quarta-feira, agosto 25, 2010

J.F. nº 3340, última página

Digitalizei o artigo que apresento na imagem da última página do Jornal do Fundão nº 3340, da semana passada. Creio que foi escrito por Romão Vieira, que costuma cobrir para este jornal a actualidade da Covilhã.

O facto de o J.F. publicar expressões como "mamarracho" acerca de uma certa jóia da coroa deste turismo que é o que temos na nossa região (e mais ainda, o facto de ter sido o próprio Romão Vieira a escrevê-las) é uma grande surpresa. Uma grande e agradável surpresa!

Aqui no Cântaro Zangado, já várias vezes nos referimos a este e a outros mamarrachos, sobre os quais consideramos que o melhor era demoli-los e remover o entulho. Para ler o que escrevemos, introduza "mamarracho" na caixinha de pesquisa existente no canto superior esquerdo do blog.

sexta-feira, agosto 20, 2010

Petição pela Rola Brava

Um grupo de pessoas que se identificam como caçadores lançou uma petição pública a dirigir aos órgãos que tutelam a caça (Autoridade Florestal Nacional, Ministério da Agricultura e Pescas, Ministério do Ambiente e Ministério da Administração Interna) sugerindo, entre outras medidas, que se interdite temporariamente a caça à Rola Brava por espaço de 4 a 5 anos, para que a população desta espécie cinegética, que aparentemente se encontra em forte regressão, possa recuperar.

Confesso que não sei nada sobre a rola brava, se está ou não em vias de extinção. Li há dias uma notícia sobre os protestos de ambientalistas relativamente ao que consideravam erros na definição da época da caça, que incluíam uma referência especial a esta espécie. Mas esta petição recorda-me uma passagem de um livro que li há algum tempo. É um exemplo de cuidados revelados pelos principais interessados numa dada actividade, para que ela se possa continuar a praticar pelas gerações vindouras. É o tipo de preocupações que considero falta a muita gente, infelizmente.

Eu, que me considero ambientalista e não sou caçador, tiro o chapéu a estes caçadores, que macacos me mordam se não são também, tanto ou mais do que eu, ambientalistas. Já assinei a petição.

domingo, agosto 15, 2010

O desenvolvimento do turismo

Durante as férias, ouvi referências a estudos de viabilidade para a construção de um teleférico entre Unhais da Serra e as Penhas da Saúde. Li também, no Máfia da Cova, que Carlos Pinto (presidente da Câmara da Covilhã) pretende que o estado desbloqueie quatro milhões de euros para conclusão do projecto da estrada entre Unhais da Serra e a Nave de Santo António.

Eu entendo que Unhais da Serra, como Loriga, Alvoco da Serra, Manteigas, Linhares, e mais um longo etc, são povoações com paisagens e ambientes maravilhosos, muito, mas muito mais atractivos turisticamente do que a Torre, para onde convergem as grandes enchentes de visitantes efémeros que nos atascam as estradas nalguns fins de semana de Inverno, enchentes (e atascanços) que continuamos a confundir com turismo. Estranho, quando chego a qualquer destas localidades (e das outras que englobei no "longo etc"), no Verão, não ver turistas como os que se vêm em qualquer localidade de montanha da Europa: caminheiros, montanhistas, escaladores, pessoas a cavalo ou de bicicleta, com mochilas às costas, ou em canoas. Pessoas constantemente a entrarem e a sairem destas terras, por estradas, por trilhos, por rios. A pernoitarem em pensões e em parques de campismo. A encherem os restaurantes às horas das refeições. A comerem gelados e a beber refrescos durantes as tardes. Nada disso se vê por aqui. O que vai valendo são os emigrantes que vêm de férias.

Porque considero que o que falta na serra da Estrela, em termos turísticos, é turismo de montanha como o que se pode encontrar nas outras montanhas da Europa, acho que o que faz falta para o desenvolver na serra da Estrela é tudo aquilo que o alimenta nas outras montanhas da Europa: trilhos pedestres; vias de escalada; alugueres de BTT, de canoas, de cavalos; guias pessoais para caminhada, escalada, interpretação da natureza; documentação (mapas, informação/divulgação sobre locais, trilhos e vias, contactos empresariais) acessível, disponível em supermercados, mercearias e cafés; parques de campismo; múltiplas empresas locais com liberdade de acção, não sujeitas a restrições decorrentes da concessão exclusiva.

Mais estradas (ainda mais, caramba?!), teleféricos, casinos, centros de estágio em altitude, funiculares, e isso tudo? Creio que, para o turismo, não fazem falta nenhuma. Creio até que só prejudicam, ainda mais, as potencialidades da mais alta montanha de Portugal continental para o turismo de montanha. E que outro turismo poderemos pensar em desenvolver na serra da Estrela?

Adenda posterior: sobre as vantagens de mais uma estrada de asfalto pela serra acima, talvez fosse bom perguntar-se às gentes de Loriga o que conseguiram com a sua estrada Portela do Arão - Lagoa Comprida (a terceira ligação asfaltada ao alto da serra do concelho de Seia, diga-se de passagem), quase quatro anos depois da sua inauguração...

terça-feira, julho 20, 2010

Deferido, com certeza!

Por altura do Carnaval, a associação a que pertenço (Amigos da Serra da Estrela) requereu ao Parque Natural da Serra da Estrela autorização para a realização de um acampamento de montanhismo invernal no Covão d'Ametade, durante o qual se realizariam actividades de escalada em rocha e gelo e caminhadas. A resposta do PNSE foi negativa, porque as áreas onde essas actividades decorreriam foram classificadas como Áreas de Protecção Parcial de Tipo I no novo plano de ordenamento do Parque Natural da Serra da Estrela, nas quais, de acordo com nº 3 do Artigo 12º, apenas são permitidas actividades de investigação científica, visitação e pastorícia, quando compatíveis com os objectivos definidos. Não é explicado de que modo é que a escalada em rocha ou gelo, podendo considerar-se actividades de visitação, são incompatíveis com os objectivos definidos (nem se explica que objectivos são esses, nem onde é que se encontram definidos), mas enfim.

Agora, vejamos: se a ASE propuser, para o acampamento do próximo ano, uma passeata serra acima com todos os automóveis individuais dos participantes no acampamento invernal, sku com sacos de plástico que serão deixados ao abandono e um mega-piquenique na Torre, não se assegurando a recolha do lixo associado, poupando as áreas de protecção parcial de tipo I, mas poluindo despreocupadamente áreas contíguas (como a estrada que aparece na fotografia), como aliás farão milhares de turistas que nessa altura virão "à neve", qual poderá ser a resposta dos serviços do ICNB/PNSE?

quarta-feira, julho 14, 2010

Instituições e arruaceiros

À laia de homenagem a um amigo virtual

Criámos instituições, regras, procedimentos, tribunais, autoridades e tudo o resto para garantir que as diferenças de opinião e os conflitos de interesses — Que só não existem em colónias de insectos (e, mesmo aí, não sei...) — possam ser discutidos numa base tanto quanto possível racional, pesando argumentos, considerando o interesse público (tal como ele é avaliado pelos diferentes actores), etc. O oposto desta formalização dos debates e das decisões é a aplicação da lei do mais forte, da lei do dono dos jagunços, a ordem da desordem. Para que a ordem prevaleça, é necessário que os titulares dos órgãos administrativos, judiciais, policiais, etc garantam pessoalmente o respeito pelas normas legais. A democracia não é a ditadura da maioria, é também o primado da lei.

Nessa medida, e como diz o Pedro Teixeira dos Santos do blog A Sombra Verde, não se espera de um autarca (por exemplo) que necessariamente concorde com todas as leis e decisões dos tribunais, mas sim que as cumpra e as faça cumprir.

