sexta-feira, setembro 25, 2009

A propósito das Penhas da Saúde...

... E dos bairros de génese alegadamente ilegal que nelas existem, veio ontem a lume esta reportagem do programa Portugal em Directo, da RTP1:

Ao certo, ao certo, (1) será mesmo ilegal a génese das casas? (2) em que condições é que a posse dos lotes terá, de acordo com as palavras do senhor presidente da Câmara, passado para os actuais ocupantes? (3) a Câmara Municipal pode beneficiar e infraestruturar bairros de legalidade algo duvidosa? (4) será mesmo verdade que a Câmara Municipal da Covilhã se prepara para isentar de taxas os ocupantes destas casas? (5) As condições que a Câmara oferece aos ocupantes destas moradias de férias são as exactamente mesmas que oferece a todo e qualquer proprietário de moradias (de primeira habitação ou não) do concelho?

Estas perguntas não são retóricas. Não lhes conheço a resposta. Alguém conhecerá?

Roubei a ligação vídeo do blog Cortes do Meio.

quinta-feira, setembro 24, 2009

Em quem gostava de votar nas autárquicas

Cada um sabe de si e todas as escolhas são legítimas, como é óbvio. Mas como com tudo, é também legítimo cada um apresentar e justificar as suas opções. Assim como o é igualmente defender as suas opções, em confronto com as dos outros. Chama-se a isso discutir. O resultado da discussão nem sempre é o consenso, nem tem que o ser. A discussão já vale a pena quando fica claro o que é que distingue as várias opções em confronto. Por tudo isso, não me sinto minimamente constrangido em dizer aqui quais as opções que eu gostaria de ver defendidas publicamente por listas candidatas às autárquicas. Seria nessas que eu gostaria de votar. No que diz respeito à serra (que é o que concerne a'O Cântaro Zangado), cá vai.

Não me inclino especialmente a votar num candidato afirme que vai defender o ambiente e a paisagem da serra da Estrela, promover um desenvolvimento sustentável do turismo e diversificar as suas valências. Ao fim e ao vabo, há algum que não faça estas pias declarações? Gostaria sim de votar num que colocasse reticências à asfaltação de mais caminhos florestais, que se opusesse ao aproveitamento turístico e comercial dos edifícios na Torre, que fizesse ouvir a sua voz na promoção de medidas que limitem o tráfego automóvel pelo maciço central, que se afirmasse contra a aberração anacrónica que é a concessão exclusiva do turismo e dos desportos atribuída há quarenta anos à Turistrela.

Não me inclino a votar num candidato que afirme que vai promover uma grande requalificação urbana das Penhas da Saúde (que dessas afirmações, e do que resultou dessas afirmações, já tivemos a nossa conta, obrigado), mas sim num que defenda a redução do seu perímetro urbano à área já hoje efectivamente afectada (e que, em resultado do habitual e normal desordenamento, é muito maior do que o número de construções existentes justificaria). O mesmo posso dizer das Penhas Douradas (embora a situação actual, aí, não tenha a gravidade do que se verifica nas Penhas da Saúde, nem pouco mais ou menos).

Gostaria de poder votar em candidatos que compreendessem (e vertessem essa compreensão nos seus programas políticos e nos seus discursos) o potencial turístico das aldeias e vilas nas faldas da serra; pelo contrário, não penso votar em candidatos que apenas prometam para essas aldeias e vilas teleféricos ou novas estradas de asfalto a caminho da Torre, como se a Torre fosse o único local interessante da serra, como se a Torre fosse mais interessante que as vizinhanças dessas aldeias e vilas.

Não votarei em candidatos que desprezem os meus ambientais interesses e preocupações com frases como "antes das florinhas estão as pessoas", como se fosse esse o cerne dos problemas.

Por fim, uma medida concreta: gostaria muito de poder votar em candidatos que prometessem a criação, nos seus concelhos, de estruturas semelhantes ao Centro de Interpretação da Serra da Estrela, da Câmara Municipal de Seia.

Com tudo isto, deve ser claro em quem não pretendo votar. Em quem votarei, ainda não sei. A ver vamos.

segunda-feira, setembro 14, 2009

Árvores de Portugal

A página web da associação Árvores de Portugal já está disponível, aqui. Os responsáveis pela página e os dinamizadores da associação encorajam a participação de todos!

Cem mil

Durante o fim de semana, o nosso contador de visitas chegou aos 100.000. Agora mesmo, indicava 100.140. Destes visitantes, alguns concordam connosco, outros não concordam e muitos (porventura a maioria) são indiferentes ou não chegam sequer a perceber do que trata o blog, por virem cá ter por acaso, via google, enquanto pesquisam por qualquer coisa que não tem nada que ver com o que nos interessa aqui.

Seja como for, são cem mil visitantes!

