terça-feira, maio 30, 2006

"Equilibrar" as coisas

Pelo Ondas tomei conhecimento desta notícia, que dá conta das conclusões do estudo Corine Land Cover 2000, realçando que a área construida em Portugal aumentou 42% em 15 anos.
É impossível não colocar este facto em perspectiva com "O ilegítimo negócio do caos," ou seja, nas palavras de Pedro Bingre no Ambio, os imorais (e, em quase todos os outros países, ilegais) enriquecimentos instantâneos que resultam dos processos de loteamento com que se tem alimentado a expansão urbana. A este propósito, vem também à mente o milhão de habitações novas por ocupar, ou os vários estudos que atribuem parte das responsabilidades pelo perigo de extinção de espécies no nosso país à urbanização galopante (veja-se, por exemplo, aquele a que me referi aqui) ou ainda o caos urbanístico em que trasformámos as nossas cidades.

Aparentemente, para algumas pessoas cá da nossa terrinha, parece que esta irracional expansão urbana ainda não chega. Vejam-se os protestos de alguns presidentes de junta de freguesia do concelho da Covilhã a propósito das alterações ao plano director do Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE) (em Março de 2006); vejam-se os projectos da Turistrela de construir seiscentos apartamentos nas Penhas da Saúde e mais alguns na Varanda dos Carqueijais e em Manteigas; veja-se a expressão "núcleos de recreio" com que Jorge Patrão classifica a Varanda dos Carqueijais, a Porta dos Hermínios, as Penhas da Saúde, os Piornos, a Torre, a Lagoa Comprida, o Vale do Rossim (estou-me a esquecer de algum sítio?), lugares que na sua opinião deveriam ser objecto, no próprio plano director do PNSE, de um regime de protecção ambiental especial (suponho que menos exigente, permitindo a construção de estabelecimentos de hotalaria ou de habitações para férias).

O estudo Corine Land Cover 2000 realça ainda que para este aumento da área construida contribuiu principalmente o litoral, muito especialmente a zona do Algarve (onde chegou aos 55%). Acho que finalmente percebi a expressão de Jorge Patrão sobre os projectos da turistrela, essa em que os classifica como "muito equilibrados", a que me referi aqui e aqui. Compreendo agora que ele se referia ao equilíbrio da algarveação.

segunda-feira, maio 29, 2006

Turismo em movimento!

Vejamos o que a Turistrela tem para nós nesta temporada. O que se segue foi retirado tal e qual da página da Turistrela, respeitando até a utilização aleatória das maiúsculas (desta vez, a responsabilidade pelos erros não é toda minha).
  1. 3 noites paga 2 - 5 noites paga 3 - 7 noites paga 4
  2. Telecadeira da Torre + Jantar - Somente 99.00€ por Quarto!!
  3. Cultura e diversão para todas as Idades - 3 dias / 2 noites - A Partir de 66.00€ por Pessoa
  4. 3 dias / 2 noites de BTT - Desde 95.00€ por pessoa...
  5. Cultura e Animação na Serra da Estrela - 3 dias / 2 noites - 99.00 € por Pessoa
O programa 1 consiste apenas no que se descreve: um desconto; os programas 2, 3 e 5 incluem entradas para a entrada nos museus mais frequentados da região; o programa 4 merece mais atenção por parte de um amante de desportos de ar livre como eu. O preço do pacote inclui duas noites em hotel, trajectos para GPS e apoio. Mmmm, eu moro aqui na região, não preciso de dormida; posso aproveitar este pacote? Quanto é que pago? Mmmm, gostava de conhecer melhor os trajectos, não posso fazer o download dos ficheiros? Mmmm, é boa, os trajectos não foram definidos pela Turistrela, que tem (supostamente) uma experiência de trinta anos no terreno, foram definidos por uma empresa de Lisboa... Que interessante. A parte da Turistrela nesta parceria parece ser fornecer a dormida e as refeições nos seus hotéis... Não me parece que seja propriamente a componente mais relevante num pacote destes, pelo menos para BTTistas sérios...
Mas vejamos, isto é apenas uma página de internet, é melhor telefonar para o call center da Turistrela para tirar as dúvidas. O que se segue é uma transcrição não exacta de uma conversa que tive na quinta feira, dia 25, perto das 16:30.
- Boa tarde, (segue-se um longo paleio gravado, prima aqui para isto, prima ali para aquilo), prima "9" para ser atendido por um operador.
- 9
- Boa tarde, ligou para o call center da Turistrela
- Boa tarde, estou a telefonar para saber algumas informações sobre o vosso programa de passeios BTT.
- Muito bem, em que posso ser útil?
- Olhe, estou a considerar a possibilidade de fazer alguns dos vossos trilhos BTT, mas moro na Covilhã e não necessito de alojamento. É possível inscrever-me sem pagar as dormidas? Se sim, em quanto fica?
- Ahhh, terá que telefonar para a estância de esqui que isso é com eles lá em cima. Mas hoje já dificilmente os apanha na estância.
- Obrigado.
Telefonei para estância no dia seguinte, de manhã e à tarde, ninguém atendeu. Voltei a "premir o nove".
- Boa tarde, telefonei ontem por causa dos trilhos BTT, disse-me para telefonar para a estância, mas ninguém me atende lá de cima.
- Ah, sim, estou recordado. Mmmm, só um momento. (Pausa) Olhe, pode, de facto, fazer os trilhos sem pagar o alojamento, mas todas as informações estão disponíveis na nossa página de internet.
Face a isto, já não tive coragem de perguntar mais nada, imaginei que não tinha lido com atenção a página web da Turistrela. Quando voltei ao site, no entanto, não consegui encontrar as respostas às minhas perguntas. Bah, que se lixe. Seja como for, eu não estava realmente interessado, era só para ver o que dava...
Em resumo, aqui temos, mais uma vez, a concessionária exclusiva do turismo e dos desportos na Serra a fazer o mesmo de sempre, o único que sabe fazer durante as temporadas sem neve: gerir hotéis nos termos o mais banais possível... Para tudo o que ultrapassa essa trivialidade, toca de arrajar parcerias, mesmo que seja com empresas de fora da região, que a gente não se arranja sózinhos...
E são estas criaturas, há mais de trinta anos, os concessionários exclusivos do turismo e dos desportos na Serra!

Hoje não vi esquilos

Dei uma corrida hoje de manhã nas picadas da encosta aqui da Covilhã. Para além dos já familiares montinhos (e montões, às vezes) de entulho que alguns construtores civis lá vão deixando, hoje vi duas garrafas de água, que algum "amante" da natureza deixou, durante o fim de semana, na estrada.
É frequente encontrar embalagens de alimentos energéticos nas bases das vias de escalada desportiva mais frequentadas. No ano passado, dei com fitinhas de plástico a marcar o trilho para a Lagoa do Peixão e a assinalar o trilho que sobe do Covão da Ametade para o Cântaro Gordo. Estas últimas estavam assinadas, tinham escrito "Inatel" em letras vermelhas sobre fundo branco. Quando cheguei a casa enviei um email para a direcção nacional do Inatel, pedindo-lhes que parassem com aquilo, que fitinhas de plástico não era maneira de assinalar trilhos, ou, pelo menos, que as retirassem no final das suas actividades. A verdade seja dita, alguns dias depois recebi a resposta, dizendo que tinham sido dadas instruções aos responsáveis por esse tipo de actividades aqui na Serra para que essa prática não fosse continuada.
Quero dizer com este artigo o seguinte: não são só os "maus" que poluem. As nossas actividades na Serra podem ter maiores ou menores impactos, dependendo da atitude que temos. A norma deve ser a definida por aquele cliché "não deixes senão pegadas, não leves senão memórias". Em caso de dúvida, vale mais ser picuínhas, paranóico. Sejamos, pelo menos, tão cuidadosos quanto possível. É que todos conhecemos a "lógica" do "isto já está tão sujo, mais lixo menos lixo, vai tudo dar ao mesmo". Pois bem, o Covão Cimeiro, o trilho para a Lagoa do Peixão, as picadas onde andei a correr hoje, não estão ainda muito sujas. Tentemos todos manter este estado de coisas.
Ou então, para quem não se importa com o lixo, sugiro caminhadas pelas lixeiras, por exemplo, à volta do Malhão da Torre, ou na vertente das Penhas da Saúde, por baixo do bairro dos chalés. Aí sim, pode aplicar-se a "lógica" que referi acima (não deixa de ser errada, mas é verdade que lá ninguém nota uma garrafa a mais ou a menos).

