segunda-feira, fevereiro 28, 2011

E está tudo bem?

Pelo Público da semana passada (ver edições de 24/2/2011, pág. 29 e de 25/2/2001, pág. 30 [as ligações podem não ser permanentes]) ficámos a saber o seguinte:
  1. Em 1999 a Turistrela apresentou à Câmara Municipal da Covilhã um projecto de loteamento para o que se veio a tornar no bairro dos bungalows das Penhas da Saúde, que foi indeferido.
  2. Apesar do indeferimento, a empresa iniciou os trabalhos de construção do dito bairro, o que levou à instauração de de 10 processos de contra-ordenação, número que veio a aumentar até um total de 40.
  3. Por intervenção directa do presidente da Câmara (Carlos Pinto) e do vereador do urbanismo (João Esgalhado), esses processos foram todos arquivados, contrariando pareceres técnicos dos serviços da Câmara.
  4. Graças a esta intervenção dos autarcas, as obras puderam continuar, quando os projectos de arquitectura ainda nem sequer tinham sido entregues à Câmara Municipal.
  5. O bairro foi construído, alguns bungalows foram vendidos e os outros começaram a ser explorados pela Turistrela, tendo o plano de pormenor da área (que neste caso, foi claramente considerado um pormenor sem importância nenhuma) sido aprovado em 2008 (sobre isto falei neste post).
  6. Por considerar que a intervenção de João Esgalhado e de Carlos Pinto neste e noutros assuntos foi ilegal, o Ministério Público acusou-os dos crimes de prevaricação. A juíza responsável pela decisão instrutória considerou que os factos estavam provados mas que João Esgalhado e Carlos Pinto não pretendiam com as suas acções beneficiar ou prejudicar ninguém, condição necessária para a definição de crime de prevaricação.
Três perguntinhas:
  1. Teria sido necessária uma declaração notarialmente reconhecida, redigida e assinada pelos arguidos, para esta juíza dar como provada a intenção de beneficiar a empresa que obviamente foi beneficiada pelos arquivamentos ilegais?
  2. Será possível que uma empresa que inicia obras nestas condições (recordo: com um pedido de loteamento indeferido e sem projecto de arquitectura aprovado) não sofra consequências nenhumas? Eu já não digo perda de alvará, mas ao menos a perda da concessão exclusiva do turismo e dos desportos (que, de qualquer forma, não é mais do que um anacronismo remanescente do estado novo), em vigor desde 1971 e por várias dezenas de anos ainda?
  3. Independentemente das responsabilidades criminais que a juíza considerou não existirem, é em gente que usa desta forma o poder que lhe é conferido pelo estado (de direito) que continuaremos a votar?

terça-feira, fevereiro 22, 2011

A serra e o esqui

O Público de ontem (segunda feira, dia 21) trazia uma notícia sobre João Marques, um jovem esquiador português (da Covilhã) que participou recentemente numa prova internacional de esqui. Nessa peça pode ler-se, a páginas tantas, o seguinte:

(...) apesar de a serra da Estrela ser "o melhor que temos, fica muito aquém das necessidades para um atleta de alta competição de desportos de neve". "Não por falta de vontade, mas por falta de neve", diz [João Marques].

Na serra da Estrela, o tempo para a prática das modalidades de Inverno está centrado, em média, em quatro meses, entre Dezembro e Março. "E mesmo assim nem sempre com a quantidade de neve necessária".

Ou seja, e mais uma vez, apesar de ser "o melhor que temos", a serra da Estrela não é grande coisa para o esqui.

Não pretendo com isto concluir que se deve fechar a estância de esqui. Apenas repito o que toda a gente que pratica esqui com alguma regularidade diz. E daí deduzo que enquanto continuarmos a basear o turismo da serra numa actividade que na serra não tem muita qualidade, continuaremos a ter este turismo desqualificado. Mas é pena, porque a serra merecia mais, e também porque poderíamos aproveitá-la mais lucrativamente

Nota: usei as declarações de João Marques (tal como elas foram transcritas no artigo do Público) mas não pretendo com essa utilização sugerir que ele partilha as minhas opiniões.

sábado, fevereiro 19, 2011

Falando de turismo, a propósito de turismo!?

No vídeo aqui em cima (que encontrei no Blog dos Manteigas) podemos apreciar um autarca da nossa região (presidente da CM Manteigas) que, referindo-se ao desenvolvimento do turismo na serra da Estrela, efectivamente fala de turismo na serra da Estrela! Fala das paisagens, de BTT, de parapente, de caminhadas, e até refere o respeito pela natureza! Eu gosto de ouvir estas coisas! Ainda mais por acontecer tão raramente!

