Encha um copo com água (pode ser da torneira) e adicione gelo; meça a temperatura da mistura. Em seguida, coloque uma ou duas colheres de sopa cheias de sal no copo e agite durante alguns minutos; volte a medir a temperatura.
Acabei agora de fazer esta experiência, que documento com a figura em cima. Antes de misturar o sal, a temperatura da mistura água-gelo era -2,2°C (fotografia da esquerda); depois de misturar o sal (passados quatro minutos, como se vê), a temperatura desceu para -11,8°C. Suspeito que se repetisse a experiência com neve (em vez de gelo), o arrefecimento seria mais pronunciado.
Porque é que isto acontece? Porque o sal dissolvido na água faz baixar a temperatura de solidificação da água. É exactamente por isso que é usado (nomeadamente na serra da Estrela) para evitar a acumulação de neve nas estradas. Ao baixar a temperatura de congelação, o gelo derrete e ao fazê-lo absorve do ambiente a energia (calor) de que necessita para a transição de fase, o chamado calor latente de fusão. É assim um processo semelhante (mas envolvendo outra transição de fase) ao do arrefecimento cutâneo por evaporação da transpiração.
E porque falo nisto? Porque, como já aqui referi várias vezes nos últimos meses, alguns responsáveis do ICNB (os suficientes para determinarem as opções dos serviços nesta matéria) consideram que a escalada e o montanhismo no Cântaro Magro devem ser proibidos, e por isso indeferem todos os pedidos para a realização dessas actividades nesse pico. As razões apresentadas prendem-se com a classificação atribuída à zona do Cântaro Magro (e, de facto, a todas as zonas onde tradicionalmente se pratica escalada e montanhismo na serra da Estrela), de acordo com a qual, nos termos do plano de ordenamento da área protegida, apenas as actividades de visitação, pastorícia e investigação científica podem ser autorizadas, desde que compatíveis com a conservação dos valores ambientais presentes.
Uma vez que a escalada e o montanhismo podem ser classificados como actividades de visitação, importa saber que valores ambientais vêm a sua conservação posta posta em causa por estas práticas. De acordo com o que me foi dito por alguém que participou em reuniões com o ICNB, no caso do Cântaro Magro, esses valores são geológicos e são postos em causa pela erosão que a escalada e o montanhismo acarretam. (Quão grave será essa erosão? Quem é que a terá avaliado? Que estudos estão disponíveis sobre esse assunto? Mistério...)
Mas acontece que a poucos metros de distância de diversas vias de escalada na zona do Cântaro Magro, encontramos a estrada nacional EN339, onde todos os Invernos são despejadas várias toneladas de sal-gema, que escorrem para as mesmíssimas áreas que o ICNB quer proteger da erosão impedindo a prática da escalada e do montanhismo.
Bem, eu já ouvi dizer que o sal não faz nada bem à fertilidade dos solos, que não é nada bom para as plantas, e até já li (b.n. CISE nº 28 Outono 2009, pág. 14) que a sua utilização é um factor de ameaça para a conservação de alguns habitats de água doce da serra da Estrela. Mas não sei. Sei sim (porque o verifiquei agora mesmo) é que a dissolução de sal em água misturada com gelo faz baixar localmente a temperatura. Porque o sei, pergunto-me: não haverá também perigo de erosão associado a um eventual súbito arrefecimento superficial das rochas situadas nas linhas de escorrência sob a estrada, resultante da dissolução do sal usado pelo Centro de Limpeza de Neve? (Recordo que são gradientes de temperatura os responsáveis pela fractura de vidros normais em fornos de cozinha.) Não parece esta situação ter um impacto potencial, naquele mesmo local, muito mais grave do que o da erosão eventualmente causada pela borracha das sapatilhas de escalada? Não seria melhor estudar esta questão? E, já agora, não seria melhor estudar também o impacto real da escalada e do montanhismo?
A escalada e o montanhismo são proibidos pelo ICNB, sem que se conheçam estudos que o justifiquem. Outras actividades, aparentemente muito mais impactantes (raids tt, voltinhas de carro, piqueniques de beira de estrada, esqui, sku, caça, pesca, encontros de motoqueiros, snow-fashions, etc, etc, etc), algumas das quais com impactos nos mesmos locais que alegadamente se querem proteger com a proibição da escalada e do montanhismo, são permitidas! Pior, todas estas actividades são não só permitidas, elas são mesmo encorajadas, dados todos os investimentos públicos nos centros comerciais na Torre, na beneficiação das estradas existentes, na pavimentação de caminhos, no aumento da capacidade de estacionamento, etc.
Somos mesmo originais. Haverá na Europa outra área protegida de montanha como esta?