Teleféricos Construções Esqui Personalidades Siglas

Estradas

  • Decorrem obras para a conculsão da estrada de asfalto entre a Portela do Arão e a Lagoa Comprida. Apesar de ser ter afirmado que se trata de uma estrada de terra que já existia (recordo-me de ter lido esta opinião, mas já não tenho as referências), nada consta nas cartas do instituto geográfico do exército (ou nas minhas memórias do local anteriores aos anos noventa).
  • Está decidida a asfaltação do caminho entre a Vila do Belo Horizonte e o Covão do Ferro. Este acesso de Unhais da Serra à Nave de Santo António foi iniciado há alguns anos, mas interrompido porque, segundo Lemos Santos afirmou no blogue Tráfego na Serra da Estrela, se revelou (já depois da obra bem avançada) incomportável a resolução de certos problemas técnicos e financeiros. Está-se a ver como a coisa foi bem planeada e os estudos de impacto ambiental e de viabilidade técnica e financeira bem realizados... Das palavras deste responsável no referido blogue, fiquei com a impressão (mas cada um que tire as suas conclusões depois de ler o blogue) de que a construção desta estrada tinha ficado combinada entre a Câmara da Covilhã e o grupo IMB, da Covilhã, responsável pela reabertura das Termas de Unhais. (Se, de facto, tenho razão, trata-se, como se vê, de mais um daqueles anseios das populações rurais...)
  • No ano de 2005, foi asfaltado mais um pedaço do acesso entre Manteigas e o Poço do Inferno. O acesso já estava todo asfaltado, mas levou-se a beneficiação mais longe, até ao sítio chamado Cova. Simultaneamente, foi também asfaltado um caminho estreito que desce de perto do Poço do Inferno, e que se dirige ainda não sei onde.
  • Foi arranjado com carradas de brita uma parte do acesso entre as Portas dos Hermínios e a Bouça. Foi também rasgado a tractor um novo acesso entre as Penhas da Saúde e a Malhada do Prior
  • Parece ganhar força a proposta da criação da Estrada Verde, entre a Guarda e o maciço central. Antes ainda do projecto estar terminado (projecto? Parece nem sequer estarem ainda definidas as linhas gerais do traçado!) uma primeira ofensiva foi anunciada aqui. Uma das coisas que me chama a atenção neste anúncio é que as palavras de José Manuel Biscaia parecem indicar que o que ele tinha em vista era uma nova estrada até à própria Torre!

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Teleféricos

  • Turistrela, RTSE, Câmara da Covilhã propuseram e submeteram ao programa PITER para financianciamento, a contrução de um teleférico para a Torre do lado da Covilhã. Inicialmente sugeria-se que este teleférico teria inicio nas Penhas da Saúde ou nos Piornos, locais já relativamente degradados (o primeiro é um aldeamento, no segundo há já um parque de estacionamento) mas agora (ver o suplemente Local (Centro) do Público de 15 de Fevereiro) diz-se que só é viável a construção até à barragem do Padre Alfredo, o que irá obrigar à construção de um parque de estacionamento e acessos num local absolutamente idílico e com muito interesse para a prática de montanhismo e outras actividades mais relacionadas com turismos de natureza.
  • A Turistrela e a RTSE propõem a construção de um teleférico entre a Lagoa Comprida e a Torre. Espantoso é que como lhes parece que não há, próximo da estrada nacional, espaço suficiente para a construção de um parque de estacionamento com as dimensões que acham necessárias (ver o mesmo artigo do suplemente Local (Centro) do Público de 15 de Fevereiro), pretendem o início deste teleférico a partir do extremo oriental da Lagoa, um sítio igualmente belíssimo. Ainda por cima é local de passagem do trilho de Grande Rota T1. A construir-se este teleférico, o troço do trilho entre a lagoa comprida e a torre ficará "à sombra" dos postes e das cabines!
  • Outra proposta do mesmo "pacote" foi a da abertura de um teleférico entre Alvoco da Serra e a Torre. No artigo já citado do Público, informa-se que este empreendimento ficará a aguardar estudos técnicos mais detalhados.
  • Foi ainda sugerido pelo presidente da Câmara Municipal (ver "O Interior" de 28 de Abril de 2005 ou aqui) da Covilhã a construção de um teleférico entre Unhais da Serra e as Penhas da Saúde.

