Presunção e água benta cada um toma a que quer, mas francamente penso que é mais fácil reencontrar o espírito do Mestre aqui no Cântaro Zangado do que na obra que autarquias, Região de Turismo e Turistrela têm deixado na serra nos últimos quarenta anos.
Eles (autarcas, Região de Turismo e Turistrela) lá saberão (?) que serra pretendem. Pelo que fizeram até agora e pelo que anunciam para o futuro, diria que é uma serra de onde esse espírito fugiu. Definitivamente.
Escrevo neste blogue porque entendo que devíamos proteger, com unhas e dentes, tudo o que na serra é especial, único, tudo o que nela transcende o ordinário, mas constato todos os dias que não o temos feito. Porque me ofende pessoalmente cada medida que rouba beleza e mistério à serra. Cada "melhoramento" ou "requalificação" que, acomodando-a ao nosso comodismo, à nossa pequenez, ao nosso provincianismo e à nossa ganância, a vulgariza e a rebaixa, lhe tira valor. [E se tem sido roubado valor à serra, caramba! As Penhas da Saúde, a Torre, estas nódoas vergonhosas são as mais evidentes. Mas são as únicas?]
Repito, entendo que devíamos proteger, com unhas e dentes, tudo o que na serra é especial, único, tudo o que nela transcende o ordinário. Porque todos teríamos mais a ganhar. E porque, a bem dizer, o que é único e extraordinário na serra não é assim tanta coisa... A nossa serra é pequena, é frágil. [Não é, claramente, como os Alpes ou os Pirinéus.] É por ter isto em mente que escrevo neste blogue.
De acordo com a Norma de Sinalização Vertical (ver o site da Estradas de Portugal), o sinal triangular ilustrado na figura acima indica descida perigosa. Para reforçar o aviso, aconselham-se os condutores a usar o motor para controlar a velocidade do veículo. É um sinal que, como seria de esperar, frequentemente encontramos na estrada Covilhã-Torre-Seia.
Recentemente, foram instalados nas estradas N339 (Covilhã-Seia) e (desta não estou 100% certo) N338 (Manteigas-Piornos) grandes placards como os que se seguem:
Encontrei estes placards pela primeira vez na famigerada IP5, na descida da Guarda para o Porto da Carne, onde era frequente incendiarem-se os travões dos camiões TIR. Justificavam-se aí sinais especiais, de grande visibilidade, dadas as elevadas velocidades de circulação que o itinerário principal permitia.
Mas, nas estradas da serra, para quê? Em estradas que não permitem grandes velocidades, que necessidades de informação há que não possam ser satisfeitas pelos sinais regulamentares?
Quanto a mim, trata-se de mais um sintoma da verborreia sinalética que anda a afectar os responsáveis por estas estradas. Uma doença incómoda mas, mais de resto, benigna (descontados os estragos na paisagem causados pelos infectados), a que chamei no título IP-ite sinalética.
Neste caso, os sintomas estão a agravar-se. Recomenda-se ao paciente uma cura de repouso, um período prolongado de inactividade absoluta. De outro modo, o seu estado poderá evoluir até chegarmos a qualquer coisa como isto:
Apesar de se tratar de uma região relativamente pequena, encontramos na Serra da Estrela uma enorme variedade de habitats, de ambientes, de hábitos e de culturas.
Por exemplo, nas encostas viradas para Norte (concelhos de Seia e Manteigas, falta confirmar no de Gouveia), sinalética rodoviária recentemente instalada informa os visitantes automobilizados da altitude do lugar, com sinais relativamente pequenos e castanhos como este:
A Sudeste, no concelho da Covilhã, a mesma função informativa foi implementada, também recentemente, através de sinais muito maiores, e de cor alaranjada:
Aqui vemos um exemplo dos efeitos de duas forças antagónicas, de dois princípios opostos: o da união, da uniformização, da homogeneização (por um lado) e o da diversificação, da adaptação, da particularização (pelo outro). Com efeito, à universal tendência para "decorar" a paisagem com ruído visual e para apoiar, encorajar, e desenvolver o turismo das voltinhas de carro, sobrepuseram-se aparentemente as diferentes sensibilidades estéticas dos responsáveis pela sinalética rodoviária nos distritos da Guarda e de Castelo Branco.
Como diria o David Attenborough naqueles documentários da BBC: "It's fascinating!"
