quinta-feira, outubro 30, 2008
O homem que plantava árvores
"O homem que plantava árvores" é um belíssimo conto escrito por Jean Giono em 1953, que pode ler na íntegra no site da ASE.
É uma história belíssima. Façamo-la realidade na serra da Estrela.
Foi produzido um filme de animação a partir deste conto, belíssimo também, que pode encontrar aqui. Foi deste site que roubei a imagem acima.
quarta-feira, outubro 29, 2008
"Nós aqui vivemos da neve"
Ouve-se frequentemente a frase que dá o título a este post. É verdade que o turismo da serra vive da neve. Mas não é verdade que tenha que viver da neve, apenas da neve, não é verdade que tenha que viver principalmente da neve, sequer.
No Gerês há turismo de montanha. Mas não consta que neve lá mais do que cá. Aliás, o Gerês está cheio de turistas, até (ou principalmente) no Verão. E não consta que, no Gerês, neve no Verão. De que vive o turismo no Gerês, já que não é da neve? De passeios pedestres; de passeios de bicicleta; de passeios a cavalo; de canoagem; de canyoning; de escalada; de termas; de natureza; de outras coisas de que não me estou a lembrar. Porque é que nós por cá não podemos viver também dessas coisas todas? Não será a nossa serra apropriada para alguma delas? Ou será que não as aproveitamos porque, como temos neve, nem pensamos nessas outras possibilidades?
Penso que parte da resposta está aí. Mas não é só isso. De facto, no Gerês não há neve (ou não a há em quantidade que permita "viver da neve") e há turismo, mas noutras montanhas onde há neve, e mais até do que na Estrela, há também um turismo diversificado, no Inverno e no Verão. Nessas outras montanhas, apesar de nevar (e, repito, mais ainda do que na Estrela), não se vive só da neve, não se vive, sequer, principalmente da neve. De que montanhas estou a falar? Para não ir mais longe, da sierra Nevada, dos Pirinéus, dos Alpes. Essas montanhas estão cheias de turistas, também no Verão. E de que vive o turismo nessas montanhas, para além da neve? De passeios pedestres; de passeios de bicicleta; de passeios a cavalo; de canoagem; de canyoning; de escalada; de termas; de natureza; de outras coisas de que não me estou a lembrar.
Ou seja, noutros lugares onde também neva, há turismo para além da neve. Porque será então que por cá vivemos da neve, apenas da neve? Posso estar enganado, mas suspeito que uma razão principal se prende com algo que temos cá, e que não existe em mais montanha nenhuma que eu conheça: uma concessão exclusiva do turismo e dos desportos (a da Turistrela), definida há mais de trinta anos (1971) e com prazo de validade por outros tantos ainda por vir.
Passados trinta anos a pôr os ovos todos no mesmo cesto e a vê-los partirem-se no chão, era altura de se começar a perceber que não só o cesto onde os temos estado a pôr parece claramente estar roto, como se calhar (lá diz o ditado), era melhor usarmos muitos cestos, de diversas formas, feitios, e tamanhos.
Ou então não. Continuemos no "Nós aqui vivemos da neve" com que tão bons resultados temos conseguido.
terça-feira, outubro 28, 2008
O Outono do carvalho-negral
Este carvalho negral é possivelmente o que se encontra a maior altitude que conheço (referi outros candidatos aqui). Ainda um pouco mais alto, nesta mesma zona (perto do túnel na estrada Piornos-Torre), encontram-se algumas tramazeiras, como aquela a que chamo a tramazeira zen.
Cá mais para baixo, os carvalhos-negral ainda estão vestidos de verde. Aliás, um vizinho do que aqui ilustro, a poucos metros de distância, continua ainda bem verdinho!
Não sou bairrista
Perdoem-me este texto mais pessoal, motivado por alguns posts que de vez em quando aparecem em blogs da Covilhã, da Guarda e de Seia.
Não sou bairrista nem entendo os bairristas. Moro na Covilhã há quase vinte anos. Sinto-me covilhanense. Gosto de morar na Covilhã. Quando vou a Manteigas, Guarda, Seia, Gouveia (e um longo etc, que abrevio com desculpas aos que assim foram "abreviados"), penso sempre: como gostaria de morar aqui!