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Construções

A fonte para tudo o que aqui apresento é um suplemento para-publicitário do Jornal do Fundão de 29 de Abril de 2005. Tem havido várias outras referências na imprensa regional e nacional a alguns destes projectos
  • Torre
    • Estalagem da Torre: Aproveitamento da antiga messe dos oficiais da base de radares para um hotel de 4 estrelas com 21 quartos e uma suite
    • Esqui Hotel: Construir sobre o "bunker" de apoio ao esqui um hotel de 4 estrelas com 18 quartos e 2 suites, "em perfeita harmonia com a magnífica paisagem circundante"
    • Edifício de apoio à estância: A Turistrela pretende "requalificar" uma das torres de radar para funcionar comoposto de venda de forfaits e de aluguer de material
  • Piornos (Perto do Centro de limpeza de neve)
    • Spa: No suplemento do JF que citei, apenas se refere que se pretende aproveitar "o espaço ocupado por um antigo edifício, que ao longo de mais de 20 anos tem sido uma mancha na paisagem pela degradação e abandono que apresenta (...)". O edifício em questão é a estação inferior do antigo teleférico Piornos - Torre, que foi construido mas nunca chegou a funcionar (como se vê, isto dos teleféricos é uma maluquice reincidente). Todas as outras estruturas (poste central e estação superior, na Torre) foram demolidas e removidadas. Porque é que esta "mancha na paisagem" não teve o mesmo destino? Quem se terá oposto?
    • Pavilhão multiusos Depreendo que os Piornos serão o sítio onde se projecta a implantação desta estrutura a partir da fotomontagem que ilustra o artigo, mas já pude ler que se pretendia antes localizá-la nas Penhas da Saúde. Deseja-se que este espaço tenha capacidade para três mil pessoas.
  • Penhas da Saúde
    • "Empreendimento casas e apartamentos": Pretende-se a construção de seiscentos apartamentos...
    • Centro comercial
    • Centro de estágios desportivos
    • Casino
  • Da Varanda dos Carqueijais às Portas dos Hermínios (Zona do antigo Sanatório dos Ferroviários)
    • Hotel de Charme: reconstrução do antigo sanatório
    • Restaurante
    • Conjunto turístico constituído por "24 moradias com rés-do-chão, primeiro andar e sótão e 15 de rés-do-chão", ocupando uma área de 97000m2, complementado por um circuito de manutenção [Permitam-me um àparte pessoal: trata-se da zona onde muitas pessoas (eu incluído) praticam jogging, partindo da estrada do Pião ou do circuito de manutenção da Covilhã, mais a baixo. Acreditem, não faz falta nenhuma um circuito de manutenção ali.], uma piscina (há outra, normalmente deserta ou quase, na estalagem da Varanda dos Carqueijais, do outro lado da estrada), campos de ténis e, ainda, um aparthotel. Mas não nos preocupemos, "De forma a integrar o empreendimento na paisagem e a salvaguardar a mancha verde envolvente, as infraestruturas, nomeadamente, os arruamentos, foram reduzidos ao mínimo (...)"
  • Sabugueiro
    • Aqui a Turistrela anuncia que quer construir, num terreno com vinte e um hectares, um aldeamento de montanha com 280 fogos. O que a Turistrela entende sobre qualidade urbana em espaços de montanha fica definido no primeiro parágrafo deste anúncio: "Com o título da "Aldeia mais alta de Portugal", o Sabugueiro é hoje uma aldeia modernizada e um grande centro turístico em permanente evolução."
Há ainda projectos de um aparthotel em Manteigas (Turistrela) e está-se a construir uma estância termal em Unhais da Serra (grupo IMB). Sobre estas construções nada tenho a dizer, desde que não invadam grandes extensões de espaço extra urbano. Por outro lado, como disse no tópico Estradas, suspeito que a revitalização das termas de Unhais avançou apenas depois de a Câmara se comprometer com a asfaltação do caminho Unhais - Covão do Ferro. Não serão dados apoios autárquicos semelhantes ao empreendimento do aparthotel de Manteigas?

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Estância de esqui

(Fica para breve...)

