sexta-feira, abril 28, 2006

Cross post

Não é bem um cross post, mas é quase. É que o blog amigo Montanha publicou um artigo com uma lista de bibliografia sobre a Serra da Estrela, do Instituto de Conservação da Natureza, que pode interessar também os leitores aqui do Cântaro. O site do ICN tem instrucções para a encomenda de publicações por email. Não comprem tudo, deixem alguma coisinha para mim!
Bom fim de semana e bom 1º de Maio!

quinta-feira, abril 27, 2006

A serra não é só neve

Perto da Casa do Guarda Florestal (agora dos escuteiros), no parque da floresta, Covilhã.

Apanhei-te!

Hoje de manhãzinha, dei um passeio no circuito de manutenção. Levei a máquina fotográfica. Apanhei o esquilo que a figura mostra!
Eu não sei, mas li em mais do que um sítio que os esquilos extinguiram-se provavelmente no nosso país no sec. XVI. Houve algumas tentativas de os reintroduzir, mas falharam. Mais recentemente, um amigo informou-me que a população de esquilos em Portugal estava a aumentar fortemente, a partir do norte. Outro amigo, que trabalha na reitoria, disse-me que era frequente encontrá-los lá pelas árvores de Santo António. Este ano foi a primeira vez que vi esquilos no nosso país (ver aqui), e agora, apenas dois meses depois, dei de caras, na mesma manhã, com três! Maravilha!
Não só são umas criaturas simpáticas, pode ser que ajudem à sobrevivência de predadores de maiores dimensões (raposas, doninhas, gatos bravos, etc.)

Outra boa e inesperada notícia foi a de que tinham aparecido lobos nos Pirinéus orientais (onde é que eu li sobre isto?), vindos aparentemente dos Alpes italianos. Estas novidades, que mostram uma natureza aparentemente com mais vitalidade do que pensávamos, deixam-nos felizes, claro. Mas também podem ser apenas as melhoras que às vezes se notam nos doentes terminais, mesmo nas vésperas da morte.

segunda-feira, abril 24, 2006

Obrigado à Câmara da Covilhã

Hoje de manhã, um grupo de funcionários da Câmara da Covilhã esteve a varrer o parque de estacionamento na zona da casa do guarda, onde está o circuito de manutenção. O parque estava muito sujo com restos que os piqueniqueiros e os pares de namorados lá deixam (guardanapos, garrafas, preservativos, papéis, copos de plástico, etc). Aqui fica o meu aplauso pela intervenção.

PS: Já agora, era bom que estas iniciativas se estendessem a outras zonas da Serra, por exemplo o início da estrada do Pião.
PPS: Piquenicar é bom e namorar, então, nem se fala. Mas é pouco romântico fazê-lo num sítio tão emporcalhado, não é? Bem sei que quando se deita o lixo fora do carro já "a/o gaja/o está no papo", por assim dizer, mas mesmo assim, bolas, metam os papéis e os preservativos na porcaria do caixote do lixo, que está lá para isso mesmo!

sábado, abril 22, 2006

Ele há trilhos e trilhos

A imagem acima mostra indicações para os trilhos pedestres que se cruzam na Portela de Folgosinhao. Estes trilhos são estradas florestais, onde se pode circular com veículos ligeiros, desde que se tenha algum cuidado, ou de jipe, mais à vontade. Mesmo assim, a ideia que temos destes caminhos ainda é a de que eles são trilhos pedonais, e é assim que eles são divulgados pela Junta de Freguesia do Folgosinho (Gouveia), mesmo se permitem a circulação de veículos motorizados. A manutenção desta sinalética (e também dos caminhos) é um esforço que me parece louvável e que acho se deve manter no futuro, nos moldes em que se tem feito até agora.

Em contrapartida, a imagem acima mostra sinalética rodoviária típica, no caminho de acesso de Manteigas para o Poço do Inferno, num entroncamento de duas estradas municipais asfaltadas. Estas estradas não dão acesso a localidades, o asfalto acaba no meio da Serra. O sinal que indica a Serra de Baixo, apresenta um símbolo que parece sugerir caminhadas a pé. O que é que ao certo se quer dizer? Que, alguns quilómetros mais à frente, se pode parar o carro e fazer uma caminhada? Que se pode parar o carro já e caminhar no asfalto? Sei lá! Acho é que toda a encosta do Poço do Inferno teria muito mais interesse para o pedestrianismo e para o turismo de natureza se não estivessem tantas das suas estradas asfaltadas.

sexta-feira, abril 21, 2006

Fantástico? Não me parece...

Passei os olhos pela capa de um exemplar da revista Prémio (não reparei qual era a data da publicação) que estava em cima do balcão numa agência da CGD. Constava nela uma chamada para um artigo sobre o novo casino de Lisboa, onde se dizia, entre outras coisas, que este casino "vai fazer de Lisboa a Las Vegas da Europa".

Este assunto não tem nada que ver com as preocupações habituais do Cântaro Zangado, a não ser por revelar o tipo de atitude que me incomoda nos anúncios dos investimentos planeados para a Serra. Não percebo como é que se pode desejar que uma cidade com mais de dois mil anos de história, com monumentos antiquíssimos, habitada sucessivamente por fenícios e celtiberos, romanos, godos, árabes e europeus modernos, com uma vida cultural e uma história riquíssima, uma cidade que, reza a lenda, foi fundada por Ulisses, não percebo, dizia, como é que se pode desejar que uma tal cidade se veja "promovida" ao estatuto de uma terriola com pouco mais do que 100 anos de história, capital do kitsch, que vive apenas de e para o dinheiro fácil, em que nada é genuíno, tudo é fancaria! Eu não morro de amores por Lisboa mas, caramba, não lhe desejo um tal desenvolvimento. Parece-me que esse deslumbramento com uma terra essencialmente artificial como é Las Vegas é sinal de provincianismo. Parolice!

Para mim, é a mesma atitude que se revela quando se anunciam estes melhoramentos e desenvolvimentos com que "vamos acordar o gigante adormecido". As urbanizações, os arruamentos, as luzes de néon, os teleféricos, o casino, as estradas, os centros comerciais, os bares e discotecas... É isso que procuramos quando vamos à Serra?

P.S.: Não pretendo com este artigo manifestar qualquer opinião sobre a decisão da abertura de um novo casino em Lisboa. Isso é assunto para outros blogs.

quinta-feira, abril 20, 2006

CISE

O Centro de Interpretação da Serra da Estrela (CISE), da Câmara Municipal de Seia é, quanto a mim, das melhores coisas que aconteceu na Serra nos últimos anos. Pelo menos, é um exemplo do que poderia (aliás, deveria) ser o comportamento de várias entidades com responsabilidades na conservação do ambiente ou na actividade turística.

