sexta-feira, dezembro 15, 2006

Mas qual é o problema deste tipo?

Depois de ler o post anterior, o caro leitor pode perguntar-se (e eu não posso levar a mal que o faça) "Mas que sanha esta que este gajo tem à Turistrela! O que é que ele quer, destruir o negócio? Para quê? Quer ficar ele a mandar naquilo?"
Passo a explicar.
  1. Não me move nenhuma sanha contra a Turistrela. É verdade que o conhecimento da realidade do que é a sua acção na Serra da Estrela me leva a criticá-la, e tenho que o fazer nos termos mais duros, pois são esses que correspondem à gravidade do seu comportamento e à das consequências desse comportamento.
  2. Não sou irredutivelmente contra a existência de uma pequena estância de esqui na Serra da Estrela, desde que se mantenha com a dimensão que agora tem. Temos que ter consciência que uma estância de esqui estraga a paisagem e o ambiente, tanto mais quanto maior for.
  3. Não quero destruir o negócio, quero que ele se desenrole em termos compatíveis com a conservação da Serra da Estrela como a maravilha natural que ainda é. A paisagem e o ambiente da Serra da Estrela são as suas principais vantagens competitivas e é possível aproveitá-las sem as destruir. O negócio da Turistrela tem sido outro.
  4. Se eu quero mandar naquilo?! Credo! Tenho uma profissão compesadora em todos os aspectos. Não penso abandoná-la, nem dividir a minha actividade profissional. Eu falo de turismo na Serra da Estrela na perspectiva de um turista. Não vejo na Serra as ofertas de actividades que encontramos nas outras regiões montanhosas da Europa e que me levam a visitá-las, não vejo sequer o que podemos encontrar no Gerês.

A verdadeira razão para o meu post anterior nem é o mal que a estância de esqui faz à zona da Torre, onde se situa actualmente. O mal, aí, já está feito. A verdadeira razão é a que mostro na fotografia com que ilustro este post. Trata-se do Covão do Ferro. A Turistrela e a Região de Turismo andam a apregoar a qualidade e a viabilidade da prática do esqui na Serra da Estrela, para tentarem captar investimentos que financiem a expansão da estância para o Covão do Ferro e para a Garganta de Loriga. Porque gosto muito do Covão do Ferro e da Garganta de Loriga, não quero vê-los transformados em estaleiros, cheios de lixo, de cartazes publicitários, com telecabines, cafeterias e parques de estacionamento, à imagem da triste degradação da zona da Torre onde a estância Vodafone está actualmente localizada.
Sobretudo, não quero aceitar que tudo isso se faça sabendo de antemão que as pistas que ocuparem estes vales ainda preservados ficarão encerradas durante a quase totalidade da época de esqui, com ou sem canhões de neve. É que o Covão do Ferro está orientado a sudeste (ou seja, é banhado pelo sol na altura mais quente do dia), protegido do vento dominante, situado a uma altitude trezentos metros inferior à da actual estância. Sendo a eficácia da produção artificial de neve a que mostrei no post anterior, que garantias há que estas pistas possam vir a ser efectivamente utilizadas?

E pergunta o caro leitor: "e a Turistrela não sabe disso? Se é verdade o que este gajo diz (e a Turistrela saberá-o melhor que ele), como é que a Turistrela vai arriscar milhões de euros num projecto que não tem pernas para andar?". Olhe, caro leitor: em primeiro lugar, o dinheiro com que se vai pagar isto não é da Turistrela, é seu e meu. Vem associado a uma coisa que tem a sigla PENT, Plano Estratégico Nacional do Turismo. Em segundo lugar, veja este excerto do artigo que referi no post de ontem, publicado pela Visão:

Para as Penhas da Saúde, onde a empresa detém o recém-remodelado Hotel Serra da Estrela e chalés de montanha, está projectada uma estância com várias moradias e 1500 camas, uma piscina pública, um casino e um pavilhão multiusos. [...] "Queremos também construir um centro de estágio, destinado a atletas de alta competição, para que possam fazer provas de esforço em altitude." Tudo isto, diz o administrador, apenas será viável se o Governo autorizar o aumento da área esquiável.
(O negrito fui eu que o introduzi.) Percebeu, caro leitor? Aparentemente, o que importa não é o esqui ou a sua qualidade. O que parece verdadeiramente importar à Turistrela é o que importa aos promotores "turísticos" do Algarve: construir, construir, construir. No Algarve justificam-se os atentados com as maravilhosas praias, aqui com as maravilhosas encostas nevadas. Num caso e noutro, isso é o que menos conta.

E é por estar contra tudo isto que escrevi o post anterior. Não lhe parece razoável a minha atitude?

2 comentários:

mário venda nova disse...

Deus nos acuda! Isto já se transforma noutro Algarve e a bom ritmo, infelizmente.

Mais do que razoável o seu comentário, é mais uma chamada à realidade para todos nós.

ljma disse...

Mário, obrigado pela visita. Se calhar trata-se de wishfull thinking, mas começo a achar que é possível evitar o pior. Começa a organizar-se uma oposição. Um sinal (não o único) dela é o artigo que hoje saiu no Público Local (Centro) de hoje. Há bem pouco tempo uma notícia como esta teria-se ficado pelas parangonas da Turistrela. Agora também já dão cobertura ao outro lado da "barricada"...
Oxalá seja um sinal do verdadeiro progresso, que do "progresso" da urbanização, da banalização e da lixeirização da Serra da Estrela já tivemos que chegue!

Algarvear a Serra da Estrela? Não, obrigado!