quinta-feira, junho 29, 2006
"Corram-nos à pedrada!"
OK, tomemo-lo figurativamente. Mas como, ao certo? Não sei que interpretação se poderá dar às suas palavras senão a de que elas consistem num apelo aos seus subordinados para desrespeitarem, não só a lei, como os fiscais encarregados de a fazer cumprir! Realmente, se um presidente de câmara pode impunemente fazer apelos destes, em sentido literal ou figurado, em público ou em privado, não sei onde é que este país vai parar...
Dito isto, diga-se também que me estou a pronunciar apenas sobre a atitude e as declarações do autarca. Ora, elas surgem como uma resposta à actuação dos tais fiscais do ambiente, que Fernando Ruas considera injusta, talvez persecutória. Claro que a actuação dos fiscais do ambiente pode (e deve) ser permanentemente avaliada; quando se entender que há razões para isso, deve ser abertamente criticada e contestada, até. Mas nunca no desrespeito da lei e dos que a impõem.
segunda-feira, junho 26, 2006
Como se faz lá fora...
A Junta de Castilla y León decidiu realizar um grande espectáculo musical na Sierra de Gredos (100km a sul de Salamanca, aqui pertinho da Covilhã), no interior do Parque Regional de Gredos, tendo-a marcado para o dia 1 de Julho deste ano. Sábado, portanto. Faça-se uma pesquisa por "sting gredos" no Google, para mais detalhes.A esta iniciativa opuseram-se imediatamente, logo a partir do seu anúncio (na altura do Natal, se não me engano), as organizações Greenpeace, Ecologistas en Acción, WWF/Adena e SEO/BirdLife.
Este mês, já no dia 20, como resultado desses protestos, a Junta desistiu da ideia, e mudou o local do espectáculo para fora da zona protegida.
Imagino que muitos dos que se opuseram à localização inicial do espectáculo são admiradores do cantor, que tem demostrado diversas vezes preocupação com as questões ambientais. Pode até ter acontecido que tenha sido o próprio Sting (que foi o destinatário de cartas de protesto por parte de admiradores espanhóis) a convencer as autoridades espanholas a mudarem o local do evento. Não sei. Sei é que assim é que se defende a natureza.
A propósito deste assunto, é difícil não pensar, aqui na Serra, nas raves no Sanatório e nas snow fashion na Torre, na rampa automobilística ou na pasagem da Volta a Portugal em Bicicleta. Quanto a mim, o pior não é essas coisas acontecerem. O pior, mesmo, é não ver nunca os responsáveis pelos destinos da Serra promoverem ou apoiarem eventos de outro tipo.
PS1: Também sou admirador do Sting.
PS2: "Saquei" a fotografia de www.wl.net.pl/pliki/Image/Sting.jpg.
quarta-feira, junho 21, 2006
Keep Winter Cool
Depois de ler este artigo n'O Refúgio da Montanha, lembrei-me de outro site interessante a propósito do problema do aquecimento global, o Keep Winter Cool. Keep Winter Cool é um esforço conjunto do NRDC (Natural Resources Defense Council) e da National Ski Areas Association (NSAA), organismos norte-americanos. O objectivo desta organização é aumentar o cuidado com o ambiente por parte das estâncias de esqui. Mas note-se que é um esforço que parte das próprias estâncias (via NSAA). Pretende-se essencialmente que as estâncias usem energias renováveis e sem emissões de gases de efeitos de estufa e que tenham o maior cuidado com os impactos ambientais dos seus projectos de desenvolvimento.Sinceramente, não me parece que o impacto das estâncias de esqui em problemas globais como o das mudanças climáticas seja significativo. O impacto das estâncias de esqui é enorme, mas apenas ao nível local ou quando muito, regional, quer-me parecer. Seja como for, o mundo precisa de bons exemplos, e este é excelente. E sei de uma certa estânciazinha que bem podia fazer um pequeno esforço para adoptar algumas das práticas recomendadas pelas suas congéneres norte-americanas.
segunda-feira, junho 19, 2006
Trilho das Fragas
A associação BeiraSerra sinalizou e documentou um trilho de pequena rota entre a Vila do Carvalho e Verdelhos, que deve proporcionar um passeio bem agradável. A descrição do trilho pode ser descarregada (em PDF) aqui. Já agora, aproveito para referir dois outros trilhos de pequena rota sinalizados por esta associação: a Rota das Fontes (penso que em colaboração com a Secção de Montanha do Clube de Campismo e Caravanismo da Covilhã), na encosta da Covilhã, e o Trilho dos Abraços, no vale, entre a Boidobra e o Ferro.Sobre o Trilho das Fragas, ocorre-me ainda dizer que, se não me engano, parte dele pode ser aproveitado para um trilho entre a Vila do Carvalho e Manteigas baseado no descrito no romance "A Lã e a Neve", de Ferreira de Castro.
sexta-feira, junho 16, 2006
O que é a Serra?
