terça-feira, junho 29, 2010

Acabar com monopólios privados

No Público de hoje:

Líder do PSD contra "privados que vivem de rendas públicas"

O presidente do PSD defendeu ontem a necessidade de reformar o mercado, por forma a acabar com "alguns monopólios privados", e o Estado para o fazer actuar "em nome" dos cidadãos.[...]

Aqui na serra da Estrela subsiste ad eternum um monopólio que começou como principalmente público no tempo do corporativismo (1971), que foi depois nacionalizado (suponho que pouco depois do 25 de Abril) e que mais tarde foi totalmente privatizado e renovado (em 1986).

A concessão exclusiva do turismo e dos desportos na Serra da Estrela da Turistrela, criada pela Lei 3/70 de 28 de Abril de 1970 e pelo Decreto-Lei 325/71 de 28 de Julho de 1971 e renovada por mais dezenas de anos pelo Decreto-Lei 408/86 de 11 de Dezembro de 1986 é, parece-me, um excelente candidato para começar a acabar com certos monopólios privados, que constituem, de facto, uma renda pública atribuída a certos privados (olha as rendas pagas à Turistrela das lojas do centro comercial da Torre, da Lagoa Comprida e do parque de campismo do Vale do Rossim, todos beneficiados com investimentos do PNSE(1)), e que, ademais, constituem um obstáculo (entre outros) a um desenvolvimento salutar da iniciativa privada, neste caso na área do turismo, na serra da Estrela.

Liberalismo, mas a sério? Venha ele, ao fim de tantos anos!

(1) PNSE esse que, <ironia>como é do conhecimento público, tem dinheiro que chegue e que sobre para pagar os ordenados de um quadro suficiente de vigilantes, para pagar a manutenção e o combustível das suas viaturas, para apoiar projectos científicos e de conservação, etc, etc, etc.</ironia>

domingo, junho 20, 2010

O costume

A retrete azul

O Blog Carpinteira tem um post que revela um exemplo paradigmático da forma como se encara o turismo na serra da Estrela há várias décadas: grandes discursos, grandes desígnios, grandes trabalhos, de que restam apenas ridículos casinhotos e/ou montes de entulho. Este exemplo é só mais um, especialmente ilustrativo.

Quantos anos mais continuaremos a ver disto?

sábado, junho 19, 2010

Nota de imprensa da ASE

As barreiras que estão a ser instaladas pela E.P. na EN338, fotografadas pelo Tiaguss
A propósito dos trabalhos iniciados há algumas semanas pela Estradas de Portugal de instalação de barreiras dinâmicas para a protecção contra queda de pedras no troço da estrada EN338 entre Manteigas e a Nave de Sto António, a ASE difundiu pela imprensa a seguinte reflexão:
Barreiras dinâmicas na protecção da estrada EN338

A Estradas de Portugal (E.P.) iniciou recentemente trabalhos para a protecção do troço da EN338 compreendido entre Manteigas e a Nave de Santo António. Estes trabalhos consistem na instalação de barreiras dinâmicas constituídas por redes de arame e cabo de aço, apoiadas em tubos metálicos de grandes dimensões.

Não querendo questionar a necessidade de tais trabalhos, a ASE vem recordar que logo a seguir ao grande incêndio de 2005 chamou a atenção das entidades responsáveis para a situação de instabilidade da encosta que resultou da destruição da floresta e consequente desprotecção do solo, para o perigo de derrocadas que viessem a interromper a circulação na estrada e, sobretudo, para a necessidade de uma intervenção pronta que pudesse contribuir para consolidar os terrenos em desequilíbrio usando as técnicas da engenharia natural. Propusemos, em particular, que se usassem os troncos das árvores mortas, bem escorados nos tocos das mesmas, para criar pequenas barreiras que ajudassem a suster a erosão do solo, e que se iniciasse um esforço sério e intenso de reflorestação com espécies folhosas autóctones apropriadas aos locais afectados, contribuindo activamente para um restabelecimento das taxas de erosão naturais (práticas defendidas e prescritas em variados estudos e publicações internacionais para situações similares).

