sexta-feira, agosto 31, 2007

Respeito e responsabilidade

Por falar em caça no Parque Natural da Serra da Estrela, um excerto do livro "Tuaregue" de Aberto Vázquez-Figueroa, dá-nos que pensar. A personagem principal é uma espécie de D. Quixote dos tuaregues, o povo nómada que durante séculos controlou as rotas comerciais através do Sahara. A páginas tantas Gacel Sayah, O Caçador (tais são o nome e o cognome da personagem) avista um bando de antílopes, e a necessidade leva-o a caçar um. Depois de se colocar convenientemente e de carregar a espingarda, prepara-se para escolher o seu alvo, ocorrendo-lhe o seguinte pensamento:
"Quando abates um macho, outro mais jovem ocupará imediatamente o seu posto e cubrirá as fêmeas — ensinara-lhe o seu pai. — Quando matas uma fêmea, estás a matar também os seus filhos e os filhos dos seus filhos, que deveriam alimentar os teus filhos e os filhos dos teus filhos."
(pág. 45)

Reconheço que Gacel Sayah não passa de uma personagem de ficção. É fácil a nobreza quando não se é senão o resultado das divagações literário-moralistas de escritores bem intencionados. Mas também é verdade que de muitas personagens veneráveis, históricas ou não, sabemos muito mais pela ficção (mesmo que antiga) do que por registos históricos fiáveis. É por esses registos para-ficcionais, muitas vezes incertos, muitas vezes escritos muito posteriormente à época em que essas personagens supostamente viveram, que as veneramos. Dois exemplos, um histórico, o outro nem tanto: Viriato e Robin dos Bosques. Onde quero chegar é que não é por uma personagem ser de ficção ou semi-ficcionada que o seu exemplo perde o valor.

E qual é o valor do exemplo de Gacel Sayah? Que um indivíduo, mesmo quando age movido pela necessidade, pode e deve impor a si mesmo regras de conduta que lhe permitam minimizar os impactos negativos da sua acção. Não é uma lei do estado (de um estado que ele, Gacel, nem sequer [re]conhece, diga-se), não é a vigilância policial, não é qualquer pressão externa o que obriga Gacel a agir correctamente. É o respeito que tem pelo deserto, pelas gerações vindouras e por si mesmo, e a consciência viva de ser o único responsável pelas consequências das suas acções. É a sua Honra(1), em suma.

É claro que vem a propósito confrontar este cuidado com o terrorismo furtivista, ou com o incrível das alegações de caçadores que se mostram contrariados por se protegerem certos carnívoros (raposas, por exemplo), por serem concorrência e fazerem escassear as espécies cinegéticas. É claro que vem à mente a canção de José Afonso "Eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada", agora num contexto muito mais literal do que o que era intenção do cantor.

Faço um apelo. Apesar de a lei, pelos vistos, o permitir, ninguém é obrigado a caçar em lugares que, supostamente, deviam ser abrigo para as espécies selvagens. Cada caçador é responsável por cada tiro que dá, por cada animal que abate. O Governo, a Câmara da Covilhã, a Junta de Freguesia da Vila do Carvalho ou o Parque Natural da Serra da Estrela, terão uma responsabilidade indirecta, decerto, por não proibirem liminarmente a caça no interior do Parque. Mas o responsável directo e principal por cada animal que abater é você, caro amigo caçador.
Por favor, não cace no interior do Parque Natural da Serra da Estrela. Deixe algum refúgio à vida selvagem. Já que mais não seja, para que os seus filhos, e os filhos dos seus filhos, possam também caçar animais selvagens.

(1) Conceito que Rui Tavares magistralmente distinguiu, num artigo publicado esta semana no Público, da comparativamente desprezível honorabilidade a que se agarram certas personagens públicas com pouca ou muito duvidosa honra.

Nota posterior: esqueci-me de dizer que gostei muito deste livro de Aberto Vázquez-Figueroa, mesmo muito. Mesmo quando a personagem principal, que vai conquistando a nossa admiração página após página, nos desilude, por vezes miseravelmente.

Protegida de quê?

A caminho das Penhas da Saúde pela estrada, dei ontem com o sinal em baixo, na curva perto do Covão do Teixo. Foi colocada na segunda quinzena do mês de Agosto, quase aposto, porque não me lembro de a ter visto antes (mas pode ter-me escapado, claro).