O que é a Serra? O que é que na Serra atrai as pessoas? O que nos faz, a mim e a muitos, procurar as regiões montanhosas? O que procuram no Gerês, durante o Verão, os milhares de turistas que o visitam, muitos reincidentemente? O que vão tantos portugueses fazer aos Picos da Europa, também durante o Verão? O que é que queremos que a Serra seja no futuro, o que é que queremos dos que a visitam, por que épocas queremos que essas visitas se distribuam?Outra vez, o que é que queremos que a Serra seja no futuro? O que ela é agora mas com mais estradas, mais lixo, mais engarrafamentos de trânsito, mais enchentes nos fins de semana com neve, mais e maiores áreas urbanizadas e/ou artificializadas, mais e mais turistas que não sabem ao que vêm nem o que por cá hão-de fazer?
domingo, junho 11, 2006
Uma semana de introspecção
2. O turismo na Serra da Estrela está mal organizado. Para mim, isto é uma verdade evidente, cristalina. Podemos comparar com o turismo de montanha noutros países, que não vive apenas do esqui e dos bikeparks. Ou podemos comparar com o Gerês. Qualquer destas comparações deixa a Serra da Estrela envergonhada. A culpa deste estado de coisas não é da Turistrela. Ou melhor, não é só da Turistrela. Não é só da Região de Turismo da Serra da Estrela (RTSE). Não é só das autarquias. Não é só do Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE). Não é só dos comerciantes do queijo e fancaria. Não é só do Cântaro Zangado. Não é só das populações em geral. Não é só do Governo. É de todos. Mas não o é de todos equipartidamente.
3. A protecção do ambiente da Serra não existe ou praticamente não se nota. A culpa não é só da Turistrela, nem da RTSE, nem das autarquias, nem do PNSE, nem dos comerciantes do queijo e fancaria, nem do Cântaro Zangado, nem das populações em geral, nem do Governo. A culpa é de todos. Mas não o é de todos equipartidamente.
4. Os dois aspectos que acabo de referir só me dizem respeito na medida em que tornam a Serra cada vez menos atractiva para a prática das actividades que me agradam e que quero continuar a praticar na Serra.
5. O que é que cada um pode fazer, na medida das suas responsabilidades pelo estado das coisas e na medida do seu interesse no estado das coisas, para que elas mudem, para melhor, nas várias vertentes do problema, nomeadamente nas duas referidas, a da oferta turística e a da protecção ambiental? Repito, noutros termos: o que é que é legítimo esperar das várias entidades públicas e privadas com responsabilidades na organização e futuro da Serra da Estrela? Repito, ainda noutros termos: até que ponto têm essas entidades cumprido as suas funções?
6. As respostas que a tenho chegado para estas questões são a razão da existência do Cântaro Zangado. Não acredito que seja eu o mais habilitado ou o melhor informado para fazer esta análise. Acredito é que alguém devia começar a fazê-la.
quarta-feira, junho 07, 2006
Mudanças cá no Cântaro
Infelizmente, não tenho a capacidade de não responder aos que me interpelam (manifestando o seu acordo ou o seu desacordo), ou de adiar para mais tarde (e, por vezes, teria que ser para bastante mais tarde) as respostas, por isso, resolvi após alguma discussão interior, esconder os comentários e impedir a sua introdução indiscriminada.
Custa-me bastante tomar estas medidas porque é evidente que elas cortam, e muito, a vivacidade e espontaneidade da discussão. Mas o objectivo é mesmo esse, eu tenho mais coisas que fazer no meu tempo livre, por exemplo, andar de bicicleta na Serra ;). Por falar nisso, parece-me que a conversa em torno do bikepark está essencialmente esgotada. No fim, tudo se resume a isto: eu e muitos achamos mal, muitos, admito que mais, até, acham bem. Razões todos as temos, todos achamos as nossas melhores que as do próximo.
Para além do mais, esta política com os comentários que acabo de definir é a seguida por um dos mais influentes blogs nacionais, o fantástico Abrupto, de Pacheco Pereira, imagino que determinada pelas mesmas razões. Se ele, que é ele, pode...
