terça-feira, agosto 18, 2009

Picos da Europa — 1: a relação com o território

Cheguei aos Picos da Europa no Domingo dia 9. Acampei no parque de campismo "Naranjo de Bulnes", na aldeia de Arenas de Cabrales. Este parque de campismo é gerido pelos netos de Alfonso Martinez, um natural da aldeia pioneiro da escalada do Naranjo de Bulnes (a montanha representada no logotipo do parque que ilustra este post e que foi escalada pela primeira vez por uma cordada de dois, um dos quais pastor da região).

No segundo dia da minha estadia, perguntei na recepção se havia maneira de percorrer a Ruta del Cares (um trilho pedestre famoso, entre as localidades de Puente Puncebos e Caín, com uma extensão de 12 km) num só sentido, apanhando algum tipo de transporte para o regresso, a fim de poupar os mais pequenos. Perguntaram-me que idade tinham. "Dez anos o mais novo", respondi. Riram-se os da recepção: "Então deixa-te de tretas! Os miúdos irão a Caín caminhando, regressarão caminhando, e ainda quererão que jogues futebol com eles no final. Há transportes, mas demoram mais tempo ainda do que tu caminhando, porque a estrada asfaltada rodeia toda a cordilheira. Deixa-te disso. Vai e vem a pé!" Assim fiz e pude comprovar que tinham toda a razão.

Alguns dias mais tarde, perguntei-lhes sobre outros trilhos que queria percorrer com a minha família. Concretamente, queria saber quanto tempo se levava para atravessar o Canal del Texu (entre Puente Pucebos e Bulnes) e que desníveis encontraria. Deram-me informações detalhadas e correctas até ao mais pequeno pormenor.

Numa das noites, o parque organizou uma palestra com projecção de diapositivos sobre a história da escalada nos Picos da Europa, dada por um alpinista veterano (de que não fixei o nome) integrante de uma cordada que inaugurou a escalada invernal pela face Oeste do Naranjo (creio que se trata da face mais longa e mais vertical). Foram apresentados abundantes indícios da afeição que o povo dos Picos tem pelos seus montes, e pelas actividades desportivas e de lazer que nelas decorrem. O povo asturiano orgulha-se das suas montanhas, e gosta de ser reconhecido como conhecedor profundo dos seus pormenores. "A nosotros nadie nos enseña como subirlas!"

Num outro dia ainda, numa loja de produtos tradicionais onde parei para comprar os inevitáveis "recuerdos", um casal galego meteu conversa com a comerciante. Tendo eles dito que tinham percorrido a Ruta del Cares naquele dia, comentava ela, rindo-se, que era preciso ser doente para vir em férias, em Agosto, levar uma "paliza" daquelas! "La ruta del Cares hay que hacerla em Maio o Septiembre. En Agosto, hace mucho calor!"

Porque falo disto? Quantos comerciantes em Seia sabem quanto tempo é necessário para subir a Garganta de Loriga a pé? Quantos cidadãos de Manteigas conhecem, mesmo que vagamente, as vias de escalada no Cântaro Magro e nas suas redondezas (não pretendo que as tenham escalado ou que as conheçam em detalhe, mas apenas que saibam que existem, mais ou menos onde, em que época foram abertas, etc.)? Quantos habitantes da Covilhã sabem que há na área da Pedra do Urso uma magnífica zona de escalada de blocos ou quais os desníveis na caminhada Piornos - Varanda dos Pastores? Ou mesmo quantos conseguirão dissertar sobre a altura do ano que consideram mais agradável para um passeio entre a Covilhã e a Bouça? Como se compreende que a maioria das vias de escalada do Cantaro Magro tenham sido abertas (imaginadas e escaladas pela primeira vez) por cordadas constituídas por escaladores de Lisboa ou do Porto?

