terça-feira, setembro 19, 2006

Uma notícia muito triste...

... E, ao mesmo tempo, muito esquisita. É esta, pescada na Máfia da Cova, que cita o Jornal Porta da Estrela:
Estrada de São Bento abre novo acesso à Serra
Está praticamente concluída a requalificação da Estrada Nacional (EN) 338, que liga a Portela do Aarão, na zona de Loriga, à Lagoa Comprida, no Maciço Central da Serra da Estrela. Da responsabilidade das Estradas de Portugal (EP), a via deverá estar pronta no final deste mês, estando a colocação do pavimento na fase final. A obra, que teve início no Verão do ano passado, estende-se por cerca de 10 quilómetros, uma inclinação média que ronda os sete por cento e custará 4.512.257 euros. A nova via, também conhecida por “Estrada de São Bento”, permite melhores acessos ao Maciço Central da Serra da Estrela e também uma melhor e mais rápida evacuação em altura de fortes quedas de neve.
É triste porque é mais uma vertente da Serra que fica aberta para o lixo dos piqueniqueiros, para o entulho dos construtores civis, para os electrodomésticos velhos dos bons cidadãos da nossa região. É triste porque é mais uma a apoiar o turismo das voltinhas de automóvel. É triste porque os habitantes de Loriga acham que com esta estrada se vão desenvolver, quando o desenvolvimento que a estrada traz é, quando muito, aquele que se pode apreciar no Sabugueiro. É triste porque já estou a ver o presidente da Câmara da Covilhã a dizer que se Seia tem três estradas (esta, a do Sabugueiro e a de São Romão) para o maciço central, a Covilhã não pode ficar para trás... O mesmo haveremos de ouvir ao presidente da junta de freguesia de Alvoco da Serra (freguesia mais a sul): as freguesias mais próximas de Seia foram favorecidas, não pode ser, também queremos a nossa estrada para a Serra, também queremos o nosso desenvolvimento!
Ao mesmo tempo, esta notícia é esquisita porque refere a "requalificação da estrada nacional (EN) 338, que liga a Portela do Arão à Lagoa Comprida", o que parece indicar que essa estrada nacional já existia, naquele troço. Mas era uma estrada de terra (e foi feita há não mais que quinze anos, que antes disso não passava de um trilho de pé posto)! É esquisita porque a notícia diz que ela vai descongestionar o trânsito, mas toda a gente sabe (como se vê em Lisboa, no Algarve, em Chamonix, em Andorra) que quanto mais estradas há a "facilitar" o trânsito automóvel, mais automóveis há a percorrê-las, maior é a dispersão dos limitados meios das forças da ordem, logo, maiores são os engarrafamentos. E depois, veja bem, caro leitor de Coimbra, do Porto, de Aveiro, de Lisboa, de Viseu: faz alguma ideia de onde fica a Portela do Arão? Eu ajudo: fica entre Loriga e Valezim. Está mais esclarecido? Faz alguma ideia das voltinhas que há-de dar para lá chegar, vindo de Seia? Ou pior ainda, pegando numa possibilidade referida pela notícia, vindo da Covilhã?
Gentes de Loriga, gentes de Valezim, gentes das outras "freguesias do alto do concelho": com esta estrada, ofereceram-vos a possibilidade de transformar as vossas belas terras em local de passagem de turistas rodoviários! Se ela chegar a ser significativamente utilizada, a curto prazo veremos as bordas da estrada começarem a encher-se de lixo e de animais mortos; a médio prazo, aparecerão os montes de entulho dos construtores civis; a longo prazo, veremos as vossas aldeias expandir-se serra acima. A beleza (assombrosa!) da vossa encosta começa agora a morrer. Esta estrada grita, de forma bem audível e entendível: "Turismo nestas aldeias, não! Passagem de turistas por estas aldeias a caminho da neve, sim!"
E viva o progresso! Gaita para isto, que vontade de desistir!

Nota posterior: Um leitor que me parece estar melhor informado do que eu corrigiu-me quando disse que a estrada de terra que agora foi asfaltada só existia há quinze anos. Parece que existia há mais tempo (se bem que não fosse imediatamente perceptível na vizinhança). Parece que, mesmo sendo uma estrada de terra, já era estrada nacional. Agradeço a correcção e peço perdão pelo meu erro. Mais de resto, mantenho tudo o que afirmei.

16 comentários:

al cardoso disse...

Estou contigo nesta luta, pena que parece ser ingloria.

Um abraco do lado Norte na nossa Serra.

Refúgio da Montanha disse...