Não percebo nada disto, mas suponho que este sinal indica que a zona do Covão do Teixo é uma zona onde a caça é permitida, condicionada pelos termos da lei que rege as zonas de caça municipal e pelos do Processo nº 4315 DGRF. Não faço ideia de quais sejam esses termos.

O sinal está afixado mais ou menos no local sinalizado com o triângulo circundado a vermelho, no mapa em baixo. A localidade no canto inferior direito é a Covilhã, o casario no canto superior esquerdo é as Penhas da Saúde. A linha rosa é (mais ou menos) a fronteira do Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE).

Esta zona de caça municipal está, portanto, bem dentro do território do PNSE.

Outra zona de caça bem dentro do PNSE é uma perto do Alto de S. Lourenço, no Concelho de Manteigas. Decerto haverá outras de que não tenho conhecimento. Isto, já para não falar das zonas de caça nas fronteiras do parque. Ou do furtivismo.

Zonas de caça, urbanizações, aldeamentos, estâncias de esqui em permanente ampliação (mesmo sem neve), estradas mais ou menos verdes, Voltas a Portugal em bicicleta, acesso rodoviário desordenado e sem restrições, parques eólicos, barragens... O PNSE é, de acordo com algumas leis, a maior área protegida nacional. Mas, na realidade, é protegida de quê, ao certo?

A crítica que obviamente está implícita na questão com que acabei este post não a quero dirigir apenas à direcção do PNSE. É dirigida a todos nós.

quarta-feira, agosto 29, 2007

Parabéns e bem hajam

O Centro de Interpretação da Serra da Estrela (CISE) da Câmara Municipal de Seia reuniu perto de uma centena de voluntários na zona da Torre no dia 18 de Agosto, para uma operação de recolha de lixo disperso! Como resultado, foram recolhidos 920 kg de resíduos, entre sacos de plástico, latas de bebidas, pilhas, garrafas de vidro, restos de trenós, latas de tinta, cabos, ferros, pedaços de madeira e até um frigorífico. Mais informação disponível no Diário as Beiras.

Para que servem estas iniciativas? Para limpar, por pouco que seja; servem como veículos para a educação ambiental, obviamente; servem para chamar a atenção, como medidas mediáticas. Procura-se o protagonismo? Não, mas procurou-se (pelo menos no caso da 1ª caminhada pelo ambiente da Serra da Estrela) o mediatismo: com medidas como estas dá-se um (pequeno, admito) abanão nas consciências dos que nos visitam e que cá deixam o lixo. Mais importante ainda, gostava que os responsáveis pela gestão do turismo e da conservação da natureza da Serra da Estrela notassem com estas operações o urgente que é a definição de regras de ordenamento do acesso à zona da Torre.

O CISE é um organismo da Câmara Municipal de Seia. Pela sua criação, os parabéns no título deste post extendem-se também à autarquia senense. Perante a inexistência de organismos semelhantes nos restantes concelhos da região, o que se pode dizer?

A não perder

Alguns aspectos da política ambiental da actual Câmara da Covilhã foram aflorados num discurso do sr. presidente Carlos Pinto, por ocasião da inauguração de um parque infantil no bairro Penhas Sol, nas Penhas da Saúde. O discurso está disponível (em vídeo) no youtube ou no blog O Suplente.
A não perder, mesmo, é a demolidora análise que lhe faz o Pedro do blog A Sombra Verde.

Já nos referimos ao bairro Penhas Sol das Penhas da Saúde por diversas vezes aqui no Cântaro Zangado. Veja, por exemplo, aqui, aqui, aqui, aqui e, com a minha opinião particular um pouco melhor explicada, aqui.
Quero sugerir um nome para a inaugurada infraestrutura. À semelhança do parque de campismo do Ferro, da sala de cinema do Dominguizo e da ponte rodoviária entre o Peso e o Pesinho, acho que este importante e há muito esperado benefício devia ser batizado "Parque Infantil Carlos Pinto", ficando assim, espontaneamente (claro!), lavrado o reconhecimento dos numerosos "residentes" do bairro Penhas Sol nas Penhas da Saúde.

