segunda-feira, junho 01, 2009

Da próxima vez...

... Que algum figurão importante (autarca, responsável turístico, empreiteiro, etc) invocar as "legítimas aspirações das populações das freguesias rurais" para justificar mais uma asneira das do costume na serra da Estrela, leia ou releia o ponto 4º deste post no blog Cortes do Meio. Está lá tudo dito.

domingo, maio 31, 2009

The scottish way

Já mais que uma vez aqui falei do Ben Nevis, a montanha mais alta das ilhas britânicas. Como a serra da Estrela, é uma montanha antiga, com os cumes arredondados pela erosão; tem uma altitude de apenas de cerca de 1300 m mas, como parte do nível do mar, tem um desnível também semelhante ao da Estrela.

Parece-me que uma diferença principal entre as duas montanhas é o clima. Como o Ben Nevis está muito a norte, a meteorologia é muito mais rigorosa. As condições mudam mais rapidamente que na Estrela, neva intensamente com mais frequência, etc. Uma outra diferença, não menos principal, é a forma como é tratada pelos residentes.

No Ben Nevis, não há estradas para o topo, não há telecabines, nem nada disso que nós por cá consideramos indispensável. Ainda assim, todos os anos cerca de cem mil montanhistas chegam ao cume pelos seus pés. Para isso, têm que passar alguns dias na região. E, por cada um destes cem mil que chegam ao cume, vários tentam sem o conseguir (por causa do tempo, por exemplo) e vários outros visitam a região sem tentarem a subida, apenas como acompanhantes. Outros ainda, por fim, visitam a região em busca de outros pontos de interesse. Onde quero chegar é que não são precisas estradas de asfalto ou outras acessibilidades fáceis e cómodas para o cume para se desenvolver o turismo de montanha numa montanha de média altitude como é a Estrela. Antes pelo contrário, acho que essas acessibilidades fazem mais mal que bem ao turismo e já apresentei vários argumentos que justificam a minha opinião.

Mas voltemos agora ao Ben Nevis. Há alguns anos, esteve acesa uma discussão entre montanhistas escoceses sobre se se deveria reforçar a sinalização dos trilhos pedestres para a ascensão ao cume. Uns achavam que sim, porque os trilhos eram difíceis de seguir com nevoeiro, chuva ou neve, outros achavam que não porque essas são as condições da montanha e reforçar a sinalização encorajaria pessoas mal preparadas e mal equipadas a tentar a ascensão, tornando a montanha mais perigosa, ao contrário do que se pretendia. Bem sei que este debate só se pode considerar uma discussão de loucos, à luz dos critérios que fazem lei aqui na serra (Trilhos pedestres?! Estradas de asfalto é que é o que nos falta! E antenas retransmissoras para telemóveis! E heliportos! E casino! E centro comercial, hotel, restaurante e observatório panorâmico no cume!). Mas eu acho que loucos somos nós.

Mas falo do Ben Nevis porque recentemente soube de mais um detalhe interessante sobre o respeito que os escoceses têm para com a sua montanha-mãe e o respeito que exigem a todos os que a visitam. A Ben Nevis Race é (ao que li) a corrida de montanha mais antiga do mundo. Tem uma extensão de 16 km, com uma subida acumulada de 1300 m. (Parece ser algo mais suave que o "nosso" Circuito dos Três Cântaros, que teve lugar justamente hoje!) Pois bem, em respeito por uma tradição que a nós parece mais uma coisa de loucos, nesta corrida o percurso não está assinalado, de modo que os que a correm pela primeira vez fazem-no com alguma desvantagem. Azar o deles, e voltem cá para o ano, que esta montanha não se oferece ao primeiro que por aqui passa!