...infelizmente, pelo que tenho visto fico com a certeza que se a nossa Serra estivesse em terras Espanholas as coisas neste aspecto seriam diferentes....para melhor!

João L. disse...

Caro Cântaro,
deixe-me juntar ao seu desabafo:
gaita para isto.
Fico perpelxo quando ouço o discurso de "mais e melhores estradas de acesso à Serra". Para quê?. Para, no inverno, se amontoarem dentro dos carros lá em cima, darem uma escorregadela num saco plástico pela neve (que depois fica por ali a esvoaçar), tirar umas fotos e vamos p'ra dentro que está frio? No Verão fazer a lixeirazinha do costume e vamos embora que se faz tarde e amanhâ é dia de trabalho?
Para quê?

Anónimo disse...

È, em espanha seria um espectaculo...para vós Portugal é sempre uma merda..amigos candidantem-se a minitros ou politicos, assim ao menos esperamos posteriormente para vos ver fazer algo.
Nunca nada está bem, se são tão ecologicos porque andam de carro a poluir o ar da nossa querida serra da estrela!!!!Eis a questão

Pedro Castro

refugio da montanha disse...

Queria só voltar a sublinhar que no meu anterior comentário me referia, só e apenas, ao trabalho (bom na minha opinião) que Espanha desenvolve na gestão e conservação da sua rede de parques nacionais(www.mma.es).

ljma disse...

Al Cardoso, João L., Refúgio e Pedro Castro, obrigado pelos vossos comentários. Pedro Castro, parece-me que não concorda comigo. OK, vejamos.
1. Eu não digo que em Portugal é uma m****. Digo que a política do desenvolvimento da Serra da Estrela é uma m*****, foleira, parola, ultrapassada em todo o lado, não é preciso ir a espanha para o ver. Vá ao Gerês, aos Açores, para ver como se desenvolve o turismo sem alcatrão.
2. Não sei porque é que ter uma opinião sobre a serra me obriga a candidatar-me a ministro. Ainda por cima parece-me que o Pedro acha que a isso sou obrigado porque a minha opinião é contra o que se anda a fazer. E quem está a favor, não o obriga também a candidatar-se? Porquê? Como eu já disse antes, em democracia o povo é a fonte do poder. A qualidade da democracia depende da qualidade da participação cívica dos cidadãos e ela não se resume à altura de meter o voto na urna. Esta é a forma que, por enquanto, adoptei para participar. Não me agradam os espartilhos partidários, até porque a minha questão é transversal, encontro pessoas que concordam comigo em todos os partidos. Conhece alguma maneira de chegar a ministro sem me meter num partido, mesmo como "independente"? Eu não.
3. O Pedro acha que eu sou ecologista? Eu não sei se o sou. Sou um amante de paisagens bonitas, mas não sei se isso chega. Mas vá, admitamos que sou ecologista. Acha que, porque o sou, não posso andar na "nossa querida serra" de carro? Porquê? Só os que não são ecologistas é que podem? Mas o Pedro acha que isso (andar de carro na "nossa querida serra") é mau? Então concorda comigo, que não se devia abrir a estrada? E, já agora, o Pedro também acha que nenhum comunista pode ser proprietário de um meio de produção (quinta, fábrica, etc)? Ou que nenhum empresário pode tentar entender o ponto de vista dos sindicatos? Ou que um cristão não pode lutar num exército, nem sequer em legítima defesa ("perdoa os teus inimigos")? Ou que um benfiquista não pode conversar calmamente, sobre futebol, com um sportinguista? E o Pedro, tem a certeza de que não faz nenhum gesto sem antes o avaliar à luz de todas e cada uma das suas crenças? Vá lá, deixemo-nos de paleio sem eira nem beira...
4. OK, agora diga-me, Pedro. Parece-me (mas não sei, porque o Pedro não o chega a dizer) que o Pedro concorda com a abertura da estrada. Diga-me: acha que vai contribuir para resolver o problema dos engarrafamentos? Acha que se justifica o que se gastou (dinheiro dos nosso impostos) para resolver esse problema que não ocorre mais do que, no máximo, dez dias em cada ano? Acha que a estrada vai deenvolver o turismo? Que turismo? Tem esperança que esta estrada vá impedir a desertificação? Que vá trazer um grande progresso a Loriga ou a Valezim? Explique-nos, por favor, Pedro. Dê-se ao trabalho de me tentar convencer, como eu tento convencê-lo a si. É que é a falar é que a gente se entende.
Mais uma vez, bem haja, vá aparecendo. Obrigado.