Vem este apontamento a propósito de algo que aconteceu há dias em Aldeia Viçosa, no distrito da Guarda, de que podemos ler detalhes nos blogs Trepadeira (aqui, aqui, aqui e aqui) e Café Mondego (aqui, aqui, aqui, aqui, aqui). Uma história a todos os títulos lamentável: o presidente da junta de freguesia de Aldeia Viçosa, descontente (com ou sem razão, não vem agora ao caso) com a actuação de um habitante da sua freguesia (o Mário, do blog Trepadeira), boicotou um concerto de música clássica que uma associação à qual ele pertence organizou na própria freguesia, cercando (com a ajuda de alguns apoiantes) o espaço onde esse concerto teve lugar, fazendo barulho com vuvuzelas (cada dia que passa gosto menos de futebol e de futebolices!) e intimando com a sua atitude e vozearia os que pretendiam assistir ao concerto.

Não contente com esta actuação a todos os títulos digna de um arruaceiro (pois que outras palavras há para descrever quem faz o que o ele fez?), propôs numa reunião da Assembleia Municipal da Guarda um corte no orçamento do Teatro Municipal da Guarda. Porquê? Porque o Director do teatro (o Américo Rodrigues, do blog Café mondego) era um dos presentes no dito concerto e teve o "descaramento" de tentar chamar à razão o arruaceiro no local e criticou a arruaça no local seu blog.

Repito, uma história a todos os títulos lamentável. Mas os culpados, mais uma vez, somos todos, por escolhermos quem escolhemos, para estes como para outros cargos. Repetindo o que costumo dizer sobre a serra, agora num contexto mais geral, estamos no rumo certo, estamos de parabéns.

sábado, julho 10, 2010

Indo pela fresca

Um aspecto do caminho do Pião, na encosta sobre a Covilhã.

terça-feira, junho 29, 2010

Acabar com monopólios privados

No Público de hoje:

Líder do PSD contra "privados que vivem de rendas públicas"

O presidente do PSD defendeu ontem a necessidade de reformar o mercado, por forma a acabar com "alguns monopólios privados", e o Estado para o fazer actuar "em nome" dos cidadãos.[...]

Aqui na serra da Estrela subsiste ad eternum um monopólio que começou como principalmente público no tempo do corporativismo (1971), que foi depois nacionalizado (suponho que pouco depois do 25 de Abril) e que mais tarde foi totalmente privatizado e renovado (em 1986).

A concessão exclusiva do turismo e dos desportos na Serra da Estrela da Turistrela, criada pela Lei 3/70 de 28 de Abril de 1970 e pelo Decreto-Lei 325/71 de 28 de Julho de 1971 e renovada por mais dezenas de anos pelo Decreto-Lei 408/86 de 11 de Dezembro de 1986 é, parece-me, um excelente candidato para começar a acabar com certos monopólios privados, que constituem, de facto, uma renda pública atribuída a certos privados (olha as rendas pagas à Turistrela das lojas do centro comercial da Torre, da Lagoa Comprida e do parque de campismo do Vale do Rossim, todos beneficiados com investimentos do PNSE(1)), e que, ademais, constituem um obstáculo (entre outros) a um desenvolvimento salutar da iniciativa privada, neste caso na área do turismo, na serra da Estrela.

Liberalismo, mas a sério? Venha ele, ao fim de tantos anos!

(1) PNSE esse que, <ironia>como é do conhecimento público, tem dinheiro que chegue e que sobre para pagar os ordenados de um quadro suficiente de vigilantes, para pagar a manutenção e o combustível das suas viaturas, para apoiar projectos científicos e de conservação, etc, etc, etc.</ironia>

domingo, junho 20, 2010

O costume

A retrete azul

O Blog Carpinteira tem um post que revela um exemplo paradigmático da forma como se encara o turismo na serra da Estrela há várias décadas: grandes discursos, grandes desígnios, grandes trabalhos, de que restam apenas ridículos casinhotos e/ou montes de entulho. Este exemplo é só mais um, especialmente ilustrativo.

Quantos anos mais continuaremos a ver disto?

sábado, junho 19, 2010

Nota de imprensa da ASE

As barreiras que estão a ser instaladas pela E.P. na EN338, fotografadas pelo Tiaguss
A propósito dos trabalhos iniciados há algumas semanas pela Estradas de Portugal de instalação de barreiras dinâmicas para a protecção contra queda de pedras no troço da estrada EN338 entre Manteigas e a Nave de Sto António, a ASE difundiu pela imprensa a seguinte reflexão:
Barreiras dinâmicas na protecção da estrada EN338

A Estradas de Portugal (E.P.) iniciou recentemente trabalhos para a protecção do troço da EN338 compreendido entre Manteigas e a Nave de Santo António. Estes trabalhos consistem na instalação de barreiras dinâmicas constituídas por redes de arame e cabo de aço, apoiadas em tubos metálicos de grandes dimensões.

Não querendo questionar a necessidade de tais trabalhos, a ASE vem recordar que logo a seguir ao grande incêndio de 2005 chamou a atenção das entidades responsáveis para a situação de instabilidade da encosta que resultou da destruição da floresta e consequente desprotecção do solo, para o perigo de derrocadas que viessem a interromper a circulação na estrada e, sobretudo, para a necessidade de uma intervenção pronta que pudesse contribuir para consolidar os terrenos em desequilíbrio usando as técnicas da engenharia natural. Propusemos, em particular, que se usassem os troncos das árvores mortas, bem escorados nos tocos das mesmas, para criar pequenas barreiras que ajudassem a suster a erosão do solo, e que se iniciasse um esforço sério e intenso de reflorestação com espécies folhosas autóctones apropriadas aos locais afectados, contribuindo activamente para um restabelecimento das taxas de erosão naturais (práticas defendidas e prescritas em variados estudos e publicações internacionais para situações similares).

Uma tal intervenção, logo no pós-incêndio, teria contribuído para a reposição do equilíbrio da encosta, tornando menos necessária a instalação das actuais barreiras, teria evitado em grande medida a erosão da fina camada de solo fértil da encosta e teria ajudado a uma mais rápida recuperação dos ecossistemas e das paisagens afectadas - não menos importantes para o turismo numa área que pretende o reconhecimento como Maravilha Natural de Portugal e como Património da Humanidade. O incêndio de 2005 poderia ter sido assim encarado como uma oportunidade para restaurar a vegetação autóctone, base de um ecossistema saudável e equilibrado.

A actual intervenção da E.P., em contrapartida, não evita as derrocadas, apenas impede que estas atinjam a estrada, e assim ponham em causa a segurança de quem nela circula. Esta vantagem é obtida à custa da introdução de elementos artificiais visualmente estranhos à paisagem cujo enquadramento pode ser questionado, e que necessitarão de manutenção com custos sempre crescentes, à medida que os anos forem passando, não resolvendo nenhum dos problemas de fundo causadores desta situação.

Lamentamos que, passados quase cinco anos desde o incêndio de 2005, o essencial continue por fazer e que se empenhem tão intensos esforços (e meios materiais) a minimizar os efeitos da situação criada, em vez de se atacar a origem do problema. Não compreendemos que se deixe a E.P. isoladamente a tratar um problema cuja abrangência claramente ultrapassa esta entidade. E lamentamos também que a E.P., na sua esfera de acção específica, continue apenas a considerar exclusivamente a engenharia “convencional”, pura e dura, quando são cada vez mais difundidos, preferidos (havendo condições para tal, bem entendido) e bem sucedidos os métodos da engenharia natural, quer pela sua abordagem mais ecológica, quer pela forte relação custo-benefício e sustentabilidade a curto, médio e longo prazo.

Aproveitamos esta ocasião para, novamente, pedir uma intervenção mais profunda, que rapidamente torne desnecessárias as estruturas agora instaladas, para que, a par com a solidez das encostas, se recupere também a paisagem e os ecossistemas naturais do Vale, e não apenas a (relativa) segurança da circulação na estrada.

Reflorestemos!

Manteigas, 10 de Junho de 2010

domingo, junho 13, 2010

Manteigas me mata!

A frase que dá título a este post deve ser lida à espanhola: Manteigas é um espectáculo!

Participei ontem no Circuito dos Três Cântaros, uma corrida de montanha organizada em Manteigas pelo Clube de Montanhismo da Guarda e pela Federação Portuguesa de Montanhismo e Escalada. Vinte e um quilómetros (e pico), sempre a subir e a descer, num total de subida acumulada de 1300m. Foi mesmo muito duro, pelo menos para mim que sigo um programa de treino bastante errático (corro apenas quando me apetece e tenho tempo).