terça-feira, agosto 28, 2007

Opiniões bem fundamentadas

Sobre a nova barragem das Penhas da Saúde, que a Câmara Municipal da Covilhã planeia construir no vale da Ribeira das Cortes, ou melhor sobre o seu estudo de impacto ambiental e a correspondente avaliação de impacto ambiental manifestei-me aqui e aqui(1).
Mas volto a este assunto porque o Jornal do Fundão publicou na semana passada uma notícia sobre um particular, proprietário de um terreno e de uma casa na zona a ser alagada, que agora vem protestar contra a obra. O texto do artigo pode ser consultado no site do JF para quem tiver password ou no blog Cortes do Meio.
Não me quero pronunciar sobre este diferendo em concreto, mas sobre uma parte da notícia. Uma das objecções levantadas pelo proprietário descontente é de ordem turística e tem o apoio do autarca (ou ex-autarca, não sei bem) Alçada Rosa:
“Durante oito a dez anos vamos ver naquele vale, uma das áreas mais bonitas da serra, um monte de terra e pedras francamente feio”, enquanto “a zona debaixo não tinha esse inconveniente”, sublinha. Alçada Rosa e Luís Alçada estão de acordo que a solução aprovada “será também prejudicial para o turismo” e, em especial, para o hotel das Penhas, da Turistrela.
O jornalista contactou o administrador da Turistrela pedindo-lhe comentários sobre este argumento, tendo recebido esta pérola como resposta:
“Não conheço o projecto mas não tenho dúvidas que será um benefício para o turismo da Serra da Estrela mesmo em termos visuais”, defende, por seu lado, Artur Costa Pais. O administrador da Turistrela louva “a coragem e persistência da Câmara para concretizar o empreendimento”, que será “uma riqueza para a região e um benefício para o turismo”. A obra “não vai afectar o hotel e só temos a agradecer a localização da barragem”, diz o responsável da Turistrela que faz “votos para que seja construída rapidamente”.
Eu também não conheço o projecto, tenho portanto igual fundamento para considerar que esta barragem não vai beneficiar em nada o turismo. A Turistrela está agora a começar a apostar (assim parece, pelo menos) em passeios pedestres, de BTT e interpretação da natureza. Vê com bons olhos a destruição daquela paisagem, pelo menos enquanto as obras durarem? Como Luís Alçada e Alçada Rosa, receio bem que a "rápida construção" desta barragem se prolongue por vários anos.
Esta barragem é também conhecida como Barragem das Penhas II. Isto porque já há uma barragem nas Penhas da Saúde, conhecida também como barragem do lago Viriato. Pois bem, a Câmara Municipal cercou esta albufeira com uma rede, vedando o acesso das pessoas à água, impedindo até os passeios pelo muro da barragem. Que interesse é que, nestas condições, aquele espelho de água tem para o turismo? Alguém sabe se as regras para o acesso à albufeira da barragem Penhas II serão diferentes?

(1) Não o fiz pelos canais oficiais, basicamente por insegurança e falta de disponibilidade. A questão é que teria que obter o estudo em si (fiz a minha análise baseando-me apenas no resumo não técnico, que estava disponível online), coisa que me pareceu na altura complicado.

domingo, agosto 19, 2007

Ele há coisas!

A propósito da divulgação do Cine'Eco deste ano andava a "surfar" nos sites relacionados até que cheguei à página do Parque Florestal de Monsanto (Lisboa) e deparei-me com o seguinte alerta logo na "entrada":

Até ao próximo dia 30 de Setembro, não é permitido fazer fogo no interior do Parque Florestal de Monsanto, mesmo nos grelhadores dos Parques de Merendas. De acordo com a alínea a) do art. 28º do DL nº 124/2006, não é permitido “Realizar fogueiras para recreio ou lazer e para confecção de alimentos, bem como utilizar equipamentos de queima e de combustão destinados à iluminação ou à confecção de alimentos;" durante o período crítico (1 de Julho a 30 de Setembro, segundo a Portaria n.º 755/2007)), independentemente do nível de alerta.
Ajude-nos a proteger a nossa floresta!