Acho particularmente fascinante a presença da preposição "de" nos sinais da encosta Sul.
De acordo com o Diário XXI de ontem (o link pode não ser permanente), a aprovação do Plano de Urbanização das Penhas da Saúde pelos serviços do Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE) depende de um compromisso claro da Câmara Municipal da Covilhã para a demolição do "bairro ilegal, constituído por mais de 170 casas, situado na traseira da Pousada da Juventude".
Ocorre-me a este propósito o seguinte:
Nas Penhas da Saúde há outro bairro semelhante, ainda mais flagrantemente bairro da lata do que este a que se refere a notícia. Encontra-se mais a Norte, mais perto do local onde em tempos se começaram obras para a instalação de um parque de campismo. Sobre este outro bairro nada se diz na notícia.
O que a Câmara Municipal da Covilhã pretende para as Penhas da Saúde é (a acreditar no anunciado pela própria câmara) um autêntico delírio: uma estância de montanha "com que Portugal possa concorrer em termos de turismo de montanha com outras da Europa, nas cidades dos maciços mais conhecidos, como os Alpes ou os Pirinéus". A Câmara da Covilhã não compara a serra da Estrela com montanhas algo mais comparáveis como o Gerês, a sierra de Gredos, a de Guadarrama, o Ben Nevis. Não, a serra da Estrela é para concorrer com os Alpes e os Pirinéus! No mesmo anúncio, ficamos a saber o que é preciso para concorrer com os Alpes e os Pirinéus: "500 habitações e zonas de comércio que serão apoiadas por diversos equipamentos sociais, culturais e desportivos" e ainda "a criação de um Pavilhão de Gelo, uma zona multiusos para desportos e festividades e a construção de um posto da GNR". Face tudo isto, francamente: faz algum sentido aprovar seja o que for deste "plano"?
O bairro que agora se pretende demolir pode ter o aspecto de um bairro de lata. É verdade e já mais de uma vez o dissemos (por exemplo, aqui). Mas também é verdade que muitas outras casas nas Penhas da Saúde, antigas e novas, mesmo não parecendo barracas de lata, não têm muito melhor aspecto (alguns exemplos recentes, já acabados ou ainda em construção, ilustram este artigo). Não há garantias nenhumas de que as 500 habitações que a câmara pretende ver construídas nas Penhas da Saúde se venham a enquadrar na paisagem e no tecido urbano melhor do que estas casas. Antes pelo contrário: a avaliar pelo que tem sido autorizado, pretende-se aparentemente encher as Penhas da Saúde com mamarrachos novo-ricos em estilo pseudo-mamarracho-tipo-alpino-ou-sei-lá-o-quê-à-modernaça. Francamente, prefiro de longe as casinhas de lata!
Estas casas foram construídas porque diversas pessoas sentiram o desejo (que eu compreendo, mesmo considerando ilícita a forma como o satisfizeram) de usufruir de uma casinha na serra. Em contrapartida, as casas que se começaram há cinco ou seis anos a contruir nas Penhas da Saúde são condomínios com quatro a oito apartamentos, que aparecem não porque alguém, gostando da serra, pretende aí ter uma casa de férias, mas sim porque alguma sociedade de construção civil pretende lucrar com a venda dos apartamentos. (Pelo que se pode observar nas Penhas da Saúde, essa venda não está a ser tão fácil como talvez se pensasse, já que condomínios já acabados há dois ou três anos têm ainda apartamentos à venda.) Vendam-se os apartamentos ou não, constata-se que os planos da Covilhã consistem em aplicar nas Penhas da Saúde o modelo de "desenvolvimento urbano" que tem feito das nossas cidades a maravilha que se tem visto. Não me agrada, prefiro as casinhas de lata a estas apostas imobiliárias, geradoras de Quarteiras e afins.
Concluindo: não me agradam nada as casinhas do bairro atrás da pousada (nem as do outro, a que me referi acima). Mas ainda me agrada menos que se resolva o problema que elas representam pactuando com a criação de problemas ainda maiores. Para pior, já basta assim.
E claro: com tudo o que diversos serviços públicos (incluindo a Câmara) já permitiram ou até promoveram naquele bairro (iluminação pública, asfaltação de acessos, campo desportivo), é óbvio que, a serem demolidas as casas, os seus donos devem ser compensados.