A corrida iniciou-se no parque da Relva da Reboleira, subimos a colina entre Sameiro e Verdelhos a pique, pela linha de máxima pendente, daí seguimos para o Souto do Concelho, passámos por cima do Poço do Inferno, demos a volta para o regresso pelo Vale da Adega. Por duas vezes parei para tirar fotografias, as que ilustram este post.

Eu não percebo como é possível que numa região que tem tesouros como estes se continue a pensar que "nós aqui vivemos da neve", e pior: "que nós aqui só podemos viver da neve". Porque é que assim estamos? E porque é que os jornais e revistas nacionais só se lembram da serra da Estrela como destino de férias no Inverno? Quando é que começaremos a mudar isto? Até quando continuaremos a destruir o melhor da serra, atrelados aos delírios novo-ricos da Turistrela e da Região de Turismo da Serra da Estrela (e, agora, do organismo similar criado pela Câmara Municipal da Covilhã)?

Encontra mais detalhes sobre o Circuito dos Três Cântaros (e mais fotografias) blogue Último quilómetro, neste e neste posts.

sábado, junho 12, 2010

Uma experiência simples

Encha um copo com água (pode ser da torneira) e adicione gelo; meça a temperatura da mistura. Em seguida, coloque uma ou duas colheres de sopa cheias de sal no copo e agite durante alguns minutos; volte a medir a temperatura.

Acabei agora de fazer esta experiência, que documento com a figura em cima. Antes de misturar o sal, a temperatura da mistura água-gelo era -2,2°C (fotografia da esquerda); depois de misturar o sal (passados quatro minutos, como se vê), a temperatura desceu para -11,8°C. Suspeito que se repetisse a experiência com neve (em vez de gelo), o arrefecimento seria mais pronunciado.

Porque é que isto acontece? Porque o sal dissolvido na água faz baixar a temperatura de solidificação da água. É exactamente por isso que é usado (nomeadamente na serra da Estrela) para evitar a acumulação de neve nas estradas. Ao baixar a temperatura de congelação, o gelo derrete e ao fazê-lo absorve do ambiente a energia (calor) de que necessita para a transição de fase, o chamado calor latente de fusão. É assim um processo semelhante (mas envolvendo outra transição de fase) ao do arrefecimento cutâneo por evaporação da transpiração.

E porque falo nisto? Porque, como já aqui referi várias vezes nos últimos meses, alguns responsáveis do ICNB (os suficientes para determinarem as opções dos serviços nesta matéria) consideram que a escalada e o montanhismo no Cântaro Magro devem ser proibidos, e por isso indeferem todos os pedidos para a realização dessas actividades nesse pico. As razões apresentadas prendem-se com a classificação atribuída à zona do Cântaro Magro (e, de facto, a todas as zonas onde tradicionalmente se pratica escalada e montanhismo na serra da Estrela), de acordo com a qual, nos termos do plano de ordenamento da área protegida, apenas as actividades de visitação, pastorícia e investigação científica podem ser autorizadas, desde que compatíveis com a conservação dos valores ambientais presentes. Uma vez que a escalada e o montanhismo podem ser classificados como actividades de visitação, importa saber que valores ambientais vêm a sua conservação posta posta em causa por estas práticas. De acordo com o que me foi dito por alguém que participou em reuniões com o ICNB, no caso do Cântaro Magro, esses valores são geológicos e são postos em causa pela erosão que a escalada e o montanhismo acarretam. (Quão grave será essa erosão? Quem é que a terá avaliado? Que estudos estão disponíveis sobre esse assunto? Mistério...)
Mas acontece que a poucos metros de distância de diversas vias de escalada na zona do Cântaro Magro, encontramos a estrada nacional EN339, onde todos os Invernos são despejadas várias toneladas de sal-gema, que escorrem para as mesmíssimas áreas que o ICNB quer proteger da erosão impedindo a prática da escalada e do montanhismo.

Bem, eu já ouvi dizer que o sal não faz nada bem à fertilidade dos solos, que não é nada bom para as plantas, e até já li (b.n. CISE nº 28 Outono 2009, pág. 14) que a sua utilização é um factor de ameaça para a conservação de alguns habitats de água doce da serra da Estrela. Mas não sei. Sei sim (porque o verifiquei agora mesmo) é que a dissolução de sal em água misturada com gelo faz baixar localmente a temperatura. Porque o sei, pergunto-me: não haverá também perigo de erosão associado a um eventual súbito arrefecimento superficial das rochas situadas nas linhas de escorrência sob a estrada, resultante da dissolução do sal usado pelo Centro de Limpeza de Neve? (Recordo que são gradientes de temperatura os responsáveis pela fractura de vidros normais em fornos de cozinha.) Não parece esta situação ter um impacto potencial, naquele mesmo local, muito mais grave do que o da erosão eventualmente causada pela borracha das sapatilhas de escalada? Não seria melhor estudar esta questão? E, já agora, não seria melhor estudar também o impacto real da escalada e do montanhismo?

A escalada e o montanhismo são proibidos pelo ICNB, sem que se conheçam estudos que o justifiquem. Outras actividades, aparentemente muito mais impactantes (raids tt, voltinhas de carro, piqueniques de beira de estrada, esqui, sku, caça, pesca, encontros de motoqueiros, snow-fashions, etc, etc, etc), algumas das quais com impactos nos mesmos locais que alegadamente se querem proteger com a proibição da escalada e do montanhismo, são permitidas! Pior, todas estas actividades são não só permitidas, elas são mesmo encorajadas, dados todos os investimentos públicos nos centros comerciais na Torre, na beneficiação das estradas existentes, na pavimentação de caminhos, no aumento da capacidade de estacionamento, etc.

Somos mesmo originais. Haverá na Europa outra área protegida de montanha como esta?

segunda-feira, junho 07, 2010

Continuamos no rumo certo!

A revista Visão da semana passada tem um artigo com o título "Descobrir Portugal a Pé", sobre trilhos pedestres. São doze propostas de passeios, das quais quatro na região centro.

Já não espanta que a serra da Estrela não conste. A serra da Estrela, pura e simplesmente, não existe no panorama do turismo de natureza nacional. É que nós aqui vivemos da neve...

Continuamos no rumo certo, continuamos de parabéns. O que precisamos é de mais estradas, de teleféricos, de parques de estacionamento, de centros comerciais, de pistas de esqui de plástico e de casinos. Isso é que está mesmo a fazer-nos falta. Continuemos, pois!

domingo, junho 06, 2010

Uma Maravilha Natural

Vale glaciar do Zêzere (imagem roubada daqui).

Em que sentido é que o vale glaciar do Zêzere é uma maravilha da natureza? Pergunto isto a propósito da candidatura ao concurso das 7 Maravilhas Naturais de Portugal. Antes de continuar, quero deixar bem claro que não pretendo pôr em causa o concurso nem a candidatura. Eu também acho que o vale é uma maravilha. Mas quero tentar perceber melhor e deixar explícitas as razões pelas quais acho o vale uma maravilha. Porque creio que essas razões são as de quase todos e porque acho que essas razões determinam uma atitude para com o vale (e para com toda a serra) que me parece francamente positiva.

Porque consideramos então o vale uma maravilha natural?

Será porque o vale se encontra num estado natural puro, onde não se notam os efeitos da acção humana? Não! Esses efeitos são evidentes: as encostas (as duas!) não estão quase integralmente cobertas de floresta, há as quintas cá em baixo, há diversos caminhos, uma mini-hídrica e uma estrada asfaltada... Não, os sinais da civilização estão por todo o lado, não é um lugar onde se aprecie um ambiente natural no seu estado puro, nem pouco mais ou menos.

Será então porque apesar de o ambiente natural do vale não se encontrar nas melhores condições (corrijo: não se encontrar nas condições pré-civilização), serem no vale evidentes as grandes forças naturais que moldam o território, que definem a orografia? Talvez, mas a verdade é que essas grandes forças são igualmente evidentes em qualquer lugar. Naturalmente, são forças diferentes as forças que actuam em diferentes lugares, mas isso é um detalhe: porque raio devemos considerar mais "maravilhosas" as forças glaciárias do que as da erosão da água em estado líquido, ou a do vento?

