sábado, dezembro 30, 2006

Isto parece-lhe normal?

Duas semanas apenas após publicar o artigo a que me referi aqui, a Visão volta ao turismo de montanha, para falar agora (em seis páginas que apresento em baixo, clique para aumentar) das consequências do aquecimento global para a viabilidade de muitas estâncias de esqui, referendo-se principalmente às dos Alpes.
Depois de, há duas semanas apenas, ter dado voz ao administrador e proprietário da Turistrela (classificada como "empresa de uma família da Covilhã") que defendia investimentos que permitam aumentar a frequência da estância de esqui para podermos recuperar dos "20 anos de atraso em relação às estâncias espanholas(1)", a Visão publica agora a opinião (da OCDE) de que muitas estâncias dos Alpes não têm viabilidade a médio prazo. Sobre a prática do esqui na Estrela, na estância da tal empresa familiar, nem uma palavra. Isto parece-lhe normal, caro leitor da Visão(2)?

Neste artigo da Visão apresentam-se medidas que foram sugeridas para viabilizar o negócio das estâncias dos Alpes: aumentar a altitude das áreas esquiáveis; recorrer (ainda mais) à produção artificial de neve; mudar o modelo, isto é, mudar a oferta, do esqui para outros segmentos. Independentemente das suas vantagens e desvantagens ou dos seus impactos, se considerarmos a aplicabilidade destas medidas no contexto da nossa Serra da Estrela, constatamos que aumentar a altitude da estância é impossível. Já foi aumentada o que podia ser, quando, há uns quinze anos, a estância foi transferida das imediações do Centro de Limpeza de Neve para a Torre. Aliás, note-se que alguns planos de expansão da estância visam a ocupação de áreas de ainda menor altitude (Covão do Ferro, por exemplo). Aumentar mais a produção de neve artificial talvez seja possível, mas a custos cada vez maiores (será necessário bombear água de altitudes mais baixas) e a viabilidade prática desta solução deixa muito a desejar na Serra da Estrela, como se tem visto pela área que a estância de esqui tem conseguido (e diga-se: apenas graças a transportes de neve com buldozers) manter aberta ao público, mesmo nos recentes dias de frio intenso. Mudar o modelo de negócios talvez fosse possível, mas receio que seria necessário mudar os protagonistas, que os que temos (Região de Turismo, Turistrela, autarcas) mantém o discurso e as apostas de há cinquenta anos(3). A diferença principal entre o agora e o então é que agora parece haver mais força para concretizar os projectos ou, pelo menos, para conseguir verbas públicas para os financiar...

Mas o fundamental deste post é a seguinte constatação: nos países da Europa onde tradicionalmente há reais condições para a prática do esqui e onde o turismo de neve se tornou uma componente importante da economia, gerando vários milhares de empregos, tenta-se naturalmente achar soluções que viabilizem as grandes estâncias existentes, tentando evitar as consequências sociais dos seus encerramentos e encarando-se com imensa preocupação as próximas décadas. Em Portugal, em contrapartida, o governo acaba de aprovar investimentos de €32.850.000,00, que serão aplicados, directa ou indirectamente, no produto neve(4), para reforçar a atractividade de uma micro-estância sem expressão nenhuma em termos da economia nacional e com pouco peso na economia regional (note que são os próprios proprietários da estância que afirmam que apenas 5% dos turistas a procuram, como se pode ler na Visão de há duas semanas). Isto, numa montanha meridional, atlântica, de baixa altitude, onde pouco neva. Isto parece-lhe normal, caro contribuinte?

(1) Referi-me em tempos a estes ridículos argumentos da concorrência com a estância de Béjar, no post A lógica das avalanches.
(2) Note-se que eu sou um leitor semanal da Visão e que a considero, no panorama nacional, uma revista excelente.
(3) Até o projecto do teleférico Piornos - Torre recuperaram, chamando-lhe agora telecabine Penhas da Saúde - Torre!
(4) Obtive estes números no Gazeta do Interior de 27 de Dezembro de 2006, na página 14. São o total de investimentos anunciados para os projectos da telecabine Penhas da Saúde - Torre, das infra-estruturas da Estância de Montanha das Penhas da Saúde (a mini-cidade de Carlos Pinto) e da estância de esqui propriamente dita. Aliás, o montante previsto para esta última é anedoticamente preciso: €4.013.638,04. Nem mais, nem menos!

Factos são Factos!

É isso mesmo: "Factos são Factos" !!E não adianta nada ao Costa Pais vir dizer o contrário porque a Natureza encarrega-se de demonstrar a insustentabilidade da estancia de esqui na Serra da Estrela!!Ontem havia 5 pistas (se bem que de qualidade duvidosa) oficialmente abertas à custa da neve artificial mas principalmente à custa de BULDOZERS que "importavam" neve das redondezas da estância para depois a colocarem nas pistas (incrivel! isto foi presenciado por um leitor do Cantaro Zangado!)!!Voltando às pistas, veja lá quantas estão hoje abertas??Pode ver na imagem que retirei do site da Turistrela hoje....pois...UMA!!Uma micro-pista com cerca de 100 metros! Mas pronto, é uma, e já conta como se a estancia estivesse aberta. Daí os cento e muitos dias que Costa Pais afirma que a estancia esteve aberta na época passada.
Resumindo, a Natureza, com o nevoeiro de um diazito, mostrou cabalmente a ausencia de viabilidade desta estancia e o FIASCO que será se a Turistrela expandir o seu perimetro (= mais terraplanagens, mais estruturas horrendas, mais monos para "requalificarem" a paisagem quando não estão em funcionamento) e ainda por cima para cotas mais baixas como para as barragens do Quelhas (Loriga) ou do Covão do Ferro (Unhais).
Vamos dizer BASTA à expansão do ENTULHO que é o que resta de uma estancia de esqui quando esta Não está em funcionamento!

Bom Ano para todos!!

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Vamos proteger as áreas protegidas?

Covão Cimeiro
Covão Cimeiro
Imaginemos que queríamos, de facto, proteger as áreas que legalmente foram definidas como protegidas e, em particular, aquela chamada Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE). Admitamos, para manter este exercício com um mínimo de realismo, que queríamos tentar que essa protecção não se revelasse incompatível com outros objectivos, nomeadamente os do desenvolvimento do turismo.
Como deveríamos proceder? Isto é, com que mecanismos legais e com que pessoal para os fazer funcionar dotaríamos que instituições, de modo a cumprir um tal objectivo?
Pensemos bem. Haverá alguma maneira de fazer isto, sem que essas instituições apareçam por vezes como forças do bloqueio? Duvido. Ao fim e ao cabo, a sua função é, também, a de bloquear empreendimentos incompatíveis com a conservação da natureza, não é?
E como é que essas instituições podem avaliar se um determinado empreendimento é incompatível com a conservação da natureza? Bem, através de estudos de impacto ambiental, ou há outra maneira?
Voltemos agora ao assunto que tanta tinta tem feito correr, o da exigência, por parte do PNSE, de estudos de impacto ambiental prévios a obras na estância de esqui da Turistrela. A avaliação do impacto ambiental dessas obras é necessária e ninguém o nega. A questão é que Artur Costa Pais (administrador e proprietário da Turistrela) e Jorge Patrão (presidente da Região de Turismo da Serra da Estrela) se consideram aptos para fazerem essa avaliação, consideram que já a fizeram, e consideram que não há impactos ou "se os há, são positivos", como disse, ironizando, o segundo destes responsáveis (veja esta declaração aqui, por exemplo).
Isto parece razoável? Que duas pessoas sem formação académica, sem experiência nas áreas da biologia ou da ecologia, sem nunca terem dado mostras de interesse particular por essas áreas e que, ainda por cima, são parte interessada (pelo menos uma delas) nos empreendimentos em causa, que duas pessoas assim, dizia, decidam que não há impactos ou, "se os há, são positivos", e que (por fim) nós todos, como estado, aceitemos sem mais essa decisão, será isto razoável?!
É mesmo deste modo que queremos proteger as áreas protegidas?
Estamos a chegar ao fim do ano, achei que era uma boa altura para colocar estas questões.

Reacções ao "Lançamento Público" do PITER no Jornal da Tarde

Como estamos em tempo de festas, o tempo para andar "agarrado" ao computador não é o do costume. No entanto, aqui no Cantaro não queriamos deixar de comentar a triste propaganda feita pelo serviço Público através do Jornal da Tarde aos negócios projectados por alguns privados (veja-se aqui de imediato um conflito de interesses: serviço Publico/serviço privado). Assim, dentro do tempo disponivel que a quadra permite dedicar aos "blogs", optámos por transcrever uma opinião deixada por um leitor no texto "Les uns et les autres" e também a resposta em jeito informativo que dei ao respetivo leitor. Então aqui vai 1º o comentário do Leitor:

Acabei de ver na televisão a entrevista a Artur Pais, da Turistrela, na Serra da Estrela, em directo, seguido de entrevista ao Director do ICN (28DEZ06 13:50). Reconheço que "tive de me conter". Ainda estou num estádio de reação primária com o desplante desta pessoa que é capaz de afirmações, do tipo de se querer comparar às estações de Ski da Serra de Béjar. Um desplante de fazer querer aos portugueses que o ouvem que são dois ou três tecnicos do PNSE que entravam o futuro das gentes da Serra e que precisa "urgentemente" de substituir os equipamentos de "remonte" e que o Parque exige planos de impacto. Ou este blog Zangado me enganou muito bem ou o que entendi dos posts é que não é bem uma simples substituição que se pretende, mas sim um "acrescento" de meios mecânicos. Seja como for gostaria de perceber como estes "excelentes" e "beneficiosos" projectos poderão agradar, aos que como eu sempre subiram a partir de Loriga, pelo Covão da Areia e Fraga do Padre Nosso para chegar à zona dos Covões e deparar com um carrada de ferralharia a invadir a paisagem. Uma vedação através da qual eu não consigo passar nem sentir as maravilhas do progresso (a menos que pague muito). Apenas sinto a Opressão da privatização egoísta dos espaços naturais... Quando é para apelar à preservação dos espaços naturais é para todos. Quando é para usufruir calha só a alguns poucos (€) e geralmente os que pior o fazem. ...nem quero pensar muito nisso senão ainda me lembro que dinheiro dos meus impostos foi posto ali... ainda parto o teclado (e olhem que estou a teclar "forte"). De todas as vezes que ali passei não restam sinais. Quantos podem dizer o mesmo? Paguei alimentação na zona? paguei. Abasteci o carro nas gasolineiras de Seia? Sim. Recorri à oferta de alojamento "turístico"? Muito pontualmente. Por estes meus pecados de ser um "consumidor subaproveitado" vou ter de tropeçar para o resto dos meus dias com todos os casebres e estaleiros de obras que um usurário me impõe. Eu é que estou mal. Não uso "forfaits" Não uso hóteis. Não uso os parques de estacionamento nem vou às festas da turistrela... sou mau freguês! O que mais me ofende é o tom do "porta-voz" da turistrela se presumir interprete das expectativas dos clientes e das populações. Apesar de ser um "directo televisivo" cheio de falhas técnicas a nível do som, ressoa o sentimento de coitadinhos dos que querem edificar a Estrela. Será que toda a gente percebeu claramente das suas palavras é que se trata de um cidadão que quer ser mais que os outros. "dispensando-se" o cumprimento das regras? Será que alguém se apercebe que este homem é o retrato autentico da glutonia económica? Será que o país é capaz de aprender liçoes a partir dos erros dos outros para não cair nestas asneiradas? Posso ter "faltado a algumas aulas" mas não vejo no que é que a minha forma de usufruto da Serra impeça os outros de prosseguir com a sua forma de susufruir. Já o contrário é por demais evidente que colide com a minha ideia de contacto com a natureza. Porque é que não fazem um "Ski Dubai" lá para as bandas de Vilar Formoso. assim apanhavam clientes de todos os lados e "reforçavam" a economia do interior? Há pessoas que encaram a vida e o mundo como um jogo de computador, com hipótese de salvar e jogo e recomeçar onde a coisa descanbou. Isto não é um simulador para brincar. Serra da Estrela há só uma. "Se" estas "apostas" derem mau resultado como é que se faz restart? Perdão pela extensão do texto. como disse, isto ainda é "a quente" da entrevista que presenciei. Grave entrevista com graves prenúncios. 28/12/06 14:45

E agora a resposta:

Caro Pereira, compreendo e partilho a sua consternação e desespero perante as declarações de Costa Pais e companhia!A verdade é que não é a primeira vez que profere este tipo de insinuações (assim como Jorge Patrão) utilizando uma táctica de desinformação da opinião publica para virar as hipoteses a seu favor. No que diz respeito aos projectos da estancia de esqui tambem aqui a desinformação e propaganda é muita. No entanto, do meu conhecimento, os projectos contemplados no PITER contemplam "apenas" intervenções dentro do perimetro actual da estancia (Agora qual é este perimetro ao certo, ainda está por saber). Dentro destas intervenções não estão apenas as "substituições" dos antigos teleskis por outros novos no mesmo local mas sim o reposicionamento de alguns, a instalação de mais meios mecanicos, terraplanagens para maximizar a área esquiavel assim como edificios de apoio! Ou seja, o Estudo de impacte ambiental torna-se "obrigatório", mas dependerá do PNSE exigir este estudo. Isto é a primeira fase de "melhoramento" da estancia e a que neste momento tem mais hipoteses de realmente avançar. A 2ª fase será posterior e essa sim pretende aumentar o perimetro da estancia para todos os pontos cardeais, leia-se Alvoco, Loriga (nos covões) e Unhais (Covão do Ferro)alem da instalação dos teleféricos desde os Piornos e Lagoa Comprida! Este ultimo projecto é justificado pela necessidade de garantir o acesso à estancia em quaisquer condições!?!Veja-se o disparate!Mas então a actual pequena Telecadeira da estancia já tem dificuldades em funcionar (devido ao vento) e esperam que uma outra (semelhante à da EXPO98) com maior longitude e maior exposição funcione em condições adversas?!Mais, quem conhece o topo da serra com mau tempo a sério, sabe que não é lugar para se estar a fazer ski ou outra coisa qualquer, mesmo que lá se chegue. E então se a malta conseguir subir no hipotético teleférico e depois já não conseguir descer!? É todo este tipo de desinformação que a Turistrela/RTSE tem utilizado para convencer tudo e todos da necessidade de ancorar o desenvolvimento da região nos seus projectos megalomanos e em particular no turismo do esqui que a curto prazo está condenado a desaparecer. Eu devo dizer que o que mais me incomoda é estes senhores pensarem que são mais espertos que os outros e que enganam todos com o seu discurso! Já reparou que na entrevista a Jorge Patrão, este metia sempre que podia a expressão "protecção ambiental"??!E pasmei ao ouvi-lo dizer que estes investimentos serviam para isto mesmo...PROTEGER O AMBIENTE!!!Se não fosse para chorar até ria. Esta pretensa evolução no seu discuro, assim como no de Artur Costa Pais, tem como origem (creio eu) as criticas feitas pela Plataforma pelo Desenvolvimento Sustentável na Serra da Estrela (PDSSE) criada recentemente com o objectivo de mudar o rumo actual do "desenvolvimento" na Serra, apoiar as populações e impedir a concretização de projectos ostensivamente alheios às preocupações ambientais que uma zona destas caracteristicas obriga. Tenho que esperança que as coisas possam evoluir de forma oposta à actualmente pretendida por Costa Pais e Jorge Patrão, ainda tenho alguma confiança que com o devido apoio o PNSE consiga defender a Serra por isso tenho esperança que a nossa Serra não seja completamente adulterada. Só assim poderemos efectivamente lutar por ela. Pereira, mais uma vez obrigado pelo seu contributo. Apareça sempre TPais 28/12/06 19:34

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Les uns et les autres

Vale da Candieira
Vale da Candieira, visto do Cântaro Gordo

"Choquei" há dias com um livro de Peter Singer, "Ética Prática", onde se discutem numa perspectiva ética questões que devem ser decididas sem uma base factual. Um dos problemas que o autor nos coloca é o da conservação da natureza. Peter Singer, sendo catedrático de filosofia em Princeton, não tem propriamente credenciais como ambientalista ou como anti-ambientalista(*). Mas ele considera que quando há razões factuais que apoiam duas tomadas de posição antagónicas, pode haver vantagens em analisar o assunto nos termos da filosofia, nos termos da ética. É difícil discordar desta opinião, filosoficamente tão humilde.

Sobre a protecção do ambiente, Peter Singer diz coisas que são quase triviais, coisas que são do mais elementar bom-senso, por exemplo:

  • que a natureza selvagem tem um valor importante para muitas pessoas que a apreciam, seja por razões de lazer, seja por razões estéticas, seja por razões desportivas, e que esse valor é cada vez maior porque são cada vez mais raras as áreas onde ainda se pode usufruir de um ambiente preservado;
  • que os impactos que causamos agora, urbanizando as áreas naturais, transformando em pastos uma porção de floresta antiga, inundando vales com a construção de barragens, podem traduzir-se em vantagens imediatas, mas não conhecemos todas as suas consequências futuras;
  • que nada nos garante que as gerações futuras nos agradeçam por todos os "desenvolvimentos" que patrocinamos (aliás, tudo aponta no sentido oposto: quem é que está grato pelo esvaziamento do mar de Aral, pela destruição da Amazónia, pela muito provável extinção a médio prazo do atum e do bacalhau ou pela urbanização selvagem e galopante no nosso país?).
Enfim, nada que não tenhamos já ouvido.

Eu gostava de destacar o primeiro argumento que aqui referi: há pessoas para quem o contacto com a natureza no seu estado natural é muito importante.
Claro que também há pessoas que o que querem é barzinhos com refrescos, música ambiente, "muita, muita animação" e estradas para chegarem rápida e confortavelmente a essa "animação" (e rápida e confortavelmente se pirarem para outra).
Eu não percebo é porque é que estes são considerados "turistas" e aqueles "fundamentalistas do ambiente".

(*) Por qualquer razão, ninguém se auto-intitula anti-ambientalista, nem mesmo aqueles que gritam "Fundamentalismo!" sempre que ouvem alguém defender a protecção do ambiente...

Como é o esqui na estância Vodafone?

Há alguns dias, num artigo artigo intitulado O Esqui na estância Vodafone, como ele é, pus em causa a capacidade dos meios mecanizados de produção de neve da estância de esqui da Torre, baseando-me no facto de, apesar das baixas temperaturas, a estância estar a funcionar com apenas duas pistas abertas ao público.
Pois bem, a Turistrela rebateu os meus argumentos com acções. Sem que tenha nevado desde então, conseguiram abrir aos esquiadores mais duas pistas, um teleski e a telecadeira. Assim o afirmam no site, eu acredito mas não o posso confirmar porque não passei pela zona da estância estes dias.
Ou seja, neste aspecto em particular, o Cântaro Zangado não tinha razão ou, pelo menos, não a tinha toda. Fica feito o reparo.

terça-feira, dezembro 26, 2006

Sensações fortes?!