sexta-feira, maio 26, 2006

Os milhões de euros dos lobos

http://ventor.com.sapo.pt/page7.htm A edição de domingo do Público apresentava, na primeira página, como título da notícia com maior destaque, "Alcateia de lobos obriga a gastar mais 100 milhões de euros em auto-estrada". No desenvolvimento da notícia, explicavam-nos que, para permitir a circulação de uma alcateia com sete lobos, se tinha desviado o traçado previsto para a A-24, entre Viseu e Chaves, alteração que tinha provocado esta derrapagem no custo da obra. A reportagem mostrou-nos também o que classificaram como "inconformismo" do Presidente da Câmara Municipal de Vila Pouca de Aguiar, concelho onde se localiza o sítio que se decidiu proteger. Domingos Dias, assim se chama o autarca, ficou "inconformado" porque o PIDDAC apenas prevê 6015 € para Vila Pouca de Aguiar, "não chega para pagar um jantar ao senhor ministro" mas, para os lobos, cem milhões! Um verdadeiro exagero ambientalista, na sua opinião.
Quando li a notícia, fiquei, por momentos, confuso. De facto, postas as coisas nestes termos, tão pouco dinheiro gasto com as pessoas e tanto desperdiçado com o bem estar dos lobos... De sete lobos, apenas!... Mas, logo a seguir, acordei: mas que disparate é este?! Tirar dinheiro às pessoas para o gastar com os lobos?! Que raio de perspectiva é esta?! Faz lembrar aquela frase (recorrente cá pela Covilhã): "o futuro não pode ser hipotecado aos interesses da lagartixa de montanha" (ver o artigo Ich bin ein Lacerta Monticola!)...
A ver se me explico:
  1. Domingos Dias quer que acreditemos que ele acha que se os cem milhões de euros tivessem sido poupados, sacrificando-se a alcateia, ficariam disponíveis para investimentos em Vila Pouca? Que investimentos seriam esses? Mmmm, venha daí um mini-Polis para embonecar a vila?
  2. O que está em jogo não são só os lobos, são também as pessoas. Protegem-se os lobos não pelos seus direitos, mas pelos das pessoas. Acho que temos o direito a um país com um ambiente natural preservado. Não quero um país totalmente sacrificado aos mamarrachos com que os senhores autarcas costumam entusiasmar-se. Estou cansado de ver as cidades crescerem irracionalmente, deixando uma terra de ninguém deserta nos seus centros históricos e uma terra de ninguém apinhada de prédios horrorosos, shoppings, vias rápidas e viadutos nas periferias, desenhadas a pensar (?) apenas no trânsito automóvel, esquecendo o dos peões, esquecendo as pessoas. Só pelo que permitiram nas cidades deste país, devia ser proibido aos autarcas falar de "exageros ambientalistas", por uma questão de decoro.
  3. Já se terá o sr autarca perguntado porque é que são tão poucos os lobos desta alcateia? O que é que ele poderá fazer para aumentar o seu número?
  4. Já terá o sr autarca pensado em formas de capitalizar mais valias para o seu concelho e as suas populações com esta alcateia de lobos? Olhe, eu sei de muita gente que estaria disposta a pagar para observar lobos em liberdade. Tente arrancar uma parceria com o Instituto de Conservação da Natureza, no sentido de proteger os lobos e aumentar a sua população, pode ser que venha a ser possível o turismo ambiental apoiado (não só, mas também) nos lobos.
  5. Saibam todos os autarcas deste lugar que se autointitulava jardim à beira mar plantado, que sinto todo o milhão de euros gasto na protecção ambiental, na defesa da lagartixa de montanha, do lobo, do lince, das florestas autóctones, da linha de costa, etc, etc, etc, como um milhão de euros gasto na minha particular pessoa. Saibam que agradeço esses investimentos, que gosto de ver os meus impostos assim aplicados e que me sinto fortemente inclinado a votar em autarcas (e demais governantes) que defendam esses gastos.
  6. Finalmente, temos que reconhecer que esta deve ser a derrapagem orçamental em obras públicas menos obscura de sempre, não?

A foto que ilutstra este post não é minha. Não sei quem a tirou. Encontrei-a com o google image, copiei-a do site http://ventor.com.sapo.pt/page7.htm. É espectacular, não é?

quinta-feira, maio 25, 2006

Uma opinião diferente!

Um anónimo fez hoje um comentário a um artigo de março, com uma opinião que não é a do Cântaro. Como o artigo em questão já está enterrado nos arquivos e a opinião deste anónimo corria, assim, o risco de não ser partilhada por mais ninguém, resolvi inverter a ordem normal das coisas nos blogs, promovi o comentário à categoria de artigo e vou deixar a minha resposta em comentário.
Ora então, cá vai.

Vejo com bons olhos a criação de um projecto de mini-estancia de esqui na serra da estrela, digo mini-estancia, pois a estrela jamais poderá ser uma sierra nevada,ou um soldeu de andorra. A serra apresenta limitaçoes quer a nivel de altitude e qualidade da neve pois a serra apresenta uma neve atlantica que cujo a sua caracteristica se caracteriza por ser muito dura, gelo. Um projecto de desportos de inverno na serra da estrela poderia ser um optimo trampolim para trazer um desenvolvimento sustentado a toda região da beira alta e beira baixa,será necessario travar a construção desenfriada na serra, ficando esta somente possivel em cotas baixas, quem quisesse subir a serra só o poderia fazer atraves de telécabines, funicolares, os carros ficariam em parques de estacionamento nas cotas mais baixas (ficando excluido o acesso ás aldeias do interior da serra somente aqueles que lá habitam, seus familiares, autoridades e pouco mais), é necessario reflorestar a serra. Seria interessante fazer sinergias em visitas turisticas á serra da estrela passando sempre pelas rotas do vinho do dão, queijo da serra da estrela, neve, cerejas do fundão na beira baixa entre outros atractivos existentes. Com um pouco de imaginação e seriedade o projecto da serra poderia ser um sucesso!!!!
Não nos podemos esqueçer que a cerca de 100km da fronteira, no lado espanhol, a caminho de cidade rodrigo encontramos um projecto semelhante, a estancia de covatilla, na serra de bejar está muito bem planeada, com optimos acessos, material de esqui em bom estado, parque de estacionamento gratuito numa cota baixa, aldeias historicas recuperadas, bons preços, um forte concorrente ao projecto da nossa serra, deveriamos aprender com eles.

Aviso à navegação

Quando configurei este blog permitindo os comentários de anónimos, fi-lo conscientemente, pensando que queria que todos comentassem à vontade, mesmo aqueles que o desejassem fazer sob a protecção do anonimato. Toda a gente pode comentar no Cântaro, e não quero obrigar ninguém a ser confrontado de manhã, na "vida real", com opiniões que manifestou, "virtualmente", na noite anterior. Claro que, em contrapartida, me sinto perfeitamente à vontade para apagar comentários que eu considere insultuosos (felizmente, ainda não tive que o fazer mas suspeito que lá chegaremos). Chamemos-lhe regras de boa educação, chamemos-lhe censura, o que seja. Sei que há blogs onde tudo é permitido, mas este não é um deles. Entre proibir os comentários de anónimos e sujeitar-me a ser acusado de censor, prefiro a segunda possibilidade. Este é o meu blog e eu sou o principal responsável por manter o nível, coisa que tenciono fazer, à luz dos meus critérios.

quarta-feira, maio 24, 2006

Turistrela com pista de neve no Rock in Rio

Terça-Feira, 23 de Maio de 2006

Empresa vai gerir pista em funcionamento no recinto do Festival

A Turistrela, concessionária da Estância de Esqui da Serra da Estrela, vai gerir uma pista com neve artificial no festival Rock in Rio, em Lisboa. A pista vai ter 10 metros de largura por 50 metros de comprimento e “está vocacionada para a iniciação nos desportos de Inverno, nomeadamente esqui e snowboard”, refere Artur Costa Pais, administrador da Turiestrela. O certame começa dentro de dois dias e vai decorrer nos dias 26 e 27 deste mês, seguindo-se novo conjunto de concertos entre 2 e 4 de Junho. A empresa vai mobilizar uma equipa de 20 pessoas para gerir a pista, onde se incluem monitores de desportos de Inverno. Todos os serviços da pista vão ser gratuitos para quem ingressar no festival, bem como o aluguer de material que a empresa também vai disponibilizar para a prática de esqui e snowboard. A produção de neve deverá ascender aos 100 metro cúbicos por dia para uma altura de sete metros e meio na pista, que vai funcionar entre as 15h00 e as 2h00. “A sensação vai ser a mesma de deslizar em neve natural”, garante Artur Costa Pais. Segundo aquele responsável, todas as condições de segurança estão acauteladas. “Vai haver uma única entrada e saída da pista e funcionários a regular a circulação”, garante. A Turistrela é a empresa concessionária do turismo na Serra da Estrela e gere a única estância de esqui de Portugal. “É a primeira vez que vamos trabalhar fora da serra, mas não será a única”, garante Artur Costa Pais. “Estamos evolvidos em projectos para a criação de espaços de esqui indoor em Portugal, que serão divulgados oportunamente”, acrescenta. Este ano, a estância de esqui da Serra da Estrela bateu o recorde de dias de funcionamento, com as pistas a abrirem ao público durante 128 dias desde 1 de Dezembro até 25 de Abril último. LF
(Diário XXI)
(Por favor, ó Tu que tudo podes, faz com que seja para a Turistrela um negócio da China! Que faça a Turistrela pensar em ampliar as pistas para o Parque Eduardo VII em vez de o fazer para o Covão do Ferro! Por favor, por favor, ouve as minhas preces!...)

Não vão por mim...

Reinhold Meissner é um verdadeiro especialista de montanha. Foi o primeiro a subir o Everest sem oxigénio engarrafado, foi o primeiro a escalar esta mesma montanha em solitário (mas mesmo sózinho, desde o acampamento base, onde tinha, apenas, a namorada, até ao topo), foi o primeiro a subir os catorze picos com mais de oito mil metros sem oxigénio engarrafado (projecto em que o "nosso" João Garcia está actualmente empenhado - Já agora, onde estão as bandeirinhas por este verdadeiro herói nacional do desporto?), foi o primeiro a atravessar a Antártica em autonomia (não sei se este feito já foi repetido), foi eurodeputado durante um mandato, tendo apresentado inúmeras iniciativas de protecção da montanha. Actualmente, com 62 anos, é agricultor, escoando toda a produção da sua quinta biológica de montanha (no norte de Itália) para um restaurante vizinho, e ainda aposta num projecto de recuperação de castelos para instalação de museus de montanha. Só por estes dois últimos projectos, Meissner, sózinho, faz mais pelas suas montanhas e os seus compatriotas do que as autarquias da nossa zona, a Região de Turismo, a Acção Integrada de Base Territorial e a Turistrela, todas juntas, fazem pela Serra da Estrela e as suas populações.
Hoje comprei a revista espanhola Desnivel. Na tabacaria onde costumo comprar jornais, a Desnivel chega com algum atraso. A que estive a ler hoje já era de Janeiro... Seja como for, nela consta um artigo sobre Meissner. Diz ele, a páginas tantas "As paisagens mais belas não se podem enterrar sob o cimento. Os meios mecânicos (teleskis, telecadeiras, telecabines) e as urbanizações destroem o potencial turístico das montanhas". Mas não se fica por aqui. Como solução para o dilema "economia ou ecologia" (parece-me que o verdadeiro dilema não é esse, é antes "o interesse curto e egoísta de poucos ou ecologia") propõe uma combinação de agricultura local, cultura e turismo.
Não vão por mim, vão por quem sabe.