Creio que consideramos o vale uma maravilha natural porque são relativamente poucos os vestígios da civilização industrial, e menos ainda os exemplos desse desordenamento evidente e gritante que temos permitido nas povoações. Assim, quase podemos imaginar que nos encontramos num lugar que ainda não estragámos. Isso não verdade, como referi acima, mas quase podemos acreditar que sim. Apesar de tudo o que já fizemos, e como diz Elisabete Jacinto citada pelo Blogue de Manteigas, o vale "é um local paradisíaco onde nos podemos sentir longe da agitação do mundo moderno" e as suas vertentes grandiosas fazem-nos "sentir pequenos e conduzem-nos à introspecção".

Concordo inteiramente com a justeza das palavras de Elisabete Jacinto. Mais: creio que quase todos concordamos. Mas, aqui chegados, pergunto: se achamos que o carácter maravilhoso do vale reside nestas suas características, e se esperamos e desejamos que elas sejam reconhecidas nacionalmente através de uma vitória no dito concurso, poderemos coerentemente defender eventuais alargamentos e rectificações da sinuosa estrada nacional EN338 até à Nave de Santo António, a instalação de teleféricos ou funiculares para as Penhas Douradas, a instalação de iluminação nocturna no Covão d'Ametade (estava prevista num projecto recente), ou a apoiar a realização, nesse local, de encontros motociclistas (com tudo o que esses encontros têm implicado)? São estes elementos que nos ajudam a sentir "longe da agitação do mundo moderno"? Consideramos normal que, num local que pretendemos anunciar como uma maravilha da natureza (e, agora, não me refiro especificamente ao vale mas a toda a serra), seja difícil tirar uma fotografia onde não apareçam "decorações" como estradas, postes de alta tensão, de iluminação ou de telecomunicações, barragens, construções de gosto e qualidade duvidosa ou restos de lixo?

Se admiramos os nossos valores naturais e queremos que os outros os reconheçam, poderemos continuar tratá-los como os temos tratado até hoje?

domingo, maio 23, 2010

Pisco-de-peito-ruivo

(Erithacus rubecula) fotografado hoje, na encosta sobre a Covilhã. Também vimos um esquilo, mas a fotografia não ficou em condições.

terça-feira, maio 18, 2010

A freguesia da selecção

Fotografia e detalhe captados hoje de manhã, na zona da Pedra do Urso.
«CORTES DO MEIO
A FREGUESIA DA SELECÇÃO
SAÚDA-VOS
RUMO À FINAL»

(Francamente, haja pachorra!...)

domingo, maio 09, 2010

As cores da serra

Do "meu" lado, a serra está esta semana vestida principalmente de amarelo da carqueja-amarela. Mas notam-se por todo o lado tufos de verde-claro das folhas novas dos carvalhos, das bétulas, das cerejeiras, dos castanheiros. Já esteve mais arroxeada da urze-roxa, mas ainda restam algumas áreas dessa cor. E a ajudar está o rosmaninho, que ainda está florido. Para a semana, as cores predominantes serão outras. Dos lados de lá (poente, norte), as coisas são algo diferentes, claro.

Experimente visitar a serra sem ligar ao que os serranos costumam sugerir. Ou seja, não venha à neve. Nem sequer venha à Torre, que deve bem ser o local mais desinteressante de toda a serra. Fique-se por uns passeios nas redondezas das aldeias e vilas no sopé. Manteigas, Unhais, Loriga, Videmonte, Folgosinho, etc, etc, etc. Nem imagina o que perde se nunca se perder por aqui. Ou suba até à Torre, sim, mas da única maneira em que é compensadora uma chegada à Torre: a pé. Cansado mas vivo, sentindo o vento na cara, o coração no peito e o chão nos pés.

Apesar de tudo o que lhe temos feito, e apesar das opções absurdas que temos escolhido para a sua promoção turística, acredite: a serra (ainda) é uma maravilha, pelas suas paisagens e pelo seu ambiente. E, nesta altura, todas as semanas está diferente. Aproveite enquanto é tempo!

sábado, maio 08, 2010

A irresistível tentação (2)

Ao certo, ao certo, o que é que a imagem de fundo deste cartaz tem que ver com a Covilhã, com a região da Covilhã ou com a serra da Estrela? (Ou, já agora, com futebol, mas isso aqui nem vem ao caso.)

Só se for uma certa tendência, muito difundida cá na Covilhã, para tentar passar a ideia de que vivemos no sopé de uma montanha que é quase, quase como os Alpes. Uma certa tendência, portanto, para tentar vender banha da cobra. Mais exemplos? Estes, para não ir mais longe.

Gostaria de deixar bem claro que, independentemente da opinião que aqui implicitamente demonstrei relativamente ao cartaz, aplaudo a iniciativa da ADE e faço votos de que o torneio seja um sucesso.

Biodiversidade para todos

O site Biodiversity4All propõe-se criar uma base de dados nacional de observações de espécies de acesso livre. Qualquer um pode consultar a base de dados para obter informação e qualquer um pode (após efectuar um registo) enviar para a base de dados relativos a observações.

Eu introduzi há pouco na base de dados a observação de três abelharucos (do grupo que aqui costuma passar alguns meses, de Abril a Agosto, e que já tenho referido no blog), ontem, perto de casa.

terça-feira, maio 04, 2010

segunda-feira, maio 03, 2010

Reflorestaçãozinha

Carvalho bébé, plantado no Outono de 2009.

Dos quase quarenta carvalhos que plantei a cerca de 1300m de altitude no Outono passado com os meus dois filhos (depois de os ter feito germinar a partir de bolotas em casa), contei no 25 de Abril nove ainda vivos, como o que mostro na figura. Muito possivelmente serão mais mas, como ainda não tinham aberto os botões com as novas folhas, foi difícil encontrá-los.

Aguentaram o Inverno, mas o pior (calor e seca) está para vir nos próximos meses. Vamos lá ver...

quarta-feira, abril 28, 2010

Sanabria e a Serra da Estrela: protecção, conservação e desenvolvimento – Parte II

Lixo e neve suja junto à estância de ski da Torre – a nossa triste realidade

No Parque Natural da Serra da Estrela, desde há muito que o desordenamento e a falta de uma estratégia de desenvolvimento consentânea com a realidade de uma região de montanha nos tem conduzido a uma situação cada vez mais insustentável de degradação ambiental, patrimonial e económica.

Do carvalhal autóctone que outrora terá dominado a nossa Serra, entre os 600 e os 1600m de altitude, praticamente apenas restam as memórias. Desde a sua sobre-exploração à substituição por monoculturas florestais de crescimento rápido, muitas foram as causas para o seu declínio. O Teixo, árvore sagrada venerada pelos celtas e referência na nossa mitologia, tem sido gradualmente conduzido a um estado de pré-extinção, principalmente pelos fogos florestais e pela eliminação selectiva pelos pastores devido à sua toxicidade para o gado, sem que uma estratégia concertada algo tenha feito para garantir a sua conservação.

Essa eliminação/substituição do coberto vegetal autóctone, basilar para o equilíbrio do ecossistema, terá sido determinante para os consequentes processos de degradação que se seguiram: incêndios florestais excessivamente recorrentes; erosão e perda de solo acelerada; diminuição da capacidade de resiliência do ecossistema; alterações climáticas locais; surgimento e expansão de vegetação exótica infestante; perda irreversível de biodiversidade.