A imagem acima é um bocado de uma página do suplemento Fugas do Público de Sábado, 23 de Dezembro. O que me interessa aqui é a imagem do Grand Canyon, no Colorado, EUA, e o texto que acompanha a imagem (ou seja, a fotografia da torre com telhado cónico é para esquecer). Este texto refere um projecto já aprovado para a construção de um "passeio de vidro" com vinte metros de extensão sobre a famosa garganta.
OK, é uma atracção turística. OK, com certeza irá contribuir para atrair mais visitantes àquela zona específica do Parque Nacional do Grand Canyon (diga-se de passagem, ficamos a saber lendo o texto que este parque é visitado anualmente por quatro milhões de pessoas).
Mas será, como diz o texto logo a abrir, "uma das sensações mais fortes que o Grand Canyon terá para oferecer e promete fazer surgir o característico frio na barriga"?
Sem nunca ter visitado o Grand Canyon, tenho as minhas dúvidas. É que basta digitar "Grand Canyon" no google para se ficar a saber de um sem número de sensações realmente fortes que se podem experimentar na zona, como rafting, kayak, BTT, pedestrianismo, passeios interpretativos, etc.
Passear numa varanda é sensações fortes?! Pois sim!

Correcção

Recebi informações, que considero fidedignas, de que na origem da mistificação a que me referi no último post não está Jorge Patrão. Trata-se, fiquei a saber, de uma notícia que, depois de investigada e redigida, sofreu edições por terceiros que, involuntáriamente, tornaram mais fácil a confusão. Por mim, não há problema, são coisas que acontecem, mas acho que devo a Jorge Patrão um pedido de desculpas por ter, com o post anterior, veiculado a ideia de que era ele quem tinha gerado este lamentável mal-entendido.
A notícia foi tratada também pelo Primeiro de Janeiro.

domingo, dezembro 24, 2006

Como se fabrica uma notícia

Saiu hoje no público uma notícia na qual Jorge Patrão reage a um comunicado da Plataforma pelo Desenvolvimento Sustentável da Serra da Estrela (PDSSE), em que esta plataforma se opõe aos programas a finaciar pelo Programa Integrado Turístico de Natureza Estruturante e Base Regional (PITER), o tal dos €100.000.000.
E depois? Nada, mas acho estranho que Jorge Patrão se refira a um comunicado da PDSSE que não existe. A PDSSE ainda não se pronunciou sobre o PITER. Talvez o faça, talvez não. Por enquanto, nicles.
Mas, então, é tudo inventado? Não completamente (como já dizia o António Aleixo, para uma mentira ser credível, tem que vir misturada com alguma coisa de verdade). A notícia apresenta excertos de um comunicado da PDSSE, sim, mas daquele em que nos referimos às queixinhas de Artur Costa Pais (administrador da Turistrela), coitado, que parece que foi obrigado pelo Parque Natural a fazer (veja-se lá) um estudo de impacto ambiental prévio a obras na estância de esqui. Trata-se do comunicado a que me referi aqui, e que foi publicado na íntegra aqui e aqui. Nesse comunicado estranhávamos que Jorge Patrão, na sua qualidade de presidente da Região de Turismo, nunca tivesse feito queixa do lixo e do entulho que a Turistrela deixa espalhados em todos os locais onde actua.
Jorge Patrão não deu resposta a esse comunicado, mas faz agora esta mistificação torpe e desonesta. Qual o objectivo? Virar a opinião pública contra a conservação da natureza e, em particular, contra a PDSSE.

Falando por mim em particular, fico muito contente por ver o maquinista cheio de comichão!

Boas Festas!

Não posso, onde estou a passar esta quadra, incluir aqui uma digitalização da notícia (fá-lo-ei mais tarde) mas ela pode ser consultada durante o dia de hoje, neste link. Mas tarde conto incluir também o texto com que a PDSSE respondeu a esta notícia.

Nota Importante: Ver o próximo artigo.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Campismos

Covão da Ametade
O Covão da Ametade é o melhor parque de campismo do país. É o melhor que conheço, pelo menos. Ah, sim, não tem grandes condições para se lá passarem 15 dias com a famelga, a televisão, o canário e o bobi, não dá para "estacionar" a roulotte o ano todo e semear uns canteirozinhos à volta. Mas é ideal para o que interessa, ou seja, para passar um fim de semana e "bazar" para outro sítio. Para Verdelhos, para o Vale do Rossim, para o Pião, para Loriga.
E isso é pouco? É lá agora pouco!
Espero que o modelo para os recentemente anunciados planos de requalificação do Covão da Ametade não seja o C.C.L. da Costa da Caparica...

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Boas Festas 2

Uma vez que LJMA se referiu ao Corredor do Inferno, não consegui resistir a colocar mais esta imagem mas com uma perspectiva "interna" do Inferno, ou melhor, do Corredor com o mesmo nome!! É de facto um dos meus corredores favoritos para percorrer no Inverno. É sempre imperioso e intimidador, por mais que lá vá....e com a vantagem que, dependendo das condições de neve, é sempre um desafio diferente. Vá, vamos mas é para a lareira porque o Natal é mesmo para isso! Boas Festas para todos!
Adenda: É preciso referir que esta foto não é deste ano!!Não queremos dessa publicidade enganosa aqui no CZ! Obrigado pela lembrança LJMA!eheh

Boas Festas a todos!

Corredor do Inferno
... São os votos do Cântaro Zangado!

Nota: As palavras "inferno" e "natal" não jogam bem uma com a outra mas o Corredor do Inferno é um sítio que pede bem uma visitinha este Natal. E se o frio continuar e aquela cascata de gelo no lado esquerdo se aguentar em pé, então...

€100.000.000,00!

Poios Brancos em primeiro plano. Ao fundo, no lado esquerdo, uma pequena mancha clara (de neve): é a Sierra de Gredos.
100 milhões de investimento para a Estrela! Que bom! Finalmente o governo resolveu apostar no turismo regional. No que diz respeito à Serra da Estrela propriamente dita, com certeza esta verba será destinada a apoiar o turismo rural e de natureza, a beneficiação arquitectónica das aldeias, o desenvolvimento de pequenas empresas de turismo desportivo e de descoberta nelas sedeadas, uma verdadeira requalificação da área da Torre, com limpeza do sítio e demolição dos mamarrachos...
Não? Ai é para as telecabines? Com os seus parques de estacionamento? E o Instituto de Conservação da Natureza deu o aval? Ou seja, já existe projecto? Ou será que só há, por enquanto, o financiamento? Ai o dinheiro é para o "aprés ski" nas Penhas da Saúde? Com o seu futuro casino, os seus futuros barzinhos, as suas futuras discotecas, os seus futuros centros comerciais?
Ou seja, o dinheiro é para reforçar e revitalizar a aposta dos últimos trinta anos, que tem dado o que se vê. Mais, o dinheiro é para fazer teleféricos, um dos quais já foi tentado, chegou a ser construído e, sem nunca ter funcionado, foi recentemente desmontado. E tudo isto é apresentado como festejável, tudo isto é apresentado como razoável! No que se refere especificamente à montanha, o dinheiro parece ir todinho para os projectos da Turistrela, para facilitar o acesso dos clientes da Turistrela, para aumentar a oferta de alojamento da Turistrela. Sou só eu que acho isto discutível?!
Francamente, não sei. Cresci a passear, a escalar, a esquiar e a sonhar aventuras na Serra da Estrela. Suspeito que, para os meus filhos, terá que ser a Serra de Gredos a desempenhar este papel.

Reality check: na Covilhã há centros comerciais, bem perto do centro da cidade, às moscas. Nas Penhas da Saúde há três cafés que estão às moscas quase todos os dias. Na Ilha de São Miguel, nos Açores, na Vista do Rei (um sítio lindíssimo), há um grande hotel, destes resultantes de grandes apostas do estado, um "projecto âncora", como diz Jorge Patrão. Está encerrado. Que garantias temos que não venha a acontecer o mesmo aqui?

Jogo de palavras: Aprés-ski quer dizer, literalmente, "depois do esqui". O que faremos nós com tudo isto, quando o esqui na Serra da Estrela acabar?

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Sobral de S. Miguel na 1ª Pessoa

Após me ter referido à Aldeia de Sobral de S. Miguel aqui, como um destino serrano sem neve mas ainda assim procurado por muitos turistas, o autor (de nick Famel) do texto que transcrevi nesse mesmo tópico teve a amabilidade de deixar um relato na primeira pessoa na secção dos comentários.
Como muitas vezes a teoria do turismo de natureza defendida aqui no Cântaro pode ser vista como capricho de menino rico da cidade que não lida no dia a dia com as dificuldades serranas, opto por transcrever excertos do comentário que o nosso amigo Famel deixou. Não sou eu que defendo a manutenção da ruralidade e de um outro tipo de desenvolvimento, é este habitante que o defende com todas as letras apesar de diáriamente lidar com as vantagens e desvantagens de viver numa aldeia com estas caracteristicas!Leiam com atenção que dá vontade de ir para lá agora mesmo....

"Não é com espanto que venho aki encontrar este post! ATENÇÃOOOOOOOOOOO "não é com espanto", sim porque nós aqui no Sobral já percebemos que o turismo não passa por megalomanismos, mas sim pela autenticiade e qualidade das coisas!" (...) "O que tem o Sobral de especial? É o fim do mundo, sim autentico fim do mundo, onde ainda podem ver pastores a atravessar a aldeia, onde ainda podem ver moinhos e fornos a funcionar, onde ainda podem comer refeiçoes confecionadas c produtos semeados nas hortas, onde podem falar com pessoas antigas e ouvir as suas historias e lendas mirabulantes (mesmo que a pronuncia dificilmente o permita) e ainda...onde podem sentir o ar fresco e o sol da manhã, onde podem ter belas vistas, onde podem ver vestigios arqueolgogicos, casario tradicional etc...e no meu ponto d vista, onde tudo isto se mantém e vai manter de forma "selvagem" e natural! Não é preciso grds estradas e grds edificios, pelo contrario é preciso manter td isto selvagem!" (...) "Este turismo deve refletir as difuculdades da vida na aldeia, os seus constrangimentos e obstáculos! Contudo ha quem pense o contrario...O erro tem sido o mesmo! O desenfreamento c que estes autarcas querem investir no turismo...é futil e ôco.Não! Não! E não! Porque não estudarem profundamente as valencias da serra e perceberem o que real/ falta e de que forma deve ser feito o investimento?Não se deve, tentar fazer as coisas de rompante, muito menos aos soluços.Cada coisa a seu tempo mas sempre bem pensada, o retorno nc é rapido, mas poderá ser a longo prazo e efectivo!" (...) "Obrigado por terem percebido que o exemplo do Sobral pode funcionar!E para quem pensa que é preciso mt dinheiro desengane-se...é preciso vontade!"

