quarta-feira, abril 28, 2010

Sanabria e a Serra da Estrela: protecção, conservação e desenvolvimento – Parte II

Lixo e neve suja junto à estância de ski da Torre – a nossa triste realidade

No Parque Natural da Serra da Estrela, desde há muito que o desordenamento e a falta de uma estratégia de desenvolvimento consentânea com a realidade de uma região de montanha nos tem conduzido a uma situação cada vez mais insustentável de degradação ambiental, patrimonial e económica.

Do carvalhal autóctone que outrora terá dominado a nossa Serra, entre os 600 e os 1600m de altitude, praticamente apenas restam as memórias. Desde a sua sobre-exploração à substituição por monoculturas florestais de crescimento rápido, muitas foram as causas para o seu declínio. O Teixo, árvore sagrada venerada pelos celtas e referência na nossa mitologia, tem sido gradualmente conduzido a um estado de pré-extinção, principalmente pelos fogos florestais e pela eliminação selectiva pelos pastores devido à sua toxicidade para o gado, sem que uma estratégia concertada algo tenha feito para garantir a sua conservação.

Essa eliminação/substituição do coberto vegetal autóctone, basilar para o equilíbrio do ecossistema, terá sido determinante para os consequentes processos de degradação que se seguiram: incêndios florestais excessivamente recorrentes; erosão e perda de solo acelerada; diminuição da capacidade de resiliência do ecossistema; alterações climáticas locais; surgimento e expansão de vegetação exótica infestante; perda irreversível de biodiversidade.

Aos problemas de conservação e ordenamento do território soma-se a incompreensível lógica de promoção da região e dinamização da actividade turística: impõem-se severas restrições à circulação pedestre e à prática de actividades de montanhismo, de menor impacte e em maior harmonia com a natureza, enquanto que se facilita o fluxo desordenado e massificado de visitantes em viatura própria através do aumento e alargamento de vias rodoviárias, com consequências ao nível de dispersão da poluição e crescente dificuldade de gestão e manutenção; o recurso a uma concessão, em regime de exclusividade, da exploração turística e desportiva a um consórcio privado (desde 1971 e durante 60 anos e a partir de 1986!), em detrimento do mercado livre onde os agentes locais pudessem tomar parte, prejudica o empreendedorismo e a diversidade da oferta de produtos e serviços, constituindo assim mais um entrave ao desenvolvimento da região; a já referida aposta excessiva no produto “neve”, cuja sazonalidade e variabilidade têm implicações sociais, ao mesmo tempo que se despreza o potencial da beleza natural da Serra durante o resto do ano; projectos de questionável interesse público e desenquadrados da realidade de uma região de montanha que se vão sucedendo, tais como as pseudo “aldeias de montanha” (aldeamentos turísticos) ou a intenção de construção de um casino em plena área protegida; o absurdo da existência de um centro comercial no ponto mais alto de Portugal Continental, classificado como Área de protecção parcial do tipo I, a figura de protecção legal mais estrita do Plano de Ordenamento do PNSE, “onde predominam sistemas e valores naturais de interesse excepcional (…) e que apresentam no seu conjunto um carácter de elevada sensibilidade ecológica” (Regulamento do POPNSE, pela Resolução do Conselho de Ministros nº83/2009); crónica falta de meios e limitada capacidade de actuação do ICNB, agravada por erros de gestão e uma legislação ambiental desenquadrada.

Em consequência desta realidade todos ficamos a perder mas, indubitavelmente, o preço mais alto é pago pelas comunidades locais. Poucos são os que compreendem a importância de proteger a Serra pois, aparentemente, são mais os prejuízos que os benefícios de viver numa área protegida. Apenas sentem que lhes foi retirado o direito de usufruto do que sempre lhes pertenceu.

A exclusividade da exploração do turismo e a sua sazonalidade, a dificuldade em obter autorização para as actividades tradicionais e para novos investimentos contribuem diariamente para a precariedade laboral, o desemprego, o êxodo rural e a gradual perda de identidade cultural da região, agravando a já complexa situação da interioridade.