É que o normal é que quando um autarca (ou empresário) da região se pretende referir ao desenvolvimento do turismo na serra, acabe de facto a falar apenas de construções na serra: uma nova estrada asfaltada aqui, um teleférico ali, uma minicidade mais além, um casino acoli, mais um centro de estágios desportivos, um de congressos e dois comerciais, um hotel de charme, um restaurante panorâmico, etc, etc, etc. Ou então, que delire sobre concorrermos com os Alpes e os Pirinéus.
(Isto que acabo de dizer é mais verdade para uns do que para outros; mas é especialmente verdade para os da Covilhã).

Será este mais um sinal de que a forma como os autarcas vêm o turismo e a serra está a mudar (outro sinal foi a criação do CISE pela câmara de Seia há alguns anos)? Oxalá! E, se for, parabéns a Manteigas!

terça-feira, fevereiro 15, 2011

Assim falava...

... O deputado José Sócrates, hoje primeiro ministro, há quase vinte anos:

In Jornal do Fundão, 31 de Janeiro de 1992, primeira página (clique para aumentar)

Não nos lancemos precipitadamente à crítica fácil! Devemos compreender que, nos últimos vinte anos, se vêm afirmando as teorias corporativistas que defendem o ordenamento estatal da iniciativa empresarial. O que em 1992 muito considerariam um monopólio injustificável e indefensável, é hoje em dia visto com bons olhos e um modelo aplicado em cada vez mais sectores da economia. Aliás, está para breve a refundação da saudosa Câmara Corporativa (que, aliás, deve ter dado parecer para a constituição deste "monopólio do deixa-andar")! Tudo coisas que um jovem deputado como José Sócrates nunca poderia, há vinte anos, ter previsto!

Sim!, aplique-se em todos os sectores da economia o modelo que tanto dinamismo tem trazido ao turismo na serra da Estrela! A bem da Nação!

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

O desespero cega

Um post do Blog Cortes do Meio levou-me a esta "notícia"(*) da Rádio Cova da Beira:

CORTES DESESPERA PELA ESTRADA DAS PENHAS

Candidatura para a requalificação da estrada que liga Cortes do Meio às Penhas da Saúde foi apresentada há um ano ao Proder, mas até à data sem qualquer resposta.

Uma situação lamentada por Paulo Rodrigues, em entrevista ao programa "Radiografias" da RCB o autarca fez o ponto de situação do projecto "os capitais próprios da junta e da câmara da Covilhã já foram investidos nesta obra, mas continuamos a aguardar a aprovação de uma candidatura apresentada pela câmara da Covilhã no dia 28 de Janeiro de 2010, há precisamente um ano, no valor de um milhão 823 mil euros, ao programa Proder, mas até à data sem qualquer resposta".

Segundo o autarca, a estrada, reivindicada há anos, é uma alavanca para o turismo e a mais importante obra para a freguesia "haverá outras importantes mas esta obra é necessária para Cortes do Meio como pão para a boca".

Quanto às urgentes necessidades (tão urgentes, e tão necessárias, "como pão para a boca") a que esta estrada virá dar resposta, volto a repetir a pergunta que a este propósito faço há perto de quatro anos: que desenvolvimento ocorreu em Loriga e Valezim em resultado da abertura da estrada de S. Bento entre a Portela de Arão e a Lagoa Comprida? Sim, sim, toda a gente dizia (mais: toda a gente sabia) que esse desenvolvimento iria, sem dúvida, ocorrer. Mas ocorreu? Já começou a ocorrer, ao menos? Ainda há esperança de que venha algum dia a começar a ocorrer?

Faço esta pergunta aos Loriguenses e peço aos das Cortes do Meio que a façam também. Estudemos soluções que já experimentámos, avaliemos os resultados que se obtiveram, antes de afirmarmos que o que é preciso é mais estradas. Para desenvolver o turismo é preciso mais do que meramente estar no caminho para a Torre (e as Cortes do Meio, tal como Loriga, nunca estarão no caminho natural para a Torre, por mais estradas que rasguem serra acima). Direi mesmo mais: hoje em dia, é preciso *não* estar no caminho para a Torre (com todo o lixo, ruído e desordenamento que caracteriza as áreas dos trajectos já existentes) para que se possa desenvolver um turismo equilibrado e verdadeiramente lucrativo, como o que se pratica nas outras montanhas da Europa.