Uma tal intervenção, logo no pós-incêndio, teria contribuído para a reposição do equilíbrio da encosta, tornando menos necessária a instalação das actuais barreiras, teria evitado em grande medida a erosão da fina camada de solo fértil da encosta e teria ajudado a uma mais rápida recuperação dos ecossistemas e das paisagens afectadas - não menos importantes para o turismo numa área que pretende o reconhecimento como Maravilha Natural de Portugal e como Património da Humanidade. O incêndio de 2005 poderia ter sido assim encarado como uma oportunidade para restaurar a vegetação autóctone, base de um ecossistema saudável e equilibrado.

A actual intervenção da E.P., em contrapartida, não evita as derrocadas, apenas impede que estas atinjam a estrada, e assim ponham em causa a segurança de quem nela circula. Esta vantagem é obtida à custa da introdução de elementos artificiais visualmente estranhos à paisagem cujo enquadramento pode ser questionado, e que necessitarão de manutenção com custos sempre crescentes, à medida que os anos forem passando, não resolvendo nenhum dos problemas de fundo causadores desta situação.

Lamentamos que, passados quase cinco anos desde o incêndio de 2005, o essencial continue por fazer e que se empenhem tão intensos esforços (e meios materiais) a minimizar os efeitos da situação criada, em vez de se atacar a origem do problema. Não compreendemos que se deixe a E.P. isoladamente a tratar um problema cuja abrangência claramente ultrapassa esta entidade. E lamentamos também que a E.P., na sua esfera de acção específica, continue apenas a considerar exclusivamente a engenharia “convencional”, pura e dura, quando são cada vez mais difundidos, preferidos (havendo condições para tal, bem entendido) e bem sucedidos os métodos da engenharia natural, quer pela sua abordagem mais ecológica, quer pela forte relação custo-benefício e sustentabilidade a curto, médio e longo prazo.

Aproveitamos esta ocasião para, novamente, pedir uma intervenção mais profunda, que rapidamente torne desnecessárias as estruturas agora instaladas, para que, a par com a solidez das encostas, se recupere também a paisagem e os ecossistemas naturais do Vale, e não apenas a (relativa) segurança da circulação na estrada.

Reflorestemos!

Manteigas, 10 de Junho de 2010

domingo, junho 13, 2010

Manteigas me mata!

A frase que dá título a este post deve ser lida à espanhola: Manteigas é um espectáculo!

Participei ontem no Circuito dos Três Cântaros, uma corrida de montanha organizada em Manteigas pelo Clube de Montanhismo da Guarda e pela Federação Portuguesa de Montanhismo e Escalada. Vinte e um quilómetros (e pico), sempre a subir e a descer, num total de subida acumulada de 1300m. Foi mesmo muito duro, pelo menos para mim que sigo um programa de treino bastante errático (corro apenas quando me apetece e tenho tempo).

A corrida iniciou-se no parque da Relva da Reboleira, subimos a colina entre Sameiro e Verdelhos a pique, pela linha de máxima pendente, daí seguimos para o Souto do Concelho, passámos por cima do Poço do Inferno, demos a volta para o regresso pelo Vale da Adega. Por duas vezes parei para tirar fotografias, as que ilustram este post.

Eu não percebo como é possível que numa região que tem tesouros como estes se continue a pensar que "nós aqui vivemos da neve", e pior: "que nós aqui só podemos viver da neve". Porque é que assim estamos? E porque é que os jornais e revistas nacionais só se lembram da serra da Estrela como destino de férias no Inverno? Quando é que começaremos a mudar isto? Até quando continuaremos a destruir o melhor da serra, atrelados aos delírios novo-ricos da Turistrela e da Região de Turismo da Serra da Estrela (e, agora, do organismo similar criado pela Câmara Municipal da Covilhã)?

Encontra mais detalhes sobre o Circuito dos Três Cântaros (e mais fotografias) blogue Último quilómetro, neste e neste posts.

sábado, junho 12, 2010

Uma experiência simples

Encha um copo com água (pode ser da torneira) e adicione gelo; meça a temperatura da mistura. Em seguida, coloque uma ou duas colheres de sopa cheias de sal no copo e agite durante alguns minutos; volte a medir a temperatura.

Acabei agora de fazer esta experiência, que documento com a figura em cima. Antes de misturar o sal, a temperatura da mistura água-gelo era -2,2°C (fotografia da esquerda); depois de misturar o sal (passados quatro minutos, como se vê), a temperatura desceu para -11,8°C. Suspeito que se repetisse a experiência com neve (em vez de gelo), o arrefecimento seria mais pronunciado.