Aos problemas de conservação e ordenamento do território soma-se a incompreensível lógica de promoção da região e dinamização da actividade turística: impõem-se severas restrições à circulação pedestre e à prática de actividades de montanhismo, de menor impacte e em maior harmonia com a natureza, enquanto que se facilita o fluxo desordenado e massificado de visitantes em viatura própria através do aumento e alargamento de vias rodoviárias, com consequências ao nível de dispersão da poluição e crescente dificuldade de gestão e manutenção; o recurso a uma concessão, em regime de exclusividade, da exploração turística e desportiva a um consórcio privado (desde 1971 e durante 60 anos e a partir de 1986!), em detrimento do mercado livre onde os agentes locais pudessem tomar parte, prejudica o empreendedorismo e a diversidade da oferta de produtos e serviços, constituindo assim mais um entrave ao desenvolvimento da região; a já referida aposta excessiva no produto “neve”, cuja sazonalidade e variabilidade têm implicações sociais, ao mesmo tempo que se despreza o potencial da beleza natural da Serra durante o resto do ano; projectos de questionável interesse público e desenquadrados da realidade de uma região de montanha que se vão sucedendo, tais como as pseudo “aldeias de montanha” (aldeamentos turísticos) ou a intenção de construção de um casino em plena área protegida; o absurdo da existência de um centro comercial no ponto mais alto de Portugal Continental, classificado como Área de protecção parcial do tipo I, a figura de protecção legal mais estrita do Plano de Ordenamento do PNSE, “onde predominam sistemas e valores naturais de interesse excepcional (…) e que apresentam no seu conjunto um carácter de elevada sensibilidade ecológica” (Regulamento do POPNSE, pela Resolução do Conselho de Ministros nº83/2009); crónica falta de meios e limitada capacidade de actuação do ICNB, agravada por erros de gestão e uma legislação ambiental desenquadrada.

Em consequência desta realidade todos ficamos a perder mas, indubitavelmente, o preço mais alto é pago pelas comunidades locais. Poucos são os que compreendem a importância de proteger a Serra pois, aparentemente, são mais os prejuízos que os benefícios de viver numa área protegida. Apenas sentem que lhes foi retirado o direito de usufruto do que sempre lhes pertenceu.

A exclusividade da exploração do turismo e a sua sazonalidade, a dificuldade em obter autorização para as actividades tradicionais e para novos investimentos contribuem diariamente para a precariedade laboral, o desemprego, o êxodo rural e a gradual perda de identidade cultural da região, agravando a já complexa situação da interioridade.

A conservação da natureza e biodiversidade não se esgota nas “plantinhas” ou nos “bichinhos”, como tantas vezes é mal compreendida. É necessário entender que todos nós também somos parte do ecossistema e dele dependemos para o nosso bem-estar e sobrevivência. Em Sanabria, na Serra da Estrela e por todo o mundo em nosso redor.

Interessa restaurar o equilíbrio há muito perdido por cá, entre o Homem e a Natureza. Que estes exemplos de sucesso vindos do país vizinho sirvam para repensar a nossa estratégia de desenvolvimento, pois de Espanha não vêm apenas “maus ventos”.

Porque protecção, conservação e desenvolvimento não podem ser encarados separadamente. Pela nossa Serra, por todos nós.

Sanabria e a Serra da Estrela: protecção, conservação e desenvolvimento – Parte I

Uma análise comparativa no rescaldo da visita organizada pela ASE - Associação Cultural dos Amigos da Serra da Estrela para os seus associados ao Parque Natural do Lago de Sanabria (Zamora, Espanha)


Teixos milenares em Tejedelo, nas proximidades de Puebla de Sanabria

Situado a escassos quilómetros da fronteira portuguesa, a Norte de Trás-os-Montes, o Parque Natural do Lago de Sanabria oferece-nos uma realidade bem diferente da que estamos habituados nas áreas protegidas do nosso país.

Comparável em muitos aspectos com a Serra da Estrela, tais como a sua natureza geológica e geomorfológica, clima, altitude ou vegetação potencial dominante, desde há muito que as duas serras seguiram percursos diferentes.

A paisagem abaixo dos 1.500m é dominada por bosques de Carvalho-negral (Quercus pyrenaica). Maioritariamente constituídos por árvores jovens, pontuados por carvalhos centenários, estes bosques bem conservados traduzem a relação das populações locais com a floresta autóctone: a floresta é o seu bem mais precioso; de onde retiram o seu sustento, que garante a base de todo o sistema agro-silvo-pastoril de que dependem, e que interessa preservar também por ser um dos principais atractivos turísticos da região. É a gestão consciente e sustentável do património natural e cultural que por aqui tem permitido o equilíbrio entre o Homem e a Natureza e o bem-estar das comunidades locais.

Não se avistam pinheiros, acácias ou eucaliptos. A produção em monocultura de pinheiro ou eucalipto e a ocupação exponencial do território por acácias é em Portugal uma das principais causas para a perda de biodiversidade e degradação das nossas áreas protegidas, facilitando ainda a ocorrência e recorrência de incêndios florestais. São os Carvalhos, o Azevinho e os Teixos que, de entre as 1500 espécies de plantas que se podem encontrar no Parque Natural do Lago de Sanabria, trazem os visitantes a percorrer os muitos trilhos bem sinalizados, e que nos permitem adentrar pela serra desde os “pueblos” típicos e acolhedores, sejamos montanhistas experientes ou curiosos das belezas naturais.

Para chegar à Cascata de Sotillo, onde estivemos com o grupo da ASE, não há estradas alcatroadas, não há confusão de estacionamento, não há lixo. Apenas a beleza pristina e original de um monumento natural, tal como sempre foi. São vários os quilómetros por trilhos antigos e bem conservados que nos conduzem até lá desde Sotillo de Sanabria, o “pueblo” mais próximo, e são muitos os visitantes anónimos com que nos cruzamos e que nos saúdam com um “hola, buenas!” que nos faz sentir a cumplicidade e respeito pelo próximo, lugar-comum para quem já está habituado a estas lides da montanha.

Para quem conhece o Poço do Inferno, na nossa Serra da Estrela, torna-se inevitável a comparação. Mas por cá, o alcatrão que lhe democratizou o acesso, para além de lhe desvirtuar a beleza da inacessibilidade, tornou-se numa ferida aberta por onde chega o lixo deixado por quem nunca aprendeu a respeitar a Serra.

Em Sanabria, como na nossa Serra da Estrela, a neve não é mais que a cereja em cima do bolo, mas por cá continua-se a querer vender apenas a cereja e ignorar o resto do bolo. Apesar da neve em maior quantidade, melhor qualidade e durante maior período de tempo, não há estância de ski, apenas trilhos sinalizados para ski de travessia, sempre que as condições de neve o permitam. Sem assim implicar estradas em altitude (e consequente necessidade de manutenção), estruturas complexas e aglomerações excessivas de visitantes em zonas ambientalmente sensíveis.

A aposta num turismo de qualidade e diversificado, centrado nos valores naturais e não sazonal, resulta num verdadeiro estímulo à conservação da natureza e biodiversidade num ciclo virtuoso de procura e oferta entre visitantes e agentes locais ambientalmente conscientes, com óbvios benefícios ambientais e económicos.

terça-feira, abril 20, 2010

1001º post e venha mais um a bordo!

Reparei há pouco que este humilde blog já vai no milésimo post! Mais precisamente, a fazer fé nas estatísticas do blogger, este post é o milésimo primeiro. "Ao mil chegarás, do dois mil não passarás"? Logo se vê.

Mas este post é para anunciar a entrada de um novo colaborador para a equipa de redacção do Cântaro Zangado, esperemos que com mais energia que os dois de serviço têm demonstrado nos últimos tempos.

Para dar mais variedade à equipa, desta vez escolhemos alguém com um perfil completamente diferente. O Rui Ribeiro (assim se chama) pratica montanhismo, BTT, escalada em rocha e neve. E há mais diferenças! O Rui (vejam lá!) gosta da Serra, do seu ambiente, das suas paisagens e das suas culturas. E vê com reticências as inúmeras iniciativas que a têm ao longo dos anos artificializado, asfaltado, suburbanizado e desfeado, todas as iniciativas, em suma, que a tentam transformar num lugar como outro Algarve qualquer. Nada a ver comigo ou com o TPais, portanto :).
Mas adiante: Rui, por mim e pelo TPais, sê muito bem vindo ao Cântaro Zangado!
(E, por favor, trata lá tu do 1002º post, pode ser?)

segunda-feira, abril 19, 2010

Outro ocaso

Eu gosto de nuvens. Gosto dos contrastes de cinzento (e quanto mais contrastados melhor!) que apresentam em certos dias escuros, gosto das linhas bem recortadas contra o céu azul lavado das nuvens claras, ofuscantes, depois das trovoadas (de que gosto muito também, desde que não ande a pé lá por cima quando se desencadeiam), gosto dos "mares" com que a névoa cobre o vale nalguns dias de Inverno e dos "rebanhos de ovelhas" que correm o céu nalgumas tardes de Verão. E gosto muito de efeitos de luz como o que mostro nesta fotografia, tirada há poucos dias aqui na Covilhã.

