... Entre o asfalto e o passeio de uma rua de algo a que chamam "aldeia de montanha" e que há já alguns anos dizem que "está a nascer aqui"...
Por todas as razões, oxalá que seja o pinheirinho, e não a dita coisa, a nascer aqui.
... Entre o asfalto e o passeio de uma rua de algo a que chamam "aldeia de montanha" e que há já alguns anos dizem que "está a nascer aqui"...
Por todas as razões, oxalá que seja o pinheirinho, e não a dita coisa, a nascer aqui.
Há dias comentei uma afirmação de Jorge Patrão (presidente do Turismo da Serra da Estrela), proferida a propósito de uma notícia segundo a qual o Governo terá lançado, ou prepara-se para lançar, um concurso de ideias para a requalificação da zona da Torre.
Não voltei a ouvir referência a esse concurso nem sei a quem apresentar as propostas, mas gostava de dar a minha contribuição.
A construção da base militar na Torre foi apenas um pretexto para a criação, neste local, de uma estância de luxo para alguns fins de semana de algumas altas patentes da força aérea do antigo regime, tudo isto, obviamente, a expensas dos nossos impostos. Porque o preço a pagar por este luxo faraónico cedo se revelou alto demais, a utilização "militar" da dita base foi muito efémera (não mais do que uns dez a quinze anos). Num país bem governado, aquela base nunca teria sido construída. Foi um erro, e um erro muito caro, que temos continuado a pagar, agora pelo desordenamento e degradação que indirectamente resultou desse erro.
Face a isto parece-me que o melhor que podemos fazer pela zona da Torre é demolir os edifícios da base, remover o entulho resultante e a estrada que lhe dá acesso a partir do cruzamento na EN 339. Não se trata de fechar a estrada nacional, nem de encerrar o acesso asfaltado à estância de esqui, apenas de renaturalizar o ponto mais alto de Portugal continental, deixando no local, apenas, o malhão da torre.
A zona da Torre é das mais desinteressantes da serra. Não se vêm de lá grandes paisagens, não há árvores, não é um local aprazível. O seu único interesse é simbólico, resulta de ser um ponto culminante, algo a atingir com esforço, algo que deve representar um enriquecimento para aqueles que lá chegam. Como está, ou com "requalificações" do tipo das que costumam ser anunciadas (incluindo restaurantes, hotéis e observatórios panorâmicos), elimina-se este valor simbólico da zona da Torre, ou seja elimina-se todo o valor daquela zona. Só com a proposta que aqui deixei se pode recuperar esse valor. Só ela corresponde, assim, a uma verdadeira revalorização.
Creio que as zonas mais visitadas no interior do Parque Nacional dos Picos da Europa são a dos Lagos de Covadonga e a Ruta del Cares, entre Poncebos e Caín (assinalei no mapa Poncebos e a zona dos lagos).
Todos os dias, desde o final da Primavera até ao início do Outono, ocorre uma grande afluência de pessoas às duas zonas. Os engarrafamentos de tráfego, o estacionamento selvagem e todos os problemas deles decorrentes seriam inevitáveis, se, como são cá, de facto o fossem.
Como é que nos Picos da Europa fazem para evitar os engarrafamentos e tudo isso? Da única maneira possível: proíbem o acesso de viaturas privadas às zonas de maior afluência antes de ser atingida a sua capacidade máxima.
Quando, perto das dez da manhã, me dirigia a Poncebos no meu carro, a fim de fazer a Ruta del Cares, um funcionário do município mandou-me parar a cerca de dois quilómetros de distância do meu destino (como tinha mandado parar todos os que me antecediam) e perguntou-me onde me dirigia. Face à minha resposta, informou-me que não teria lugar para estacionar em Poncebos, pelo que não podia autorizar-me a prosseguir. Aconselhou-me antes a estacionar num grande parque ali instalado e a fazer o caminho até Poncebos a pé ou a aguardar pelo autocarro. Informou-me também que é muito mais prático deixar o carro em Arenas de Cabrales e subir desde o início no transporte público.
O mesmo acontece em Cangas de Onís (no canto superior esquerdo do mapa que ilustra este post) para o acesso aos Lagos de Covadonga. Podem subir viaturas particulares até às oito da manhã ou a partir das oito da tarde. Durante o dia, só o acesso por transporte público (autocarro) é autorizado. Três grandes parques na zona de Cangas de Onís são servidos pelo dito transporte público e nas estradas principais em redor desta localidade, placards electrónicos fornecem informação sobre a sua taxa de ocupação.
Nem túneis, nem itinerários principais alternativos, nem telecabines, nem aumento do número de acessos asfaltados, nem alargamento dos que já existem, nem grandes parques de estacionamento nas zonas a visitar. Apenas ordenamento.