Encontra-se em fase de discussão pública (até dia 3 de Outubro) o Plano de Ordenamento do Parque Natural da Serra da Estrela. Os documentos podem ser consultados e obtidos no site do Instituto da Conservação da Natureza e Biodiversidade.
... Mas não consigo decidir qual... Deixem-me acrescentar só mais um... Mas qual?... Oh!, qual?
A imagem acima mostra um aspecto dos Piornos (perto do centro de limpeza de neve), a 1600 m de altitude.
A mancha cinzenta que aparece no canto superior esquerdo da imagem é outro sinal (espanto! admiração!), colocado de costas para a câmara.
Fui hoje de manhã visitar o novo Centro de Interpretação, que o Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE) inaugurou na semana passada num dos edifícios da Torre. Fomos recebidos (eu e a minha família) por uma funcionária muito simpática e aberta, demonstrando uma grande vontade de responder a todas as nossas dúvidas mas que (e ainda bem!) não tentou impor a sua presença ou o seu tempo à nossa visita. Gostei da exposição, achei-a bastante interessante. Achei-a, principalmente, simpática e digna. E um pouco de simpatia e dignidade, naquele local, é algo que chama a atenção.
É que, a seguir, fui ao centro comercial comprar um pão centeio para o almoço, tendo sido bombardeado com insistentes apelos "oh amigo, ande venha cá provar o meu queijo", "então e um presunto pra ir co pão, não marchava?" etc. No troco, o vendedor enganou-se (de uma forma que não me pareceu, pelas desculpas que balbuciou, nada acidental), a seu favor, claro. Já cá fora, uma barraquinha de gelados debitava a altos berros uma musiquinha techno (ou lá o que era), mesmo apropriada para o local mais alto de Portugal Continental... Por todo o lado, vestígios de lixo. Ah, sim! Simpatia e dignidade, é algo que salta à vista, naquele local.
Disse há dias que havia coisas que não compreendia na decisão de instalar na Torre o Centro de Interpretação do PNSE. Não sei se as compreendo agora, mas de uma coisa fiquei convencido: que, enquanto a Torre for um local de visita massificada, é importante que se mantenha a presença de algo que ultrapasse o mercantilismo rasca dos vendedores de fancaria e das voltinhas na telecadeira. Uma presença aberta, simpática e digna. Uma presença com verdadeira qualidade. Uma presença como a do PNSE.
No dia trinta de Agosto, pelas nove horas, no Covão d'Ametade, inicia-se a campanha 2008/2009 do projecto "Um milhão de Carvalhos Para a Serra da Estrela", da Associação Cultural Amigos da Serra da Estrela. O plano é passar a manhã a apanhar sementes de bétula no Covão d'Ametade e, depois de almoço (cada um traz o seu), ir espalhá-las na cabeceira do Vale da Candieira e nas vizinhanças da Lagoa dos Cântaros. Para se ter previamente uma ideia do número de participantes, os organizadores agradecem que os interessados comuniquem a intenção para o email asestrela@gmail.com.
Há dias, o Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE) inaugurou um Centro de Interpretação da Natureza num edifício da Torre. A RTP1 fez a seguinte reportagem do evento (tirei o link do blog Estrela no seu melhor. Obrigado, Cova Juliana!):
Fico contente por este edifício ter escapado à transformação num hotel, restaurante, observatório panorâmico, ponto de apoio para a venda de forfaits ou de aluguer de material da estância de esqui e por, em vez disso, estar a ser utilizado para dar visibilidade ao PNSE e para a divulgação da verdadeira mais valia da serra da Estrela, os seus valores naturais.
Por outro lado, noto que a Região de Turismo da Serra da Estrela (RTSE) inaugurou há alguns anos na mesma zona, num edifício do mesmo conjunto, um posto de atendimento a visitantes. Encontra-se fechado(1), há muito tempo, suponho que por falta de meios para o manter aberto. O PNSE terá capacidade para fazer viver esta aposta (e para tal é preciso algo mais do que as obras no edifício e a presença de um funcionário todos os dias do ano, das nove às dezassete)? Espero que sim.
Por outro lado ainda, custa-me a compreender a lógica subjacente a esta aposta. Maria da Paz Moura afirma, a 51 s do início da reportagem, o seguinte:
No fundo, é um local onde se faz uma primeira abordagem de sensibilização da natureza, mas que depois faz uma dispersão em termos territoriais e que permite encaminhar todos os visitantes (que são mais de dois milhões e meio por ano, que nos visitam) para depois outros locais da serra da Estrela com igual ou superior interesse àquele que é a Torre.
