segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Os preços da liberdade

A notícia principal da página 19 do Público de 5 de Fevereiro (a link pode não ser permanente) é a do resgate com recurso a um helicóptero de três montanhistas na serra do Gerês. O que mais me prendeu a atenção neste assunto foi a possibilidade de os montanhistas em questão virem a ser obrigados a pagar os custos da operação que os salvou, que ascendiam (se não me engano) a quinze mil euros.

Se entendemos que deve ser o estado a pagar a factura das operações de salvamento de que eventualmente necessitarmos, então devemos aceitar as regras que o estado impuser para a prática da nossa actividade, nas condições que ele considerar seguras. Esse é um custo que, para mim, ultrapassa em muito o das operações de salvamento. Prefiro, de longe, pagar em dinheiro do que pagar em liberdade. Mas prefiro ainda mais não ter que pagar nada nem ver a minha liberdade limitada em nada.

Ora, na mesma página 19 do Público de 5 de Fevereiro, outra notícia refere as "Filas de quilómetros para ver a neve nas estradas abertas da serra da Estrela". Informa-se na notícia que "A principal via de acesso ao maciço central da Estrela tinha sido encerrada domingo pelas 15h00, na sequência de um forte nevão que obrigou a GNR a evacuar todos os veículos entre Piornos e a Lagoa Comprida".

A quem é apresentada a factura pelos custos do funcionamento da GNR nos fins de semana "normais" em que se instala o caos rodoviário com os visitantes da neve? A quem é apresentada a factura pelos custos da manutenção e funcionamento do Centro de Limpeza de Neve, todos os anos, todos os dias do ano? A quem é apresentada a factura pelos custos da tarefa de evacuar uma porção de estrada nacional com quinze quilómetros de extensão, onde se encontram alguns milhares de visitantes?

Se o estado não ordena (para além da mera gestão do caos) a prática da romaria automobilizada ao maciço central da serra da Estrela e aceita pagar os custos inerentes à segurança dessa actividade, não compreendo porque é que não há-de ter exactamente a mesma atitude face ao montanhismo.

6 comentários:

http://cavaloalado.blogs.sapo.pt/ disse...

O Cavalo Alado reconhece a qualidade, oportunidade e razão deste post, neste país de todos nós, continua-se a descriminar alguns grupos de pessoas, apenas por praticarem uma ou outra actividade, desta vez foram três montanhistas as vitimas da prepotência e da má divulgação do que é afinal essa actividade. Depois de pagarmos impostos para tudo e mais alguma coisa, somos obrigados a pagar a assistência que nem sequer pedimos. Um dia destes se for auxiliado pelas autoridades rodoviàrias deste país porque a minha moto não funciona, será que terei que recusar?, ou perguntar antes quanto é que isso me irá custar? ou pedirei antes auxilio às autoridades espanholas? será que quando em Espanha a Guardia Civil me auxiliaou faz este ano 3 anos porque tinha um furo na moto o fez de modo gratuito? será que sendo assim tenho uma divida para com o governo espanhol? e se assim for, que montante tenho em divida? será que por isso estou a contribuir para o não desenvolvimento desse pais? será que as autoridades internacionais me procuram? será que o nosso governo também cobra o auxlio prestado a turistas estrangeiros? será que cada vez que um turista nessessita de auxilio quando se mete nas águas das praias do Algarve coma barriga cheia de cerveja também paga o "serviço"?
Caros amigos, a vossa razão ultrapassa de longe os limites da razão e uma nação que chega a um estado de "organização" em que os meios de auxilio públco têm sempre que ser pagos na TOTALIDADE...não sei se não mata os elementares principios eternos do que é uma nação. Será que esta postura nada tem a ver com tendências TOTALITARISTAS?...
Estamos solidários sim senhor com os três montanhistas que necesitaram de auxilio na Serra do Gerês, até porque se mais não fosse...O Gerês é de todos e para todos!

Um Abraço sincero (e solidário)
P'lo Grupo Motociclsta DOG, Alfredo Nobre

PS-O Cântaro Zangado fica dede já convidado pelo Grupo Motociclista DOG a visitar o Covão d'Ametade no próximo fim de semana, até porque a sensibilidade de quem tanto luta pela manutenção de um bom ambiente natural na Serra da Estrela, pode ajudar bastante a corrigir eventuais erros que possam vir a ser cometidos...ou não.

ljma disse...

Sobre o pagamento das operações de salvamento, volto a dizer que acho (nunca me vi nessa contingência) que prefiro pagar em dinheiro do que pagar em liberdade.
Sobre o Eskimos 2008, obrigado pelo convite, Alfredo Nobre. Não prometo que lá apareça. Não pretendo ser "polícia" de ninguém e prefiro lá ir quando o local está mais calmo, menos povoado. O que não me impede de ter a opinião que tenho sobre o vosso encontro. Mais uma vez não é por serem motociclistas (ou melhor, não é só por serem motociclistas, uma vez que me desagrada particularmente o barulho que muitos motociclos causam). É porque entendem ser necessário a instalação de duches quentes e de uma tenda gigante aquecida para servir de refeitório. Isso é que mie incomoda, mesmo. E incomodar-me-ia igualmente, mesmo que eu próprio fosse motociclista.

Já disse noutro local que achava melhor que organizassem a vossa concentração noutros locais da Serra, já com essas infraestruturas instaladas.

Mas quem sou eu?

Alien8 disse...

Eu também não compreendo...

Boa semana!

ljma disse...

A pressa com que estava há bocado não desculpa a falta de chá com que respondi a Alfredo Nobre.
Agradeço o simpático convite e faço votos de que tenham um excelente fim de semana.
Mas faço também votos para que, em futuras ocasiões, considerem outras localizações na região para a concentração invernal.
E peço desculpas pela pouca cordialidade de há pouco.

Saudações
José Amoreira

Fernando_Vilarinho disse...

Oi José!

acho que as evacuações fazem parte do ´folclore´do turismo neveiro da serra. Deve ser para realçar que não falta mesmo neve na serra. Muitos domingueiros devem dizer "evacuar.. porreiro, pá! toca a bazar lá pra baixo. isto é cool! Maria, prá semana voltamos cá!"

ljma disse...

Suponho que também é isso, Fernando. "Ai que perigo, ai que emoção!"
Lembro-me de uma vez em que calmamente conduzia o meu opel zafira ao fim de uma tarde de Inverno, já escuro, com nevoeiro e alguma neve, a caminho das Penhas da Saúde, na boa, quando passa por mim uma longa fila de jipes da protecção civil com luzinhas de emergência e 4-piscas ligados. Encontravam-se a evacuar perto de uma centena de estudantes do secundário que se encontravam perigosamente "acampados"... Na Pousada de Juventude, com vidros duplos, aquecimento central, duches quentes, cozinha com gás e dispensa cheia! Eu cheguei bem às Penhas da Saúde nesse fim de tarde. Não voltou a nevar nos dias seguintes. Enfim, Alerta, Alerta!

Ai que perigo, ai que emoção!

Algarvear a Serra da Estrela? Não, obrigado!