Nos dias que tive nos Picos percorri a Ruta del Cares a pé (28 km), desci em canoa o rio Cares entre as localidades de Panes e Unquera (12 km) , fiz a senda del Oso (perto de Oviedo) em bicicleta (44 km), dei um pequeno passeio a cavalo, joguei paintball com os miúdos, e desci a pé o canal del Texu (4~5 km).
Em todas estas actividades, cruzei-me com pessoas (montes de pessoas) de todos os tipos. Com montanheiros de pele curtida pelo sol e pelas intempéries, com escaladores atléticos, com casais mais para o velhote, com famílias com as suas crianças, com gente rica e menos rica, com espanhóis, portugueses e de outros lados. Havia neo-hippies e neo-punks, gente "normal" e malucos das tatuagens, betinhos e motards, rurais e hiper-urbanos, tudo. No parque de campismo (cuja "população" sofria uma considerável renovação todos os dias) encontrávamos fulanos que enrolavam cordas e discutiam, com gestos abertos e o calão do "metier", os passos chave das vias que tinham feito, crianças que jogavam com cubos de madeira, casais com cães e sem cães, campistas com computador, televisão e fogão de barbecue e campistas com tendas e material mínimos, próprios para bivaques de emergência em paredes expostas na montanha. Havia de tudo, portanto.
Por exemplo, o casal galego a que me referi no post anterior parecia saído de uma sessão de fotos para uma revista de moda e socialite. Ele de pólo, calça de sarja e mocassins, ela, elegante, com um vaporoso vestido castanho, com os longos cabelos loiros lavados e penteados, os dois abundantemente perfumados, jovens, ricos e belos. Tinham feito a Ruta del Cares a pé, vieram ao hotel lavar-se e estavam nas compras, antes do jantar.
Onde quero chegar é a que o pedestrianismo, o montanhismo, o contacto com a natureza, não são coisas só para freaks, para malucos das montanhas mais ou menos suicidas ou para "eco-fundamentalistas". São para todos. Por isso mesmo, se queremos desenvolver o turismo na serra, talvez seja bom começarmos a pensar em todos, e não apenas naqueles que mais não querem que passar algumas horas à beirinha dos seus carros, a escorregar na neve, nesses que chegam de manhã e partem à tarde, nesses para quem, nalguns (poucos) dias do ano, nem todas as estradas do mundo chegam.
E tomemos consciência de que é apenas nesses que pensamos quando planeamos (ainda) mais estradas asfaltadas para as zonas altas da serra.
Cheguei aos Picos da Europa no Domingo dia 9. Acampei no parque de campismo "Naranjo de Bulnes", na aldeia de Arenas de Cabrales. Este parque de campismo é gerido pelos netos de Alfonso Martinez, um natural da aldeia pioneiro da escalada do Naranjo de Bulnes (a montanha representada no logotipo do parque que ilustra este post e que foi escalada pela primeira vez por uma cordada de dois, um dos quais pastor da região).
No segundo dia da minha estadia, perguntei na recepção se havia maneira de percorrer a Ruta del Cares (um trilho pedestre famoso, entre as localidades de Puente Puncebos e Caín, com uma extensão de 12 km) num só sentido, apanhando algum tipo de transporte para o regresso, a fim de poupar os mais pequenos. Perguntaram-me que idade tinham. "Dez anos o mais novo", respondi. Riram-se os da recepção: "Então deixa-te de tretas! Os miúdos irão a Caín caminhando, regressarão caminhando, e ainda quererão que jogues futebol com eles no final. Há transportes, mas demoram mais tempo ainda do que tu caminhando, porque a estrada asfaltada rodeia toda a cordilheira. Deixa-te disso. Vai e vem a pé!" Assim fiz e pude comprovar que tinham toda a razão.
Alguns dias mais tarde, perguntei-lhes sobre outros trilhos que queria percorrer com a minha família. Concretamente, queria saber quanto tempo se levava para atravessar o Canal del Texu (entre Puente Pucebos e Bulnes) e que desníveis encontraria. Deram-me informações detalhadas e correctas até ao mais pequeno pormenor.
Numa das noites, o parque organizou uma palestra com projecção de diapositivos sobre a história da escalada nos Picos da Europa, dada por um alpinista veterano (de que não fixei o nome) integrante de uma cordada que inaugurou a escalada invernal pela face Oeste do Naranjo (creio que se trata da face mais longa e mais vertical). Foram apresentados abundantes indícios da afeição que o povo dos Picos tem pelos seus montes, e pelas actividades desportivas e de lazer que nelas decorrem. O povo asturiano orgulha-se das suas montanhas, e gosta de ser reconhecido como conhecedor profundo dos seus pormenores. "A nosotros nadie nos enseña como subirlas!"
Num outro dia ainda, numa loja de produtos tradicionais onde parei para comprar os inevitáveis "recuerdos", um casal galego meteu conversa com a comerciante. Tendo eles dito que tinham percorrido a Ruta del Cares naquele dia, comentava ela, rindo-se, que era preciso ser doente para vir em férias, em Agosto, levar uma "paliza" daquelas! "La ruta del Cares hay que hacerla em Maio o Septiembre. En Agosto, hace mucho calor!"