Anónimo disse...

Não sei o que se passa com esta gente?
Parece-me que a ignorância é muita relativamente a este Tema...(Estrada de São Bento), alias o texto principal é completamente contraditório se ninguém sabe onde fica S. Bento porque essa preocupação toda. Senhores pseudo-ecologistas, a Estrada de S. Bento é acima de tudo um acto de Justiça. Pois se alguem tem lucrado com a Estrela, não é Loriga, Alvoco ou Valezim; è Seia, sabugueiro e especialmente a Covilhã. E reparem quem tem destruído a Serra? Gentes da Covilhã que a usam a seu belo prazer em incursões muitas vezes Violentas desde os Costa pais até aos usufrutuários das Penhas da Saúde isso sim é monstruosidade. Não se preocupem com Loriga, Alvoco e Valezim, Cabeça, Teeixeira, Vide e também Sazes da Beira, para nós porque sou Loriguense e amante desta montanha, aliás fui vigilante da Natureza 10 anos, esta Estrada é um sonho de há décadas. Aproveito para esclarecer a V. ignorância. Esta estrada fez parte do plano de reflorestação dos anos 60 contemporânea dos Viveiros florestais de Loriga ou de Sazes como quizerem, portanto há mais de 40 anos. Teve em 1984 obras de manutenção e em 1997 foi classificada como nacional e de interesse regional. Portanto não venham com menos de 15 anos pois nesse tempo já eu passava por lá com carros ligeiros em vigilância a incêndios. E até digo mais, pois a isso V. Exªs não são sensíveis, se aquela estrada estivesse em boas condições provavelmente os grandes incêndios que ali ocorreram não tinham atingido tais proporções. Datas: 1979, 1998 entre outros grandes incêndios - sabiam?... Espero que sejam democráticos e publiquem. Finalmente faz-se justiça e devolve-se a serra aos seus. Viva a Estrada de S.Bento, vivam os povos do SW da Estrela.
Viva a Serra da Estrela

ljma disse...

Caro anónimo, começo pelo fim. Vivam os povos do SW da Estrela e os dos outros pontos cardeais também. Viva a Serra da Estrela.
Admito que possa estar errado sobre a abertura do estradão há 15 anos. Corrijo-me: só desde há quinze anos reparei num estradão naquela zona, por ter sido beneficiado nessa altura. Mas reconheça que devia ser a *única* estrada nacional da Europa ocidental com um pavimento de terra, não?
Sobre os fogos, olhe, a gente está cansada de ver fogos galgar estradões de terra, estradas, autoestradas e rios, só para serem extintos pelo S. Pedro, quando começa a chover. A gente está cansada de ler nos jornais histórias sobre bombeiros perdidos dentro das viaturas que não receberam instrucções adequadas, de falta de coordenação, de dispersão de esforços para salvar objectivos que deviam ser secundários, etc, etc, etc. A gente gostava de ver as causas e a evolução dos grandes incêndios a serem esmiuçadas por comissões de inquérito, mas isso não se faz em Portugal. A gente ainda há dias leu no Público que uns especialistas estrangeiros que vieram a portugal dar formação sobre trabalho de sapador e técnicas de fogo controlado aos bombeiros portugueses dizerem claramente que falta formação aos nossos bombeiros, que não sabem interpretar o fogo, que são água-dependentes. Por tudo isto, desculpe, mas não fico convencido de que, com a estrada de S. Bento se teria conseguido poupar a encosta aos incêndios que refere. Até porque as estradas podem ser (e são) usadas pelos incendiários, também... Bem sei que os bombeiros fazem o que podem, mas...
Não quero entrar numa guerrinha sobre de quem é a serra, ou quem é pior para a serra. Estou perfeitamente disposto a admitir que a câmara que pior tem actuado é a do concelho onde moro, o da Covilhã. Por mim, a Serra da Estrela podia passar toda para a administração de qualquer concelho da região ou de fora, ou ser toda entregue à junta de freguesia de Loriga. A fronteira entre Portugal e Espanha já é uma linha imaginária, quanto mais a que separa os concelhos e freguesias da Serra...
Admito que a estrada seja uma antiga aspiração das populações de Loriga. Isso não me impressiona. Gostava era que me dissesse porquê. Que desenvolvimentos é que as populações esperam ver em Loriga como resultado desta estrada? Há um que já se nota: a paisagem rasgada pela estrada. Outro que se vai notar em breve: o lixo que se vai começar a acumular nas bermas. Com esta estrada os turistas vão poder ver tudo de dentro do carro, a caminho da torre. Se não a tivessem, poderiam tentar negócios de passeios a cavalo, a pé, de bicicleta, de burro, como os que são viáveis em todo o lado, que os há no Gerês e nos Açores, só para falar de dois sítios que conheço cá em Portugal. Com a estrada vão ver os turistas a passar, ou a parar durante meia hora para comprarem um queijo e tirarem uma foto. Desenvolvimento? Acho que não... O que gostava era de ver as populações da Serra (do meu lado e do seu também, caro anónimo) a fazerem por ter turismo na serra, a gozar a serra como a gozam no Gerês, a pé, a cavalo, de bicicleta, em canoas, com tempo, pernoitando vários dias na região, em vez de ver a serra a ser destruída em nome de um turismo toca e foge, vamos ao sku, compramos um queijo e ala, vamos embora. É esse o turismo que a sua estrada de São Bento poderá desenvolver, se chegar a ser usada. Mas não é só esta, o mesmo se pode dizer da tenebrosa estrada verde, da asfaltação da estrada Unhais da Serra - Nave de Santo António, das asfaltações do concelho de Manteigas (que parvoíce, a estrada para o poço do inferno, parece que querem despachar os turistas o mais rapidamente possível!), etc, etc, etc. Turismo rodoviário? Há tantas outras possibilidades, melhores, mais rentáveis, mais ambientalmente razoáveis...