Repararam bem naquela parte que dizia que não era permitido fazer fogo "mesmo nos grelhadores dos Parques de Merendas"!! Então e o que se passa aqui no Parque Natural da Serra da Estrela? Instalam-se os belos dos fogareiros no coração do Parque Natural e aparentemente permite-se a sua utilização (basta lá ir ver) durante todo o periodo critico dos incendios!
Bolas, eu tenho muito respeito e gosto imenso do Parque Florestal de Monsanto mas tenho muito mais pela Serra da Estrela. Aliás por isso é que um está classificado por legislação e o outro nem por isso. Então, expliquem-me porque é que parece haver muito mais rigidez e controle no Parque Florestal de Monsanto (PFM) do que no Parque Natural Serra da Estrela (PNSE)? Expliquem-me tambem porque é que o PFM tem uma página de internet dedicada e completissima divulgando um sem numero de actividades, eventos, informações e eu sei lá mais o quê, enquanto que o PNSE tem uma misera referência na página generalista do ICNB sem uma unica informação relevante para quem o pretende visitar? Como é que isto se admite?
Não me venham dizer que é porque está no meio de lisboa e porque tem a camara a financiar e tal, porque a verdade é que há cerca de 10 anos o PFM era frequentado apenas por prostitutas e toxicodependentes e mesmo de carro as pessoas evitavam por lá passar! Hoje em dia, Monsanto foi completamente devolvido à população!Fecharam-se estradas até!Imaginem...
E como é que isto tudo foi conseguido? Para mim existem duas razões principais para o sucesso do projecto PFM:
1)Houve vontade politica!
2)Existe apenas uma entidade a gerir o PFM

E por hoje fico-me por aqui com as comparações destas duas realidades...

Cine'Eco 2007 - 22 a 27 Outubro

Estão abertas as inscrições para o Festival Internacional de Cinema de Ambiente de Seia 2007! As inscrições terminam a 31 de Agosto enquanto que o prazo para entrega de cópias termina a 15 de Setembro conforme comunicado emitido pela Organização do Festival.
Ainda conforme o mesmo comunicado, o novissimo espaço do CISE será o centro das atenções pois é no seu auditório que serão exibidos os filmes a Concurso. Lembro que o espaço do CISE está também dotado de Galerias e diversas salas de apoio - Centro de documentação, espaço Internet,fototeca, laboratórios, etc. No entanto, as várias sessões temáticas continuarão a ser exibidas nos auditórios da Casa Municipal de Seia!

Mais informações aqui

Faço votos que o CINE'ECO deste ano sejam mais uma vez um sucesso e espero desta vez conseguir lá passar!

quinta-feira, agosto 16, 2007

Os "Bastidores" da Volta na Torre

A RTP passou hoje (16/08/07) uma reportagem no programa "Portugal em Directo" sobre os impactos da passagem da Volta a Portugal pelo PNSE. Devo dizer que a organização da prova, representada por Joaquim Gomes (JG), não ficou muito bem na fotografia!
Dois dias depois da "etapa da Torre" todo o lixo produzido no âmbito deste evento ainda lá continuava! Desde garrafas de champanhe a publicidade dos próprios patrocinadores, contentores de lixo a rebentar pelas costuras até multiplas pinturas pelas rochas!
Caro Joaquim Gomes, tem toda a razão!Os apelos feitos pela PDSSE há dias foram completamente despropositados e apenas procuravam protagonismo!
Fiquem então a saber que as queixas vieram até da Turistrela pela voz de Mónica Paixão!!Imaginem como é que aquilo não deve ter ficado! Pelo que vi na TV, e a bem da verdade, a intenção inicial deve ter sido boa, ou seja, o lixo que conseguiram apanhar foi todo reunido em sacos plásticos grandes e deixados na berma da estrada para eventual posterior recolha. O problema deve ter sido o feriado, e as férias e o "stress pós-traumático" de organizar uma prova destas (esta é do meu comparsa LJMA) ou outro. Mas a verdade é que o ambiente não se compadece com nenhum destes factores e o que aconteceu é que o vento, os animais e sei lá mais o quê trataram de abrir sacos, espalhar lixo e acabar com qualquer hipótese de manter a zona pelo menos tão limpa como havia sido encontrada quando a Volta lá chegou!
O que também fez com que JG não ficasse bem na fotografia foram as criticas tecidas à PDSSE até porque, segundo declarações do recentissimo director do PNSE à RTP, a organização da Volta não fez nenhum contacto prévio com os responsáveis desta Área protegida no sentido de delinear um código de conduta para reduzir os impactos deste evento! Mais uma vez se vê a falta de fundamentos nas preocupações da PDSSE.

Para terminar gostaria de referir as declarações de José Maria Saraiva (ASE) quando diz que da mesma forma que os dirigentes dos clubes são responsabilizados pelo que se passa durante um evento no seu estádio também os dirigentes da volta deveriam ser responsabilizados pelos impactos negativos originados pela realização do evento!Para mim isto é de uma coerência brutal!

