sexta-feira, fevereiro 19, 2010

Dois picos, dois parques, duas "verdades"

Cântaro Magro (esquerda) e Picu Urrielo (alias Naranjo de Bulnes) (direita). Tirei a fotografia do Picu daqui.

O Cântaro Magro é um pico onde tradicionalmente se pratica escalada em rocha em Portugal. É por muitos considerado o local mais emblemático para essa actividade no nosso país. O Picu Urrielo é um pico onde tradicionalmente se pratica escalada em rocha em Espanha. É por muitos considerado o local mais emblemático para essa prática no país vizinho.

O Cântaro Magro é constituído por granito de boa qualidade, duro, pouco friável e relativamente inerte do ponto de vista químico. O Picu Urrielo é um pico de rocha calcárea, mais mole, com diversos componentes mais solúveis, que se quebra com muito maior facilidade, que reage com qualquer ácido.

O Cântaro Magro é visitado por uma ou duas cordadas por fim de semana, especialmente no Verão. No Picu Urrielo, no Verão, encontram-se permanentemente várias cordadas, até mais do que uma em cada via, isto a qualquer hora do dia e da noite (porque a escalada de muitas das suas vias demora mais do que vinte e quatro horas para uma cordada típica). Mesmo no Inverno, é vulgar encontrar vários escaladores em actividade simultaneamente.

O Cântaro Magro encontra-se no interior de uma área protegida com a classificação intermédia de parque natural. O Picu Urrielo encontra-se no interior de uma área protegida com um estatuto mais exigente (parque nacional).

Sem que tal esteja explícito no regulamento, os serviços do Parque Natural da Serra da Estrela (onde se situa o primeiro dos picos que estou a comparar) não autorizam a escalada no Cântaro Magro. A escalada no Picu Uriello é permitida pelos serviços do Parque Nacional dos Picos da Europa e nem sequer carece de autorizações especiais.

Significa isto que os valores naturais estão melhor protegidos no Parque Natural da Serra da Estrela do que no Parque Nacional dos Picos da Europa? Nem em sonhos!

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Não se compreende!

Nas generalidade das áreas protegidas de montanha do "mundo civilizado", a escalada é permitida. Nalguns casos impõem-se restrições, normalmente bem definidas espacialmente, quase sempre temporárias, de forma a salvaguardar determinados valores concretos, bem identificados e documentados. Por exemplo, proteger durante a época de nidificação uma família de rapinas cujo ninho se encontre na proximidade de alguma via de escalada. Tirando casos concretos como estes, bem identificados e bem documentados, a regra geral é a da liberdade de escalar.

Assim, só para dar alguns exemplos: pode-se escalar no Yosemite National Park; no Glacier Nacional Park; no Grand Teton National Park; no Devils Tower National Park; no Smoky Mountains National Park; no Grand Canion National Park; no Zion National Park (EUA). Pode-se escalar no Banff National Park; no Jasper National Park; no Yoho National Park (Canada). Pode-se escalar no Parque Nacional Los Glaciares; no Parque Nacional Tierra del Fuego (Argentina). Pode-se escalar no Parque Nacional Torres del Paine; na Reserva Nacional Altos de Lircay; na Reserva Nacional Cerro Castillo (Chile). Pode-se escalar no Parque Nacional Picos da Europa; no Parque Nacional de Ordesa y Monte Perdido; no Parque Nacional de Aiguestortes; no Parque Nacional de Sierra Nevada (Espanha). Pode-se escalar no Parc National des Pirineés; no Parc National des Écrins; no Parc National de la Vanoise (França). Pode-se escalar no Ben Nevis (creio que se trata de uma área protegida privada, no Reino Unido). Pode-se escalar no Triglavski Narodni Park (Eslovénia). E podia continuar por muito, muito tempo.

Onde é que não se pode escalar? De acordo com a interpretação que os serviços do ICNB entenderam fazer do estipulado no Regulamento Plano de Ordenamento do Parque Natural da Serra da Estrela (e que, pelas razões que apresentei há dias, considero arbitrária), não se pode escalar nas Áreas de Protecção Parcial de tipo I dessa zona protegida, ou seja, entre outras zonas, nos Cântaros, no Vale da Candeeira, na Garganta de Loriga, no Planalto da Lagoa Comprida; ou seja ainda, em praticamente todas as zonas onde tradicionalmente se pratica a escalada na serra da Estrela, onde se encontram os maiores desníveis e as maiores dificuldades técnicas. Que valores naturais estão em causa? Não são especificados. Que impactos ambientais se associam à prática da escalada? Não são especificados.

É esta proibição um sinal de que o Parque Natural da Serra da Estrela se encontra especialmente bem protegido contra os diferentes agentes agressores (veja-se que até é proibida uma actividade que é autorizada na generalidade das áreas protegidas do mundo!)? Não. No PNSE verificam-se todos os fins de semana de neve graves congestionamentos de tráfego, o turismo desordenado é um agente poluidor de gravidade reconhecida por todos, despejam-se toneladas de sal-gema nas estradas necessárias a esse turismo desordenado (sal-gema que já foi identificado como possível ameaça para alguns habitats aquáticos [ver b.n. CISE nº 28, Outono 2009]), instalam-se centros comerciais, funciona no coração da área protegida uma estância de esqui sem se terem até hoje estudado os seus impactos ambientais ou se ter definido um regulamento ambiental para a sua actividade, abrem-se estradas e alargam-se outras já existentes, aumenta-se a capacidade de estacionamento, há vários pontos de despejo de lixos e entulhos que ficam por limpar durante anos, há esgotos a céu aberto, fazem-se passeios e competições de todo-o-terreno motorizado a corta mato e até percorrendo ribeiros, instalam-se parques eólicos, há zonas de caça que a própria administração da área protegida ajudou a definir e legalizar. Ou seja, no PNSE pode-se fazer (e faz-se) praticamente tudo. Mas não escalar.

Parque Natural da Serra da Estrela: área protegida ou reino do arbítrio de mangas-de-alpaca?

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Escalada e visitação (2)

Há vários anos, no final de uma tarde de Verão, tendo escalado o Cântaro Magro pela face Oeste (não me lembro que via) e enquanto preparávamos o rappel para retornar à estrada e daí para a tradicional sessão de cerveja e gabarolice no café Estrela com que se costumavam encerrar os belos dias de antigamente (há quem continue a vive-los bem belos, eu é que me fui deixando atar ao chão horizontal pelos anos, pelas obrigações e porque ganharam importância para mim outras montanhas, mais simbólicas) vimos chegar pelo "Caminho das Pedras" um professor do secundário acompanhado de uma ou duas turmas dos seus alunos, perto de vinte ou trinta.

[Dois apartes: (1) O "Caminho das Pedras" é uma via para a subida ao Cântaro Magro pela face Sul, de baixa dificuldade e bem protegida, que se pode fazer sem equipamento técnico, quase sem tirar as mãos dos bolsos. (2) Duvido que, com as "melhorias" introduzidas nas últimas décadas (e, em particular, nos últimos anos) no ensino secundário, algum professor hoje em dia se encontre disposto a levar, sozinho, os seus alunos ao alto do Cântaro Magro. São estas e outras como estas que me levaram a pôr entre aspas a palavra "melhorias", mas isso é outro assunto.]

Conversámos um pouco com aquele professor (se não me engano, era de Filosofia): tinha acompanhado os alunos numa excursão à montanha mais alta de Portugal e tinha querido oferecer-lhes a sensação da ascensão de um pico não completamente trivial. Iam ficar um bocadinho, tirar fotografias, e depois por-se-iam a caminho (a pé) da Pousada de Juventude nas Penhas da Saúde.

Não sei de um termo que melhor se aplique ao que nós fizemos naquele dia do que "escalada". Não sei de um termo que melhor se aplique ao que os vinte alunos e o seu professor fizeram do que "visitação". Naquele tempo, o Plano de Ordenamento do Parque Natural da Serra da Estrela (POPNSE) era outro. Hoje em dia, o professor e os seus vinte alunos teriam autorização do PNSE para a sua subida ao Cântaro Magro, porque a visitação é aí explicitamente permitida, nos termos do actual POPNSE; eu e o meu companheiro de cordada não teríamos essa autorização, porque o entendimento que os serviços do ICNB fazem do actual POPNSE leva-os a não autorizarem a escalada no Cântaro Magro. Mas, caramba: haverá alguma diferença essencial entre o que nós fizemos e o que eles fizeram? Teremos eu e o meu colega causado um impacto maior do que os vinte alunos e o seu professor?

terça-feira, fevereiro 16, 2010

Escalada e visitação

No Regulamento do Plano de Ordenamento do Parque Natural da Serra da Estrela Resolução do Conselho de Ministros 83/2009 de 9 de Setembro (adiante referido como POPNSE), não constam as expressões "montanhismo" ou "escalada". Logo, estas actividades não são explicitamente proibidas no Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE). No entanto, os serviços da área protegida têm dado parecer negativo a iniciativas que envolvam essas práticas no Cântaro Magro (que é justamente a "catedral" do montanhismo e da escalada de aventura no nosso país). Para justificar estes pareceres, invocam o Artigo 11º, nº 2 do POPNSE que classifica os Cântaros (incluindo o Cântaro Magro) como Área de protecção parcial do tipo I, e o Artigo 12º que (proibindo explicitamente uma longa lista de actividades na qual não se inclui, como já disse, o montanhismo ou a escalada) determina que (nº3) "Nas áreas de protecção parcial do tipo I apenas são permitidas actividades de investigação científica, visitação e pastorícia, quando compatíveis com os objectivos definidos."

O que ao certo se possa considerar visitação não é definido no POPNSE. O TPais tentou há tempos clarificar esta questão sem sucesso. Aparentemente, não existe uma definição clara do que é "visitação", ou seja, não é claro o que distingue "visitação" de actividades às quais damos normalmente outros nomes (escalada, esqui, BTT, canyoning, pedestrianismo, canoagem, parapente, etc, etc, etc) mas que envolvem, igualmente, uma visita à área protegida. Os textos mais informativos que ele conseguiu encontrar (graças a indicações de pessoas muito mais entendidas do que nós nos meandros do Instituto da Conservação da Natureza e Biodiversidade) formam a documentação de um "Programa de Visitação e Comunicação na Rede Nacional de Áreas Protegidas" elaborado em 2006, cujos relatórios estão disponíveis no Portal do ICNB. Também não encontrámos nestes documentos uma definição formal de visitação mas, no Capítulo 4 do relatório de 1ª fase, mais especificamente na secção 4.2.3 (pág. 12) a escalada aparece explicitamente classificada como um "Produto de Visitação Especializada".