Ah, que diferença entre escoceses e beirões! Somos nós ou serão eles a estar no rumo certo, a estar de parabéns?

quarta-feira, maio 27, 2009

Também para que conste

Pedro Amaro, do blog Loriga, o autor da fotografia que foi usada no cartaz da caminhada organizada pela Turistrela e pela Banda da Covilhã (que divulguei há dias), ficou admirado de a encontrar naquela função. É que os promotores da dita caminhada (que teve lugar no Domingo passado) não lhe pediram autorização para a utilização da imagem, nem lhe deram conhecimento, nem nada.

Tanto quanto sei, também não apresentaram ainda um pedido de desculpas pelo lapso que, assim, mais parece um abuso.

terça-feira, maio 26, 2009

Poupa

Poupa (Upupa epops), fotografada hoje de manhãzinha, na encosta sobre a Covilhã.

No curto passeio que dei hoje bem pela manhã, vi ainda um casal de águias-de-asa-redonda. No Domingo, vi um esquilo.

sábado, maio 23, 2009

Obviamente!

O suplemento Fugas do Público de hoje tem um longo artigo sobre pedestrianismo, da autoria do próprio director do diário(1). O título do artigo é "Só a pé descobrimos o melhor do mundo à nossa volta", coisa com a qual não podia concordar mais. Não só porque a pé se chega a locais sem acessos asfaltados(2), mas também porque se chega a eles com a sensibilidade de algum modo ativada, mais disponível para a fruição, mais atenta, mais aberta.

Mais à frente na mesma revista, aparece um «"Best of" dos caminhos do país». Desse "best of" constam montanhas como o Gerês, o Marvão ou a Gardunha, mas a Estrela não. Ainda num outro artigo sobre o mesmo tema, "Caminhar em família, com pés e cabeça", referem-se percursos no Gerês, na serra de Sintra ou na Arrábida, mas na Estrela não.

E porque será que a serra da Estrela está assim tão flagrantemente ausente desta pequena lista de destinos compilada pela revista Fugas? Vejamos, é que não estamos aqui a falar de turismo sol e mar, de turismo urbano, de turismo de golf, de turismo de alto luxo, de turismo de neve de Verão, de turismo exótico, ou de outros segmentos onde não esperamos ver a nossa serra elencada. Estamos a falar de pedestrianismo, uma componente maior do turismo de montanha, e nesta lista não aparece a maior montanha de Portugal (não é a maior em altura, mas diria que o é em extensão)?! Porquê?!

Obviamente, porque apesar de se ter asfaltado a estrada de terra que existia entre a Portela de Arão e a Lagoa Comprida, a estrada de terra entre a Sra. do Desterro e o Coxaril, a estrada entre Manteigas e o Poço do Inferno e muitas outras, ainda não se concluiu a asfaltação da estrada entre Unhais da Serra e a Nave de Santo António, não se concluiu a estrada de Alvoco da Serra para a Torre, ainda não se começou a estrada de Cortes do Meio para as Penhas da Saúde e falta ainda a estrada dita Verde, entre a Guarda e o Maciço Central. Como é que se há-de desenvolver o turismo de montanha, e o pedestrianismo em particular, sem todo este asfalto?

Temos que continuar o esforço asfaltante dos últimos quarenta anos, porque estamos no rumo certo, no rumo de sempre. Estamos de parabéns!

(1) Refiro que o autor deste artigo é o director do Público porque se trata de um exemplo de como o pedestrianismo já não é (se é que alguma vez foi) uma actividade reservada a montanhistas, maluquinhos do ambiente, neo-hippies, pobretanas ou, mais em geral, gente esquisita.
(2) Aqui na serra da Estrela, esses locais estão na linha da frente das "legítimas aspirações das populações", pelo que são o objecto de "sonhos antigos", de "promessas de longa data" e de "projectos com dezenas de anos". Discussões sobre acessos asfaltados para muitos desses locais vão, por isso, aparecendo na ordem do dia. Como sempre se afirma, é para desenvolver o turismo. Isto percebe-se?!

quarta-feira, maio 20, 2009

Indispensabilidades

No alto de S. Lourenço (concelho de Manteigas) há um pequeno aglomerado de antigos e solenes carvalhos-negral, alguns com perto de quinhentos anos de idade. Rodeada por esses carvalhos, uma pequena capela, igualmente solene, que parece igualmente antiga. Foi construída por pessoas que subiam de Manteigas ou do Sameiro a pé ou de mula, num trajecto em que não demoravam menos que uma hora, ainda por cima carregados com os materiais de construção, pelo menos aqueles que não conseguiam produzir no local.

