sexta-feira, abril 04, 2008

Tribunal Espanhol Trava Estancia de Esqui


Ficámos a saber de uma decisão inédita de um tribunal espanhol que revoga a autorização concedida pela Junta local de construir uma estância de esqui com 50 km de pistas acima dos 1500 metros de altitude num Parque Natural da provincia de Castela e Leão.

Além das condicionantes de se encontrar dentro de uma área protegida e de zona importante de ursos, o tribunal alegou tambem a manifesta ausencia de viabilidade de uma estância a estas altitudes e latitudes face ao aquecimento global comprovado que tem provocado uma clara diminuição real da queda de neve. Entre outras criticas o tribunal evidencia tambem a falta de Planos de Desenvolvimento Turistico, Planos de Uso e Gestão e Plano de Melhorias.

Parece-vos familiar??

Para informações mais detalhadas e mesmo sobre a dita sentença ver um blog espanhol e o publico de hoje.

8 comentários:

Osvaldo Lucas disse...

"alegou tambem a manifesta ausencia de viabilidade de uma estância a estas altitudes e latitudes face ao aquecimento global comprovado que tem provocado uma clara diminuição real da queda de neve"

Aquecimento global comprovado (? :) ) mas admito que localmente possa haver variações no sentido do aquecimento.
As razões de ordem administrativa/legal/ecológica invocadas pelo tribunal parecem-me razoáveis, mas não compreendo que esta instância tenha algo a ver com a viabilidade económica, ou não, de um dado empreendimento. O risco será dos promotores.

Anónimo disse...

"...mas admito que localmente possa haver variações no sentido do aquecimento."
Bem, se colocarmos esta hipotese num contexto galactico também creio que o planeta terra possa ser considerado apenas "um local".

Pessoalmente parece-me incrivel alguém considerar um negocio viável uma estância de esqui a cotas inferiores a 2000 metros.
Não sei... o recuo GLOBAL alucinante dos glaciares podem bem ser uma ilusão, ou uma propaganda dos ambientalistas...

Quanto ás medidas tomadas pelo tribunal espanhol só tenho a dizer o seguinte: isso aconteceu em Espanha, não aqui em Marrocos.

Paulo Roxo

TPais disse...

Ola' Osvaldo,
O aquecimento Global e ja' agora o Arrefecimento Global sao fenomenos ciclicos e normais no Clima Terrestre.A questao e a grande discussao esta' centrada na origem deste periodo de aquecimento:Sera' apenas uma anomalia pontual (e "pontual" em questoes de clima pode chegar a 100 anos!) ou sera' realmente o inicio de um crescendo de temperaturas provocado pela actividade humana de queima de residuos fosseis? Seja como for a realidade e' que estancias a baixa altitude tem cada vez menos hipoteses de viabilidade. E neste caso o tribunal considerou a viabilidade da estancia como um factor a ter em conta pois um dos argumentos utilizado pela Junta local era exactamente o potencial de desenvolvimento economico local associado ai funcionamento da estancia. A Junta pretendia desta forma considerar a estancia como um factor exceptional que permitisse alterar o plano de Ordenamento local que na sua versao original nao contemplava empreendimentos da natureza que a Junta pretendia autorizar.
Quanto ao risco ser dos promotores tambem nao vejo as coisas bem assim. E' que por exemplo num estudo de impacte ambiental sao avaliados os pros e os contras de determinado empreendimento. Se os pros forem postos em causa pela viabilidade do empreendimento entao estamos mal, pois acabamos por ficar com os contras (por exemplo, perda de biodiversidade) sem usufruir dos pros (por exemplo, revitalizacao da economia local de uma zona "deprimida")

Paulo realmente por vezes sinto-me em Marrocos mas olha que mesmo para Espanha esta decisao e' pouco comum. Por ca' temos de ir tentanto quando achamos que as razoes assim o justificam, pois so' assim podemos ter a oportunidade de falhar...ou nao.

Abraco
TiagoP

ljma disse...

Osvaldo, se o aquecimento não é o que parece (global), que seja o que o Osvaldo afirma (local). Para o efeito, o resultado vai ser o mesmo, sobretudo tendo em conta que se trata de uma tendência verificável (na Península Ibérica) nas observações metereológicas dos últimos trinta anos.

