Cheguei aos Picos da Europa no Domingo dia 9. Acampei no parque de campismo "Naranjo de Bulnes", na aldeia de Arenas de Cabrales. Este parque de campismo é gerido pelos netos de Alfonso Martinez, um natural da aldeia pioneiro da escalada do Naranjo de Bulnes (a montanha representada no logotipo do parque que ilustra este post e que foi escalada pela primeira vez por uma cordada de dois, um dos quais pastor da região).
No segundo dia da minha estadia, perguntei na recepção se havia maneira de percorrer a Ruta del Cares (um trilho pedestre famoso, entre as localidades de Puente Puncebos e Caín, com uma extensão de 12 km) num só sentido, apanhando algum tipo de transporte para o regresso, a fim de poupar os mais pequenos. Perguntaram-me que idade tinham. "Dez anos o mais novo", respondi. Riram-se os da recepção: "Então deixa-te de tretas! Os miúdos irão a Caín caminhando, regressarão caminhando, e ainda quererão que jogues futebol com eles no final. Há transportes, mas demoram mais tempo ainda do que tu caminhando, porque a estrada asfaltada rodeia toda a cordilheira. Deixa-te disso. Vai e vem a pé!" Assim fiz e pude comprovar que tinham toda a razão.
Alguns dias mais tarde, perguntei-lhes sobre outros trilhos que queria percorrer com a minha família. Concretamente, queria saber quanto tempo se levava para atravessar o Canal del Texu (entre Puente Pucebos e Bulnes) e que desníveis encontraria. Deram-me informações detalhadas e correctas até ao mais pequeno pormenor.
Numa das noites, o parque organizou uma palestra com projecção de diapositivos sobre a história da escalada nos Picos da Europa, dada por um alpinista veterano (de que não fixei o nome) integrante de uma cordada que inaugurou a escalada invernal pela face Oeste do Naranjo (creio que se trata da face mais longa e mais vertical). Foram apresentados abundantes indícios da afeição que o povo dos Picos tem pelos seus montes, e pelas actividades desportivas e de lazer que nelas decorrem. O povo asturiano orgulha-se das suas montanhas, e gosta de ser reconhecido como conhecedor profundo dos seus pormenores. "A nosotros nadie nos enseña como subirlas!"
Num outro dia ainda, numa loja de produtos tradicionais onde parei para comprar os inevitáveis "recuerdos", um casal galego meteu conversa com a comerciante. Tendo eles dito que tinham percorrido a Ruta del Cares naquele dia, comentava ela, rindo-se, que era preciso ser doente para vir em férias, em Agosto, levar uma "paliza" daquelas! "La ruta del Cares hay que hacerla em Maio o Septiembre. En Agosto, hace mucho calor!"
Porque falo disto? Quantos comerciantes em Seia sabem quanto tempo é necessário para subir a Garganta de Loriga a pé? Quantos cidadãos de Manteigas conhecem, mesmo que vagamente, as vias de escalada no Cântaro Magro e nas suas redondezas (não pretendo que as tenham escalado ou que as conheçam em detalhe, mas apenas que saibam que existem, mais ou menos onde, em que época foram abertas, etc.)? Quantos habitantes da Covilhã sabem que há na área da Pedra do Urso uma magnífica zona de escalada de blocos ou quais os desníveis na caminhada Piornos - Varanda dos Pastores? Ou mesmo quantos conseguirão dissertar sobre a altura do ano que consideram mais agradável para um passeio entre a Covilhã e a Bouça? Como se compreende que a maioria das vias de escalada do Cantaro Magro tenham sido abertas (imaginadas e escaladas pela primeira vez) por cordadas constituídas por escaladores de Lisboa ou do Porto?
As respostas a estas perguntas mostram que, apesar da pastorícia, não temos na nossa região uma relação profunda com a nossa montanha, ao contrário do que acontece nas Astúrias. O cidadão comum nas nossas localidades (aldeias, vilas e cidades) não conhece a serra, não a aprecia por aí além, não sabe os modos pelas quais ela pode ser usufruída e considera até um pouco estranhos os que dela usufruem. Não admira, pois, que quando se discute o desenvolvimento do turismo, as ideias que apareçam sejam as da abertura de mais estradas de asfalto, os projectos de construções em sítios bonitos exactamente porque ainda não as têm e pouco mais. Nos Picos da Europa, têm outras ideias, e creio que em parte isso acontece porque eles conhecem e amam as suas montanhas mais e melhor do que nós conhecemos e amamos as nossas.