Esta lógica do novo Centro de Interpretação como local de primeira abordagem a uma visita ao PNSE fica ainda melhor ilustrada com o comentário final do jornalista:
[...] abriu agora, com este centro de interpretação, uma porta de entrada que mostra as maravilhas da montanha mais alta de Portugal Continental.
O que me custa a perceber é se faz sentido organizar a dispersão dos visitantes(2) a partir do próprio coração geográfico e rodoviário da área protegida. Recordo que (apesar de todas aparências) a zona da Torre é o centro do PNSE, integra a Reserva Biogenética, a Rede Natura e dela escorrem linhas de água que alimentam habitats muito próximos, protegidos (e bem!) pela convenção Ramsar. É ali que faz sentido receber os visitantes numa primeira abordagem, é a partir dali que faz sentido organizar as visitas?
Faz sentido abrir uma porta de entrada para a nossa casa, bem no centro da sala de jantar?
Outros assuntos que vieram a lume com esta notícia foram os do condicionamento do tráfego na Torre, a construção de um teleférico e a instalação de parquímetros para o estacionamento. Talvez mais tarde os comente mais detalhadamente. Para já, refiro apenas que me parece que estes três assuntos, ao contrário do que é sugerido pela notícia, não estão necessariamente relacionados. Não é preciso teleférico nem parquímetros para condicionar o tráfego e a existência de teleférico e parquímetros não se traduz, por si só, num condicionamento do tráfego. Para condicionar o tráfego o que é preciso é efectivamente condicioná-lo, ou seja, não permitir o acesso de viaturas para além de um nível de afluência considerado máximo. Com ou sem teleféricos, com ou sem parquímetros.
Mas, voltando agora à lógica da "porta de entrada", o que realmente considero muito difícil de entender é que se planeie a *primeira* abordagem aos visitantes num local onde, assim se afirma, se pretende o futuro condicionamento do estacionamento e a limitação do tráfego. Isso é que não percebo, mesmo.
Outro assunto ainda de que se falou a este propósito foi o dos esgotos a céu aberto na Torre. Mas, sobre isso, já nem sei o que diga...
(1) Correcção: estive hoje (10 de Agosto) na Torre, e notei que o posto de atendimento da RTSE se encontrava aberto. No entanto, já me aconteceu dar com ele fechado, pelo que pensei que fosse esse o estado permanente. Enganei-me. Mas acho que a dúvida que levantei (sobre se o PNSE conseguirá fazer viver este centro) se justifica.
(2) E serão mesmo dois milhões e meio de vistantes por ano? Gostava de conhecer os estudos que sustentam esta afirmação. Até lá, duvido de estimativas deste tipo, e não sou o único.
O que custa mudar os hábitos do dia a dia de cada um é o que o video seguinte tenta ilustrar com o bom humor inglês à mistura...no final o que custa é pensar!
Diz José Manuel Fernandes, no editorial do Público de hoje:
Na verdade, pode contestar-se a ideia de que a simples existência de investimentos públicos na construção de infra-estruturas é importante para a economia. Para muitos isso era verdade há 30 ou 20 anos, mas já não é hoje.
Creio que é o mito de que tudo o que é investimento público em infra-estruturas é bom para a economia que justifica o entusiasmo revelado por muitos actores locais na abertura, asfaltação ou alargamento de estradas no interior da Serra. Como já expliquei muitas vezes aqui no Cântaro Zangado, quanto a mim esses investimentos não são bons para a economia local, e são até prejudiciais. Não me parece que seja bom para Manteigas que se chegue tão facilmente de carro ao Poço do Inferno, por exemplo. (Refiro este exemplo de Manteigas porque foi o primeiro que me veio à mente. Situações semelhantes ocorrem nos outros concelhos da região). Se os visitantes não tivessem essa possibilidade, mais facilmente pagariam para fazer essa visita a cavalo, de bicicleta ou a pé. Mais tempo permaneceriam no concelho. Mais frequentemente seriam levados a almoçar, jantar ou pernoitar em Manteigas. Poderá haver razões outras que justifiquem esse acesso e outros semelhantes noutros locais, noutros concelhos. Agora, quanto ao turismo, creio que eles só o prejudicam.