Pode ver o comentário completo aqui. Obrigado Aldeia de Sobral de S. Miguel por te manteres assim...

A triste realidade e a aterradora ficção

Não perca, no Estrela no seu melhor.

E ainda mais!

Aquecimento global fecha 25% das estâncias de esqui.
Artur Costa Pais e Jorge Patrão fingem acreditar que isso não se verificará na Serra da Estrela, ou que se poderá, quando o problema se colocar (e fingem acreditar que isso será daqui a muuuuito tempo), fabricar neve quente... Sintomaticamente, não vejo mais quem tenha esta atitude. Mas eles "andem" aí... Querem uma aposta que o governo se prepara para enterrar milhões de euros do PENT no projecto de ampliação da estância?
Mmmm, onde é que eu já vi isto? Ah, já sei! Foi o mesmo com a construção do teleférico Piornos-Torre. Gastou-se muito mais a desmontar aquela porcaria do que a construí-la. Ambas as actividades foram pagas pelo Orçamento de Estado. (Mas agora que finalmente foi quase tudo removido [falta só demolir o mamarracho dos Piornos] eis que Jorge Patrão e Costa Pais relançam de novo o projecto!)

terça-feira, dezembro 19, 2006

Relatório OCDE vs Costa Pais

imagem retirada da página da Turistrela
"Presently 90% - 609 out of the 666 medium to large Alpine ski areas - normally have adequate snow cover for at least 100 days per year." fonte: relatório da OCDE ( página da OCDE)
Ou seja, 90 % estâncias de esqui dos Alpes de média e grande dimensão tem, com segurança, 100 dias por ano de boas condições para a prática do desporto.
hum...Costa Pais diz que o ano passado tivemos mais do que 120 dias de estância a funcionar com condições....
hum... Afinal parece que temos na Serra da Estrela uma estância de médias ou grandes dimensões por isso ainda estamos bem!!
Mas...será que Costa Pais está convencido que alguém acredita nestas balelas?! Será que realmente considera que uma estância com as condições demonstradas na imagem deveria se quer estat aberta?! Será que ele não percebe que ainda nem ele pensava em ser dono da Turistrela e ter uma estância de esqui, e já centenas de Portugueses/as se deslocavam todos os anos a estâncias dignas desse nome em Espanha e nos Alpes?
Será que não vê o ridiculo de manter a mesma imagem da WebCam de há três dias e no entanto a apresentar como se fosse de hoje!!
O pior é que provavelmente está convencido daquilo que diz e acredita mesmo que é possivel produzir neve artificial com temperaturas de 10 ºC positivos, que é o que será cada vez mais frequente na serra!! Estou convencido que por ele fazia pistas até à Covilhã!!Isso é que era fino!!
Alguem tem que acordar este senhor para a realidade!

Não é com a verdade que nos tentam enganar

Os artigos no Público de Domingo que acabo de comentar merecem-me alguns comentários.
  • Artur Costa Pais (administrador da empresa que gere a estância de esqui) acha que para "a introdução de um telesqui, a substituição dos quatro já existentes por outros mais modernos e rápidos e a redistribuição destes equipamentos no espaço", não é necessário Estudo de Impacto Ambiental (EIA). Um teleski, caro leitor, é um cabo de aço suspenso que puxa, com uns ganchos especiais, os esquiadores encosta acima. Para o suspender são necessários uns postes de ferro, com uns quatro a seis metros de altura, presos ao solo em sapatas de cimento, a distâncias de vinte a quarenta metros uns dos outros. Diga-me lá, caro leitor: acha que é possível instalar um teleski e redistribuir outros quatro sem qualquer impacto ambiental? A gente até pode não querer saber de os estudar, mas lá que os há, há.
  • É relativamente irrelevante a questão de há quanto tempo foram criadas as actuais pistas; mas Artur Costa Pais afirma que "foram criadas há mais de 30 anos, antes mesmo de ser criado o PNSE". Bem, qualquer pessoa habituada a esquiar na Serra sabe que há trinta anos a pista estava localizada nos Piornos, muito longe da actual localização. Mais ainda, qualquer destes esquiadores sabe que, ainda há dez anos, havia apenas um teleski na zona da Torre e as pistas não estavam definidas, o pessoal subia no puxa-rabos e descia por onde podia.
  • Jorge Patrão (presidente da Região de Turismo da Serra da Estrela) considera que "o grande problema está na falta de planos de pormenor para as áreas de recreio, o que faz com que, perante a lei, tudo tenha de ser preservado na serra". Esta é de partir o coco a rir. Então os senhores têm tudo preservado?! Mas ainda há dias este mesmo responsável afirmou que se ampliou a estância, se equipou a estância com canhões de neve e se instalou a telecadeira (e tudo isso sem estudos de impacto ambiental)! Sim, sim, são abolutamente terríveis os constrangimentos ambientais que condicionam a vossa acção! Aliás, é disso que as pessoas se mais se queixam: a zona da Torre está demasiado preservada!
  • Mais adiante no mesmo artigo, onde se diz o que existe na estância e o que se pretende fazer, explicam-nos que na primeira fase dos trabalhos (esta para a qual a Turistrela pede isenção de estudo de impacto ambiental) está prevista também, para além do que referi no primeiro ponto (ver acima), a duplicação da largura das pistas. Pergunto: e isso faz-se sem movimento de terras, como afirma Artur Costa Pais? Mas ele nem sequer conseguiu definir pistas de BTT Downhill (muito estreitas) sem buldozers, arranjos do terreno e... movimentos de terra!
  • "Não existe um monopólio" afirma Artur Costa Pais, referindo-se à concessão exclusiva do turismo na Serra da Estrela atribuída à Turistrela. Bem, quem ler o Decreto-Lei nº 408/86 de 11 de Dezembro, que adapta à propriedade privada a Turistrela, criada como empresa pública concessionária exclusiva no Decreto-Lei nº 325/71 de 28 de Julho, fica a saber o seguinte: "Artigo 1º - A concessão em exclusivo da exploração do turismo e dos desportos na serra da Estrela, outorgada à empresa de economia mista denominada Turismo da Serra da Estrela, Turistrela, S. A. R. L., pelo Decreto Lei nº 325/71, de 28 de Julho, passa a regular-se também pelo disposto no presente diploma.". O artigo 14º deste Decreto-Lei, por seu turno, elucida que a quem explorar actividades e serviços de natureza turística e desportiva na zona da concessão em infracção ao exclusivo estabelecido no artigo 1º [o que referi acima], será aplicada coima de cem a três mil contos, entre outras punições como apreensão de material, encerramento de instalações, etc. Tem razão o senhor Costa Pais. Não é um monopólio. É uma concessão exclusiva. Existem outros investidores? Talvez sim. Talvez paguem "tributo" à Turistrela. Ou talvez não, talvez a Turistrela, magnanimamente, os deixe investir. E amanhã? Deixará? Pois, pois, não há monopólio. Há um mercado livre com regras de concorrência bem definidas, é isso?

As coisas estarão a mudar?

No Domingo, o suplemento Local (Centro) do Público dedica duas páginas (58 e 59) à Serra da Estrela. A notícia foi motivada, parece-me, por declarações de Artur Costa Pais (administrador e proprietário da Turistrela, empresa concessionária exclusiva do turismo e dos desportos na Serra da Estrela) em que ele afirma que ia pedir isenção de estudo de impacte ambiental para obras na estância de esqui.
Eu fiquei muito contente com a notícia. Por um lado, por ouvir Artur Costa Pais dizer que ia pedir a tal isenção. Suspeito que o procedimento do costume é avançar a eito, sem pedir autorização a ninguém. Viva a mudança!
Mas o motivo principal para a minha alegria é outro. É que este é um dos primeiros casos em que à opinião da Turistrela se contrapõem outras opiniões. O registo habitual de notícias sobre a Serra e sobre a Turistrela é o da mais desavergonhada publicidade, como o artigo publicado na Visão da semana passada, que comentei aqui e aqui.
Três vivas à mudança, três vivas a este artigo!

Já agora, quais são essas outras opiniões? A de um veterano da Serra da Estrela, o meu amigo José da Serra Saraiva, dirigente da Associação Cultural Amigos da Serra da Estrela (ASE), que diz "A Turistrela é um monstro e é o Estado que o alimenta", coisa com a qual dificilmente podia concordar mais. A outra é a de Pedro Guedes de Carvalho, professor da UBI que coordenou a equipa responsel pelo Programa Estratégico de Turismo para a Serra da Estrela (PETUR), que foi encomendado à UBI pelos municípios da região. Diz o Professor que "A neve não é o futuro da Estrela", opinião que partilho plenamente.

Pode ler a toda a peça do Público aqui, aqui e aqui.

