quinta-feira, dezembro 31, 2009

Os velhos do Restelo, às vezes, têm razão.

Numa decisão voluntarista, optimista, que quebrava com o marasmo e que iria trazer lucros fabulosos, resolvemos organizar o europeu de futebol de 2004. Que grande aposta na modernização, na reabilitação urbana, na resolução dos problemas do desporto no nosso país, na construção de infraestruturas para o futuro!

Houve quem achasse que não deveríamos gastar tanto dinheiro em investimentos de retorno duvidoso. Mas, já se sabe, os Velhos do Restelo não perdem uma oportunidade para o nacional bota-abaixismo.

E, no entanto... Saiu ontem no Público uma longa reportagem sobre os problemas que várias câmaras municipais estão a ter com os encargos relacionados com a conservação e manutenção dos estádios que foram construídos por causa do Euro 2004. Aquilo que gostariam de fazer várias dessas câmaras era demolir, pura e simplesmente, esses estádios. Por outro lado, quanto aos benefícios que iam resultar dessa grande gesta nacional, ele houve-os, decerto. Houve quem tivesse feito bons negócios nessa altura. Mas as vantagens gerais, as que foram anunciadas à priori, aquelas de que todos beneficiaríamos, alguém as viu?

Cá para mim, parece-me que os tempos mostraram que os velhos do Restelo tinham razão.

O que não significa que tenham sempre razão, claro. E eu, que desempenho frequentemente esse papel no âmbito aqui da nossa serrinha, não pretendo reclamar que tenho razão só porque outros a tiveram noutro contexto. Mas, caramba, sinto um prazerzinho perverso quando noto que, afinal, a verdadeira razão para a maluquice do Euro 2004 foi, nas palavras do economista Augusto Mateus: "quando estamos muito entusiasmados com o circo, tudo parece muito fácil".

E parecem tão fáceis minicidades, telecabines e grandes estâncias de esqui na serra, capazes de concorrer com os Alpes e os Pirinéus, sempre que ela se veste com estes efémeros mantos de neve empapada...

domingo, dezembro 27, 2009

Apelo

A Associação Cultural Amigos da Serra da Estrela apela a todos os seus associados para que actualizem os seus dados pessoais (especialmente os endereços postal e electrónico), através de email para asestrela@gmail.com. (Mais informação aqui.)

segunda-feira, dezembro 21, 2009

O ruivo rabo do rabirruivo

Rabirruivo-preto (Phoenicurus ochruros), fotografado sexta feira passada, na Covilhã.

sexta-feira, dezembro 11, 2009

Ainda longe?!

Turismo sustentável ainda longe da serra da Estrela

O Portal Ambiente Online publicou hoje ou ontem um artigo sobre o turismo na serra, baseado (parece-me) nas opiniões de Pedro Guedes de Carvalho, que dirigiu há alguns anos o PETUR, um estudo sobre as potencialidades turísticas da nossa montanha, encomendado (e, depois, engavetado) pelo conjunto dos município da região.

Há um excerto do artigo que acho que vale a pena transcrever aqui (mas recomendo a sua leitura integral no Portal Ambiente Online):

[...] O documento [PETUR] questionou o monopólio no turismo de montanha, concessionado pelo Estado à Turistrela, e afirmou que o futuro da Serra da Estrela está no turismo ambiental, de natureza, saúde e cultura.
Como se vê, há coisas na serra que não é preciso ser-se radical para questionar. E opiniões sobre as potencialidades da serra que não é preciso ser-se radical para partilhar.

Soube disto pelo Máfia da Cova e pelo Kaminhos.

Dia 11 de Novembro

Hoje é o dia mundial das montanhas.

É um bom dia para pensar se queremos continuar a artificializar a serra, a enchê-la de entulho e de alcatrão, a "modernizá-la", a "requalificá-la", a urbanizá-la.

É um bom dia para pensar se realmente queremos torná-la semelhante a outro sítio qualquer, com ruas e estradas como as de outro sítio qualquer, com sinais como os de outro sítio qualquer, com desordenamento como o que é normal noutro sítio qualquer...

É um bom dia para pensar se queremos continuar a desenvolver na serra um ambiente semelhante ao das nossas cidades, com ruído, poluição, lixo, centros comerciais, congestionamentos de tráfego, iluminação nocturna de néon ofuscante, e tudo isso.

É um bom dia para pensar, enfim, se queremos continuar a transformar a serra num sítio que valha tanto a pena visitar como outro sítio qualquer.

O Luís Avelar planeou para hoje, em frente à Câmara Municipal da Covilhã, uma acção de protesto individual contra a continuação da "política do costume" no desenvolvimento do turismo na serra. Para mais detalhes, ver o Máfia da Cova.

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Nas pequenas coisas...