Obrigado pela sua contribuição, caro anónimo. Volte sempre, quer concorde comigo quer não.

Anónimo disse...

Ainda sobre a Estrada de S. Bento

Na sua resposta diz que como é possível uma estrada de terra ser considerada estrada nacional, é fácil …consulte o plano rodoviário nacional de 97 ou 98 e verifique 8 alias a Estrada de s. Bento não esta concluída ainda e já é a Estrada Nacional 338, desde a Vide até…Manteigas e bom continua (claro que lá em cima há um troço com a 339 não confundamos) Sobre o lixo que se vai acumular nas bermas, junto as suas preocupações as minha, acredito que as coisas tendem a melhorar nomeadamente as mentalidades e até as Leis, mas nunca será como o desastre ecológico do alto da Torre, onde agora se faz manchete da retirada de uma tonelada de lixo, quando eu e os meus colegas do Parque natural juntamente com jovens em tempos livres retirávamos as carradas, desde a Fonte da Jonja, Nave de Santo António, Covão do Boi e mais claro na zona dos Poços de Loriga, alias a freguesia mais afectada pelo lixo, quer os plásticos e afins e …aquilo que não vi publicado no seu blog…gravíssimo os esgotos a céu aberto dos edifícios da Torre, esses sim autentico atentado…mas disso ninguém diz nada. Vá até lá percorra o trilho das urtiga … é verdade, as linhas de água a cair para o covão do alva (Alvoco) é tal a nitrificarão que naquelas linhas de água só nascem urtigas.
Relativamente aos fogos. Caro amigo, em Agosto de 1998 deflagrou um incêndio logo por cima da Portela de S. Bento, cerca da uma hora da tarde, estava em Loriga com uma equipa de sapadores quando foi dado o alarme, a estrada estava péssima, sabe quanto tempo demorei até ao sitio fomos alias os 1ºs 50 minutos, sabe quanto se demora agora 10 minutos. Para um incêndio o tempo conta. Sabe quantos hectares arderam nesse incêndio 2000.
Sobre o Turismo sustentado, brevemente publicarei a minha opinião, se me permitirem

ljma disse...

Caro anónimo, claro que pode publicar a sua opinião sobre turismo sustentado. Fico a aguardar com expectativa a sua opinião.
Já me referi aos esgotos dos edifícios da Turistrela sim senhor. Se ainda não o fiz mais clara e incisivamente é porque me faltam conhecimentos técnicos que me dêm mais segurança no que escrevo. Mas reconheça que não abundam por aqui os elogios à actuação desses senhores, nem defesas da estância de esqui, e muito menos das ampliações que se planeiam.

TPais disse...