As máquinas prontas a entrar em acção? Talvez. Seja como for, podemos estar descansados, que o respeito pelo ambiente está sempre no topo das preocupações das forças vivas que alavancam o nosso desenvolvimento. Como se vê pelo nome da empresa. Estamos no rumo certo, estamos de parabéns! (Fotografias tiradas perto do centro de limpeza de neve no Sábado passado, dia 5 de Julho.)
Ainda a propósito do anúncio sobre a concessão das estradas da Serra que referi no último post e da "beneficiação" planeada para o trajecto Seia - Torre - Sanatório, lembrei-me que ainda há dois anos (ou terá sido já no ano passado?) o segmento Seia - Torre foi objecto de grandes trabalhos. Deles resultaram mais parques de estacionamento, o alargamento do entroncamento do Coxaril (o da estrada que sobe de S. Romão) e ainda a criação do entroncamento com a estrada de S. Bento, um pouco acima da Lagoa Comprida. Diga-se de passagem, estes dois entroncamentos ficaram com um tamanho absolutamente injustificado.
Mas, pelos vistos, não foi suficiente. Nem nunca será. Não se ordena o caos que se instala em certos (poucos, felizmente) fins de semana de Inverno. Pode, quando muito, limitar-se esse caos, condicionando o acesso de viaturas particulares à Serra. Mas não é nesse sentido que se está a trabalhar quando se anunciam estas novas obras, pois não?
O Diário XXI de hoje, dia 4 de Julho, dá o destaque principal de primeira página a uma notícia com o título "Concessão da Serra vai a concurso em 2009". Refere-se a notícia à concessão das estradas, não a do turismo e dos desportos, que por essa se têm sucedido as décadas, os regimes políticos, as correntes económicas, as modas, sem que ela se mova...
Mas voltemos à notícia. Pode lê-la na íntegra aqui. Destaco o seguinte excerto:
Melhorias entre Seia, Torre e Sanatório
O secretário de Estado adjunto das Obras Públicas, Paulo Campos, anunciou ontem o lançamento do concurso público para a beneficiação das estradas que atravessam a Serra da Estrela (338 e 339) entre Seia, Torre e antigo Sanatório, na Covilhã. O investimento previsto é de 6,3 milhões de euros ao longo de 41 quilómetros. A obra tem abertura de propostas a 20 de Agosto e os trabalhos devem começar em 2009, tendo um prazo de execução de 300 dias. A beneficiação da estrada prevê mais passeios, zonas de estacionamento e sinalização especial para não perturbar a limpeza da neve, rampas de segurança e outros aspectos. Junto à Lagoa Comprida será criado estacionamento de um quilómetro em cada lado da via.
Uma vez que os responsáveis do turismo na Serra da Estrela (Região de Turismo e Turistrela) já afirmaram que pretendem ver o trânsito na estrada da Torre muito condicionado, apresentando até essa como uma das principais razões para a necessidade da construção de um novo teleférico, suponho que não terão sido eles a encomendar estas "beneficiações". Ao fim e ao cabo, como poderiam eles justificar gastos de seis vírgula três milhões de euros numa estrada que, segundo afirmam, pretendem encerrar ao público? Aguardamos as suas tomadas de posição face a este anúncio. Mas, se não foram eles a encomendar isto, quem terá sido? E, já agora, podia, também eu, fazer uns pedidozitos? Era coisa pouca: reflorestação, reintrodução de algumas espécies já extintas, sinalização de trilhos, dinamização e apoios ao eco-turismo...
Mais comentários: porque razão entende o Ministério das Obras Públicas ser necessário um parque de estacionamento com um quilómetro de extensão em cada lado da estrada perto da Lagoa Comprida? Penso que o que aqui está em causa é, claramente, uma preocupação com os turistas. Ora na minha opinião (formada pela comparação do turismo que temos na serra da Estrela com o que existe em muitas outras montanhas da Europa, desde o Ben Nevis na Escócia à Sierra de Gredos aqui ao lado, passando nos Alpes, nos Pirineus ou no Gerês), turismo deste do chega com o carrinho, pára à beira da estrada, faz um piquenique ou escorrega na neve com um saco de plástico (conforme a estação) e vai-te embora para casa ao fim da tarde, turismo deste já temos que chegue e não me parece bem encorajá-lo ainda mais com esta beneficiação.