Dada esta indefinição do termo "visitação", entendo que a lei, tal como está, dá aos serviços do ICNB abertura suficiente para justificarem a autorização de encontros de montanhismo e escalada na serra da Estrela e da prática dessas modalidades no Cântaro Magro. Basta que considerem essas actividades como visitação. Mais: atendendo ao que acima referi sobre o Programa de Visitação e Comunicação, entendo que mais facilmente se justifica a autorização do que a proibição daquelas actividades. Mais ainda: notando que a alínea (i) do Artigo 6º do POPNSE refere "O desenvolvimento de actividades de animação, interpretação ambiental e desporto de natureza" (negritos introduzidos por mim) como "Acções e actividades a promover", entendo que o ICNB deveria sentir como obrigação sua o encorajar iniciativas e actividades deste tipo.

É óbvio que os serviços do ICNB não vêm a coisa assim. Com toda a franqueza, parece-me que é porque não querem.

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

Seminário - A Neve

No próximo fim de semana, dias 20 e 21 de Fevereiro, o CISE e a Associação Aldeia organizam em Seia o seminário “A Neve – importância natural, cultural e económica”.

Este evento tem como "objectivo principal abordar aspectos ambientais, científicos e económicos dos ecossistemas de montanha e, em particular, do recurso neve" e pretende que se analisem e debatam temas como "a Geomorfologia, a Climatologia, a Botânica, a Zoologia, a Antropologia, o Desporto e o Turismo".

O programa (de onde retirei os excertos em itálico) e informações para a inscrição estão disponíveis aqui.

Ao Cântaro Zangado agradam iniciativas como esta, em que se pretende analisar publicamente — Ou seja: de forma aberta à participação (logo ao contraditório) e ao escrutínio de todos — as realidades, os problemas e as oportunidades da serra. Por isso dizemos: obrigado, CISE e Aldeia! (E, já agora, acrescentamos: obrigado pelo CISE, Câmara Municipal de Seia).

Com especial interesse aqui para o Cântaro Zangado é a palestra "A serra da Estrela e as actividades desportivas de Inverno" do compadre TPais, convidado enquanto membro da Desnível, uma associação de desportos de montanha com intensa actividade na serra da Estrela. Força, Tiago!

(Nota: A imagem que ilustra este post foi colhida no site do evento. Aliás, aparece aqui por link directo para esse site.)

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Limpar a Serra da Estrela

O projecto Limpar Portugal está em marcha. Pretende-se no dia 20 de Março levar a cabo uma série de acções de limpeza de lixeiras ilegais em espaços florestais.

Aqui na zona da Serra da Estrela todos os concelhos têm um grupo, cada um com algumas dezenas de inscritos. Na cidade onde moro, a Covilhã, foram identificadas algumas lixeiras que encontro com regularidade nos meus passeios/corridas.

Não me inscrevi ainda porque tenho muitas dúvidas de poder dar um contributo real para a coisa. Mas espero sinceramente que a iniciativa seja um enorme sucesso!

Aqui ficam as ligações: Limpar Portugal; Limpar Covilhã; Limpar Manteigas; Limpar Guarda; Limpar Gouveia; Limpar Seia

sexta-feira, janeiro 22, 2010

(Falta de) Qualidade

Vamos já na recta final de Janeiro, quinze dias depois de um enorme nevão que cobriu de branco toda a região centro, como está a neve na serra da Estrela? O site da estância de esqui informa-nos de que estão três pistas abertas (Covão, Cântaro e Lagoa), com um comprimento total de 788 m e um desnível acumulado de 107 m. O tipo de neve é "Dura/Húmida" e a profundidade não é indicada. Este tem sido o panorama geral nos últimos dias (hoje até estamos melhor, que foi aberta a pista Lagoa, a maior das três).

Neve Dura/Húmida é aquela que frequentemente aqui refiro como sendo vulgar na Estrela (logo, também nas pistas de esqui): é húmida porque derrete e dura porque congela(*). Não é grande coisa para esquiar. A extensão esquiável nas presentes condições na estância da Turistrela é da ordem de grandeza do comprimento de uma pista média nos Pirinéus. É menos do que o comprimento total da maior (e mais frequentada) pista da estância de La Covatilla, aqui perto. O desnível, esse, é ridículo.

A estância da Estrela está equipada com canhões de neve, mas como se vê nem assim se consegue manter a maioria das pistas abertas. De que poderá servir ampliar a estância pela encosta abaixo, se nem a que temos conseguimos manter a funcionar razoavelmente?

Esta situação demonstra mais uma vez algo que tenho aqui repetido frequentemente: a serra da Estrela não é ideal para a prática de desportos de neve. Porque não neva com a frequência e intensidade necessárias, porque a neve, mesmo no pino do Inverno e mesmo nas cotas mais altas, passa por ciclos diários de fusão e congelamento que a tornam "Dura/Húmida", e também porque, mesmo no pino do Inverno e nas cotas mais altas, frequentemente chove ou formam-se bancos de nevoeiro, ocorrências que "comem" neve e degradam a sua qualidade com rapidez.

A prática de desportos de neve na serra da Estrela é assim muito condicionada: ou não há neve, ou está mau tempo, ou a neve está dura... E quando se conseguem reunir condições ideais, é a estância que é pequena e pouco entusiasmante. Ou seja, é possível esquiar na Estrela, mas só muito raramente se consegue praticar um esqui realmente satisfatório, só raramente se pratica um esqui de "qualidade".

Mas será possível desenvolver-se um turismo de qualidade na serra da Estrela, baseando-o em práticas que, na serra, só muito raramente têm qualidade?

(*) Ao contrário do que acontece nos Alpes e (menos) nos Pirinéus, onde está frio o suficiente para não se verificar fusão apreciável da neve durante longos períodos. Ela mantém-se assim na forma de um pó relativamente seco, qualidade considerada ideal para o esqui.

quarta-feira, janeiro 13, 2010

ASEstrela'2010

Já no Carnaval, dias 12 a 15 de Fevereiro, no Covão d'Ametade, o acampamento nacional invernal de montanha, para todos os amigos da montanha. Está 100% garantida a ausência de duches quentes, de tendas aquecidas, de música ambiente (exceptuando-se a eventualmente produzida no local e na hora pelos participantes, alive and unplugged), de iluminação pública nocturna, de ruído de motores e de tudo isso que já temos que chegue nos restantes dias do ano.

Para mais informações e para as inscrições seguir por aqui.

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Os velhos do Restelo, às vezes, têm razão.

Numa decisão voluntarista, optimista, que quebrava com o marasmo e que iria trazer lucros fabulosos, resolvemos organizar o europeu de futebol de 2004. Que grande aposta na modernização, na reabilitação urbana, na resolução dos problemas do desporto no nosso país, na construção de infraestruturas para o futuro!

Houve quem achasse que não deveríamos gastar tanto dinheiro em investimentos de retorno duvidoso. Mas, já se sabe, os Velhos do Restelo não perdem uma oportunidade para o nacional bota-abaixismo.

E, no entanto... Saiu ontem no Público uma longa reportagem sobre os problemas que várias câmaras municipais estão a ter com os encargos relacionados com a conservação e manutenção dos estádios que foram construídos por causa do Euro 2004. Aquilo que gostariam de fazer várias dessas câmaras era demolir, pura e simplesmente, esses estádios. Por outro lado, quanto aos benefícios que iam resultar dessa grande gesta nacional, ele houve-os, decerto. Houve quem tivesse feito bons negócios nessa altura. Mas as vantagens gerais, as que foram anunciadas à priori, aquelas de que todos beneficiaríamos, alguém as viu?

Cá para mim, parece-me que os tempos mostraram que os velhos do Restelo tinham razão.

O que não significa que tenham sempre razão, claro. E eu, que desempenho frequentemente esse papel no âmbito aqui da nossa serrinha, não pretendo reclamar que tenho razão só porque outros a tiveram noutro contexto. Mas, caramba, sinto um prazerzinho perverso quando noto que, afinal, a verdadeira razão para a maluquice do Euro 2004 foi, nas palavras do economista Augusto Mateus: "quando estamos muito entusiasmados com o circo, tudo parece muito fácil".

E parecem tão fáceis minicidades, telecabines e grandes estâncias de esqui na serra, capazes de concorrer com os Alpes e os Pirinéus, sempre que ela se veste com estes efémeros mantos de neve empapada...

domingo, dezembro 27, 2009

Apelo

A Associação Cultural Amigos da Serra da Estrela apela a todos os seus associados para que actualizem os seus dados pessoais (especialmente os endereços postal e electrónico), através de email para asestrela@gmail.com. (Mais informação aqui.)

segunda-feira, dezembro 21, 2009

O ruivo rabo do rabirruivo

Rabirruivo-preto (Phoenicurus ochruros), fotografado sexta feira passada, na Covilhã.

sexta-feira, dezembro 11, 2009

Ainda longe?!

Turismo sustentável ainda longe da serra da Estrela

O Portal Ambiente Online publicou hoje ou ontem um artigo sobre o turismo na serra, baseado (parece-me) nas opiniões de Pedro Guedes de Carvalho, que dirigiu há alguns anos o PETUR, um estudo sobre as potencialidades turísticas da nossa montanha, encomendado (e, depois, engavetado) pelo conjunto dos município da região.

Há um excerto do artigo que acho que vale a pena transcrever aqui (mas recomendo a sua leitura integral no Portal Ambiente Online):

[...] O documento [PETUR] questionou o monopólio no turismo de montanha, concessionado pelo Estado à Turistrela, e afirmou que o futuro da Serra da Estrela está no turismo ambiental, de natureza, saúde e cultura.
Como se vê, há coisas na serra que não é preciso ser-se radical para questionar. E opiniões sobre as potencialidades da serra que não é preciso ser-se radical para partilhar.

Soube disto pelo Máfia da Cova e pelo Kaminhos.

Dia 11 de Novembro

Hoje é o dia mundial das montanhas.

É um bom dia para pensar se queremos continuar a artificializar a serra, a enchê-la de entulho e de alcatrão, a "modernizá-la", a "requalificá-la", a urbanizá-la.