Bem isto vai para aqui uma actividade!E eu a perder isto tudo!Claro que não me consigo conter e vou mandar o meu bitaite.
Antes de mais queria agradecer ao caro anónimo os esclarecimentos que tem prestado aqui no Cântaro sobre a estrada de S. Bento! É que realmente para quem não está envolvido directamente em determinados processos é bastante dificil aceder a toda a informação (vejamos o caso do PETUR ou do novo Plano de Ordenamento do PNSE). Gostava ainda de realçar que aqui no Cântaro todos temos a mesma paixão pela serra que imagino que o caro anonimo tenha, temos é opiniões não concordantes relativamente a este assunto. Refiro isto para que o caro anónimo encare as nossas opiniões de uma forma construtiva e não como um simples exercício de mal dicencia.
Passando ao assunto e à contribuição das estradas para apagar os incêndios.
Concerteza que chegar em 10 minutos ao incêndio por cima da Portela de S. Bento teria sido positivo para controlar o inendio de 2000. Concerteza que chegar em 10 minutos a qualquer incio de incendio é positivo, no entanto, creio que concordará comigo se eu disser que não é possivel ter uma estrada a passar perto de todos os sitios onde já se iniciaram incêndios até hoje. A ser a sim a Serra teria de estar esquadrizada por estradas com não mais do que um quilometro quadrado. Espero que não seja apologista desta opção. Devo lembrar que, no incêndio do ano passado no Vale do Zezere em nada valeu a existencia da estrada nacional e até de outros estradões nessa área para combater o incendio. Por outro lado, a maioria das estradas que serve de acesso aos Bombeiros em caso de incêndio Florestal não é de alcatrão mas sim de terra batida e olhe que o impacto do alcatrão no ambiente e na paisagem é muito superior. Ou seja, o dinheiro que se gastou agora nesta estrada daria para manter o antigo estradão durante muitos anos (especialmente se o acesso fosse reservado aos Bombeiros).
Na minha opinião, o acesso ao fogo por parte dos Bombeiros não é o problema dos grandes incêndios mas sim a quantidade de combustivel disponivel que se acumula em grandes àreas continuas fruto do abandono dos métodos tradicionais de ocupação da terra.
O caro anónimo disse que quem mais lucrou com a serra foi Seia,Sabugueiro e Covilhã, pois espero que Loriga, aldeia que muito aprecio, não venha a benefeciar dos mesmos "lucros" do Sabugueiro uma vez que este se encontra totalmente descaracterizado e abandalhado. Posso dizer que já passei centenas de vezes pelo Sabugueiro mas nunca tive vontade de lá ficar, por outro lado, em Loriga, sempre que lá passei foi para ficar pelo menos uma noite. A maior virtude da aldeia de Loriga é o seu vale e a sua pitoresca aparência bem como as suas gentes. Aliás, pelo que sei Loriga beneficia já de muito mais infraestruturas que o Sabugueiro. Estou convencido que se Loriga se tornar um Sabugueiro ninguem se dará ao trabalho de fazer uma estrada perigosa para lá ir. Mais ainda, se esta estrada servir apenas para atrair os turistas da neve, então estamos mesmo mal porque cada vez neva menos e de cada vez que nevar essa será a ultima estrada a ser limpa.
Infelizmente não vejo mesmo nenhuma utilidade para esta estrada. Digo infelizmente porque, se ao menos visse,a minha dor não seria tanta.

Até breve caro anónimo,
já agora, esteja à vontade para se identificar é que aqui as ideias são livres e tambem seria mais agradável dirigir-me a si pelo nome

Anónimo disse...