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Algumas Personalidades

  • Carlos Pinto, presidente da Câmara Municipal da Covilhã
  • José Manuel Biscaia, presidente da Câmara Municipal de Manteigas
  • Eduardo Brito, presidente da Câmara Municipal de Seia
  • Jorge Patrão, presidente da Região de Turismo da Serra da Estrela
  • Artur Costa Pais, proprietário e administrador da Turistrela
  • Lemos dos Santos, Coordenador da Acção Integrada de Base Territorial da Serra da Estrela
(Esta lista encontra-se gravemente incompleta)

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Siglas

  • PNSE: Parque Natural da Serra da Estrela
  • RTSE: Região de Turismo da Serra da Estrela
  • AIBTSE: Acção Integrada de Base territorial da Serra da Estrela

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Refira-se que alguns dos projectos (ou todos?) aqui referidos foram submetidos para financiamento pelos programas PITER e/ou PENT.

quarta-feira, março 08, 2006

Ainda a decisão da Assembleia

Nesta notícia, publicada pelo jornal Notícias da Covilhã, podemos encontrar mais alguns detalhes da reunião da assembleia que "rejeitou" o projecto de ordenamento do Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE). Ficamos a saber, por exemplo, que
António João Rodrigues, presidente da Junta de Unhais da Serra, foi um dos mais críticos na última Assembleia municipal. O autarca acusa o PNSE de “nunca ter feito nada pela vila” e que a imposição do Plano de Ordenamento “não está de acordo com os legítimos interesses da população, porque vai contra os objectivos urbanísticos e de aproveitamento energético” que estão previstos.
Esta posição do Presidente da Junta de Freguesia de Unhais da Serra inspira-me os seguintes comentários:
(1) ao certo, quais são as obrigações do PNSE no que toca a fazer "alguma coisa pela vila"? É bom que se tenha esta questão bem esclarecida, para se poder avaliar se essas alegadas obrigações estão, ou não, a ser cumpridas. Vamos aos estatutos do Parque?
(2) as vagas referências do Presidente da Câmara sobre os "anseios das populações rurais" (ver o meu comentário a este artigo do Blog Cortes do Meio) ficam melhor explicitadas. Os das populações da freguesia de Unhais estão aparentemente relacionados com "objectivos urbanísticos e de aproveitamento energético".
Compreende-se que os populares de Unhais sintam o PNSE como uma "seca" urbanística, que os obriga a ainda mais uma autorização para construirem qualquer coisa, para além das chatices impostas pela Câmara (as que tive com a Divisão de Urbanismo, por causa de um barbecue com 3m2, ao longo de todo um ano, davam um blog só por si).
Mas quanto aos aproveitamentos energéticos (penso que se trata da instalação de um parque eólico na Erada), custa a acreditar que as populações de Unhais da Serra estejam cabalmente informadas sobre questões energéticas e fortemente empenhadas em conseguir, para a sua freguesia, um parque eólico... É bem sabido que a autarquia lucrará com a instalação do parque e a sua entrada em funcionamento. Mas esse lucro destina-se apenas à junta de freguesia onde o parque está instalado, ou é atribuído ao concelho, sendo gerido pela autarquia, distribuído pelas freguesias que ela entender? Eu não sei, não conheço bem os termos em que se planeia a instalação dos parques eólicos. Mas, mesmo sem fazer esse estudo, duvido muito que o cidadão comum de Unhais venha a sentir pessoalmente grandes vantagens com estes empreendimentos de "aproveitamento energético".
O "Cântaro" é a favor da energia eólica, embora ache que haver cuidados com a localização dos parques, porque colocam localmente problemas ambientais óbvios. Por exemplo, só para falar de impactos sobre pessoas, os aerogeradores são muito barulhentos. Compreende-se que parte dos inconvenientes possam ser compensados através de apoios às autarquias, mas em quê é que isso, directamente, afecta as populações? [Estou mesmo a ver o filme: graças ao parque eólico, a autarquia ganha uns cobres extra, parte da massa é entregue à junta de freguesia, que gasta o dinheiro no arranjo um jardinzito dentro de uma rotunda, na "sinalização" (com tractores e carradas de brita) de um novo "trilho pedestre" para automóveis, ou noutra inutilidade do mesmo calibre...]
Ainda há alguns meses, houve uma freguesia do Sabugal que boicotou umas eleições porque não foi autorizada a instalação de mais aerogeradores num parque eólico próximo. Em contrapartida, no ano passado, na Eslovénia, gerou-se um forte movimento para impedir a criação de um parque eólico ao longo da linha de cumeada de umas montanhas que eles têm próximo da fronteira sul, com a Croácia. E venceram! Mas é claro que a Eslovénia, um paízeco com dois milhões de habitantes, não precisa tanto de desenvolvimento como Portugal, eles podem-se dar a certos luxos...