Não há 2 sem 3!

Depois da acção promovida pela PDSSE no dia 12 de Maio, da limpeza do Zêzere promovida pela CMManteigas e AMSolidária no dia 30 de Junho, é agora a vêz do CISE da CMSeia promover uma acção de limpeza da zona da Torre no próximo dia 18!
Vamos lá quem tiver pela zona, de férias ou com algum tempo livre, ajudar em mais uma acção de sensibilização mas tambem com utilidade!

O ponto de encontro é às 10h na Torre

Estas acções por si só não resolverão o problema do lixo abandonado na Serra da Estrela mas são uma forma de passar "a mensagem" e mostrar às pessoas que quando o saco plástico ou o papel do gelado voam para longe, para longe da vista, não significa que desapareçam! Simplesmente deixam de o ver naquele momento mas acontece que muitas outras pessoas que gostam de andar pelos vales e ribeiras da Serra continuam a vê-los e cada vez em maior quantidade!
Vamos lá então todos contribuir para que acções destas como a do CISE sejam cada vez menos necessárias.

Não Abandone o seu LIXO!

quarta-feira, agosto 15, 2007

A PDSSE na Volta

A Plataforma pelo Desenvolvimento Sustentável na Serra da Estrela tentou dar a maior visibilidade aos apelos que fez por uma Volta a Portugal em Bicicleta com um mínimo de impato ambiental. Uma das iniciativas foi a colocação de uma faixa na Senhora do Espinheiro, perto de Seia, que se apresenta nas fotos abaixo. Os apelos que a PDSSE fez foram referidos aqui no Cântaro Zangado neste artigo, e deles fizeram eco diversos orgãos de comunicação. Recordo que não colocámos quaisquer objecções à passagem da volta, apenas pedimos alguns cuidados aos organizadores, patrocionadores e, principalmente, aos assistentes e aos apoiantes dos ciclistas.
Estranhamente, o director da prova, Joaquim Gomes, criticou as nossas recomendações e acusou-nos de procurarmos protagonismo.
Das seis recomendações que fizemos, qual ou quais é que merecerão as críticas de Joaquim Gomes? E porquê? Há modo de fazer apelos semelhantes sem se incorrer na suspeita de "procura de protagonismo"?

terça-feira, agosto 14, 2007

A maxi-iluminação da mini-cidade

Tenho passado temporadas de férias nas Penhas da Saúde desde que me lembro. Desde que me lembro que acontece, em noites de Julho e Agosto particularmente amenas, ficar na conversa à noite, na rua. Nessas ocasiões, os olhares e, por vezes, as conversas iam parar às estrelas, cuja presença se impunha, ostensiva. Foi assim com os meus pais, quando era criança, foi assim mais tarde, com as namoradas, foi assim com os meus filhos, mais recentemente.
Até que a Câmara Municipal da Covilhã resolveu transformar as Penhas da Saúde numa magnífica mini-cidade (ver mais propaganda aqui), com iluminação pública à altura de uma magnífica mini-cidade. O ambiente nocturno das Penhas da Saúde agora é o que a fotografia acima ilustra. Parece a segunda circular, em Lisboa. A abóbada celeste já não se impõe como antes, já não é evidente, com um relance pela janela, se (feliz ou infelizmente) há ou não luar.
Pela iluminação pública, já não se notam diferenças entre as Penhas da Saúde e qualquer pólo turístico urbano. Pela iluminação pública, existem agora menos razões para preferir as Penhas da Saúde a Quarteira.
Talvez a Serra da Estrela ainda seja, um pouco, Onde a Natureza Vive (como propagandeia a Região de Turismo). Mas, nas Penhas da Saúde, ela vive um pouco menos desde que se levou a cabo esta "requalificação".
Passo a passo, vão-nos levando a natureza. Passo a passo, vão-nos deixando o quê?
E tudo isto, para quê?

A fotografia foi tirada sem flash, sem tripé, sem apoio especial. O tempo de exposição (regulado pelo modo automático da câmara) foi suficiente curto para a imagem não ter ficado tremida. Daqui se pode fazer uma ideia mais clara da claridade das noites nas Penhas da Saúde.