Além disso, se em Espanha as coisas se fazem como por cá (mas esta notícia mostra que nem sempre) o risco não é só dos promotores, porque raras vezes esses promotores promovem seja o que for sem alguma "ajudazinha" de uma ou várias instâncias do estado, seja ela um crédito bonificado, uma ajuda a fundo perdido, um benefício fiscal, uma intervenção no mercado, infraestruturas, ou ainda a limpeza do entulho e outros sarilhos que sobram quando, mais tarde, se descobre que, afinal, quem diria?, a coisa não era assim tão viável como "parecia"...
É, pelo menos, assim que funciona uma boa parte da iniciativa privada a que estamos acostumados cá em Marroc, desculpem, cá em Portugal...

Osvaldo Lucas disse...

ljima :))
Sinto tendência a concordar no facto de ser muito difícil saber efectivamente quem são os "promotores".

Quanto ao aquecimento local (digamos em Portugal/Peninsuila Ibérica podemos ver a folha 5 de http://www.siam.fc.ul.pt/siamII_pdf/Clima.pdf onde realmente se nota (no gráfico) um aquecimento de 1,5ºC nos últimos 30 anos. Claro que se fossem os últimos 60 seria apenas de uns 0,8.
A minha sensação é que um aumento de 1,5ºC médio (ou pelo menos aprox: igual para Tmax e Tmin teria implicado alterações muito significativas na agricultura nos últimos 30 anos. Não sei se realmente tal se verificou.

ljma disse...

Olá, Osvaldo
Obrigado por ir ao SIAM. Foi com base no que me lembrava desse projecto que falei no tal período de 30 anos. Diz que se recuarmos 60 anos a evolução das temperaturas se nota menos mas, olhando para o gráfico da folha 5 que referiu, notamos também que, se recuarmos mais ainda, ela volta a intensificar-se. O colectivo que elaborou o relatório do projecto SIAM considera que o gráfico é um indicador da ocorrência de alterações climáticas; o Osvaldo diz (especulo eu) que não é mais do que um indicador nítido da existência de oscilações naturais do sistema climático. Não me sinto habilitado a manter uma discussão fundamentada sobre esta diferença de opiniões, mas chamo a atenção para o gráfico da folha 2 do mesmo documento, onde se notam essas oscilações nitidamente encavalitadas numa linha crescente, num intervalo temporal que remonta a meados do sec. XIX.

Houve nos últimos trinta anos alterações radicais na agricultura da Península Ibérica. As razões dessas alterações são, muito principalmente, de ordem socio-económica. Não me parece que, no meio da revolução que ocorreu, se consigam discernir os efeitos das alterações climáticas (se é que os houve), ou seja, não me parece que se devam procurar na actividade agrícola na Península Ibérica sinais claros das alterações climáticas.

Há actualmente, na comunidade científica e na opinião pública, um consenso muito alargado sobre a realidade das alterações climáticas e (menos alargado) sobre a responsabilidade que as actividades humanas têm como motor dessas alterações. Bem sei que há quem não acredite nestas "verdades" e que alguns desses descrentes são cientistas de renome. O Osvaldo pode, portanto, pôr em causa a validade destes dois consensos (e parece estar a colocar-se no campo mais radical - e menos populado - que contesta a própria ocorrência das alterações) mas a verdade é que eles (os consensos) existem e é natural que os decisores políticos ou (como neste caso) judiciais os invoquem para apoiar as decisões que tomam.

No que ao Cântaro Zangado diz respeito, as alterações climáticas (sejam elas globais ou apenas flutuações locais - espacial e/ou temporalmente) são uma evidência que se mete pelos olhos a dentro, especialmente no que se refere à queda de neve. Nitidamente, a tendência dos últimos trinta anos na Serra da Estrela é a de cada vez menos neve. Pode acontecer que seja apenas uma flutuação local e que dure apenas mais 10 anos. Ainda assim, justificam-se *agora* intervenções com graves impactos ambientais tendo alegadamente em vista um retorno que, para além de ser muitíssimo discutível, não se afigura, para já, minimamente expectável? Eu acho que não e o juiz espanhol foi da mesma opinião. Penso que é uma questão de bom senso.