O sítio merece bem uma visita, facilitada hoje em dia por um estradão de terra batida, rasgado imagino que para permitir a construção do posto de vigia existente algumas centenas de metros mais a sul, onde a vertente sobre o Vale do Zêzere se acentua.

É interessante (e um pouco deprimente) constatar que, pobres e sem meios, os antigos conseguiam construir sem estradas ao passo que nós, mais ricos, mais poderosos e (alegadamente) mais conscientes, não o conseguimos fazer.

Mas deprimente, mesmo, é constatar que os pobres e fracos antigos conseguiam realizar trabalho sem estradas e sem pópós, ao passo que nós consideramos indispensáveis as estradas e os pópós, até para gozar uma tarde de sábado soalheira, para desanuviarmos do stress diário, para (absurdo dos absurdos!) nos aproximarmos da natureza. Ou não é isso que se deduz das vozes que exigem ou exigiram estradas asfaltadas para as zonas altas da serra em Unhais, em Cortes do Meio, na Guarda, em Alvoco, em Loriga, sempre justificando essa exigência com o contributo que a estrada dará para o desenvolvimento do turismo?

Assim vamos... No rumo certo, no de sempre. Estamos de parabéns.

sábado, maio 16, 2009

Para que conste

Ao entrar na UBI ontem dei com um cartaz anunciando uma caminhada na serra que me chamou a atenção. À noite, vi notícia dessa mesma caminhada no blog Máfia da Cova, de onde "roubei" o cartaz que tinha visto afixado e que agora ilustra este post.

O que esta caminhada tem de especial, o que me chamou a atenção, foi o facto de ser organizada pela Turistrela, em colaboração com a Banda da Covilhã. A concessionária exclusiva do turismo e dos desportos na área da serra da Estrela há quase quarenta anos e por várias décadas ainda por vir não nos tem habituado a este tipo de actividades, convenhamos. Nos últimos anos (que eu tenha notado, foi já depois do início do Cântaro Zangado(1)) a Turistrela começou a mostrar alguma oferta (muito incipiente, mas por algum lado se há-de começar) nas áreas principais do turismo de montanha (turismo activo, de natureza, pedestrianismo), mas que se reduzia ao que chamaram as "Experiências". Como disse há dias (e como verifiquei há uns anos) estas experiências não passam de promoções para a estadia nos hóteis da Turistrela, não constituindo assim um produto verdadeiramente autónomo, capaz de contribuir para alterar o triste panorama turístico na serra da Estrela.

Ora, mas esta caminhada agora parece ser diferente. E, porque o é, cá estou para aplaudir a (aparente) diferença. Pois que corra tudo bem, e que fiquem (os da Turistrela e os seus clientes) com vontade de repetir a experiência mais vezes!

(1) Não pretendo afirmar que há uma relação de causa e efeito entre o início do Cântaro Zangado e as alterações aparentes da postura da Turistrela (mas também não sei se se deve descartar liminarmente essa possibilidade).

sábado, maio 09, 2009

Árvores de Portugal

O blogue Sombra verde informa-nos da criação da associação Árvores de Portugal cujos objectivos principais são "a protecção e a dignificação da árvore".

A primeira iniciativa pública desta associação será a realização do seminário "Árvores Monumentais — Importância e Conservação", que terá lugar no Sabugal nos dias 25 e 26 de Junho (mais detalhes no Sombra verde).