Caro TPais

De facto e é essa a minha modesta opinião, partilhamos a mesma Paixão por esta ESTRELA que é a nossa Serra, obvio que seria mau que as nossas opiniões fossem exactamente iguais, então seria escusado tecer qualquer comentário, limitar-nos-íamos a subscrever as opiniões uns dos outros. Sobre a Estrada de São Bento será talvez hoje a ultima vez que escrevo, porque aliás entraremos no campo da futurologia e isso eu não faço apesar de ter a minha própria opinião. Há no entanto mais algumas coisas a dizer para rematar a questão.
È obvio que para mim a Estrada de São Bento não se resume a importância que virá a ter na detecção e combate a incêndios, é alias e como já referi acima de tudo um sonho, um sonho de toda uma população de uma encosta da Serra, que tem sido votada ao abandono constante por parte das instituições, que a pretexto de se localizarem dentro de uma área protegida, são sujeitos as mais diversas dificuldades e reprovações quando têm algum projecto em vista, e o que ganharam em troca? Nada, As fabricas fecham, o desemprego é enorme, a fuga o esvaziamento populacional é constante e dramático, basta para isso consultarem os censos e verificarem a sangria de população.
Caro Amigo
Sou um apaixonado por esta Serra e quero a tudo custo evitar o comportamento de quinta, a Serra vale pelo seu todo, já Orlando Ribeiro descrevia a Estrela como um único Bloco, no entanto verificará que a Serra é também diferente e é a sua multiplicidade que a torna mais rica, alias até politicamente é diferente, quero sublinhar com isto que a Serra apresenta níveis diferentes de desenvolvimento, enquanto algumas áreas desenvolvem outras têm regredido, que é infelizmente o que se passa na minha área. Não quero ser muito longo. (Alias brevemente darei a minha opinião sobre Turismo sustentado), mas as acessibilidades e especialmente a proximidade ao alto da Serra, provocará algum dinamismo do lado de cá, trará de certeza gente, (não desejo o turismo do garrafão é obvio) mas senhores, Loriga distava uma hora e meia da Torre, passa a distar 20 minutos, acredito também e porque a própria estrada foi construída ou arranjada como quiserem como muito cuidado a nível ambiental se calhar a 1ª vez que tal aconteceu (Basta passarem por lá observarem) que o percurso não se transformará numa lixeira. Rematando; o futuro a Deus pertence e eu acredito. Para os amantes da Natureza O Vale de Loriga sempre teve a presença do homem que o tornou belo e é a sua partida que o esta a destruir basta repararem nos socalcos casa vez mais destruídos, nas construções típicas nas áreas de floresta.
Mas o seu vale glaciar continua intacto. Este comentário já vai Longo. Só um aparte. Caro TPais Loriga não é uma Aldeia, é Vila, na prática e no papel (digo Lei)
Cumprimentos

ljma disse...

Caro anónimo,
Mais uma vez agradecemos (falo por mim e, tenho a certeza, pelo TPais) o seu comentário. É como diz, ainda bem que não pensamos todos da mesma maneira. Isso não impede (antes pelo contrário) que não tentemos convencer-nos uns aos outros. E não concordo consigo, como passo a explicar.
1.
Diz que a estrada de S. Bento é um sonho da população de Loriga. Não digo que não, mas esse facto não me impressiona. É que, veja bem, é um sonho também da população da Lapa dos Dinheiros, era um sonho da população de S. Romão (que já foi realizado), é um sonho da população de Alvoco da Serra, concerteza que o é também das populações mais a Sul, Sobral de S. Miguel, Erada, Unhais da Serra, sei que o é das populações das Cortes do Meio (pelo menos assim o apresenta o seu presidente de junta), imagino que o seja também das do Teixoso, da Vila do Carvalho, do Sarzedo, de Verdelhos, ao que parece (quando se ouvem os defensores da estrada verde) também é um sonho das de Videmonte, de Linhares da Beira, de Folgosinho, etc, etc, etc. Como é? Realizamos estes sonhos todos? Todas estas "antigas e legítimas aspirações"? Que serra teremos depois de tanto "sonho" realizado?
2.
A estrada de S. Bento ainda não pode ser percorrida de carro e eu não tenho vontade nenhuma (credo!) de a percorrer a pé ou de bicicleta (ah, mas quando era de terra... Que pena tenho de não ter aproveitado!). Não sei se houve ou não cuidado ambiental. Mas olhe, não notei cuidado ambiental nenhum na dimensão (astronómica!) do entroncamento desta estrada com a estrada nacional Seia-Torre. Pelo que posso ver por enquanto, não estou nada convencido desse cuidado ambiental. Diga-me, em quê, ao certo, é que acha que esse cuidado se manifesta? Bem sei que acha que, se lá fosse, o constataria. Mesmo assim, tente explicar-nos, por favor.
3.
Posso apostar consigo (mas acredite que gostaria muito de perder a aposta) que, não tarda nada, a estrada vai começar a ser usada pelos construtores civis para despejarem os seus montes de entulho. Se isso não acontecer nessa estrada, como acontece em todas as outras, muito me espantarei. Isto para não falar do lixozito mais miúdo que os automobilistas menos civilizados (e ele há-os, pode ter a certeza) deitam pelas janelas. Ou do lixo que os piqueniqueiros de beira da estrada (que também os há pouco civilizados, e tantos que são pelas estradas da Serra!) deixam ficar para a posteridade...
4.
Volto ao "sonho". Será um sonho que realmente valha a pena? Pode ter a certeza que o desenvolvimento não cai do céu, nem vem de autocarro numa estrada de alcatrão. Se querem turistas em Loriga, façam por tê-los, e mantê-los, aí. Atraiam-nos a Loriga, pelo que Loriga e as suas redondezas têm de atractivo. Organizem empresas de turismo de natureza. O Gerês enche todos os verões com milhares de turistas que permanecem lá durante dias, passeando a pé, de bicicleta, a cavalo ou burro, em canoas. Pagando (e alegres!) por cada uma destas coisas e ainda por cada refeição, por cada noite. A vossa encosta é uma maravilha, deviam-na aproveitar (mas agora, com esta estrada, é muito mais difícil) pelo que ela é, e não pela via de passagem que ela pode ser para a Torre. É que se esta estrada vier a ser significativamente utilizada, o mais que terão é turistas a passar, eventualmente a parar para comprar um queijo. Tá bem, dá algum movimento, assim tipo Sabugueiro... Agora, se aproveitassem realmente a vossa encosta e a paisagem natural da Serra, teriam turistas a permanecer em Loriga, a gozarem Loriga, a pagarem a guias em Loriga, a subirem a pé partindo de Loriga e a descerem a pé chegando a Loriga, a alugarem bicicletas e cavalos em Loriga. Não levem isto pessoalmente! Digo isto sobre Loriga, mas podia dizer o mesmo sobre qualquer aldeia, vila ou cidade da região da Serra da Estrela (incluindo, óbvia e especialmente, a Covilhã). Para se perceber bem o que eu quero dizer, deixo uma pergunta. Acha que um projecto como a casa da Lapa Mourisca (na Lapa dos Dinheiros) seria viável, ou faria sentido, na barafunda rasca e suja do Sabugueiro? Face à óbvia resposta a esta pergunta, diga-me: a estrada do Sabugueiro é mesmo uma mais valia para o Sabugueiro? E esta estrada de S. Bento, será mesmo uma mais valia para Loriga e Valezim?
5.
Para acabar. Olhe, não se rale muito connosco. A gente é contra a estrada de S. Bento mas, agora que ela já está construída, já nada a pode apagar. Mas pode ter a certeza que é mais um passo dado na mesma direcção do costume: estragar a serra e inviabilizá-la para todos, todos os negócios, excepto o medíocre negócio da Turistrela e o medíocres negócios dos vendedores de fancaria. Ainda não chegámos bem, bem, lá; mas acredite que com medidas como esta, avançamos nesse sentido, a todo o vapor!