Aproveito que estou a falar do blog para comentar a redução na frequência de posts. Tal deve-se ao facto de nós (eu e o Tiago) termos mais coisas que fazer, e coisas que nos entusiasmam mais do que o blog, e mais agora do que no passado. O equilíbrio dos nossos entusiasmos vai oscilando, e pode acontecer que voltemos a navegar com mais velocidade no futuro. Ou então que o blog pare indeterminadamente, pura e simplesmente. A ver o que dá!

quinta-feira, setembro 10, 2009

Picos da Europa — 6: Requalificações

Perto de Arenas, já no interior do Parque Nacional, um pequeno povoado chamado Bulnes subsiste ainda sem acessos rodoviários (nem asfaltados nem por asfaltar). Até ao ano 2000 apenas um trilho estreito que se sobe (a pé) em cerca de hora e meia permitia chegar à aldeia, partindo de Poncebos. Nesse ano foi inaugurado um funicular subterrâneo com dois quilómetros de comprimento (cerca de 650 m de desnível), que permite aos habitantes do povoado receber mantimentos e escoar os seus produtos (agora poucos, que a aldeia vive mais do turismo). O funicular é gratuito para os habitantes, mas custa 15€ (18€ ida e volta) aos turistas que o querem utilizar (e são muitos). Apesar de receber muitos visitantes e de apostar em força no turismo, a aldeia procura manter o carácter pitoresco de pequeno povoado de montanha, coisa que é muito facilitada pela completa ausência de automóveis. Tudo o que tende a esbater a percepção desse carácter é eliminado ou, se tal for impossível, escondido. Por exemplo, note-se o sistema de iluminação pública (ver a fotografia acima) que ilumina o caminho entre o terminal do funicular e a aldeia.

Apesar da rusticidade dos "postes de iluminação" do acesso ao funicular e do aspecto geral do povoamento, não se pense que não houve uma efectiva requalificação e uma efectiva melhoria (face aos critérios normalmente utilizados nestas avaliações) das condições de vida das suas poucas dezenas de habitantes. A aldeia tem saneamento básico, electricidade, frigoríficos, televisões, restaurantes, cafés e casas de turismo rural e de habitação, ligações telefónicas e de internet, acessos muito mais rápidos a escolas e centros de saúde. Reconstroem-se (mantendo os traços originais) as casas que foram ficando em ruínas. E a aldeia é visitada por milhares de turistas.

Na serra da Estrela temos preferido (e continuamos a preferir) centros comerciais, alcatrão, muito alcatrão, minicidades, apartamentos, comércio rasca, casino, neon, muito neon, aproveitamentos das "torres das bolas" e musiquinha em alto volume. E o lixo que vem com tudo isso. Na minha opinião, temos confundido requalificações com exibições de novo-riquismo. Mas, reconheçamo-lo, é também por estas e por outras como estas que nós temos o "turismo" que temos e os outros têm o turismo que têm.

domingo, setembro 06, 2009

Picos da Europa — 5: Turismo de montanha

Arenas de Cabrales, a localidade onde fiquei alojado nos Picos da Europa, é uma pequena aldeia. Pareceu-me bem menor que Verdelhos, que a Bouça, muito menor que Linhares ou Folgosinho. No entanto, tem vários restaurantes, pensões, hotéis e o parque de campismo onde "estacionei". As aldeias das proximidades, ao longo da estrada Panes - Cangas de Onís, dispunham de igual variedade de estabelecimentos de hotelaria.

Os turistas ficam alojados nos povoamentos na orla do Parque Nacional dos Picos da Europa, e visitam o parque a pé (acedendo ao interior principalmente em transporte público, dados os condicionamentos ao tráfego que já referi), em bicicleta ou em carrinhas 4x4 concessionadas.

A principal atracção em Arenas (e uma das principais nos Picos da Europa) é a Ruta del Cares, um trilho pedestre com 12 km de extensão, entre os povoamentos de Poncebos e Caín (estes são realmente pequenos, não chegam a ser aldeias), a que já me referi várias vezes nesta série de posts. Deixem-me repetir: o principal chamariz turístico da zona de Arenas de Cabrales é um trilho pedestre com 12 km de comprimento.

Se fosse possível aceder às fantásticas paisagens da Ruta del Cares de automóvel, com certeza que a Ruta teria muitos mais visitantes. Mas teria também mais engarrafamentos, mais lixo, mais poluição, mais problemas e muito menos turistas ficariam hospedados em Arenas de Cabrales. Doze quilómetros a pé justificam uma paragem de um dia (ou melhor: quase que obrigam a uma paragem de um dia). Doze quilómetros de carro não justificam nada, não obrigam a nada.

Os Picos não são como a Estrela, nem pouco mais ou menos, já o disse. E, no entanto... Para dar um exemplo, um trilho pedestre entre Unhais da Serra e Manteigas teria um comprimento de cerca de dezassete quilómetros, ainda bem ao alcance de quase todos. As paisagens que de um tal trilho se poderiam admirar são soberbas e acredito que talvez assim conseguíssemos atrair muitos visitantes à serra. Mas nunca o saberemos. Nunca saberemos o impulso que um tal trilho poderia dar ao turismo em Manteigas e Unhais da Serra, porque o vale de Manteigas já tem (e no de Unhais será concluída mais tarde ou mais cedo) uma estrada de asfalto até à Nave de Santo António, a 1400 m de altitude e a caminho da Torre, *obviamente* imprescindível ao turismo, cujo único inconveniente, no parecer de quase todos, é ser demasiado sinuosa, demasiado estreita, demasiado... De montanha.

sábado, setembro 05, 2009

Picos da Europa — 4: modelo de gestão do turismo

Nos Picos da Europa, obviamente, não existe uma concessão exclusiva do turismo e dos desportos, atribuída à mesma empresa há quarenta anos e por mais trinta anos para o futuro, como a que, aqui na Estrela, foi atribuída à Turistrela.

Haverá algum lugar no mundo onde um tal modelo de gestão tenha dado bons resultados? Duvido que em mais algum lugar do mundo tal esquisitice tenha sido tentada mas, seja como for, passados quarenta anos já podemos fazer uma avaliação: aqui na serra da Estrela, tem dado bons resultados?

Contraste: as concessões de praia são renovadas anualmente.
Algarvear a Serra da Estrela? Não, obrigado!