Felicidades e muitos sucessos são os meus votos para esta associação.

domingo, maio 03, 2009

As leis ambientais podem (ou devem) servir para alguma coisa?

O Governo decidiu no final da semana passada propôr à Assembleia da República a redução do valor das coimas ambientais. E justificou a sua decisão afirmando que a viabilidade das empresas não podia ser posta em causa pela legislação ambiental!

Porquê esta questão especificamente com a legislação ambiental? Porque é que a restante legislação (fiscal, laboral, comercial, civil, etc) pode pôr em causa a viabilidade das empresas e só a ambiental é que não pode? Será que a legislação ambiental, ao contrário das outras, não serve para proteger valores reais? E se as leis ambientais não servirem exactamente para atrapalhar a vida das empresas que estiverem dispostas a violá-las, servem para quê?

Bem a propósito, li no Ondas que Obama revogou recentemente leis aprovadas por George W. Bush que fragilizavam a conservação da natureza. Como se pode ler neste artigo do Guardian, no final da sua legislatura Bush aprovou uma lei que dispensava os promotores de empreendimentos da necessária aprovação dos seus projectos por parte de responsáveis dos serviços de protecção da vida selvagem. Ou seja, Obama, no meio desta grave crise que nos afecta a todos (a mesma que o nosso governo invocou para justificar a redução das coimas ambientais), resolveu que a "simplexificação" de Bush não servia o interesse do povo que o tinha elegido. Ou seja ainda, Obama parece que não partilha a opinião segundo a qual a legislação ambiental não deve "atrapalhar" a vida das empresas. Neste ponto pelo menos, eu concordo mais com Obama do que com Sócrates.

sexta-feira, maio 01, 2009

Que serra queremos "vender"?

João Garcia (que acaba de conquistar o Manaslu, o seu 12º pico de mais de 8000m — restam dois apenas para se juntar ao restrito clube dos que escalaram sem oxigénio as catorze montanhas mais altas do mundo), respondendo a uma pergunta sobre onde escalar em Portugal, afirmou o seguinte
Eu vivo em Lisboa onde se está a trinta minutos de dois ou três bons locais para a escalada desportiva e até para a escalada clássica. Se procuras um cenário mais imponente, aconselho a Serra da Estrela a 300 km de Lisboa onde podes percorrer bons trilhos e escalar granito de qualidade. Eu já não guio grupos mas posso recomendar alguns bons amigos para tal.
(Traduzido à pressão daqui.)
Alguns comentários
  1. Fico muito contente quando oiço referências destas à serra da Estrela. O mesmo espírito se lê nos relatórios dos trabalhos em que o Paulo e a Daniela do Rocha podre e pedra dura se metem escolhendo como palco a serra da Estrela. É que também tenho ouvido a opinião de que a nossa serra, com o circo rascamente mercantilista da Torre (incluindo a estânciazinha, bem entendido), com as estradas por todo o lado, com os engarrafamentos, com o lixo, com tudo isto que alegremente temos estado empenhados em desenvolver nos últimos quarenta ou cinquenta anos, é um local a nunca mais visitar.
  2. Posso estar enganado, mas quase que aposto que os serviços da Região de Turismo da Serra da Estrela não terão tão disponíveis como João Garcia contactos para orientar caminhadas ou escalada na serra da Estrela.
  3. Mais ainda, creio que com esta frase João Garcia faz mais pelo desenvolvimento de um verdadeiro turismo de montanha na serra da Estrela (desse que toda a gente agora afirma querer desenvolver, um turismo distribuído por todo o ano, não baseado apenas na neve, de visitação mais prolongada) do que a Região de Turismo com o seu patético discurso ("Vamos acordar o gigante adormecido!") mais os seus patéticos folhetos ("Serra da Estrela - Onde a natureza vive") ou a Turistrela com as suas "experiências" que, no essencial, mais não são do que programas para a animação da estadia dos hóspedes dos seus hotéis.
  4. Que imagem da serra queremos vender? Uma que corresponda ao que João Garcia dela diz está por acaso completamente posta de lado? Mas não estaremos de facto a pô-la completamente de lado quando pedimos sempre e cada vez mais estradas, casino, esqui, sku, urbanização maciça das Penhas da Saúde (alegadamente para, veja-se lá, concorrer com os Alpes e os Pirinéus), telecabines, e tudo isso?

quarta-feira, abril 29, 2009

Ou não consideramos necessária uma RAN?