segunda-feira, março 06, 2006

Discursos e tomadas de posição

Esta notícia, (de que tive conhecimento no blogue Montanha) sobre o arranque da beneficiação de um troço da futura chamada "Estrada Verde" é arrepiante. Pode aí ler-se que esta estrada ainda não tem projecto concluído. No entanto, Joaquim Valente, o presidente da Câmara da Guarda, explica, preto no branco, que "Esse troço é o primeiro da estrada verde e qualquer obra, depois de se começar, tem de ser concluída". Se isto não é a usual tática do facto consumado, não sei o que seja. O que arrepia é que possa ser assim, impunemente, apregoada!
Na mesma notícia podemos ler declarações de José Manuel Biscaia, presidente da Câmara Municipal de Manteigas que são menos arrepiantes, mas apenas porque não se percebe bem o que diz. Por exemplo, "se não tivermos a estrada verde a Guarda fica altamente prejudicada e a Serra também." Porquê? Em quê? Quem quiser responder, por favor seja concreto, nada de generalidades abstractas como "a estrada verde será um benefício para todos porque é exactamente uma porta de entrada para uma mostra grande, para uma imagem já firmada que é a imagem Serra da Estrela". Que tipo de turismo está subjacente a esta obsessão das acessibilidades? É esse tipo de turismo que queremos desenvolver ainda mais?
Arrepiante, também, é esta outra notícia (a que tive acesso no Blogue Cortes do Meio), sobre a oposição da Assembleia Municipal da Covilhã à proposta de revisão do Plano de Ordenamento do Parque Natural da Serra da Estrela. Não conheço o plano, não me posso pronunciar sobre ele. Mas vejam bem estas posições, lavradas na moção que foi aprovada: "O PNSE deve conciliar os objectivos de preservação dos especiais valores naturais, com as legítimas pretensões de desenvolvimento", sim, sim, o PNSE deve preservar apenas os canteiros da sua sede, porque tudo o resto é inconciliável com as legítimas pretensões de desenvolvimento. "A revisão pretendida pelo Parque cria dificuldades para a execução do protocolo celebrado entre o Governo e a Turistrela". Ah! Ele há um protocolo? Será compatível com as funções do PNSE, da Rede Natura e da reserva biogenética? Será função da Assembleia Municipal defendê-lo? Podemos consultar esse protocolo? Ou não nos diz respeito por não termos legítimas pretensões de desenvolvimento? A "proposta de revisão proposta pelo PNSE inviabiliza intenções de investimento turístico na Torre, Piornos, Penhas da Saúde e Varanda dos Carqueijais". Parece-me que, depois de subtraídos ao PNSE a preservação destes espaços e outros que venham a ser objecto de legítimas pretensões de desenvolvimento e ainda os que forem necessários para as várias estradas verdes, o que sobra não deve ser muito mais do que os canteiros da sua sede, em Manteigas.
Arrepio por arrepio, é também notável o causado pelo facto de os partidos da oposição se terem abstido nesta deliberação! Como é costume dizer-se, quem cala, consente! O Cântaro envia daqui os seus irónicos agradecimentos às bancadas do BE, do PCP e do PS.

