quinta-feira, janeiro 25, 2007

O tráfego na Serra da Estrela (II)

Na minha opinião é impossível resolver o problema dos congestionamentos de tráfego no maciço central da Serra da Estrela enquanto o acesso de viaturas particulares a esta zona não for condicionado. Ou seja, acho que é necessário limitar este acesso. Aparentemente, esta opinião é também defendida por personalidades destacadas como Lemos dos Santos (veja-se o que ele deixou escrito no blog do programa PETUR) ou Jorge Patrão (vejam-se as declarações que comentei aqui).
Este condicinamento poderia ser feito em função do número de viaturas já presentes no alto da Serra e, assim, apenas se faria sentir em épocas especiais, como a semana entre o Natal e o ano novo, a do Carnaval e alguns fins de semana.
Como podemos condicionar o acesso das viaturas privadas ao maciço central? Com proibições de entrada impostas pelas forças da GNR, com cancelas. Não há outro modo. Mas a estrada da Torre é uma estrada nacional (EN-339), que o estado tem a obrigação de manter transitável. Não parecem, assim, muito aceitáveis as limitações ao acesso que aqui estou a considerar. Sugiro, então, o seguinte:
  1. "Desnacionalização" da Estrada Nacional EN-339;
  2. Mudança da barreira actualmente instalada na Lagoa Comprida para o entroncamento da recém-concluída EN-338 que liga à Portela do Arão (Loriga);
  3. Alteração dos critérios para o funcionamento das barreiras rodoviárias (aquela que acabo de referir e a que está colocada nos Piornos), de modo a que possam ser encerradas por razões outras que não apenas as relacionadas com a existência de neve sobre a estrada e, assim, possam cumprir a função da limitação da intensidade do tráfego;
  4. Se se considerar necessário e economicamente viável, entrada em funcionamento de um sistema de transportes colectivos rodoviários nos dias em que o condicionamento de tráfego para a Torre for accionado.
Com a excepção do sistema de transportes públicos, tudo o que sugiro pode ser decidido e posto em prática já na próxima semana, quase sem encargos. Se estas ideias se revelarem um fracasso, podemos, com a mesma facilidade, cancelar a experiência e rapidamente voltar à situação que agora temos, quase sem encargos também. Da experiência não ficarão na paisagem vestígios nenhuns. O mesmo não se pode dizer das possibilidades que Lemos dos Santos, Artur Costa Pais e Jorge Patrão têm defendido (mais estradas e/ou telecabines). Mesmo que outras razões não houvesse, estas com que termino este post deviam fazer-nos pensar...

8 comentários:

Anónimo disse...

Sinceramente, não vejo razão por que insistem em meter no mesmo saco os popós e as telecabines ao pretenderem, e muito bem, uma Serra livre de poluição. É evidente que se as pessoas demandarem o planalto da Torre por telecabines, quaisquer outros meios mecânicos ou transportes colectivos irão poluir muito menos.
Vi esse sistema a funcionar às mil maravilhas no parque natural de Hakone, no Japão onde, apesar de ser dotado de estradas, não se vêem carros particulares, não sei se por opção se por obrigação.
Um simples passe, comprado antecipadamente em Tóquio, permitiu-me o acesso a uma panóplia de meios de transportes colectivos que incluíam barcos típicos, 1 sistema de telecabines, 1 teleférico, 1 funicular, 1 combóio privativo do parque e autocarros. Para além destes meios, havia uma série de percursos pedestres para os amantes das caminhadas tendo como destino alguns templos ou locais aprasíveis e em cujas entradas encontrávamos bastões à disposição dos "romeiros".
Depois de ter visitado esse parque, cuja atracção até nem é a neve, pergunto-me se não poderia aplicar-se um sistema idêntico na Serra que permitisse a sua fruição a pessoas de todas as idades mas com um mínimo de poluição atmosférica ou visual.
Também constatei que a maioria das pessoas que demandavam o parque o faziam utilizando o combóio que, contrariamente ao que acontece no nosso país, é o transporte preferido pelos japoneses qualquer que seja a sua condição social.
Tenho visto muita oposição aos meios mecânicos mas ainda não vi nenhum argumento sólido a fundamentá-la. Quanto às estradas elas são sempre bem-vindas desde que bem traçadas, com respeito pela paisagem - como foi apanágio do Sr. Engº. Urbano - porque, apesar de tudo, podem sempre ser utilizadas por transportes colectivos, veículos de emergência e caminheiros perdidos ou em final de carreira.
Victor Santos

Rui Peixeiro disse...