O CISE é um departamentamento da Câmara Municipal de Seia, com um quadro de pessoal constituído por três (se não me engano, posso não estar actualizado) funcionários. O CISE realiza passeios pela Serra, disponibilizando na internet as suas descrições (veja aqui), incluindo o seu traçado em cartas topográficas. Todas as estações, faz publicar um Bloco de Notas, um caderninho com umas 20 páginas principalmente sobre a Serra, o seu ambiente e como o podemos gozar. Estes Blocos de Notas podem ser obtidos gratuitamente no site do CISE, mais especificamente, aqui.

O CISE organiza cursos de fotografia de natureza, de observação e identificação de aves, de estudo de répteis e anfíbios e ainda actividades, igualmente abertas à população, para observação da fauna (aves e répteis) ou da flora (cogumelos). No Outono de 2005, frequentei o curso de fotografia de natureza, e gostei muito. Se não melhorei como fotógrafo, isso deve-se apenas à minha falta de sensibilidade artística (e de pachorra para pensar nas fotos antes de disparar), porque o curso foi de elevada qualidade (excepto talvez no que se refere aos critérios de selecção, já que aceitaram a minha inscrição). O programa para os próximos meses está recheadinho de coisas interessantes para fazer.

Mas há mais. O CISE levou a cabo, no início do ano, uma actividade, também aberta à população, de sementeira de árvores de espécies autóctones, na zona de Alvoco da Serra, fortemente fustigada pelos incêndios dos últimos anos. Outro projecto do CISE é a criação de um parque florestal na zona da Senhora do Desterro (ver aqui), para o que conseguiu o apoio da EDP, proprietária dos terrenos onde ficará instalado.

Falo hoje do CISE, porque li n'"O Interior" a notícia de que estava a decorrer um concurso de fotografia de ambiente em Seia, organizado por quem? Claro, pelo CISE. É só mais uma, a juntar a já tantas!

Mais do que semear árvores, o CISE tem "semeado" cultura ambiental. Numa região servida (é este o verbo adequado, apesar do que dizem as forças vivaças) por uma magnífica zona protegida (devia-o ser, pelo menos), não é estranho que tão poucas outras instituições, públicas e privadas, pareçam sentir também a obrigação de participar nesta "sementeira"?

quarta-feira, abril 19, 2006

42% dos vertebrados em perigo

Hoje no Público li a notícia de que segundo um estudo levado a cabo por mais de 180 especialistas, 42% das espécies vertebradas em Portugal correm risco de extinção. As razões apontadas para este facto são "a destruição, a fragmentação ou a deterioração dos habitats. As redes viárias, a urbanização, os incêndios, as barragens no caso dos peixes e as transformações na agricultura". Vou repetir: "a destruição, a fragmentação ou a deterioração dos habitats. As redes viárias, a urbanização [...]".

Uma vez que é a "ordem natural" das coisas que as espécies se extingam, uma vez que não se pode hipotecar o futuro (seja lá o futuro o que for) em nome da lacerta monticola, só podemos estar no bom caminho, com todas as urbanizações projectadas pela Turistrela e defendidas pela Câmara da Covilhã e pela Região de Turismo da Serra da Estrela, mais todos os teleféricos, parques de estacionamento e ampliações da estância de esqui, bem como todas as estradas (umas ditas Verdes, outras com nomes menos charmosos mas igualmente indispensáveis e amigas do ambiente) que autarquias e Accção Integrada de Base Territorial da Serra da Estrela projectam e fazem construir.

A bem do Futuro!

[A foto que ilustra este artigo não está muito nítida porque foi tirada com o zoom digital da minha câmara. Não sei que ave é esta (agradeço esclarecimentos) nem sei se está em extinção.]

terça-feira, abril 18, 2006

É só a gozar, vejam lá...

Tenho ouvido e lido coisas verdadeiramente hilariantes.

Há alguns anos, por exemplo, houve alguém que tentou fazer vingar uma candidatura da Covilhã à organização dos jogos olímpicos de inverno. E tal, uns canhões de neve, e tal, condições soberbas para a prática de esqui, e tal, é altura de abraçarmos um desafio à altura de um país moderno, e tal, o desenvolvimento regional, e tal, e tal, e tal. Mas não era só paleio, este discurso foi tomado suficientemente a sério para lhe ter sido dado cobertura pelo Jornal do Fundão. Infelizmente já não disponho das referências, nem me lembro ao certo quando é que isto se passou.

Mais recentemente, um responsável por um importante departamento da administração do território na região da Serra da Estrela defendeu (publicamente!) a conclusão das estradas Portela do Arão - Lagoa Comprida e Unhais da Serra - Nave de Santo António como forma de regularizar o tráfego na Serra e diminuir a gravidade dos congestionamentos na zona da Torre nos dias de neve! A sério! (Perdoem-me os que não sabem de que estradas estou a falar, mas uma piada toda explicadinha perde a graça. Consultem um mapa da região.) Este mesmo responsável afirma que, como as estradas da serra têm muitas curvas, é necessária uma nova estrada entre a Guarda e o maciço central (suponho que sem curvas, talvez tipo IP ou autoestrada), a que se tem chamado... Estrada Verde! Não quero causar embaraços a ninguém e por isso não vou citar nomes mas, para mostrar que não estou a inventar nada, consulte-se o blog Tráfego na Serra da Estrela.

Agora vou eu dizer um disparate do mesmo calibre, assim toda a gente percebe que é a gozar e fica deste modo definitivamente registado como brincadeira.

Como a alimentação das ovelhas é determinante para a qualidade do queijo da serra, e como as ovelhas da serra comem plástico, devemos deixar-nos de pruridos arcaicos e concluir que é no plástico que está o segredo do queijo da serra! Aliás, uma alimentação do gado rica em sacos de plástico deve oficializar-se como critério para a certificação do verdadeiro Queijo da Serra da Estrela! Aqui temos o desenvolvimento efectivamente de mãos dadas com a tradição! (E o Cântaro Zangado a aprender uns truques com o discurso das forças vivaças...)

Não se trata só da lacerta monticola

O blog cortes do meio chamou-me a atenção para esta notícia:
SERRA DA ESTRELA NÃO É LIXEIRA
O apelo é do presidente da direcção da Associação de Produtores Florestais do Paul. António Covita está indignado "com a falta de civismo das pessoas que transformam a Serra da Estrela em lixeira". Não é a primeira vez que a Associação promove acções de limpeza na Serra e as situações encontradas são na opinião de António Covita vergonhosas. O presidente da direcção deixa como exemplo a morte dos animais que comem o lixo "já houve casos em tivemos que a abrir uma ovelha e descobrimos que tinha morrido porque comeu plástico". António Covita deixa um forte apelo ao civismo e respeito pela Serra da Estrela.