Fico contente quando descubro sinais de desenvolvimento (a sério) e de modernidade (a sério) onde quer que os veja. Por exemplo, quando penso no CISE de Seia, não rumino ressentimentos por ser lá e aqui não existir algo semelhante, nem desato a gritar aqui d'el Rey que Seia nos ultrapassa (insinuando ademais, como é costume neste discurso bairrista, que se trata de uma ultrapassagem ilegítima, a modos que "pela direita")! É claro que tenho pena por não haver na Covilhã nada do género, mas festejo a sua existência em Seia. E aproveito-a sempre que posso. O mesmo com o Teatro Municipal da Guarda. Se não existe um na Covilhã, é pena! Mas acredito que (também para os covilhanenses) é bom que o TMG exista na Guarda. E mesmo que houvesse um igual na Covilhã!
Volto a repetir algo que disse há tempos: parece-me cristalinamente óbvio que todos os concelhos têm tudo a ganhar com o desenvolvimento de ofertas turísticas e culturais de qualidade em todos os concelhos. Já que mais não fosse, porque pretendo tirar o máximo proveito delas todas.
Ah, se o ridículo matasse... Um querido amigo respondeu-me uma vez, a uma pergunta sobre a sua origem, algo como: "Eu, da Covilhã?! Alguma vez?! Até me matava!!! Nem pensar, eu cá sou é do Tortosendo!" (Se não percebeu, veja num mapa da região onde fica o Tortosendo e a Covilhã.) Não, não tenho dúvidas: não sou bairrista, nem entendo os bairristas.
segunda-feira, outubro 27, 2008
Duas notícias
Diário XXI de 21 de Outubro (PDF, 11MB), página 3:
José Sócrates na Covilhã em Novembro(Sublinhado introduzido por mim)
José Sócrates deverá visitar o concelho da Covilhã em Novembro para inaugurar o Parque da Goldra, disse Carlos Pinto. A visita deverá ter lugar nos entre 17 e 19 de Novembro, acrescentou o autarca. Durante a visita deverá ser lançado o Parkurbis Medical, numa parceria entre a UBI, Centro Hospitalar da Cova da Beira e Câmara da Covilhã. A visita será aproveitada para assinatura de um protocolo entre o ICNB e a autarquia para o lançamento da aldeia de montanha nas Penhas da Saúde, protocolo negociado nas últimas semanas.
Diário XXI, 27 de Outubro (PDF, 11MB), página 4:
Seia reforça investigação na Estrela
A Câmara de Seia e o Instituto da Conservação da Natureza assinaram no sábado um acordo de colaboração válido por quatro anos destinado a aprofundar a investigação sobre valores naturais, paisagísticos e culturais da Serra da Estrela, refere um comunicado da autarquia. Subscrito pelo secretário de Estado do Ambiente, Humberto Rosa, o documento prevê a realização de diversos projectos e actividades nas áreas do ordenamento, património cultural e educação ambiental no Centro de Interpretação da Serra da Estrela.
Ou seja, a Câmara Municipal da Covilhã estabelece acordos com o Instituto da Conservação da Natureza e Biodiversidade para a criação de uma mini-cidade de vivendas de segunda habitação "para concorrer com os Alpes e os Pirinéus"; a de Seia idem, mas para a investigação sobre os valores naturais, paisagísticos e culturais da serra da Estrela.
Estas duas notícias revelam muito sobre as atitudes das duas autarquias face à serra da Estrela e face ao que deve ser o turismo na serra da Estrela. É escusado dizer qual nos agrada mais.
domingo, outubro 26, 2008
Outono de um pequeno bosque...
... De caducifólias na encosta da Covilhã, a cerca de 1000 m de altitude. Carvalhos-alvarinho e negral (ainda com o tom verde), carvalhos-americanos (avermelhados), bétulas e bordos (amarelelados) castanheiros, tramazeiras, freixos (todos ainda de verde, também). Dispersos por todo o lado, pinheiros-bravos.
Rondam por esta encosta gaios, javalis, esquilos, lebres, raposas. Na Primavera e Verão, encontramos frequentemente rapinas como o tartaranhão-caçador e a águia-calçada.
Este bosque... É deixá-lo crescer, que promete!
sábado, outubro 25, 2008
O Outono do freixo
quinta-feira, outubro 23, 2008
Pois, pois...
O Instituto de Turismo e a SPEA promovem conjuntamente uma oficina internacional sobre Turismo de Natureza, subordinada ao tema "As potencialidades turísticas do Birdwatching — A observação de aves em Portugal".