É um bom dia para pensar se realmente queremos torná-la semelhante a outro sítio qualquer, com ruas e estradas como as de outro sítio qualquer, com sinais como os de outro sítio qualquer, com desordenamento como o que é normal noutro sítio qualquer...

É um bom dia para pensar se queremos continuar a desenvolver na serra um ambiente semelhante ao das nossas cidades, com ruído, poluição, lixo, centros comerciais, congestionamentos de tráfego, iluminação nocturna de néon ofuscante, e tudo isso.

É um bom dia para pensar, enfim, se queremos continuar a transformar a serra num sítio que valha tanto a pena visitar como outro sítio qualquer.

O Luís Avelar planeou para hoje, em frente à Câmara Municipal da Covilhã, uma acção de protesto individual contra a continuação da "política do costume" no desenvolvimento do turismo na serra. Para mais detalhes, ver o Máfia da Cova.

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Nas pequenas coisas...

Um dos "Flashes" na página 13 da edição da revista Fugas do Público do Domingo passado consiste no seguinte:

Estrela
Com a neve a reinar, a estância da Serra da Estrela está pronta a receber esquiadores e curiosos. Já pode ser espiada por "webcam" ou seguida no Twitter.
www.skiserradaestrela.com
Mas a neve não reina, reinou antes a chuva durante todo o fim de semana. Uma situação inesperada? Não propriamente, chuva na Torre pode ocorrer, e ocorre, em qualquer altura do ano. E já não havia neve praticamente nenhuma, da que caiu há semana e meia. A estância está pronta a receber esquiadores e curiosos que não se importem (a maioria, decerto) de a encontrar... Encerrada, com todas as pistas encerradas. Apesar de terem podido ler exactamente o contrário disso em jornais de referência, como o Público.

Estes pequenos "exageros", que já não nos espantam vindos da parte da Turistrela, aparecem em todo o lado, até onde talvez não fossem de esperar. Por exemplo, o portal Ambiente Online publicou há dias uma notícia sobre a remodelação da rede de percursos pedestres da Serra da Estrela encetada pelos serviços do Parque Natural. O artigo tem a ilustrá-lo uma pequena fotografia (que copiei para este post) de uma paisagem coberta de neve, tirada nalguma estância de esqui dos Alpes ou dos Pirinéus (cheira-me que no sector Grau-Roig de Grand-Valira, mas não aposto). Ou seja, na serra não há neve agora e só muito raramente se encontra neve como a que se mostra na dita fotografiazita. Apesar disso, e apesar de a notícia não ter nada que ver com neve na serra, toca de ir buscar uma imagem nevada a outra serra. Isto entende-se?

terça-feira, dezembro 08, 2009

Até aqui chegámos

O Cântaro Zangado faz hoje quatro anos.

Temos aqui apresentado claramente e defendido empenhadamente as nossas opiniões, assumindo-as inequivocamente. Somos pela defesa da paisagem e do ambiente da serra da Estrela, logo, somos em regra contra tudo o que consideramos que desvirtua esses valores (que assim os consideramos: como valores, e preciosos). Entendemos que as asfaltações de caminhos, a artificialização urbanóide de diversas áreas, a mercantilização da serra, o encorajamento à visitação automobilizada, etc, têm sido más apostas e não devem ser continuadas. Porque assim achamos, regra geral manifestamo-nos contra novos empreendimentos que, na nossa opinião, se inserem na estratégia que tem sido seguida nas últimas décadas, que nos trouxe até onde estamos. Ao contrário de quase todos os protagonistas da região, não nos afirmamos *genericamente* pela natureza e paisagem, apoiando simultaneamente, *no concreto*, todas as estradas, edificações, requalificações, urbanizações, "melhoramentos", "embelezamentos" e estacionamentos com que, paulatinamente, essa natureza e essa paisagem se vão descaracterizando. Não; nós somos, genérica e concretamente, pelas paisagens e pelo ambiente. Até porque a protecção das paisagens e do ambiente não é incompatível com o desenvolvimento. A esse propósito, e quanto às decisões e empreendimentos que criticamos, perguntamos: em nome de quê é que se tem seguido este rumo? O que é que temos lucrado? Que desenvolvimento temos tido?

Não me parece que os nossos valores sejam a única verdade, que sejam a Verdade. Cada um tem a sua verdade. Que a exponha claramente e que a defenda empenhadamente também! Ou seja: discutamos! Discutamos francamente, sem insinuações, sem sub-entendidos, sem meias verdades nem meias palavras para supostos bons entendedores. Sobretudo, se (como nós) acha que a sua opinião é a melhor (mesmo que não coincida com a nossa), então afirme-a, defenda-a, assuma-a! Vivemos num país livre!

Aqui ficam links para os posts do primeiro aniversário; do segundo; do terceiro.

Novidades do Sameiro

Há anos referimos aqui uma notícia publicada a 25 de Janeiro de 2007 no jornal O Interior, com o título Uma pista de problemas, segundo a qual um jurista da câmara municipal de Manteigas defendia a rescisão do contrato de concessão da exploração do complexo da Quinta da Reboleira (estrutura que inclui a pista artificial de esqui do Sameiro), atribuída à Turistrela.

Poucos dias depois, demos conta aqui do que parecia ser a reacção da Turistrela (foi a única de que houve notícias, pelo menos): o anúncio da decisão da construção de trinta chalés no dito complexo, difundido pelo Diário XXI.

Passou mais algum tempo e chegámos a Março 2008 (sem que entretanto se tivessem verificado novidades quanto à concessão da Quinta da Reboleira, ou quanto à construção dos chalés), altura em que um artigo no Notícias da Covilhã, com o sugestivo título "Turistrela pode ficar sem o sky Parque", voltava a referir problemas entre a concessionária e a autarquia de Manteigas (infelizmente, não recordo a data da edição, mas transcrevi a notícia num post que escrevi a esse propósito).

Esta semana, li no Blogue dos Manteigas uma transcrição de uma notícia no jornal "A Guarda" de acordo com a qual a Câmara Municipal de Manteigas, em reunião do executivo municipal que teve lugar a 25 de Novembro, aprovou por unanimidade rescindir o contrato de concessão com o consórcio Turistrela / Certar.

Estas coisas levam o seu tempo, claro. E até é bom que o levem, para que as decisões possam amadurecer e assim se evitem males maiores. Neste caso, parece claro que a Câmara de Manteigas teve tempo para analisar profundamente a questão e as notícias que entretanto foram sendo publicadas mostram que o assunto não esteve esquecido todos estes anos. E chegou-se à conclusão de que não era do interesse da autarquia a continuação da concessão. E aprovou-se a sua rescisão.

Tudo lógico, tudo racional. Tudo aparentemente como deve ser. E, no entanto, porque será que considero este assunto notícia aqui para o Cântaro Zangado? Porque será que sinto que esta decisão deve ser festejada? Porque será que análises racionais do que é e do que deve ser o interesse público em questões que envolvem a Turistrela, e decisões que, fundadas nessas análises, contrariam o interesse da Turistrela defendendo o que se considera ser o interesse público, nos espantam? Talvez por serem tão mas tão raras?

Por ter assim mostrado que se acabou o tempo do respeitinho por certas vacas sagradas, muitos parabéns à Câmara Municipal de Manteigas! E obrigado!

domingo, dezembro 06, 2009

Novidades sobre uma lei escrita com os pés

Há poucos dias, a nova ministra do ambiente suspendeu a portaria n.º 1245/2009 que, neste post, considerei mal escrita. O diploma que decreta a suspensão é a portaria n.º 1397/2009.

A nova portaria refere no preâmbulo o seguinte:

[...] Decorrido um mês desde a publicação da Portaria n.º 1245/2009, de 13 de Outubro, verifica-se que a sua aplicação, em particular da tabela de taxas anexa, tem suscitado dúvidas e gerado equívocos não só quanto ao seu âmbito de aplicação, mas principalmente quanto à sujeição de determinados actos e actividades ao pagamento das referidas taxas.
[...] constata-se que a interpretação que tem vindo a ser realizada da mencionada portaria [1245/2009] não se revela conforme com o espírito que presidiu à sua elaboração.

Ou seja (e não sou eu que agora o afirmo, é o próprio ministério do ambiente), a portaria tem suscitado dúvidas, gerado equívocos e tem sido interpretada de forma não conforme com o espírito que presidiu à sua redacção. Ou seja, o que está na lei não é claro e não é bem aquilo que os seus autores queriam que lá estivesse. Ou seja ainda, dito curto e grosso, a lei foi escrita com os pés.

A portaria nº1245/2209 entrou em vigor no dia 14 de Outubro. A portaria que a suspendeu entrou em vigor a 5 de Dezembro. O ministério foi rápido a reconhecer o erro. Ainda bem que o reconheceram, e podemos tirar-lhes o chapéu por isso, é preciso grandeza para reconhecer um erro e mais ainda para o fazerem deste modo. Mas não deixa de ser uma vergonha que este erro tenha sido cometido. Andamos a brincar às portarias, ou quê?

Mas o que lá vai, lá vai. Resta-nos fazer votos de que, da próxima vez, escrevam algo razoável ou, em caso contrário, que notem antes da publicação que o que escreveram não era razoável. Que se poupem, e nos poupem a nós, a mais um embaraço.

Informação importante: O blogue Carris com a participação do Bordejar.com e Alma de montanhista estão a organizar uma marcha silenciosa de protesto contra a Portaria 1245/2009 que terá lugar em Braga no dia 12 de Dezembro de 2009. A concentração será feita junto do Arco da Porta Nova pelas 9h30. A marcha deverá ter início pelas 10h00 e irá percorrer a Rua D. Diogo de Sousa, a Rua do Souto, Largo Barão de S. Martinho e irá terminar na Avenida Central.
A este protesto, junta-se a FPME, que no sentido de estar presente e reforçar a "Marcha silenciosa" agendada em Braga, adia a marcha "As Montanhas também são nossas" (que estava agendada para o mesmo dia).
Desta forma a FPME, convida os seus associados a juntarem-se a este protesto, porque "AS MONTANHAS TAMBÉM SÃO NOSSAS"
(soube disto pelo rppd)

segunda-feira, novembro 23, 2009

Barragem das Penhas e Casa Alçada Baptista

Não por subscrever as opiniões contidas na carta que Luis Alçada Baptista dirigiu aos Covilhanenses mas sim por ser uma carta aberta e por dizer respeito a um assunto que já fez correr muita tinta aqui no blog, decidi que era relevante publicar o texto que aparece na imagem em baixo. O seu conteúdo é da inteira responsabilidade do seu autor:

Informação recolhida através do Blog Máfia da Cova

quinta-feira, novembro 12, 2009

Encontros matinais

Toutinegra-de-barrete-preto (Sylvia atricapilla), "apanhada" hoje de manhã na Covilhã.

domingo, novembro 01, 2009

Quercus rubra

Carvalho-americano (e, em primeiro plano, o topo de um pinheiro-bravo) fotografado na encosta sobre a Covilhã, hoje de manhã.

sábado, outubro 31, 2009

Rã verde, relva verde

Rã verde (Rana perezi), fotografada há dias na Covilhã.