Porque escolhem os Turistas uma Aldeia Serrana sem NEVE para passar o Ano??

retirado do site viamichellin
Quando andava nos meus "passeios" interneticos encontrei o blog da aldeia de Sobral de S. Miguel. Um blog muito interessante com uma descrição da realidade e das questões do dia a dia desta aldeia. É fácil ficar a perceber o ambiente e as questões que mais importam no quotidiano dos seus habitantes. Nesta aldeia raramente neva, isso era nos velhos tempos onde as crianças ficavam sem ir à escola frequentemente por causa da neve cortar as estradas (nota: parece-me pertinente lembrar aqui a afirmação de Costa Pais quando diz que o aquecimento global não está a afectar o clima da serra, a propósito da viabilidade das pistas de esqui!!Nota-se que não!!). Esta aldeia não está propriamente perto dessa pretensa "bóia de salvação" que é a Torre com o seu OURO BRANCO para a qual todas as aldeias parecem querer uma estrada. Imagino que na ideia da RTSE e Turistrela esta aldeia não tenha qualquer hipótese de um rumo favorável visto faltar-lhe o que chamam a "âncora do desenvolvimento" da Serra da Estrela - a NEVE! Pois bem, o texto que aqui transcrevo, extraído do mesmo blog e relatado por um habitante local mostra como é possível atrair turistas ao ponto de por esta altura já não haver alojamentos disponíveis!
Não sou eu que o digo, são eles...vejamos então:
"Afinal de contas, porque é tão procurada a nossa aldeia para passar o fim d'ano?
Nos ultimos anos o Sobral tem vindo a ser eleito por grupos da Covilhã, Fundão, Coimbra, como preferência para as festas da passagem de ano.As minhas férias de Natal dos anos anteriores, têm sido passadas numa asafama à procura de casa para albergar todos os visitantes.Tudo começou quando decidi convidar os meus colegas de faculdade a virem passar uns dias ao Sobral, claro está que quem veio logo voltou...e este ciclo tem-se repetido de ano para ano e cada vez com mais pessoas.Os meus colegas convidaram amigos, os amigos convidaram primos e primas, quem veio no Verão voltou no Inverno, quem veio à Serra passou por aqui, e assim tem sido nos ultimos anos.
Tal como tem acontecido comigo, muitos outros sobralenses têm convidado os seus amigos a vir conhecer a aldeia, de tal forma que este ano deparo-me com uma situação complicada NÃO ENCONTRO CASAS!!! Está tudo alugado...Fui contacta por 3 grupos de 10 a 20 pessoas, e está dificil arranjar uma "maison" porquê?"Vou trazer uns amigos meus ""Tenho a casa alugada aos trabalhadores do parque eólico"E assim sucessivamete...Deste modo peço a quem tiver uma casa disponivel e possa alugá-la, que entre em contacto comigo para o o mail e logo trataremos de tudo.E afinal de contas porque é procurada a nossa aldeia?Pelos testemunhos de todos os que já passaram por aqui e pelos que querem vir,"É uma aldeia agradável e bonita, calma e simpática.""Porque gosto de um sitio diferente da cidade, onde posso estar com os meus amigos sem ser numa discoteca""Porque a festa é muito animada e barata"etc etc etc " retirado do blog http://sobraldesaomiguel.blogspot.com
Gostava particularmente de pedir a atenção do leitor para os testemunhos finais sobre as razões que levam os turistas a escolher esta aldeia... Pois é, há vida para além da neve, das cidades e do alcatrão! Não sou eu que o digo, com as minhas teorias do que deve ser o turismo para Serra da Estrela, são os próprios turistas e habitantes locais a mostra-lo! Obrigado ao Blog Sobral de S. Miguel.
Por favor Costa Pais, Jorge Patrão, Carlos Pinto e restantes responsáveis políticos e populações das aldeias mais próximas à Torre, leiam este texto, procurem tantos outros exemplos de sucesso em aldeias com "aparentemente" menos atributos para atrairem turistas e desenvolvimento.

segunda-feira, dezembro 18, 2006

E, note-se bem...

... Que quando falo da Ruta del Cares é de turismo de massas que estou a falar, não de meia dúzia de montanhistas (que, nos Picos da Europa, são muitos mais). Não, a ruta del Cares pode ser (e é) percorrida por famílias com crianças pequenas, por pessoal sem experiência, sem equipamento especializado e sem grandes ambições montanheiras! Os montanhistas mais empenhados fazem travessias bem diferentes e mais prolongadas, pernoitando em abrigos de montanha, que os há (cerca de uma dezena) espalhados pelas cotas altas (sem estradas asfaltadas a servi-los, bem entendido).
Abrigos de montanha... Mais outra possibilidade que não tem a mais pequena sombra de viabilidade na Serra da Estrela, com todas as estradas alcatroadas que já existem mais as que se planeiam...

A rota do Cares

Porção inicial (do lado norte) da Ruta del Cares. Encontrei-a, com o Google, em www.argo.es/~jcea/pics/cares2005/index.htm.
A rota do Cares é um trilho que atravessa transversalmente os Picos da Europa entre as localidades de Poncebos (Astúrias) e Caín (Leon), com cerca de doze quilómetros de extensão. É uma das principais atracções turísticas da região dos Picos da Europa. Só pode ser percorrido a pé ou de bicicleta, tanto quanto sei.
Há quinze anos, quando lá estive, os que decidiam percorrer o trilho tinham que resolver o problema do regresso ao ponto de partida, onde eventualmente teriam montado o "estaminé". Muitos (eu, por exemplo) optavam pela solução mais simples de ir e vir no mesmo dia. Outros, com maior capacidade logística, contratavam pessoalmente serviços para o retorno por transporte rodoviário, circundando o maciço montanhoso.
Isto era assim há 15 anos. Como é agora? Actualmente, os visitantes dispõem de serviços de transporte turístico, oferecidos por várias empresas a que podem recorrer. Tudo o que há a fazer é combinar com uma destas empresas os detalhes do passeio que se pretende (essencialmente o horário e local da recolha, mas pode também acrescentar-se transporte do alojamento para o ponto de início da caminhada, por exemplo), pagar, e pronto. O serviço não se limita ao transporte, já que ao longo do percurso rodoviário podem ser visitados (em visitas guiadas) vários pontos de interesse histórico, natural ou paisagístico.
A isto eu chamo progresso e um modo razoável de desenvolver o turismo. Este tipo de desenvolvimento vive dos atractivos naturais da região e gera empregos para pessoas com diferentes habilitações, em diferentes localidades, em diferentes áreas de actividade.

E nós, por cá?
Na Serra da Estrela, maravilhas comparáveis são asfaltadas (veja-se a Estrada de São Bento entre a Portela do Arão e a Lagoa Comprida) ou planeia-se a sua asfaltação (veja-se o acesso Unhais da Serra - Nave de Sto António, ou a Estrada Verde, entre a Guarda e o maciço central, com que se pretende "beneficiar" o trilho de Grande Rota GRT1 na zona do Alto Mondego).
Aproveitar as maravilhas naturais para desenvolvimento de negócios? Não, credo! Asfaltemo-las (ou melhor: o estado que as asfalte) todas para permitir aos turistas, com toda a comodidade, passar por elas sem as notar, passar por elas rapidamente, passar por elas deixando na região pouco mais que nenhuma riqueza!
E nós por cá? Vamos vendendo uns queijos, artesanato de fancaria... E a isto vamos chamando desenvolvimento do turismo, progresso, ordenação, requalificação, importantes medidas contra a desertificação.
Até quando?

sábado, dezembro 16, 2006

O progresso está a nascer aqui

Terão sido os vendavais da semana passada que fizeram o que se vê na imagem de cima, ou será que, agora que mudou a designação do fantástico projecto da Câmara Municipal da Covilhã para as Penhas da Saúde, se trata do primeiro passo para a substituição deste entusiasmante (mas incorrecto) cartaz por outro, mais adequado à nova filosofia, cuja maquete apresento em baixo?

Leia-se o Público...

... De hoje, págs. 22 e 23. Os vários títulos e subtítulos são
  • O INVERNO TARDA A CHEGAR À EUROPA
  • As estâncias de esqui não têm neve. Cidades habitualmente geladas assistem agora ao florescimento das árvores. Ursos polares invadem povoamentos em busca de alimento... humano. No Inverno, estranhamente, a Europa não treme de frio. Há pelo menos 500 anos que não se testemunhava uma coisa assim
  • Portugal com temperaturas normais para a época
  • Hemisfério Norte aquece duas vezes mais que o Sul
  • 2006 será o sexto ano mais quente de sempre
  • Inglaterra bate recorde de calor de 347 anos
  • Este Outono foi o mais quente do último meio milénio
  • O outono na Europa terá sido o mais quente dos últimos 500 anos, acentuando a tendência para a subida das temperaturas no continente. E, no caso de Portugal, parece prenunciar um Inverno suave.
  • Nível do mar pode subir 1,4m até 2100

Sensacionalismo? Sem dúvida. Apenas sensacionalismo? Sem dúvida que não, mas nada que diga respeito à Serra da Estrela, onde as "alterações climatéricas não serão assim tão graves, tendo em conta que o ano passado foi um dos em que nevou mais, ao ponto de termos produzido neve só quatro dias"

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Bom fim de semana

Fotografia (de J.M. Pombo Duarte), cedida pelo amigo José Veloso, do Clube Actividades de Ar Livre (Lisboa), tirada no dia 9 de Dezembro.

O C.A.A.L. regressou este fim de semana à Serra da Estrela, acompanhando um grupo de alunos (48) da Escola Secundária Fernando Namora, da Brandoa (Amadora). Pelo que me disseram, vêm à Serra semear bolotas mas acho que isso não passa de uma desculpa esfarrapada ;).
Sejam bem vindos, tenham um óptimo fim de semana!

Nota posterior: este pessoal semeou 7.500 bolotas. Se as minhas contas estiverem certas, vamos em 18.000 bolotas semeadas e 1200 carvalhos plantados. Se as minhas contas não estiverem certas, os totais ultrapassam estes valores.

(Não conheço pessoalmente nenhuma das pessoas retratadas na fotografia acima, até porque fiquei integrado num grupo diferente. Ou seja, não lhes pedi autorização para usar deste modo a sua imagem. Espero que não se importem que o tenha feito.)

Mentira? Não será bem, mas...