Além disso, acontece que a zona em questão está no interior de um parque natural que supostamente pretende, entre outras minudências, proteger a paisagem. Ninguém mais acha estranho que uma tal intervenção possa assim ser decidida e anunciada? O Ministério do Ambiente terá sido ouvido nisto? E o que terá ele a dizer?
Fotografias de telemóvel rasca... Enfim, foi o que tinha à mão.
A mil e setecentos metros de altitude, no flanco oriental do Cântaro Gordo, sobre a Lagoa dos Cântaros, bem agarrado a uma parede rochosa quando em toda a volta se vêm os "ossos" das giestas e urzes que arderam no incêndio de 2005, um pequeno conjunto de carvalhos negrais!
Foi por mero acaso que me deparei com este texto do cronista Tomaz Dentinho do jornal online "A União", da ilha de Angra. Decidi transcrever a sua crónica do passado dia 22 de Junho por um lado pela pequena referência que faz à Serra da Estrela e por outro por abordar especificamente a questão do Turismo num local (os Açores) cuja subsistencia está intimamente ligada a esta actividade económica. Este Cronista faz uma pequena análise critica sobre o que poderão ser as linhas estratégicas para o desenvolvimento do turismo nos Açores. Por agora limito-me a transcrever o seu texto:
"É isso mesmo que fomos assistindo na Serra da Estrela e nos Alpes, nos Himalaias e nas Montanhas Rochosas. Se não tivermos cuidado é isso que acontecerá em São Miguel e em outros locais bonitos dos Açores que facilmente se degradarão se não houver desígnio. Há várias soluções para evitar a prostituição dos sítios. A primeira dessas soluções é evitar qualquer contacto com o “mal” turístico, impedindo a construção de alojamentos e dificultando as acessibilidades aos pontos mais bonitos. Foi essa a fama com que ficou Mota Amaral quando não tomou grandes medidas para promover o turismo nas Ilhas dos Açores. A segunda solução é concentrar o turismo de massas em determinados locais bem confinados e libertar os sítios mais bonitos para aqueles que têm capacidade para neles viverem, ou porque lá trabalham ou porque aí têm capacidade para comprar as poucas casas disponíveis e autorizadas. Foi essa solução que ouvi defender há uns anos num Congresso sobre Turismo por um espanhol. Turismo, para ele, era turismo de massas concentrado em determinados locais como Benidorm ou Torremolinos, para que o restante espaço não seja ocupado por betão e por estradas. A terceira solução para evitar a prostituição dos sítios é deixar que as actividades de trabalho e lazer dos residentes sejam marginalmente partilhadas por visitantes. 15% de visitantes e 85% de residentes é o máximo de capacidade de carga para que não haja adulteração das actividades de trabalho e de lazer dos residentes, conforme nos reporta um grego que fez um estudo sobre diversas ilhas do Mar Egeu. É isso que se faz em Paris, em Londres, Nova Iorque e um pouco em Lisboa, onde os residentes pouco se importam com os turistas marginais que vão passeando entre o comércio e os monumentos. Há ainda a possibilidade de assumirmos uma sociedade pendular a nível mais global, um pouco como havia por aqui, entre as Fajãs de São Jorge para passar o Inverno naquela ilha, e as Adegas do Pico para passar o Verão na ilha montanha. A primeira solução não é defensável nos tempos que correm. Até porque quanto mais tentarmos proteger um local da invasão turística mais ele será procurado por esses novos bárbaros. Também porque, muitas vezes, a única forma de manter algumas pessoas e actividades em espaço rural é através de uma aposta, mesmo que marginal, na actividade turística. A segunda solução é pragmática e de certa forma aplicável aos Açores. Deixemos concentrar o turismo de massas em Ponta Delgada e - porque não - no Faial, para que as outras ilhas possam albergar os que têm capacidade para neles viverem, porque lá trabalham ou porque aí têm capacidade para comprar as poucas casas disponíveis e autorizadas. A terceira solução consubstancia esta faceta complementar do turismo de massas. Neste caso a estratégia é apostar noutras actividades geradoras de riqueza, como o vinho e a pesca na Graciosa, o queijo em São Jorge, a carne e o vinho no Pico, os touros, a logística, o queijo e a educação na Terceira. Depois chegarão alguns turistas mas fundamentalmente aqueles que gostam de peixe, de queijo, de carne, de vinho, de touros, de educação e de logística. A quarta solução só se entende para os migrantes. No fundo pessoas que ainda se encontram enraizadas nos locais para onde gostam de viajar durante as férias. Para isso não é preciso haver grandes políticas pois a vinda de pessoas é assegurada pelos seus familiares e amigos. Basta que possibilitem passagens baratas e poucos entraves aos vistos, e toda a gente gosta de visitar para gerir a saudade.
