Ao longo da E.N. 339, que liga Seia à Covilhã, ocorre um conjunto de valores naturais de grande relevância, que inclui um conjunto de espécies de flora como, entre outras, Drosera rotundifolia, Dactylorhiza caramulensis, Senecio pyrenaicus subsp. caespitosus, Thesium pyrenaicum e Allium scorzonerifolium, espécie que tem nas bermas desta estrada o principal núcleo conhecido na Estrela, e que contribuem para que este trajecto seja tão encantador. Reconhecendo a necessidade de beneficiação desta via, alertamos para a urgência de um acompanhamento rigoroso dos trabalhos e interrogamo-nos sobre a criação de algumas áreas de estacionamento cuja localização julgamos não ser compatível com a conservação dos valores presentes.
quinta-feira, julho 30, 2009
B.N. CISE nº26
Ainda as diferenças
Relativamente ao desdobrável que comentei ontem referindo os planos que os responsáveis ingleses têm para o ordenamento da visitação do sítio arqueológico de Stonehenge, houve algo que ficou por dizer e que me parece muito relevante num contraste como o que pretendi fazer entre as atitudes inglesa e beirã (para não dizer portuguesa) face ao ordenamento do turismo.
É que o projecto anunciado tem uma componente de gestão e beneficiação do sítio propriamente dito, tem uma componente envolvendo as estradas e uma terceira componente envolvendo a visitação. Logo nada mais natural que, na planificação, envolver o gestor do sítio (a English Heritage), a agência responsável pelas estradas (a Highways Agency) e uma organização não governamental para a preservação cutural (a National Trust).
E por cá, as coisas não funcionam assim? Talvez, quando realmente se pretende resolver um problema ou realizar uma verdadeira melhoria. Mas, quase sempre, o que se pretende é outra coisa(1). Por exemplo, o renascido projecto do teleférico Piornos-Torre tem sido insistentemente defendido com a necessidade de afastar os carros da Torre, com a vontade de convencer os visitantes a chegarem à Torre num meio mais limpo, com o que teremos a ganhar numa Torre sem a poluição e o ruído automóvel actuais (veja aqui o presidente do Turismo da Serra da Estrela, Sr. Jorge Patrão, fazer esta defesa). Posta assim a questão, eu concordo. Se, em vez dos carros, tivermos o teleférico, ficaremos melhor. Mas é difícil acreditar que seja mesmo essa a intenção quando, ao mesmo tempo que se fazem estes anúncios, decorrem grandes obras de beneficiação da Estrada Nacional 339 entre Seia e o edifício do antigo sanatório dos ferroviários, perto da Covilhã.
Será que se quer, mesmo, afastar os carros da Torre? Ou ninguém disse nada à Estradas de Portugal?
quarta-feira, julho 29, 2009
And now, for something completely different!
Curioso, o último segmento (o da esquerda, note que se trata de um desdobrável), com o título Plans for the future ("Planos para o futuro") que apresento em baixo deixo ampliado:
PLANOS PARA O FUTURO
As suas futuras visitas a Stonehenge serão muito diferentes da sua experiência de hoje. Grandes planos estão em preparação para recolocar Stonehenge num espaço relvado, livre de estradas e do ruído do tráfego e equipar o local com instalações de classe mundial. Isto melhorará a sua apreciação e compreensão de todo este Sítio Herança Mundial.
A English Heritage, o National Trust e a Highways Agency estão a trabalhar juntas para tornar estes planos realidade nos próximos dez anos.
O Projecto Stonehenge vai esconder o itinerário principal A303 num túnel subterrâneo na vizinhança das Pedras e fechar a parte da estrada A344 que actualmente existe entre entre as Pedras e as instalações de atendimento aos visitantes.
O actual parque de estacionamento vai ser coberto de relva e um novo centro de recepção ao visitante será construído aproximadamente a 3 km do monumento. Este centro incluirá exposições sobre Stonehenge, um café, uma loja, instalações educativas, e espaço para o estacionamento de carros e autocarros. Um comboio transportará as pessoas ao ambiente arqueologicamente rico do Sítio Herança Mundial, a uma distância às Pedras suficientemente curta para ser percorrida a pé.