Escrever (leis) com os pés

Ainda relativamente ao ponto 1 do Artigo 43º do DL 142/2008 que ontem referi, mais dúvidas podem ser levantadas:
  • Na alínea (v), devemos considerar que a prática de mergulho, alpinismo, escalada ou montanhismo é sempre contra-ordenação muito grave, ao passo que as actividades turísticas apenas o são quando forem susceptíveis de "deteriorarem os valores naturais da área"? Se sim, porquê esta especial condescendência para com actividades turísticas? E se a actividade turística consistir numa escalada?
  • Qual é ao certo a diferença entre montanhismo e alpinismo? Sempre que vi esta distinção relevada foi para precisar que, em rigor, alpinismo é o montanhismo que se pratica nos Alpes (coisa que, convenhamos, é difícil praticar fora dos Alpes). Admito que esta questão não me interessa um chavelho e por isso posso não estar a par dos últimos desenvolvimentos na taxonomia das actividades de montanha, mas suspeito que é mais provável que o legislador não fizesse a menor ideia do que estava a falar.
  • Já que somos tão picuinhas com o nome das coisas, noto nesta alínea (v) a ausência do pedestrianismo. Claro que, quando é praticado em montanha, faz sentido inclui-lo no montanhismo. Assim como a escalada. Mas o legislador decidiu especificar esta, mas não aquele. Ou seja, talvez o pedestrianismo não seja considerado contra-ordenação muito grave. Portanto, se por ventura alguma vez acontecesse a um montanhista ser apanhado "com a boca na botija" no meio da serra, poderia sempre afirmar que não estava a praticar alpinismo, montanhismo ou escalada, mas sim pedestrianismo. "E não posso fazê-lo com corda porquê? Não é assim que as normas recomendam que se faça nos glaciares? Pois eu estava a treinar!"

sexta-feira, outubro 30, 2009

Considerem-me gravemente contra-ordenado

Imagino que para aliviar a nossa consciência colectiva por não conseguirmos (porque, na verdade, não queremos) fazer funcionar as leis que temos, entretemo-nos a inventar as leis mais estritas, mais severas, mais loucas e, claro, mais difíceis de fazer funcionar.

Por exemplo, o Decreto Lei 142/2008 de 24 de Julho de 2008, que "estabelece o regime jurídico da conservação da natureza e da biodiversidade e revoga os Decretos-Leis n.os 264/79, de 1 de Agosto, e 19/93, de 23 de Janeiro", no seu Capítulo VII, classifica como contra-ordenação ambiental muito grave (a) as alterações à morfologia do solo (por exemplo, por escavações, aterros, aberturas de poços, furos, etc); (b) a modificação do coberto vegetal; (c) a instalação ou ampliação de depósitos de sucatas; (d) o abandono ou depósito de entulhos; (e) a alteração da configuração das zonas lagunares e marinhas; (f) a abertura de novas vias de comunicação (g) a instalação de infraestruturas de produção, distribuição e transporte de energia eléctrica; (h) O depósito ou lançamento de águas residuais sem tratamento; (i) o corte, extracção, pesquisa ou exploração de recursos geológicos; (j) a captação, ou condução de águas, bem como a drenagem, impermeabilização ou inundação de terrenos; (l) a destruição de muros e contruções que integrem o valor natural classificado; (m) a remoção ou danificação de substratos marinhos; (n) a obstrução de passagens nos caminhos públicos e de acesso às linhas ou planos de água; (o) a realização de mercados ou feiras na área protegida; (p) o exercício de caça ou pesca, (q) a delapidação de bens culturais inventariados; (r) a realização de quimadas; (s) a colheita ou captura de indivíduos de espécies animais ou vegetais sujeitas a medidas de protecção; (t,u) a introdução de espécies não indígenas; (v) a prática de actividades desportivas não motorizadas, designadamente mergulho, alpinismo, escalada ou montanhismo, e de actividades turísticas susceptíveis de deteriorarem os valores naturais da área; (x) A prática de actividades desportivas motorizadas causadoras de poluição sonora ou aquática ou que ponham em risco objectivo os valores naturais presentes na área protegida, nomeadamente as competições de motonáutica que utilizem embarcações a motor desprovidas de dispositivos antipoluição, as competições de motociclismo que utilizem motociclos e ciclomotores especialmente concebidos para a utilização em todo-o-terreno e as modalidades de desporto automóvel que se destinem a veículos todo-o-terreno.

  • Serei o único a achar a alínea (v) altamente deslocada neste elenco?
  • Percebi mal, ou é mesmo contra-ordenação ambiental muito grave o mergulho, seja em que condições for, ao passo que a utilização de embarcações motorizadas sem dispositivos anti-poluição só o é se integrada em provas de motonáutica?
  • Identicamente, percebi mal, ou a utilização de motociclos e demais veículos motorizados todo-o-terreno em áreas protegidas só é contra-ordenação muito grave no decurso de provas desportivas?

O número 4 deste mesmo capítulo do Decreto Lei em questão indica que são contra-ordenações ambientais leves coisas como o campismo/caravanismo, o abandono de lixos, instalação de estruturas ligeiras e a colheita de fósseis e amostras geológicas. Tudo coisas infinitamente menos impactantes do que a prática de mergulho, alpinismo, escalada ou montanhismo, obviamente.

Francamente, acho que só há um comentário a fazer: se a paz está fora da lei, só os fora da lei podem ter paz. Considerem-me muito gravemente contra-ordenado.

quinta-feira, outubro 29, 2009

Verdilhão

Verdilhão (Carduelis chloris), fotografado há já alguns meses, na Covilhã.

quarta-feira, outubro 28, 2009

Já nada me espanta!

O encontro de escalada Entalados II que contribuí para divulgar aqui, afinal não se deu. E não se deu porque, à última hora, não foi autorizado pelo ICNB/PNSE. Porque o Cântaro Magro parece que é uma zona de protecção especial, "apenas são permitidas actividades de investigação científica, visitação e pastorícia, quando compatíveis com os objectivos definidos" de conservação dos valores naturais. Vá ao Rocha Podre e Pedra Dura (os posts relevantes são este e este) para se inteirar de mais detalhes.

A poucos metros de distância passa uma estrada que nalguns dias tem um tráfego intenso; despejam-se toneladas de sal no pavimento para derreter a neve, que escorrem para as bermas e delas para os ribeiros; toneladas de plásticos e lixo deixado na zona da Torre todos os Invernos, entopem as linhas de água que ladeiam o Cântaro Magro. Mas não se pode lá escalar.

Uma empresa concessionária exclusiva do turismo e dos desportos, gestora da única estância de esqui do país, pode andar com tractores sobre o mato, a algumas centenas de metros do Cântaro Magro, a fim de transportar neve para pistas já dela desprovidas, que o PNSE não nota e, quando se lhes chama a atenção para o facto, levanta autos a "terceiros desconhecidos". Mas escalar no Cântaro Magro não se pode.

Uma vez por ano (pelo menos) a protecção civil organiza um circo mediático no Cântaro Magro onde se mostram às televisões as habilidades do grupo da GNR que trabalha na serra (que gosta de ser conhecido como Mountain Support Team), com tirolesas, rapeis, simulações de resgate, dezenas de jipes com luzes de emergência azuis e isso tudo), mas escalar no Cântaro Magro não se pode.

Dão parecer favorável a estradas, estradinhas e estradonas por todo o lado, ao alargamento de outras que já existam e ao de parques de estacionamento. Autorizam o enfeitar de cumeadas a eito com parques eólicos. Trabalham activamente com associações de caça e autarquias para definir no interior (e bem no interior!) do Parque Natural áreas de caça. Gastam os poucos recursos que têm a arranjar condições para o funcionamento do indigno comércio de fancaria "em condições mínimas de dignidade", e lançam concursos de ideias para aproveitar ruínas que melhor seria que viessem abaixo. Não notam nada de grave num acampamento militar no Covão d'Ametade que se realiza uma ou duas vezes por ano, em que os "nossos bravos homens" levam para o o interior do recinto as suas viaturas pesadas e demais maquinaria indispensável, como aparelhos de ar condicionado para o aquecimento das tendas. Mas não autorizam a escalada no Cântaro Magro.

Estamos bem! Temos o Parque Natural da Serra da Estrela bem protegido contra as verdadeiramente graves agressões ambientais!

Já receava estes absurdos em Junho de 2007.
Somos mesmo originais! No Parque Natural da Serra da Estrela são possíveis milhares de coisas que são proibidas em quase todas as áreas protegidas de montanha do resto da Europa; mas não se podem praticar actividades que são em geral permitidas nessas outras áreas de protegidas! Estamos mesmo bem, não estamos?

terça-feira, outubro 27, 2009

segunda-feira, outubro 26, 2009

De novo as Penhas da Saúde

Alguns dias após a publicação deste post sobre as casas de génese alegadamente ilegal das Penhas da Saúde, recebi um telefonema de um amigo proprietário de uma dessas casas. Tivemos uma discussão muito cordial sobre o assunto.

É preciso ter presente, quando falamos deste assunto, que as ditas casas não se resumem às do Bairro Penhas Sol, atrás da Pousada da Juventude; há outro bairro semelhante, um pouco mais pequeno, cerca de 500 m mais a norte, e há ainda várias casas dispersas a oeste da ribeira da Nave da Areia. Duvido que todas estas casas tenham aparecido na mesma altura e nas mesmas condições e por isso parece-me que talvez não faça sentido tratar todos os casos da mesma maneira.

