quinta-feira, maio 31, 2012

The right to roam

Uma tradução possível para o título deste post é "O direito a vaguear". Não é uma chinesice romântica. Pesquise a expressão inglesa no google. Encontrará, entre muitas outras ligações, um artigo na Wikipédia, comparando as diferentes materializações legais deste "direito" em diferentes países da Europa, ou o Right to Roam Bill, em vigor na Inglaterra e no País de Gales.

Estas leis visam proteger o direito ao usufruto dos espaços naturais em actividades de lazer e desporto e, está claro, agradam-me. Basicamente, elas garantem direitos mais ou menos generalizados de acesso (a pé, atenção), passagem e permanência em lugares naturais.

Ou seja, na Inglaterra, nos países da Escandinávia e nalguns outros países da Europa, o estado entende que deve proteger o direito ao usufruto da natureza, permitindo que todos possam percorrer, a pé, os espaços naturais. Não se alarga esse direito aos que se deslocam em veículos motorizados, nem se alimenta a ideia de que é obrigação do estado asfaltar acessos a todos os locais com interesse natural e/ou paisagístico, para que todos, mesmo aqueles poucos que não conseguem caminhar (e aqueles muitos que não o querem fazer) os possam visitar.

Gente estranha...

quinta-feira, maio 24, 2012

Vale da Bouça

... Fotografado domingo passado de manhã, com um telemóvel.

Por qualquer razão que eu não consigo entender, o presidente da Junta de Freguesia das Cortes do Meio (onde se encontra este vale) entende que a solução para todos os problemas da sua freguesia e ainda o investimento que nela irá desenvolver o turismo é uma estrada asfaltada para as Penhas da Saúde (clique aqui para ler comentários anteriores a esta questão). Estrada essa que irá passar muito perto do sítio onde estava quando tirei a fotografia que ilustra este post.

Duvido que alguma vez consiga entender o sr. presidente da junta, sejam quais forem as suas razões. É que eu visito muito frequentemente esta zona, mas tenho a certeza que deixarei de o fazer no dia em que ela estiver rasgada por uma estrada de asfalto. O que o vale agora é, vale a pena; o que o vale será se for feita a vontade do sr presidente da junta, já não. Nem para mim, nem para turistas que não se limitem a querer apenas chegar o mais depressa possível à Torre (Torre que, diga-se de passagem, nem sequer se situa na freguesia das Cortes do Meio). E olhe que ele há-os, sr presidente. E são muitos! Visite o Gerês no Verão, para não ir mais longe, e verá!

terça-feira, maio 22, 2012

Se pode fazer-se, porque não se faz?

No sábado dia 5 de Maio, dei uma corrida na zona dos Poios Brancos (perto do centro de limpeza de neve), e notei um percurso assinalado com fitinhas de nylon cor de laranja. A meio da corrida, perto da Lagoa Seca, cruzei-me com dois fulanos, equipados (como eu) à maneira de corredores de montanha, que me explicaram que o percurso estava assinalado para a corrida OH MEU DEUS.

O OH MEU DEUS foi um desafio em três etapas (duas das quais na serra da Estrela), tendo a última decorrido justamente no dia 5. Neste dia, realizaram-se na serra três corridas (cada atleta inscrevia-se na que preferisse), com as distâncias de 20, 50, e 104 km. Eu até me tinha tentado inscrever na de 20 km, já depois de se terem esgotado as vagas (não tive coragem para tentar a corrida de 50 km, já para não falar da de 104; no próximo ano, talvez), mas tinha-me esquecido da data e por isso não estava a contar com a corrida naquele dia (teria ido correr para outro lado, nesse caso).

O OH MEU DEUS (como o Circuito dos três cântaros, e como outras provas) é o tipo de eventos que mostra a serra como eu acho que ela deve ser mostrada. Como um palco de desafios. Como algo que nos intimida e que, por isso mesmo, nos fascina e nos atrai. E que merece o esforço, pelo que oferece a quem se dispõe a esse esforço. Indo, em suma, ao sentido das palavras de Miguel Torga:

"Alta, Imensa, Enigmática, A sua presença física é logo uma obsessão" (...) "Se alguma coisa de verdadeiramente sério e monumental possui a Beira, é justamente a serra." (...) Somente a quem a passeia, a quem a namora duma paixão presente e esforçada, abre o coração e os tesouros. Então, numa generosidade milionária, mostra tudo."

Mas estou a divagar. Escrevo este post porque, no domingo da semana seguinte, dia 13 de Maio, voltei a dar uma corrida na zona dos Poios Brancos, e encontrei-a limpa das fitinhas que delimitavam o percurso. Ou seja, senhores e senhoras que organizam atividades com trajetos demarcados na serra da Estrela:

é possível recolher todas as fitinhas depois do evento.
Assim, justifica-se a pergunta: será aceitável que alguns continuem a não o fazer?

terça-feira, maio 08, 2012

A poesia de uma cordilheira

Estou a ler um livro sobre fell running (a versão britânica de uma actividade que gosto de praticar, a corrida em montanha), "Feet in the Clouds — A Tale of Fell Running and Obsession", de Richard Askwith. A páginas tantas, referindo-se à orografia do sul da Inglaterra, o autor diz:

Yes, there are fields and hills in the south; there's even the odd fell race, such as the Box Hill race or the Isle of Wight series. But occasional hills are not the same as fells in wich you can get lost, cold, frightened, overawed; to escape, you need the poetry of a mountain range.
Ou seja, traduzido à pressão:
Sim, existem campos e colinas no sul; há mesmo uma ou outra prova, tal como a corrida de Box Hill ou a Isle of Wight series. Mas uma colina aqui outra ali não é o mesmo que uma serrania em que te podes perder, sentir frio, medo, espanto; para te evadires, precisas da poesia de uma cordilheira.

A poesia de uma cordilheira envolve o desafio. A possibilidade de nos perdermos, de sentirmos medo, frio e espanto. Uma serra urbanizada, alcatroada, ajardinada, domesticada... Que poesia tem uma serra assim?

sábado, maio 05, 2012

Os três cântaros

Fotografados hoje à tarde, de perto dos Poios Brancos.
Algarvear a Serra da Estrela? Não, obrigado!