Anónimo disse...

Tinha dito que seria talvez a última vez que opinaria sobre a Estrada de S. Bento, mas bem, face as questões colocadas tenho que render-me e responder.

1 – Claro que não é possível nem desejável que todas as povoações tenham o seu acesso, mas no meu entender a Estrada de S. Bento serve toda uma população que vai de S. Romão até a Teixeira. Já agora e sobre a Estrada de S. Romão para o Paramol convém referir que aquele acesso foi o primeiro para a Serra, pois foi construído logo no início do Sec. XX pela então empresa Hidroeléctrica da Serra da Estrela aquando da construção da Barragem da Lagoa Comprida iniciada em 1905. A nacional 339 veio muito depois? Voltando ao inicio a estrada deS. Bento já existente há muito vem colmatar as pretensões desta região e quebrar as intenções de Alvoco de construir a seu próprio acesso que aliás iniciaram e já se encontra a uma cota elevada (Alto de S. Jorge, + - 1300 metros), vão lá e vejam o disparate…
2- O entroncamento com a EN 339 e até com a EN 231 de facto merece alguns reparos, é pena, no entanto esta obra foi sujeita a rigoroso estudo de impacto ambiental (coisa rara neste pais) e todos os taludes e linhas de agua estão a ser sujeitos a recuperação de modo a minimizar os impactos, (colocação de terra vegetal nos taludes e empedramento de linhas de agua, alem de outros pormenores)
3 – Saiba que participei activamente na luta contra os despejos dos construtores civis nesta área e a guerra ainda não foi ganha totalmente mas deu muitíssimos frutos e a vitória está para breve, posso garantir por experiência própria que a frequência deste tipo de poluição acontece muito mais vezes nesta área em estradas de terra que em estrada alcatroadas, posso provar.
Relativamente aos piqueniqueiros como já disse anteriormente, acredito que as mentalidades tendem a evoluir e haverá lugares próprios para o efeito o que evitará a dispersão.
4- Acredito se está área pertencesse ao concelho das Covilhã haveria apoio para a criação de essas actividades empresariais, como já disse os investimentos concentram-se na sede de concelho e poucos deste género, alias veja o CISE - Centro de interpretação da Serra da Estrela, a Câmara de Seia dispunha de terrenos próprios e do S. Florestais, (Viveiros florestais), que seriam gratuitos para a instalação dessa infra-estrutura, dinamizando a área de implantação, criando postos de trabalho, fixando pessoas e o que aconteceu… compraram uma quinta no meio da Cidade e investiram um balúrdio do programa Pró Estrela ( cerca de 1 milhão de contos) que estava destinado ao investimento nas área de montanha, com autarquias assim mais apetece ir para a Covilhã (alias agora é um pulinho…) sobre as potencialidades desta encosta, continuam cá todas, a Estrada de S. Bento não beliscou qualquer uma delas, os vales glaciários, Loriga, Cabeça, Alvoco, Teixeira, Vide estão iguaizinhas, passeios a Cavalo, TT, Mota 4, a pé, podem ser praticadas na mesma, sem atropelos isso posso garantir.
5- Sabugueirizar a Serra não…onde já ouvi isto… Claro que jamais a zona de Loriga se transformará, num sabugueiro e podem ficar descansados que nos estamos a prevenir contra isso.
Sobre a Turistrela – um só comentário: a maior aberração jurídica do Pais que urge exterminar, a bem da Estrela, a Bem dos Serranos e a bem de Portugal .
Junto-me a vós e a todos de gostam desta serra nesta luta!!!
Cumprimentos.