Admito a possibilidade de aliviar no futuro estas regras mas, por enquanto, é assim. Caro leitor, desculpe a inconveniência. Qualquer coisinha, o meu email está ali no cântaro, digo, no canto superior direito.
segunda-feira, junho 05, 2006
O BikePark, como ele é
A imagem acima mostra a zona do bikepark vista com o Google Earth, com algumas indicações que acrescentei. Note-se a escala, no canto inferior esquerdo.Quero começar por anunciar que errei. A telecadeira é maior em 200 m do que o que afirmei em diversos posts. Ou seja, a telecadeira tem 900 m de comprimento e não, apenas, 700 m. Peço desculpas a todos, a começar pelo Marco Fidalgo. Não me parece, no entanto, que esse erro altere a essência dos meus argumentos.
O ponto de maior altitude da telecadeira está a cerca de 1980 m; a base, a 1860 m. Ou seja, um desnível de 120 m, que corresponde a uma inclinação média de cerca de 13%. Estive a fazer umas contas e não me parece que haja naquela zona uma extensão de 100 m com uma inclinação média superior a 20%.
Notem as dimensões lineares da zona. Quê, 1000 m por 1000 m? Há aos pontapés, no sopé da Serra perto da Covilhã, de Seia, de Gouveia ou de Manteigas zonas maiores, mais inclinadas, com árvores, e menos sensíveis ambientalmente.
As duas figuras em baixo mostram mais detalhes da zona, fotografados este fim de semana. Vê-se bem o elevadíssimo respeito pela natureza que caracteriza os donos deste bikepark, que muitos bikers empenhadamente defendem com argumentos de "dinamizar para proteger", "os trilhos não serão visíveis", etc, etc, etc. Não tive tempo de me aproximar mas, se o fizesse, poderia mostrar-vos milhares de sacos de plástico, restos de ferragens dos teleskis e outros materiais de construção que "enfeitam" aquela zona. Bem sei que os bikers não têm nada que ver com isto, mas é com os responsáveis por isto que se estão a associar, é neste espaço "natural" que vos querem pôr a pedalar.
Bikers, se é isto que querem, FORÇA! De facto, posso estar a leste (como dizia um(a) biker num comentário), se calhar são estas as dimensões, desníveis e condições típicas dos bikeparks por esse mundo fora. Mais, a verdade é que nem há problema algum, as coisas aqui já estão tão estragadas que não se vão notar grandes prejuizos por mais estes melhoramentos, até porque acredito a sério que a maioria dos bikers tem mesmo respeito e gosto pela natureza. Mas saibam ao que vêm quando vêm a este bikepark.
Sinceramente, e esperando que me tenham compreendido, fiquem bem, venham à serra e ao bikepark. Aproveitem, se acharem que sim, para sugerir à Turistrela que assuma parte de responsabilidade na limpeza daquela zona. Se quiserem pedalar mais longe, não se fiquem só pelo bikepark, aproveitem as centenas de quilómetros (não estou a brincar) de trilhos de grande rota pedestres, que podem ser percorridos por bikers (marcados e documentados por quem? Pela Turistrela? Não, pelo Parque Natural da Serra da Estrela).
sexta-feira, junho 02, 2006
Uma questão de grau
Parece-me que entre esta maluquice das arábias e o que a Turistrela anda a fazer por cá, há apenas uma diferença de grau, que a atitude é essencialmente a mesma. Já que, pelos vistos, alguma maluquice tem que haver, sugiro que, em vez de se planear a sua ampliação selvagem, se desmonte a estância de esqui ao ar livre da Torre e se construa uma destas em Manteigas, ou em Gouveia, Seia, Covilhã, Guarda, ou ainda no Algarve, que lá é que ficava mesmo, mesmo a matar.
Cá pra mim,
Mesmo que naquele local a natureza já esteja, há muito tempo, destruída, graças à estância de esqui. A propósito de esqui, acho que algo de muito semelhante se pode dizer dos esquiadores, entre os quais me conto, e snowboarders. (Somos bué da radicais, mas não nos podemos afastar do restaurantezinho, não é?) Estes têm, no entanto, a desculpa (?) de ser já praticamente impossível esquiar fora da estância e do alcance dos seus canhões de neve, por causa da diminuição da intensidade dos nevões...
Pode ser que o próximo ano me desminta! Oxalá!
quinta-feira, junho 01, 2006
Ya, cool, way out, bro!...
Arrancou um novo Projecto..Mountain Bike Park- Turistrela..E diz o Cântaro
Arranca hoje dia 29 de Maio o Projecto Mountain Bike Park- Turistrela na Serra da Estrela, a Marco Fidalgo Productions assinou um protocolo por dois anos onde o Mountain Bike Park estará activo ao longo do verão. Antes que te diga mais, as obras arrancam hoje e esperam-se finalizadas em Julho 2006 estando assim preparada a grande abertura, no campo estarei eu e Marc Duarte Designer Course no terreno.