Apelo Renovado ao Respeito pela Serra na Volta

A Plataforma enviou uma carta a todos os agentes envolvidos na festa da Volta a Portugal 2007 para que esta se desenrole dentro do maior respeito pela area protegida da Serra da Estrela. Deixo aqui um exerto que poderão encontrar na integra no site da PDSSE:

"(...)Vimos desta forma solicitar a todos os agentes envolvidos na Volta a Portugal em Bicicleta 2007 que adoptem e divulguem activamente as seguintes práticas em particular quando se encontrem na área do Parque Natural:
1-Não abandonar lixo nem fazer pinturas nas rochas.
2-Não estacionar os veículos fora da estrada. Existem locais próprios para isso.
3-Não fazer fogo!
4- Recolher o lixo provocado pela passagem da caravana.
5-Evitar distribuição de bandeirinhas e panfletos na área do Parque Natural pelos agentes publicitários.
6- Divulgar activamente e repetidamente os pontos anteriores.(...)"

E agora vão lá marcar lugar para apoiarem os corajosos ciclistas que pedalam serra acima!Boa Volta!

domingo, agosto 12, 2007

Miguel Torga - Centenário

imagem retirade de http://drcn.do.sapo.pt/
De seu nome Adolfo Correia da Rocha, adoptou o pseudónimo de Miguel Torga por reflectir quem era: um duro com raizes em rocha dura em terras Ibéricas. Era um amante dos montes e serranias selvagens e agrestes. Percorreu-as desde tras os montes às beiras. Dizia da Estrela que era "alta, imensa e enigmática" e que "tudo se cria nela".
Que diria Miguel Torga se visitasse hoje a Serra da Estrela? E que diria do homem beirão?Continuará "Teimoso como um Sísifo voluntário"?

Presto aqui a minha homenagem a um homem que sabia as virtudes de uma serrania selvagem e dos seus maus trilhos impróprios para comodistas!

segunda-feira, agosto 06, 2007

Parabéns e bem hajas!

Antes de largar o tasco e entrar de novo no limbo off-line, não quero deixar de saudar o José Maria da Associação Amigos da Serra da Estrela, que foi galardoado com o Prémio Nacional do Ambiente, atribuído pela Confederação Portuguesa das Associações de Defesa do Ambiente, pelo papel que teve na idealização, preparação e execução do programa "Um milhão de Carvalhos para a Serra da Estrela".
Está de parabéns o Zé Maria e todos os que colaboraram com ele (cada um em sua medida, bem entendido). No Outono recomeçará a "faina".

Novidades!

De uma recente (foi hoje!) entrevista de Artur Costa Pais à revista online Kaminhos, quero destacar alguns excertos
  • o novo pacote turístico "pretende promover a Serra da Estrela através das experiências, ou seja, aquilo que as pessoas podem fazer"
  • "Não há nenhum destino no mundo que seja escolhido só por causa dos hotéis. As actividades são essenciais para a escolha"
Para mais informação sobre as "experiências", veja o site da Turistrela.
Mesmo correndo o risco de ser vaiado por muitos dos que têm concordado com as posições do Cântaro Zangado, quero dizer que concordo com esta nova (ou pelo menos só agora começa a revelar-se) atitude do responsável máximo da Turistrela. Coisas como estas, ando a dizê-las desde que criei o Cântaro, logo, não posso senão manifestar agora o meu apoio, e faço-o com todo o gosto. Espero que à Turistrela corram bem estas iniciativas.
Nem tudo na citada entrevista merece elogios da parte do Cântaro, helas. Veja-se este excerto, sobre os mamarrachos da Torre:
"Procurámos também rentabilizar estes edifícios, que são geridos por nós" para os quais há anos que existem projectos de requalificação, mas que aguardam financiamento."
A minha posição sobre o aproveitamente destes edifícios expliquei-a aqui.