As respostas a estas perguntas mostram que, apesar da pastorícia, não temos na nossa região uma relação profunda com a nossa montanha, ao contrário do que acontece nas Astúrias. O cidadão comum nas nossas localidades (aldeias, vilas e cidades) não conhece a serra, não a aprecia por aí além, não sabe os modos pelas quais ela pode ser usufruída e considera até um pouco estranhos os que dela usufruem. Não admira, pois, que quando se discute o desenvolvimento do turismo, as ideias que apareçam sejam as da abertura de mais estradas de asfalto, os projectos de construções em sítios bonitos exactamente porque ainda não as têm e pouco mais. Nos Picos da Europa, têm outras ideias, e creio que em parte isso acontece porque eles conhecem e amam as suas montanhas mais e melhor do que nós conhecemos e amamos as nossas.

domingo, agosto 16, 2009

Picos da Europa — 0

Acabo de chegar de uma semana nos Picos da Europa (Astúrias, Espanha), onde não ia há quase vinte anos. O que lá vi e o que lá fiz vai alimentar alguns posts aqui no "Cântaro".

Como não quero dar a entender que a serra da Estrela é como os Picos da Europa (ao contrário de outros que afirmam que ela pode concorrer com os Alpes ou os Pirinéus, num segmento — Neve e esqui — para que os Alpes e os Pirinéus têm condições absolutamente ímpares), com este post à laia de preâmbulo pretendo mostrar quais as diferenças físicas entre as duas cordilheiras. Nos posts que se seguirem abordarei as diferenças (bem maiores) na forma como elas são tratadas e aproveitadas.

Os Picos da Europa começam a cerca de cem metros de altitude e sobem até pouco mais que 2600 m. Ou seja, têm seiscentos metros a mais por cima e quinhentos metros a mais por baixo do que a Estrela, que começa a seiscentos metros (aqui do lado da Covilhã) e sobe até aos dois mil. São montanhas mais recentes, logo, mais escarpadas. São constituídas de rocha calcárea, em vez de granito. Apresentam precipícios impressionantes, paisagens de cortar a respiração. São um pequeno paraíso para montanhistas e escaladores. Os espanhóis marcam frequentemente o início da actividade montanheira no seu país com a primeira escalada do Picu Urrielo (também conhecido como Naranjo de Bulnes), um enorme promontório rochoso mais ou menos equivalente (em altura) a três Cântaros Magros, mas muito mais vertical.

Os Picos da Europa estão a vinte quilómetros do mar. É perfeitamente possível escalar ou caminhar em ambiente alpino de manhã e fazer praia à tarde. O clima é muito húmido e todas as zonas de altitude intermédia estão cobertas com bosques atlânticos (castanheiro, carvalho, faia, avelaneira, etc.), prados para o pastoreio ou campos cultivados. Por estar mais a norte e ter maior altitude que a Estrela, neva nos Picos muito mais frequentemente e com muito maior intensidade do que por cá.

Os Picos da Europa são muito, muito diferentes da serra da Estrela. Não faz sentido tentar copiar as realidades asturianas para a Estrela, tal como não faz sentido tentar copiar as alpinas ou as pirenaicas, como alguns afirmam que pretendem fazer. O que funciona lá, o que lá é viável, pode perfeitamente falhar na serra da Estrela. Mesmo assim, entendo que poderíamos aprender imenso com a forma como os asturianos entendem o turismo de montanha e com a forma como o desenvolveram. Tentarei demonstrá-lo nos próximos dias.

quarta-feira, agosto 12, 2009

Andorinha-das-rochas

Cada ponto negro neste céu é uma andorinha-das-rochas (Ptyonoprogne rupestris). Por qualquer razão, há alturas (como a desta fotografia, tirada perto do Covão d'Ametade) em que começam todas a voar e a chilrear em conjunto, para pouco depois voltarem a um relativo sossego.

segunda-feira, agosto 10, 2009

Agosto

Vale sob o Curral do Vento.

sábado, agosto 08, 2009

Férias!

Eu (à esquerda) e o meu filho mais novo (à direita), na placa dos Fantasmas. A cara metade está a dar segurança ao pequeno (eu estou autoseguro com um prusik) e a minha filha mais velha faz a reportagem, enquanto aguarda a vez dela.
Todos querem repetir. É o que importa.