O artigo publicado ontem na página 108 da Visão tem aspectos deveras interessantes. Veja-se este excerto:
A Turistrela, propriedade de uma família da Covilhã e, em 2%, do estado [...]
Isto é estrictamente verdade. No entanto, ao ler isto, um leitor que não conheça a verdadeira verdade pode muito bem imaginar uma simpática empresa familiar, propriedade de um casal de montanheses, boas pessoas, afáveis e bonacheironas, sentados à soleira, sorridentes, os rostos tisnados pelo sol, a porta sempre aberta e gargalhadas alegres dos filhos pequenos que, vestidos com calções com suspensórios e camisinhas brancas, brincam no prado, entre as cabrinhas. E isto é que já não é bem, bem, verdade. Enfim, um sinal incongruente aparece naqueles 2%, mas trata-se de uma pormenor que facilmente se despreza.
Ora, o jornalista da Visão responsável pelo "artigo" (se está à altura do nível de referência que a Visão constitui) sabe bem que, ao ler aquele excerto, mais facilmente o leitor imagina esta ficção do que a realidade que passo a descrever: a Turistrela é, nos termos da lei (ver o Decreto-Lei nº 408/86 de 11 de Dezembro), a empresa que detém a concessão exclusiva do turismo e dos desportos no território da Serra da Estrela, ou seja, é (repito, nos termos da lei) um monopólio privado. Foi constituida como um monopólio estatal no tempo do governo de Marcello Caetano (1971), atravessou nessa qualidade o PREC, tendo-se convertido ao sector privado em 1986 (pelo decreto que citei acima). A Turistrela polui gravemente, e de forma desavergonhadamente evidente (como se mostra em várias fotografias publicadas neste e noutros blogs) todos os locais onde actua.
Nada mau para uma simpática empresa familiar...

Adenda: clique nas imagens em baixo para aceder ao artigo completo.

Mas qual é o problema deste tipo?

Depois de ler o post anterior, o caro leitor pode perguntar-se (e eu não posso levar a mal que o faça) "Mas que sanha esta que este gajo tem à Turistrela! O que é que ele quer, destruir o negócio? Para quê? Quer ficar ele a mandar naquilo?"
Passo a explicar.
  1. Não me move nenhuma sanha contra a Turistrela. É verdade que o conhecimento da realidade do que é a sua acção na Serra da Estrela me leva a criticá-la, e tenho que o fazer nos termos mais duros, pois são esses que correspondem à gravidade do seu comportamento e à das consequências desse comportamento.
  2. Não sou irredutivelmente contra a existência de uma pequena estância de esqui na Serra da Estrela, desde que se mantenha com a dimensão que agora tem. Temos que ter consciência que uma estância de esqui estraga a paisagem e o ambiente, tanto mais quanto maior for.
  3. Não quero destruir o negócio, quero que ele se desenrole em termos compatíveis com a conservação da Serra da Estrela como a maravilha natural que ainda é. A paisagem e o ambiente da Serra da Estrela são as suas principais vantagens competitivas e é possível aproveitá-las sem as destruir. O negócio da Turistrela tem sido outro.
  4. Se eu quero mandar naquilo?! Credo! Tenho uma profissão compesadora em todos os aspectos. Não penso abandoná-la, nem dividir a minha actividade profissional. Eu falo de turismo na Serra da Estrela na perspectiva de um turista. Não vejo na Serra as ofertas de actividades que encontramos nas outras regiões montanhosas da Europa e que me levam a visitá-las, não vejo sequer o que podemos encontrar no Gerês.

A verdadeira razão para o meu post anterior nem é o mal que a estância de esqui faz à zona da Torre, onde se situa actualmente. O mal, aí, já está feito. A verdadeira razão é a que mostro na fotografia com que ilustro este post. Trata-se do Covão do Ferro. A Turistrela e a Região de Turismo andam a apregoar a qualidade e a viabilidade da prática do esqui na Serra da Estrela, para tentarem captar investimentos que financiem a expansão da estância para o Covão do Ferro e para a Garganta de Loriga. Porque gosto muito do Covão do Ferro e da Garganta de Loriga, não quero vê-los transformados em estaleiros, cheios de lixo, de cartazes publicitários, com telecabines, cafeterias e parques de estacionamento, à imagem da triste degradação da zona da Torre onde a estância Vodafone está actualmente localizada.
Sobretudo, não quero aceitar que tudo isso se faça sabendo de antemão que as pistas que ocuparem estes vales ainda preservados ficarão encerradas durante a quase totalidade da época de esqui, com ou sem canhões de neve. É que o Covão do Ferro está orientado a sudeste (ou seja, é banhado pelo sol na altura mais quente do dia), protegido do vento dominante, situado a uma altitude trezentos metros inferior à da actual estância. Sendo a eficácia da produção artificial de neve a que mostrei no post anterior, que garantias há que estas pistas possam vir a ser efectivamente utilizadas?

E pergunta o caro leitor: "e a Turistrela não sabe disso? Se é verdade o que este gajo diz (e a Turistrela saberá-o melhor que ele), como é que a Turistrela vai arriscar milhões de euros num projecto que não tem pernas para andar?". Olhe, caro leitor: em primeiro lugar, o dinheiro com que se vai pagar isto não é da Turistrela, é seu e meu. Vem associado a uma coisa que tem a sigla PENT, Plano Estratégico Nacional do Turismo. Em segundo lugar, veja este excerto do artigo que referi no post de ontem, publicado pela Visão:

Para as Penhas da Saúde, onde a empresa detém o recém-remodelado Hotel Serra da Estrela e chalés de montanha, está projectada uma estância com várias moradias e 1500 camas, uma piscina pública, um casino e um pavilhão multiusos. [...] "Queremos também construir um centro de estágio, destinado a atletas de alta competição, para que possam fazer provas de esforço em altitude." Tudo isto, diz o administrador, apenas será viável se o Governo autorizar o aumento da área esquiável.
(O negrito fui eu que o introduzi.) Percebeu, caro leitor? Aparentemente, o que importa não é o esqui ou a sua qualidade. O que parece verdadeiramente importar à Turistrela é o que importa aos promotores "turísticos" do Algarve: construir, construir, construir. No Algarve justificam-se os atentados com as maravilhosas praias, aqui com as maravilhosas encostas nevadas. Num caso e noutro, isso é o que menos conta.

E é por estar contra tudo isto que escrevi o post anterior. Não lhe parece razoável a minha atitude?

O esqui na Estância Vodafone, como ele é.

  1. Se é verdade que, como diz Artur Costa Pais (proprietário e administrador da Turistrela, a empresa que detém a concessão exclusiva do turismo na Serra da Estrela), a tecnologia moderna permite que os canhões de neve assegurem a cobertura de neve nas pistas de esqui mesmo com temperaturas positivas;
  2. se é verdade que as várias pistas da estância de esqui Vodafone estão servidas por canhões de neve (exceptuando uma, classificada como pista negra [mas é um negro muito vermelho-esverdeado]);
  3. se é verdade que, desde o final da semana passada, se têm verificado temperaturas bastantes baixas em toda a região, não tem chovido nem têm ocorrido aqueles nevoeiros, nada excepcionais na Serra de Inverno, que "comem" a neve a olhos vistos.
Se é verdade tudo isto, porque é que a estância de esqui está a funcionar com apenas duas das suas nove pistas abertas? Porque é que, dos cinco meios mecânicos instalados, apenas os dois teleskis mais pequenos estão em funcionamento?
Na época passada, o início do Inverno foi ainda mais frio. Se é verdade a primeira das premissas que enumerei acima (e já se verificava a segunda), porque é que até meados de Janeiro (ou seja, à volta de um mês e meio, digamos, 35 a 50 dias, ou seja ainda, quase metade da duração total da época) a estância funcionou na situação que que agora se verifica, isto é, reduzida às duas pistas mais pequenas e mais triviais? Porque é que a tal pista dita "negra" não esteve aberta ao público mais do que uma semana, se tanto?

Para se ter uma ideia real do ridículo da situação, as duas pistas em funcionamento têm uma extensão total que não ultrapassará os trezentos metros (infelizmente, este ano a Turistrela não disponibiliza online os dados técnicos das pistas e dos meios mecânicos, por isso não pude verificar esta estimativa). A estância, sendo minúscula, tem desenhadas pistas que totalizam perto de seis quilómetros. Ou seja, temos a funcionar, apenas, 5% da minúscula extensão da estância. Se fizéssemos as contas ao número de esquiadores por hora que os meios mecânicos em funcionamento permitem satisfazer, obteríamos uma percentagem ainda mais ridícula, aposto.
Mas também aposto que Artur Costa Pais e Jorge Patrão já estão a contar estes dias como dias de funcionamento da estância, prontinhos a mostrarem ao mundo e a certos jornalistas da Visão como é bom fazer esqui na Serra da Estrela, durante cento e vinte e tal dias por ano!

Não se limite, caro leitor, a acreditar no que digo. Desconfie! Vá ao site da Turistrela (www.turistrela.pt) e verifique por si.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Sabia o caro leitor...

... que na Serra da Estrela
"multiplicam-se também as empresas que organizam actividades ao ar livre, como passeios de balão, parapente, escalada, caminhadas ou digressões a cavalo"?
Deve ser verdade, pois se quem o diz é o jornalista Ricardo Fonseca num artigo publicado hoje na revista Visão... Eu não sabia, mas deve ser por andar distraído...

Faz lembrar a publicidade, da Turistrela e da Câmara da Covilhã, que também foi publicada na Visão, a que me referi aqui. Uma diferença importante é que o artigo de hoje não vem identificado como publicidade...

Ah!, Mas isso não é nada connosco...