Pois, cá está. Como se torna cada dia mais evidente, a gente aqui no Cântaro Zangado não percebe nada disto do turismo na serra da Estrela. Birdwatching?! Qual quê! É de continuar mas é no rumo que se tem seguido, o da neve, do esqui e do sku; o da concessão exclusiva, das minicidades, do casino; o da necessidade de teleféricos, de mais e melhores estradas, de mais e maiores parques de estacionamento; o dos centros comerciais na Torre, o do lixo e dos plásticos por todo o lado. É o rumo que autarcas, responsáveis da região de turismo, responsáveis da Turistrela e demais forças vivaças locais propagandeam. É o único rumo que propagandeam quando falam do futuro do turismo na serra.
É um rumo que tem dado boas, excelentes provas. E, como se torna cada dia mais evidente, é o rumo do futuro. Só mesmo nós, os radicais fundamentalistas do Cântaro Zangado e outros ambientalistas reaccionários, é que ainda não o percebemos.
terça-feira, outubro 21, 2008
segunda-feira, outubro 20, 2008
"Já há 300 cabras selvagens no Gerês"
O Público trazia hoje a notícia de que a população de cabras-montês no Gerês tem vindo a aumentar, alimentada pela população existente a norte, no Xurês galego. Esta situação segue-se a cem anos de ausência desta espécie das serras nacionais.
Para mim e para muitos turistas como eu (que os há), uma notícia destas sobre a serra da Estrela aumentaria imenso a sua atractibilidade, muito mais do que qualquer campanha publicitária(1) promovendo a excelência do esqui ou dos hóteis de charme, muito mais do que as minicidades de montanha com que sonha o presidente da Câmara da Covilhã, muito mais do que as estradas ditas Verdes com que sonha o da da Guarda, muito mais do que as tristes pistas de esqui (a da Torre e a de neve de plástico do Sameiro) ou do que a rumoreada pista de neve indoor de que às vezes se fala para o concelho de Gouveia.
(1) Por excelentes que essas campanhas fossem! Não me estava a referir a tristezas pateticamente amadoras como a "Serra da Estrela — Onde a natureza vive", da RTSE.
"A serra da Peixeirada"
E ainda veremos (como sempre vimos) as comadres agora desaguisadas lado a lado, em coro, defendendo alguma ampliação da estância de esqui, um novo aldeamento em altitude ou criticando o PNSE e ambientalistas por tentarem obrigar à realização de estudos de impacto ambiental para semelhantes empreendimentos. É esperar para ver.
domingo, outubro 19, 2008
200 km de percursos pedestres
Pelo blog dos Manteigas cheguei a uma notícia no Jornal da Guarda que quero celebrar: a decisão da criação de uma rede de percursos pedestres.
O futuro o dirá, mas aposto que se os percursos forem bem definidos, bem sinalizados e bem divulgados, esta iniciativa dará muitos e bons frutos para o turismo de Manteigas e da Serra da Estrela.
Força Manteigas, e que outros concelhos sigam o vosso exemplo!
sexta-feira, outubro 17, 2008
quinta-feira, outubro 16, 2008
"A Quercus é um negócio"
A fim de ampliar a Zona Industrial do Tortosendo, o presidente da Câmara Municipal da Covilhã pretende que sejam abatidos cerca de 3000 sobreiros, alguns centenários, numa área de Reserva Agrícola Nacional e Reserva Ecológica Nacional. Este assunto tem sido noticiado em diversos blogues (ver A Sombra Verde, por exemplo) e órgãos de comunicação social regional, pelo que não me vou alongar muito nos detalhes do caso propriamente dito.
Como o sobreiro é uma espécie protegida por lei (e é-o por razões ambientais mas também por razões estritamente económicas) este abate anunciado motivou uma intervenção crítica da associação ambientalista Quercus, uma das maiores organizações não governamentais de ambiente em Portugal, senão a maior. Como podemos ler no comunicado, a Quercus pede que a lei (e não está em causa apenas a da protecção aos sobreiros) seja aplicada, ou seja, entre outras coisas, que se faça uma avaliação do impacto ambiental da medida. Deixem-me enfatizar: a Quercus pede que seja respeitada a lei. Decerto que faz o pedido por pretender a permanência dos sobreiros onde estão, é óbvio e expectável, vindo de quem vem. Pode-se concordar ou não com esta pretensão, mas não se pode negar que é uma pretensão legítima, isto é: que a Quercus tem o direito a defender a permanência dos sobreiros onde estão. E volto a repetir, o que a Quercus afirmou foi que exige que seja cumprida a lei.