Dentro de algumas curiosidades estará disponível em Julho, uma pista de FreeRide, uma pista de Down Hill Amadora, uma pista de Down Hill Pró e por fim um Park de Slopestyle donde irá nascer o Evento Marco Fidalgo Invitation top 30…Mas vamos esperar..
Curiosidades do inicio do projecto:
Haverá muitos camiões de terra, uma caterpillar, carpinteiros, madeiras, bobcat e um teleférico já on com mais de 1500 metros de comprimento.
Fica atento ao resumo de Obra Semanal.. Be in Touch…
Editado dia 29 de Maio 2006
"Bué da" camiões, montes de terra, catrapilas, bobcat? Porque é que têm que trazer essa m**** toda cá para cima? Não se podem praticar todas essas modalidades com nomes estrangeiros pertinho de Seia, Gouveia, Celorico, Guarda, Belmonte, Covilhã (ou outro lugar qualquer, já que falamos nisso)? Em que é que isso desenvolve um turismo específico da montanha? Como é que os apreciadores da natureza e os que procuram um turismo de ambiente irão reagir a mais esta palermice urbano-radical? Que impactos é que ela terá no ambiente, numa zona que é o coração do Parque Natural da Serra da Estrela, supostamente protegida por vários estatutos de protecção ambiental?
Não haja dúvidas, para alguns a serra, tal como ela é, é bonita demais. Por isso inventam estas distracções, para que não o notemos...
Mais uma para o CISE
"Choquei" por acaso com esta notícia, na Rádio Boa Nova de Oliveira do Hospital.
25/05/2006 - Sistema de Realidade Virtual da Serra da Estrela
A SIQUANT encontra-se a desenvolver um Sistema de Realidade Virtual da Serra da Estrela (SRV-SE), encomendado pelo Município de Seia para o Centro de Interpretação da Serra da Estrela (CISE). O SRV-SE é um sistema multimédia que permite navegar pela Serra da Estrela, explorando e visualizando conteúdos 3D, proporcionando uma visita virtual em tempo real a este importante espaço natural e histórico-cultural de Portugal. O SRV-SE constitui um exemplo importante do uso das tecnologias de Informação Geográfica e de Realidade Virtual para o desenvolvimento de aplicações turísticas modernas. A realidade virtual é uma tecnologia capaz de ultrapassar várias das limitações que caracterizam os outros meios de disseminação de informação (ex.: brochuras) ao permitir iludir os sentidos através de um conjunto de sensações, tais como a visão, a audição, e o movimento, transportando o utilizador para dentro de um “mundo, espaço” virtual. Para a execução deste projecto, a SIQuant coordenou uma equipa multidisciplinar, tendo sido responsável pela produção do Sistema de Informação Geográfica e deu apoio ao desenvolvimento da aplicação de realidade virtual. Contou com a participação do INESC-ID/DIGraSys, responsável pela programação da aplicação de navegação e visualização de realidade virtual, com a Caixa d’Imagens, responsável pela produção dos quiosques multimédia e conteúdos 3D, incluindo o filme e com o IST/DECivil, responsável pelo desenvolvimento da aplicação de consulta da informação geográfica com base no Google Earth. O SRV-SE foi desenvolvido com base em produtos da tecnologia de Realidade Virtual EON Studio e do Google Earth, sendo ainda significativamente parametrizável e extensível.
Alguém de fora poderá estranhar que por trás desta iniciava não se encontrem entidades com funções especificamente turísticas, isto é, a Turistrela e a Região de Turismo da Serra da Estrela (RTSE). Abençoada ignorância. Nós por cá sabemos perfeitamente que é muito mais provável estarem os responsáveis daquela empresa e deste organismo público entretidos a desenhar urbanizações, novas estradas e ampliações selvagens da estância de esqui, ou a planear folclorices como a da neve no Rock in Rio...
Vá-se lá saber porquê, em Seia há a ideia (pelo menos aparece frequentemente em blogs de senenses) de que o desenvolvimento do turismo passa pela Turistrela, e que não há direito que esta empresa aposte apenas na vertente sudeste. Ainda bem que o CISE e a Câmara de Seia não se ficam pelos resmungos, porque, como se vai tornando cada vez mais evidente, o que passa pela Turistrela & friends é a estragação do espaço, a desordenação do turismo, a degradação das paisagens. Felizmente, do lado noroeste, ainda vamos notando algumas iniciativas razoáveis. (Mas ele há outras, como a defesa intransigente da estrada para a Torre... Enfim.)
Srs. responsáveis (autarcas, presidente da RTSE, administradores da Turistrela, Coordenador da Acção de Base Territorial da Serra da Estrela e outros), como vêm, o Cântaro Zangado alegra-se com pouco: basta uma no cravo de vez em quando, que ele logo esquece, contente, as tantas (mas tantas!) que caem na ferradura...