Porque é que isto acontece? Porque o sal dissolvido na água faz baixar a temperatura de solidificação da água. É exactamente por isso que é usado (nomeadamente na serra da Estrela) para evitar a acumulação de neve nas estradas. Ao baixar a temperatura de congelação, o gelo derrete e ao fazê-lo absorve do ambiente a energia (calor) de que necessita para a transição de fase, o chamado calor latente de fusão. É assim um processo semelhante (mas envolvendo outra transição de fase) ao do arrefecimento cutâneo por evaporação da transpiração.

E porque falo nisto? Porque, como já aqui referi várias vezes nos últimos meses, alguns responsáveis do ICNB (os suficientes para determinarem as opções dos serviços nesta matéria) consideram que a escalada e o montanhismo no Cântaro Magro devem ser proibidos, e por isso indeferem todos os pedidos para a realização dessas actividades nesse pico. As razões apresentadas prendem-se com a classificação atribuída à zona do Cântaro Magro (e, de facto, a todas as zonas onde tradicionalmente se pratica escalada e montanhismo na serra da Estrela), de acordo com a qual, nos termos do plano de ordenamento da área protegida, apenas as actividades de visitação, pastorícia e investigação científica podem ser autorizadas, desde que compatíveis com a conservação dos valores ambientais presentes. Uma vez que a escalada e o montanhismo podem ser classificados como actividades de visitação, importa saber que valores ambientais vêm a sua conservação posta posta em causa por estas práticas. De acordo com o que me foi dito por alguém que participou em reuniões com o ICNB, no caso do Cântaro Magro, esses valores são geológicos e são postos em causa pela erosão que a escalada e o montanhismo acarretam. (Quão grave será essa erosão? Quem é que a terá avaliado? Que estudos estão disponíveis sobre esse assunto? Mistério...)
Mas acontece que a poucos metros de distância de diversas vias de escalada na zona do Cântaro Magro, encontramos a estrada nacional EN339, onde todos os Invernos são despejadas várias toneladas de sal-gema, que escorrem para as mesmíssimas áreas que o ICNB quer proteger da erosão impedindo a prática da escalada e do montanhismo.

Bem, eu já ouvi dizer que o sal não faz nada bem à fertilidade dos solos, que não é nada bom para as plantas, e até já li (b.n. CISE nº 28 Outono 2009, pág. 14) que a sua utilização é um factor de ameaça para a conservação de alguns habitats de água doce da serra da Estrela. Mas não sei. Sei sim (porque o verifiquei agora mesmo) é que a dissolução de sal em água misturada com gelo faz baixar localmente a temperatura. Porque o sei, pergunto-me: não haverá também perigo de erosão associado a um eventual súbito arrefecimento superficial das rochas situadas nas linhas de escorrência sob a estrada, resultante da dissolução do sal usado pelo Centro de Limpeza de Neve? (Recordo que são gradientes de temperatura os responsáveis pela fractura de vidros normais em fornos de cozinha.) Não parece esta situação ter um impacto potencial, naquele mesmo local, muito mais grave do que o da erosão eventualmente causada pela borracha das sapatilhas de escalada? Não seria melhor estudar esta questão? E, já agora, não seria melhor estudar também o impacto real da escalada e do montanhismo?

A escalada e o montanhismo são proibidos pelo ICNB, sem que se conheçam estudos que o justifiquem. Outras actividades, aparentemente muito mais impactantes (raids tt, voltinhas de carro, piqueniques de beira de estrada, esqui, sku, caça, pesca, encontros de motoqueiros, snow-fashions, etc, etc, etc), algumas das quais com impactos nos mesmos locais que alegadamente se querem proteger com a proibição da escalada e do montanhismo, são permitidas! Pior, todas estas actividades são não só permitidas, elas são mesmo encorajadas, dados todos os investimentos públicos nos centros comerciais na Torre, na beneficiação das estradas existentes, na pavimentação de caminhos, no aumento da capacidade de estacionamento, etc.

Somos mesmo originais. Haverá na Europa outra área protegida de montanha como esta?

segunda-feira, junho 07, 2010

Continuamos no rumo certo!

A revista Visão da semana passada tem um artigo com o título "Descobrir Portugal a Pé", sobre trilhos pedestres. São doze propostas de passeios, das quais quatro na região centro.