Melhoramentos?

Um amigo meu "queixou-se" de que a fotografia do post de ontem lhe assanhou a alergia, deu-lhe logo vontade de espirrar.
Imaginemos que eu tinha responsabilidades na gestão da Serra. Sei lá, suponhamos que eu era o presidente da Região de Turismo, ou o Coordenador da Acção Integrada de Base Territorial da Serra da Estrela (AIBTSE). Imaginemos que, preocupado com a reduzida afluência de turistas com alergias durante a Primavera, eu propunha que se pulverizasse com herbicidas áreas extensas da serra, de maneira a reduzir a densidade de pólenes em suspensão atmosférica.
Era escandaloso, não era? Pois bem, não é uma mesma lógica que está por trás da posição de Lemos dos Santos (ele sim, coordenador da AIBTSE) quando defende (no blog Tráfego na Serra da Estrela) que a Serra precisa de mais caminhos asfaltados para permitir aos idosos e aos pais de crianças pequenas o acesso às maravilhas da Serra?

terça-feira, maio 23, 2006

Pequeno ensaio sobre a cegueira

Tirei esta fotografia hoje. Apesar de não ser grande coisa, a imagem (ou melhor, o sítio que ela ilustra) tem a sua graça.
Pois, mas o que este lugar é, mesmo, não se vê na fotografia, não apenas por ela não ser grande coisa. Só estando lá, sentindo a mistura do cheiro do rosmaninho e dos pinheiros, o sussurrar do vento nas agulhas, e a ausência total de outros sons, só assim. O isolamento, a terra, o vento, o céu e as nuvens, o sítio.
Para verdadeiramente lermos esta imagem, para lhe extrairmos o seu real valor, temos que fechar os olhos e imaginar ou recordar sensações que lugares semelhantes nos transmitiram. Ou então, ir lá, mesmo, e estar atento ao que o sítio nos diz. Em qualquer dos casos, é necessária disponibilidade. Há pessoas que se esqueceram do que isso é. Porque será que o turismo na serra está apenas dirigido a essas pessoas?
Suspeito que porque são pessoas dessas que o dirigem.

sábado, maio 20, 2006

AuTopoNomia

Três dias de marcha e orientação na Serra, em autonomia completa, é o que propõem os Amigos da Serra da Estrela, nos dias 10, 11, 12 e 13 de Junho. As inscrições estão abertas.

sexta-feira, maio 19, 2006

E mais uma quarta!!!

IPJ convida jovens a proteger a floresta

Inscrições já estão abertas
(Kaminhos)

Ainda mais outra

Centro de Interpretação da Torre quase pronto

(O Interior, 18 de Maio)
Se este centro de interpretação tiver metade do dinamismo do CISE, da Câmara de Seia, já será um sucesso. Oxalá!

Outra boa notícia

Lagoas da Serra da Estrela com estatuto internacional

(O interior 18 de Maio)
Só um breve comentário: depois da criação do Parque Natural (1976), da declaração de Reserva Biogenética (1993), da integração na Rede Natura 2000 (penso que em 2002), vem agora mais esta. Será para proteger os monos da Torre que se declararam todos estes estatutos de protecção?

Uma boa notícia

Um novo (mais novo que o Cântaro, pelo menos) blog da Covilhã dedicado a coisas de que gosto:
Montes d'Evolução

Poeira e oportunidades

Hoje (dia 18) de manhã assisti ao seminário sobre Gestão e Conservação de Habitats Prioritários no Sítio da Serra da Estrela. Infelizmente, durante a tarde não pude lá ir, e é pena porque o debate agendado no programa pode ter sido muito interessante. Eu tinha algumas questões que gostava de poder ter colocado. Paciência.

Com este seminário pretendeu-se, entre outras coisas, apresentar os trabalhos realizados no quadro do Projecto Life Natureza "Serra da Estrela: Gestão e Conservação de Habitats Prioritários", que decorreu entre 2002 e 2006. Eu fiquei bastante impressionado com o que ouvi na parte a que assisti. O projecto recuperou área de cervunal, fez esforços para a conservação das turfeiras, descobriu novas áreas de teixial (infelizmente, a maioria ardeu no incêndio de Agosto de 2005), reactivou canadas invadidas por matos, recolheu várias centenas de quilogramas de lixo do planalto central... Enfim, poderia apresentar aqui um quadro mais detalhado do seminário se me tivesse sido possível assistir da parte da tarde.

Mas chamo a atenção para este projecto porque ele foi proposto pela Associação de Produtores Florestais do Paúl, tendo como parceiros o Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE) e outras instituições, nomeadamente a Universidade de Évora. Não sei qual foi o financiamento do projecto, mas fiquei a saber que algumas das acções envolveram verbas avultadas, nomeadamente para o pagamento de mão de obra. O que acho particularmente interessante é que este projecto foi um exemplo de como o PNSE pode ser um parceiro gerador de oportunidades e não o papão do bloqueio do desenvolvimento, como é tantas vezes apresentado por tantas personalidades, mesmo algumas com responsabilidades institucionais.
A Associação de Produtores Florestais do Paúl soube ver para lá da poeira de certos discursos e aproveitou esta oportunidade. E o resto do pessoal? Fica parado na esperança de ver a poeira assentar?

PNPOT

É a sigla do Plano Nacional da Política de Ordenamento do Território. Ao que me disseram, o plano está para ser aprovado há nove anos. Aparece agora em consulta pública, vejamos do que se trata enquanto é tempo. Temos até 9 de Agosto. Está tudo online em http://www.territorioportugal.pt/.

terça-feira, maio 16, 2006

E porque é que falo nisso?

Se o requerimento dos dois deputados comentado no post anterior é irrelevante, porque é que o Cântaro Zangado se refere a ele? Esta pergunta faz sentido, até porque o Cântaro não se quer meter nessas lides dos partidos políticos. Antes pelo contrário, o Cântaro gostava congregar para a sua defesa de uma serra a sério pessoas de todas as áreas do espectro partidário, coisa que não é muito viável se começar a comentar a vida e a lógica partidárias.
Falei neste assunto porque me incomoda que seja tão generalizada a ideia de que o que a serrra necessita para o seu desenvolvimento sejam intervenções como estas. Vejamos, ao longo da estrada N339 (Covilhã-Seia) a cobertura de rede é bastante aceitável. Entre a Torre e o Vale do Rossim, pelos trilhos, enfim, podia ser bem pior. Claro que há locais, principalmente no fundo dos vales e depressões, onde o sinal não chega, mas paremos para avaliar os inconvenientes de uma eventual decisão de alargar a todo o território do PNSE a cobertura de rede de telemóvel: é necessário espetar antenas em sítios remotos, lindíssimos, que eu preferia que continuassem ao abrigo destes mamarrachos; são necessárias vias para transportar os equipamentos e para permitir o acesso das equipas de manutenção, que serão inevitavelmente aproveitadas por piqueniqueiros, pares de namorados sem "ninho" e por construtores civis para despejar os lixos e entulhos resultantes das suas actividades; corre-se ainda o risco de (na mesma lógica da irrelevância) os autarcas, nas vésperas das eleições, resolverem asfaltar estes acessos para mostrarem obra, dando resposta ao que chamam "legítimos anseios das populações das freguesias rurais" e "desenvolvendo" o turismo (para muitos autarcas, o turismo na serra só existe em duas variantes: ski e voltinhas dos tristes).
Quanto à questão da segurança, gostava de mostrar uma outra atitude: nas terras altas da Escócia, tem feito correr alguma tinta (penso que a discussão ainda continua, mas posso estar enganado) a questão de saber se o trilho mais simples (logo, o mais frequentado) para a ascensão do Ben Nevis (a montanha mais alta das ilhas britânicas, com perto de 1300 m de altitude) deve ficar assinalado com mastros de madeira pintados, bem visíveis e próximos uns dos outros, ou se se deve antes manter a tradicional sinalização com montinhos de pedra, relativamente afastados. Um dos argumentos dos que são contra esta modernização é que ela vai encorajar montanhistas inexperientes a meterem-se em trabalhos para os quais não estão à altura, aumentando assim a perigosidade do trilho. Não é o mesmo com isto dos telemóveis? [Já agora, deixem-me dizer que, obviamente, não há estradas asfaltadas ou telecabines para aceder ao topo do Ben Nevis. Também não há lá no cimo nenhum centro comercial, nem sequer uma cafeteria. No entanto, 150 000 pessoas sobem a montanha cada ano. Como dizia o Peça, "e esta, hem?"]
Admito que a minha opinião não seja partilhada por quase mais ninguém mas cá vai: para mim o montanhismo (que classifico como uma forma de turismo) é uma actividade na qual, como em poucas, podemos exercitar o nosso sentido de responsabilidade, desenvolver os nossos recursos físicos e psicológicos e na qual somos obrigados (com ou sem telemóveis) a ter muito respeito pelo meio envolvente, devido às graves consequências que podem resultar de um erro ou de uma distracção. Só assim, nestas condições, é que a experiência da serra faz sentido para mim, só assim é que verdadeiramente gozo a serra. O requerimento dos telemóveis dá algum contributo para o aprofundar das experiências de que podemos, nesta perspectiva, usufruir na serra? Não. O que acabo de dizer não aquece nem arrefece os que não partilham a minha maneira de gozar a serra, claro. Mas a esses, principalmente aos que querem passear sentindo-se 100% seguros, sugiro que considerem antes passeios pelo parque de estacionamento do hospital da covilhã, mas vejam lá, não se afastem muito da porta de entrada das urgências, não vá acontecer alguma... (Estou a brincar, claro. Venham à serra que tanto é minha como vossa e cada um que a goze como entender. Mas vão pensando nisto...)
Por tudo isto, pode ver-se que se por um lado o Cântaro Zangado acha a petição dos deputados irrelevante, por outro acha-a extremamente perigosa.