Sim, gosto de nuvens... Mas, por esta época, acho já tivemos que chegue! Safa!

domingo, abril 11, 2010

Mudam-se os tempos? Que se mudem os painéis!

O painel informativo apresentado na imagem que ilustra este post foi colocado na curva do Cântaro Magro, perto da Torre. Uma vez que tem uma referência ao "Ano Internacional das Montanhas 2002", suponho que tenha sido nesse ano ali colocado, pelos serviços do PNSE. Pelos vistos, nesse ano o PNSE não era contra a prática de desportos de natureza naquela zona.

Mas mudaram-se os tempos. Entrou em vigor o actual Regulamento do Plano de Ordenamento do PNSE (Resolução do Conselho de Ministros nº 83/2009), que, no nº 3 do Artigo 12º, determina que

Nas áreas de protecção parcial do tipo I [como é o caso do "vale escondido" a que se refere o painel] apenas são permitidas actividades de investigação científica, visitação e pastorícia, quando compatíveis com os objectivos definidos.

Uma vez que os serviços do PNSE consideram que a escalada e o montanhismo não se enquadram na categoria de "visitação", têm indeferido os pedidos de realização dessas actividades, exactamente no "vale escondido à sua frente" referido no painel (estou a pensar no encontro de escalada Entalados II e no encontro de montanhismo invernal ASEstrela 2010) e terão informado os agentes turísticos da região da proibição da prática da escalada e do montanhismo nesta zona (assim o afirmou um desses operadores na caixa de comentários deste post).

Mudaram-se os tempos, portanto. Mas, ao menos, mudem-se também os painéis. Sugiro o seguinte:

terça-feira, março 16, 2010

Um ocaso...

... Visto do lado da alvorada.

sábado, março 06, 2010

Lições

A Câmara Municipal da Covilhã está actualmente entusiasmada com um novo projecto, nascido no seio da recentemente criada Associação de Turismo da Covilhã (ATC): um parque de desportos de Inverno, a instalar entre a antiga carreira de tiro (em Santo António) e a ponte do Rato (ver aqui e aqui).

Há um aspecto deste projecto que me agrada: a sua localização. Não vão ser necessárias mais estradas serra acima, não se vão artificializar zonas até agora relativamente poupadas, não se vão urbanizar novas áreas na serra. O Cântaro Zangado fica, desta vez, aliviado.

Mas vem a propósito lembrar que a ideia de um parque de desportos de Inverno já foi tentada na Serra da Estrela, em Sameiro, no concelho de Manteigas. A anterior experiência foi gerida até há muito pouco tempo pela Turistrela (um dos fundadores da ATC) e não parece ter sido grande sucesso. Sobre o que publicamente se foi sabendo acerca dos problemas que a autarquia manteiguense teve com a administração do ski parque do Sameiro, fui tecendo uns comentários aqui, aqui e aqui. O actual presidente da Câmara Municipal de Manteigas, referiu-se ao skiparque numa entrevista recente, afirmando que "Quando foi construído, pretendia-se que o equipamento viesse complementar o reforço económico do concelho. As coisas não correram bem, o complexo está um pouco degradado e o contrato não foi devidamente cumprido. Neste momento está a resolver-se no sentido de dinamizar aquele espaço, credibilizá-lo, promovê-lo e dar-lhe melhor funcionalidade". O anterior presidente da Câmara Municipal de Seia, Eduardo Brito, numa entrevista ao jornal Porta da Estrela, apresentou a pista de Manteigas como uma "lição" que quanto a ele justificava o abandonar de projectos semelhantes que terão chegado a ser idealizados em Seia.

Para a construção deste novo ski parque, são necessários, assim o disse Carlos Pinto (presidente da CM da Covilhã) apoios públicos. Espero que quem decidir estes apoios estude a lição da pista de Manteigas, até porque os protagonistas (Turistrela) são os mesmos. É que há a possibilidade de a história se repetir, de chegarmos um dia, cá na Covilhã, a comentar que "Quando foi construído, pretendia-se que o equipamento viesse complementar o reforço económico do concelho. As coisas não correram bem, o complexo está um pouco degradado e o contrato não foi devidamente cumprido. Neste momento está a resolver-se no sentido de dinamizar aquele espaço, credibilizá-lo, promovê-lo e dar-lhe melhor funcionalidade".

A lição do Sameiro foi dada a todos. É agora preciso estudá-la, para evitar cair nos mesmos erros.

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

Dois picos, dois parques, duas "verdades"

Cântaro Magro (esquerda) e Picu Urrielo (alias Naranjo de Bulnes) (direita). Tirei a fotografia do Picu daqui.

O Cântaro Magro é um pico onde tradicionalmente se pratica escalada em rocha em Portugal. É por muitos considerado o local mais emblemático para essa actividade no nosso país. O Picu Urrielo é um pico onde tradicionalmente se pratica escalada em rocha em Espanha. É por muitos considerado o local mais emblemático para essa prática no país vizinho.

O Cântaro Magro é constituído por granito de boa qualidade, duro, pouco friável e relativamente inerte do ponto de vista químico. O Picu Urrielo é um pico de rocha calcárea, mais mole, com diversos componentes mais solúveis, que se quebra com muito maior facilidade, que reage com qualquer ácido.

O Cântaro Magro é visitado por uma ou duas cordadas por fim de semana, especialmente no Verão. No Picu Urrielo, no Verão, encontram-se permanentemente várias cordadas, até mais do que uma em cada via, isto a qualquer hora do dia e da noite (porque a escalada de muitas das suas vias demora mais do que vinte e quatro horas para uma cordada típica). Mesmo no Inverno, é vulgar encontrar vários escaladores em actividade simultaneamente.

O Cântaro Magro encontra-se no interior de uma área protegida com a classificação intermédia de parque natural. O Picu Urrielo encontra-se no interior de uma área protegida com um estatuto mais exigente (parque nacional).

Sem que tal esteja explícito no regulamento, os serviços do Parque Natural da Serra da Estrela (onde se situa o primeiro dos picos que estou a comparar) não autorizam a escalada no Cântaro Magro. A escalada no Picu Uriello é permitida pelos serviços do Parque Nacional dos Picos da Europa e nem sequer carece de autorizações especiais.

Significa isto que os valores naturais estão melhor protegidos no Parque Natural da Serra da Estrela do que no Parque Nacional dos Picos da Europa? Nem em sonhos!

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Não se compreende!

Nas generalidade das áreas protegidas de montanha do "mundo civilizado", a escalada é permitida. Nalguns casos impõem-se restrições, normalmente bem definidas espacialmente, quase sempre temporárias, de forma a salvaguardar determinados valores concretos, bem identificados e documentados. Por exemplo, proteger durante a época de nidificação uma família de rapinas cujo ninho se encontre na proximidade de alguma via de escalada. Tirando casos concretos como estes, bem identificados e bem documentados, a regra geral é a da liberdade de escalar.

Assim, só para dar alguns exemplos: pode-se escalar no Yosemite National Park; no Glacier Nacional Park; no Grand Teton National Park; no Devils Tower National Park; no Smoky Mountains National Park; no Grand Canion National Park; no Zion National Park (EUA). Pode-se escalar no Banff National Park; no Jasper National Park; no Yoho National Park (Canada). Pode-se escalar no Parque Nacional Los Glaciares; no Parque Nacional Tierra del Fuego (Argentina). Pode-se escalar no Parque Nacional Torres del Paine; na Reserva Nacional Altos de Lircay; na Reserva Nacional Cerro Castillo (Chile). Pode-se escalar no Parque Nacional Picos da Europa; no Parque Nacional de Ordesa y Monte Perdido; no Parque Nacional de Aiguestortes; no Parque Nacional de Sierra Nevada (Espanha). Pode-se escalar no Parc National des Pirineés; no Parc National des Écrins; no Parc National de la Vanoise (França). Pode-se escalar no Ben Nevis (creio que se trata de uma área protegida privada, no Reino Unido). Pode-se escalar no Triglavski Narodni Park (Eslovénia). E podia continuar por muito, muito tempo.