Olá,

Neste ponto não concordo consigo na totalidade.
Algo tem de ser feito, mas não sou a favor do encerramento desta estrada, pelo menos até haver um outro acesso (viável) para Seia, que não passe pelo topo da serra...
Quando ele existir, que se arranque o alcatrão e se deixe um "caminho florestal".
, nesses 36 dias, se devia condicionar o estacionamento na zona entre as duas barreiras existentes (Piornos e Lagoa Comprida) e colocar autocarros a fazer o transporte das pessoas.
Isto é... Proibia-se todo o estacionamento entre estas duas áreas, permitindo somente o estacionamento na zona da Torre de autocarros e, depende do nº de lugares que por lá existem, de portadores de Forfait de época.
Não sei se isto seria possível e o suficiente, mas pelo que eu reparo, grande parte do trânsito para a Serra nesses dias não são os esquiadores habituais, mas sim os turistas que vão, param o carro, atiram umas bolas, fazem sku e deixam o saco!
Os amantes do ski, normalmente vão de manhã, ainda sem trânsito e começam a vir embora quando se formam as filas no sentido ascendente.
De resto, ficaria a estrada livre para quem precisa mesmo dela para ir para o outro lado.

Doque me lembro, penso que seja o mais "justo" para todos. Quem gosta de fazer esqui na serra, pode lá estacionar, a Turistrela poderia assim aumentar o nº de forfaits vendidos (mesmo que não nevasse) e para quem precisa da estrada, teria-a livre.

ljma disse...

Vitor Santos, obrigado pelo seu contributo. Vou começar pelo fim: "Quanto às estradas elas são sempre bem-vindas desde que bem traçadas, com respeito pela paisagem - como foi apanágio do Sr. Engº. Urbano - porque, apesar de tudo, podem sempre ser utilizadas por transportes colectivos, veículos de emergência e caminheiros perdidos ou em final de carreira."
Não sei quem é o Sr. Engº. Urbano, não compreendo o que quer dizer. Raramente as estradas são bem traçadas, com respeito pela paisagem. As estradas são armadilhas mortais para a vida selvagem. Mas, mesmo que as estradas pudessem ser bem integradas na paisagem (e não conheço nenhuma que não rasgue a paisagem), o problema que se põe é outro. É que a beleza das paisagens de montanha está (para mim, pelo menos) no seu carácter selvagem, ancestral, na sua escala desumana, esmagadora, que nos torna humildes. O Vitor acha que se embeleza uma montanha com teleféricos, estradas, jardinzinhos e urbanizações à la suisse? Eu acho que não. E, tendo em conta que o nosso território já está tão modificado pela acção humana (e de forma tão uniformemente horrorosa), acho muito razoável que se preservem alguns santuários de paisagem mais ou menos natural.
Quanto aos teleféricos. Para ir fazer um piquenique na serra, "naquela área de estacionamento tão agradável", as pessoas continuarão a subir de carro. Para escorregar com o rabo num saco de plástico "naquela descida que é tão pouco frequentada", as pessoas continuarão a subir de carro. Para mostrar a Serra ao amigo que veio de Lisboa passar o fim de semana, as pessoas continuarão a subir de carro. Porque digo isto? Porque não dá geito carregar a tralha do piquenique nos transportes colectivos; porque perto do terminal do teleférico há tanta gente que não se consegue escorregar em condições e porque temos que levar o trenó, uma muda de roupa para os miúdos, mais qualquer coisa para comer; porque o amigo de Lisboa também gostava de visitar as Penhas Douradas e se nos metemos no teleférico não teremos tempo para ver tudo.
Não, não me convence que os teleféricos vão resolver os problemas de trânsito enquanto o trânsito pela estrada não for limitado.
Caro Vitor Santos, começou o seu comentário dizendo "não vejo razão por que insistem em meter no mesmo saco os popós e as telecabines". Bem, o Vitor Santos mostra porque é que o fazemos (não sei quem são os outros a que se refere, mas vá): na sua mensagem defendeu os teleféricos *e* os popós.

ljma disse...