Ver http://www.rcb-radiocovadabeira.pt/Actualidade1.htm
Quando dizia que o ambiente não é só para as lagartixas de montanha, não era bem nas ovelhas que estava a pensar, era em nós. Mas enfim, quem violenta a serra das lagartixas e a serra dos montanhistas, porque não há-de violentar também a das ovelhas, a dos pastores, a dos agricultores, a dos produtores florestais, a dos apicultores...
As "forças vivaças" continuam a tentar vender o peixe (podre) de que serra, serra, toda a gente sabe o que é: neve, estância de esqui em permanente ampliação, urbanizações, estradas, teleféricos, hotéis, aparthotéis, spas, casino, centros comerciais, centros de estágio desportivo, "núcleos de recreio". Estes projectos, a efectivarem-se, vão contribuir imenso para reduzir a lixeira na Serra, está-se mesmo a ver, não está? Só não percebo é como é que ainda se tem a distinta lata de se fazer passar tudo isto como "legítimas expectativas de desenvolvimento das populações das freguesias rurais". Sou eu que não estou a ver bem a coisa, ou estou a vê-la bem demais?

segunda-feira, abril 17, 2006

O fio da navalha

O que vale é que, por enquanto, ninguém consegue urbanizar as nuvens, rasgar nelas estradas, abrir nelas hotéis ou pistas de esqui! Que belas são assim, selvagens, sem investimentos, sem desenvolvimentos, sem melhoramentos!

Infelizmente, não as podemos percorrer senão com os olhos, não as podemos explorar senão em sonhos, não nos podemos perder nelas senão em devaneios.

Entre o extremo de tudo urbanizar, tudo asfaltar, tudo ajardinar, por um lado, e o de nada poder fazer a não ser olhar e sonhar, por outro, não será possível uma meia medida?

A sério, a quem devemos agradecer?

Na sexta feira atravessei a Serra a caminho de Anadia. Vi diversos sacos de plástico preto cheios (com lixo, pude verificá-lo porque alguns estavam rasgados, permitindo vislumbrar o seu conteúdo) colocados ao longo da estrada na zona da Torre. Hoje voltei a passar por lá, já de regresso. Os sacos já lá não estavam. Ou seja, confirma-se a informação que recebi de um turista de que a zona da Torre estava a ser alvo de uma operação de limpeza. Eu quero aplaudir entusiasticamente e sem quaisquer reservas a iniciativa e agradecer aos responsáveis, sejam quem forem. Bem hajam!
Aproveito para dizer que, sendo um bom começo, não é suficiente. A zona da Torre continua cheia de lixo, que pode ser visto da estrada, sem sequer se parar o carro. Se o objectivo é limpar a zona da Torre, não podemos ficar satisfeitos com menos do que a limpeza da zona da Torre, não é?

quinta-feira, abril 13, 2006

A quem devemos agradecer?

Um turista contou-me que na quarta feira, dia 12 de Abril, apareceu na Torre um "batalhão de pessoal de limpeza", que esteve a recolher lixo disperso na zona. Ele não sabia se seriam funcionários de alguma câmara, da Turistrela, do Parque Natural ou de alguma outra organização. É pena, porque eu gostava de agradecer aos responsáveis por esta operação e de louvar aqui a sua iniciativa, sejam eles quem forem. Mesmo que sejam a Turistrela, a Câmara da Covilhã ou a Região de Turismo, mesmo que seja só uma jogada publicitária, mesmo que a limpeza seja só ali da zona da Torre, e se resuma a varrer o lixo para debaixo do tapete, como se costuma dizer. Até isso é melhor do que o nada a que nos habituámos.
Aproveito para pedir que varram também as margens da Lagoa do Covão do Quelhas, ali pertinho, que mostro na fotografia. Agora que o sol começa a aquecer, aqueles plásticos todos deitam um cheirete...

Já passou uma semana

Já passou uma semana desde que enviei a Jorge Patrão o desafio "Perguntar não ofende". Ainda não recebi qualquer resposta. Talvez seja melhor re-enviar, desta vez por fax. Evidentemente, Jorge Patrão não é obrigado a responder mas, dado o tom educado (não me compete a mim fazer esta avaliação, mas realmente é o que acho) da carta, acho que não lhe ficava nada mal... Talvez Jorge Patrão ache que o Cântaro anda é a tentar ganhar visibilidade à sua custa. Apesar de não corresponder à verdade, não o posso censurar por colocar essa hipótese, já que, na sua pele, eu era bem capaz de ter a mesma reacção. Mas vá, admitamos que, de facto, o que eu quero é publicidade. Mesmo assim, as perguntas que coloco merecem ficar sem resposta?

quarta-feira, abril 12, 2006

Quem é que não entende?

A propósito da fantástica operação publicitária envolvendo a gravação de episódios da Telenovela "Morangos com Açucar" na Serra, Artur Costa Pais, administrador da Turistrela, afirmou (ver aqui) que se tratou de uma campanha que custou algumas dezenas de milhares de euros. Disse ainda "Um dia as pessoas vão entender quem está a trabalhar para bem da região". Claro que Jorge Patrão (presidente da RTSE) reconhece neste investimento "a capacidade de iniciativa dos privados para criar mais valias para o cartaz turístico da Serra da Estrela".

Como já disse, parece-me que associar a Serra aos namoricos doentios (gente saudável e verdadeira não namora assim, caramba!) de uma pandilha de adolescentes sem a mais pequena réstia de interesse seja no que fôr, típicos do novo anúncio da PT (ou é da Vodafone?) "Purpurinas?! Vou já telefonar à Bé!", é um grandessíssimo tiro no pé. É como anunciar o Sheraton como espaço para festejos populares, sardinhadas e bailaricos de S. João, casamentos com orçamento de dez euros por pessoa, bancos corridos, toalhas de papel, copos de plástico e isso tudo. É giro? Eu até achava giro, mas os donos do Sheraton, ou os seus clientes tradicionais, duvido.

E não me espanta que gastem dezenas de milhares de euros em publicidade. Aliás, acho que terão que gastar muito mais, uma vez que, se lhes correrem bem as coisas, irão receber (ou outros por eles) milhões de euros em apoios públicos para estragar a Serra, urbanizando tudo o que puderem. Mesmo descontando o que se vai perder nas inevitáveis derrapagens financeiras, ainda há-de sobrar muito para mostrar obra e "capacidade de iniciativa dos privados", o suficiente, pelo menos, para satisfazer Jorge Patrão.