Onde é que não se pode escalar? De acordo com a interpretação que os serviços do ICNB entenderam fazer do estipulado no Regulamento Plano de Ordenamento do Parque Natural da Serra da Estrela (e que, pelas razões que apresentei há dias, considero arbitrária), não se pode escalar nas Áreas de Protecção Parcial de tipo I dessa zona protegida, ou seja, entre outras zonas, nos Cântaros, no Vale da Candeeira, na Garganta de Loriga, no Planalto da Lagoa Comprida; ou seja ainda, em praticamente todas as zonas onde tradicionalmente se pratica a escalada na serra da Estrela, onde se encontram os maiores desníveis e as maiores dificuldades técnicas. Que valores naturais estão em causa? Não são especificados. Que impactos ambientais se associam à prática da escalada? Não são especificados.

É esta proibição um sinal de que o Parque Natural da Serra da Estrela se encontra especialmente bem protegido contra os diferentes agentes agressores (veja-se que até é proibida uma actividade que é autorizada na generalidade das áreas protegidas do mundo!)? Não. No PNSE verificam-se todos os fins de semana de neve graves congestionamentos de tráfego, o turismo desordenado é um agente poluidor de gravidade reconhecida por todos, despejam-se toneladas de sal-gema nas estradas necessárias a esse turismo desordenado (sal-gema que já foi identificado como possível ameaça para alguns habitats aquáticos [ver b.n. CISE nº 28, Outono 2009]), instalam-se centros comerciais, funciona no coração da área protegida uma estância de esqui sem se terem até hoje estudado os seus impactos ambientais ou se ter definido um regulamento ambiental para a sua actividade, abrem-se estradas e alargam-se outras já existentes, aumenta-se a capacidade de estacionamento, há vários pontos de despejo de lixos e entulhos que ficam por limpar durante anos, há esgotos a céu aberto, fazem-se passeios e competições de todo-o-terreno motorizado a corta mato e até percorrendo ribeiros, instalam-se parques eólicos, há zonas de caça que a própria administração da área protegida ajudou a definir e legalizar. Ou seja, no PNSE pode-se fazer (e faz-se) praticamente tudo. Mas não escalar.

Parque Natural da Serra da Estrela: área protegida ou reino do arbítrio de mangas-de-alpaca?

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Escalada e visitação (2)

Há vários anos, no final de uma tarde de Verão, tendo escalado o Cântaro Magro pela face Oeste (não me lembro que via) e enquanto preparávamos o rappel para retornar à estrada e daí para a tradicional sessão de cerveja e gabarolice no café Estrela com que se costumavam encerrar os belos dias de antigamente (há quem continue a vive-los bem belos, eu é que me fui deixando atar ao chão horizontal pelos anos, pelas obrigações e porque ganharam importância para mim outras montanhas, mais simbólicas) vimos chegar pelo "Caminho das Pedras" um professor do secundário acompanhado de uma ou duas turmas dos seus alunos, perto de vinte ou trinta.

[Dois apartes: (1) O "Caminho das Pedras" é uma via para a subida ao Cântaro Magro pela face Sul, de baixa dificuldade e bem protegida, que se pode fazer sem equipamento técnico, quase sem tirar as mãos dos bolsos. (2) Duvido que, com as "melhorias" introduzidas nas últimas décadas (e, em particular, nos últimos anos) no ensino secundário, algum professor hoje em dia se encontre disposto a levar, sozinho, os seus alunos ao alto do Cântaro Magro. São estas e outras como estas que me levaram a pôr entre aspas a palavra "melhorias", mas isso é outro assunto.]

Conversámos um pouco com aquele professor (se não me engano, era de Filosofia): tinha acompanhado os alunos numa excursão à montanha mais alta de Portugal e tinha querido oferecer-lhes a sensação da ascensão de um pico não completamente trivial. Iam ficar um bocadinho, tirar fotografias, e depois por-se-iam a caminho (a pé) da Pousada de Juventude nas Penhas da Saúde.

Não sei de um termo que melhor se aplique ao que nós fizemos naquele dia do que "escalada". Não sei de um termo que melhor se aplique ao que os vinte alunos e o seu professor fizeram do que "visitação". Naquele tempo, o Plano de Ordenamento do Parque Natural da Serra da Estrela (POPNSE) era outro. Hoje em dia, o professor e os seus vinte alunos teriam autorização do PNSE para a sua subida ao Cântaro Magro, porque a visitação é aí explicitamente permitida, nos termos do actual POPNSE; eu e o meu companheiro de cordada não teríamos essa autorização, porque o entendimento que os serviços do ICNB fazem do actual POPNSE leva-os a não autorizarem a escalada no Cântaro Magro. Mas, caramba: haverá alguma diferença essencial entre o que nós fizemos e o que eles fizeram? Teremos eu e o meu colega causado um impacto maior do que os vinte alunos e o seu professor?

terça-feira, fevereiro 16, 2010

Escalada e visitação

No Regulamento do Plano de Ordenamento do Parque Natural da Serra da Estrela Resolução do Conselho de Ministros 83/2009 de 9 de Setembro (adiante referido como POPNSE), não constam as expressões "montanhismo" ou "escalada". Logo, estas actividades não são explicitamente proibidas no Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE). No entanto, os serviços da área protegida têm dado parecer negativo a iniciativas que envolvam essas práticas no Cântaro Magro (que é justamente a "catedral" do montanhismo e da escalada de aventura no nosso país). Para justificar estes pareceres, invocam o Artigo 11º, nº 2 do POPNSE que classifica os Cântaros (incluindo o Cântaro Magro) como Área de protecção parcial do tipo I, e o Artigo 12º que (proibindo explicitamente uma longa lista de actividades na qual não se inclui, como já disse, o montanhismo ou a escalada) determina que (nº3) "Nas áreas de protecção parcial do tipo I apenas são permitidas actividades de investigação científica, visitação e pastorícia, quando compatíveis com os objectivos definidos."

O que ao certo se possa considerar visitação não é definido no POPNSE. O TPais tentou há tempos clarificar esta questão sem sucesso. Aparentemente, não existe uma definição clara do que é "visitação", ou seja, não é claro o que distingue "visitação" de actividades às quais damos normalmente outros nomes (escalada, esqui, BTT, canyoning, pedestrianismo, canoagem, parapente, etc, etc, etc) mas que envolvem, igualmente, uma visita à área protegida. Os textos mais informativos que ele conseguiu encontrar (graças a indicações de pessoas muito mais entendidas do que nós nos meandros do Instituto da Conservação da Natureza e Biodiversidade) formam a documentação de um "Programa de Visitação e Comunicação na Rede Nacional de Áreas Protegidas" elaborado em 2006, cujos relatórios estão disponíveis no Portal do ICNB. Também não encontrámos nestes documentos uma definição formal de visitação mas, no Capítulo 4 do relatório de 1ª fase, mais especificamente na secção 4.2.3 (pág. 12) a escalada aparece explicitamente classificada como um "Produto de Visitação Especializada".

Dada esta indefinição do termo "visitação", entendo que a lei, tal como está, dá aos serviços do ICNB abertura suficiente para justificarem a autorização de encontros de montanhismo e escalada na serra da Estrela e da prática dessas modalidades no Cântaro Magro. Basta que considerem essas actividades como visitação. Mais: atendendo ao que acima referi sobre o Programa de Visitação e Comunicação, entendo que mais facilmente se justifica a autorização do que a proibição daquelas actividades. Mais ainda: notando que a alínea (i) do Artigo 6º do POPNSE refere "O desenvolvimento de actividades de animação, interpretação ambiental e desporto de natureza" (negritos introduzidos por mim) como "Acções e actividades a promover", entendo que o ICNB deveria sentir como obrigação sua o encorajar iniciativas e actividades deste tipo.