terça-feira, agosto 04, 2009

Festa do Senhor do Calvário — Gouveia

O CERVAS participa nas festas do Senhor do Calvário (Gouveia):
  • Dia 8 de Agosto, Sábado
    Saída de campo para observação de aves selvagens & Libertação de ave selvagem recuperada no CERVAS
    • 7h00 – Encontro na Feira de Associativismo e percurso até ao Curral do Negro: percurso pedestre para observação de aves selvagens com paragem na Quinta da Cerca e outros pontos de interesse; almoço no Parque de Merendas
    • 15h00 – Libertação de uma águia-de-asa-redonda (Buteo buteo) recuperada no CERVAS - Curral do Negro, Gouveia
  • Dia 10 de Agosto, 2ª feira
    Palestra sobre Recuperação de Fauna Selvagem & Visita ao CERVAS
    • 15h00 – Palestra sobre Recuperação de Fauna Selvagem - Delegação do PNSE, Gouveia
    • 16h30 – Visita ao CERVAS (Localização: por trás do Parque Ecológico de Gouveia)
Para além das actividades referidas, o CERVAS/ALDEIA irá ainda dinamizar um *stand de divulgação* na Feira de Associativismo, durante todo o período de funcionamento deste espaço.

Para mais informações ou confirmação de presença nas actividades, contactar o CERVAS para o email cervas.pnse@gmail.com.

domingo, agosto 02, 2009

sábado, agosto 01, 2009

Uma palha...

... Que se agarra a outras palhas e que caminha:

quinta-feira, julho 30, 2009

B.N. CISE nº26

Ao longo da E.N. 339, que liga Seia à Covilhã, ocorre um conjunto de valores naturais de grande relevância, que inclui um conjunto de espécies de flora como, entre outras, Drosera rotundifolia, Dactylorhiza caramulensis, Senecio pyrenaicus subsp. caespitosus, Thesium pyrenaicum e Allium scorzonerifolium, espécie que tem nas bermas desta estrada o principal núcleo conhecido na Estrela, e que contribuem para que este trajecto seja tão encantador. Reconhecendo a necessidade de beneficiação desta via, alertamos para a urgência de um acompanhamento rigoroso dos trabalhos e interrogamo-nos sobre a criação de algumas áreas de estacionamento cuja localização julgamos não ser compatível com a conservação dos valores presentes.
A este propósito, um autarca como Carlos Pinto diria (como já disse) que "antes das florinhas estão as pessoas". Mas, uma vez que as florinhas não votam, eu entendo afirmações destas como "antes das pessoas que gostam das florinhas estão as pessoas que gostam do asfalto". Ora, se autarcas como Carlos Pinto desvalorizam como têm desvalorizado, com "argumentos" como estes, os interesses das pessoas como eu, então que não se queixem de serem atirados para os últimos lugares nas minhas intenções de voto.

Ainda as diferenças

Relativamente ao desdobrável que comentei ontem referindo os planos que os responsáveis ingleses têm para o ordenamento da visitação do sítio arqueológico de Stonehenge, houve algo que ficou por dizer e que me parece muito relevante num contraste como o que pretendi fazer entre as atitudes inglesa e beirã (para não dizer portuguesa) face ao ordenamento do turismo.

É que o projecto anunciado tem uma componente de gestão e beneficiação do sítio propriamente dito, tem uma componente envolvendo as estradas e uma terceira componente envolvendo a visitação. Logo nada mais natural que, na planificação, envolver o gestor do sítio (a English Heritage), a agência responsável pelas estradas (a Highways Agency) e uma organização não governamental para a preservação cutural (a National Trust).

E por cá, as coisas não funcionam assim? Talvez, quando realmente se pretende resolver um problema ou realizar uma verdadeira melhoria. Mas, quase sempre, o que se pretende é outra coisa(1). Por exemplo, o renascido projecto do teleférico Piornos-Torre tem sido insistentemente defendido com a necessidade de afastar os carros da Torre, com a vontade de convencer os visitantes a chegarem à Torre num meio mais limpo, com o que teremos a ganhar numa Torre sem a poluição e o ruído automóvel actuais (veja aqui o presidente do Turismo da Serra da Estrela, Sr. Jorge Patrão, fazer esta defesa). Posta assim a questão, eu concordo. Se, em vez dos carros, tivermos o teleférico, ficaremos melhor. Mas é difícil acreditar que seja mesmo essa a intenção quando, ao mesmo tempo que se fazem estes anúncios, decorrem grandes obras de beneficiação da Estrada Nacional 339 entre Seia e o edifício do antigo sanatório dos ferroviários, perto da Covilhã.