segunda-feira, maio 15, 2006

Abençoada Irrelevância

Uma das notícias (ver, por exemplo, aqui) desta semana é que dois deputados socialistas eleitos pelo círculo de Castelo Branco requereram ao governo que use a sua "magistratura de influência" para levar os operadores de redes de telemóveis a assegurar a cobertura total de rede na serra. Justificam o pedido com razões de "segurança de turistas e residentes".
Num instante consigo imaginar problemas bem mais graves na serra do que a falta de cobertura de rede, e que mais facilmente poderiam ser atacados pelo governo. Por exemplo, a falta de ímpeto na reflorestação, as dificuldades no escoamento dos produtos da actividade das populações rurais, a falta de meios do Parque Nacional da Serra da Estrela, e podia continuar por muito, muito tempo.
No entanto, estes dois deputados foram escolher um tema que, no mínimo, se pode considerar esquisito. É que como eles reconhecem, o governo não tem grandes possibilidades de resolver o problema, está limitado a uma magistratura de influência (que, reconheçamos, é mais característica de órgãos de soberania não executivos, como a Presidência da República). Que se passa?
Bom, suspeito que é o seguinte. Os deputados do partido que está no poder (por acaso é este, mas podia ser o outro) têm dificuldades em cumprir cabalmente as suas obrigações (os outros também, até porque muitas vezes, como se viu, estão uns e outros muito ocupados a "trabalhar" nos fins de semana prolongados, mas isso é outro assunto), porque uma das mais importantes é a de fiscalizarem a acção do governo, coisa que, se for levada muito a peito, lhes trará dissabores na carreira dentro do partido... Mas, é natural, apesar de estarem, neste aspecto, de mãos (e pés, e línguas, e consciências) atadas, querem mostrar obra.
Nesta perspectiva, vê-se que a escolha de tema não podia ser mais feliz, já que (a) redigem um requerimento (actividade às vezes contabilizada por jornalistas na avaliação do desempenho dos deputados); (b) aparecem nas notícias (indicador com alguma importância na opinião pública e extremamente importante no aparelho partidário); (c) permitem ao governo fazer boa figura sem fazer rigorosamente nada a não ser "sacar" da sua "magistratura de influência", ou seja, balbuciar uns apelos aos operadores de telecomunicações (e isto de dar ao governo a oportunidade de fazer boa figura, é do melhor que há em termos de carreira no aparelho).
Ou seja, à parte algumas notícias na imprensa regional, e a (pouca) agitação nos blogs, qual é o resultado desta acção dos deputados? Nenhuma. Daí o título deste post.

Euromilhões (II)

A propósito da quase obscena satisfação de Artur Costa Pais (administrador e principal accionista da Turistrela) com a nomeação de Luís Patrão para o Instituto de Turismo (recordo que, de acordo com um artigo do Jornal do Fundão de 11 de Maio, Artur Costa Pais terá afirmado "À Turistrela e à serra saiu o euromilhões"), o leitor João L. deixou um comentário ao meu post "Euromilhões", que me pareceu um excelente exercício na arte da interpretação. Gostei tanto do comentário, acho que nele João fez uma leitura tão correcta da frase de Artur Costa Pais, que resolvi aumentar a sua visibilidade. Aqui fica:
“À Turistrela e à serra saiu o euromilhões”
Esta é daquelas de antologia. Um tipo que diz isto ou não percebe o que disse ou se sente impune para fazer o que lhe dá na gana. Primeiro, porque sugere que o que é bom para a Turistrela é bom para a serra. Depois tem implícita a tendência para a política do “amigalhaço no sítio certo”, sendo até muito embaraçosa para o recém nomeado. Por outro lado, sugere uma relação cúmplice entre uma empresa privada e a respectiva entidade pública reguladora ... e por aí fora.
Toda a gente vê isto
Ora bem!
Obrigado, João!

sábado, maio 13, 2006

Melhorar o Covão d'Ametade?

Quando se fala de ambiente, certas pessoas têm tendência para começar a debitar generalidades vagas e a fugir à discussão de casos ou de projectos concretos. Por exemplo, Lemos dos Santos (Coordenador da Acção Integrada de Base Territorial da Serra da Estrela) afirmou-se, no blog tráfego da Serra da Estrela, contra a abertura de mais estradas em geral; no entanto, defendeu empenhadamente, nesse mesmo foro, todas as "beneficiações" asfaltantes concretas que lá foram consideradas, até a malfadada Estrada Verde.
Vem isto a propósito de receios que senti com a leitura de um artigo (a que já me referi noutros posts) em que Jorge Patrão, o presidente da Região de Turismo da Serra da Estrela, anunciou que tinha escrito uma carta ao Parque Natural da Serra da Estrela, solicitando, entre outras coisas, que os investimentos projectados não esbarrassem em impedimentos ambientais (é como escrever uma carta à PSP requerendo que não se dificulte a vida dos ladrões durante o assalto a um banco, que se prevê tenha lugar a tantos do tal, não é?). Nese artigo, Jorge Patrão informa também que alguns desses projectos de investimento contemplam "melhoramentos" no Covão d'Ametade.

Acontece que nunca ouvi Jorge Patrão tomar posições concretas (que, de generalidades "eu também gosto muito da Serra" estamos todos fartos) em defesa da paisagem e do ambiente, antes pelo contrário, toma frequentemente a peito a tarefa de defender projectos de atentados como as telecabinas, a Estrada Verde, a construção na Torre, na Lagoa Comprida, no Vale do Rossim, na Varanda dos Carqueijais, nos Piornos, etc, etc, etc. Suspeito, assim, que Jorge Patrão sofra daquele mal que diagnostiquei no primeiro parágrafo, logo, estou apavorado com o que ele possa ter em mente para o Covão d'Ametade.

O caro leitor não conhece o Covão d'Ametade e não sabe porque é que estou tão assustado? Veja a fotografia no topo deste artigo, que dá uma pálida imagem da beleza do sítio. Já está a ficar assustado?

A morte selvagem

Estas imagens (que mostram uma coruja, um ouriço cacheiro e um sei-lá-o-quê espalmado) foram fotografadas hoje de manhã, ao longo de cinco quilómetros da variante à Covilhã, entre o acesso à Quinta do Covelo e o acesso ao Teixoso.
Elas mostram bem uma verdade evidente: os melhores sítios para se "admirar" a fauna selvagem em Portugal são as bermas das estradas. Será para permitir este contacto com a vida selvagem (ou, melhor dito, com a morte selvagem), a um cada vez maior número de amantes da natureza, que se está a considerar a construção da Estrada Verde, entre a Guarda e o Maciço Central? Será?

O Refúgio da Montanha

O Refúgio da Montanha é um blog sobre a Serra da Estrela como palco de actividades de montanhismo, que descobri hoje. Recomendo vivamente.
Aproveito para lançar a sondagem online da semana: que site lhe dá mais vontade de largar tudo imediatamente e correr a perder-se na Serra?
(a) www.turistrela.pt;
(b) www.rt-serradaestrela.pt;
(c) refugiodamontanha.blogs.sapo.pt.

Euromilhões

“À Turistrela e à serra saiu o euromilhões” disse Artur Costa Pais ao “JF”, a propósito da nomeação de Luís Patrão para o turismo.
(In Jornal do Fundão, edição de 11 de Maio de 2006)
Luís Patrão é o irmão de Jorge Patrão, que é presidente da Região de Turismo da Serra da Estrela, que é o organismo estatal (ou semi-estatal?) que tantas vezes parece o departamento de relações públicas da Turistrela, que é a empresa privada concessionária da exploração turística do território do Parque Natural da Serra da Estrela, e que (ab)usa (d)esta concessão como se se tratasse da concessão de exploração de uma praiita pobre e poluída, empobrecendo-a e poluindo-a ainda mais e beneficiando, na sua louvável (?) actividade, de fundos e apoios públicos, sempre defendidos por aquele organismo estatal (ou semi-estatal?) a que me referi ao início.
Não sei nada da vida passada de Luís Patrão. Ou melhor, não quero saber nada da vida passada de Luís Patrão, quero dar-lhe o benifício da dúvida.
Mas a felicidade demonstrada pela sua nomeação por Artur Costa Pais, o accionista maioritário da Turistrela, é muito, muito preocupante...

sexta-feira, maio 12, 2006

Quê?!

Alguns excertos de declarações de Artur Costa Pais no artigo referido no post desta manhã:

"a maior parte do entulho é das obras da responsabilidade do Parque Natural na zona envolvente à capela da Torre, com vista à requalificação do anfiteatro, que já está a ser removido."