OCDE alerta
Alterações climáticas ameaçam turismo de Inverno

terça-feira, dezembro 12, 2006

O dia 9 de Dezembro

Foi um dia frio e enevoado. Foi também a data escolhida para uma importante operação do projecto "Um milhão de carvalhos para a Serra da Estrela", da Associação Cultural Amigos da Serra da Estrela (ASE). Esta operação consistiu no transporte de carvalhos jovens para três locais estratégicos da Serra, definidos pela ASE com a concordância do Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE), onde serão plantados ao longo das próximas semanas. Os carvalhos (em número de 3600) foram transportados por um helicóptero disponibilizado pela Força Aérea Portuguesa. No próprio dia foram plantados aproximadamente mil e duzentos, que foi o que se conseguiu com o frio que estava. Para além do "apoio aéreo", a operação contou com a participação de 128 voluntários, desde montanhistas veteranos como o presidente da Federação Portuguesa de Montanhismo e Escalada até principiantes (alguns tiveram então a primeira lição prática sobre como não se equipar para a neve), vindos de Lisboa (Clube de Actividades de Ar Livre, Associação Desnível), da Guarda (Clube de Montanhismo da Guarda), de Manteigas (ASE), do Fundão (Caminheiros da Gardunha), de sei lá eu donde (escuteiros do agrupamento 232) e mais uns poucos de origens diversas.
Correu tudo bem? Não, claro. Era para serem 6000 carvalhos mas só foram entregues 3600; no sítio onde o grupo que eu integrava ficou estacionado, o heli demorou muito tempo a chegar, o que levou alguns mais apressados (eu incluido) a regressar cedo demais; alguns participantes trouxeram crianças pequenas que se cansaram e ficaram um pouco impacientes... Ah, mas que importância tem isso tudo?
Dá gosto ver gente a tratar bem a Serra, a tratar a Serra como ela merece, a tratar a Serra como se ela fosse (de facto, é) nossa! Dá gosto ser parte deste movimento. Foi um dia e tanto. Ao mesmo tempo que decorriam estes trabalhos, algumas centenas de carros tristemente subiam e mais tristemente desciam a triste estrada para a Torre. Pois é: quem da Serra pouco quer, pouco leva.

As fotografias foram gentilmente cedidas pelo meu amigo Pedrofp. Bem hajas!

O direito a uma Serra onde isto faça sentido!

Quais fashions, quais voltas a Portugal, quais raves no sanatório, quais mega-arrebanhadas BTT, quais rampas automobilísticas, quais "milhão e meio de visitantes" atascados no tráfego, a molhar o cu (ou os esquis) na neve e a deixar lixo espalhado, quais circos radicais! A Serra, se é montanha, se é atractiva, se nos faz sonhar, é por ser, também, ISTO!
E por mostrar a todos, de forma tão eloquente, que a Serra (ainda) é um sítio onde a Aventura faz sentido, agradeço ao pessoal do Rocha podre e pedra dura. Bem hajam, compadres (e comadre), por fazerem crescer a Serra e por nos obrigarem a crescer com ela!

Ena! Temos que ir avisar o IPCC!

De acordo com a ponderada autoridade de Artur Costa Pais (administrador da Turistrela, empresa que, há dezenas de anos, detém a concessão exclusiva do turismo na Serra da Estrela),
As alterações climatéricas não serão assim tão graves, tendo em conta que o ano passado foi um dos em que nevou mais, ao ponto de termos produzido neve só quatro dias.
Ufa, que alívio!

Declarações recolhidas no Público de hoje. Já agora, é verdade que o ano passado foi "dos em que nevou mais" desde que se instalaram os canhões de neve, ou seja, nos últimos dois anos. Nevou mais, de facto, no ano passado do que no anterior. Já agora, leia-se isto, isto, isto ou o site Keep Winter Cool (da National Ski Areas Organization). Já agora ainda, IPCC é a sigla inglesa do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, das Nações Unidas.

A PDSSE no Público

O Público (suplemento Local Centro) fez hoje eco da opinião da Plataforma para o Desenvolvimento Sustentável da Serra da Estrela sobre as queixas que Artur Costa Pais (administrador da Turistrela) e Jorge Patrão (presidente da Região de Turismo) apresentaram por os técnicos do Parque Natural da Serra da Estrela exigirem que se cumpra a lei. Clique na imagem para a aumentar. O artigo do público foi construído a partir de um comunicado que pode ler integralmente aqui.

A ADAG no Público

Foi ontem publicada pelo Público (suplemento Local Centro) uma notícia sobre a oposição da Associação Distrital de Agricultores da Guarda (ADAG, associação que integra a Plataforma para a Defesa da Serra da Estrela) e de outras organizações à abertura de uma Zona de Caça Municipal (ZCM) situada (pelo menos parcialmente) no interior do Parque Natural da Serra da Estrela. (Clique na imagem para a ampliar).
A portaria nº 1108/2006 de 17 de Outubro, que cria a dita ZCM, assinada pelo Ministro do Ambiente, do Ordenamento do Território e Desenvolvimento Regional e pelo Ministro da Agricultora, do Desenvolvimento Rural e das Pescas, fundamenta a decisão num parecer do Conselho Cinegético Municipal de Gouveia. Acontece que a ADAG pertence ao dito Conselho Cinegético Municipal e desmente que lhe tenha sido pedido qualquer parecer. Mais ainda, o dito Concelho nunca reuniu.
Bem vindo à Serra da Estrela, bem vindo à Twilight Zone!

Pode ler o texto integral do comunicado da ADAG aqui.

É com certeza uma estalagem Turistrela...

... É uma estalagem Turistrela com certeza!

Fotografias tiradas ontem, 11 de Dezembro, Dia Mundial das Montanhas, a cento e cinquenta metros (se tanto) da Estalagem Varanda dos Carqueijais. Está situada no interior de uma área de montanha protegida chamada Parque Natural da Serra da Estrela. É propriedade da empresa que detém a concessão exclusiva do turismo e dos desportos na dita área protegida.

segunda-feira, dezembro 11, 2006

As Montanhas são "refúgios" das Alterações Climáticas

Já que estamos a celebrar as Montanhas, faço aqui uma homenagem a outros tempos (por sinal de maior saúde da Serra da Estrela) e a outras pessoas que tanto a apreciavam - Perto da Torre Abril 1968
"Mas a verdadeira importância do vale do Sabor é outra. Este vale, pelas suas condições geográficas, constituiu um refúgio para espécies animais e vegetais durante os períodos glaciares do Quaternário e tem todas as condições para voltar a desempenhar um papel semelhante num período de aquecimento global."
Esta frase foi tirada do AMBIO (aconselho a sua leitura bem como dos comentários aí colocados)e realmente fez-me relembrar a verdade deste facto! Por ser hoje o Dia Internacional das Montanhas achei que era por demais necessário partilhar, realçar ou relembrar este facto a todos!
As zonas de montanha ou desniveladas apresentam, numa pequena área uma variedade de microclimas quer seja pela exposição da sua vertente, quer seja pelo efeito de altitude ou pelas diferentes correntes de ar que aí se geram. Como o Miguel Araújo (autor do texto referido em cima) bem frisou, esta heterogeneidade de ambientes não tão é visivel em zonas de planicie. Ou seja, em condições de evolução do clima (aquecimento ou arrefecimento) é muito mais fácil para um determinado ser vivo "procurar" o seu lugar "optimo" numa zona de montanha do que numa planicie onde teria que se deslocar quilometros até encontrar condições climatológicas diferentes daquelas onde estava originalmente!
Até aqui, tudo o que leu pode ser encontrado no artigo que referi. O que eu agora gostava de frisar é o impacto que a construção de largas estradas, de "densos" bairros de chalés, de novos polos urbanos/lazer ou mesmo de sucessivas barragens podem ter nesta "migração" natural que as epecies fazem ("montanha acima" ou "montanha abaixo") para se adaptarem e sobreviverem! Algumas destas construções são verdadeiras barreiras ao movimento das especies, outras simplesmente aniquilam a existência deste efeito de variedade de microclimas.
Em última análise, mesmo que concordemos com a beleza e utilidade de todos estes projectos (que não é o meu caso, note-se!!) o que se está a fazer é diminuir a diversidade de especies que teremos no futuro, com ou sem Aquecimento Global! Não pode por isso evocar-se, sistematicamente, o interesse público para se destruir aquilo que mais inequivocamente é interesse de todos, ou seja, A Biodiversidade!
Até breve...

domingo, dezembro 10, 2006

Aviso à navegação

Aviso os leitores que o Cântaro Zangado vai migrar para o blogger beta. Em princípio, nada será alterado. O blog manter-se-á com o mesmo endereço e essencialmente com o mesmo visual. Mas, fica o aviso, pode haver alguns sobressaltos...

Já que estamos com assuntos administrativos, gostava de dizer que, clicando no ícone que diz "Some rights reserved" (à direita, depois do arquivo), fica a conhecer as condições em que pode usar conteúdos retirados deste blog. Basicamente, pode fazer tudo o que está dentro dos limites do bom senso e da boa educação. Ou seja, pode copiar, pode alterar, pode oferecer, vender ou alugar. Não pode é legalmente impedir ninguém a quem forneça material baseado no Cântaro Zangado, de igualmente o copiar, alterar ou oferecer, vender ou alugar a quem quer que, por seu turno, esse alguém entenda. Este blog é livre (ou seja, pode fazer com isto o que entender), e desejamos que permaneça livre (ou seja, não pode impedir ninguém de fazer com isto o que ele entender). Ou seja ainda, com material publicado neste blog, só é proibido proibir. É claro?
Dito isto, entenda-se que se usar texto ou imagens do Cântaro Zangado, é próprio de gente bem formada indicar a fonte. Os termos de cópia até obrigam a isso. Mas se não o fez, deixe lá, não se preocupe que nós também não.