Rui Peixeiro, essa é também uma forma possível de ordenar o trânsito. Aliás, no Gerês também é o que se faz. As pessoas podem meter o carro por um caminho que segue pela margem Sul da albufeira da barragem de Vilarinho das Furnas na direcção da Portela do Homem, mas é controlada a hora a que entram e a hora a que saem. Não podem estacionar para fazer um piquenique. Eu acho a sua solução bastante razoável, também. (Mas acho errada a discriminação entre esquiadores e escuadores: quanto a mim, pegando na sua ideia, poder-se-ia entrar com o carro na serra e estacioná-lo onde houvesse lugar enquanto não fosse ultrapassada um dado limite de afluência. Isto, independentemente das pessoas irem fazer ski, sku, piquenique, escalar, passear o cão.) Não acredito é em "soluções" que não restrinjam a liberdade das pessoas de entrarem com o seu carrinho quando quiserem, como quiserem, pelo tempo que quiserem, na Serra da Estrela. Por mais teleféricos que construam na serra as pessoas vão continuar a usar o carro, pelo menos enquanto o preço do petróleo não tornar as "voltinhas dos tristes" proibitivamente caras.

ares disse...

Se já se tivesse avançadao para os tuneis era mais fácil resolver o assunto...

ljma disse...

ares, boa tarde. Tem toda a razão. Se já houvesse túneis seria muito mais simples justificar o condicionamento e as limitacções ao trânsito pela torre. Mas fazer o problema dos engarrafamentos na Serra depender da construção dos túneis é o mesmo que adiar a resolução desse problema para sempre, ou quase.
O problema dos engarrafamentos na Serra é um pequeno problema (exagerando muito, muito, nota-se em 36 dias por ano); Os túneis são uma caríssima solução. É como usar um martelo pneumático para espetar uma tacha num placard de cortiça. Acho que é possível resolver o pequeno problema com a solução barata que apresentei no post.

Rui Peixeiro, mais uma coisa. A falta de alternativas na travessia Covilhã - Seia tem muito que se lhe diga. Eu acho que a passagem pelas Pedras Lavradas é uma alternativa. É mais longa? Sim. Demora-se mais meia hora do que pela Torre. Mas esta é a orografia que temos, e que tanto nos agrada. Não tenho agora tempo para me documentar, mas tenho a certeza que há muitas localidades europeias separadas por montanhas como a Serra, a distâncias semelhantes à que nos (covilhanenses) nos separa de Seia, e que não têm ligações tão curtas e tão confortáveis como a das Pedras Lavradas. A vida nas montanhas tem inconvenientes, o que é que se há-de fazer?

(O trajecto que aqui estou a considerar é o seguinte: Covilhã - Tortosendo - Unhais da Serra - Pedras Lavradas - Alvoco da Serra - Loriga - São Romão - Seia. Cerca de 80 km, 95min.)

Rui Peixeiro disse...

Olá José, tem razão, existe essa alternativa para Seia, ou até mesmo pelas Penhas Douradas. E para as vezes que tenho de atravessar a Serra até Seia, não me chateava muito...

Iria sentir mais falta da estrada era para as banhocas quase diárias na Lagoa Comprida, Salgadeiras, Vale do Rossim, ..., ... é que se tivesse de fazer mais 80 kms por dia, talvez não fosse tantas vezes.

Quanto à entrada de carros ser só dependente do nº de estacionamentos, seria o mais justo para todos, funcionaria como em qualquer silo auto, onde as pessoas não refilam só porque está o parque cheio.

A ideia do forfait, seria para ser mais fácil o controle, algo do tipo "Estacionamento proibido, excepto portadores de forfait de época" e uma vantagem para quem vai a Serra porque gosta mesmo de esqui e gasta €€€ para o ter (mesmo correndo o risco de não nevar).
Porque pela parte que me toca, até que preferia que não fosse assim, que esqui só fiz duas ou três vezes e sku bem mais...

ljma disse...

Rui, a minha ou a sua "solução" para o problema não impedem as banhocas nem nada disso. Apenas impedem que se acumulem na estrada aqueles milhares de carros, naqueles dias da neve. Mais uma vez, a questão é que, quanto a mim, enquanto as pessoas puderem continuar a subir livremente de carro, continuarão a fazê-lo mesmo que haja teleféricos. Ou seja, os teleféricos, só por si, não resolvem nehum problema de trânsito. Servirão apenas para a Turistrela deixar de ouvir aquela boca recorrente (e injusta de tão exagerada): "quando há neve as estradas estão cortadas, não podemos esquiar; quando as estradas estão abertas, nao há neve, não podemos esquiar".
Obrigado pelas suas contribuições.

Algarvear a Serra da Estrela? Não, obrigado!