Quão ilegais são estas casas? Não sei. Mas parece-me claro que estas casas foram edificadas sem respeito por planos de urbanismo (de resto, duvido que os houvesse, nos anos setenta), sem projecto de arquitectura e de engenharia aprovados pela câmara, enfim, sem muitas das mil e uma pequenas e grandes "chatices" por que tem que passar quem quer construir, legalmente, no nosso país. Em tempos mais antigos, imagino que todos esses trâmites eram mais ou menos dispensáveis, sobretudo se o promotor da obra era comparte dos baldios em questão. Mas, nos anos setenta, nas Penhas da Saúde, já não era bem, bem esse o paradigma, mesmo considerando a desordem associada ao período revolucionário que se viveu nessa altura...

Ou seja, creio que há de facto alguma ilegalidade relativamente à génese das casas alegadamente ilegais das Penhas da Saúde (mas ela poderá entretanto ter sido "apagada" por decisão da Câmara). Creio que não pode ser permitida, de modo algum, a continuação daquele modo aparentemente informal (são tão simpáticos estes eufemismos) de apropriação do espaço público.

Dito isto, não sou da opinião que estas casas são o problema mais grave das Penhas da Saúde, nem pouco mais ou menos. É que estas casas são reconhecidamente vistas como um problema do aldeamento, mas ninguém parece ver inconvenientes nos vários mamarrachos cujos projectos foram devidamente autorizados pela câmara municipal (não me refiro especificamente às lideradas pelo actual presidente, que isto já vem de longe), como vilas com três andares, caixotes pseudo-modernos com cores, volumes e materiais aberrantes ou comércios pseudo-sofisticados que são autênticas feiras indoor, com bancadas de sapatilhas e demais brick-a-brack amontoado a eito, sem gosto nem brio.
E também ninguém parece ver inconvenientes noutras casas, mas estas legalidade muito discutível e que não sei se ultrapassaram já todas as questões legais que motivaram. Refiro-me ao bairro dos chalés nórdicos da Turistrela, amontoados num arruamento estranhamente ziguezagueante, no declive que ladeia o Hotel Turismo. Afirmo que a sua legalidade é discutível porque o plano de pormenor desse bairro foi aprovado vários anos depois dos bungalows estarem construídos e de se ter iniciado a sua exploração, como comentei neste post.
E parece também estar tudo bem com um plano da Câmara Municipal e da Turistrela que prevê a construção de mais quatrocentas novas casas nas Penhas da Saúde, centro comercial, casino e mais algumas modernices urbanóides, e para o qual se fez aprovar um perímetro urbano que torna as dimensões das Penhas semelhantes às do Teixoso (senão maiores).

Enquanto for esta a atitude geral face aos mamarrachos que se continuam a planear e (legalmente ou não tão legalmente) a construir nas Penhas da Saúde, gritar aqui del-Rey por causa dos bairros das casas de zinco e defender que sejam demolidos não me parece muito sério. Além disso, e pela amostra do que já foi feito, tenho muito mais medo do que sairá do projecto de requalificação das Penhas que a Câmara Municipal recorrentemente anuncia do que das ditas casas de zinco.

domingo, outubro 18, 2009

Lagartixa-ibérica?

Creio que é uma lagartixa-ibérica (Podarcis hispanica), mas não tenho a certeza. Fotografei-a em Agosto, nos Picos da Europa.

sexta-feira, outubro 09, 2009

"A bit of an anticlimax really"

Defini um alerta google para a expressão "serra da Estrela", que me avisa regularmente de páginas de internet onde consta aquela expressão. (Por qualquer razão, não aparecem as páginas que eu próprio escrevo aqui no blog, ou as de outros blogs que regularmente referem a serra, de forma que me parece que acaba por não ter grande utilidade, mas enfim.)

Ontem à hora de jantar, recebi um aviso relativo a um blog onde dois estrangeiros publicaram um artigo sobre um passeio de carro à serra da Estrela. Eis o que dizem sobre a Torre:

"Then we drove up through the Serra da Estrela, making a visit to the Torre, with its redundant observatories. The Torre was a bit of an anticlimax really, as there were no views to be had, and a few shops selling tat for tourists."

"No views to be had", "a few shops selling tat for tourists", e o resto que não viram ou não quiseram referir: os engarrafamentos quando há neve, o lixo espalhado, a musiquinha enlatada com que se acredita que se dá um aspecto jovem e dinâmico. Enfim, como cuidadosamente diz o presidente do ICNB, a "situação menos positiva de alguns edifícios e logradouros". Yes, a bit of an anticlimax, indeed.

Agora imagine-se que na Torre não havia *nenhumas* construções, e que estes visitantes tinham deixado o carro na estrada nacional e subido a pé os oitocentos metros até à Torre. Anticlimax? Duvido muito de que fosse nesse sentido a sua avaliação.

quinta-feira, outubro 08, 2009

Turistrela — quarenta anos a algarvear a serra da Estrela

O Relatório de Ponderação da discussão pública do Plano de Ordenamento do PNSE está online e disponível no site do ICNB. Imaginando que a link pode não ser permanente, guardei-o no docs.google, pode assim sempre ser consultado, clicando aqui.

Uma parte interessante deste documento diz respeito à contribuição dada pela concessionária do turismo e dos desportos na serra da Estrela, a Turistrela. A referência a esta contribuição aparece na página 51, e por ela ficamos a saber que a Turistrela, relativamente à estalagem da Varanda dos Carqueijais e à pousada a instalar (um dia...) no edifício do Sanatório dos Ferroviários, apela a um

"aumento da área circundante de cada uma destas unidades, ficando unidas numa só mancha, que assim seria uma única Área Prioritária de Valorização Ambiental."

Ou seja, a Turistrela pretende urbanizar e construir em toda a área compreendida entre entre a Varanda dos Carqueijais e o Sanatório.

Felizmente, o Plano de Ordenamento da Serra da Estrela não contemplou este apelo da Turistrela. Mas, para além de questões de natureza ambiental que eventualmente tenham sido consideradas, podemos levantar questões de outra natureza: são projectos destes que esperamos da parte de uma empresa de turismo de montanha? É de projectos como este que precisamos para o desenvolvimento do turismo na nossa região? O Pólo Turístico da Serra da Estrela concorda com o projecto?

Projectos de casas, casinhas, casarões, urbanizações, aldeamentos, minicidades, estâncias, casinos, centros comerciais, centros de estágio desportivo, hotéis, restaurantes, spas, piscinas, telecabines, observatórios panorâmicos, pavilhões de gelo, pistas de ski artificiais, tudo isso e muito mais, quilómetro sim, quilómetro não, pela serra a dentro. Dado o seu longo historial de quase quarenta anos, que outra coisa podemos razoavelmente esperar da Turistrela?

Acerca dos planos da Turistrela para esta zona em particular escrevi em tempos este post.

quarta-feira, outubro 07, 2009

Para desentalar o entalado que há em ti...

... (Ou era ao contrário?), o pessoal do rppd propõe o "Encontro dos entalados II", em breve num cântaro perto de si!

sexta-feira, outubro 02, 2009

Ainda o concurso de ideias para a Torre

Depois de ter escrito o post sobre o concurso de ideias para a zona da Torre, saíram mais algumas notícias a esse respeito, a propósito de umas declarações proferidas pelo presidente do Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade (ICNB), Tito Rosa. Uma dessas notícias foi publicada pelo diário Público a 14 de Setembro e pode ser lida aqui.

Não acho má esta ideia de um concurso de ideias. Concordo que deve haver um processo de análise de propostas, que devem avaliadas por um conjunto alargado de entidades, e que a decisão deve ser transparente. Isto significa que devem ser previamente definidos (e publicitados) objectivos, linhas orientadoras, critérios de decisão, limites orçamentais e que junto com a decisão deve ser publicitada a sua justificação, feita à luz dos ditos objectivos, linhas orientadoras, critérios e limites orçamentais.

Mesmo concordando com esta ideia, tenho algumas reticências:

  • estranho as declarações do presidente do ICNB. Aquilo que ele diz, as razões que invoca para o dito concurso, reflectem uma preocupação com o ambiente na serra da Estrela e, em particular, na zona da Torre? Não será mais uma preocupação de índole turística? É que podemos ler coisas como "acolhimento de qualidade", alusões ao "estado de degradação de algumas estruturas" e diz-se que poderão ser criadas "algumas infraestruturas" (ufa, ainda mais?!). Mas, sobre ambiente, mesmo, apenas generalidades, e muito, muito poucas.
    Esta atenção que o ICNB/PNSE aparentemente dedica a questões menos estritamente ambientais vem, parece-me de longe. Foi o PNSE (ou seja, indirectamente, o ICNB) que pagou as obras que permitiram acolher a venda ambulante que se fazia na Torre no interior de alguns edifícios da antiga base militar, assim criando os centros comerciais que agora existem, foi o PNSE/ICNB que se sentiu obrigado a pagar uma ETAR para tratamento dos esgotos desses edifícios (não sei se esse tratamento já é eficaz, da última vez que soube desse assunto, continuava a correr m**** ao ar livre).
    Francamente, achava mais razoável que o Instituto de Conservação da Natureza concentrasse os recursos que dedica à serra da Estrela mais a conservar a natureza (se considerasse necessário, proibindo até algumas actividades) e menos a promover acolhimento de qualidade, comércio de qualidade, estacionamento em quantidade e mais outras coisas que, a meu ver, não lhe dizem respeito e até lhe complicam a vida.
  • esta declaração de intenção do lançamento de um concurso de ideias vem um ano depois da inauguração do Centro de Interpretação da Torre e de obras numa capela que integrava a base da força aérea. Não tinha sido mais lógico fazer o concurso de ideias antes de serem autorizadas aquelas iniciativas?
  • Diz o presidente do ICNB que "os edifícios actuais serão mantidos e requalificados e poderão ser criadas algumas infra-estrututuras". Das duas uma: ou se encontram utilizações rentáveis o suficiente para que seja vantajosa a ocupação de todos os edifícios, ou alguns deles acabarão por, mais tarde ou mais cedo, ficar ao abandono. Mas edifícios abandonados deterioram-se, degradam-se. Estamos dispostos a um novo concurso de ideias daqui a uns anos, pelas mesmas razões que agora se invocam? Estamos dispostos a um dispêndio periódico (e aposto que será sempre o PNSE a pagar, de acordo com a nossa estranha tradição) para manter edifícios que não são utilizados? Não será melhor, antes, demolir os edifícios que não se considerarem aproveitáveis?
    É a minha vez de utilizar uma palavra com que alguns leitores caracterizam o Cântaro Zangado: porquê este fundamentalismo conservacionista dos edifícios da Torre?