A serra e o esqui

Acabo de deixar este post (editei-o aqui ligeiramente) num blog sobre a estância de esqui da Torre.
Parece-me que é bastante consensual neste foro a opinião de que a Torre não é grande coisa como estação de esqui (tenho a mesma opinião sobre La Covatilla, mas isso não vem agora ao caso). Menos, mas muitos ainda, acham que, dadas as condições físicas (altitude, humidade, temperatura, etc), esta realidade nunca se irá alterar significativamente. Talvez se agrave, até, com o aquecimento global. Pessoalmente, parece-me que, para que o esqui possa ser uma aposta séria, o que faz falta não é mais quilómetros de pistas nem mais canhões de neve, melhores estradas ou mais eficiência a mantê-las transitáveis quando neva, precisa-se é de outra montanha encavalitada em cima desta, ou esta transportada 2000 km para norte.
No entanto, continua-se a dizer que esta estância tem muita importância para o desenvolvimento da região! Num certo sentido, até concordo: trata-se, contudo, de uma importância negativa! Por causa desta estância, está-se a alcatroar a serra toda, estão-se a urbanizar zonas que deviam permanecer intocadas por este tipo de desenvolvimento, projectam-se teleféricos que irão transformar em parques de estacionamento zonas belíssimas (falo do covão do ferro e da extremidade oriental da lagoa comprida), etc, etc, etc. Por causa desta estância, as populações das aldeias da serra são levadas a pensar que o seu progresso depende unicamente da venda de queijos e de artesanato duvidoso e do aluguer de trenós de plástico, pelo que são necessárias ainda mais estradas
para a Torre (uma por cada concelho, pelo menos). Por causa desta estância, ninguém vê o que a serra tem de mais prometedor e aproveitável, as suas paisagens e o seu ambiente. Por causa desta estância, a Serra está a ser, pura e simplesmente, destruída. Sei que os que vêm a este forum estão-se, na sua maioria, a marimbar para estas questões, tal como parecem estar as "forças vivas" (Turistrela, autarcas, região de turismo, entre outros) por trás destas propostas. Desculpem estar a aborrecer-vos. Eu também gosto de esquiar, mas não gosto da serra *só* para esquiar e não consigo fechar os olhos a tudo o que se passa à volta do esqui. Aquilo que se está a projectar na Serra, concretizando-se, vai transformar a serra numa aberração como o Algarve (bem sei que há quem goste, mas não deixa de ser, para mim e para muitos, uma aberração).
Vou repetir algo que já aqui disse há alguns meses: a Serra é o que é: uma maravilha, mas não para a prática de esqui. Os fiordes da escandinávia são o que são: uma maravilha, mas não para gozar praia como no Mediterrâneo. As coisas são assim. Só gostava é que deixassem de dar cabo da serra tentando à força formatá-la como algo que ela não será nunca! E digam-me uma coisa: que raio de obsessão é essa de esquiar em Portugal? Isto do orgulho de ser português depende de podermos esquiar em Portugal? Se o esqui a sério é na Serra Nevada, Pirinéus ou mais longe ainda, como muitos aqui o dizem (e eu concordo)... Ainda se fosse mais barato... Mas não é, nem será. A estância vodafone continuará incrivelmente cara (isto é, literalmente, custa a crer que haja quem pague o que pedem) porque é única e os seu administradores aproveitam-se (e bem, trata-se de maximizar o lucro, qualquer gestor competente o faria) desta obsessão que questiono...
Aquilo que estamos a tentar fazer na Serra faz tanto sentido como encher com areia da praia quatro hectares do Alentejo na tentativa de vender a experiência da condução TT no deserto, e dizer que o desenvovimento do Alentejo depende da ampliação duma tal parvoíce para 50ha!