Porque falo disto? Quantos comerciantes em Seia sabem quanto tempo é necessário para subir a Garganta de Loriga a pé? Quantos cidadãos de Manteigas conhecem, mesmo que vagamente, as vias de escalada no Cântaro Magro e nas suas redondezas (não pretendo que as tenham escalado ou que as conheçam em detalhe, mas apenas que saibam que existem, mais ou menos onde, em que época foram abertas, etc.)? Quantos habitantes da Covilhã sabem que há na área da Pedra do Urso uma magnífica zona de escalada de blocos ou quais os desníveis na caminhada Piornos - Varanda dos Pastores? Ou mesmo quantos conseguirão dissertar sobre a altura do ano que consideram mais agradável para um passeio entre a Covilhã e a Bouça? Como se compreende que a maioria das vias de escalada do Cantaro Magro tenham sido abertas (imaginadas e escaladas pela primeira vez) por cordadas constituídas por escaladores de Lisboa ou do Porto?
As respostas a estas perguntas mostram que, apesar da pastorícia, não temos na nossa região uma relação profunda com a nossa montanha, ao contrário do que acontece nas Astúrias. O cidadão comum nas nossas localidades (aldeias, vilas e cidades) não conhece a serra, não a aprecia por aí além, não sabe os modos pelas quais ela pode ser usufruída e considera até um pouco estranhos os que dela usufruem. Não admira, pois, que quando se discute o desenvolvimento do turismo, as ideias que apareçam sejam as da abertura de mais estradas de asfalto, os projectos de construções em sítios bonitos exactamente porque ainda não as têm e pouco mais. Nos Picos da Europa, têm outras ideias, e creio que em parte isso acontece porque eles conhecem e amam as suas montanhas mais e melhor do que nós conhecemos e amamos as nossas.
Acabo de chegar de uma semana nos Picos da Europa (Astúrias, Espanha), onde não ia há quase vinte anos. O que lá vi e o que lá fiz vai alimentar alguns posts aqui no "Cântaro".
Como não quero dar a entender que a serra da Estrela é como os Picos da Europa (ao contrário de outros que afirmam que ela pode concorrer com os Alpes ou os Pirinéus, num segmento — Neve e esqui — para que os Alpes e os Pirinéus têm condições absolutamente ímpares), com este post à laia de preâmbulo pretendo mostrar quais as diferenças físicas entre as duas cordilheiras. Nos posts que se seguirem abordarei as diferenças (bem maiores) na forma como elas são tratadas e aproveitadas.
Os Picos da Europa começam a cerca de cem metros de altitude e sobem até pouco mais que 2600 m. Ou seja, têm seiscentos metros a mais por cima e quinhentos metros a mais por baixo do que a Estrela, que começa a seiscentos metros (aqui do lado da Covilhã) e sobe até aos dois mil. São montanhas mais recentes, logo, mais escarpadas. São constituídas de rocha calcárea, em vez de granito. Apresentam precipícios impressionantes, paisagens de cortar a respiração. São um pequeno paraíso para montanhistas e escaladores. Os espanhóis marcam frequentemente o início da actividade montanheira no seu país com a primeira escalada do Picu Urrielo (também conhecido como Naranjo de Bulnes), um enorme promontório rochoso mais ou menos equivalente (em altura) a três Cântaros Magros, mas muito mais vertical.
Os Picos da Europa estão a vinte quilómetros do mar. É perfeitamente possível escalar ou caminhar em ambiente alpino de manhã e fazer praia à tarde. O clima é muito húmido e todas as zonas de altitude intermédia estão cobertas com bosques atlânticos (castanheiro, carvalho, faia, avelaneira, etc.), prados para o pastoreio ou campos cultivados. Por estar mais a norte e ter maior altitude que a Estrela, neva nos Picos muito mais frequentemente e com muito maior intensidade do que por cá.
Os Picos da Europa são muito, muito diferentes da serra da Estrela. Não faz sentido tentar copiar as realidades asturianas para a Estrela, tal como não faz sentido tentar copiar as alpinas ou as pirenaicas, como alguns afirmam que pretendem fazer. O que funciona lá, o que lá é viável, pode perfeitamente falhar na serra da Estrela. Mesmo assim, entendo que poderíamos aprender imenso com a forma como os asturianos entendem o turismo de montanha e com a forma como o desenvolveram. Tentarei demonstrá-lo nos próximos dias.
Cada ponto negro neste céu é uma andorinha-das-rochas (Ptyonoprogne rupestris). Por qualquer razão, há alturas (como a desta fotografia, tirada perto do Covão d'Ametade) em que começam todas a voar e a chilrear em conjunto, para pouco depois voltarem a um relativo sossego.
Para mais informações ou confirmação de presença nas actividades, contactar o CERVAS para o email cervas.pnse@gmail.com.