A maior parte do entulho está onde?! Uma pessoa passeia por ali e nem sabe para onde se virar! Lixo e restos de materiais de construção, principalmente restos das canalizações dos canhões de neve (ou lá do que são) por todo o lado!

“Vão milhares à Torre. Enquanto não houver forma de anular a subida de carro durante o Inverno é difícil controlar isso”

Porque é que nunca ouvi Artur Costa Pais, ou Jorge Patrão, ou Lemos Santos, dizerem claramente: "No dia em que estiverem funcionais as telecabines, será proibido o trânsito automóvel entre a Lagoa Comprida e os Piornos"? Porque é que isso é apenas sugerido vaga e implicitamente, como na frase acima? Se, de facto, é esse o plano, que sentido faz a construção (é disso que se trata, deixemo-nos de tretas de "beneficiações" de caminhos que nunca foram, nem pouco mais ou menos, estradas) da estrada entre a Portela do Arão e a Lagoa Comprida, da Estrada Verde e da estrada Unhais - Nave de Santo António? Quererão ser obrigados a construir os maiores parques de estacionamento de montanha do mundo, de maneira a ser viável a ordenação do trânsito vindo de tantos e tão variados lados?! Se não se proibir o tráfego, em quanto é que se espera vê-lo reduzido pela disponibilidade da alternativa das telecabines? Enquanto não há telecabines, porque não experimentar com autocarros, como se faz, por exemplo, no Formigal, nos Pirinéus Aragoneses? Por fim: se não se consegue limpar a zona da Torre enquanto for vistada pelos milhares que se deslocam de automóvel, será possível limpá-la quando for visitada pelos milhares que (hipoteticamente) utilizarão as telecabines?

“Isso é uma preocupação mas não é uma obrigação. Não podemos assumir essa responsabilidade, é uma responsabilidade de todos”

A lógica (?) de Artur Costa Pais: como é uma responsabilidade de todos, não é uma responsabilidade nossa. A lógica da Associação de Produtores Florestais do Paúl: como é uma responsabilidade de todos, também é uma responsabilidade nossa. E agora pergunto eu: sendo a limpeza, de facto, uma responsabilidade de todos, não se encontra, mesmo assim, igualmente repartida por todos. A quem caberão maiores responsabilidades: à Turistrela, ou à Associação de Produtores Florestais do Paúl?

"neste momento está já a ser feita a limpeza geral pelo Parque Natural e a Turistrela".

Gostava de saber, ao certo, que partes estão estão a ser limpas "em geral" pelo Parque Natural e que partes estão a ser limpas "em geral" pela Turistrela. Mas o mais interessante nem é isto. É que Artur Costa Pais teve o cuidado de explicar (?) que não se conseguia limpar uma zona visitada pelos milhares que vêm de carro, e que, seja como for, não é responsabilidade da Turistrela essa limpeza, para, no final, concluir informando que a Turistrela está a limpar "em geral" a Serra. Dá para acreditar nesta gente?!

Já sei a quem devemos agradecer

Em dois artigos (este e mais este) perguntava-me a quem devia agradecer uma operação de limpeza do lixo na zona da Torre, que se efectuou durante o mês de Abril. Disse que queria dar o meu bem hajam aos responsáveis, "Mesmo que sejam a Turistrela, a Câmara da Covilhã ou a Região de Turismo", os tradicionais "bombos da festa" aqui no Cântaro.

Pois bem, já sei quem foram os responsáveis. Uma operação com esta envergadura, uma tarefa com este gigantismo, não podia ser lançada sem um planeamento cuidadoso, sem se assegurarem os vários milhões necessários ao seu financiamento, sem se estabelecerm as indispensáveis parcerias... Enfim, acontece que nenhuma das três hipóteses que aventei estava correcta, sem dúvida por falta de "músculo" financeiro, humano e logístico dos organismos referidos. A verdade é que aquela tarefa hercúlea foi levada a cabo por (tocam os tambores, momento de suspense...) a Associação de Produtores Florestais do Paúl! Pode ver tudo explicadinho aqui. Aliás, o artigo é extremamente interessante, e presta-se a outros comentários, que não tenho agora tempo para tecer. Fica para mais tarde.

O caro leitor não sabe onde fica o Paúl? Não percebe como é que uma associação que terá, no máximo, uns quinhentos associados consegue mostrar obra onde organismos bem mais poderosos mostram hesitações? Olhe, quanto ao Paúl, veja no mapa. E depois passe por lá, toda a região é belíssima, principalmente na Primavera. E come-se muito bem. (Ou melhor, eu como muito bem no Paúl, tanto que não deixo passar um mês sem por lá abancar.) Quanto à segunda interrogação, caro amigo, vou deixá-la assim, em suspenso. Conclua o leitor o que entender.

Associação dos Produtores Florestais do Paúl,
BEM HAJAM!

quinta-feira, maio 11, 2006

O que zanga o Cântaro

Nos anos cinquenta, algum maluco entendeu que era ab-so-lu-ta-men-te necessário, indispensável para a segurança de Portugal e (porque não dizê-lo) para a de todo o mundo livre, a construção de uma base de vigilância da força aérea na Torre. Venham estradas por aí acima, construam-se uns mamarrachos, vá, salvemos o mundo livre e comecemos o sexto sagrado império, D. Sebastião por aí há-de vir, num futuro não muito distante, perche no rabo, puxado pelo teleski ou, mais comodamente, sentado numa telecadeira. Pois bem, a indispensabilidade da estação de vigilância não chegou sequer para vinte anitos, passados os quais os mamarrachos ficaram ao abandono, não se tendo notado grandes perturbações no que então se chamava equilíbrio do terror, ou no papel de Portugal na NATO, ou fosse lá no que fosse. A esta distância, pode dizer-se que a base aérea não serviu rigorosamente para nada, nem sequer para criar uma qualquer vetusta tradição militar.

Outro maluco, lá pelos finais dos loucos anos sessenta, entendeu que, para desenvolver o turismo, era necessário um teleférico, desde os Piornos até à Torre. O Diabo quer, um maluco tem uma ideia, outros (tão malucos como o primeiro) seguem-no, a obra faz-se. Faz-se? Quase. É que, já nos preparativos para a inauguração, se descobriu (os avanços da ciência têm destas coisas) que o número de dias de vento forte, em que o teleférico não poderia funcionar por questões de segurança, era tão grande naquela zona, que a exploração do teleférico não seria rentável. Ah! E agora? Já está tudo construidinho... No problemo, deixa-se esta porra a apodrecer aqui durante 20 anos. Passado esse tempo, já nos anos noventa, uma lança em África: as autoridades responsáveis (são muuuuitas) chegaram a um consenso para levar a cabo o óbvio (que o era já desde que se tinha desistido da exploração turística do teleférico): desmontar e remover aquela porcaria toda. Volto a dizer, isto foi um progresso enorme, respirei uma lufada de ar fresco. Finalmente, parecia que as autoridades tinham percebido o B-A-BA: quando se comete um erro, tenta-se remediá-lo, voltando-se atrás se necessário. E assim foi, a porcaria do teleférico foi removida. Toda? Não toda. O edifício da estação inferior, nos Piornos, um mamarracho enorme, com o tijolo, os pilares e as placas à mostra, ficou. Porquê? Na altura, não percebi. No ano passado, fez-se luz, quando li uma proclamação da Turistrela dizendo que o pretende transformar num Spa. Ah, ainda a propósito dos teleféricos, a Turistrela reinventou o disparate, volta a lançar a maluquice da sua construção, agora em moldes "reformulados", "modernizados" e aproveitando para rebentar com locais ainda relativamente sossegados e preservados, o Covão do Ferro e a margem oriental da Lagoa Comprida.

Nestes últimos anos, começou-se a falar insistentemente da requalificação do espaço da Torre. Deixemo-nos de tretas, aquilo é uma lixeira. Mas, nos planos para a requalificação, alguma coisa se diz sobre o lixo? Não. Vai-se aproveitar a oportunidade para demolir os mamarrachos da força aérea, agora em ruínas? Não. Fala-se é da sua reconstrução, em recuperar as torres dos radares como "observatórios panorâmicos" e os outros como hotéis ou restaurantes! Por hipótese académica, admitamos que conseguem tornar arquitetónica e ambientalmente aceitáveis aqueles monos enormes (calma, bem sei que não estamos todos bêbados, trata-se apenas de um exercício, vá lá). Teremos então (ainda no pressuposto da nossa hipótese académica, entenda-se) uma lixeira com qualidade arquitectónica, em vez de uma lixeira sem qualidade arquitectónica. Requalifica-se deste modo alguma coisa?! Mas esta gente (Turistrela) é tal que até anunciou a intenção de aproveitar um edifício sem interesse nenhum, que serviu como garagem do Sanatório, para restaurante! Já agora, porque não reconstruir e requalificar um daqueles currais do Vale do Zêzere, aproveitando-o como parque de gelo coberto, ou como piscina aquecida? [Atenção, trata-se de ironia, estou só a brincar.]