sexta-feira, março 03, 2006

Faça-se uma experiência

(Covão do Ferro)
Propõe-se a construção de teleféricos para a Torre, alegadamente para se diminuir a pressão rodoviária na Torre. Isso só se verificará se a estrada nacional 339 (a estrada da Torre) for cortada, porque o visitante comum, viajando em família no seu automóvel ou integrado numa excursão, preferirá, quase sempre, continuar no seu veículo até onde puder. Se não se encerrar a estrada nacional 339, os teleféricos apenas servirão para permitir aos esquiadores chegar às pistas, mesmo com neve ou com congestionamentos de tráfego. (Se é para isso que se querem os teleféricos, porque é que não se diz isso mesmo, claramente?)
Para se aferir a viabilidade do projecto, o Cântaro Zangado propõe aqui que, antes que se gaste mais dinheiro e antes que se cometam mais agressões ao ambiente da Serra (1), se experimente com autocarros públicos. Corte-se o trânsito para a Torre nalguns fins de semana (é só para fazer a experiência), nos Piornos e no Sabugueiro, e levem-se os turistas, devidamente informados da natureza do exercício, até à Torre de autocarro. Para compensar os visitantes, até se poderá dispensá-los de pagamento (falseando um pouco a experiência, mas vá). Para financiar esta experiência, recorra-se a verbas públicas ou europeias, como as que se usarão para construir os teleféricos. Desta experiência recolher-se-á alguma informação, que talvez possa ser útil para se fazer uma avaliação prévia do que poderá acontecer com as telecabines.
Ainda sobre os teleféricos, no Público de 15 de Fevereiro a que me já me referi no artigo Um pontapé no estomago diz-se, a páginas tantas, o seguinte: "Já no que toca à ligação Torre-Penhas da Saúde, por enquanto é dado apenas como viável o percurso até à barragem do Padre Alfredo." Quem pensava que o pior impacto (associado ao indispensável parque de estacionamento) ia ser sentido nas já urbanizadas Penhas da Saúde ou nos Piornos, onde já há um parque de estacionamento, desengane-se. Levando por diante este importante e indispensável projecto, teremos que construir um parque de estacionamento (como aquele que, de tão grande, não encontra espaço perto da barragem da Lagoa Comprida) no Covão do Ferro, perto da barragem do Padre Alfredo. Esta barragem é aquela que se encontra ao fundo, do lado esquerdo quando se sobe para a Torre de carro, depois do Centro de Limpeza de Neve. Na imagem que ilustra este artigo, pode ver-se um pouco do muro da barragem, perto do canto inferior esquerdo.
Transformar o Covão do Ferro num parque de estacionamento? Não, obrigado!
(1) Bem sei que, como sempre, as coisas serão feitas com todo o cuidado, ao abrigo de estudos de impacto ambiental, etc. Mas é que, reconheça-se, tudo tem um certo impacto. Até a escalada ou as caminhadas podem constituir uma agressão, se não houver respeito por parte dos praticantes.

quinta-feira, março 02, 2006

O que é que é notícia?

O que vi da serra na televisão durante o carnaval foi que a neve caía e que os turistas não podiam chegar à pista de esqui. Vi imagens de pessoas a escorregar em plásticos ou trenós na pequena praça à frente do parque de campismo das Penhas da Saúde, a aproveitar o que podiam na impossibilidade de chegarem à Torre. Alguns destes turistas foram entrevistados, naquelas entrevistas sem inspiração, em que o jornalista nada tem a perguntar a pessoas que nada têm a dizer, mas mesmo assim a entrevista acontece, como a que se segue: Pergunta: "Então, o que acha da neve?" Resposta: "Ah, acho bonita..." Pergunta: "Está a gostar?" Resposta: "Ah, sim, muito..." Pergunta: "E o que acha de as estradas estarem cortadas?" Resposta: "Ah, pois, é pena..." E, no entanto, outros turistas visitaram a Serra durante o carnaval, turistas que não vinham apenas ao ski (ou ao sku). Ficaram acampados no Covão da Ametade, curtiram alegremente (uns mais, outros menos, claro) os nevões que lhes cobriram as tendas, chegaram pelos seus pés à Torre, subindo por trilhos cobertos de neve. Turistas que se divertiram (uns mais, outros menos, claro) durante as miniférias e não ficaram desapontados por as estradas estarem cortadas. Ainda não sei quantos foram este ano, mas houve edições (e já lá vão mais de vinte, uma por ano) em que se reuniram mais de 400 turistas montanheiros no Nevestrela. Não sei porquê, este ano nenhum orgão de comunicação (que eu saiba) considerou este acontecimento notícia, nenhum entrevistou uma destas pessoas, que (imagino) teriam muito melhores histórias para contar do que as que ficaram na vizinhança dos hotéis à espera que a estrada fosse desimpedida, balbuciando "Ah, sim, a neve é bonita...", "Ah, sim, as estradas estão cortadas..." Note-se que não pretendo fazer publicidade ao Nevestrela, agora já tardia. Participei no Nevestrela uma única vez há quinze anos e achei que era gente a mais para o meu gosto. Só quero mostrar que há outras maneiras de gozar a Serra, que há clientela para outros turismos, mesmo que este ano não cheguem (vá-se lá saber porquê) aos telejornais.
Algarvear a Serra da Estrela? Não, obrigado!