A conservação da natureza e biodiversidade não se esgota nas “plantinhas” ou nos “bichinhos”, como tantas vezes é mal compreendida. É necessário entender que todos nós também somos parte do ecossistema e dele dependemos para o nosso bem-estar e sobrevivência. Em Sanabria, na Serra da Estrela e por todo o mundo em nosso redor.

Interessa restaurar o equilíbrio há muito perdido por cá, entre o Homem e a Natureza. Que estes exemplos de sucesso vindos do país vizinho sirvam para repensar a nossa estratégia de desenvolvimento, pois de Espanha não vêm apenas “maus ventos”.

Porque protecção, conservação e desenvolvimento não podem ser encarados separadamente. Pela nossa Serra, por todos nós.

Sanabria e a Serra da Estrela: protecção, conservação e desenvolvimento – Parte I

Uma análise comparativa no rescaldo da visita organizada pela ASE - Associação Cultural dos Amigos da Serra da Estrela para os seus associados ao Parque Natural do Lago de Sanabria (Zamora, Espanha)


Teixos milenares em Tejedelo, nas proximidades de Puebla de Sanabria

Situado a escassos quilómetros da fronteira portuguesa, a Norte de Trás-os-Montes, o Parque Natural do Lago de Sanabria oferece-nos uma realidade bem diferente da que estamos habituados nas áreas protegidas do nosso país.

Comparável em muitos aspectos com a Serra da Estrela, tais como a sua natureza geológica e geomorfológica, clima, altitude ou vegetação potencial dominante, desde há muito que as duas serras seguiram percursos diferentes.

A paisagem abaixo dos 1.500m é dominada por bosques de Carvalho-negral (Quercus pyrenaica). Maioritariamente constituídos por árvores jovens, pontuados por carvalhos centenários, estes bosques bem conservados traduzem a relação das populações locais com a floresta autóctone: a floresta é o seu bem mais precioso; de onde retiram o seu sustento, que garante a base de todo o sistema agro-silvo-pastoril de que dependem, e que interessa preservar também por ser um dos principais atractivos turísticos da região. É a gestão consciente e sustentável do património natural e cultural que por aqui tem permitido o equilíbrio entre o Homem e a Natureza e o bem-estar das comunidades locais.

Não se avistam pinheiros, acácias ou eucaliptos. A produção em monocultura de pinheiro ou eucalipto e a ocupação exponencial do território por acácias é em Portugal uma das principais causas para a perda de biodiversidade e degradação das nossas áreas protegidas, facilitando ainda a ocorrência e recorrência de incêndios florestais. São os Carvalhos, o Azevinho e os Teixos que, de entre as 1500 espécies de plantas que se podem encontrar no Parque Natural do Lago de Sanabria, trazem os visitantes a percorrer os muitos trilhos bem sinalizados, e que nos permitem adentrar pela serra desde os “pueblos” típicos e acolhedores, sejamos montanhistas experientes ou curiosos das belezas naturais.

Para chegar à Cascata de Sotillo, onde estivemos com o grupo da ASE, não há estradas alcatroadas, não há confusão de estacionamento, não há lixo. Apenas a beleza pristina e original de um monumento natural, tal como sempre foi. São vários os quilómetros por trilhos antigos e bem conservados que nos conduzem até lá desde Sotillo de Sanabria, o “pueblo” mais próximo, e são muitos os visitantes anónimos com que nos cruzamos e que nos saúdam com um “hola, buenas!” que nos faz sentir a cumplicidade e respeito pelo próximo, lugar-comum para quem já está habituado a estas lides da montanha.

Para quem conhece o Poço do Inferno, na nossa Serra da Estrela, torna-se inevitável a comparação. Mas por cá, o alcatrão que lhe democratizou o acesso, para além de lhe desvirtuar a beleza da inacessibilidade, tornou-se numa ferida aberta por onde chega o lixo deixado por quem nunca aprendeu a respeitar a Serra.

Em Sanabria, como na nossa Serra da Estrela, a neve não é mais que a cereja em cima do bolo, mas por cá continua-se a querer vender apenas a cereja e ignorar o resto do bolo. Apesar da neve em maior quantidade, melhor qualidade e durante maior período de tempo, não há estância de ski, apenas trilhos sinalizados para ski de travessia, sempre que as condições de neve o permitam. Sem assim implicar estradas em altitude (e consequente necessidade de manutenção), estruturas complexas e aglomerações excessivas de visitantes em zonas ambientalmente sensíveis.