A esta pretensão, o sr. Carlos Pinto (o presidente da autarquia covilhanense), no estilo trauliteiro a já que nos habituou (só para dar dois exemplos recentes, recorde-se o tom das suas declarações a propósito do Plano de Ordenamento do Parque Natural da Serra da Estrela ou dos estatutos do Pólo Turístico da Serra da Estrela), respondeu (ver, por exemplo, o arquivo da Rádio Cova da Beira)
"de vez em quando vêem umas pessoas de fora, não se sabe de onde, com posições reaccionárias que é o que caracteriza essa associação",e
"a Quercus é um negócio e por isso tem pouca credibilidade na CMC"
Eu acho esta reacção (recordo: a um pedido de respeito pela lei) despropositada. Mas mais. Como o próprio autarca dá a entender, uma ampliação da zona industrial é necessária para permitir a instalação de empresas, ou seja, negócios; os terrenos terão que ser comprados ou expropriados (negócio) aos seus proprietários, que decerto fazem negócio com a exploração da cortiça e de outros produtos agrícolas. Mas estes (e tantos outros, claro) negócios, aparentemente, não são como o da Quercus, estes negócios não são motivo para "pouca credibilidade na CMC". Estranho.
Ou será que o sr. Carlos Pinto pretende antes afirmar que a Quercus é, não um negócio como outros, mas antes uma negociata, com interesses privados obscuros, eventualmente nos limites, ou para lá dos limites, da legalidade? Se é isso, que não se fique por insinuações; que o diga claramente e que o prove, se conseguir, ou que assuma as suas responsabilidades e as penalizações eventualmente delas decorrentes se não conseguir.
Moro na Covilhã e sou sócio (muito pouco activo) da Quercus (e de outras associações, ambientalistas e não só). Não sou o único. Que o presidente da câmara me considere reaccionário não me aborrece por aí além. Mas é claro que fico ainda com menos vontade de votar nele de cada vez que se sai com tiradas deste calibre.
Agora à laia de desabafo: caramba, no PSD da Covilhã é consensual esta forma rude, arrogante e trauliteira de estar na política? Este constante "agarrem-me que eu vou-me a eles" de taberna? É a isto (e à ausência de alternativa a isto noutros partidos) que estamos reduzidos?
Correcção
No post Que salganhada!, referi que que José Armando Serra dos Reis, ex-presidente da Junta de Freguesia das Cortes do Meio pela CDU, que mais tarde passou para o PS, é actualmente deputado municipal pelo BE. Errei. O actual deputado municipal pelo Bloco de Esquerda é José Serra dos Reis, irmão de José Armando Serra dos Reis, militante do PS.
Pela minha ignorância, que originou este erro, peço desculpas aos dois irmãos, ao PS e ao BE na Covilhã.
quarta-feira, outubro 15, 2008
À Câmara Municipal da Covilhã...
... Não se pede que concorde com a lei. Pede-se que a conheça, que a respeite e que a faça respeitar.
A ler mais um excelente post no A Sombra Verde.
segunda-feira, outubro 13, 2008
quinta-feira, outubro 09, 2008
Parecer da ASE ao novo Plano de Ordenamento
Para os interessados, a ASE - Associação Amigos da Serra da Estrela disponibilizou na sua página de internet o parecer sobre a proposta do novo Plano de Ordenamento do PNSE no âmbito do processo de consulta pública que terminou no passado dia 3 de Outubro.
Enquanto cidadão e enquanto apaixonado pela região desejo que o processo de consulta pública tenha tido uma participação elevada por parte de todos. Só assim este instrumento legal pode mostrar toda a sua utilidade e só com uma atitude participativa pode a democracia evoluir.
Bom fim de semana a todos em especial para os Serranos que tem o privilégio de viver nessa região!
quarta-feira, outubro 08, 2008
La Unión Europea descarta una ampliación de La Covatilla
A estância de esqui de La Covatilla é uma estância pequena (mas ainda assim bastante maior que a da serra da Estrela) situada na Sierra de Béjar, aqui perto, a uns oitenta quilómetros a Sul de Salamanca. A Comissão Europeia aprovou recentemente a sua declaração de impacto ambiental, depois de ela ter sido corrigida de falhas que tinham sido identificadas por ambientalistas. Se compreendi bem as notícias para que aponto aqui em baixo, resulta do documento agora aprovado a impossibilidade de futuras ampliações da estância.