(*) Na verdade, isto não é bem uma notícia, é mais o eco de um estado de espírito do presidente da Junta de Freguesia das Cortes do Meio, que apresenta os seus desesperos particulares (sejam eles verdadeiros ou meras jogadas tácticas, não é essa a questão agora) como desesperos da freguesia a que preside. É também mais um exemplo de como muitos jornalistas locais entendem que não é função deles fazerem mais do que servir de correio para estes estados de espírito.

sábado, fevereiro 12, 2011

Informação

Encontra-se em fase de consulta pública, até ao dia 3 de Março de 2011, a Avaliação de Impacto Ambiental do projecto de requalificação da estância de esqui na Torre. Encontra toda a informação no site da CCDRC.

sábado, fevereiro 05, 2011

Completamente de acordo!

No site da Rádio Cova da Beira, encontrei uma notícia recente, redigida por Paula Brito, que transcrevo aqui para o Cântaro porque não sei se o link é permanente:

TURISTRELA "ATROFIA" TURISMO NA SERRA

A crítica do administrador do grupo IMB Hotéis não é nova. Luís Veiga chegou a liderar um abaixo assinado de empresários do sector contra o "monopólio" da Turistrela. Um documento que foi entregue ao secretário de estado da tutela, mas até hoje sem qualquer resposta.

Questionado pela RCB sobre os ecos do abaixo assinado o empresário, ironiza a resposta "não há nada a clarificar, parece que é uma questão de menor importância em termos de turismo nacional, pura e simplesmente a concessão continua nas condições em que nós sabemos que continua".

A exclusividade da exploração do turismo e do desporto na Serra da Estrela acima de determinada quota, à empresa Turistrela, é para Luís Veiga "uma atrofia para o turismo na Serra e na região, eu acho que devia ser liberalizado, todos os monopólios são maus e este tem sido péssimo".

Segundo Luís Veiga este é mais um exemplo de uma área onde o governo poderia agir mas prefere optar sempre pelo caminho mais fácil "é como as portagens na A23 e A25, é mais fácil mexer nas portagens do que na Carris ou na TAP, é muito mais fácil".

Luís Veiga contra o monopólio do turismo na Serra da Estrela desde há muito. Em 2005 o empresário chegou a depositar alguma esperança no governo de José Sócrates para alterar a situação, já que o actual Primeiro Ministro chegou a chamar, na altura à Turistrela "o monopólio do deixa andar". Mas até à data ainda nada foi feito para alterar a situação.

Nota: Luís Veiga é administrador do maior grupo hoteleiro da região, com unidades em Unhais da Serra, Covilhã e Guarda.

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Registo sem valorar

O TPais deixou aqui há dias um post sobre um aspecto que considerou positivo na actuação da Turistrela.

Eu não tenho a certeza absoluta de que tudo na Turistrela, tudo o que ela é e faz, seja criticável, seja tosco, seja mal feito. Mas estou bastante mais ou menos convencido disso. E, falando da informação que a Turistrela dá sobre as condições da sua estância de esqui, que foi aquilo que o TPais comentou, noto que nos anos anteriores, o site da estância indicava a profundidade de neve e a sua qualidade, assim como os meios mecânicos em funcionamento. Eram, como é bom de ver, dados quase sempre confrangedores para a estância (20cm, 10cm,... chegaram a anunciar 2cm!, neve "dura/húmida"), mas eram fornecidos. Este ano, deixaram-se disso.

E deixaram-se mais recentemente de outras coisas. Até há dias, o site da estância indicava logo na página de acesso, que pistas estavam abertas e quais estavam fechadas. Pois bem, hoje fui ver se havia alguma possibilidade, mesmo que remota, de se fazer na estância um esqui que compensasse o que se paga pelo forfait, e dei com isto: Num relance, vi as pistas todas a verde! Está tudo aberto?! Ena, ena! Mas logo a seguir percebi que a verdade era outra, a que se apresenta noutra página que não a de abertura do site: Ou seja, as pistas não estão todas abertas, dos seis quilómetros e pico de extensão da estância apenas três estão esquiáveis (admitindo que a pista Loriga se encontra com neve até à base da telecadeira, coisa que não sei).

OK, não se trata de uma mentira declarada, claro. Mas, caramba: quem quer falar verdade, mesmo que a verdade não seja a mais agradável, fala de outra maneira, então não?

Também assim se vai alimentando o mito das grandes condições da serra para o turismo de neve e para competir com os Alpes e os Pirinéus. E também assim se vai reforçando a minha opinião de que enquanto se continuar a apostar principalmente na neve, a qualidade do turismo na serra continuará a ter a qualidade da neve na serra: assim a modos que para o rasca.

Algarvear a Serra da Estrela? Não, obrigado!