Por fim, devo dizer que fico esperançado com a frase "Um dia as pessoas vão entender quem está a trabalhar para bem da região". É que, ao remeter para "um dia" o reconhecimento de que parece entender ser credora, a Turistrela revela que sente que "as pessoas" não estão actualmente conscientes da suposta dívida que têm para com ela. Interessante... Haverá muitos mais Cântaros Zangados por aí? Adiante. Nota-se nesta frase, bem nitidamente, algo que já referi antes: este estatuto de concessionária exclusiva da Turistrela alimenta a confusão quanto aos seus objectivos. Em vez de aparecer aos olhos de todos como uma empresa que tenta maximizar os seus ganhos (objectivo perfeitamente legítimo), a Turistrela pretende passar por agência de desenvolvimento regional. Ai, ai, coitadinhos de nós, que tanto fazemos em prol da região, tudo para o bem de todos, tantos e tão difíceis sacrifícios, e ninguém nos compreende! Pobres de nós!
Haja decência!

Hoje o Cântaro não está zangado

A Terras de Aventura é uma empresa da Guarda, dedicada principalmente à organização de eventos desportivos alternativos, "em comunhão com a natureza e o meio ambiente", como dizem na página de apresentação do seu site de internet (www.terrasdeaventura.net). Esta empresa tem participado na organização da Transestrela, uma maratona de montanha, com a extensão de uma maratona normal, mas com uma variação de altitude de mais de mil metros, com um percurso traçado por picadas e trilhos da Serra. A Terras de Aventura colabora ainda na organização de diversas outras provas, integradas no circuito nacional de montanha (12km Manteigas - Penhas Douradas) e/ou no Troféu de Aventura e Natureza (Rampa do Alva, Subida do Vale de Sameiro) que incluem ainda diversas outras provas em todo o país. Estas provas, sendo de caráter desportivo, estão abertas a todos e, em simultâneo com elas, os promotores organizam um passeio não competitivo, dirigido a não desportistas ou a famílias com "avós e netos".
No fim da descrição de cada uma das suas actividades na Serra, a Terras de Aventura pede respeito e responsabilidade aos participantes, nos seguintes termos (este é para a subida do Sameiro):

A 8ª SUBIDA DO VALE DE SAMEIRO DESENROLA-SE NUM CENÁRIO DE EXCEPCIONAL BELEZA NATURAL (PARQUE NATURAL DA SERRA DA ESTRELA), PELO QUE SERÁ OBRIGAÇÃO DE TODOS PRESERVAR O MEIO AMBIENTE EVITANDO ABANDONAR DESPERDÍCIOS FORA DAS ÁREAS DE CONTROLO. DO NOSSO COMPORTAMENTO (ORGANIZAÇÃO E PARTICIPANTES) DEPENDERÁ O FUTURO DA PROVA.
[Ah, como gostava de ver semelhantes apelos ao respeito e à responsabilidade a propósito da rampa automóvel, a propósito da utilização da estância de esqui, a propósito das rave parties, a propóstito dos raids TT, a propósito da passagem da Volta a Portugal em Bicicleta...]

Parece-me que este tipo de eventos faz mais (ou poderia fazer, com uma cobertura noticiosa que reflectisse o interesse que têm) pela imagem da Serra do que todas as rampas automobilísticas, todas as tretas fashion, todas as telenovelas juntas. Porque neles (e não nos que acabei de enumerar) se respira um verdadeiro gosto pela montanha e o seu ambiente. Porque estes eventos mostram a serra como palco de actividades de montanha, actividades que obrigam os participantes a excederem-se, erguendo-se do estado normal de comodismo, inactividade e distracção até níveis de performance e atenção indispensáveis para uma verdadeira fruição da zona. Para tirar partido destes eventos, temos que nos adaptar física e psicologicamente à montanha; para que esqui, raves, fashions e rampas tenham sucesso, é a montanha que tem que ser adaptada. Estes eventos mostram serra como ela realmente (ainda) é: alimento de sonhos.

[Devo dizer, num registo mais prático, mais audível para os ouvidos dos senhores que organizam o "desenvolvimento" da Serra, que os sonhos são, de longe, a melhor publicidade para uma montanha. Tanto que assim é, que todos os anos centenas de turistas internacionais de classe alta, com pouca ou nenhuma experiência de montanhismo, pagam fortunas para serem guiados ao topo do Everest (por vezes são praticamente levados ao colo pelos guias sherpas que ainda têm que carregar as pesadas garrafas de oxigénio de que estes turistas necessitam a partir dos seis mil metros). Estes turistas podiam fazer a festa com metade do dinheiro, metade do risco e metade do tempo de espera se tentassem a subida de outra montanha qualquer na região. Mas as outras montanhas não os fazem sonhar, as outras não são o "tecto do mundo"... Não pretendo que se tente imitar a coisa aqui, só estou a mostrar como o sonho pode servir para promover um produto turístico.]

Hesitei bastante sobre a publicação deste artigo, porque pensei que ele poderia alimentar especulações sobre ligações do Cântaro a empresas privadas, nomeadamente à Terras de Aventura. Bem, essas ligações não existem, nem sequer a nível pessoal. Não conheço nenhum sócio ou empregado desta empresa (ou melhor dito, não vá o diabo tecê-las: não conheço pessoalmente, como tal, nenhum sócio ou empregado da Terras de Aventura). Além disso, eu quero estar à vontade para mostrar no Cântaro também aquilo que é bem feito na Serra (não há só as tristezas de que tenho falado). Quero estar à vontade até para aplaudir a Turistrela, quando for a Turistrela a merecer o meu aplauso (coisa que eu gostava que acontecesse muito em breve)!

sábado, abril 08, 2006

Os espanhóis não percebem pevas

Pelo Ondas chegou-me a notícia de que "Espanha criou 162 novas áreas protegidas entre 2004 e 2005," tendo agora cerca de 10% do seu território classificado como zona protegida.
Coitados, percebe-se que estão a anos luz de nós, muito atrasados no que toca a proteger "legítimas expectativas de desenvolvimento" ou a impedir os despovoamentos que, segundo se diz por cá, resultam de se proteger o ambiente... Ay, pobrecitos...
Ah, só mais uma coisa: as zonas protegidas espanholas são visitadas anualmente por cinquenta milhões (50 000 000) de pessoas. Imagino que lá, como cá, a aposta seja no "turismo residencial e urbano", como o que a Câmara da Covilhã diz que quer implementar na Serra... Ou talvez tenham nos parques naturais deles o atractivo das extracções de areia e cimenteiras da Arrábida, tão interessantes e fotogénicas...

Que imagem damos da Serra?