Um dos "Flashes" na página 13 da edição da revista Fugas do Público do Domingo passado consiste no seguinte:

Estrela
Com a neve a reinar, a estância da Serra da Estrela está pronta a receber esquiadores e curiosos. Já pode ser espiada por "webcam" ou seguida no Twitter.
www.skiserradaestrela.com
Mas a neve não reina, reinou antes a chuva durante todo o fim de semana. Uma situação inesperada? Não propriamente, chuva na Torre pode ocorrer, e ocorre, em qualquer altura do ano. E já não havia neve praticamente nenhuma, da que caiu há semana e meia. A estância está pronta a receber esquiadores e curiosos que não se importem (a maioria, decerto) de a encontrar... Encerrada, com todas as pistas encerradas. Apesar de terem podido ler exactamente o contrário disso em jornais de referência, como o Público.

Estes pequenos "exageros", que já não nos espantam vindos da parte da Turistrela, aparecem em todo o lado, até onde talvez não fossem de esperar. Por exemplo, o portal Ambiente Online publicou há dias uma notícia sobre a remodelação da rede de percursos pedestres da Serra da Estrela encetada pelos serviços do Parque Natural. O artigo tem a ilustrá-lo uma pequena fotografia (que copiei para este post) de uma paisagem coberta de neve, tirada nalguma estância de esqui dos Alpes ou dos Pirinéus (cheira-me que no sector Grau-Roig de Grand-Valira, mas não aposto). Ou seja, na serra não há neve agora e só muito raramente se encontra neve como a que se mostra na dita fotografiazita. Apesar disso, e apesar de a notícia não ter nada que ver com neve na serra, toca de ir buscar uma imagem nevada a outra serra. Isto entende-se?

terça-feira, dezembro 08, 2009

Até aqui chegámos

O Cântaro Zangado faz hoje quatro anos.

Temos aqui apresentado claramente e defendido empenhadamente as nossas opiniões, assumindo-as inequivocamente. Somos pela defesa da paisagem e do ambiente da serra da Estrela, logo, somos em regra contra tudo o que consideramos que desvirtua esses valores (que assim os consideramos: como valores, e preciosos). Entendemos que as asfaltações de caminhos, a artificialização urbanóide de diversas áreas, a mercantilização da serra, o encorajamento à visitação automobilizada, etc, têm sido más apostas e não devem ser continuadas. Porque assim achamos, regra geral manifestamo-nos contra novos empreendimentos que, na nossa opinião, se inserem na estratégia que tem sido seguida nas últimas décadas, que nos trouxe até onde estamos. Ao contrário de quase todos os protagonistas da região, não nos afirmamos *genericamente* pela natureza e paisagem, apoiando simultaneamente, *no concreto*, todas as estradas, edificações, requalificações, urbanizações, "melhoramentos", "embelezamentos" e estacionamentos com que, paulatinamente, essa natureza e essa paisagem se vão descaracterizando. Não; nós somos, genérica e concretamente, pelas paisagens e pelo ambiente. Até porque a protecção das paisagens e do ambiente não é incompatível com o desenvolvimento. A esse propósito, e quanto às decisões e empreendimentos que criticamos, perguntamos: em nome de quê é que se tem seguido este rumo? O que é que temos lucrado? Que desenvolvimento temos tido?

Não me parece que os nossos valores sejam a única verdade, que sejam a Verdade. Cada um tem a sua verdade. Que a exponha claramente e que a defenda empenhadamente também! Ou seja: discutamos! Discutamos francamente, sem insinuações, sem sub-entendidos, sem meias verdades nem meias palavras para supostos bons entendedores. Sobretudo, se (como nós) acha que a sua opinião é a melhor (mesmo que não coincida com a nossa), então afirme-a, defenda-a, assuma-a! Vivemos num país livre!

Aqui ficam links para os posts do primeiro aniversário; do segundo; do terceiro.

Novidades do Sameiro

Há anos referimos aqui uma notícia publicada a 25 de Janeiro de 2007 no jornal O Interior, com o título Uma pista de problemas, segundo a qual um jurista da câmara municipal de Manteigas defendia a rescisão do contrato de concessão da exploração do complexo da Quinta da Reboleira (estrutura que inclui a pista artificial de esqui do Sameiro), atribuída à Turistrela.

Poucos dias depois, demos conta aqui do que parecia ser a reacção da Turistrela (foi a única de que houve notícias, pelo menos): o anúncio da decisão da construção de trinta chalés no dito complexo, difundido pelo Diário XXI.

