A Câmara Municipal da Covilhã e a PT anunciaram há perto de um ano (mais coisa, menos coisa) a criação de um centro de armazenamento e distribuição de dados (a que toda a gente, incluindo os anunciantes, chama data center(1)). Este data center, que acredito possa vir a ser um coisa muito boa para a Covilhã e os concelhos vizinhos, não é assunto aqui para o Cântaro Zangado.
Ou melhor, não seria, se não fosse um certo parque eólico com 28 geradores que, no projeto inicialmente apresentado ficaria na vizinhança do data center e que nos últimos anúncios foi "despachado" para a serra, para a encosta sobre as Cortes do Meio. Trata-se de um local onde eu gosto de passear, e como eu mais alguns covilhanenses (cruzo-me sempre com vários grupos nas minhas corridas). Ora bem, esse parque eólico vai arruinar a encosta, tornando-a um local a evitar (mais um dos muitos que já existem na serra). E se alguém alguma vez pensou na possibilidade de vir a desenvolver turismo de natureza ou rural na Bouça ou nas Cortes, aproveitando a colina, pode esquecer.
E porque é que o parque eólico é indispensável ao projeto? O investimento não é a geração de energia, e a PT não é uma empresa produtora de energia. A PT poderia perfeitamente comprar a energia de que precisa. É decerto o que faz na maioria das suas instalações. É bom que se tente minimizar o impacto ambiental do data center, incluindo nesse esforço a redução das emissões de gases de efeito de estufa, e um parque eólico pode assim ser defendido. Mas na avaliação do impacto ambiental também deveria pesar a artificialização de uma zona ainda relativamente natural, para mais no interior ou na vizinhança imediata de uma área protegida (área protegida essa que já está muito bem "servida" de geradores eólicos).
Por outro lado, atreladas aos discursos pomposos sobre ambiente e efeito de estufa mas de olho nos incentivos à produção de energia a partir de fontes renováveis, temos hoje em dia em Portugal situações cujo resultado é o mais contrário possível ao ambiente. Como os incentivos incidem sobre a produção (a EDP compra a energia "renovável" a um preço maior do que aquele a que a vende), a uma empresa que tenha um gerador (fotovoltaico, eólico, co-gerador) é vantajoso comprar à EDP toda a energia que consome e vender-lhe toda a que produz. Pior, como explicou Delgado Domingos no Público de 21 de Setembro, é até vantajoso produzir mais, muito mais energia do que a que necessita. Encorajam-se deste modo "soluções" sobredimensionadas; lá se vão, assim, a eficiência, a poupança de energia, os benefícios para o ambiente!
Espero que a PT não esteja a pensar em estragar a encosta das Cortes do Meio só para ter o maior lucro possível à custa destes incentivos. Ainda por cima, porque quem paga esses incentivos somos nós consumidores de energia, numa parcela da nossa fatura de eletricidade designada como custos de interesse económico geral. E sabe quão grande é essa parcela? 42%. Um exemplo: dos €186,11 que a EDP me cobrou no mês passado, €78,17 destinaram-se a pagar estes custos de interesse económico geral.
Não sei qual seja a intenção da PT. Irá usar a energia que produz (produzindo apenas o necessário) e vender eventuais excedentes pontuais à EDP, ou irá antes comprar à EDP tudo o que necessita, vendendo-lhe tudo o que produz, produzindo o mais possível? Não sei. Mas, por ser plausível, tenho que considerar a segunda possibilidade, que a a verdadeira razão para o parque eólico seja a vontade de meter ao bolso uma parte destes 42% que pagamos a mais do que o valor da eletricidade que compramos. E não me agrada. É que se houver uma pinga de verdade no que estou a pensar, a PT estará a tirar-nos mais um bocado de serra, para poder também comer uma parte do que nos tiram a mais, todos os meses, na fatura da eletricidade... Mai bom!