Continuo a achar que a melhor proposta seria a de demolir todos os edifícios da zona da Torre, transformar o acesso asfaltado até à estrada nacional num trilho (poderia até ser pavimentado, para permitir o acesso de pessoas em cadeiras de rodas, por exemplo) e colocar, no actual cruzamento com a estrada nacional, uma placa orientadora com os dizeres "Torre - 800m - 10 min". Isto sim, seria uma verdadeira requalificação, isto sim, seria um verdadeiro passo no desenvolvimento de um turismo de qualidade, isto sim, seria um verdadeiro sinal de real vontade de protecção da natureza.

Se não houvesse edifícios na Torre, não teríamos a "situação menos positiva de alguns edifícios e logradouros" a que se refere Tito Rosa. Se não houvesse edifícios na Torre, não teríamos que inventar o que fazer com eles, não teríamos encargos com a sua conservação, não teríamos lá esgotos polémicos, mas, sobretudo, não teríamos a degradante pouca vergonha que leva *todos* os apreciadores da serra da Estrela que eu conheço a dizer que evitam sempre que podem aquela zona. Que garantia é que estas declarações do presidente do ICNB dão que esta lamentável situação venha a melhorar com o que resultar deste concurso? Nenhuma.

sexta-feira, setembro 25, 2009

A propósito das Penhas da Saúde...

... E dos bairros de génese alegadamente ilegal que nelas existem, veio ontem a lume esta reportagem do programa Portugal em Directo, da RTP1:

Ao certo, ao certo, (1) será mesmo ilegal a génese das casas? (2) em que condições é que a posse dos lotes terá, de acordo com as palavras do senhor presidente da Câmara, passado para os actuais ocupantes? (3) a Câmara Municipal pode beneficiar e infraestruturar bairros de legalidade algo duvidosa? (4) será mesmo verdade que a Câmara Municipal da Covilhã se prepara para isentar de taxas os ocupantes destas casas? (5) As condições que a Câmara oferece aos ocupantes destas moradias de férias são as exactamente mesmas que oferece a todo e qualquer proprietário de moradias (de primeira habitação ou não) do concelho?

Estas perguntas não são retóricas. Não lhes conheço a resposta. Alguém conhecerá?

Roubei a ligação vídeo do blog Cortes do Meio.

quinta-feira, setembro 24, 2009

Em quem gostava de votar nas autárquicas

Cada um sabe de si e todas as escolhas são legítimas, como é óbvio. Mas como com tudo, é também legítimo cada um apresentar e justificar as suas opções. Assim como o é igualmente defender as suas opções, em confronto com as dos outros. Chama-se a isso discutir. O resultado da discussão nem sempre é o consenso, nem tem que o ser. A discussão já vale a pena quando fica claro o que é que distingue as várias opções em confronto. Por tudo isso, não me sinto minimamente constrangido em dizer aqui quais as opções que eu gostaria de ver defendidas publicamente por listas candidatas às autárquicas. Seria nessas que eu gostaria de votar. No que diz respeito à serra (que é o que concerne a'O Cântaro Zangado), cá vai.

Não me inclino especialmente a votar num candidato afirme que vai defender o ambiente e a paisagem da serra da Estrela, promover um desenvolvimento sustentável do turismo e diversificar as suas valências. Ao fim e ao vabo, há algum que não faça estas pias declarações? Gostaria sim de votar num que colocasse reticências à asfaltação de mais caminhos florestais, que se opusesse ao aproveitamento turístico e comercial dos edifícios na Torre, que fizesse ouvir a sua voz na promoção de medidas que limitem o tráfego automóvel pelo maciço central, que se afirmasse contra a aberração anacrónica que é a concessão exclusiva do turismo e dos desportos atribuída há quarenta anos à Turistrela.

Não me inclino a votar num candidato que afirme que vai promover uma grande requalificação urbana das Penhas da Saúde (que dessas afirmações, e do que resultou dessas afirmações, já tivemos a nossa conta, obrigado), mas sim num que defenda a redução do seu perímetro urbano à área já hoje efectivamente afectada (e que, em resultado do habitual e normal desordenamento, é muito maior do que o número de construções existentes justificaria). O mesmo posso dizer das Penhas Douradas (embora a situação actual, aí, não tenha a gravidade do que se verifica nas Penhas da Saúde, nem pouco mais ou menos).

Gostaria de poder votar em candidatos que compreendessem (e vertessem essa compreensão nos seus programas políticos e nos seus discursos) o potencial turístico das aldeias e vilas nas faldas da serra; pelo contrário, não penso votar em candidatos que apenas prometam para essas aldeias e vilas teleféricos ou novas estradas de asfalto a caminho da Torre, como se a Torre fosse o único local interessante da serra, como se a Torre fosse mais interessante que as vizinhanças dessas aldeias e vilas.

Não votarei em candidatos que desprezem os meus ambientais interesses e preocupações com frases como "antes das florinhas estão as pessoas", como se fosse esse o cerne dos problemas.

Por fim, uma medida concreta: gostaria muito de poder votar em candidatos que prometessem a criação, nos seus concelhos, de estruturas semelhantes ao Centro de Interpretação da Serra da Estrela, da Câmara Municipal de Seia.

Com tudo isto, deve ser claro em quem não pretendo votar. Em quem votarei, ainda não sei. A ver vamos.

segunda-feira, setembro 14, 2009

Árvores de Portugal

A página web da associação Árvores de Portugal já está disponível, aqui. Os responsáveis pela página e os dinamizadores da associação encorajam a participação de todos!

Cem mil

Durante o fim de semana, o nosso contador de visitas chegou aos 100.000. Agora mesmo, indicava 100.140. Destes visitantes, alguns concordam connosco, outros não concordam e muitos (porventura a maioria) são indiferentes ou não chegam sequer a perceber do que trata o blog, por virem cá ter por acaso, via google, enquanto pesquisam por qualquer coisa que não tem nada que ver com o que nos interessa aqui.

Seja como for, são cem mil visitantes!

Aproveito que estou a falar do blog para comentar a redução na frequência de posts. Tal deve-se ao facto de nós (eu e o Tiago) termos mais coisas que fazer, e coisas que nos entusiasmam mais do que o blog, e mais agora do que no passado. O equilíbrio dos nossos entusiasmos vai oscilando, e pode acontecer que voltemos a navegar com mais velocidade no futuro. Ou então que o blog pare indeterminadamente, pura e simplesmente. A ver o que dá!

quinta-feira, setembro 10, 2009

Picos da Europa — 6: Requalificações

Perto de Arenas, já no interior do Parque Nacional, um pequeno povoado chamado Bulnes subsiste ainda sem acessos rodoviários (nem asfaltados nem por asfaltar). Até ao ano 2000 apenas um trilho estreito que se sobe (a pé) em cerca de hora e meia permitia chegar à aldeia, partindo de Poncebos. Nesse ano foi inaugurado um funicular subterrâneo com dois quilómetros de comprimento (cerca de 650 m de desnível), que permite aos habitantes do povoado receber mantimentos e escoar os seus produtos (agora poucos, que a aldeia vive mais do turismo). O funicular é gratuito para os habitantes, mas custa 15€ (18€ ida e volta) aos turistas que o querem utilizar (e são muitos). Apesar de receber muitos visitantes e de apostar em força no turismo, a aldeia procura manter o carácter pitoresco de pequeno povoado de montanha, coisa que é muito facilitada pela completa ausência de automóveis. Tudo o que tende a esbater a percepção desse carácter é eliminado ou, se tal for impossível, escondido. Por exemplo, note-se o sistema de iluminação pública (ver a fotografia acima) que ilumina o caminho entre o terminal do funicular e a aldeia.

Apesar da rusticidade dos "postes de iluminação" do acesso ao funicular e do aspecto geral do povoamento, não se pense que não houve uma efectiva requalificação e uma efectiva melhoria (face aos critérios normalmente utilizados nestas avaliações) das condições de vida das suas poucas dezenas de habitantes. A aldeia tem saneamento básico, electricidade, frigoríficos, televisões, restaurantes, cafés e casas de turismo rural e de habitação, ligações telefónicas e de internet, acessos muito mais rápidos a escolas e centros de saúde. Reconstroem-se (mantendo os traços originais) as casas que foram ficando em ruínas. E a aldeia é visitada por milhares de turistas.

Na serra da Estrela temos preferido (e continuamos a preferir) centros comerciais, alcatrão, muito alcatrão, minicidades, apartamentos, comércio rasca, casino, neon, muito neon, aproveitamentos das "torres das bolas" e musiquinha em alto volume. E o lixo que vem com tudo isso. Na minha opinião, temos confundido requalificações com exibições de novo-riquismo. Mas, reconheçamo-lo, é também por estas e por outras como estas que nós temos o "turismo" que temos e os outros têm o turismo que têm.

domingo, setembro 06, 2009

Picos da Europa — 5: Turismo de montanha

Arenas de Cabrales, a localidade onde fiquei alojado nos Picos da Europa, é uma pequena aldeia. Pareceu-me bem menor que Verdelhos, que a Bouça, muito menor que Linhares ou Folgosinho. No entanto, tem vários restaurantes, pensões, hotéis e o parque de campismo onde "estacionei". As aldeias das proximidades, ao longo da estrada Panes - Cangas de Onís, dispunham de igual variedade de estabelecimentos de hotelaria.

Os turistas ficam alojados nos povoamentos na orla do Parque Nacional dos Picos da Europa, e visitam o parque a pé (acedendo ao interior principalmente em transporte público, dados os condicionamentos ao tráfego que já referi), em bicicleta ou em carrinhas 4x4 concessionadas.

A principal atracção em Arenas (e uma das principais nos Picos da Europa) é a Ruta del Cares, um trilho pedestre com 12 km de extensão, entre os povoamentos de Poncebos e Caín (estes são realmente pequenos, não chegam a ser aldeias), a que já me referi várias vezes nesta série de posts. Deixem-me repetir: o principal chamariz turístico da zona de Arenas de Cabrales é um trilho pedestre com 12 km de comprimento.