Dia Internacional das Montanhas

Selo comemorativo do Dia Internacional das Montanhas lançado pelos serviços postais italianos. (Encontrei-o no Notas Perdidas de um Montanheiro)
Amanhã, dia 11 de Dezembro, celebra-se o Dia Internacional das Montanhas, assim designado pela Assembleia Geral das Nações Unidas a partir do ano de 2003, com os objectivos de "chamar a atenção para a importância das montanhas para a vida, de destacar as oportunidades e constrangimentos no desenvolvimento das montanhas e de criar parcerias que tragam mudanças positivas para as montanhas e terras altas do mundo".
Lendo um pouco da página da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) sobre o Dia Internacional das Montanhas (de onde retirei o excerto que cito acima), ou a página do Ano Internacional das Montanhas, fico com a impressão que o dia de amanhã é também o dia da Serra da Estrela. E que, nessa medida, o é mais para a Plataforma para o Desenvolvimento Sustentável da Serra da Estrela do que para a Turistrela, para a Região de Turismo, ou para as autarquias da região.

É escusado dizer que amanhã será, obviamente, o dia do Cântaro Zangado!

sábado, dezembro 09, 2006

Bom fim de semana

Uma verdade evidente...

... Também na SIC, aqui e aqui.

Estes fenómenos, tomados isoladamente, não significam nada. A verdade a que me refiro reside na frequência crescente com que se vão repetindo. Assim, tal como a onda de calor de 2003 não demonstrou, só por si, a realidade do aquecimento global, também o nevãozito deste fim de semana não demonstra, só por si, que este aquecimento não se está a verificar. Infelizmente.

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Uma verdade evidente

"Aquecimento global ameaça produção de vinho no Alentejo" é o título de uma pequena notícia na pág. 46 do Público de hoje. Trata-se de uma afirmação do presidente da ViniPortugal, Vasco d'Avillez, proferida durante o Fórum Anual do Vinho, em Santarém.
O que vale é que isso é lá longe, no Alentejo. Senão, talvez pusesse em causa o projecto de transformar a Serra da Estrela numa estância turística de montanha "que possa concorrer em termos de turismo de montanha com outras da Europa, nas cidades dos maciços mais conhecidos, como os Alpes ou os Pirinéus", ancorada no produto neve, com a ampliação da estância de esqui, com a construção de uma mini-cidade nas Penhas da Saúde, entre muitas outras "maravilhas".

Já lá vai um ano.

Uma teia de amigos O Cântaro Zangado faz hoje um ano de vida. Pode ler o primeiro post (publicado só para ver como se fazia) aqui.
Terá sido um ano a quixotescamente investir contra moinhos de vento? Não. Foi um ano a investir contra terríveis gigantes, bem reais, que causam uma bem real devastação, que sei que não conseguirei vencer.
E depois? Como dizia a Liberdade, aquela libertária amiga da Mafalda (do Quino), "uma formiga pode não conseguir parar um comboio, mas facilmente enche o maquinista de comichão." Chegarei a tanto? Sei lá! Nem sequer sei se haverá um segundo aniversário...

quinta-feira, dezembro 07, 2006

O direito à Serra da Estrela

O direito ao silêncio. O direito à solidão. O direito ao ambiente natural. O direito ao desafio e ao risco. O direito a sentir a Terra nos pés, o coração no peito e o vento na cara. O direito ao sonho. O direito à paisagem, e a sentirmo-nos parte dela. O direito a sermos o que somos. O direito a tentarmos ultrapassar o que acreditávamos ser o nosso limite.
O direito a um território onde tudo isto faça sentido.

O direito à wilderness. À Mountain Wilderness.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Carta Europeia para o Turismo Sustentável

Na mesma brochura a que me referi no post anterior, aparece uma referência à Carta Europeia para o Turismo Sustentável. Infelizmente, uma pesquisa rápida não me levou a lado nenhum, por isso não sei ao certo do que consta este documento oficial elaborado pela Fundação Europarc. Mas os pontos principais estão enumerados na brochura e reproduzo-os aqui
  1. Respeitar os limites da capacidade de acolhimento
  2. Contribuir para a conservação e melhoramento do património
  3. Preservar os recursos naturais
  4. Apoiar a economia local
  5. Promover a participação dos residentes locais
  6. Desenvolver um turismo adequado de alta qualidade
  7. Tornar as zonas protegidas acessíveis a todos
  8. Desenvolver novas formas de emprego
  9. Incentivar comportamentos que respeitem o ambiente
  10. Servir de modelo para outros sectores económicos e influenciar as suas práticas
Eu podia perguntar o que é que nas opções que se estão a tomar para o desenvolvimento do turismo na Serra da Estrela vai ao encontro de qualquer um destes pontos. Mas não; gostava mesmo de saber é se há algum detalhe, nas opções que se estão a tomar para o desenvolvimento do turismo na Serra da Estrela, que não vá contra algum destes pontos. Gostava de dirigir esta pergunta ao Presidente da Região de Turismo da Serra da Estrela, Sr. Jorge Patrão; ao administrador e proprietário da Turistrela, Sr. Artur Costa Pais; aos diversos autarcas da região, especialmente ao Presidente da Câmara Municipal da Covilhã, Sr. Carlos Pinto. Destaco este autarca porque ele é também (ou era até há pouco tempo, posso não estar actualizado) o Presidente da Secção "Montanha" da Associação Nacional de Municípios Portugueses e o Secretário Geral da European Association of Elected Representatives from Mountain Areas, e ainda por ser o autarca mais empenhado neste triste rumo para o desenvolvimento do turismo na Serra da Estrela.

Ele há fundamentalistas em todo o lado?

Veja-se a brochura A União Europeia e a Protecção da Natureza editada pela Comissão Europeia. Gostava de chamar a atenção para uma frase que aparece no fundo da página 9,
"No passado, o «turismo de massas» trouxe consigo a devastação do ambiente, especialmente nas zonas costeiras e montanhosas."
A devastação das zonas costeiras por acção do turismo de massas tem um exemplo evidente no Algarve. O turismo de massas nas montanhas é o do esqui de estância. Assim, lendo isto eu acho que fico esclarecido sobre o que a Comissão Europeia pensa da nossa aposta na neve como âncora, associada aos projectos de ampliação da Estância Vodafone, da mini-cidade das Penhas da Saúde, dos quatrocentos quartos entre a Varanda dos Carqueijais e a Porta dos Hermínios, do spa nos Piornos, dos dois hotéis e restaurante/observatório panorâmico na Torre. Fico com a ligeira impresssão de que, para a Comissão Europeia, esta é uma aposta "devastadora".
Mais acima na mesma página aparece um parágrafo também interessante:
"Queremos que as gerações futuras possam usufruir da beleza natural que vemos à nossa volta. Além disso, a vida de muitas pessoas é enriquecida por actividades de lazer que dependem do ambiente natural, como sejam a observação de aves, a pesca, o alpinismo, o mergulho autónomo ou simplesmente passear o cão."
A Comissão Europeia quer preservar o meu direito (e o dos meus filhos) ao usufruto da beleza natural que vejo à minha volta! A Comissão Europeia compreende que a minha vida fica enriquecida por actividades como o montanhismo! Aparentemente, então, a Comissão Europeia não nos considera, a mim e aos que pensam como eu, fundamentalistas, forças do bloqueio, estorvos ao desenvolvimento do país, só por tentarmos preservar a beleza natural que vemos à nossa volta.
Quem diria?!

A Grande Âncora da Neve

Glaciar Pasterze, Austria, em 1875 e em 2004 (fonte: World View of Global Warming)
Glaciar Rhone, Suiça, em 1859 e em 2001 (fonte: BBC)
Glaciar Upsala, Argentina, em 1928 e em 2004 (fonte: BBC)

O aquecimento global é um facto que já ninguém nega. A temperatura da terra está a aumentar, e de uma forma brutalmente rápida. Este post é ilustrado com algumas fotografias de glaciares que mostram o efeito deste aquecimento sobre as regiões nevadas. Vem isto a propósito de uma notícia no El Pais de ontem (que vi referida no Ondas), segundo a qual o calor que se fez sentir ao longo deste outono tem criado problemas para a época de esqui. Podemos ler coisas como "La subida de las temperaturas amenaza la temporada de esquí en España", "El Pirineo tiene un 25% de la nieve usual en esta fecha", "El calor dificulta la producción de la [nieve] artificial". Quero destacar este excerto em particular:

"Un informe del Ministerio de Medio Ambiente sobre el cambio climático alerta de que muchas estaciones de esquí tendrán que reconvertirse en estaciones de montaña."
Ou seja, "Um relatório do Ministério do Ambiente sobre a mudança climática alerta para que muitas estações de esqui terão que reconverter-se em estações de montanha".

Cá na Serra da Estrela, notamos uma tendência climática semelhante (mas não a mesma preocupação oficial com os seus efeitos sobre o turismo de neve). Basta dizer-se que nos anos setenta a estância de esqui (era só um teleski, nessa altura) estava situada nos Piornos (ou seja, a uma altitude trezentos metros inferior à da sua actual localização), não dispunha de canhões para a produção de neve artificial mas, mesmo assim, permitia a prática de esqui durante uma boa parte do inverno. Deixemos de lado, por um momento, comentários sobre a qualidade dos investidores e dos investimentos que se fazem por cá, ou seja, suponhamos (academicamente) que tudo se fazia na Serra com o maior dos cuidados com o ambiente e a paisagem, acompanhando todas as acções com sérios estudos de impacto ambiental, cumprindo escrupulosamente todas as regras e leis, nacionais e europeias, respeitando até os mais elevados padrões de bom-gosto. Mesmo assim, sendo as perspectivas da evolução climática o que são, será avisado continuar a pensar na nossa serrinha (que sempre foi comparativamente baixa, meridional, quente e atlântica) baseando o desenvolvimento do turismo no produto neve como âncora principal? E será que concordamos em ver o Quadro Nacional de Referência Estratégia ou o Plano Estratégico Nacional para o Turismo aplicados a financiar esta aposta tão duvidosa?

Algarvear a Serra da Estrela? Não, obrigado!