ljma disse...

Compreendo a sua posição mas parece-me ouvir já as populações de todas as outras localidades a exigir a asfaltação dos seus caminhos (se Loriga e Valezim tiveram a sua aspiração satisfeita, nós temos que ter a nossa!) Diz que o acesso mais antigo é o de S. Romão? Está bem! Francamente, acho que haver, no mesmo concelho, ao longo de uma distância de 20 km, três acessos diferentes ao maciço central é demais. E quase aposto que o caro anónimo estaria contra esta situação se ela se verificasse do lado da Covilhã (digamos, uma estrada saindo nas Cortes do Meio, a da Covilhã e outra na Vila do Carvalho ou no Sarzedo). Note bem, não quero acusá-lo de hipócrita, nem pensar!, quero apenas colocar-lhe este problema de uma forma distanciada, fria, académica, para ser mais fácil a sua análise racional, separada de aspectos particulares que, tantas vezes, influenciam o nosso pensamento. (Já agora, esta possibilidade que agora inventei, das três estradas pelo lado da Covilhã é uma aberração! Espero que nunca, nunca se concretize! Já temos uma, já chega. Mas já se está a asfaltar outra, a partir de Unhais da Serra. Que tristeza tão grande, também...)

Tem razão, as estradas de terra são mais usadas para os despejamentos de entulho do que as estradas asfaltadas com algum movimento, reconheço, mas estas, sobretudo se tiverem pouco movimento, não estão completamente imunes a essa praga.

Quanto às potencialidades da encosta, não estão todas lá, desculpe. Agora que existe a estrada, os turistas de serra que chegarem a Loriga vão continuar estrada acima nos seus carrinhos. Quem é que acha que vai pagar por um passeio a cavalo para chegar a um sítio acessível de carro? Claro, há sempre alguns entusiastas, mas acha que serão os suficientes para manter o negócio em pé?

Por fim, olhe que essa de virem para a Covilhã... Enfim, por mim são bem vindos, mas saiba (decerto sabe...) que no concelho da Covilhã não há nenhum CISE, nem sequer um posto de informação do PNSE. Na covilhã, da serra só temos o melhor, la crème de la crème: Turistrela e Região de Turismo... A gente aqui quer é coisas finas, hotéis de luxo e casinos, tudo assim com muita "requalificação" e muita "reordenamentação", 'tá a ver? Assim, à francesa. E tal, uns candeeiros de néon cor de laranja, e tal uns centros comerciais na serra... Não, nós não queremos nada com essa "gentalha" que anda por aí! [heheh ;)]

Saudações, força!
PS: Agrada-me muito a forma como discordamos!

ljma disse...

Caro anónimo, só mais uma coisa. É muito fácil para mim estar a falar em organizar empresas de ambiente, e tal, e tal, eu que nunca (se a vida me continuar a correr como eu a planeei e como tem decorrido até agora) seguirei esse ramo. Eu falo de turismo apenas como cliente. Nessa perspectiva, a vossa encosta atrai-me menos, agora que tem a estrada, do que antes que não a tinha. Mas, na verdade, nem imagino o difícil que é pôr um negócio a andar. Ainda assim, continuo sem perceber como é que, com estradas de alcatrão serra a dentro, se facilita, por pouco que seja, o caminho para o desenvolvimento, ou se trava a desertificação.

Algarvear a Serra da Estrela? Não, obrigado!