Se fosse possível aceder às fantásticas paisagens da Ruta del Cares de automóvel, com certeza que a Ruta teria muitos mais visitantes. Mas teria também mais engarrafamentos, mais lixo, mais poluição, mais problemas e muito menos turistas ficariam hospedados em Arenas de Cabrales. Doze quilómetros a pé justificam uma paragem de um dia (ou melhor: quase que obrigam a uma paragem de um dia). Doze quilómetros de carro não justificam nada, não obrigam a nada.

Os Picos não são como a Estrela, nem pouco mais ou menos, já o disse. E, no entanto... Para dar um exemplo, um trilho pedestre entre Unhais da Serra e Manteigas teria um comprimento de cerca de dezassete quilómetros, ainda bem ao alcance de quase todos. As paisagens que de um tal trilho se poderiam admirar são soberbas e acredito que talvez assim conseguíssemos atrair muitos visitantes à serra. Mas nunca o saberemos. Nunca saberemos o impulso que um tal trilho poderia dar ao turismo em Manteigas e Unhais da Serra, porque o vale de Manteigas já tem (e no de Unhais será concluída mais tarde ou mais cedo) uma estrada de asfalto até à Nave de Santo António, a 1400 m de altitude e a caminho da Torre, *obviamente* imprescindível ao turismo, cujo único inconveniente, no parecer de quase todos, é ser demasiado sinuosa, demasiado estreita, demasiado... De montanha.

sábado, setembro 05, 2009

Picos da Europa — 4: modelo de gestão do turismo

Nos Picos da Europa, obviamente, não existe uma concessão exclusiva do turismo e dos desportos, atribuída à mesma empresa há quarenta anos e por mais trinta anos para o futuro, como a que, aqui na Estrela, foi atribuída à Turistrela.

Haverá algum lugar no mundo onde um tal modelo de gestão tenha dado bons resultados? Duvido que em mais algum lugar do mundo tal esquisitice tenha sido tentada mas, seja como for, passados quarenta anos já podemos fazer uma avaliação: aqui na serra da Estrela, tem dado bons resultados?

Contraste: as concessões de praia são renovadas anualmente.

segunda-feira, agosto 31, 2009

Um pinheirinho está a nascer...

... Entre o asfalto e o passeio de uma rua de algo a que chamam "aldeia de montanha" e que há já alguns anos dizem que "está a nascer aqui"...

Por todas as razões, oxalá que seja o pinheirinho, e não a dita coisa, a nascer aqui.

domingo, agosto 23, 2009

Proposta

Há dias comentei uma afirmação de Jorge Patrão (presidente do Turismo da Serra da Estrela), proferida a propósito de uma notícia segundo a qual o Governo terá lançado, ou prepara-se para lançar, um concurso de ideias para a requalificação da zona da Torre.

Não voltei a ouvir referência a esse concurso nem sei a quem apresentar as propostas, mas gostava de dar a minha contribuição.

A construção da base militar na Torre foi apenas um pretexto para a criação, neste local, de uma estância de luxo para alguns fins de semana de algumas altas patentes da força aérea do antigo regime, tudo isto, obviamente, a expensas dos nossos impostos. Porque o preço a pagar por este luxo faraónico cedo se revelou alto demais, a utilização "militar" da dita base foi muito efémera (não mais do que uns dez a quinze anos). Num país bem governado, aquela base nunca teria sido construída. Foi um erro, e um erro muito caro, que temos continuado a pagar, agora pelo desordenamento e degradação que indirectamente resultou desse erro.

Face a isto parece-me que o melhor que podemos fazer pela zona da Torre é demolir os edifícios da base, remover o entulho resultante e a estrada que lhe dá acesso a partir do cruzamento na EN 339. Não se trata de fechar a estrada nacional, nem de encerrar o acesso asfaltado à estância de esqui, apenas de renaturalizar o ponto mais alto de Portugal continental, deixando no local, apenas, o malhão da torre.

A zona da Torre é das mais desinteressantes da serra. Não se vêm de lá grandes paisagens, não há árvores, não é um local aprazível. O seu único interesse é simbólico, resulta de ser um ponto culminante, algo a atingir com esforço, algo que deve representar um enriquecimento para aqueles que lá chegam. Como está, ou com "requalificações" do tipo das que costumam ser anunciadas (incluindo restaurantes, hotéis e observatórios panorâmicos), elimina-se este valor simbólico da zona da Torre, ou seja elimina-se todo o valor daquela zona. Só com a proposta que aqui deixei se pode recuperar esse valor. Só ela corresponde, assim, a uma verdadeira revalorização.

sexta-feira, agosto 21, 2009

Uma velha conhecida

Que ontem de manhã me veio cumprimentar, durante um passeio na encosta sobre a Covilhã.
Águia-calçada (Hieraaetus pennatus).

quinta-feira, agosto 20, 2009

Picos da Europa — 3: Acessibilidades

Zona do Parque Nacional dos Picos de Europa. Clique no mapa para aceder ao maps.google, onde poderá analisar a figura em maior detalhe.

Creio que as zonas mais visitadas no interior do Parque Nacional dos Picos da Europa são a dos Lagos de Covadonga e a Ruta del Cares, entre Poncebos e Caín (assinalei no mapa Poncebos e a zona dos lagos).

Todos os dias, desde o final da Primavera até ao início do Outono, ocorre uma grande afluência de pessoas às duas zonas. Os engarrafamentos de tráfego, o estacionamento selvagem e todos os problemas deles decorrentes seriam inevitáveis, se, como são cá, de facto o fossem.

Como é que nos Picos da Europa fazem para evitar os engarrafamentos e tudo isso? Da única maneira possível: proíbem o acesso de viaturas privadas às zonas de maior afluência antes de ser atingida a sua capacidade máxima.

Quando, perto das dez da manhã, me dirigia a Poncebos no meu carro, a fim de fazer a Ruta del Cares, um funcionário do município mandou-me parar a cerca de dois quilómetros de distância do meu destino (como tinha mandado parar todos os que me antecediam) e perguntou-me onde me dirigia. Face à minha resposta, informou-me que não teria lugar para estacionar em Poncebos, pelo que não podia autorizar-me a prosseguir. Aconselhou-me antes a estacionar num grande parque ali instalado e a fazer o caminho até Poncebos a pé ou a aguardar pelo autocarro. Informou-me também que é muito mais prático deixar o carro em Arenas de Cabrales e subir desde o início no transporte público.

O mesmo acontece em Cangas de Onís (no canto superior esquerdo do mapa que ilustra este post) para o acesso aos Lagos de Covadonga. Podem subir viaturas particulares até às oito da manhã ou a partir das oito da tarde. Durante o dia, só o acesso por transporte público (autocarro) é autorizado. Três grandes parques na zona de Cangas de Onís são servidos pelo dito transporte público e nas estradas principais em redor desta localidade, placards electrónicos fornecem informação sobre a sua taxa de ocupação.

Nem túneis, nem itinerários principais alternativos, nem telecabines, nem aumento do número de acessos asfaltados, nem alargamento dos que já existem, nem grandes parques de estacionamento nas zonas a visitar. Apenas ordenamento.

Merece ser referido que todos os parques de estacionamento que mencionei se encontram no exterior do Parque Nacional.

quarta-feira, agosto 19, 2009

Picos da Europa — 2: que turistas queremos?

Aspecto da Ruta del Cares, vista desde o ponto mais alto, perto de Puente Poncebos. Note-se a quantidade de pessoas que nela caminham (algumas das quais, no entanto, pertencem ao meu grupo).

Nos dias que tive nos Picos percorri a Ruta del Cares a pé (28 km), desci em canoa o rio Cares entre as localidades de Panes e Unquera (12 km) , fiz a senda del Oso (perto de Oviedo) em bicicleta (44 km), dei um pequeno passeio a cavalo, joguei paintball com os miúdos, e desci a pé o canal del Texu (4~5 km).

Em todas estas actividades, cruzei-me com pessoas (montes de pessoas) de todos os tipos. Com montanheiros de pele curtida pelo sol e pelas intempéries, com escaladores atléticos, com casais mais para o velhote, com famílias com as suas crianças, com gente rica e menos rica, com espanhóis, portugueses e de outros lados. Havia neo-hippies e neo-punks, gente "normal" e malucos das tatuagens, betinhos e motards, rurais e hiper-urbanos, tudo. No parque de campismo (cuja "população" sofria uma considerável renovação todos os dias) encontrávamos fulanos que enrolavam cordas e discutiam, com gestos abertos e o calão do "metier", os passos chave das vias que tinham feito, crianças que jogavam com cubos de madeira, casais com cães e sem cães, campistas com computador, televisão e fogão de barbecue e campistas com tendas e material mínimos, próprios para bivaques de emergência em paredes expostas na montanha. Havia de tudo, portanto.

Por exemplo, o casal galego a que me referi no post anterior parecia saído de uma sessão de fotos para uma revista de moda e socialite. Ele de pólo, calça de sarja e mocassins, ela, elegante, com um vaporoso vestido castanho, com os longos cabelos loiros lavados e penteados, os dois abundantemente perfumados, jovens, ricos e belos. Tinham feito a Ruta del Cares a pé, vieram ao hotel lavar-se e estavam nas compras, antes do jantar.

Onde quero chegar é a que o pedestrianismo, o montanhismo, o contacto com a natureza, não são coisas só para freaks, para malucos das montanhas mais ou menos suicidas ou para "eco-fundamentalistas". São para todos. Por isso mesmo, se queremos desenvolver o turismo na serra, talvez seja bom começarmos a pensar em todos, e não apenas naqueles que mais não querem que passar algumas horas à beirinha dos seus carros, a escorregar na neve, nesses que chegam de manhã e partem à tarde, nesses para quem, nalguns (poucos) dias do ano, nem todas as estradas do mundo chegam.
E tomemos consciência de que é apenas nesses que pensamos quando planeamos (ainda) mais estradas asfaltadas para as zonas altas da serra.

terça-feira, agosto 18, 2009

Picos da Europa — 1: a relação com o território

Cheguei aos Picos da Europa no Domingo dia 9. Acampei no parque de campismo "Naranjo de Bulnes", na aldeia de Arenas de Cabrales. Este parque de campismo é gerido pelos netos de Alfonso Martinez, um natural da aldeia pioneiro da escalada do Naranjo de Bulnes (a montanha representada no logotipo do parque que ilustra este post e que foi escalada pela primeira vez por uma cordada de dois, um dos quais pastor da região).