É óbvio que os serviços do ICNB não vêm a coisa assim. Com toda a franqueza, parece-me que é porque não querem.

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

Seminário - A Neve

No próximo fim de semana, dias 20 e 21 de Fevereiro, o CISE e a Associação Aldeia organizam em Seia o seminário “A Neve – importância natural, cultural e económica”.

Este evento tem como "objectivo principal abordar aspectos ambientais, científicos e económicos dos ecossistemas de montanha e, em particular, do recurso neve" e pretende que se analisem e debatam temas como "a Geomorfologia, a Climatologia, a Botânica, a Zoologia, a Antropologia, o Desporto e o Turismo".

O programa (de onde retirei os excertos em itálico) e informações para a inscrição estão disponíveis aqui.

Ao Cântaro Zangado agradam iniciativas como esta, em que se pretende analisar publicamente — Ou seja: de forma aberta à participação (logo ao contraditório) e ao escrutínio de todos — as realidades, os problemas e as oportunidades da serra. Por isso dizemos: obrigado, CISE e Aldeia! (E, já agora, acrescentamos: obrigado pelo CISE, Câmara Municipal de Seia).

Com especial interesse aqui para o Cântaro Zangado é a palestra "A serra da Estrela e as actividades desportivas de Inverno" do compadre TPais, convidado enquanto membro da Desnível, uma associação de desportos de montanha com intensa actividade na serra da Estrela. Força, Tiago!

(Nota: A imagem que ilustra este post foi colhida no site do evento. Aliás, aparece aqui por link directo para esse site.)

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Limpar a Serra da Estrela

O projecto Limpar Portugal está em marcha. Pretende-se no dia 20 de Março levar a cabo uma série de acções de limpeza de lixeiras ilegais em espaços florestais.

Aqui na zona da Serra da Estrela todos os concelhos têm um grupo, cada um com algumas dezenas de inscritos. Na cidade onde moro, a Covilhã, foram identificadas algumas lixeiras que encontro com regularidade nos meus passeios/corridas.

Não me inscrevi ainda porque tenho muitas dúvidas de poder dar um contributo real para a coisa. Mas espero sinceramente que a iniciativa seja um enorme sucesso!

Aqui ficam as ligações: Limpar Portugal; Limpar Covilhã; Limpar Manteigas; Limpar Guarda; Limpar Gouveia; Limpar Seia

sexta-feira, janeiro 22, 2010

(Falta de) Qualidade

Vamos já na recta final de Janeiro, quinze dias depois de um enorme nevão que cobriu de branco toda a região centro, como está a neve na serra da Estrela? O site da estância de esqui informa-nos de que estão três pistas abertas (Covão, Cântaro e Lagoa), com um comprimento total de 788 m e um desnível acumulado de 107 m. O tipo de neve é "Dura/Húmida" e a profundidade não é indicada. Este tem sido o panorama geral nos últimos dias (hoje até estamos melhor, que foi aberta a pista Lagoa, a maior das três).

Neve Dura/Húmida é aquela que frequentemente aqui refiro como sendo vulgar na Estrela (logo, também nas pistas de esqui): é húmida porque derrete e dura porque congela(*). Não é grande coisa para esquiar. A extensão esquiável nas presentes condições na estância da Turistrela é da ordem de grandeza do comprimento de uma pista média nos Pirinéus. É menos do que o comprimento total da maior (e mais frequentada) pista da estância de La Covatilla, aqui perto. O desnível, esse, é ridículo.

A estância da Estrela está equipada com canhões de neve, mas como se vê nem assim se consegue manter a maioria das pistas abertas. De que poderá servir ampliar a estância pela encosta abaixo, se nem a que temos conseguimos manter a funcionar razoavelmente?

Esta situação demonstra mais uma vez algo que tenho aqui repetido frequentemente: a serra da Estrela não é ideal para a prática de desportos de neve. Porque não neva com a frequência e intensidade necessárias, porque a neve, mesmo no pino do Inverno e mesmo nas cotas mais altas, passa por ciclos diários de fusão e congelamento que a tornam "Dura/Húmida", e também porque, mesmo no pino do Inverno e nas cotas mais altas, frequentemente chove ou formam-se bancos de nevoeiro, ocorrências que "comem" neve e degradam a sua qualidade com rapidez.

A prática de desportos de neve na serra da Estrela é assim muito condicionada: ou não há neve, ou está mau tempo, ou a neve está dura... E quando se conseguem reunir condições ideais, é a estância que é pequena e pouco entusiasmante. Ou seja, é possível esquiar na Estrela, mas só muito raramente se consegue praticar um esqui realmente satisfatório, só raramente se pratica um esqui de "qualidade".

Mas será possível desenvolver-se um turismo de qualidade na serra da Estrela, baseando-o em práticas que, na serra, só muito raramente têm qualidade?

(*) Ao contrário do que acontece nos Alpes e (menos) nos Pirinéus, onde está frio o suficiente para não se verificar fusão apreciável da neve durante longos períodos. Ela mantém-se assim na forma de um pó relativamente seco, qualidade considerada ideal para o esqui.

quarta-feira, janeiro 13, 2010

ASEstrela'2010

Já no Carnaval, dias 12 a 15 de Fevereiro, no Covão d'Ametade, o acampamento nacional invernal de montanha, para todos os amigos da montanha. Está 100% garantida a ausência de duches quentes, de tendas aquecidas, de música ambiente (exceptuando-se a eventualmente produzida no local e na hora pelos participantes, alive and unplugged), de iluminação pública nocturna, de ruído de motores e de tudo isso que já temos que chegue nos restantes dias do ano.

Para mais informações e para as inscrições seguir por aqui.

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Os velhos do Restelo, às vezes, têm razão.

Numa decisão voluntarista, optimista, que quebrava com o marasmo e que iria trazer lucros fabulosos, resolvemos organizar o europeu de futebol de 2004. Que grande aposta na modernização, na reabilitação urbana, na resolução dos problemas do desporto no nosso país, na construção de infraestruturas para o futuro!

Houve quem achasse que não deveríamos gastar tanto dinheiro em investimentos de retorno duvidoso. Mas, já se sabe, os Velhos do Restelo não perdem uma oportunidade para o nacional bota-abaixismo.

E, no entanto... Saiu ontem no Público uma longa reportagem sobre os problemas que várias câmaras municipais estão a ter com os encargos relacionados com a conservação e manutenção dos estádios que foram construídos por causa do Euro 2004. Aquilo que gostariam de fazer várias dessas câmaras era demolir, pura e simplesmente, esses estádios. Por outro lado, quanto aos benefícios que iam resultar dessa grande gesta nacional, ele houve-os, decerto. Houve quem tivesse feito bons negócios nessa altura. Mas as vantagens gerais, as que foram anunciadas à priori, aquelas de que todos beneficiaríamos, alguém as viu?

Cá para mim, parece-me que os tempos mostraram que os velhos do Restelo tinham razão.

O que não significa que tenham sempre razão, claro. E eu, que desempenho frequentemente esse papel no âmbito aqui da nossa serrinha, não pretendo reclamar que tenho razão só porque outros a tiveram noutro contexto. Mas, caramba, sinto um prazerzinho perverso quando noto que, afinal, a verdadeira razão para a maluquice do Euro 2004 foi, nas palavras do economista Augusto Mateus: "quando estamos muito entusiasmados com o circo, tudo parece muito fácil".

E parecem tão fáceis minicidades, telecabines e grandes estâncias de esqui na serra, capazes de concorrer com os Alpes e os Pirinéus, sempre que ela se veste com estes efémeros mantos de neve empapada...

domingo, dezembro 27, 2009

Apelo

A Associação Cultural Amigos da Serra da Estrela apela a todos os seus associados para que actualizem os seus dados pessoais (especialmente os endereços postal e electrónico), através de email para asestrela@gmail.com. (Mais informação aqui.)
Algarvear a Serra da Estrela? Não, obrigado!