Não há dúvida que na terceira e quarta solução a Terceira é a ilha mais animada conforme nos reporta Sandro Paim."
Actividades como esta, infelizmente, nunca são demais! Queria aproveitar para felicitar todo o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido pela Associação Manteigas Solidária nos mais diversos domínios em parceria com as entidades de representação local. (via blog de Manteigas)
Como estava pela zona da prova aproveitei para tirar algumas fotografias que passo a divulgar. Depois de uma breve trégua na inclinação do terreno ao passar pela Nave de Santo António os atletas iniciavam a dura subida do Espinhaço. Clickem nas figuras para as verem ampliadas. É realmente uma prova fantástica! Este ano a utilização de zonas de asfalto foi ainda mais limitada demonstrando a verdadeira natureza off-road desta prova. adenda: depois de fazer este post descobri na página do Clube Montanhismo Guarda uma galeria de fotos aqui.
Encontrei no Domingo um esquilo morto por atropelamento na estrada nacional N338, na zona da mata perto da Nave de Santo António. É triste, mas é também sinal que há esquilos a 1600 m de altitude...
As florestas, mesmo as pequenas, são mesmo ilhas de biodiversidade!
A Federação Portuguesa de Montanhismo e Escalada, em conjunto com o Clube de Montanhismo da Guarda e com a Associação Amigos da Serra da Estrela realiza este Domingo a segunda edição do Circuito dos Três Cântaros, a meia maratona mais espectacular que conheço. Do fundo do vale do Zêzere, junto à casa abrigo da ASE, para a Nave de Santo António, para a Santa, para a Torre, para o Terroeiro, para a barragem do Padre Alfredo, de novo para Nave de Santo António e de volta à casa abrigo. Cerca de vinte quilómetros, com mais de mil metros de subida acumulada.
No ano passado demorei três horas para percorrer este percurso. Este ano, infelizmente, não tenho possibilidade de participar. Paciência, fica para a próxima.
Paralelamente à corrida, decorre um passeio pedestre, de menor extensão.
O que mais me agrada nesta organização é o apelo que fazem ao respeito pelo ambiente do local em que decorre e a enfâse que põem na responsabilidade individual de todos, até dos próprios organizadores:
O CIRCUITO DOS 3 CÂNTAROS DESENROLA-SE NO CENÁRIO DE EXCEPCIONAL BELEZA NATURAL DO PARQUE NATURAL DA SERRA DA ESTRELA, PELO QUE SERÁ OBRIGAÇÃO DE TODOS PRESERVAR O MEIO AMBIENTE EVITANDO ABANDONAR DESPERDÍCIOS FORA DAS ÁREAS DE CONTROLO.
DO NOSSO COMPORTAMENTO (ORGANIZAÇÃO E PARTICIPANTES) DEPENDERÁ O FUTURO DA PROVA.
(Retirado textualmente da página web da prova.) Ah!, assim se fizesse tudo na Serra, assim se portassem todos os promotores de eventos na Serra...
Apresento em baixo mais um exemplo de como as vias rápidas e confortáveis, como a "tão ansiada" Estrada Verde com que se pretende abrir um novo acesso da Guarda ao Maciço Central através do Parque Natural da Serra da Estrela, são, de facto, uma mais-valia para o usufruto da paisagem e do ambiente desta área protegida, e também para o admirar da vida selvagem. Ou deveria antes dizer da morte selvagem?
A minha primeira (e única, até agora) fotografia de um texugo. Jazia ontem morto após atropelamento, à beira da Nacional 18, entre a Covilhã e o Teixoso.
Um livrinho impagável que desmonta os argumentos que defendem o desenvolvimento "alavancado" nos grandes projectos imobiliários, na "requalificação" de espaços naturais, num certo tipo de turismo e de turistas, mostrando como interesses muito particulares se fazem passar pelo interesse público. Parece incrível como é que, quase quarenta anos depois de publicada esta deliciosa pérola, ainda é possível encontrar nos nossos jornais de referência (nomeadamente nos seus muy sérios cadernos de imobiliário) anúncios que parecem copiados do que aqui deixo abaixo.