Apresento a seguir uma lista de eventos que ocorreram na Serra da Estrela nos últimos 12 meses
  • XV Encontro de escaladores - Verão 2005
  • Rave party no sanatório - Julho? Setembro? 2006
  • Rampa automobilística da serra da Estrela (2005)
  • TransEstrela (maratona atlética Manteigas - Torre - Manteigas) - Agosto 2005
  • Subida do Sameiro (10 km atletismo de montanha) - Novembro 2005
  • Rampa do Alva (10km atletismo de montanha) - Março 2006
  • Rampa da Covilhã (cerca de 7km atletismo estrada) - Fevereiro
  • Nevestrela 2006 - Fevereiro 2006
  • Snow Fashion 2006 - Março 2006
  • Gravação de episódios do concurso "1ª Companhia - Dezembro 2005
  • Gravação de episódios da telenovela "Morangos com Açúcar" - Abril 2006
Tenho a certeza de que esta lista está gravemente incompleta e, como se vê, de muitos dos acontecimentos que apresento já nem sei as datas, sequer. O que pretendo com esta listagem é que pensemos quais foram os eventos desta lista que tiveram melhor ou maior cobertura nos meios de comunicação. Quais é que foram acompanhados de discursos ou simples declarações de personalidades públicas da região? Quais é que foram, de facto, eventos? Pensemos nisso, e, em função da resposta, pensemos também que imagem da Serra da Estrela estamos a transmitir, que tipo de turistas estamos a atrair e que outros estamos a repelir, que espécies de turismo estamos a promover e quais estamos a prejudicar. Pensemos nestas coisas da próxima vez que ouvirmos algum representante das forças vivaças dizer que a neve é a âncora do turismo na Serra (Jorge Patrão, Diário XXI, 30 de Novembro de 2005), ou que Portugal é "um país que não anda" (Lemos dos Santos, coordenador da Acção Integrada de Base Territorial da Serra da Estrela, ver blog Tráfego na Serra da Estrela).
Há turismo de natureza em Portugal. Basta dar um salto ao Gerês no Verão para o ver. De facto, há pouco desse turismo cá pela nossa serra. Parece-me que em grande parte isso se deve à imagem da Serra que temos querido divulgar. E o que é que eu tenho que ver com isso? É que quanto menos se apostar em turismo de natureza, mais parece que só é viável o turismo "rodoviário", o turismo residencial, o turismo urbano, que estão a rebentar com a Serra que me habituei desde pequenino a apreciar.
(Nota: infelizmente para a imagem da Serra, a paisagem que ilustra este post ardeu no Verão passado. Esta mata já não existe.)

sexta-feira, abril 07, 2006

Para que conste

Quando os autarcas falam no "interesse das populações", nas "legítimas espectativas de desenvolvimento", eles lá saberão do que falam, lá terão os seus meios para a auscultação da opinião dos munícipes. Eu não sei que meios são esses, porque nunca ninguém me auscultou a mim, nunca fui sondado e, apesar de também ser parte população, aquilo que invariavelmente é apresentado como o seu interesse não tem o menor ponto de contacto com o que me interessa a mim. Para ajudar os autarcas a perceberem melhor o interesse desta parte da população que é a minha pessoa (mas suspeito que não estou isolado, é que eu também tenho os meus meios auscultatórios, por assim dizer) apresento

As minhas legítimas expectativas de desenvolvimento para a Serra da Estrela

  • Diminuição da pressão urbanística e rodoviária sobre a Serra
  • Limpeza imediata da zona da Torre
  • Implementação de uma rotina que mantenha essa zona limpa
  • Divulgação na internet do traçado dos trilhos pedestres de grande rota, de circuitos de BTT e dos sectores de escalada
  • Retoma do esforço de sinalização dos trilhos iniciado pelo PNSE, definindo e classificando trilhos de pequena rota, que são utilizados mas não estão documentados
  • Disponibilização de mapas topográficos da Serra em formato electrónico, de utilização livre, para planeamento e divulgação de actividades
  • Intensificação do esforço de reflorestação
  • Activação ou reactivação de projectos de reintrodução de espécies extintas, em particular o lobo e a cabra montês
  • Definição de uma estratégia clara e intransigente de defesa do ambiente e da paisagem serrana.

quinta-feira, abril 06, 2006

Perguntar não ofende!

Imitando à minha maneira uma iniciativa do Ricardo, leitor do Cântaro Zangado, enviei a seguinte mensagem a Jorge Patrão, presidente da Região de Turismo da Serra da Estrela (RTSE). A ver o que dá...

Ao cuidado do presidente, Exmo Sr. Jorge Patrão

Exmo. Sr.
Chamo-me José Amoreira, moro na Covilhã, sou há muitos anos praticante mais ou menos regular de actividades de montanha, incluindo esqui e montanhismo (escalada, caminhadas, corrida de montanha, BTT). Na medida em que a minha vivência da Serra é uma de lazer, penso que não estará muito errado considerar-me um turista e é nessa qualidade que me dirijo a si. Escrevo-lhe a propósito de declarações suas que foram noticiadas em artigos recentes nos jornais Diário XXI (29 de Março) e Público (31 de Março). Gostaria de colocar-lhe algumas questões para tentar perceber melhor que tipo de desenvolvimento turístico tem em mente para a Serra da Estrela. Passo ao assunto.

1. Quando diz que "Para a RTSE não há preservação do ambiente enquanto houver ruínas na Serra", não considera que uma boa maneira de resolver o problema a que se refere é a remoção dessas ruínas? Considera aproveitáveis as torres dos radares? Dada a experiência que temos tido com a Turistrela no que respeita à harmonia arquitectónica ou paisagística (estou a lembrar-me do "bunker" para a venda de forfaits na estância de esqui ou do atravancado bairro dos chalés nas Penhas da Saúde), deposita grandes esperanças na qualidade de uma requalificação (perdoe-me a ironia do pleonasmo) que esta empresa eventualmente venha a levar a cabo nos edifícios da Torre?

2. Numa perspectiva do desenvolvimento do turismo na Serra, o que considera mais importante na requalificação do espaço da Torre, a recuperação desses edifícios a que chama ruínas ou a remoção do lixo que por lá está espalhado, num raio de várias centenas de metros em redor e mais ainda, nalgumas direcções? Que comentários tem a fazer sobre o aspecto de estaleiro que as pistas de esqui apresentam quando não há neve, com o solo revolvido, canalizações semienterradas, restos de materiais de construção por todo o lado? Como avalia o desempenho do actual procedimento para a limpeza da zona da Torre? A quem entende que deve caber a responsabilidade de organizar um sistema eficaz? Ou, pelo contrário, considera que o problema do lixo é uma questão menor, sem grandes implicações ao nível da requalificação do espaço da Torre?