A aposta num turismo de qualidade e diversificado, centrado nos valores naturais e não sazonal, resulta num verdadeiro estímulo à conservação da natureza e biodiversidade num ciclo virtuoso de procura e oferta entre visitantes e agentes locais ambientalmente conscientes, com óbvios benefícios ambientais e económicos.

terça-feira, abril 20, 2010

1001º post e venha mais um a bordo!

Reparei há pouco que este humilde blog já vai no milésimo post! Mais precisamente, a fazer fé nas estatísticas do blogger, este post é o milésimo primeiro. "Ao mil chegarás, do dois mil não passarás"? Logo se vê.

Mas este post é para anunciar a entrada de um novo colaborador para a equipa de redacção do Cântaro Zangado, esperemos que com mais energia que os dois de serviço têm demonstrado nos últimos tempos.

Para dar mais variedade à equipa, desta vez escolhemos alguém com um perfil completamente diferente. O Rui Ribeiro (assim se chama) pratica montanhismo, BTT, escalada em rocha e neve. E há mais diferenças! O Rui (vejam lá!) gosta da Serra, do seu ambiente, das suas paisagens e das suas culturas. E vê com reticências as inúmeras iniciativas que a têm ao longo dos anos artificializado, asfaltado, suburbanizado e desfeado, todas as iniciativas, em suma, que a tentam transformar num lugar como outro Algarve qualquer. Nada a ver comigo ou com o TPais, portanto :).
Mas adiante: Rui, por mim e pelo TPais, sê muito bem vindo ao Cântaro Zangado!
(E, por favor, trata lá tu do 1002º post, pode ser?)

segunda-feira, abril 19, 2010

Outro ocaso

Eu gosto de nuvens. Gosto dos contrastes de cinzento (e quanto mais contrastados melhor!) que apresentam em certos dias escuros, gosto das linhas bem recortadas contra o céu azul lavado das nuvens claras, ofuscantes, depois das trovoadas (de que gosto muito também, desde que não ande a pé lá por cima quando se desencadeiam), gosto dos "mares" com que a névoa cobre o vale nalguns dias de Inverno e dos "rebanhos de ovelhas" que correm o céu nalgumas tardes de Verão. E gosto muito de efeitos de luz como o que mostro nesta fotografia, tirada há poucos dias aqui na Covilhã.

Sim, gosto de nuvens... Mas, por esta época, acho já tivemos que chegue! Safa!

domingo, abril 11, 2010

Mudam-se os tempos? Que se mudem os painéis!

O painel informativo apresentado na imagem que ilustra este post foi colocado na curva do Cântaro Magro, perto da Torre. Uma vez que tem uma referência ao "Ano Internacional das Montanhas 2002", suponho que tenha sido nesse ano ali colocado, pelos serviços do PNSE. Pelos vistos, nesse ano o PNSE não era contra a prática de desportos de natureza naquela zona.

Mas mudaram-se os tempos. Entrou em vigor o actual Regulamento do Plano de Ordenamento do PNSE (Resolução do Conselho de Ministros nº 83/2009), que, no nº 3 do Artigo 12º, determina que

Nas áreas de protecção parcial do tipo I [como é o caso do "vale escondido" a que se refere o painel] apenas são permitidas actividades de investigação científica, visitação e pastorícia, quando compatíveis com os objectivos definidos.

Uma vez que os serviços do PNSE consideram que a escalada e o montanhismo não se enquadram na categoria de "visitação", têm indeferido os pedidos de realização dessas actividades, exactamente no "vale escondido à sua frente" referido no painel (estou a pensar no encontro de escalada Entalados II e no encontro de montanhismo invernal ASEstrela 2010) e terão informado os agentes turísticos da região da proibição da prática da escalada e do montanhismo nesta zona (assim o afirmou um desses operadores na caixa de comentários deste post).

Mudaram-se os tempos, portanto. Mas, ao menos, mudem-se também os painéis. Sugiro o seguinte:

Algarvear a Serra da Estrela? Não, obrigado!