Será que se quer, mesmo, afastar os carros da Torre? Ou ninguém disse nada à Estradas de Portugal?

(1) Gastar uns fundos caídos do governo ou da União Europeia (e a algum bolso vão parar as "inevitáveis" derrapagens), mostrar obra antes de eleições ou tentar afirmar a indispensabilidade de organismos semi-públicos claramente inúteis, por exemplo.

quarta-feira, julho 29, 2009

And now, for something completely different!

Uma das faces de um folheto de publicidade ao sítio arqueológico de Stonehenge, na Inglaterra, distribuído a todos os visitantes: Curioso, o último segmento (o da esquerda, note que se trata de um desdobrável), com o título Plans for the future ("Planos para o futuro") que apresento em baixo deixo ampliado:
(Clique para tornar legível.)
Tradução:
PLANOS PARA O FUTURO
As suas futuras visitas a Stonehenge serão muito diferentes da sua experiência de hoje. Grandes planos estão em preparação para recolocar Stonehenge num espaço relvado, livre de estradas e do ruído do tráfego e equipar o local com instalações de classe mundial. Isto melhorará a sua apreciação e compreensão de todo este Sítio Herança Mundial.
A English Heritage, o National Trust e a Highways Agency estão a trabalhar juntas para tornar estes planos realidade nos próximos dez anos.
O Projecto Stonehenge vai esconder o itinerário principal A303 num túnel subterrâneo na vizinhança das Pedras e fechar a parte da estrada A344 que actualmente existe entre entre as Pedras e as instalações de atendimento aos visitantes.
O actual parque de estacionamento vai ser coberto de relva e um novo centro de recepção ao visitante será construído aproximadamente a 3 km do monumento. Este centro incluirá exposições sobre Stonehenge, um café, uma loja, instalações educativas, e espaço para o estacionamento de carros e autocarros. Um comboio transportará as pessoas ao ambiente arqueologicamente rico do Sítio Herança Mundial, a uma distância às Pedras suficientemente curta para ser percorrida a pé.

Parece-me algo completamente diferente do que por cá se planeia e se executa. Um anúncio deste tipo, por cá, é sempre em sentido oposto: "vamos abrir mais uma estrada asfaltada para o sítio, aumentar o estacionamento na vizinhança imediata do sítio, abrir um centro comercial, um restaurante, um observatório panorâmico e um centro de interpretação bem no centro do sítio". Não só o conteúdo de anúncios deste tipo é diferente cá na Serra, como também as expressões usadas são diferentes. Neste anúncio de Stonehenge não se fala de alavancar desenvolvimentos, nem de requalificar zonas, nem tão pouco se faz referência a motores do progresso, expressões imprescindíveis aos anúncios das nossas "elites".
Outra diferença importante, aposto, é que nenhum Jorge Patrão inglês se atreve a desenvolver publicamente a teoria de que é importante que projectos em curso não sejam emperrados por planos de ordenamento elaborados por razões ambientais (ou arqueológicas, dada a natureza do sítio).

Something completely different, indeed. Como o dia para a noite.

I'm living on sunshine

Osga (Tarentola mauritanica)

segunda-feira, julho 20, 2009

Da importância do ordenamento

«Jorge Patrão só espera que o projecto não venha a ter entraves por parte do parque natural da Serra da Estrela "esperamos uma atitude de colaboração e de parceria e não que venham invocar um plano de ordenamento que recentemente foi aprovado para emperrar alguns dos projectos que temos em marcha"»

Jorge Patrão, presidente do Turismo da Serra da Estrela, excerto retirado do blog Máfia da Cova.

Pouco importa qual o projecto a que Jorge Patrão se refere, ou se sim ou não o mencionado Plano de Ordenamento recentemente aprovado em Conselho de Ministros (mas creio que ainda não publicado no Diário da República) efectivamente o constrange(1). Esta frase diz tudo sobre a importância que no nosso país certas forças dão ao ordenamento do território.