O Governo aprovou recentemente um Decreto-Lei que altera o regime da Reserva Agrícola Nacional. Na prática, facilita a utilização de terrenos classificados como reserva agrícola para outros fins que não os agrícolas. Diversos ambientalistas, incluindo a associação Quercus, lançaram uma petição à Assembleia da República com o objectivo de introduzir no diploma alterações que "garantam a conciliação do mesmo com os objectivos de preservação dos solos mais aptos para a actividade agrícola que nele estão identificados".

Encontra mais informação sobre este assunto no blogue ambio (aproveito para recomendar entusiasticamente a sua leitura regular) e no site da Quercus. Pode assinar a petição aqui.

sexta-feira, abril 24, 2009

Mais abelharucos

Hoje tive mais sorte com os abelharucos. O céu estava mais escuro, a luz mais quente e eu tive um pouco mais de tempo:

terça-feira, abril 21, 2009

O mês dos abelharucos

Abelharucos (Merops apiaster), fotografados ontem segunda feira, na Covilhã

Tenho notado nos últimos três ou quatro anos a chegada desta família de abelharucos à Covilhã, durante o mês de Abril. No ano passado cheguei a contar cinco, este ano ainda só vi estes dois.

Pois que sejam muito bem vindos, e que tenham por cá uma óptima estadia, antes de regressarem a África para o Inverno!

Adenda: hoje (Terça-Feira 21 de Abril) de manhã contei quatro abelharucos neste mesmo grupo.

quinta-feira, abril 16, 2009

Do sentir e do pensar

O que ouviu os meus versos disse-me: Que tem isso de novo?
Todos sabem que uma flor é uma flor e uma árvore é uma árvore.
Mas eu respondi, nem todos, ninguém.
Porque todos amam as flores por serem belas, e eu sou diferente.
E todos amam as árvores por serem verdes e darem sombra, mas eu não.
Eu amo as flores por serem flores, directamente.
Eu amo as árvores por serem árvores, sem o meu pensamento.
Poemas Inconjuntos (Alberto Caeiro)

O ilustre heterónimo que me perdoe, mas eu amo as árvores por serem árvores, com o meu pensamento, e acho que o meu deleite com as árvores é maior por nele estar incluído o pensamento.

Uma paisagem na serra não é só o que os olhos vêm, o que o nariz cheira, o que os ouvidos ouvem e o que a pele sente. Uma paisagem na serra (ou noutro local qualquer) é também as memórias que ela invoca, a interpretação que dela fazemos, as reflexões que ela motiva. E quanto mais soubermos, quanto maior for a nossa bagagem de memórias e de conhecimentos, mais rica é a experiência.

Para uns, um piar gargalhado e estridente na floresta é apenas mais um piar da passarada; para outros, trata-se de um pica-pau-malhado na época do acasalamento. Para uns, uma mancha verde acizentada numa pedra é só mais um líquene como há tantos; para outros é um Rhizocarpum geographicum com 8000 anos de vida (ver Bloco de notas do CISE nº 17 ou uma referência que lhe fiz aqui).

Alberto, desculpa lá, pá. O rio da tua aldeia pode ser mais belo que o Tejo, mas não o é por ser apenas o rio da tua aldeia e por não fazer pensar em nada. É porque os fantasmas que acorda em ti, no teu pensamento, nas tuas memórias, são mais belos que os que te aparecem face ao Tejo. Não há sentir sem pensar.

quarta-feira, abril 15, 2009

Quase que tinha sido melhor...