Parece-me algo completamente diferente do que por cá se planeia e se executa. Um anúncio deste tipo, por cá, é sempre em sentido oposto: "vamos abrir mais uma estrada asfaltada para o sítio, aumentar o estacionamento na vizinhança imediata do sítio, abrir um centro comercial, um restaurante, um observatório panorâmico e um centro de interpretação bem no centro do sítio". Não só o conteúdo de anúncios deste tipo é diferente cá na Serra, como também as expressões usadas são diferentes. Neste anúncio de Stonehenge não se fala de alavancar desenvolvimentos, nem de requalificar zonas, nem tão pouco se faz referência a motores do progresso, expressões imprescindíveis aos anúncios das nossas "elites".
Outra diferença importante, aposto, é que nenhum Jorge Patrão inglês se atreve a desenvolver publicamente a teoria de que é importante que projectos em curso não sejam emperrados por planos de ordenamento elaborados por razões ambientais (ou arqueológicas, dada a natureza do sítio).
Something completely different, indeed. Como o dia para a noite.
segunda-feira, julho 20, 2009
Da importância do ordenamento
«Jorge Patrão só espera que o projecto não venha a ter entraves por parte do parque natural da Serra da Estrela "esperamos uma atitude de colaboração e de parceria e não que venham invocar um plano de ordenamento que recentemente foi aprovado para emperrar alguns dos projectos que temos em marcha"»
Jorge Patrão, presidente do Turismo da Serra da Estrela, excerto retirado do blog Máfia da Cova.
Pouco importa qual o projecto a que Jorge Patrão se refere, ou se sim ou não o mencionado Plano de Ordenamento recentemente aprovado em Conselho de Ministros (mas creio que ainda não publicado no Diário da República) efectivamente o constrange(1). Esta frase diz tudo sobre a importância que no nosso país certas forças dão ao ordenamento do território.
Jorge Patrão é contumaz em (des)considerações deste teor. Em 2006(2), afirmava publicamente que "há diversos interessados em investir na Serra da Estrela e é importante que os projectos não esbarrem em impedimentos ambientais".
Podemos ir mais longe. Para além de planos de ordenamento e de outros impedimentos ambientais, porque é que os projectos (sejam quais forem, desde que "apadrinhados" por Jorge Patrão) hão-de esbarrar seja em que impedimentos for? Questiúnculas legais com a posse dos terrenos ou dos edifícios, com a legislação fiscal, com as leis de trabalho, com a livre concorrência? É afastá-las, *todas*, da senda do progresso do turismo na Serra da Estrela, tal como tem sido definido por Jorge Patrão (e outros) nas últimas dezenas de anos. Porque, como se vê, estamos no rumo certo, estamos de parabéns. O ordenamento que não se meta connosco. Que não comece agora a meter-se, pelo menos!
domingo, julho 19, 2009
"Às escuras vê-se melhor"
O matemático Nuno Crato (que, entre outras coisas, fez um diagnóstico a meu ver muito ajustado do estado da educação em Portugal com o livro "O Eduquês em discurso directo") assina uma coluna semanal no Expresso, sempre muito interessante, mas que esta semana diz muito ao Cântaro Zangado. Divulga uma iniciativa integrada nas comemorações do Ano Internacional da Astronomia, na qual diversas localidades promovem um "apagão" localizado, desligando a iluminação pública nalgumas zonas para nelas facilitar a observação do céu nocturno. A questão é que a iluminação pública exterior, muitas vezes exagerada e quase sempre mal desenhada, derrama no céu uma luminosidade tal que torna as estrelas praticamente invisíveis.
Li o artigo a que me refiro (cujo título copiei para este post) nas Penhas da Saúde, sábado à noite. Imagino que o céu estivesse limpo, mas não sei. Não reparei se a lua estava cheia ou não (sei que não estava, mas não reparei). Não vi a Via Láctea, nenhum meteoro, nenhum satélite artificial; não vi, sequer, o piscar de nenhum avião. A bem dizer nem mesmo sei se cheguei a olhar para o céu, durante um passeio de dez minutos, depois do café pós-jantar. A iluminação pública nas Penhas da Saúde (inaugurada há poucos anos) roubou-nos o maravilhoso espectáculo do céu nocturno, substituindo-o por uma luminosidade alaranjada intensa, indiferenciada e desinteressante, mais apropriada a uma via rápida suburbana.
Em nome de quê?
sexta-feira, julho 17, 2009
Mais um bom sinal
Ontem por volta das 14:30, entre a Pedra do Urso e o sanatório, vi seis aves de rapina (pareceram-me águias-calçadas) voando em círculos.
Infelizmente, não trazia a câmara.