Jorge Patrão, o presidente da Região de Turismo da Serra da Estrela (RTSE) diz coisas como "Agora Portugal já tem o Algarve no Verão e a Serra da Estrela no Inverno." Pois é, é um facto, um triste facto. Mas ele ufana-se, orgulhoso, dessa tragédia! Dessa dupla tragédia, devo dizer. Mais, Jorge Patrão é dos que defende a construção da Estrada Verde, entre a Guarda e o Maciço Central, justificando-a com a magnificiência das suas paisagens! Ou seja, a paisagem é tão bonita, mas tão bonita, que temos que acabar depressa com ela, toca de a rasgar já com uma estrada. Mas que porra é esta?! Paisagens magnificientes?! Oh, oh, pode lá ser!... Aliás, deve ser esta raiva contra paisagens bonitas que o levam a apoiar os projectos das telecabines partindo do Covão do Ferro e do extremo oriental da Lagoa Comprida. Mais ainda, Jorge Patrão defende (em público!!!) que no território do Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE) os projectos de investimento não devem esbarrar em impedimentos ambientais! Nem mesmo que sejam nocivos para o ambiente, pergunto eu?! Já agora, não será também defensável afastar da senda do progresso do turismo na Serra outros impedimentos, relacionados, por exemplo, com a propriedade dos terrenos afectados, com licenças camarárias, com o cumprimento das obrigações com a segurança social por parte das empresas envolvidas, com a observância dos regulamentos técnicos das construções etc, etc, etc? O progresso, o verdadeiro progresso, não pode ser travado! Ai credo, que vem aí a desertificação do interior! Ai credo, temos que respeitar as legítimas expectativas de desenvolvimento das populações das freguesias rurais! Ai credo, cuidado com os (eco)fundamentalismos encobertos!

Artur Costa Pais (administrador e accionista maioritário da Turistrela), diz que o (eventual) casino "será a verdadeira estrela da Serra", e refere-se à treta snow fashion 2006 como "Um cenário único como nunca aconteceu na Serra da Estrela". Francamente, um tipo que diz estas coisas, o que é que ele vê na Serra de belo, que justifique a vinda de turistas? Ou ele acha que os turistas virão à Serra para jogar no casino ou para ver tretas fashion? Será que, para ele, tretas destas (que se fazem na serra tão bem como se podem fazer em qualquer outro lugar) são o cartaz maior da serra? Se não são, qual será? Faço estas perguntas porque, da boca deste senhor, só têm saído enormidades como as que referi ou, pelo menos, só as desse calibre chegam aos jornais.

Todos estes decididos passos em direcção a lado nenhum (ou melhor, em direcção a uma cada vez maior degradação do ambiente e das paisagens serranas) são dados com os inevitáveis apoios do estado. Ele é programas estratégicos, ele é fundos de desenvolvimento regional, ele é PETIR, ele é sei eu lá o quê. De cada vez que, ano sim, ano não, mais um destes programas para o desenvolvimento da Serra da Estrela é anunciado, lá vem a parangona na primeira página dos jornais regionais: "N milhões para a Serra da Estrela - Vamos acordar o gigante adormecido!". Nos anos não, para espicaçar o governo, aparece a outra parangona: "O gigante adormecido está votado ao esquecimento!". Não está não - digo eu. Está a ser objecto de um programa de "desenvolvimento" coerente, que dura há já várias dezenas de anos, e que se desenrola a um ritmo cada vez mais acelerado. E *isso* é que deixa o Cântaro mesmo zangado.

Ai, ai, a bela vista da Torre...

O blogue amigo Cortes do Meio, chamou-me a atenção para esta notícia do Jornal de Notícias on line:

Região de Turismorecebe torres da Força Aérea

Luís Martins
O Governo oficializou, ontem, a entrega das torres dos antigos radares da Força Aérea, na Torre, para a tutela da Região de Turismo da Serra da Estrela (RTSE). A decisão é transitória, até à conclusão do processo de desafectação do domínio público militar do s dois imóveis, um dos quais está muito degradado. O outro serve de posto sazonal da GNR.
"Estou satisfeito por ter finalmente conquistado uma aspiração com algumas décadas", admitiu Jorge Patrão. O presidente da RTSE revela que o objectivo é integrar as duas torres, o edifício da antiga messe e algumas oficinas em ruínas na nova unidade hoteleira de quatro estrelas, com restaurante panorâmico para as pistas, que a Turistrela, concessionária do turismo na Estrela, pretende construir. Uma intervenção a realizar no âmbito do projecto global de valorização da estância de esqui.
Os radares poderão ser utilizados como posto de informação aos turistas ou "observatório panorâmico", sugere Jorge Patrão. "Como são os edifícios mais altos do país, proporcionariam uma visão geográfica excelente de mais de metade do território nacional", garante o empresário.
Recorde-se que a equipa responsável pelo Plano Estratégico de Turismo na Serra da Estrela (PETUR) já tinha sugerido uma remodelação da zona, que classificou como um local "desprezível e sujo".
(http://jn.sapo.pt/2006/05/10/centro/regiao_turismorecebe_torres_forca_ae.html)
Não posso estar mais de acordo com a opinião da equipa responsável pelo PETUR: aquilo é mesmo desprezível, aquilo é mesmo sujo. Onde talvez comecemos a discordar (não sei ao certo o que eles pensam) é que esses adjectivos não se limitam aos cinquenta metros em redor do Malhão da Torre, descrevem bem toda a zona da estância, descrevem bem a própria estância.
Passando para um registo mais irónico, concordo também com Jorge Patrão: do alto dos mamarrachos da Torre tem-se uma panorâmica fenomenal, vê-se mais de metade do território nacional. Pois bem, pensando nos que vêm para a Serra para admirarem ainda mais do que "mais de metade do território nacional", lanço aqui um desafio: porque não aumentar, ainda mais, a altura dos mamarrachos, na "recuperação" que se projecta? Nos vinte andares de baixo podíamos instalar quartos que dotariam o hotel de uma capacidade à altura da altitude local (2000 quartos, pelo menos!), ou um centro comercial para a venda de queijos da serra, forfaits e material de esqui e (porque não?) para alugar sacos de plástico. Como se trata de um "observatório panorâmico" (o que não hão-de inventar...) podiamos dar ao complexo o nome "Hotel dos Panorâmicos Mamarrachos".
Nesta notícia, mais uma vez, vemos Jorge Patrão a falar na qualidade de relações públicas da Turistrela: aqui está uma grande conquista nossa, pela qual lutámos durante algumas décadas, que vai permitir concretizar este nosso projecto, de restaurante sobre a estância, e tal, observatório panorâmico, e tal, um hotel de 4 estrelas, e tal, e tal. Este "vestir da camisola" acontece tão frequentemente, que se desculpa a confusão do jornalista, no final do penúltimo parágrafo, em que classifica Jorge Patrão, o presidente do organismo público Região de Turismo da Serra da Estrela, como "empresário"...

quarta-feira, maio 10, 2006

O "equilíbrio" visto do espaço

A imagem acima mostra a zona da Torre, vista de satélite. Obtive-a pelo Google Earth. Nota-se bem o impacto da estância de esqui no terreno. E isto é visto de longe. Caminhando por este terreno escaqueirado, podemos encontrar os plásticos dos "escuadores" (claro, já nem vale a pena falar disso), mas também restos de canalizações e de materiais de construção, fitinhas de plástico com que se delimitam as pistas nos dias de competições, e lixo vário deixado pelos esquiadores e pelos passageiros da telecadeira.

Estão na calha projectos que vão estender este estado de coisas a áreas muito maiores da Serra. Em particular, promete-se "desenvolver" nestes moldes a zona da barragem do Padre Alfredo e a do extremo oriental da Lagoa Comprida (locais que até agora têm estado a salvo desta tristeza urbanizante e artificializante), fazendo daí partir as telecabines que com que se pretende (é esse o verdadeiro objectivo, não nos iludamos) acabar com a eterna reclamação dos esquiadores: "quando há neve, as estradas estão cortadas, quando as estradas estão abertas, não há neve".
Note-se que, para se montarem os teleféricos, são necessários acessos para o transporte dos materiais; para que as pessoas cheguem aos teleféricos e os usem, são necessárias estradas asfaltadas e grandes parques de estacionamento. Ou seja, movimentações de terra, cicatrizes dos golpes de buldozer, artificialização dos sítios, degradação da sua beleza. A desolação ilustrada na fotografia acima é uma pequena amostra do que acontecerá no Covão do Ferro e na zona dos Charcos, perto da Lagoa Comprida. Ainda por cima, a Turistrela anunciou que num futuro não muito distante, pretende ampliar a estância de esqui desenhando pistas nestes mesmo locais.

Jorge Patrão, presidente da Região de Turismo da Serra da Estrela(1), tem a distinta lata de dizer que (a) "nenhum dos projectos é nocivo para o ambiente"; (b) que se trata de "projectos muito equilibrados"; (c) "Há diversos interessados em investir na serra e é importante que esses investimentos não esbarrem em impedimentos ambientais." (citações retiradas do Público de 31 de Março).
É evidente para qualquer um que as duas primeiras frases não são verdadeiras (não digo que Jorge Patrão esteja a mentir deliberadamente, pode simplesmente não saber do que está a falar). A última é estranha, vinda de quem vem: pois se ele acha que os projectos em causa não são prejudiciais, e são muito equilibrados, a que propósito é que haviam de esbarrar em impedimentos ambientais?!
É um truque clássico: Jorge Patrão acredita que, se ele e outras personalidades de monta afirmarem muitas vezes e em público que o rei está muito bem vestido, talvez o povo não repare que, afinal, o rei vai é nú. Evidentemente, flagrantemente, nú.
(E o mais revoltante, mesmo, é que se calhar o truque até resulta...)