Já quase acho que teria sido melhor não se terem desmontado e removido as estruturas do velho teleférico sobre a Nave de Santo António, a que me referi há pouco. É que, enquanto aquela pouca vergonha esteve à vista, ninguém se atreveu a sugerir a construção de um novo teleférico. Mas bastou ter-se removido o entulho, para logo aparecerem os de sempre a projectar mais entulho, e do mesmo ainda por cima! E o estado cá está para pagar estes importantes, indispensáveis e bem estudados empreendimentos, e cá continua para pagar a limpeza dos fracassos.

Estamos no rumo certo, no rumo de sempre. Estamos de parabéns!

Pensar, debater e planear com pés e cabeça

Leio no blog de José Sá Fernandes que está em preparação a Nova Carta Estratégica de Lisboa, um documento que "será um refrencial estratégico para o desenvolvimento da cidade e para a concretização de projectos estruturantes, até 2024". Diz José Sá Fernandes que "Lisboa precisa de ser pensada, debatida e planeada «com pés e cabeça». Não deve andar à deriva e ao sabor de sound bytes ou impulsos de ocasião".

E na serra da Estrela? Quando ultrapassaremos o andar à deriva, ao sabor de sound bytes e de impulsos de ocasião?

Exemplos de que andamos à deriva, ao sabor de sound bytes e de impulsos de ocasião, de que não planeamos "com pés e cabeça" e de que não debatemos (nem bem, nem mal: não há debate, pura e simplesmente)? Cá vão uns poucos:

  • A instalação de uma base da Força Aérea na Torre nos anos sessenta. Que profundidade tiveram os estudos que justificaram a indispensabilidade daquela estrutura? Note-se que ela funcionou apenas durante cerca de dez anos, tendo sido abandonada pelos militares no início dos anos setenta.
  • Um modelo de gestão do turismo baseado na figura da concessão exclusiva (a da Turistrela), decidido há mais de trinta anos (ainda no tempo de Marcello Caetano, entenda-se) e válida ainda por outros tantos, pelo menos. Quem o considera benéfico? Por que razões? Quais as suas vantagens e desvantagens? Alguma instituição faz avaliações do desempenho da concessionária?
  • A vergonhosamente malograda tentativa de construção de um teleférico, entre Piornos e Torre, nos anos setenta. Quem a decidiu, como base em que estudos, que reflexão ou debate houve para a justificar? Da qualidade desses estudos, reflexões e debates ficamos com uma ideia sabendo que a obra foi interrompida já quase no final (depois de todas as estruturas instaladas), ao que me disseram porque se verificou que a intensidade dos ventos sobre a Nave de Santo António tornava perigosa a exploração do teleférico. Durante trinta anos, os cabos, as estações e a torre de suporte central, no Espinhaço de Cão, "enfeitaram" a paisagem sobre a Nave de Santo António, até que no final dos anos noventa se removeu tudo, à excepção do grande mamarracho em ruínas que ainda domina a zona, nos Piornos.
  • Pois agora, poucos anos depois de se ter removido o entulho da anterior tentativa, o "sonho" do teleférico (agora dá-se-lhe o nome de telecabine) ressuscitou, tendo-se já "apalavrado" o indispensável financiamento público e tudo. Quem decidiu que o teleférico é benéfico? Que reflexões, estudos e debates é que, desta vez, foram feitos?
  • O projecto da "minicidade" das Penhas da Saúde com que a Câmara Municipal da Covilhã afirma que quer concorrer com os Pirinéus e os Alpes, baseia-se em quê? Que debate, que reflexão, que estudos, que projecções apoiam esse projecto?
  • Aquela espécie de "feira indoor" que é o centro comercial da Torre. Quem a decidiu, com base em que estudos, que papel tem numa visão estratégica do turismo da serra da Estrela? Que consenso a justifica e mantém?