Ver
E a nossa estância Turistrela/Vodafone? Terá declaração de impacto ambiental? Onde a poderemos consultar?
quarta-feira, outubro 01, 2008
Um mercado com concorrência livre e transparente?
A Turistrela, SA detém a concessão exclusiva do turismo e dos desportos na serra da Estrela, de acordo com os Decretos-Lei 3/70 de 28 de Abril de 1970, 325/71 de 28 de Julho de 1971 e 408/86 de 11 de Dezembro de 1986. A concessão em regime de exclusividade de uma área tão alargada fazia talvez sentido na lógica do Acondicionamento Industrial do Estado Novo, quando a dita concessão foi decidida. Talvez possamos desculpar, à distância a que agora estamos, que esse estatuto se tivesse mantido quando a empresa foi privatizada na sua quase totalidade em 1986. Mas, passados que estão mais de vinte anos, numa altura em que a concorrência nos negócios é considerada condição essencial para a qualidade e para a salvaguarda dos interesses dos consumidores, que sentido é que faz esta concessão?
Nenhum. E tanto que assim é que o próprio administrador e proprietário da Turistrela, Artur Costa Pais, tem repetidas vezes afirmado que não, que a concessão não se traduz em monopólio, que a Turistrela vê com bons olhos a entrada de mais investidores no turismo da serra da Estrela (ver, por exemplo o Público de 12 de Dezembro de 2006 [esta é a referência que primeiro me veio às mãos, mas há muitas mais, e mais recentes]).
Claro que, face a declarações destas, nos podemos perguntar porque razão não toma Artur Costa Pais a iniciativa sugerir aos organismos responsáveis a revogação da dita concessão, de cujas disposições, que claramente protegem a sua empresa da concorrência, ele não pretende fazer uso...
Ele há muitas maneiras de beneficiar de uma concessão exclusiva. Artur Costa Pais poderá não bloquear explicitamente toda a concorrência, poderá fechar os olhos, magnanimamente, às actividades de pequenas empresas de turismo de aventura e natureza ou à instalação de pequenas unidades hoteleiras. Mas poderá o estado estabelecer parcerias com, ou apoiar projectos de, outras empresas que não a Turistrela, na área da sua concessão exclusiva? Sem pedir à concessionária um parecer ou autorização? Custa a crer.
E ele há muitas maneiras de o estado intervir nestes assuntos. Por exemplo, a propósito da elaboração do Plano de Ordenamento do Parque Natural da Serra da Estrela. O plano encontra-se em discussão pública (até dia 3 de Outubro, atenção), podendo os documentos ser consultado no site do Instituto da Conservação da Natureza e Biodiversidade. Entre outros documentos muito interessantes, encontramos as actas das reuniões da Comissão Técnica de Acompanhamento do dito plano. A Direcção Geral do Turismo (mais tarde Turismo de Portugal, IP) integrava essa comissão. Analisando as actas, contei, no total das 11 reuniões, o registo de oito intervenções por parte dos representantes do instituto do turismo. Dessas oito intervenções, quatro são explicitamente no sentido de defender a posição da Turistrela. São particularmente reveladores os seguintes excertos:
(da acta da 6ª reunião, ponto 12, pág. 3)
Propôs [o representante da Direcção Geral de Turismo] que no relatório voltasse a figurar a referência aos compromissos entre o estado e a Turistrela(da acta da 9ª reunião, pág. 7)
Referiu [o representante da Direcção Geral de Turismo] que devem ser salvaguardados os interesses da Turistrela.
Ou seja, admitamos que não haja monopólio. Mas como raio devemos chamar a esta situação em que organismos públicos sentem como sua função proteger, em reuniões de trabalho com outros organismos públicos, os interesses particulares de uma muito particular empresa privada?
Numa coisa podíamos, aqui na Serra da Estrela, tentar imitar os "maciços mais conhecidos, como os Alpes ou os Pirinéus": revogando esta originalíssima (e anacrónica) concessão exclusiva. Dando a todas as empresas interessadas em investir no turismo da serra os mesmos direitos, os mesmos deveres e as mesmas regras de relacionamento com o estado. Não é inventar a pólvora, é fazer aqui como se faz em todo o lado. A bem da concorrência, do desenvolvimento de um turismo de qualidade, e de um mínimo de transparência nos negócios públicos.