Jorge Patrão é contumaz em (des)considerações deste teor. Em 2006(2), afirmava publicamente que "há diversos interessados em investir na Serra da Estrela e é importante que os projectos não esbarrem em impedimentos ambientais".
Podemos ir mais longe. Para além de planos de ordenamento e de outros impedimentos ambientais, porque é que os projectos (sejam quais forem, desde que "apadrinhados" por Jorge Patrão) hão-de esbarrar seja em que impedimentos for? Questiúnculas legais com a posse dos terrenos ou dos edifícios, com a legislação fiscal, com as leis de trabalho, com a livre concorrência? É afastá-las, *todas*, da senda do progresso do turismo na Serra da Estrela, tal como tem sido definido por Jorge Patrão (e outros) nas últimas dezenas de anos. Porque, como se vê, estamos no rumo certo, estamos de parabéns. O ordenamento que não se meta connosco. Que não comece agora a meter-se, pelo menos!

(1) Diga-se de passagem que não me parece que o plano de ordenamento do PNSE impeça a construção do teleférico (era a esse projecto que Jorge Patrão se referia). Mas não me compete a mim (nem a Jorge Patrão) fazer essa avaliação.
(2) Ver Público Edição Centro de 31 de Março de 2006, pág 60.

domingo, julho 19, 2009

"Às escuras vê-se melhor"

Mapa da diminuição da perceptibilidade dos astros na Europa. Imagem roubada daqui.

O matemático Nuno Crato (que, entre outras coisas, fez um diagnóstico a meu ver muito ajustado do estado da educação em Portugal com o livro "O Eduquês em discurso directo") assina uma coluna semanal no Expresso, sempre muito interessante, mas que esta semana diz muito ao Cântaro Zangado. Divulga uma iniciativa integrada nas comemorações do Ano Internacional da Astronomia, na qual diversas localidades promovem um "apagão" localizado, desligando a iluminação pública nalgumas zonas para nelas facilitar a observação do céu nocturno. A questão é que a iluminação pública exterior, muitas vezes exagerada e quase sempre mal desenhada, derrama no céu uma luminosidade tal que torna as estrelas praticamente invisíveis.

Li o artigo a que me refiro (cujo título copiei para este post) nas Penhas da Saúde, sábado à noite. Imagino que o céu estivesse limpo, mas não sei. Não reparei se a lua estava cheia ou não (sei que não estava, mas não reparei). Não vi a Via Láctea, nenhum meteoro, nenhum satélite artificial; não vi, sequer, o piscar de nenhum avião. A bem dizer nem mesmo sei se cheguei a olhar para o céu, durante um passeio de dez minutos, depois do café pós-jantar. A iluminação pública nas Penhas da Saúde (inaugurada há poucos anos) roubou-nos o maravilhoso espectáculo do céu nocturno, substituindo-o por uma luminosidade alaranjada intensa, indiferenciada e desinteressante, mais apropriada a uma via rápida suburbana.

Em nome de quê?

Tenho-me referido a isto com alguma regularidade. Aqui e aqui, por exemplo.

sexta-feira, julho 17, 2009

Mais um bom sinal

Ontem por volta das 14:30, entre a Pedra do Urso e o sanatório, vi seis aves de rapina (pareceram-me águias-calçadas) voando em círculos.
Infelizmente, não trazia a câmara.

Já vi várias referências a um aumento bastante generalizado do número de indivíduos de quase todas as espécies de rapina nos últimoas anos. Será esta observação um sinal dessa tendência?

Eu fiz ontem esta observação, no ano passado um amigo disse-me que tinha encontrado um ninho de águias-calçadas na zona a submergir pela nova barragem das Penhas da Saúde, a construir na vizinhança desta zona... Em contrapartida, o estudo de impacto ambiental da dita barragem (comentei o resumo não técnico aqui e a declaração de impacto ambiental aqui) não faz referência a uma única espécie vegetal ou animal concreta, muito menos às águias-calçadas. São contrastes que dão pistas para o valor do dito estudo...

quinta-feira, julho 16, 2009

Um bom sinal

Hoje de manhã, perto do parque da floresta, sobre a Covilhã, estava um esquilo morto, atropelado no meio da estrada.
É, apesar de tudo, um bom sinal.

terça-feira, julho 14, 2009

CERVAS

O Centro de Ecologia, Recuperação e Vigilância de Animais Selvagens mantém agora um site na internet, em formato blog. E continua com uma actividade a meu ver absolutamente notável e louvável. O endereço do site é cervas-aldeia.blogspot.com.

sábado, julho 11, 2009

Porque falo tanto de turismo?