No segundo dia da minha estadia, perguntei na recepção se havia maneira de percorrer a Ruta del Cares (um trilho pedestre famoso, entre as localidades de Puente Puncebos e Caín, com uma extensão de 12 km) num só sentido, apanhando algum tipo de transporte para o regresso, a fim de poupar os mais pequenos. Perguntaram-me que idade tinham. "Dez anos o mais novo", respondi. Riram-se os da recepção: "Então deixa-te de tretas! Os miúdos irão a Caín caminhando, regressarão caminhando, e ainda quererão que jogues futebol com eles no final. Há transportes, mas demoram mais tempo ainda do que tu caminhando, porque a estrada asfaltada rodeia toda a cordilheira. Deixa-te disso. Vai e vem a pé!" Assim fiz e pude comprovar que tinham toda a razão.

Alguns dias mais tarde, perguntei-lhes sobre outros trilhos que queria percorrer com a minha família. Concretamente, queria saber quanto tempo se levava para atravessar o Canal del Texu (entre Puente Pucebos e Bulnes) e que desníveis encontraria. Deram-me informações detalhadas e correctas até ao mais pequeno pormenor.

Numa das noites, o parque organizou uma palestra com projecção de diapositivos sobre a história da escalada nos Picos da Europa, dada por um alpinista veterano (de que não fixei o nome) integrante de uma cordada que inaugurou a escalada invernal pela face Oeste do Naranjo (creio que se trata da face mais longa e mais vertical). Foram apresentados abundantes indícios da afeição que o povo dos Picos tem pelos seus montes, e pelas actividades desportivas e de lazer que nelas decorrem. O povo asturiano orgulha-se das suas montanhas, e gosta de ser reconhecido como conhecedor profundo dos seus pormenores. "A nosotros nadie nos enseña como subirlas!"

Num outro dia ainda, numa loja de produtos tradicionais onde parei para comprar os inevitáveis "recuerdos", um casal galego meteu conversa com a comerciante. Tendo eles dito que tinham percorrido a Ruta del Cares naquele dia, comentava ela, rindo-se, que era preciso ser doente para vir em férias, em Agosto, levar uma "paliza" daquelas! "La ruta del Cares hay que hacerla em Maio o Septiembre. En Agosto, hace mucho calor!"

Porque falo disto? Quantos comerciantes em Seia sabem quanto tempo é necessário para subir a Garganta de Loriga a pé? Quantos cidadãos de Manteigas conhecem, mesmo que vagamente, as vias de escalada no Cântaro Magro e nas suas redondezas (não pretendo que as tenham escalado ou que as conheçam em detalhe, mas apenas que saibam que existem, mais ou menos onde, em que época foram abertas, etc.)? Quantos habitantes da Covilhã sabem que há na área da Pedra do Urso uma magnífica zona de escalada de blocos ou quais os desníveis na caminhada Piornos - Varanda dos Pastores? Ou mesmo quantos conseguirão dissertar sobre a altura do ano que consideram mais agradável para um passeio entre a Covilhã e a Bouça? Como se compreende que a maioria das vias de escalada do Cantaro Magro tenham sido abertas (imaginadas e escaladas pela primeira vez) por cordadas constituídas por escaladores de Lisboa ou do Porto?

As respostas a estas perguntas mostram que, apesar da pastorícia, não temos na nossa região uma relação profunda com a nossa montanha, ao contrário do que acontece nas Astúrias. O cidadão comum nas nossas localidades (aldeias, vilas e cidades) não conhece a serra, não a aprecia por aí além, não sabe os modos pelas quais ela pode ser usufruída e considera até um pouco estranhos os que dela usufruem. Não admira, pois, que quando se discute o desenvolvimento do turismo, as ideias que apareçam sejam as da abertura de mais estradas de asfalto, os projectos de construções em sítios bonitos exactamente porque ainda não as têm e pouco mais. Nos Picos da Europa, têm outras ideias, e creio que em parte isso acontece porque eles conhecem e amam as suas montanhas mais e melhor do que nós conhecemos e amamos as nossas.

domingo, agosto 16, 2009

Picos da Europa — 0

Acabo de chegar de uma semana nos Picos da Europa (Astúrias, Espanha), onde não ia há quase vinte anos. O que lá vi e o que lá fiz vai alimentar alguns posts aqui no "Cântaro".

Como não quero dar a entender que a serra da Estrela é como os Picos da Europa (ao contrário de outros que afirmam que ela pode concorrer com os Alpes ou os Pirinéus, num segmento — Neve e esqui — para que os Alpes e os Pirinéus têm condições absolutamente ímpares), com este post à laia de preâmbulo pretendo mostrar quais as diferenças físicas entre as duas cordilheiras. Nos posts que se seguirem abordarei as diferenças (bem maiores) na forma como elas são tratadas e aproveitadas.

Os Picos da Europa começam a cerca de cem metros de altitude e sobem até pouco mais que 2600 m. Ou seja, têm seiscentos metros a mais por cima e quinhentos metros a mais por baixo do que a Estrela, que começa a seiscentos metros (aqui do lado da Covilhã) e sobe até aos dois mil. São montanhas mais recentes, logo, mais escarpadas. São constituídas de rocha calcárea, em vez de granito. Apresentam precipícios impressionantes, paisagens de cortar a respiração. São um pequeno paraíso para montanhistas e escaladores. Os espanhóis marcam frequentemente o início da actividade montanheira no seu país com a primeira escalada do Picu Urrielo (também conhecido como Naranjo de Bulnes), um enorme promontório rochoso mais ou menos equivalente (em altura) a três Cântaros Magros, mas muito mais vertical.

Os Picos da Europa estão a vinte quilómetros do mar. É perfeitamente possível escalar ou caminhar em ambiente alpino de manhã e fazer praia à tarde. O clima é muito húmido e todas as zonas de altitude intermédia estão cobertas com bosques atlânticos (castanheiro, carvalho, faia, avelaneira, etc.), prados para o pastoreio ou campos cultivados. Por estar mais a norte e ter maior altitude que a Estrela, neva nos Picos muito mais frequentemente e com muito maior intensidade do que por cá.

Os Picos da Europa são muito, muito diferentes da serra da Estrela. Não faz sentido tentar copiar as realidades asturianas para a Estrela, tal como não faz sentido tentar copiar as alpinas ou as pirenaicas, como alguns afirmam que pretendem fazer. O que funciona lá, o que lá é viável, pode perfeitamente falhar na serra da Estrela. Mesmo assim, entendo que poderíamos aprender imenso com a forma como os asturianos entendem o turismo de montanha e com a forma como o desenvolveram. Tentarei demonstrá-lo nos próximos dias.

quarta-feira, agosto 12, 2009

Andorinha-das-rochas

Cada ponto negro neste céu é uma andorinha-das-rochas (Ptyonoprogne rupestris). Por qualquer razão, há alturas (como a desta fotografia, tirada perto do Covão d'Ametade) em que começam todas a voar e a chilrear em conjunto, para pouco depois voltarem a um relativo sossego.

segunda-feira, agosto 10, 2009

Agosto

Vale sob o Curral do Vento.

sábado, agosto 08, 2009

Férias!

Eu (à esquerda) e o meu filho mais novo (à direita), na placa dos Fantasmas. A cara metade está a dar segurança ao pequeno (eu estou autoseguro com um prusik) e a minha filha mais velha faz a reportagem, enquanto aguarda a vez dela.
Todos querem repetir. É o que importa.

terça-feira, agosto 04, 2009

Festa do Senhor do Calvário — Gouveia

O CERVAS participa nas festas do Senhor do Calvário (Gouveia):
  • Dia 8 de Agosto, Sábado
    Saída de campo para observação de aves selvagens & Libertação de ave selvagem recuperada no CERVAS
    • 7h00 – Encontro na Feira de Associativismo e percurso até ao Curral do Negro: percurso pedestre para observação de aves selvagens com paragem na Quinta da Cerca e outros pontos de interesse; almoço no Parque de Merendas
    • 15h00 – Libertação de uma águia-de-asa-redonda (Buteo buteo) recuperada no CERVAS - Curral do Negro, Gouveia
  • Dia 10 de Agosto, 2ª feira
    Palestra sobre Recuperação de Fauna Selvagem & Visita ao CERVAS
    • 15h00 – Palestra sobre Recuperação de Fauna Selvagem - Delegação do PNSE, Gouveia
    • 16h30 – Visita ao CERVAS (Localização: por trás do Parque Ecológico de Gouveia)
Para além das actividades referidas, o CERVAS/ALDEIA irá ainda dinamizar um *stand de divulgação* na Feira de Associativismo, durante todo o período de funcionamento deste espaço.

Para mais informações ou confirmação de presença nas actividades, contactar o CERVAS para o email cervas.pnse@gmail.com.

domingo, agosto 02, 2009

sábado, agosto 01, 2009

Uma palha...

... Que se agarra a outras palhas e que caminha:

quinta-feira, julho 30, 2009

B.N. CISE nº26

Ao longo da E.N. 339, que liga Seia à Covilhã, ocorre um conjunto de valores naturais de grande relevância, que inclui um conjunto de espécies de flora como, entre outras, Drosera rotundifolia, Dactylorhiza caramulensis, Senecio pyrenaicus subsp. caespitosus, Thesium pyrenaicum e Allium scorzonerifolium, espécie que tem nas bermas desta estrada o principal núcleo conhecido na Estrela, e que contribuem para que este trajecto seja tão encantador. Reconhecendo a necessidade de beneficiação desta via, alertamos para a urgência de um acompanhamento rigoroso dos trabalhos e interrogamo-nos sobre a criação de algumas áreas de estacionamento cuja localização julgamos não ser compatível com a conservação dos valores presentes.
A este propósito, um autarca como Carlos Pinto diria (como já disse) que "antes das florinhas estão as pessoas". Mas, uma vez que as florinhas não votam, eu entendo afirmações destas como "antes das pessoas que gostam das florinhas estão as pessoas que gostam do asfalto". Ora, se autarcas como Carlos Pinto desvalorizam como têm desvalorizado, com "argumentos" como estes, os interesses das pessoas como eu, então que não se queixem de serem atirados para os últimos lugares nas minhas intenções de voto.
Algarvear a Serra da Estrela? Não, obrigado!