3. Refere as telecabines, argumentando que elas aliviarão o trânsito. Decerto terão sido feitos estudos que apoiam o seu argumento. Esses estudos estão disponíveis para consulta pública? Em quanto, ao certo, espera ver o tráfego diminuido com este investimento? Caso a entrada em funcionamento das telecabines não venha a resolver o problema dos congestionamentos, que respostas perspectiva? Como vê a possibilidade de se condicionar ou se proibir o trânsito pela estrada da Torre, obrigando à utilização das telecabines? E, mais a curto prazo, como vê a da substituição do tráfego de ligeiros por transportes rodoviários colectivos?

4. Ainda sobre as telecabines, no suplemento Local (Centro) do Público de 15 de Fevereiro deste ano, foi publicada uma notícia na qual uma técnica da Turistrela indicava que o ponto de partida da telecabine Lagoa Comprida - Torre ficaria instalado "nas traseiras da lagoa", ou seja, no seu extremo oriental, alegadamente por não haver, do lado da frente (perto da estrada nacional), espaço para um parque de estacionamento com as dimensões consideradas necessárias. A mesma notícia informa que que "no que toca à ligação Torre - Penhas da Saúde, por enquanto é dado apenas como viável o percurso até à Barragem do Padre Alfredo". Tendo em conta (a) que os locais apontados têm estado até agora relativamente a salvo de ruídos e lixos, sendo até considerados, pelo menos no caso do extremo oriental da Lagoa Comprida, locais de grande importância para a biodiversidade e (b) que estas estações de saída das telecabines vão necessitar de acessos asfaltados e grandes parques de estacionamento, gostava que apresentasse as razões que o levam a afirmar que "nenhum dos empreendimentos é nocivo para o ambiente". É que, sem dispôr de esclarecimentos adicionais, estou convencido de que este projecto das telecabines é extremamente prejudicial para o ambiente e para a paisagem, pelo menos nos moldes em que actualmente está colocado.

5. Ainda mais sobre as telecabines: saberá, com certeza, que o trilho de grande rota T1 (o mais longo da Serra) passa perto do extremo oriental da Lagoa Comprida a caminho da Torre. Imagino que o seu traçado siga paralelamente ao da projectada telecabine, e que até se intersectem os dois trajectos nalguns pontos. Por outro lado, o Covão do Ferro, na zona da barragem, é um sítio muito calmo e bonito, apreciado por caminheiros e escaladores. Uma vez que os turistas como eu, que procuram uma comunhão o mais profunda possível com uma paisagem tão intocada quanto possível, não apreciam o cheiro, o ruído e a visão das telecabines, gostava que tecesse alguns comentários justificativos desta opção, em que a RTSE e a Turistrela parecem estar a apostar num tipo particular de turismo em detrimento de outros.

6. Afirma também que todos os projectos são equilibrados. O equilíbrio é uma expressão com que se costuma caracterizar situações em que tendências antagónicas se compensam. Nestes termos, não posso concordar consigo. Como vejo as coisas, num prato da balança temos várias urbanizações, mais estradas, telecabines, parques de estacionamento, hoteis, apartoteis, apartamentos, casino, spas, centros comerciais, ampliação da estância de esqui. No outro prato da balança, um mais voltado para os turistas como eu e para uma verdadeira protecção ambiental, temos o quê? O que é que temos tido ao longo de todos estes anos?

7. Por fim, fez o senhor uma declaração que, com certeza, não compreendi bem, que é a seguinte: "há diversos interessados em investir na Serra da Estrela e é importante que os projectos não esbarrem em impedimentos ambientais." Se, numa zona protegida pela declaração de Parque Natural, pela integração em Rede Natura 2000 e pela declaração de Reserva Biogenética da Comissão Europeia, projectos considerados nocivos para o ambiente por quem tem a função de fazer essa avaliação não devem esbarrar nos impedimentos previstos nos regulamentos inerentes àqueles estatutos de protecção, que sentido faz falar de protecção do ambiente?

Para terminar, quero dizer que sou o autor d'O Cântaro Zangado (ocantarozangado.blogspot.com), um blogue dedicado à defesa de maneiras de viver a serra que me parecem incompatíveis com os projectos que a Turistrela tem promovido com o apoio da RTSE. Está desde já convidado a visitar o blogue e também a contribuir com os seus comentários ao que lá vou escrevendo. Suponho que estaremos, quase sempre, em oposição, mas paciência. Mantido num nível educado, o debate costuma ser fonte de esclarecimento, o que, quanto a mim, é uma coisa boa.
Esta mensagem foi publicada no blogue e a sua resposta sê-lo-á também, integralmente e sem quaisquer modificações, num artigo exclusivamente a ela dedicado. Reservo-me o direito de a comentar como entender noutros artigos, relativamente aos quais ser-lhe-á dado, claro está, direito de resposta.
Compreendo que esta mensagem possa ser considerada uma provocação. Mas pode tomá-la antes como o que ela, de facto, pretende ser: um desafio. Imagino que acredita sinceramente que as suas opiniões são as que melhor servem a Serra, o seu ambiente e o desenvolvimento da nossa região. Aqui tem uma oportunidade de defender os seus pontos de vista junto dos leitores d'O Cântaro, maioritariamente relutantes em concordar consigo.
Os meus cumprimentos.
José Amoreira

E uma coisa destas na Serra?

O Carros de Foc é um circuito pedestre nos Pirinéus com uma extensão de 60km e um desnível acumulado de 9.200m, servido por nove abrigos de montanha. Em 1987 um grupo de guardas da zona decidiram tentar fazer o trajecto todo num dia. E conseguiram. Hoje em dia, este circuito é um produto turístico de grande sucesso. Os "fregueses" (quase todos praticantes de montanhismo) tentam a proeza de completar o Carros de Foc num dia, ou então fazem a coisa com mais calma, dispondo de toda uma estação para merecerem a classificação de finalistas. A organização fornece aos participantes um forfait que deve ser carimbado por cada um dos nove abrigos. As reservas para a pernoita nos abrigos podem ser feitas numa central e, nos meses de Verão, tem que ser acertada com muita antecedência, por falta de capacidade nos abrigos. A organização regista os melhores tempos de cada participante. Esta actividade não tem datas marcada, cada um começa e acaba quando muito bem entende. Não é propriamente uma corrida, mas não custa nada acreditar que haja algumas competições particulares, fruto e fonte de rivalidades mais ou menos bem dispostas. No Verão pode fazer-se o Carros de Foc (a pé) ou o Pedals de Foc (em BTT); para o Inverno, têm o Carros de Foc Hivern, para esquiadores de randoné, mas nesta estação incluem guias profissionais, por causa dos perigos objectivos (avalanches, tempestades, congelamentos, etc).