Dito isto, devo dizer (como se não fosse mais do que evidente ;)) que eu sou daqueles que acreditam que o aquecimento global é uma tendência real e que é causado pela emissão de gases de efeito de estufa, ou seja, pela actividade humana. Chame-me o que quiser, mas creio que, naquilo que o Osvaldo talvez chame ilusão, estou muito melhor acompanhado que o Osvaldo, no que me parece ser a sua. Ao mesmo tempo, tenho que reconhecer que este argumento (o das "companhias") é o melhor que tenho para apresentar, eu que não sou climatologista.

Abraço,
José Amoreira

Osvaldo Lucas disse...

ljma
Concordo com as objecções sobre a dificuldade de notar alterações na agricultura portuguesa via alterações climáticas devido aos motivos expostos.
Refere no entanto que tem nevado menos na Serra da Estrela.
Sugestão para um post: um gráfico de precipitação sob forma de neve e tb sob a forma de chuva, e porque não tª dos últimos 30/50 anos na região e posssíveis implicações no turismo.
PS- se calhar já existe algures nos arquivos...
PS2 - Tªs recentes, medidas com termómetros talvez não sejam tão fiáveis como se pensa, e quando vamos a treemoteros ou outros proxies a fiabilidade é ainda mais duvidosa. Sugiro umas leituras do blog Climate Audit.

Pedro Nuno Teixeira Santos disse...

Com certeza que existem registos climáticos relativos à estação meteorológica das Penhas Douradas; não sei se a estação da Torre se mantém operacional. Tambám já vi registos climáticos de outros pontos da Serra, como as Penhas da Saúde, mas pessoalmente desconheço o rigor com que os mesmos foram feitos.

Ainda que existissem dados cientificamente fiáveis dos últimos 100 anos, isso seria absolutamente irrelevante em termos temporais.

Existe, no entanto, uma clara percepção da diminuição dos dias de neve e da altitude a que a mesma ocorre nos últimos 20 anos.
Pergunte-se a um habitante da Guarda, da Covilhã ou de Manteigas: claro que esses dados são absolutamente empíricos e ainda que sustentados em medições cientificamente válidas, continuariam a ter uma importância mínima em termos de escala de tempo.


Talvez que as precipitações abundantes de neve que ocorreram no século passado fossem o resultado de um arrefecimento local e transitório e que a actual situação esteja mais perto do "normal climatológico" e não corresponda a um aquecimento.

No que a mim me diz respeito e relativamente ao que ao "turismo de neve na Serra da Estrela" se trata a própria questão do aquecimento global (e da influência humana) é irrelevante.

Não me parece que o planalto da Torre tenha, tendo em conta a altitude a que o mesmo se encontra e a distância a que está da influência moderadora do Atlântico, condições climáticas e altitude para sustentar uma estância de esqui semelhante a outras que existem a maiores latitudes e altitudes. Ainda que a temperatura não aumentasse 0,1 C nas próximas décadas!


É essa megalomania que se crtica no "Cântaro Zangado" e que eu critico.

Bem como todo um conjunto de atitudes civica e ambientalmente condenáveis por parte da Turistrela (veja-se do caso da neve transportada e movida de lugar com recurso a maquinaria pesada) e mesmo outras que não dependem directamente da Turistrela (como os esgotos a correr a céu aberto).

Aqui critica-se, e eu critico, as acções prepotentes dessa empresa e a própria existência desse monopólio, que eu julgava apenas possível em economias como a cubana ou a da Coreia do Norte.

E finalmente, a própria existência da estrada nacional que liga a Covilhã a Seia e toda a pressão ambiental sobre uma das zonas ecologicamente mais sensíveis e importantes do nosso país.

O essencial é a crítica ao turismo de massas...a Serra da Estrela não necessita de mais problemas (como um pretenso aquecimento global) do que aqueles que já tem, baseados num turismo que não é sustentável para o ambiente e para a economia local (tirando para a referida concessionária).

Algarvear a Serra da Estrela? Não, obrigado!