Passou mais algum tempo e chegámos a Março 2008 (sem que entretanto se tivessem verificado novidades quanto à concessão da Quinta da Reboleira, ou quanto à construção dos chalés), altura em que um artigo no Notícias da Covilhã, com o sugestivo título "Turistrela pode ficar sem o sky Parque", voltava a referir problemas entre a concessionária e a autarquia de Manteigas (infelizmente, não recordo a data da edição, mas transcrevi a notícia num post que escrevi a esse propósito).

Esta semana, li no Blogue dos Manteigas uma transcrição de uma notícia no jornal "A Guarda" de acordo com a qual a Câmara Municipal de Manteigas, em reunião do executivo municipal que teve lugar a 25 de Novembro, aprovou por unanimidade rescindir o contrato de concessão com o consórcio Turistrela / Certar.

Estas coisas levam o seu tempo, claro. E até é bom que o levem, para que as decisões possam amadurecer e assim se evitem males maiores. Neste caso, parece claro que a Câmara de Manteigas teve tempo para analisar profundamente a questão e as notícias que entretanto foram sendo publicadas mostram que o assunto não esteve esquecido todos estes anos. E chegou-se à conclusão de que não era do interesse da autarquia a continuação da concessão. E aprovou-se a sua rescisão.

Tudo lógico, tudo racional. Tudo aparentemente como deve ser. E, no entanto, porque será que considero este assunto notícia aqui para o Cântaro Zangado? Porque será que sinto que esta decisão deve ser festejada? Porque será que análises racionais do que é e do que deve ser o interesse público em questões que envolvem a Turistrela, e decisões que, fundadas nessas análises, contrariam o interesse da Turistrela defendendo o que se considera ser o interesse público, nos espantam? Talvez por serem tão mas tão raras?

Por ter assim mostrado que se acabou o tempo do respeitinho por certas vacas sagradas, muitos parabéns à Câmara Municipal de Manteigas! E obrigado!

domingo, dezembro 06, 2009

Novidades sobre uma lei escrita com os pés

Há poucos dias, a nova ministra do ambiente suspendeu a portaria n.º 1245/2009 que, neste post, considerei mal escrita. O diploma que decreta a suspensão é a portaria n.º 1397/2009.

A nova portaria refere no preâmbulo o seguinte:

[...] Decorrido um mês desde a publicação da Portaria n.º 1245/2009, de 13 de Outubro, verifica-se que a sua aplicação, em particular da tabela de taxas anexa, tem suscitado dúvidas e gerado equívocos não só quanto ao seu âmbito de aplicação, mas principalmente quanto à sujeição de determinados actos e actividades ao pagamento das referidas taxas.
[...] constata-se que a interpretação que tem vindo a ser realizada da mencionada portaria [1245/2009] não se revela conforme com o espírito que presidiu à sua elaboração.

Ou seja (e não sou eu que agora o afirmo, é o próprio ministério do ambiente), a portaria tem suscitado dúvidas, gerado equívocos e tem sido interpretada de forma não conforme com o espírito que presidiu à sua redacção. Ou seja, o que está na lei não é claro e não é bem aquilo que os seus autores queriam que lá estivesse. Ou seja ainda, dito curto e grosso, a lei foi escrita com os pés.

A portaria nº1245/2209 entrou em vigor no dia 14 de Outubro. A portaria que a suspendeu entrou em vigor a 5 de Dezembro. O ministério foi rápido a reconhecer o erro. Ainda bem que o reconheceram, e podemos tirar-lhes o chapéu por isso, é preciso grandeza para reconhecer um erro e mais ainda para o fazerem deste modo. Mas não deixa de ser uma vergonha que este erro tenha sido cometido. Andamos a brincar às portarias, ou quê?

Mas o que lá vai, lá vai. Resta-nos fazer votos de que, da próxima vez, escrevam algo razoável ou, em caso contrário, que notem antes da publicação que o que escreveram não era razoável. Que se poupem, e nos poupem a nós, a mais um embaraço.

Informação importante: O blogue Carris com a participação do Bordejar.com e Alma de montanhista estão a organizar uma marcha silenciosa de protesto contra a Portaria 1245/2009 que terá lugar em Braga no dia 12 de Dezembro de 2009. A concentração será feita junto do Arco da Porta Nova pelas 9h30. A marcha deverá ter início pelas 10h00 e irá percorrer a Rua D. Diogo de Sousa, a Rua do Souto, Largo Barão de S. Martinho e irá terminar na Avenida Central.
A este protesto, junta-se a FPME, que no sentido de estar presente e reforçar a "Marcha silenciosa" agendada em Braga, adia a marcha "As Montanhas também são nossas" (que estava agendada para o mesmo dia).
Desta forma a FPME, convida os seus associados a juntarem-se a este protesto, porque "AS MONTANHAS TAMBÉM SÃO NOSSAS"
(soube disto pelo rppd)
Algarvear a Serra da Estrela? Não, obrigado!