Tenho uma profissão exigente e compensadora, e não pretendo mudar de ramo para me dedicar ao turismo. Não tenho qualquer formação nessa área, sei de turismo tanto ou tão pouco como qualquer um. Ou melhor, sei de turismo apenas o que da minha actividade de turista aprendo. Sei de turismo apenas na perspectiva do cliente.

Por outro lado, creio que conheço relativamente bem a serra, o suficiente pelo menos para considerar (bem ou mal) que não preciso de pagar a guias ou a monitores para praticar as actividades que me interessam. Acresce ainda que, como moro na região, também não sinto falta de unidades hoteleiras ou similares para pernoitar ou para me alimentar. Tenho a minha casa para isso. Ou seja, não tenho nenhum interesse pessoal directo no desenvolvimento do turismo na serra da Estrela.

Por outro lado ainda, sou da opinião que o desenvolvimento de uma região não se pode basear no turismo. Entendo que o turismo é um ramo que pode e deve ser aproveitado, mas é importante que seja apenas um de vários sectores económicos relevantes. Isto é verdade relativamente a tudo (lá diz o ditado: não se ponham os ovos todos no mesmo cesto), mas é especialmente verdade no caso do turismo. O turismo de qualidade vive do que é verdadeiro, do que é genuíno numa região. Se a região se afunila para o turismo, deixa de ter aspectos verdadeiramente genuínos, verdadeiramente "verdadeiros". Não é um pouco isso que acontece nos grandes centros de turismo? O que há de genuíno em Quarteira, por exemplo?

Mas, se não sei nada de turismo, se não pretendo iniciar um negócio nesse ramo, se não tenho interesse pessoal e directo no desenvolvimento do turismo na serra da Estrela e se entendo que o turismo deve ser apenas um entre vários vectores para o desenvolvimento, porque diabo falo eu tanto, tanto de turismo?

Falo muito de turismo porque todos falam de turismo. Vejamos: pretende-se asfaltar mais uma estrada? Afirma-se que é para desenvolver o turismo; quer-se construir quatrocentos apartamentos nas Penhas da Saúde? É para desenvolver o turismo; deseja-se uma nova barragem? Indica-se que vai ser bom para o turismo... O turismo serve de capa a muita coisa: aos interesses imobiliários (como no Algarve), aos negócios dos construtores, aos dos políticos empenhados nas campanhas eleitorais em mostrar (ou prometer) obra, etc. Ora, se toda a gente invoca o turismo, eu também o posso fazer, porque não?

Mas quando eu falo de turismo na serra da Estrela, falo de um verdadeiro turismo de montanha, não da multiplicação de estradas, de aldeamentos, casinos, barragens e teleféricos. Falo de actividades de ar livre, de interpretação da natureza, de pedestrianismo, de turismo lento e distribuído por todo o ano, e não daquilo que nós aqui temos e que ao longo das últimas décadas temos com tanto fervor cultivado. Falo de um turismo baseado mais na prestação de serviços (pagos, evidentemente) do que na construção de infraestruturas. Quando falo de turismo na serra da Estrela, falo daquele que procuro (e encontro) nas outras montanhas que visito.

E faço-o porque esse turismo, tendo também impactos vários (e alguns graves), é mesmo assim infinitamente menos prejudicial para o ambiente e a paisagem que aprendi desde criança a apreciar (e que gostava de poder continuar a apreciar, e a partilhar com os meus filhos, e que eles o possam fazer também com os deles) do que todas estas outras actividades que, sendo apregoadas em nome do turismo, mais não fazem do que dificultar o seu desenvolvimento, ao substituirem-no por isto que temos cá pela serra da Estrela, por isto que, como disse há pouco, temos cultivado tão fervorosamente.

Falo de turismo porque entendo que há vantagens económicas a retirar do ambiente e da paisagem da serra da Estrela. Não que pretenda eu retirar essas vantagens. Eu procuro compensações de outra ordem. Mas os que apostarem num turismo a sério na serra da Estrela, tal como eu, só terão a ganhar com a preservação do seu espaço natural. E, tal como eu, só terão a perder com a continuação deste actual estado de coisas.