Que andamos à deriva e ao sabor de sound bytes nota-se até quando damos sinais de que tentamos não o fazer. Há alguns anos, vários municípios da região encomendaram à Universidade da Beira Interior um programa sobre o turismo na serra da Estrela, a que se deu o nome de Programa Estratégico de Turismo da Serra da Estrela (desse programa ainda está acessível o blog criado para receber opiniões externas). Esse estudo realizou-se, apresentaram-se as conclusões em 2006 e, pura e simplesmente, foi engavetado. Entretanto, foi encomendado um novo estudo, desta vez a uma equipa da Universidade do Porto liderada por Daniel Bessa. Andar à deriva.

Andamos na serra da Estrela à deriva, ao sabor de sound bytes e de impulsos de ocasião (os voluntarismos e "optimismos" do que chamo as forças vivaças). Até quando?

segunda-feira, abril 13, 2009

A Estrela não é só neve?

Veja-se o cartaz ilustrado na fotografia em baixo, tirada em Encamp, Andorra, na semana passada. Vejam-se os inúmeros trilhos sinalizados e documentados, com chamarizes especiais onde se cruzam com as estradas asfaltadas. Veja-se a quantidade de empresas de turismo de natureza e desportivo que operam nos Pirinéus, não só em Andorra como também em Espanha e França (lá não se protegem, como se faz por cá, empresas particulares com concessões exclusivas válidas por décadas). Veja-se a divulgação que *todos* os segmentos do turismo recebem (esqui, sim, mas também pedestrianismo, escalada, parapente, passeios a cavalo, corridas em montanha, canyoning, canoagem, museus, golfe, TT, gastronomia, etc, etc, etc).

A Estrela não é só neve?! Os Pirinéus é que não são só neve! E neve, por lá, há-a mesmo!

Passei alguns dias em Andorra, nas férias de esqui que tento gozar todos os anos. Nunca vi tão pouca gente nas pistas como desta vez. Bem entendido, era muita gente, ainda assim. Mas praticamente não tive que suportar as bichas nas telecadeiras e a confusão à hora de almoço que começavam a cansar-me ao ponto de me questionar sobre se realmente queria continuar a fazer férias de neve.

O responsável do hotel confirmou a minha impressão e disse que é por causa da crise. Não sei se será isso, creio que não há estudos sistemáticos que o verifiquem. Seja como for, é uma situação que talvez se deva seguir atentamente antes de investir muito dinheiro em melhorias da nossa estanciazinha.

Sobretudo se esse investimento incluir apoios públicos.

sexta-feira, abril 03, 2009

Cursos de Ecoturismo

A LPN — Liga para a Protecção da Natureza e o ICNB — Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade organizam cursos sobre ecoturismo. O primeiro (sobre "Enquadramento, legislação, exemplos nacionais e estrangeiros") já foi, mas seguem-se o segundo ("Sustentabilidade e boas práticas" a 18 e 19 de Abril) e o terceiro ("Planeamento e produtos de ecoturismo", a 16 e 17 de Maio).

Mais detalhes, incluindo informações para inscrição, aqui.

quinta-feira, abril 02, 2009

Criar Bosques

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Imagem roubada do site do projecto.

A Quercus lançou um programa de reflorestação com espécies autóctones em colaboração com o ICNB — Instituto de Conservação da Natureza e da Biodiversidade, a AFN — Autoridade Florestal Nacional, a APA — Agência Portuguesa do Ambiente e o CNE — Corpo Nacional de Escutas e contando com o apoio da Comissão Nacional da Unesco e com o alto patrocício do Presidente da República.

O nome do projecto é Criar Bosques e já foram plantadas 50 000 plantas! Toda a informação no site do projecto.

Soube disto pelo blog A sombra verde.
Algarvear a Serra da Estrela? Não, obrigado!