Parabéns e bem hajam

De passagem por casa em trânsito de férias, li no Jornal do Fundão que a Sonae Distribuição vai apoiar os centros de recuperação de animais selvagens da Quercus. Uma pesquisa com o google sobre isto apontou-me para o Ondas e este para o site da Quercus.
Será por interesses fiscais relacionados com o mecenato? Pouco importa! É um interesse de que beneficiamos todos. Há outros (há tantos!) de que só beneficiam os directamente interessados. Por isso, parabéns pela iniciativa e bem hajam, Sonae Distribuição.

sábado, agosto 04, 2007

Link Util

Adicionei este novo link à coluna lateral do Cântaro Zangado. Não é novo e por isso é possivel que muitos de vós já o conheçam. No entanto, considero a página muito util aos atletas dos mais variados níveis! Está completo q.b. e facil de entender. Ainda por cima agora que o meu comparsa ljma anda com a "mania" das loucas corridas em montanha bem como outros tantos acho que faz sentido ter este link permanente na coluna do CZ. Tem o que é preciso para prepar adequadamente uma actividade mais ou menos longa. A página foi desenvolvida por um associado da ADA Desnivel, a quem desde já deixo o meu obrigado
E fico-me por aqui para que possam ir já, já dar uma olhada
Continuação de boas férias para quem as tenha...

terça-feira, julho 24, 2007

Boas férias!

Aspecto do Cântaro Magro. É pena não estar ninguém ali, na boca da Rua dos Mercadores, para dar ideia da escala.

Vou-me pirar, para longe da internet. Durante uns dias ou semanas, não vou ligar nadinha a isto! Até depois!

Requalificamos, mas a sério?

Margens dos Poços de Loriga, a jusante da estância de esqui Turistrela/Vodafone (imagem retirada do blog Loriga).

A lagoa ilustrada na figura está a cerca de trezentos metros da base da telecadeira da estância de esqui. A triste realidade apresentada não é um caso pontual. Aliás, usei uma imagem semelhante, tirada há mais de um ano, para ilustrar um post publicado ainda na antiga morada do Cântaro Zangado. Quando o sol bate com mais força, os plásticos podem até cheirar-se! Fotografias semelhantes podem obter-se em todas as linhas de água que escorrem da zona da Torre.

O lixo presente na zona da Torre e nas linhas de água que dela escorrem é, em grande parte, o deixado pelos turistas que "vêm" à neve. Face a isto, o que há a fazer? Podemos continuar a fechar os olhos a esta realidade? Os lucros do turismo da neve são superiores aos prejuízos (ambientais e de imagem) desta sua consequência? Quem tem maiores responsabilidades pela existência deste problema? A quem deve ser atribuída a responsabilidade pela sua resolução? Faz sentido estudar planos de pormenor para a Torre ou requalificação dos edifícios que lá se encontram, enquanto não soubermos ou não quisermos enfrentar esta realidade?

Não conheço a resposta à maior parte das perguntas que coloquei acima (embora já tenha, aqui no Cântaro Zangado, dado umas quantas sugestões). Mas é evidente que não basta fazer investimentos na requalificação dos edifícios da Torre ou na beneficiação da estância de esqui para fazer desaparecer o problema. E enquanto não o resolvermos, por mais milhões que se despejem na zona da Torre, o turismo que lá temos continuará a ser, em grande medida, o turismo do lixo. Até quando?

segunda-feira, julho 23, 2007

Antigamente é que era?

Deixo aqui duas fotografias antigas, para mostrar o aspecto que zonas hoje arborizadas da nossa serra tinham há alguns anos.

Zona do observatório meteorológico, perto das Penhas Douradas, Manteigas, no inicio do sec. XX (imagem tirada do Blog Manteigas).

Pousada de S. Lourenço, Manteigas, anos sessenta (!) (imagem tirada do blog Refúgio da Montanha).

Como se vê, há zonas da Serra que já estiveram pior (na minha opinião, bem entendido) do que hoje em dia. Como se vê, bastaram quarenta anos para mudar o aspecto da zona da Pousada de S. Lourenço. Valeu ou não a pena o que os serviços florestais fizeram nas Penhas Douradas? Para mim, a resposta é óbvia. O que é que podemos deixar aos nossos filhos, que eles venham a considerar que realmente valeu a pena? Para mim, a resposta é óbvia, também, e não inclui mamarrachos (que, pouco depois de os construirmos, abandonamos), aldeamentos ou telecabines: FLORESTAS!

E antes que digam que as florestas não dão empregos, eu digo que é mentira, podem dar empregos sim senhor, e de variados tipos, para diferentes formações, em diferentes ramos de actividade. E se me perguntarem: "E o turismo?", eu respondo que só teremos turismo se soubermos preservar o valor ambiental da Serra, e que os alojamentos para os turistas devem ficar nas localidades; o alto da serra deve ser aproveitado para os turistas gozarem, não para lá ficarem alojados.

Algarvear a Serra da Estrela? Não, obrigado!