Galciar Aletsch, Suiça (imagem da Wikipédia).
O assunto das alterações climáticas não é novo. Já há muito tempo que se discute, já há muito tempo que o foco da discussão deixou de ser o facto em si (o aquecimento global é ou não real?) para passar a ser o que o causa (é causado pela actividade humana ou tem causas naturais?). É cada vez mais claro que a opinião dominante entre cientistas do clima e decisores de topo está a pender para a primeira hipótese, a de que é a actividade humana (mais concretamente, a emissão de gases com efeito de estufa pela actividade industrial e agro-pecuária e pelos transportes) a principal causadora do aquecimento do planeta. Esta opinião é de tal forma generalizada que até o presidente dos Estados Unidos parece já ter sido convencido.
Mas resiste ainda uma minúscula bolsa de (dois) irredutíveis, entrincheirada numa pequena cidade da Beira Baixa. Munidos de estudos nenhuns, do alto de currículos nenhuns, estas duas climatológicas nulidades afirmam, contra ventos e marés, que não, que o aquecimento global ainda não está demonstrado, que ainda não se faz sentir na Serra da Estrela, até porque "no ano passado só foi necessário produzir neve artificialmente durante quatro dias" (veja aqui e aqui).
Volto a fazer a pergunta do costume: que crédito merecem estas originalíssimas considerações?
Ironias à parte, aceitemos por um momento a tese dos senhores Artur Costa Pais e Jorge Patrão (são estes os nomes dos dois desalinhados analistas do clima da Estrela, o primeiro administrador da empresa que gere a estância de esqui, o segundo presidente da Região de Turismo). Imaginemos que a queda de neve na Serra da Estrela se mantém nos próximos vinte anos igual à que se verificou no anno alegadamente mirabilis de 2005-2006, o tal em que só foi preciso ligar os canhões de neve em quatro dias. A pista da estância que classificaram como negra (mas que não é mais do que vermelha) esteve aberta três dias, se tanto, e a estância esteve reduzidas às duas ou três pistas mais pequenas durante o primeiro mês da época. Durante a maior parte da época, a estância apresentou uma fina camada de neve, apenas nas pistas; no resto, via-se cervum e rochas a descoberto. A pouca neve que cobre as pistas derrete durante o dia, transformando-se numa papa desagradável a partir do meio dia, e à noite congela, transformando-se num vidro perigoso até meio da manhã. Descemos as pistas em apenas meio minuto, mas subimo-las, sentados nas telecadeiras, em sete (isto, durante a semana, quando quase não há esquiadores e se apanha a telecadeira assim que se chega ao fim da descida, sem se ter que aguardar em bichas).
Esqui de fraquíssima qualidade, em suma. Este é o esqui que temos na Serra da Estrela, nos anos considerados bons.
E é acreditando (contra toda a evidência e contra a opinião dominante) que esta tristeza é viável apesar do aquecimento global, que Artur Costa Pais e Jorge Patrão planeiam o futuro do turismo na Serra da Estrela, defendendo investimentos públicos na estância, defendendo a suburbanização das Penhas da Saúde como pólo de après-ski, defendendo a ampliação da estância para altitudes ainda menores, logo, com ainda menos neve.
Francamente, isto é sério?
Está a decorrer na Guarda, até amanhã, o primeiro Congresso Ibérico da International Permafrost Association, com o tema "Ambientes periglaciários e variações climáticas: das montanhas às altas latitudes", em que se discutem projectos internacionais para avaliar e perspectivar as alterações climáticas regionais e globais. É interessante contrastar a opinião de Gonçalo Vieira (investigador do Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa) com o iluminado (ou alucinado?) optimismo de Jorge Patrão e de Artur Costa Pais.
PS1: O contraste de opiniões que sugiro é feito, e bem, pelo Estrela no seu melhor.
PS2: Gosto muito de esquiar e esquio por vezes na estância da Turistrela. Tenho pena que a realidade da Serra da Estrela seja a que acabei de descrever. Mas as coisas são como são.