Clique na imagem para a aumentar.
"O domínio dos deuses", uma aventura de Asterix e Obelix, por Goscinny e Uderzo. É caso para dizer: "Estes nossos alavancadores estão loucos!"
Artur Costa Pais é administrador e proprietário da Turistrela, a empresa concessionária exclusiva do turismo e dos desportos na serra da Estrela, de acordo com os Decretos-Lei 3/70 (28 de Abril de 1970), 325/71 (28 de Julho de 1971) e 408/86 (11 de Dezembro 1986). Até quando durará este anacronismo do Estado Novo?
Na revista Única do Expresso desta semana, um artigo de Luísa Schmidt conta-nos que, para garantir a continuidade do fornecimento de água de qualidade, a edilidade de Nova Iorque, em poucos anos
"comprou todos os terrenos que pôde no entorno das reservas hídricas a fim de preservar nelas as suas florestas e zonas húmidas - autênticos «tampões» contra a poluição. Simultaneamente, criou incentivos financeiros para os proprietários locais fazerem a gestão florestal e agrícola correctas, fornecendo-lhes apoio técnico."
A alternativa a esta linha de acção era a instalação de caras (na construção e no funcionamento) estações de tratamento de água. Os resultados dessa aposta, segundo Luísa Schmidt, estão agora a aprecer:
"a cidade de Nova Iorque poupou milhares de dólares; os seus citadinos têm hoje água muito melhor e a menores custos; a população rural foi ressarcida pelo serviço ambiental prestado a toda a comunidade e a área das reservas entretanto criada tornou-se uma zona protegida onde se pode passear e usufruir a paisagem. Qualquer dia a água de Nova Iorque pode ser vendida em garrafas."
Mais um exemplo de como nem sempre um desenvolvimento a sério vem nas pás das escavadoras, nas betoneiras, nas grandes obras de construção civil. Mas tente-se afirmar esta verdade óbvia e cristalina cá em Portugal...
Libertação de uma Coruja-das-torres (Tyto alba) após internamento no CERVAS devido a ferimentos.
O Centro de Ecologia, Recuperação e Vigilância de Animais Selvagens (CERVAS), em Gouveia, apresenta a seguinte lista de propostas para estágios (não renumerados), com a duração de seis meses:
Parasitologia em animais selvagens
Libertação de Animais Recuperados – Preparação e Acompanhamento
Gestão e Manutenção de um centro de recuperação
Programa Antídoto - Portugal
Educação e Divulgação Ambiental – Edição de Material Pedagógico
Os interessados devem contactar o CERVAS/PNSE através do email cervas.pnse(at)gmail.com
Finalmente, "abriu" o site de internet do Centro de Interpretação da Serra da Estrela, da Câmara Municipal de Seia! O URL é http://www.cise-seia.org.pt.
Vivenda (ou condomínio?) iniciada no início do Verão de 2007.
Já nem falo da falta de neve e da dimensão comparativamente modesta da Serra da Estrela face aos "maciços mais conhecidos, como os Alpes ou os Pirinéus". Falo dos mamarrachos que a própria Câmara Municipal da Covilhã tem autorizado nas Penhas da Saúde, como estes dois que aqui mostro neste post, ainda não concluídos. E o historial de mamarrachos neste aldeamento / aldeia / minicidade de montanha vem de há muito, muito tempo...
Será possível? Mesmo que o seja, será este o caminho?
Hoje de manhãzinha estive no Covão d'Ametade. Pude constatar que o lixo que por lá se encontrava espalhado, que foi referido pelo blog Estrela no seu melhor, já foi limpo.
Suponho que a triste situação, que se prolongou durante algumas semanas, se deveu à colocação no local de objectos que pareciam caixotes do lixo sem tampa (como o que aparece na fotografia abaixo, "roubada" do Estrela no seu melhor). As pessoas que fazem piqueniques no Covão d'Ametade colocavam aí os seus lixos, em vez de o fazerem nos contentores estacionados à entrada do local, junto à estrada. Como esses lixos não eram retirados, os animais selvagens (raposas, principalmente) espalhavam-nos, à procura de comida. Agora esses caixotes foram retirados e o Covão d'Ametade voltou a estar relativamente limpo.
A quem devemos agradecer este trabalho? À Câmara Municipal de Manteigas? Ao Parque Natural da Serra da Estrela? Não sei. Seja quem for, bem hajam!