Já vi várias referências a um aumento bastante generalizado do número de indivíduos de quase todas as espécies de rapina nos últimoas anos. Será esta observação um sinal dessa tendência?
quinta-feira, julho 16, 2009
Um bom sinal
É, apesar de tudo, um bom sinal.
terça-feira, julho 14, 2009
CERVAS
O Centro de Ecologia, Recuperação e Vigilância de Animais Selvagens mantém agora um site na internet, em formato blog. E continua com uma actividade a meu ver absolutamente notável e louvável. O endereço do site é cervas-aldeia.blogspot.com.
sábado, julho 11, 2009
Porque falo tanto de turismo?
Tenho uma profissão exigente e compensadora, e não pretendo mudar de ramo para me dedicar ao turismo. Não tenho qualquer formação nessa área, sei de turismo tanto ou tão pouco como qualquer um. Ou melhor, sei de turismo apenas o que da minha actividade de turista aprendo. Sei de turismo apenas na perspectiva do cliente.
Por outro lado, creio que conheço relativamente bem a serra, o suficiente pelo menos para considerar (bem ou mal) que não preciso de pagar a guias ou a monitores para praticar as actividades que me interessam. Acresce ainda que, como moro na região, também não sinto falta de unidades hoteleiras ou similares para pernoitar ou para me alimentar. Tenho a minha casa para isso. Ou seja, não tenho nenhum interesse pessoal directo no desenvolvimento do turismo na serra da Estrela.
Por outro lado ainda, sou da opinião que o desenvolvimento de uma região não se pode basear no turismo. Entendo que o turismo é um ramo que pode e deve ser aproveitado, mas é importante que seja apenas um de vários sectores económicos relevantes. Isto é verdade relativamente a tudo (lá diz o ditado: não se ponham os ovos todos no mesmo cesto), mas é especialmente verdade no caso do turismo. O turismo de qualidade vive do que é verdadeiro, do que é genuíno numa região. Se a região se afunila para o turismo, deixa de ter aspectos verdadeiramente genuínos, verdadeiramente "verdadeiros". Não é um pouco isso que acontece nos grandes centros de turismo? O que há de genuíno em Quarteira, por exemplo?
Mas, se não sei nada de turismo, se não pretendo iniciar um negócio nesse ramo, se não tenho interesse pessoal e directo no desenvolvimento do turismo na serra da Estrela e se entendo que o turismo deve ser apenas um entre vários vectores para o desenvolvimento, porque diabo falo eu tanto, tanto de turismo?
Falo muito de turismo porque todos falam de turismo. Vejamos: pretende-se asfaltar mais uma estrada? Afirma-se que é para desenvolver o turismo; quer-se construir quatrocentos apartamentos nas Penhas da Saúde? É para desenvolver o turismo; deseja-se uma nova barragem? Indica-se que vai ser bom para o turismo... O turismo serve de capa a muita coisa: aos interesses imobiliários (como no Algarve), aos negócios dos construtores, aos dos políticos empenhados nas campanhas eleitorais em mostrar (ou prometer) obra, etc. Ora, se toda a gente invoca o turismo, eu também o posso fazer, porque não?
Mas quando eu falo de turismo na serra da Estrela, falo de um verdadeiro turismo de montanha, não da multiplicação de estradas, de aldeamentos, casinos, barragens e teleféricos. Falo de actividades de ar livre, de interpretação da natureza, de pedestrianismo, de turismo lento e distribuído por todo o ano, e não daquilo que nós aqui temos e que ao longo das últimas décadas temos com tanto fervor cultivado. Falo de um turismo baseado mais na prestação de serviços (pagos, evidentemente) do que na construção de infraestruturas. Quando falo de turismo na serra da Estrela, falo daquele que procuro (e encontro) nas outras montanhas que visito.
E faço-o porque esse turismo, tendo também impactos vários (e alguns graves), é mesmo assim infinitamente menos prejudicial para o ambiente e a paisagem que aprendi desde criança a apreciar (e que gostava de poder continuar a apreciar, e a partilhar com os meus filhos, e que eles o possam fazer também com os deles) do que todas estas outras actividades que, sendo apregoadas em nome do turismo, mais não fazem do que dificultar o seu desenvolvimento, ao substituirem-no por isto que temos cá pela serra da Estrela, por isto que, como disse há pouco, temos cultivado tão fervorosamente.