Já não espanta que a serra da Estrela não conste. A serra da Estrela, pura e simplesmente, não existe no panorama do turismo de natureza nacional. É que nós aqui vivemos da neve...

Continuamos no rumo certo, continuamos de parabéns. O que precisamos é de mais estradas, de teleféricos, de parques de estacionamento, de centros comerciais, de pistas de esqui de plástico e de casinos. Isso é que está mesmo a fazer-nos falta. Continuemos, pois!

domingo, junho 06, 2010

Uma Maravilha Natural

Vale glaciar do Zêzere (imagem roubada daqui).

Em que sentido é que o vale glaciar do Zêzere é uma maravilha da natureza? Pergunto isto a propósito da candidatura ao concurso das 7 Maravilhas Naturais de Portugal. Antes de continuar, quero deixar bem claro que não pretendo pôr em causa o concurso nem a candidatura. Eu também acho que o vale é uma maravilha. Mas quero tentar perceber melhor e deixar explícitas as razões pelas quais acho o vale uma maravilha. Porque creio que essas razões são as de quase todos e porque acho que essas razões determinam uma atitude para com o vale (e para com toda a serra) que me parece francamente positiva.

Porque consideramos então o vale uma maravilha natural?

Será porque o vale se encontra num estado natural puro, onde não se notam os efeitos da acção humana? Não! Esses efeitos são evidentes: as encostas (as duas!) não estão quase integralmente cobertas de floresta, há as quintas cá em baixo, há diversos caminhos, uma mini-hídrica e uma estrada asfaltada... Não, os sinais da civilização estão por todo o lado, não é um lugar onde se aprecie um ambiente natural no seu estado puro, nem pouco mais ou menos.

Será então porque apesar de o ambiente natural do vale não se encontrar nas melhores condições (corrijo: não se encontrar nas condições pré-civilização), serem no vale evidentes as grandes forças naturais que moldam o território, que definem a orografia? Talvez, mas a verdade é que essas grandes forças são igualmente evidentes em qualquer lugar. Naturalmente, são forças diferentes as forças que actuam em diferentes lugares, mas isso é um detalhe: porque raio devemos considerar mais "maravilhosas" as forças glaciárias do que as da erosão da água em estado líquido, ou a do vento?

Creio que consideramos o vale uma maravilha natural porque são relativamente poucos os vestígios da civilização industrial, e menos ainda os exemplos desse desordenamento evidente e gritante que temos permitido nas povoações. Assim, quase podemos imaginar que nos encontramos num lugar que ainda não estragámos. Isso não verdade, como referi acima, mas quase podemos acreditar que sim. Apesar de tudo o que já fizemos, e como diz Elisabete Jacinto citada pelo Blogue de Manteigas, o vale "é um local paradisíaco onde nos podemos sentir longe da agitação do mundo moderno" e as suas vertentes grandiosas fazem-nos "sentir pequenos e conduzem-nos à introspecção".

Concordo inteiramente com a justeza das palavras de Elisabete Jacinto. Mais: creio que quase todos concordamos. Mas, aqui chegados, pergunto: se achamos que o carácter maravilhoso do vale reside nestas suas características, e se esperamos e desejamos que elas sejam reconhecidas nacionalmente através de uma vitória no dito concurso, poderemos coerentemente defender eventuais alargamentos e rectificações da sinuosa estrada nacional EN338 até à Nave de Santo António, a instalação de teleféricos ou funiculares para as Penhas Douradas, a instalação de iluminação nocturna no Covão d'Ametade (estava prevista num projecto recente), ou a apoiar a realização, nesse local, de encontros motociclistas (com tudo o que esses encontros têm implicado)? São estes elementos que nos ajudam a sentir "longe da agitação do mundo moderno"? Consideramos normal que, num local que pretendemos anunciar como uma maravilha da natureza (e, agora, não me refiro especificamente ao vale mas a toda a serra), seja difícil tirar uma fotografia onde não apareçam "decorações" como estradas, postes de alta tensão, de iluminação ou de telecomunicações, barragens, construções de gosto e qualidade duvidosa ou restos de lixo?

Se admiramos os nossos valores naturais e queremos que os outros os reconheçam, poderemos continuar tratá-los como os temos tratado até hoje?

Algarvear a Serra da Estrela? Não, obrigado!