Eu bem sei que a Serra não é os Pirinéus. Mas parece-me que uma coisa deste género podia ser tentada na Serra. Começando com pensões em aldeias da Serra, parques de campismo e abrigos do PNSE, podia definir-se um circuito em torno da Serra. Os que quisessem ser reconhecidos como caminheiros "circum-estrela" teriam que reunir no seu forfait as carimbadelas dos diferentes locais de pernoita e passagem. Suponho que ninguém faria batota, uma vez que não haveria lugar a prémio nenhum, excepto a satisfação de completar o circuito. Mais simples ainda que isto, podia-se inventar um "passaporte" dos trilhos de grande rota (um pouco como os passaportes do Caminho de Santiago), onde cada montanhista assinalaria os trilhos que já tinha percorrido. A Turistrela, ou o PNSE, ou sei lá eu quem, entregaria uma prendinha simbólica a quem completasse o seu passaporte.

Para que uma destas coisas chegue a funcionar de modos que se justifique o (pequeno) esforço de a pôr em marcha, claro que era bom que a Serra ganhasse visibilidade como lugar com um ambiente único e preservado, e ajudava que os seus operadores (nomeadamente a Turistrela) diversificassem o produto que oferecem e ganhassem fama de sofistificação, de qualidade de serviço. Parece-me que estão ainda longe de poderem orgulhar-se da imagem que apresentam, e assim continuarão enquanto se congratularem com a gravação de episódios do concurso "1ª Companhia" e da série "Morangos com Açúcar" na neve, com a organização de rave parties no edifício do sanatório ou de passagens de modelos na estância de esqui. Estes eventos transmitem uma péssima imagem, associando a Serra ao mau gosto, à pirosice e a divertimentos urbanos. Constituem uma distracção, que talvez fosse justificável se a mensagem principal, divulgando o ambiente e a paisagem, se fizesse ouvir, mas que se torna insuportável na sua ausência. Quanto à diversificação do produto que oferecem, há infelizmente tão pouco a dizer...

segunda-feira, abril 03, 2006

Ich bin ein Lacerta Monticola!

Em 1963, num discurso em Berlin Ocidental, John F. Kennedy exclamou, para mostrar aos habitantes que o ocidente não deixaria de os apoiar face aquilo que era interpretado como a ameaça soviética (pouco importa aqui se, de facto, o era ou não), "Ich bin ein Berliner!", ou seja, "Eu sou um berlinense!" O que ele queria dizer é que, na guerra que então se travava (que se chamou Guerra Fria apenas porque não "aqueceu" tanto quanto se receava, pelo menos na Europa), o que se disputava não era a posse de uma cidade particular, mesmo tão importante como Berlim. Na perspectiva do então presidente americano, o que estava em jogo eram as liberdades individuais que, segundo ele, caracterizavam as democracias ocidentais e eram cerceadas pelos comunistas. Assim, achava que todos os "homens livres" deviam participar na disputa, todos deviam acorrer à defesa de Berlim como se fossem berlinenses, apesar desta luta particular ser apenas (mais) uma batalha daquela guerra.

Lembrei-me disto porque muitas vezes, quando se discutem as vantagens e desvantagens de determinados empreendimentos na Serra da Estrela, ouvem-se, dos defensores do "desenvolvimento", argumentos como "Não se pode hipotecar o futuro em nome do bem estar da lacerta monticola", numa referência à lagartixa de montanha, uma espécie protegida que habita o planalto central e que não pode ser encontrada em mais nenhum lugar do país.

Bem, o Cântaro acha, em primeiro lugar, que certos futuros devem ser contrariados, seja em que nome for, ou mesmo até em nome nenhum.
Mas o ponto deste artigo é outro. É que a lagartixa de montanha e outras espécies, de fauna e de flora, são a Berlim desta guerra. O Cântaro está Zangado, não apenas por causa dos incómodos que o desenvolvimento causa às lagartixas, mas principalmente porque o que incomoda as lagartixas também o incomoda a ele. Quero proteger o ambiente, não pelas as lagartixas apenas (que não passam de aliadas acidentais), mas principalmente por mim e pelos meus filhos.
O que está em jogo nesta minha "guerra" é o direito de cada ser humano ao usufruto da natureza, o direito a uma paisagem sem "melhoramentos", o direito a sentir o vento na cara sem vestígios de cheiro a gasóleo, o direito de cada um a poder perder-se na Serra e, exactamente por causa disso, a querer lá voltar. Por isso digo, adaptando a tirada de Kennedy, que tenho orgulho nas palavras "Ich bin ein Lacerta Monticola!"

Algarvear a Serra da Estrela? Não, obrigado!

sábado, abril 01, 2006

Dia 1 de Abril!

O parque Natural da Serra da Estrela (PNSE), a Turistrela e as autarquias dos concelhos da Guarda, de Gouveia, de Seia, da Covilhã e de Manteigas, em reunião conjunta que decorreu ontem, dia 31 de Março nas intalações da Câmara Municipal de Manteigas, estabeleceram um protocolo para a limpeza e recolha continuada de lixos da área do parque. Foi também acordado o inicio, já no próximo outono, de um ambicioso programa de reflorestação com espécies autóctones (carvalho negral, castanheiro, freixo, tramazeira...), para o qual iriam apresentar um conjunto de pedidos de finaciamento em diversos programas nacionais e europeus, prevendo também poder contar com o apoio de várias empresas privadas de todo o país. Outro tema em discussão, mas ainda sem conclusões definitivas, foi o de definir métodos e meios para o apoio à produção e distribuição dos produtos genuinamente regionais. Segundo José Manuel Biscaia, o presidente da Câmara de Manteigas, "todos estamos de acordo que alguma coisa tem ser feita, falta agora acertar os pormenores". "O futuro da Serra da Estrela como destino turístico de qualidade, a protecção ambiental e os legítimos interesses das populações, não só não são incompatíveis, como podem ser, e serão!, três aspectos de uma mesma realidade!", afirmou, visivelmente satisfeito, Carlos Pinto, presidente da Câmara Municipal da Covilhã, à saída da reunião.