(1) Dado o comportamento deste organismo (RTSE), quase poderíamos pensar que se trata de um departamento da Turistrela, encarregado das relações institucionais com o governo (especialmente na área da captação de fundos e apoios estatais) e das relações públicas. Infelizmente, o mesmo se pode dizer da Câmara Municipal da Covilhã, sempre que lida com questões relacionadas com a Serra, e de ainda outras entidades públicas, privadas e assim-assim.

segunda-feira, maio 08, 2006

Ponto da situação (Maio)

Covão Cimeiro

Aqui está mais uma edição do "Ponto da Situação". As novidades desde a edição de 10 de Março consistem na secção sobre a estância de esqui e uma nova secção chamada "Preocupações vagas".
Tinha prometido uma edição mensal, mas este artigo é uma seca, e por isso é melhor não martelar, com ele, as cabeças dos leitores do Cântaro. Pelo menos, é melhor não o fazer tão frequentemente, até porque elas (as cabeças dos leitores do Cântaro) não são assim tantas.... Ainda assim, hoje pareceu-me apropriado.

Para servir de referência mais próxima aos atentados que se preparam e se perpetram na Serra, pretendo passar a publicar este artigo de vez em quando, com os acrescentos e correcções que a situação e a minha percepção dela forem ditando. Pretendia inicialmente fazer aqui uma enumeração neutra dos projectos, mas nem sempre resisti a meter uma colherada de opiniões ou comentários.

Estradas  Teleféricos  Construções  Esqui  Preocupações vagas  Personalidades  Siglas

Estradas

  • Decorrem obras para a conculsão da estrada de asfalto entre a Portela do Arão e a Lagoa Comprida. Apesar de ser ter afirmado que se trata de uma estrada de terra que já existia (recordo-me de ter lido esta opinião, mas já não tenho as referências), nada consta nas cartas do instituto geográfico do exército (ou nas minhas memórias do local anteriores aos anos noventa).
  • Está decidida a asfaltação do caminho entre a Vila do Belo Horizonte e o Covão do Ferro. Este acesso de Unhais da Serra à Nave de Santo António foi iniciado há alguns anos, mas interrompido porque, segundo Lemos Santos afirmou no blogue Tráfego na Serra da Estrela, se revelou (já depois da obra bem avançada) incomportável a resolução de certos problemas técnicos e financeiros. Está-se a ver como a coisa foi bem planeada e os estudos de impacto ambiental e de viabilidade técnica e financeira bem realizados... Das palavras deste responsável no referido blogue, fiquei com a impressão (mas cada um que tire as suas conclusões depois de ler o blogue) de que a construção desta estrada tinha ficado combinada entre a Câmara da Covilhã e o grupo IMB, da Covilhã, responsável pela reabertura das Termas de Unhais. (Se, de facto, tenho razão, trata-se, como se vê, de mais um daqueles anseios das populações rurais...)
  • No ano de 2005, foi asfaltado mais um pedaço do acesso entre Manteigas e o Poço do Inferno. O acesso já estava todo asfaltado, mas levou-se a beneficiação mais longe, até ao sítio chamado Cova. Simultaneamente, foi também asfaltado um caminho estreito que desce de perto do Poço do Inferno, e que se dirige ainda não sei onde.
  • Foi arranjado com carradas de brita uma parte do acesso entre as Portas dos Hermínios e a Bouça. Foi também rasgado a tractor um novo acesso entre as Penhas da Saúde e a Malhada do Prior
  • Parece ganhar força a proposta da criação da Estrada Verde, entre a Guarda e o maciço central. Antes ainda do projecto estar terminado (projecto? Parece nem sequer estarem ainda definidas as linhas gerais do traçado!) uma primeira ofensiva foi anunciada aqui. Uma das coisas que me chama a atenção neste anúncio é que as palavras de José Manuel Biscaia parecem indicar que o que ele tinha em vista era uma nova estrada até à própria Torre!

Início

Teleféricos

  • Turistrela, RTSE, Câmara da Covilhã defendem, e submeteram para financiamento ao programa PITER, a construção de um teleférico para a Torre do lado da Covilhã. Inicialmente sugeria-se que este teleférico teria inicio nas Penhas da Saúde ou nos Piornos, locais já artificializados e relativamente degradados (o primeiro é um aldeamento, no segundo há já um parque de estacionamento), mas agora (ver o suplemento Local (Centro) do Público de 15 de Fevereiro) diz-se que só é viável a construção até à barragem do Padre Alfredo, o que irá obrigar à construção de um parque de estacionamento e acessos num local absolutamente idílico e com muito interesse para a prática de montanhismo e outras actividades mais relacionadas com turismos de natureza.
  • A Turistrela e a RTSE propõem a construção de um teleférico entre a Lagoa Comprida e a Torre. Espantoso é que como lhes parece que não há, próximo da estrada nacional, espaço suficiente para a construção de um parque de estacionamento com as dimensões que acham necessárias (ver o mesmo artigo do suplemente Local (Centro) do Público de 15 de Fevereiro), pretendem o início deste teleférico a partir do extremo oriental da Lagoa, um sítio igualmente belíssimo. Ainda por cima é local de passagem do trilho de Grande Rota T1. A construir-se este teleférico, o troço do trilho entre a lagoa comprida e a torre ficará "à sombra" dos postes e das cabines!
  • Outra proposta do mesmo "pacote" foi a da abertura de um teleférico entre Alvoco da Serra e a Torre. No artigo já citado do Público, informa-se que este empreendimento ficará a aguardar estudos técnicos mais detalhados.
  • Foi ainda sugerido pelo presidente da Câmara Municipal (ver "O Interior" de 28 de Abril de 2005 ou aqui) da Covilhã a construção de um teleférico entre Unhais da Serra e as Penhas da Saúde.

Início

Construções

A fonte para tudo o que aqui apresento é um suplemento para-publicitário do Jornal do Fundão de 29 de Abril de 2005. Tem havido várias outras referências na imprensa regional e nacional a alguns destes projectos
  • Torre
    • Estalagem da Torre: Aproveitamento da antiga messe dos oficiais da base de radares para um hotel de 4 estrelas com 21 quartos e uma suite
    • Esqui Hotel: Construir sobre o "bunker" de apoio ao esqui um hotel de 4 estrelas com 18 quartos e 2 suites, "em perfeita harmonia com a magnífica paisagem circundante"
    • Edifício de apoio à estância: A Turistrela pretende "requalificar" uma das torres de radar para funcionar como posto de venda de forfaits e de aluguer de material
  • Piornos (Perto do Centro de limpeza de neve)
    • Spa: No suplemento do JF que citei, apenas se refere que se pretende aproveitar "o espaço ocupado por um antigo edifício, que ao longo de mais de 20 anos tem sido uma mancha na paisagem pela degradação e abandono que apresenta (...)". O edifício em questão é a estação inferior do antigo teleférico Piornos - Torre, que foi construido mas nunca chegou a funcionar (como se vê, isto dos teleféricos é uma maluquice reincidente). Todas as outras estruturas (poste central e estação superior, na Torre) foram demolidas e removidadas. Porque é que esta "mancha na paisagem" não teve o mesmo destino? Quem se terá oposto?
    • Pavilhão multiusos Depreendo que os Piornos serão o sítio onde se projecta a implantação desta estrutura a partir da fotomontagem que ilustra o artigo, mas já pude ler que se pretendia antes localizá-la nas Penhas da Saúde. Deseja-se que este espaço tenha capacidade para três mil pessoas.
  • Penhas da Saúde
    • "Empreendimento casas e apartamentos": Pretende-se a construção de seiscentos apartamentos(!)
    • Centro comercial
    • Centro de estágios desportivos
    • Casino
  • Da Varanda dos Carqueijais às Portas dos Hermínios (Zona do antigo Sanatório dos Ferroviários)
    • Hotel de Charme: reconstrução do antigo sanatório
    • Restaurante
    • Conjunto turístico constituído por "24 moradias com rés-do-chão, primeiro andar e sótão e 15 de rés-do-chão", ocupando uma área de 97000m2, complementado por um circuito de manutenção [Permitam-me um àparte pessoal: trata-se da zona onde muitas pessoas (eu incluído) praticam jogging, partindo da estrada do Pião ou do circuito de manutenção da Covilhã, mais a baixo. Acreditem, não faz falta nenhuma um circuito de manutenção ali.], uma piscina (há outra, normalmente deserta ou quase, na estalagem da Varanda dos Carqueijais, do outro lado da estrada), campos de ténis e, ainda, um aparthotel. Mas não nos preocupemos, "De forma a integrar o empreendimento na paisagem e a salvaguardar a mancha verde envolvente, as infraestruturas, nomeadamente, os arruamentos, foram reduzidos ao mínimo (...)"
  • Sabugueiro
    • Aqui a Turistrela anuncia que quer construir, num terreno com vinte e um hectares, um aldeamento de montanha com 280 fogos. O que a Turistrela entende sobre qualidade urbana em espaços de montanha fica definido no primeiro parágrafo deste anúncio: "Com o título da "Aldeia mais alta de Portugal", o Sabugueiro é hoje uma aldeia modernizada e um grande centro turístico em permanente evolução."
Há ainda projectos de um aparthotel em Manteigas (Turistrela) e está-se a construir uma estância termal em Unhais da Serra (grupo IMB). Sobre estas construções nada tenho a dizer, desde que não invadam grandes extensões de espaço extra urbano. Por outro lado, como disse no tópico Estradas, suspeito que a revitalização das termas de Unhais avançou apenas depois de a Câmara se comprometer com a asfaltação do caminho Unhais - Covão do Ferro. Não serão dados apoios autárquicos semelhantes ao empreendimento do aparthotel de Manteigas?

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Estância de esqui

A breve prazo (um ou dois anos), prevê-se uma ampliação da estância na zona onde actualmente está situada, com pistas mais para poente (sobre esta ampliação pode ler aqui).
Mais a la longue, no já citado artigo no Público de 15 de Fevereiro, refere-se a possibilidade da ampliação da estância com a abertura de pistas perto da Lagoa Comprida e na vertente do Covão do Ferro (os locais que pretendem equipar com os teleféricos).

