Este fim de semana, Artur Costa Pais(1) e a Câmara Municipal da Covilhã insurgiram-se contra a falta de eficiência do Centro de Limpeza de Neve, atribuindo-lhe a responsabilidade por os turistas não conseguirem chegar à estância de esqui.
Bem, pelo que vi na reportagem que a SIC passou no Jornal da Noite (a link pode não ser permanente), o próprio parque de estacionamento do Hotel das Penhas da Saúde também não estava nada em condições que permitissem a circulação em segurança. Ora, quer-me parecer que os acessos e os parques de estacionamento privados devem ser limpos pelos seus proprietários, não pelas ineficientes "estruturas obsoletas" do estado. Por isso, acho que vem a propósito o ditado sobre telhados de vidro e pedras atiradas ao ar.
De acordo com o que me contaram entendidos, é muito diferente limpar neve que cai com uma temperatura de -100C e se mantém no solo como um pó fino, leve e seco, e limpar neve que cai a uma temperatura de -30C, misturada com nevoeiro ou chuva miúdinha, que fica pesada de tão empapada em água, que depois solidifica durante a noite. E, ainda segundo me foi dito, é por essa diferença que é tão frequente, na serra da Estrela, ser necessário recorrer a tractores e retroescavadoras para abrir caminho (e até podemos ver uma destas máquinas na reportagem que referi acima).
Mas acontece que tenho contado o número de dias em que as estradas de acesso à Torre se encontram fechadas desde que, nesta época, abriu a estância, no dia 1 de Dezembro. Nos 64 dias que passaram desde então, as estradas estiveram cortadas em 14 dias. Nalguns desses dias não se pôde circular apenas durante a manhã, mas na minha contagem, contaram como os outros. Com tudo o que tem nevado, francamente não me parece nada mau.
E quero notar que, mesmo que haja responsabilidades humanas a apurar nesta situação, toda esta indignação da Turistrela e da Câmara Municipal da Covilhã tem um aspecto anedótico. É que, com tão boas condições que, segundo se anuncia, a serra da Estrela tem para a prática do esqui, e com tanta, tanta, neve que este ano tem trazido, mesmo assim as pistas da estância que não estão equipadas com canhões de neve ainda não estiveram abertas um único dia, segundo as informações difundidas pelo próprio site da Turistrela. Significa isto que a estância tem estado reduzida a um total de 3,6 km esquiáveis, e isto nos dias bons porque, por exemplo, ainda nos que antecederam este último nevão, na semana passada, a estância tinha abertas apenas as pistas Cântaro (155 m) e Covão (229 m), num fantástico total de 384 m esquiáveis! Peço desculpa, mas as coisas aqui na serra são o que são. E, como são o que são, armar um grande escândalo afirmando que a ineficiência da limpeza das estradas que dão acesso à estância de esqui prejudica gravemente a economia regional... Enfim.
Para terminar, a minha experiência de como as coisas se passam "lá fora" é esta: na Páscoa passada passei uma semana em Andorra. A meio da semana, veio um dia com condições parecidas com as que tivemos na Serra este fim de semana. A estância (Grand Valira) esteve encerrada. Em Dezembro, fui a La Covatilla com a ideia de esquiar dois dias; no segundo não o pude fazer porque estava a nevar e a Guardia Civil interditou a estrada de acesso à estância a meio da manhã. Noutros anos, noutras paragens, tenho por vezes sofrido situações semelhantes. É a vida.