Com vista ao desenvolvimento das potencialidades da Serra da Estrela no segmento do turismo ambiental, do montanhismo e do pedestrianismo, a Turistrela e a Região de Turismo da Serra da Estrela (RTSE) iniciaram contactos com o PNSE e diversas associações desportivas locais, no sentido de se fazer um levantamento dos trilhos pedestres e das vias de escalada existentes nesta região montanhosa. Pretende-se a renovação da sinalização dos trilhos em moldes racionais (remover excessos de tinta e marcações com fitas de plástico) e o reequipamento das vias de escalada onde tal se considere necessário, tarefa para a qual a comunidade montanheira da região já se mostrou entusiasticamente disponível. "Queremos, já no decorrer deste ano, a publicação de um guia completo dos trilhos e dos sectores de escalada da Serra", afirmou Artur Costa Pais, o administrador da Turistrela, tendo ainda adiantado, sorrindo, que "também eu me deixei infectar pelo bichinho da Serra".

A região parece estar efectivamente a acordar para a exploração sustentável da beleza natural de que dispõe. Recordemos que ainda na semana passada Carlos Pinto inaugurava na Covilhã o novo Centro de Interpretação da Serra da Estrela da Covilhã (CISEC). Nessa ocasião, que contou com a presença de representantes dos ministérios da economia e do ambiente, Jorge Patrão, presidente da RTSE, congratulou-se porque, segundo disse, "Finalmente estamos a acordar o gigante adormecido!"

(O plausível, edição de 1 de Abril de 2006)

Bater no ceguinho

Muitas vozes, particulares e institucionais, se erguem para atacar o Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE) e a sua actuação. Hoje, também quero!
Mas as reclamações que quero apresentar são de ordem diferente. É que não me parece correcto criticar um organismo por não cumprir funções que não são as que lhe foram atribuídas. Quero com isto dizer, por exemplo, que uma vez que o Serviço Nacional de Saúde foi constituído para defender a saúde pública, não posso questioná-lo por nada fazer pela manutenção das pontes e viadutos rodoviários, e compreendo (agrada-me, até) que os médicos e outros funcionários se preocupem, mais do que o habitual noutros segmentos da população, com a prevenção das doenças. Do mesmo modo, uma vez que a polícia foi criada para garantir a segurança pública, não lhes posso levar a mal o facto de não resolverem o problema do insucesso no ensino da matemática; além disto, espero que os agentes estejam fortemente empenhados na luta contra o crime, porque isso lhes dá maior produtividade no desempenho da sua função.

Vamos ao que interessa. Uma vez que o PNSE foi criado para defender a biodiversidade e a paisagem da Serra, espero que os seus funcionários tenham especial atenção com a defesa do meio ambiente, mesmo que essa atenção nos pareça excessiva. Ao fim e ao cabo, é para isso mesmo que lhes pagamos. Além disto,

  • não posso acusar o PNSE de "nunca ter feito nada pela vila" de Unhais da Serra, como declarou António João Rodrigues, o presidente da junta de freguesia desta localidade (ver referência no jornal Notícias da Covilhã, penso que da semana de 6 a 12 de Março de 2006), porque o parque não foi, convenhamos, criado especificamente para tal;
  • tão pouco faz sentido criticá-lo com os argumentos de que a "proposta de revisão proposta pelo PNSE inviabiliza intenções de investimento turístico na Torre, Piornos, Penhas da Saúde e Varanda dos Carqueijais", "cria dificuldades para a execução do protocolo celebrado entre o Governo e a Turistrela e entra em flagrante contradição com a atribuição da classificação de Zona Turística Prioritária à região da Serra da Estrela" como o fez o presidente da Câmara da Covilhã (ver aqui). Viabilizar intenções de investimento, facilitar a execução de protocolos ou proteger classificações de zonas turísticas não serão, propriamente, as funções prioritárias do PNSE, pois não? Não foi para isso que se criou o parque, nem terão sido essas questões que levaram a Comissão Europeia a definir a Reserva Biogenética da Serra da Estrela, parece-me...
  • também não me parece justo criticar o PNSE por não compreender como é "importante que os projectos de investimento não esbarrem em impedimentos ambientais", como faz o presidente da Região de Turismo da Serra da Estrela (ver o suplemento Local (Centro) do Público de 31 de Março de 2006). Ao fim e ao cabo, uma das obrigações do PNSE é exactamente a de "esbarrar" com certos projectos de investimento, exactamente tendo em atenção critérios ambientais, não é?
Não é por estas razões ou outras do mesmo calibre que eu quero hoje criticar o PNSE.

Porque é, então?

  • Porque, passados trinta anos da sua criação, não se verificaram, aparentemente, quaisquer progressos na reintrodução de espécies extintas, nomeadamente grandes mamíferos como o lobo ou a cabra montês.
  • Porque não tem conseguido "esbarrar" o suficiente com as urbanizações selvagens que diferentes poderes têm considerado indispensáveis (assim afirmam, mas suspeito que as verdadeiras motivações são outras) para o desenvolvimento da Serra.
  • Porque não tem conseguido impedir a contínua asfaltação, ano após ano, de estradas florestais, trilhos de pé-posto e a abertura de trajectos totalmente novos, de forma desordenada, arbitrária e irracional.
  • Por não conseguir (se é que tenta, sequer) convencer as autarquias e a Turistrela a terem um papel activo na defesa da paisagem e do ambiente da Serra, por exemplo, propondo um sistema de transportes rodoviários colectivos para os dias de maior confusão (decerto infinitamente mais barato e fácil de implementar do que a maluquice das telecabines) ou uma efectiva requalificação do espaço da Torre, atalhando por onde se verificam os problemas mais graves, que são a autêntica lixeira em que a área está transformada e aberração arquitectónica das torres dos radares.
Quero destacar as seguintes críticas que tenho a fazer ao PNSE porque me parecem especiamente sérias. Acuso o parque de ser conivente (por omissão) com a difusão da imagem de "força do bloqueio" que dele têm os protagonistas locais, desde os presidentes de junta de freguesia até ao presidente da RTSE, desde os fala-baratos de café até aos opinion-makers dos jornais regionais. Critico-o por não conseguir convencer as populações do que têm a ganhar com uma serra com um ambiente protegido e uma paisagem intacta na sua beleza.
Enquanto algum responsável puder (como agora) afirmar publicamente, sem se tornar alvo da chacota generalizada, que as estradas Unhais - Nave de Sto António e Lagoa Comprida - Portela do Arão são necessárias para resolver o problema dos engarrafamentos na Serra, há um trabalho pedagógico que é necessário e urgente levar a cabo. Esse trabalho, parece-me, não devia caber só ao PNSE, mas este organismo deve ser o principal interessado em vê-lo iniciado.

Resumindo: critico o PNSE por não ter conseguido cumprir as funções para que foi criado, ou seja, por não ser suficiente merecedor das críticas de que é alvo por parte dos que mais frequentemente se têm ouvido a atacá-lo.

Algarvear a Serra da Estrela? Não, obrigado!