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Preocupações vagas

Num artigo a que me referi aqui e aqui, Jorge Patrão refere "melhoramentos" no Covão da Ametade, coisa que, vinda de quem vem, pode querer dizer um hotel, um aparthotel, uma piscina coberta, um centro comercial, um casino, uma urbanização, um teleférico, um campo de golfe e/ou outra(s) algarvice(s) do mesmo género. Enquanto não souber ao certo o que ele tem em mente, todos os receios são legítimos.
Ficamos a saber também que as zonas da Porta dos Hermínios, da Lagoa Comprida e do Vale do Rossim foram promovidos ao estatuto de "núcleos de recreio". Uma vez que as Penhas da Saúde gozam do mesmo estatuto, suspeito que isso significa que a RTSE quer que sejam objecto do mesmo tipo de urbanização em roda livre que se verifica actualmente nas Penhas.

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Algumas Personalidades

  • Carlos Pinto, presidente da Câmara Municipal da Covilhã
  • José Manuel Biscaia, presidente da Câmara Municipal de Manteigas
  • Eduardo Brito, presidente da Câmara Municipal de Seia
  • Jorge Patrão, presidente da Região de Turismo da Serra da Estrela
  • Artur Costa Pais, proprietário e administrador da Turistrela
  • Lemos dos Santos, Coordenador da Acção Integrada de Base Territorial da Serra da Estrela
(Esta lista encontra-se gravemente incompleta)

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Siglas

  • PNSE: Parque Natural da Serra da Estrela
  • RTSE: Região de Turismo da Serra da Estrela
  • AIBTSE: Acção Integrada de Base territorial da Serra da Estrela

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Refira-se que alguns dos projectos (ou todos?) aqui referidos foram submetidos para financiamento pelos programas PITER e/ou PENT.

sexta-feira, maio 05, 2006

Uma questão de opções

Vou aqui fazer uma sondagem. Bem sei que a amostra da população que escolhi não é representatitiva mas suspeito que o é mais do que a que certos responsáveis usam para avaliar "as legítimas expectativas de desenvolvimento das populações da Serra" (expressão de Carlos Pinto para justificar a rejeição das alterações ao plano director do PNSE), ou para sustentar teses como a de que Portugal é "um país que não caminha" (Lemos dos Santos, no blog Tráfego na Serra da Estrela).
E a questão desta semana para a nossa sondagem online é

"O que é para si mais importante: (a) a preservação e conservação do ambiente da serra ou (b) o desenvolvimento turístico tal como a Turistrela (com o apoio da RTSE e de algumas autarquias) o está a projectar?"
Bem sei que podia usar um destes sites de sondagens online mas acho que não vale a pena, isto é mesmo só uma brincadeira. Mas é uma brincadeira que nos leva a considerar a possibilidade de os projectos da Turistrela serem incompatíveis com a preservação do ambiente.

Sobre este assunto ainda, fiquei agradavelmente espantado com o número de vozes que se manifestaram favoráveis ao retorno de lobos à Serra. Pensava que essa possibilidade já tinha sido afastada do imaginário colectivo da nossa região. Será que podemos ver, nestas opiniões expressas no Cântaro, um sinal do verdadeiro interesse da população? Será que estes assuntos se podem tornar em bandeiras para campanhas eleitoriais?
Quando dizemos que gostávamos que os lobos voltassem à Serra, é bom que saibamos que essa possibilidade pode implicar medidas que talvez não sejam muito consensuais, como o encerramento de algumas estradas ao trânsito e a definição de áreas extensas onde nenhum, mas mesmo nenhum, projecto de desenvolvimento turístico, industrial, agrícola, etc, poderá ser autorizado. É até possível que um tal esforço obrigue à proibição da circulação de pessoas (piqueniqueiros, montanhistas, bttistas, fotógrafos, etc) em certas zonas da Serra. De uma coisa tenho a certeza: um esforço para a reintrodução de lobos na serra só será bem sucedido com uma inversão completa do rumo que o desenvovimento da serra tem tomado. Ao contrário do que diz Jorge Patrão, os projectos de urbanizações, de estradas, de teleféricos têm impactos enormes sobre o ambiente, como se pode facilmente constatar caminhando ao longo de qualquer estrada, notando o que não se nota quando se passa de carro: o lixo e os cadáveres dos animais atropelados. A protecção ambiental não é uma coisa confortável. Mesmo assim, quanto a mim, vale a pena. Cada um que tome as suas opções, ciente de que não vivemos num conto de fadas. Sejam quais forem as opções que colectivamente tomarmos, não há um final para a história, muito menos um final feliz em que tudo fica bem no melhor dos mundos, ao agrado dos gregos e dos troianos.

quarta-feira, maio 03, 2006

Mais cantigas

Eu não tenho jeito para a poesia, mas sei de quem o tenha. Esta é uma estrofe que se adapta cada vez mais como uma luva ao que as forças vivaças pretendem fazer com a Serra:
"They paved paradise
And put up a parking lot
With a pink hotel, a boutique
And a swinging hot spot
Don't it always seem to go
That you don't know what you've got
Till it's gone
They paved paradise
And put up a parking lot"
(de "Big Yellow Taxi", por Joni Mitchell, 1970)
Traduzido à pressão, diz o seguinte: "Asfaltaram o paraíso/ E puseram lá um parque de estacionamento/ Com um hotel cor de rosa, uma butique/ E um bar que está mesmo a dar/ Não é assim que as coisas são sempre/ Que não sabemos o que temos/ Até que o perdemos/ Asfaltaram o paraíso/ E puseram lá um parque de estacionamento". Esta canção andou na berra recentemente, adaptada por um grupo moderno de que não sei o nome.

Cantiga ao desafio

O site Lapa dos Dinheiros ~~~lapeiros.com~~~ é um site de divulgação da bela aldeia da Lapa dos Dinheiros, parece-me que produzido (como o Cântaro Zangado) à custa da carolice e do entusiasmo de um ou dois habitantes da terra. Tem informações sobre a aldeia e serve como "placard" de anúncios para os seus naturais espalhados pelo mundo.
Apresenta também, e por isso é que o trago aqui ao Cântaro Zangado, um poema sobre a Lapa (de autor anónimo), intitulado "Poema à Minha Terra". O interesse deste poema para o Cântaro reside na última estrofe, que apresento aqui:

E agora para terminar
Um pedido vou deixar
Ás entidades competentes
Liguem uma estrada ao Coxaril
Que os benefícios serão mil
Em favor das nossas gentes

O Coxaril é aquele sítio na estrada Seia-Torre, um pouco abaixo da Lagoa Comprida, onde chega um caminho vindo de São Romão, asfaltado há alguns anos. Note-se que está actualmente em curso o alargamento, rectificação e asfaltação de outro caminho naquela zona, entre a Portela do Arão (perto de Loriga) e a Lagoa Comprida. Para que quer o anónimo poeta ainda mais uma estrada nesta vertente?
Imagino que o que ele tem em mente é a hipotética possibilidade de a Lapa dos Dinheiros passar a servir de via para os turistas dos fins de semana da neve. Ou seja, parece não se tratar de "Venha repousar e admirar a beleza da zona da Lapa", mas antes de "Passe pela Lapa a caminho da Torre". Posto assim, parece evidente que uma tal estrada é um autêntico tiro no pé, não é?
Mesmo que não se vejam as coisa assim, note-se que a possibilidade da Lapa dos Dinheiros como passagem para a Torre é muito discutível. Vejamos, a Senhora do Desterro é uma pequena Aldeia no caminho entre São Romão e o Coxaril. Quais são os "mil benefícios" que dessa via resultam em favor das gentes da Senhora do Desterro? Quantos turistas é que usam aquela estrada? Que comércio e que instalações hoteleiras é que ela viabiliza? Suspeito que a resposta a todas estas perguntas é "nenhuns" ou "muito poucos".
Por outro lado, note-se que não foi a ausência de estrada para o Coxaril que impediu um ambicioso empreendimento hoteleiro, situado justamente na Lapa dos Dinheiros, que tem sido notícia nos orgãos de comunicação nacionais pela qualidade (refiro-me à Casa da Lapa Mourisca). Seria possível uma coisa assim na confusão desclassificada do Sabugueiro? Duvido.
Não, estas estradas na Serra não trazem progresso. Algumas trazem turistas, ou melhor, permitem a passagem de turistas a caminho da Torre. Todas elas, no entanto, impedem o desenvolvimento do turismo assente na natureza, na descoberta da beleza da nossa região e no sossego que ainda se pode gozar por aqui. O mais grave, para mim que não estou ligado à Serra por motivos económicos, é que estas estradas me roubam aquilo que mais me agrada na Serra: a solidão, o silêncio, o mistério, a beleza das paisagens e a natureza ainda em razoável estado de conservação.
Para alegrar este post, termino com uma estrofe dirigida aos habitantes da Lapa dos Dinheiros (e das outras aldeias, vilas e cidades da corda da Serra), à laia de cantiga ao desafio:

Por tudo isto, p'ra terminar,
Um apelo vou deixar
A todas, todas as gentes
Se não quereis vossas terras reduzir
Ao comércio rasca
E ao trânsito dos do espírito indigentes,
Não suspireis por mais asfalto,
Mas antes por mais florestas e mato!
(Não tem rima nem ritmo, paciência, a poesia não é comigo! Venha daí uma resposta em regra!)

Algarvear a Serra da Estrela? Não, obrigado!