É por isto que falo tanto de turismo.

terça-feira, julho 07, 2009

A irresistível tentação

O novo edifício da Pousada de Juventude das Penhas da Saúde foi inaugurado ontem, dia seis de Julho. Imagino que a ampliação da Pousada tenha sido decidida em função da procura que a unidade registava. Considero que o edifício se enquadra bastante bem no local, e espero que possa contribuir também para diversificar o tipo de turismo que se pratica na Serra da Estrela. Ou seja, nada tenho contra a ampliação.

Mas, logo à entrada do novo edifício, impressa no próprio vidro, damos com a imagem que ilustra este post.
Mmmm... Ao certo, ao certo, em que ponto da Serra da Estrela ou de Portugal terá sido tirada aquela fotografia?

Ai, ai, esta irresistível (e parola) tentação de apresentar a serra como algo que ela não é nem nunca foi, e que frequentemente leva a ilustrá-la com imagens colhidas noutras montanhas...

Como dizia o outro, a unidade hoteleira até é uma boa unidade hoteleira, não havia necessidade...

Mais mentirinhas do mesmo tipo: esta, esta e esta.

segunda-feira, julho 06, 2009

O interior abandonado

Desprezo, abandono, esquecimento, são expressões com que no interior frequentemente caracterizamos a atitude do poder central face à fatia do território nacional a mais de 70 km do mar. Quase sempre, estes termos são apropriados (mas não sei se devemos assacar ao governo, ao "poder de Lisboa", todas as responsabilidades pela assimetria litoral/interior que todos os anos se agrava).

Quase sempre são apropriados aqueles termos, mas há excepções. Por exemplo: haverá algum trecho de estrada nacional com cinquenta quilómetros de extensão que mais frequentemente seja objecto de reparações e beneficiações do que a estrada nacional 339 entre Seia e Covilhã? Duvido.

Nos últimos anos têm-se sucedido intervenções: instalação de painéis informativos do estado da estrada, sinalização com altitudes e com avisos de "Check your breaks now", repavimentações, alargamento de zonas de estacionamento... Nos últimos dois ou três anos, tem sido difícil dar um saltinho da Covilhã às Penhas da Saúde sem que nos cruzemos com uma ou mais carrinhas todo o terreno da Estradas de Portugal. Esquecem-se da Serra?! Esquecem-se muito mais de todas as outras estradas do país, parece-me a mim!

Vem isto a propósito de mais uma destas intervenções, agora a decorrer. Temos a EN 339, entre Seia e a zona do antigo sanatório dos ferroviários (cerca de 40 km no total, mais coisa, menos coisa) transformada num estaleiro. O novo tapete, espesso, de bom asfalto, é liso, lisinho, como a pele de uma gueixa japonesa. Um pavimento de auto-estrada. Um pavimento apropriado para corridas de fórmula um. Será, sem dúvida, dos melhores pavimentos de todas as estradas nacionais... Aplicado numa estrada relativamente pouco frequentada. Desprezo, abandono, esquecimento pelo interior? Não neste caso, nem pouco mais ou menos.

Será que serve o turismo esta opção? Não me parece. Em princípio, o turismo é servido com opções que reforcem a especificidade dos locais, que reforcem a imagem do produto que se pretende vender. Numa zona de montanha como esta, o turismo seria melhor servido por uma estrada lenta, panorâmica, com um traçado, um pavimento e uma sinalética que constantemente lembrasse os condutores do local em que se encontram, que obrigasse à circulação a velocidades reduzidas porque qualquer curva pode ser mais fechada do que aquelas a que as IPs nos habituaram e atrás de cada curva pode encontrar-se inesperadamente gelo, um rebanho, um turista pedestre. Pois bem, este novo pavimento e esta sinalética dão ao condutor as mensagens inversas.

Mas assim vamos, no rumo de sempre. Tomando quase sempre as decisões erradas, quase nunca as certas, e executando-as, umas e outras, sempre do pior modo possível. De quem é a culpa? Desta não podemos culpar o governo. O dinheiro pode vir de Lisboa, mas vem porque nós o pedimos. A culpa é nossa e só nossa.

Algarvear a Serra da Estrela? Não, obrigado!