Falo de turismo porque entendo que há vantagens económicas a retirar do ambiente e da paisagem da serra da Estrela. Não que pretenda eu retirar essas vantagens. Eu procuro compensações de outra ordem. Mas os que apostarem num turismo a sério na serra da Estrela, tal como eu, só terão a ganhar com a preservação do seu espaço natural. E, tal como eu, só terão a perder com a continuação deste actual estado de coisas.
É por isto que falo tanto de turismo.
terça-feira, julho 07, 2009
A irresistível tentação
O novo edifício da Pousada de Juventude das Penhas da Saúde foi inaugurado ontem, dia seis de Julho. Imagino que a ampliação da Pousada tenha sido decidida em função da procura que a unidade registava. Considero que o edifício se enquadra bastante bem no local, e espero que possa contribuir também para diversificar o tipo de turismo que se pratica na Serra da Estrela. Ou seja, nada tenho contra a ampliação.
Mas, logo à entrada do novo edifício, impressa no próprio vidro, damos com a imagem que ilustra este post.
Mmmm... Ao certo, ao certo, em que ponto da Serra da Estrela ou de Portugal terá sido tirada aquela fotografia?
Ai, ai, esta irresistível (e parola) tentação de apresentar a serra como algo que ela não é nem nunca foi, e que frequentemente leva a ilustrá-la com imagens colhidas noutras montanhas...
Como dizia o outro, a unidade hoteleira até é uma boa unidade hoteleira, não havia necessidade...
segunda-feira, julho 06, 2009
O interior abandonado
Desprezo, abandono, esquecimento, são expressões com que no interior frequentemente caracterizamos a atitude do poder central face à fatia do território nacional a mais de 70 km do mar. Quase sempre, estes termos são apropriados (mas não sei se devemos assacar ao governo, ao "poder de Lisboa", todas as responsabilidades pela assimetria litoral/interior que todos os anos se agrava).
Quase sempre são apropriados aqueles termos, mas há excepções. Por exemplo: haverá algum trecho de estrada nacional com cinquenta quilómetros de extensão que mais frequentemente seja objecto de reparações e beneficiações do que a estrada nacional 339 entre Seia e Covilhã? Duvido.
Nos últimos anos têm-se sucedido intervenções: instalação de painéis informativos do estado da estrada, sinalização com altitudes e com avisos de "Check your breaks now", repavimentações, alargamento de zonas de estacionamento... Nos últimos dois ou três anos, tem sido difícil dar um saltinho da Covilhã às Penhas da Saúde sem que nos cruzemos com uma ou mais carrinhas todo o terreno da Estradas de Portugal. Esquecem-se da Serra?! Esquecem-se muito mais de todas as outras estradas do país, parece-me a mim!
Vem isto a propósito de mais uma destas intervenções, agora a decorrer. Temos a EN 339, entre Seia e a zona do antigo sanatório dos ferroviários (cerca de 40 km no total, mais coisa, menos coisa) transformada num estaleiro. O novo tapete, espesso, de bom asfalto, é liso, lisinho, como a pele de uma gueixa japonesa. Um pavimento de auto-estrada. Um pavimento apropriado para corridas de fórmula um. Será, sem dúvida, dos melhores pavimentos de todas as estradas nacionais... Aplicado numa estrada relativamente pouco frequentada. Desprezo, abandono, esquecimento pelo interior? Não neste caso, nem pouco mais ou menos.
Será que serve o turismo esta opção? Não me parece. Em princípio, o turismo é servido com opções que reforcem a especificidade dos locais, que reforcem a imagem do produto que se pretende vender. Numa zona de montanha como esta, o turismo seria melhor servido por uma estrada lenta, panorâmica, com um traçado, um pavimento e uma sinalética que constantemente lembrasse os condutores do local em que se encontram, que obrigasse à circulação a velocidades reduzidas porque qualquer curva pode ser mais fechada do que aquelas a que as IPs nos habituaram e atrás de cada curva pode encontrar-se inesperadamente gelo, um rebanho, um turista pedestre. Pois bem, este novo pavimento e esta sinalética dão ao condutor as mensagens inversas.
Mas assim vamos, no rumo de sempre. Tomando quase sempre as decisões erradas, quase nunca as certas, e executando-as, umas e outras, sempre do pior modo possível. De quem é a culpa? Desta não podemos culpar o governo. O dinheiro pode vir de Lisboa, mas vem porque nós o pedimos. A culpa é nossa e só nossa.
